A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo quatro Tolos por Cristo



Baixar 0.6 Mb.
Página5/14
Encontro29.07.2016
Tamanho0.6 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   14

Capítulo quatro

Tolos por Cristo


Por acaso a frase "o cristão está no mundo, mas não é do mundo" corresponde à realidade em que você vive? Uma das coisas engraçadas sobre a realidade é sua robusta resistência a teorias, abstrações e ideais. O provérbio "é melhor prevenir do que remediar" não trata da procrastinação, tampouco a sabedoria do "um centavo economizado é um centavo ganho" enfoca a realidade diária do comprador compulsivo.

Estar "no mundo sem ser do mundo" implica o cristão não ser influenciado nem intimidado pelos valores da cultura ocidental. Não é uma proposição absurda? Quer gostemos disso quer não, o mero fato de fazermos parte da sociedade ocidental nos aprisiona a um conjunto de princípios políticos, econômicos, sociais e espirituais que moldam nosso estilo de vida, até mesmo quando não os endossamos. Muitos anos atrás, a primeira página do jornal The New York Times mostrava a foto de uma garota vietnamita de nove anos correndo em nossa direção, a carne incendiada por napalm. Alguns anos depois, os jornais publicaram a foto de uma garota líbia de sete anos arrastando-se na direção de um abrigo da Cruz Vermelha, com os dois pés amputados por uma de nossas bombas "de precisão". Podemos chorar vendo essas coisas, mas nossos impostos compram as armas que as ocasionam. Estou comprometido pelo fato de que uma de minhas razões para escrever este livro é ganhar dinheiro. Não gosto disso. Mas estou preso à nossa cultura e sou cultivado por ela.

Uma crítica de nossa cultura, à luz do evangelho, é imperativa, se a Igreja de Jesus Cristo pretende preservar um senso coerente de si mesma num mundo despedaçado e despedaçante. Criticar o sistema do capitalismo tecnológico ocidental não é nem antipatriótico nem antiamericano, pois como observou Walter Wink, professor de interpretação bíblica do Seminário Teológico Auburn, na cidade de Nova York: "Não temos como ministrar à alma da América a não ser que amemos a sua alma".33 Um patriotismo corrigido é indispensável para a sobrevivência da nação bem como da Igreja. Políticas e atitudes nacionais mudam apenas porque as pessoas amam seu país.

Vejo três áreas em que o sonho americano é contra-evangélico — isto é, está em direta oposição à mensagem de Jesus e a uma vida endossada com a assinatura de Jesus. Nossa cultura, conforme observou John Kavanaugh, "encoraja e sustenta um deus funcional trinitário de consumismo, hedonismo e nacionalismo. Feitos à imagem e semelhança desse deus, entregamos nossa vida ao materialismo, ao prazer e à dominação".34

A não ser que a Igreja do Senhor Jesus crie uma contracorrente na maré de materialismo, auto-indulgência e nacionalismo, os cristãos estarão meramente adaptando-se ao ambiente secular numa trágica distorção do evangelho, em que as palavras de Jesus são reinterpretadas de modo a significarem qualquer coisa, tudo e nada.

Uma escola de pensamento, por exemplo, nos assegura de que o Novo Testamento está repleto de exageros orientais, que Jesus nunca tencionou que vivêssemos o evangelho literalmente — e que meramente projetamos nossa mentalidade mecanicista ocidental nos padrões poéticos e semíticos de Cristo. Afinal de contas, não é possível ter uma trave no olho! E o que dizer da imagem impossível de Mateus 19:24: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus"? Tal linguagem não é apenas impossível, mas ofensiva. Veja todo o bem que o dinheiro pode fazer! Mesmo os empreendimentos cristãos precisam de financiamento. E aquelas imagens de uma mulher em trabalho de parto encontradas em João, e o esvaziar de intestinos em Marcos — é linguagem forte demais. E mais prudente tornar essas perigosas máximas inofensivas. Derrame-se o máximo de água possível no vinho ardente de Cristo.

Tais reducionismos diluem as exigências radicais de discipulado, de modo que Jesus é freqüentemente honrado hoje em dia pelo que ele não queria dizer, e não pelo que de fato quis dizer. Uma propaganda cultural irrefletida e acrítica torna-se mais persuasiva do que os ditos de Jesus sobre o que é real, verdadeiro, bom e de valor permanente.

As convocações de Jesus à simplicidade da vida jazem, na verdade, em oposição diametral ao consumismo de nossa cultura. Num artigo, a revista People citou Charlie Sheen, astro dos filmes ganhadores do Oscar Wall Street e Platoon, dizendo: "Dinheiro é energia, cara". O artigo observa que no sofá do andar inferior do apartamento de Sheen há cinco controles remotos que correspondem a diversos equipamentos de áudio e vídeo. No andar de cima, ele tem um escritório equipado com o computador mais moderno e aparelhos de musculação. "Sou a definição da decadência", afirma Sheen.

A revista Time dedicou num artigo aos viciados em consumo. Um homem explicou que não tinha tempo para gastar fazendo escolhas, por isso comprou vinte pares de sapato na Bloomingdale's. "Possuir é a idéia da coisa toda. Gosto de ver as coisas ao redor de mim como um manto protetor".

A revista Newsweek trouxe uma reportagem sobre a formação das consumidores de amanhã. "As fábricas de brinquedos e estúdios de animação constroem shows infantis inteiros ao redor de linhas planejadas ou existentes de brinquedos. Os programas tornam-se, na prática, pouco mais do que comerciais de meia hora para bonecos de brinquedo."

O incansável bombardeio da mídia sobre as crianças para que comprem, desejem e consumam levou Thomas Merton a escrever:
A criança de hoje pode ter muito cedo em sua existência uma inclinação natural à espiritualidade. Pode ter imaginação, originalidade, uma resposta simples e individual à realidade, e até mesmo uma tendência a momentos de absorção e meditativo silêncio. Todas essas tendências, no entanto, são logo destruídas pela cultura dominante. A criança torna-se um monstrinho gritão, insolente e falso, empunhando uma arma de brinquedo ou vestida como uma personagem que viu na televisão. Sua cabeça está cheia de estúpidos slogans, canções, ruídos, explosões, estatísticas, marcas, ameaças, grosserias e clichês. Então, quando vai para a escola, a criança aprende a verbalizar, racionalizar, marcar passo, fazer caretas como num comercial, a precisar de um carme, em resumo, sair pela vida com a cabeça vazia conformada a outros iguais a ela, na sensação de estarem juntos.35
Somos programados para ser consumidores. Em Nova Orleans, depois do colapso do negócio do gás e do petróleo, estamos nas garras de uma profunda recessão há anos. Ainda assim, quando um novo e multimilionário complexo de compras, chamado Riverwalk, abriu entre fanfarras e celebridades, fomos inundados com comerciais de rádio e televisão, outdoors nas rodovias e panfletos na porta de casa, insistindo que levássemos nossos talões de cheques e cartões de crédito à cerimônia de gala da inauguração. Mesmo em dificuldades financeiras, somos pressionados por nossa cultura a consumir. E nossa identidade.

As pesquisas revelam que ganhar dinheiro tornou-se a aspiração dominante dos estudantes que entram na faculdade. Numa pesquisa realizada com dez mil estudantes do ensino médio de New Jersey, 89% queriam ganhar muito dinheiro, enquanto 11% queriam posições de poder. Nenhum queria ser santo.

A insistência de Jesus num modo de vida simples é antiamericana. A aceitação do estilo de vida do evangelho implicaria um desastre para o mundo dos negócios. Anos atrás tive a oportunidade de visitar Wall Street. Por três dias observei o frenesi do pit (onde as ações são negociadas) e da bolsa de commodities, onde acotovelar, empurrar e recorrer a manobras de manipulação são etiqueta sancionada. Embora haja muitos grupos de oração na área de Wall Street, onde homens e mulheres de negócios cristãos tentam associar a Palavra ao mercado, saí com a impressão de que a busca da riqueza é estimada como o bem supremo da vida.

Somos um povo de Deus no mundo, mas não do mundo? Ou somos mais capitalistas do que cristãos? Nossa cultura prega com blasfêmia que o resultado líquido é realmente a última linha. Ministérios cristãos são avaliados pelo tamanho de seus orçamentos. A aposentadoria é discutida com apreensão em termos financeiros. A riqueza nos sensibiliza. Dispomo-nos a enormes esforços a fim de impressionar favoravelmente os endinheirados e prósperos. O valor de uma pessoa é medido pelos dólares que ela gera. O dinheiro assume dimensão espiritual. A estatura na comunidade é determinada pelo tamanho e pela localização da casa, a qualidade do automóvel e uma hoste de quinquilharias, engenhocas e confortos materiais acumulados.

O evangelho da prosperidade é apenas uma das pobres tentativas de acomodar os ditos de Jesus à nossa cultura de consumo. As palavras de Jesus: "Não acumuleis tesouros na terra"; "Não vos preocupeis com o dia de amanhã"; "Não podeis servir a Deus e a Mamon" — parecem esdrúxulas à maioria de nós, que luta para cobrir as prestações do financiamento da casa própria, do carro e da escola. A propaganda cultural incorporada em dois anúncios de bebidas alcoólicas: "Viver bem é a melhor vingança" e "Sorva com arrogância" tem um apelo curioso, talvez demoníaco. O consumismo tem de fato sua própria espiritualidade.

Talvez a dimensão mais obscura da acumulação de riqueza seja a exploração de mão-de-obra barata a fim de produzir os bens supérfluos aos quais nos habituamos. Se você tomou uma xícara de café hoje de manhã, como eu, participou disto: "Na África é impossível para um jovem saudável ganhar mais do que um dólar e meio por dia colhendo café. Não é de admirar que mulheres e crianças sejam forçadas a juntar-se à colheita".36 Se pagássemos aos colhedores da Africa oriental o salário-mínimo americano, não teríamos recursos para o luxo de tomar café.

Sejamos ousados o bastante para nos perguntarmos, como cristãos, se a Igreja do Senhor Jesus tem algo a dizer à nossa nação com suas ideologias de materialismo, consumismo e adoração da segurança financeira. Somos corajosos o bastante para ser um sinal de contradição ao consumismo por nossa fé viva em Jesus Cristo? Estamos comprometidos o bastante com esse evangelho de modo a nos tornarmos uma corrente contrária à maré dominante? Ou estamos tão acomodados à fé de nossos pais ao consumo que as questões da simplicidade de vida, de compartilhamento de recursos e de radical dependência da providência de Deus não mais nos parecem relevantes? De que forma construímos o reino de Deus na terra se o que encarnamos em nossa vida é o dogma de nossa cultura em vez da revelação de Jesus? Onde está a assinatura de Jesus?

A segunda área em que a cultura americana se opõe ao evangelho é na questão do hedonismo versus pureza de coração. Slash, guitarrista-solo da banda de rock Guns N' Roses, afirmou: "Estamos muitos próximos dos garotos para os quais tocamos. O rock'n roll para mim é isso, uma espécie de coisa rebelde, fugir das figuras de autoridade, transar, ficar bêbado, experimentar drogas em algum momento".

Há alguns anos, uma estação de rádio de San Antonio perguntou a jovens fãs o que elas fariam para conhecer uma banda de rock chamada Motley Crüe. Uma garota de treze anos disse: "Eu transaria com o Crüe até não poder mais..,".

Um analista de mídia observou que telespectadores vêem maior incidência de intercurso sexual entre estranhos do que entre pessoas casadas.37

O estudioso da Bíblia John McKenzie afirmou: "A base da civilização ocidental é o acúmulo de riquezas por meio da exploração da natureza".38 E isso inclui a natureza humana. As músicas mais tocadas hoje em dia promovem um hedonismo em que a promiscuidade é a norma. O sucesso de marketing torna tudo aceitável, até mesmo distribuir preservativos para aventuras de uma noite só a adolescentes vulneráveis. O tremendo poder do dinheiro de legitimar a imoralidade sexual em nossa cultura semeia ambigüidade e confusão nos freqüentadores de igreja como em todos os outros.

Dizem-me, como com certeza já disseram a você, que estou vivendo na Idade da Pedra quando sugiro que a promiscuidade ou a infidelidade conjugal é inaceitável na vida de um discípulo de Jesus Cristo. Se você proclamar com Paulo que o corpo é para o Senhor e o Senhor para o corpo, que você não é propriedade sua, que foi comprado e pago com o sangue de Cristo, que seu corpo é o templo do Espírito Santo, estará sujeito a zombaria e desdém. "Em nosso encontro anual de acionistas em Las Vegas", disse-me um executivo, "o comportamento sexual dos cristãos não é diferente do comportamento dos descrentes. E por que não? Todo mundo se diverte e ninguém sai machucado".

A terceira área da cultura americana em conflito com o evangelho é a dominação pela violência. Em seu discurso inaugural, o Sermão do Monte, Jesus declarou: "Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus" (Mt 5:9). A questão da paz num mundo violento é de tamanha importância que ninguém que leva a sério a fé cristã pode dar-se ao luxo de esquivar-se dela. Não estou sugerindo que você precisa nadar até o submarino Trident levando uma bandeira entre os dentes, mas é necessário tomar uma posição séria e articulada sobre a guerra nuclear. E estou dizendo contra a guerra nuclear. A passividade e a indiferença de muitos cristãos sobre o assunto e, pior ainda, a beligerância ativa de alguns de nossos porta-vozes religiosos, estão se tornando um dos mais apavorantes escândalos da história da cristandade. A Igreja deve proclamar que a civilização ocidental "escapará do horror último apenas observando a pessoa e as palavras de Jesus Cristo. Como Paulo, isso é tudo que temos a dizer; então, pelo amor de Cristo, vamos dizê-lo".39

"O colunista Jeffrey Hart sugeriu que o presidente faça um discurso em que o parágrafo de conclusão seja: 'No futuro, e por princípio, garantimos que retaliaremos pela morte ou pelo ferimento de um cidadão americano na razão de 500 por 1. Enquanto estou falando com vocês, recebi a notícia de que quinze vilas xiitas e seus habitantes não mais existem'".40

Jeffrey Hart é cristão. Acho suas palavras profundamente inquietantes. Somos uma nação que se considera um povo de fé, mas que vive em desobediência à vontade de Deus. E esse espírito vingativo, tão contrário ao evangelho, que me traz à lembrança a famosa Oração de guerra de Mark Twain, na qual ele atacou a hipocrisia dos cristãos:
O Senhor, nosso Pai: nossos jovens patriotas, ídolos de nosso coração, avançam para a batalha — estejas tu junto a eles! Com eles, em espírito, nós também avançamos da doce paz de nossos amados lares a fim de abater o inimigo! Senhor, nosso Deus, ajuda-nos a estilhaçar os soldados deles em retalhos sangrentos com nossos projéteis; ajuda-nos a cobrir seus campos sorridentes com as formas pálidas de seus patriotas mortos; ajuda-nos a afogar o trovão de suas armas com os brados de seus feridos, contorcendo-se de dor; ajuda-nos a devastar suas casas humildes com um ciclone de fogo; ajuda-nos a apertar o coração de suas viúvas inocentes [e deixar a elas e] a seus filhos perambulando, sem ter quem os ame, a destruição de sua terra desolada, em trapos, com fome e sede, vulneráveis às chamas do sol do verão e aos ventos gelados do inverno, quebrantados de espírito, exaustos com a labuta, implorando a ti pelo refugio da sepultura e tendo-o negado — por nós que te adoramos, Senhor, destrói as esperanças deles, arruina sua vida, prolonga sua amarga peregrinação, faz pesados seus passos, faze-os regar seu caminho com lágrimas, mancha a neve branca com o sangue de seus pés! Nós o pedimos, no espírito do amor, daquele que é a fonte do amor, e que é refúgio e amigo sempre fiel de todos que estão gravemente assediados e buscam seu auxílio com coração humilde e contrito. Amem.41
Como na época de Twain, continuamos confundindo fé nacionalizada com fidelidade a Jesus Cristo. Nacionalismo exacerbado e cristianismo tornam-se sinônimos, na crença de que Deus está satisfeito com nossa terra, subordina-se a ela, toma o partido dela e identifica-se particularmente com ela. Esse é o raciocínio por trás da destruição atômica de Hiroshima e Nagasaki, que vaporizou duzentos mil civis não-combatentes a fim de "salvar vidas americanas".

"A disposição da maioria dos americanos em aceitar a bomba nuclear, com tudo que ela implica, com não mais do que uma sombra de protesto teórico, é quase inacreditável, e ainda assim tornou-se tão lugar-comum que ninguém mais reflete sobre o assunto."42 A sabedoria pragmática da "autodefesa" e da "segurança nacional" mascara nossas fantasias infantis de vingança, em que podemos devastar o inimigo de modo que não reste nenhuma possibilidade de retaliação. Nossos Clint Eastwoods, nossos justiceiros de metrô povoam nossos sonhos, nossas orações e ilusões. Um cristão no mundo, mas não do mundo?

Ernest Becker, no livro Escape from Evil, observou que um dos modos pelo qual escapamos do mal é projetando-o no outro. Tornamo-nos assim uma nação implacável que derruba governos estrangeiros a torto e a direito por razões "boas e nobres". O método utilizado para estabelecer a dominação não é a reverência, mas a violência. "E embora louvemos a Jesus da boca para fora, prestamos todo tipo de culto a César e Marte [o deus ca guerra]".43

O espírito da dominação pela força é irreconciliável com a obediência ao evangelho de Jesus Cristo. Os cristãos têm apenas um mestre. Segui-lo é incompatível com nosso estado de servidão a qualquer outro. Jesus formulou seu ensino numa linguagem que uma criança de doze anos de idade pode entender. Ele disse inequivocamente: benditos são os que promovem a paz, não a guerra. A questão da produção, da posse e do uso de armas nucleares deve ser discutida sob o ponto de vista de nossa identidade cristã, não de segurança nacional, da ameaça iraquiana, de salvaguardar nosso estilo de vida. A corrida armamentista não é esporte político, mas uma questão espiritual profunda. Assassinato em massa em nome da democracia ou do patriotismo é idolatria da nação-estado. A função profética e a obrigação pastoral da Igreja de Jesus Cristo — um povo chamado conjuntamente, colocado à pane e consagrado à adoração de Deus — é proclamar a paz e o amor de Deus na presente situação de nosso mundo quebrantado e atormentado.

Chamar os pacifistas de "corações moles", "idealistas" e "bons samaritanos" em tom de superioridade indica uma não reconhecida alienação do evangelho. Quando os cristãos serão honestos o bastante para admitir que não crêem em Jesus Cristo? Que o carpinteiro de Nazaré deve ser dispensado como um visionário romântico, um reformador deslumbrado irremediavelmente alheio ao mundo "real" de dominação, agressão e poder? Apenas quando se derem conta de que abraçaram a própria cultura como seu falso deus!

Se é para homens e mulheres cristãos viverem o evangelho hoje, na cultura americana pos-industrial, se é para estar no mundo sem ser do mundo, devemos estar dispostos a assumir responsabilidade pessoal pelas maneiras com que nossa fé tem sido acomodada ao materialismo, ao prazer e à dominação. E devemos estar dispostos a nos arrependermos, a nos corrigirmos e a ser restaurados.

A Igreja é a extensão viva de Jesus Cristo no tempo e no espaço. É a contracorrente à maré de idolatria cultural. A Igreja na sociedade de hoje é, necessariamente, uma comunidade de resistência aos deuses da vida moderna — armamento nuclear, dinheiro, ego, virilidade, racismo, orgulho de posição. Somos o povo peregrino de Deus sem cidade definitiva na terra, uma comunidade de homens e mulheres livres cuja liberdade não está limitada pelas fronteiras de um mundo que está, ele sim, acorrentado.

Albert Camus certa vez disse: "O único modo de se lidar com um mundo não-livre é tornar-se tão absolutamente livre que nossa mera existência se torne um ato de rebelião". Não há nada mais enervante para o mundo do que um homem ou uma mulher livres em Cristo Jesus. As pessoas não devem olhar para a Igreja para reforçar os valores de sua cultura, ou para tirar aos domingos a poeira dos ídolos para os quais estiveram vivendo durante a semana.

A igreja primitiva foi construída sobre pequenos grupos de pessoas que se reuniram a fim de dar apoio umas às outras num modo inteiramente novo de vida. Essas comunidades primitivas eram a evidência visível de uma alternativa ao status quo de sua cultura. Hoje em dia precisamos de pequenos grupos que tomem o evangelho ao pé da letra, que percebam o que Deus está fazendo em nosso tempo, e que sejam prova viva do que é estar no mundo sem ser do mundo. Essas comunidades "de grupos", ou igrejas locais, devem ser suficientemente pequenas para intimidade, semelhantes para aceitação e gentis para críticas. Reunida em nome de Jesus, a comunidade capacita-nos a encarnar em nossa vida o que cremos em nosso coração e proclamamos com nossos lábios.

É claro que não devemos romantizar tais grupos. E fácil visualizar uma pequena comunidade aconchegante e harmoniosa onde todos estão sintonizados na mesma onda; é fácil amar o sonho de comunidade mais do que os membros marcados pelo pecado que a compõem, fantasiar feitos heróicos para o Senhor e ouvir o aplauso da terra e do céu enquanto damos forma a uma angélica koinonia.

A realidade não é assim. Egos colidem, personalidades entram em conflito, intermediários de poder invadem, ira e ressentimento vêm à tona, o risco é inevitável. "É menos uma utopia do que um crisol no fogo do refinador".44

A experiência da comunidade não é nem um item supérfluo para os espiritualmente afluentes nem uma panaceia para os solitários, entediados e ociosos. É, de fato, uma necessidade para todo cristão. E minha convicção que Jesus e Paulo queriam dizer isso quando falavam de igreja — pequenas comunidades cristãs de pessoas orando e adorando juntas, curando, perdoando, reconciliando, apoiando, desafiando e encorajando umas às outras. Scott Peck diz: "Não pode haver vulnerabilidade sem risco; não pode haver comunidade sem vulnerabilidade; não pode haver paz — nem, em última instância, vida — sem comunidade".13

Precisamos de um grupo de pessoas ao redor de nós que nos dê apoio e nos compreenda. Até mesmo Jesus precisou disso. Ele chamava-o de "os Doze", a primeira comunidade cristã. Precisamos de perspectiva do presente, por isso oramos juntos; precisamos ser responsáveis, por isso compartilhamos nossa vida uns com os outros; precisamos de uma visão do futuro, por isso sonhamos juntos.

E nossos sonhos não são meramente pensamento positivo; ao contrário, estão carregados de esperança e promessa porque o Jesus crucificado e ressurreto venceu todo principado, potestade e domínio. Ele desmascarou as ilusões deles, expôs suas mentiras, mostrou o que de fato eles são. O Cristo ressurreto eleva-se livre das ameaças e do controle deles. Em união com ele vencemos o consumismo, o hedonismo e o nacionalismo pelo poder do amor de Deus. Confrontamos os poderes do mundo — a tirania política, a opressão econômica, a ameaça nuclear — não meramente com nossa força, recursos e resistência, mas com a própria vida do Cristo ressurreto, sabendo que as coisas impossíveis para os homens são possíveis para Deus (cf. Lc 18:27).

Naturalmente o estilo de vida contracultural — simplicidade de vida, pureza de coração e obediência ao evangelho — nos levará ao mesmo lugar a que levou Jesus: a cruz. Todas as estradas levam ao Calvário para nós que pregamos o Cristo crucificado — pedra de tropeço para os judeus, absurdo para os gentios; mas para os que são chamados, Cristo, poder e sabedoria de Deus.

Simplicidade, pureza e obediência à Palavra nos deixarão fracos e desamparados aos olhos do mundo, porque não teremos mais a segurança de depender de nossas posses e posições privilegiadas. Estaremos sujeitos à zombaria e ultraje porque o discipulado autêntico é uma vida de sublime loucura. Injúria e insulto estão prometidos aos que trabalham em favor da justiça. A palavra de Paulo aos gálatas é completa insensatez na cultura americana: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo" (Gl 6:14).

Um cristão vivendo no mundo sem ser do mundo é um sinal de contradição às concessões com as quais se conformam muitos dentro da igreja. Esforços serão feitos para que o discípulo de Jesus seja visto e se sinta como um tolo. Porém tolos por Cristo formaram a igreja primitiva. E à medida que aquele minúsculo grupo de crentes crescia, o mundo testemunhava o poder dessa tolice.

"Essa mesma insensatez é a única esperança que temos de libertação. A maior ameaça a qualquer sistema é a existência de tolos que não acreditam na realidade última desse sistema. Arrepender-se e crer numa nova realidade — é essa a essência da conversão."45 Juntamo-nos à Igreja, cujo propósito é tornar visível essa realidade no mundo.

Os verdadeiros discípulos vêem o cristianismo como meio de vida tanto diante quanto longe da lente das câmeras. Obviamente a perspectiva não parecerá atraente a todos. As fileiras da membresia da igreja diminuirão. Por serem diferentes, os cristãos parecerão diferentes e agirão de forma diferente das outras pessoas. O nome de Jesus não será mais tomado casualmente nem os mistérios cristãos profanados. Os escândalos que abalaram recentemente o corpo de Cristo serão vistos em perspectiva como "uma alvorada de purificação" anunciando a luz do dia da fé vivida no Deus vivo.

A manhã de Páscoa confirmou o caminho de Jesus e validou a autoridade de seu senhorio. O Mestre disse-nos para não subestimarmos o poder de nossa cultura. Nosso mundo, cheio de incrível insensatez, insistirá que somos tolos. Porém a Páscoa nos convence da sabedoria de Deus e de seu poder para transformar o mundo. Nossa fé no Cristo ressurreto é o poder que vence a nós mesmos, nossa cultura e nosso mundo.

Nas palavras de Paulo em Romanos 12:2: "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus".



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   14


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal