A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo seis Espiritualidade pascal



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Capítulo seis

Espiritualidade pascal


William Bausch conta a seguinte história:
Um velho pregador do interior do Mississippi cria no fundo de seu ser que a Palavra de Deus é espada de dois gumes. Certa manhã ele subiu ao púlpito e disse: "Ah, Senhor, dá a teu servo esta manhã os olhos da águia e a sabedoria da coruja; conecta sua alma ao telefone do evangelho na central dos céus; ilumina sua fronte com o sol do Paraíso; faze que sua alma seja possuída de amor pelas pessoas; destila sua imaginação; unge seus lábios com óleo de sarigüê; eletrifica o cérebro de teu servo com o relâmpago da Palavra; coloca moto-perpétuo em seus braços; enche-o até a boca com a dinamite de tua glória; unge-o da cabeça aos pés com o querosene da salvação e ateia fogo nele. Amém!".53
Amém, de fato! Jesus não veio trazer a paz mas a espada; não camisolas, mas a armadura de Deus. O reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder, fonte de transformação e informação. A vida espiritual é simplesmente a vida vivida com a visão da fé. Qualquer espiritualidade que reivindique para si o nome de cristã deve ressoar com a vida e o ensino do Mestre.

Os escritos do Novo Testamento estabelecem as características essenciais da igreja primitiva. O que é central no Novo Testamento deve ser central na vida da igreja em nossos dias. Tudo o que seja periférico no Novo Testamento não deve ser transformado em central em nossos dias (portanto, qualquer preocupação com o dom de línguas, por exemplo, está concedendo peso indevido a uma questão marginal).

Jesus Cristo, no mistério de sua morte e ressurreição, é o centro do Novo Testamento, da genealogia de Mateus ao maranata de Apocalipse. Sua passagem da morte para a vida — pesach em hebraico, "páscoa" em português — é o cerne da proclamação do evangelho e de toda a fé cristã. Portanto pode se afirmar inequivocamente: compreender o mistério pascal é compreender o cristianismo; ignorar o mistério pascal é ser ignorante do cristianismo.

Há uma única espiritualidade na igreja do Senhor Jesus: a espiritualidade pascal. Essencialmente, é nossa morte diária para o pecado, o egoísmo, a desonestidade e o amor degradado a fim de nos alçarmos à novidade de vida. Paulo afirma: "Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2:20). Cada vez que desfechamos um golpe mortal no ego, a páscoa de Jesus é traçada em nossa carne. Cada vez que escolhemos caminhar aquela milha adicional, por oferecer a outra face, abraçar em vez de rejeitar, somos compassivos em vez de competitivos, beijamos em vez de morder, perdoamos e nos abstemos de massagear a contusão mais recente de nosso ego ferido, estamos passando da morte para a vida.

A palavra bíblica para conversão é metanoia, que significa "transformação radical do eu interior". Descobrimos que um relacionamento pessoal com Jesus Cristo não pode mais ser contido num código de permissões e proibições. Ele se toma como escreveu Jeremias, uma aliança escrita nas tábuas de carne do coração e gravada no mais profundo de nosso ser. A conversão nos abre para uma nova agenda, novas prioridades, uma diferente hierarquia de valores. Ela nos faz migrar de professar Jesus como Salvador a confessá-lo como Senhor, de uma descuidada acomodação de fé em nossa cultura a uma fé vivida na verdade consumidora do evangelho. Ela destila nossa imaginação, eletrifica nosso cérebro com o relâmpago da Palavra, enche-nos até a boca com a dinamite de sua glória, unge-nos da cabeça aos pés com o querosene da salvação e ateia fogo em nós.
O oposto de conversão é aversão. O outro lado da metanóia é paranóia. A paranóia é geralmente compreendida no sentido psicológico. É caracterizada por medo, suspeita e fuga da realidade. A paranóia resulta comumente em elaboradas alucinações e auto-ilusão. No contexto bíblico, a paranóia implica mais do que desequilíbrio emocional ou mental. Ela se refere a uma atitude de ser, uma postura do coração. A paranóia espiritual é uma fuga de Deus e de nosso verdadeiro eu. É uma tentativa de escapar da responsabilidade pessoal. É a tendência de evitar a o custo do discipulado e buscar uma rota de fuga das exigências do evangelho. A paranóia de espírito é uma tentativa de negar a realidade de Jesus de tal modo que racionalizamos nosso comportamento e escolhemos o próprio caminho.54
Cada um de nós vive uma tensão entre metanóia e paranóia. Caminhamos na crista estreita entre fidelidade e traição. Nenhum de nós está imune à sedução de um discipulado falsificado. Um evangelho diluído nos permite experimentar o melhor de dois mundos, uma vida de mediocridade dourada na qual nos dividimos de forma cuidadosa entre carne e espírito, mantendo os olhos atentos em ambos. O evangelho da graça barata dilui a fé numa mistura morna de Bíblia, nacionalismo e concessão — uma espiritualidade que não traz nenhuma semelhança com o mistério pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Quais são as características da espiritualidade pascal? Há sete.

Em primeiro lugar, a espiritualidade pascal é cristocêntrica, ou seja, é por meio de Cristo, com Cristo e em Cristo. Isso talvez pareça tão óbvio que dificilmente mereceria nossa atenção. Mas a história cristã, tanto passada quanto presente, é a narrativa em andamento de uma trágica distorção de fé em que Cristo deixa de ser o centro da vida cristã. No passado, certas práticas devocionais foram recebendo tamanha atenção em pensamento e ensino que a devoção direta à pessoa de Jesus Cristo, na igreja e por meio da igreja, assumiu um lugar secundário. Em outros círculos cristãos, a tendência a "absolutizar" algumas partes do Novo Testamento (por exemplo, At 1—3 e ICo 12—14) tem colocado ênfase nas experiências religiosas de pico e nos dons espetaculares do Espírito — resultando no fato de que o mistério da morte e ressurreição tem sido relegado à margem da fé e prática cristã.

Em anos recentes, a preocupação com estilos de adoração — tradicional ou renovado, órgão ou guitarra, hinos ou cânticos, incenso ou balões, orações recitadas ou espontâneas, traduções novas e antigas da Bíblia — tem tirado do centro das atenções o drama central do Calvário e da manhã de Páscoa. O estilo eclipsa a substância, a forma transcende o conteúdo, a igreja suplanta Jesus. Conforme observado anteriormente, o modo de pensar da direita cristã é o novo padrão para se determinar o que alguém vale aos olhos de Deus e de todos os demais.

Acima dessa bulha, o Pai brada: "Você vai à igreja todo domingo e lê a Bíblia, mas o corpo de meu Filho está partido! Você memoriza verso e capítulo e honra todas as tradições, mas o corpo de meu Filho está partido! Você recita o credo e defende a ortodoxia, mas o corpo de meu Filho está partido! Você se remete de volta à tradição e progride em direção a um renovo, mas o corpo de meu Filho está partido!".

Neste ponto da história da igreja, creio ser pertinente lembrar que o Cristo do evangelho de João fez a Pedro (que o negara três vezes) apenas uma pergunta: "Você me ama?". O critério pelo qual Cristo mede seus amigos e os que o rejeitam é ainda: "Você me ama?". De que adiantam o estudo bíblico, a reforma pessoal e a renovação, se esquecemos disso, mesmo que nos apeguemos a todo o resto? Como pode alguém reunir a inacreditável dureza de coração e o destemperado zelo messiânico necessários para inflar o estilo e a tradição, a ortodoxia, a interpretação bíblica e a crença correta a ponto de transformá-los em tamanhos monstros que a pergunta de Jesus a Pedro e a nós seja guardada na estante?

O autor do quarto evangelho propõe uma única pergunta a seus leitores: conhecemos por acaso Jesus? Conhecê-lo é vida. Tudo o mais se desvanece em crepúsculo e escuridão. Para o evangelista João, o que estabelece a dignidade na comunidade cristã não é apostolado ou função, títulos, dons de profecia ou cura ou pregação inspirada, mas apenas a intimidade com Jesus. Esse é o status do qual desfrutam todos os cristãos.

Para nossa igreja contemporânea, que trata os líderes administrativos e superastros carismáticos com deferência excessiva, o evangelho de João envia esta palavra profética: apenas o amor de Jesus Cristo confere status na comunidade cristã. Em seu poderoso livro pastoral The Churches the Apostles Left Behind [A igreja que os apóstolos deixaram para trás], Raymond Brown escreve:


Todos os cristãos são discípulos, e entre eles a grandeza é determinada por um relacionamento amoroso com Jesus, não por função ou cargo. Cargos eclesiásticos e até mesmo o apostolado são de menor importância quando comparados ao discipulado, que é literalmente questão de vida ou morte. Dentro desse discipulado não há cristãos de segunda classe.55
O impulso da espiritualidade pascal é cristocêntrica. Ela nunca perde de vista a pergunta: "Você me ama?" nem tenta superar o Mestre. Mesmo se tudo está em confusão, nada está arruinado de forma definitiva enquanto os discípulos ainda o seguem, apegam-se a ele, aprendem com ele, amam-no.

Uns poucos anos atrás um prisioneiro branco morreu de ataque cardíaco em Montgomery, no Alabama. Na prisão ele tivera uma profunda experiência de conversão e entrara num relacionamento autêntico com Jesus. O presidiário da cela ao lado, um negro imenso, era célico. Toda noite o prisioneiro branco falava por entre as barras da prisão a seu companheiro sobre o amor de Jesus. O negro zombava dele, dizia que estava doente da cabeça, que a religião era o último refugio dos insanos. Apesar disso o prisioneiro branco citava-lhe passagens da Escritura e repartia com ele os doces que recebia de algum parente. Durante o funeral do homem branco, quando o capelão falou sobre a vitória de Jesus na Páscoa, o robusto prisioneiro negro ficou de pé no meio do sermão, apontou para o caixão e disse: — Esse é o único Jesus que eu conheci.

A espiritualidade pascal afirma que, se nossa jornada cristã não produz Cristo em nós, se a passagem dos anos não forma Jesus de tal modo que nos tomemos realmente semelhantes a ele, nossa espiritualidade está falida.

A segunda característica da espiritualidade pascal é o fato de que ela tem consciência da comunidade do povo de Deus. Pertencemos ao povo de Deus. O cristianismo não pode jamais ser um assunto que abarca simplesmente nossa felicidade individual. A espiritualidade pascal evita toda forma exagerada de individualismo cristão — a mentalidade de "Jesus e eu". Deus não nos chamou à salvação em isolamento mas em comunidade. Nosso destino pessoal é parte do seu prodigioso plano de salvação, que inclui em seu bojo não apenas a comunidade humana por inteiro, mas toda a criação, a inauguração do novo céu e da nova terra.

A mentalidade Jesus-e-eu nos diz que só precisamos aceitar Jesus como Salvador, ler a Bíblia, ir à igreja e salvar nossa alma. O cristianismo toma-se simplesmente uma questão de cabine telefônica, uma conversa privada entre mim e Deus sem nenhuma referência a meus irmãos e irmãs. Vou à igreja no domingo enquanto o mundo vai para o inferno. Se a preocupação com minha salvação pessoal me narcotiza a um grau de insensibilidade tal que não sou mais capaz de ouvir o balido das ovelhas perdidas, então Karl Marx está certo: a religião é o ópio do povo.

Mas o corpo do meu Filho está partido! Você recita o credo e defende a ortodoxia, mas o corpo do meu Filho está partido! Você remete-se de volta à tradição e progride em direção a um renovo, mas o corpo do meu Filho está partido!"

Neste ponto da história da igreja creio ser pertinente lembrar que o Cristo do evangelho de João fez a Pedro (que o negara três vezes) apenas uma pergunta: "Você me ama?" O critério pelo qual Cristo mede seus amigos e os que o rejeitam é ainda "Você me ama?" De que adiantam o estudo bíblico, a reforma pessoal e a renovação, se esquecemos disso, mesmo que nos apeguemos a todo o resto? Como pode alguém reunir a inacreditável dureza de cora­ção e o destemperado zelo messiânico necessários para inflar o estilo e a tradição, a ortodoxia, a interpretação bíblica e a crença correta ao ponto de transformá-los em tamanhos monstros que a pergunta de Jesus a Pedro e a nós é guardada na estante?

O autor do quarto evangelho propõe uma única pergunta a seus leitores: conhecemos por acaso Jesus? Conhecê-lo é vida. Tudo o mais se desvanece em crepúsculo e escuridão. Para o evangelista João o que estabelece a dignidade na comunidade cristã não é apostolado ou função, títulos, dons de profecia, cura ou pregação inspirada, mas apenas a intimidade com Jesus. Esse é o status do qual desfrutam todos os cristãos.

Para nossa igreja contemporânea, que trata os líderes adminis­trativos e superastros carismáticos com deferência excessiva, o evangelho de João envia essa palavra profética: apenas o amor de Jesus Cristo concede status na comunidade cristã. Em seu podero­so livro pastoral The churches the apostles left behind [A igreja que os apóstolos deixaram para trás], Raymond E. Brown escreve:

Todos os cristãos são discípulos, e entre eles a grandeza é determinada por um relacionamento amoroso com Jesus, não por função ou cargo. Cargos eclesiásticos e até mesmo o vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão.

1João 4:19-21
A espiritualidade pascal afirma que o teste mais verdadeiro do discipulado é o modo que vivemos uns com os outros na comunidade da fé. E simples e exigente assim. Em nossas palavras e nossos atos damos formato e forma a nossa fé a cada dia. Fazemos as pessoas um pouquinho melhores ou as deixamos ainda piores. Afirmamos ou desprovemos, ampliamos ou diminuímos a vida dos outros.
O reino, diz-nos Jesus, está de fato em nosso meio, no mistério de nosso relacionamento uns com os outros. Estamos do lado de dentro dos portões quando nos aproximamos uns dos outros com o anuir ateado pelo Espírito. Já estamos em terreno santo quando estendemos a mão para compreender em vez de condenar, quando perdoamos em vez de nos vingarmos, quando na qualidade de peregrinos desarmados estamos prontos para enfrentar nossos inimigos. O que Jesus ensina é simples e maravilhoso demais para os que querem mágica na religião.56
De acordo com o critério evangélico de santidade, a pessoa mais próxima do coração de Jesus não é a que ora mais, a que mais estuda a Escritura ou a que tem confiada a si a posição de maior responsabilidade espiritual. É quem mais ama, e essa não é opinião minha. É a Palavra que nos julgará.

Terceira característica da espiritualidade pascal: ela olha para a natureza humana armo decaída mas redimida — falha, porém boa na essência. As emoções são boas, carecendo apenas de direção e graça, não de supressão. Somos cristãos, não estóicos. Poderíamos passar muito bem com menos do pessimismo encontrado em alguns círculos cristãos a respeito das coisas terrenas. A criação é o transbordar da bondade de Deus e de seu amor infinito. Á pergunta: "Por que Deus fez o mundo?" a espiritualidade pascal responde que Deus, o Pai, tem uma peculiar atração pelo ser. Como coloca Robert Capon:


Ele tinha uma obsessão ilimitada pelo ser. Ficava pensando em novos modos de ser e novos modos do ser o ser. Certa tarde Deus Filho apareceu e disse:

  • Isso está excelente. Por que não saio para montar um lote deles?

  • Formidável! — disse Deus Espírito Santo. — Vou ajudar.

Assim eles se reuniram naquela noite, depois do jantar, e fizeram uma extraordinária demonstração de ser para o Pai. Estava repleta de água e de luz e de sapos; salgueiros pendiam em toda parte, e peixes sarapintados nadavam nos copos de vinho. Havia cogumelos e uvas, rábanos silvestres e tigres — e homens e mulheres em todo lugar para experimentá-los, fazer malabarismos com eles, juntar-se a eles e amá-los. Deus Pai olhou para todo aquele grupo extravagante e disse:

— Maravilhoso. Isso é o que eu tinha em mente. Jóia!

E tudo o que Deus Filho e Deus Espírito Santo conseguiram dizer foi:

— Beleza!

Eles riram por muitas eras dizendo coisas como quão excelente era para o ser ser, quão sagaz da parte do Pai tinha sido conceber a idéia, quão bondoso da parte do Filho ter tido o trabalho de montá-lo e quão gracioso da parte do Espírito devotar tanto tempo à coreografia. Eles contaram velhas piadas uns aos outros, e Pai e Filho beberam vinho em unidade com o Espírito Santo e ficaram jogando azeitonas maduras e cogumelos em conserva uns nos outros para sempre e sempre.
Reconhecidamente trata-se de uma analogia grosseira, mas talvez as analogias grosseiras sejam as melhores. Todo mundo sabe que Deus não é um velho de barba jogando azeitonas. Mas nem todos estão convencidos de que Deus não é uma "força cósmica", uma "causa sem causa", um "movedor imóvel" ou qualquer das analogias que usamos para falar dele. A imagem da criação como uma hilariante farra trinitaria pode ser maluquice, mas ela de fato aponta para a verdade de que Deus se deleita em sua criação.

A criação, afirma Gênesis, é boa. As coisas criadas são apenas miríades de respostas ao deleite de Deus que as investe de ser por sua vontade. Tomás de Aquino disse que o ser é bom em si mesmo. Ser e bem são intercambiáveis.

Naturalmente, não é sempre fácil ver que todo ser é bom. Afirmar nossa fé na bondade da criação torna-se problemático diante de um terremoto na Cidade do México que leva cinco 5 vidas, ou do deslizamento na Colômbia que mata 40 mil. Além disso, como observa Capon, há sapos venenosos, células cancerígenas, insuficiências renais, baleias assassinas e tubarões financeiros para serem levados em conta. Mas não há retorno da revelação na Palavra: "Deus viu tudo o que havia feito, e era muito bom" (Gn 1:31).

A natureza humana, liberta da escravidão do pecado, é capaz de assombrosa santidade. O evangelista Robert Frost, numa palestra em San Jose, Califórnia, observou: "O Senhor me fez deparar de repente com o seguinte desafio: 'Por que você insiste em ver seus filhos nas mãos do diabo, e não nos braços do fiel Pastor?'. Percebi então que em minha mente eu havia sempre pensado nos males do presente como mais poderosos do que o amor atemporal de Deus".

A espiritualidade pascal recupera o elemento de deleite na criação. Imagine o êxtase, o brado de alegria quando Deus fez uma pessoa em sua própria imagem! Quando Deus fez você! O Pai deu você como presente a si mesmo. Você é uma resposta ao vasto deleite de Deus. Dentre um infinito número de possibilidades, Deus investiu em você e em mim com a existência.

À luz da verdade, tenho de fazer-me a seguinte pergunta: Tenho realmente valorizado o tremendo presente que sou? Ou meço meu valor pela textura dos cabelos, a estrutura do rosto ou o tamanho da cintura?

Poderia o presente do Pai para si mesmo não ser belo? Canto suas outras dádivas — "garotas em brancas vestes com cintos azul-celestes, flocos de neve em meu nariz e pestanas".57 Por que razão não gosto do meu belo eu? A espiritualidade pascal afirma que, por causa da morte e ressurreição de Jesus Cristo, posso amar a mim mesmo não a despeito de minhas falhas e verrugas, mas com elas. Tal é a aceitação do Deus de Jesus.

Em quarto lugar, a espiritualidade pascal vem estampada com a assinatura de Jesus. Não há cristianismo genuíno no qual o signo da cruz está ausente. Graça barata é graça sem a cruz, um assentimento intelectual à empoeirada casa de penhores de crenças doutrinárias ao mesmo tempo que se é levado sem direção pelos valores culturais da cidade secular. O discipulado sem sacrificio gera um cristianismo confortável praticamente indistinguível, em sua mediocridade, do resto do mundo. A cruz é tanto o teste quanto o destino de um seguidor de Jesus.


O que carecemos desesperadamente é compreender novamente o quanto é perigoso ser um cristão verdadeiro. Qualquer um que leve seu cristianismo a sério perceberá que a crucificação não é algo que aconteceu a um homem há cerca de mil e novecentos e cinqüenta anos, tampouco foi o martírio meramente a sina de seus primeiros seguidores. Deveria ser um risco onipresente para todo cristão. Os cristãos deveriam — precisam — em certos sentidos viver perigosamente se desejam viver sua fé. Os tempos atuais tornaram isso aparente. Hoje em dia requer-se de nós que assumamos grandes riscos pela paz. E combater as forças entrincheiradas da corrida armamentista — os principados e potestades deste mundo — inclui um risco muito real de martírio[...] É hora de uma ação comunal e congregacional e de risco corporativo.58
A pregação morna e a adoração sem vida têm espalhado tantas cinzas sobre o fogo do evangelho que mal sentimos seu ardor. Tornamo-nos tão habituados ao último fato cristão — Jesus nu, exposto, crucificado e ressurreto — que não mais o vemos pelo que é: um chamado a nos despirmos de preocupações terrenas e sabedoria mundana, de todo o desejo por louvor humano, da cobiça por qualquer espécie de confono (incluindo consolações espirituais). E uma convocação à prontidão para nos levantarmos e sermos contados como pacificadores num mundo violento. É um chamado para abrirmos mão da fantasia de que não somos de fato mundanos (o ripo de mundanismo que prefere a tarefa mais atraente à menos, e leva-nos a investir mais em gente que queremos impressionar). Mesmo o último trapo ao qual nos apegamos — a autobajulação que sugere que estamos sendo humildes quando recusamos admitir qualquer semelhança com Jesus Cristo —, até mesmo esse trapo deve cair quando ficamos face a face com o Filho de Deus crucificado.

Charles Colson, corrupto do caso Watergate e vigarista por excelência, é testemunha dos muitos aspectos da espiritualidade centrada na ressurreição. Sua consciência da salvação-na-comunidade fala por si mesma por meio de seu ministério na prisão. Além disso, sua vida é uma adorável carta a Deus assinada com a assinatura de Jesus. Quando soube que rinha um câncer achou que ficaria arrasado, mas descobriu em seu confronto com o medo e com o sofrimento que não há nada em que Deus não derrame sua graça de forma abundante. O tumor foi diagnosticado cedo, e os doutores asseguraram-lhe que o prognóstico era excelente.

Colson disse: "Meu sofrimento gerou algumas novas percepções![...] a respeito do evangelho da saúde e prosperidade. Se Deus de fato livra seu povo de toda dor e enfermidade, como freqüentemente se diz, por que eu estava doente? Teria minha fé enfraquecido? Teria eu perdido seu favor? Não: eu sempre havia reconhecido essa doutrina como falsa teologia. Mas, depois de quatro semanas numa unidade de tratamento intensivo, passei a vê-la diferente: uma presunçosa pedra de tropeço no caminho do verdadeiro evangelismo".

Enquanto Colson arrastava consigo pelo corredor o poste de medicação intravenosa, um hindu que visitava o filho desesperadamente doente perguntou-lhe se Deus curaria ou não seu filho se ele, o pai, nascesse de novo. "Ele disse que tinha ouvido esse tipo de coisa na televisão. Enquanto ouvia, percebi quão arrogante a religião da saúde e prosperidade soa para famílias que sofrem. Os cristãos podem ser poupados do sofrimento, mas criancinhas hindus ficam cegas. Não se pode culpar um hindu ou muçulmano por ressentir-se de um Deus desses, ou mesmo odiá-lo". Quanto a seu câncer: "Mal começamos a saber todas as razões subjacentes. Mas de fato sabemos que nosso sofrimento e fraqueza podem ser uma oportunidade de testemunhar ao mundo a graça admirável de Deus trabalhando por meio de nós".59

A espiritualidade pascal nada mais é do que o cativeiro a Cristo apenas, uma completa ligação a sua pessoa, um compartilhar do ritmo de sua morte e ressurreição, uma participação em sua vida de tristeza, rejeição, solidão e sofrimento. Parafraseando Francis Thompson: "A madeira precisa ser carbonizada para que ele possa desenhar com ela".

Quinta dimensão da espiritualidade pascal: é jubilosa e otimista. Está ancorada na esperança. Aguarda ansiosamente a glorificação da segunda vinda. O clamor do cristão é: "Haverá um grande dia!". O Deus fiel que conduziu seus filhos à Terra Prometida nos guiará à terra prometida de glória, onde a vitória de Jesus Cristo cintilará como um letreiro de neon no céu, e as trombetas angelicais anunciarão a última colheita. O verdadeiro cristão é o amante separado de seu amado — o dia da reunião não tem como chegar depressa demais. Assim é o espírito alegre, esperançoso, animado que caracteriza a espiritualidade pascal. Ela deve estabelecer a tonalidade de nossa vida em Cristo, dia após dia.

Eis aqui a raiz e a fonte da alegria, do júbilo e do riso cristãos. É a razão pela qual o teólogo Robert Hotchkins pode insistir: "Os cristãos devem celebrar constantemente":


Devemos estar preocupados com festas, banquetes, folias e festejo. Devemos entregar-nos a verdadeiras orgias de júbilo por causa de nossa crença na ressurreição. Devemos atrair as pessoas para nossa fé literalmente pelo quanto é divertido ser cristão. Infelizmente, no entanto, logo também nos tornamos sombrios, austeros e pomposos. Somos o oposto de nossa própria tradição, porque tememos perder tempo ou ficar amarrados. Nas palavras de Teresa de Ávila: "de tolas devoções e santos de cara amarrada, livrai-nos, Senhor!".
A vitória de Jesus Cristo no Calvário apresenta-nos apenas duas alternativas lógicas: ou você crê na ressurreição e, por conseguinte, crê em Jesus de Nazaré e no evangelho que ele pregou, ou crê na não-ressurreição e não crê em Jesus de Nazaré e no evangelho que ele pregou. Se a Páscoa não é história, devemos nos tornar céticos. Em outras palavras, ou cremos na ressurreição e num Jesus vivo que está conosco na fé, e entregamos nossa vida a ambos, ou não. Ou descartamos a boa-nova como boa demais para ser verdade ou nos permitimos ser pessoas extraordinariamente felizes por causa dela. O cristão é chamado para crer num Deus que ama e em seu Cristo ressurreto. Cremos, e cremos enfaticamente; cremos, e cremos jubilosamente.

A alegria no Jesus ressurreto está diretamente ligada à qualidade de nossa fé. Madre Teresa escolheu viver sua vida entre os filhos mais afligidos de Deus, porém podia, ainda assim, dizer: "Nunca permita que nada encha seu coração de pesar de tal forma que você se esqueça da alegria do Senhor ressurreto".

Inácio de Loyola encorajava os cristãos a orar com freqüência por uma felicidade intensa.60 Ele não estava falando de uma alegria frívola de festa ou numa corajosa tentativa de sorrir em meio às lágrimas. Trata-se de uma felicidade profundamente entranhada, enraizada na vitória e na promessa do Jesus ressurreto. A compaixão, a habilidade de sofrer com a ferida do outro, é qualidade cristã essencial; igualmente importante é a capacidade de regozijar-se na alegria do outro. A felicidade intensa está ancorada na alegria que Cristo agora experimenta à direita de seu Pai. Cada lágrima foi enxugada. Não há mais lamento nem tristeza na vida do Jesus ressurreto.

Esse dom de felicidade intensa, quando é concedido, produz uma alegria sólida e inabalável, enraizada muito abaixo das areias instáveis da volubilidade de nossos sentimentos. O que quer que aconteça, o Senhor ressurgiu! Nada pode sufocar a alegria e a esperança. O dia pode estar tempestuoso ou com bom tempo, posso estar doente ou com saúde, nada altera o fato de que Cristo ressurgiu. Na igreja primitiva, cada domingo era conhecido como festa da "Pequena Páscoa". Em nossa cultura, o shabat (sábado) cristão é uma convocação à alegria e ao otimismo do domingo da ressurreição.

O sexto aspecto da espiritualidade pascal: promove unidade sem uniformidade. Jesus é o Caminho, e sua luz é retratada em miríades de maneiras em personalidades diferentes. Ele se encarna de maneiras novas e surpreendentes em cada um de nós. Cada um é chamado para ser uma manifestação única e singular da verdade e do amor de Cristo, não uma cópia em papel-carbono de outra pessoa. Precisamos deixar de tentar acomodar as pessoas dentro de determinado molde, mas antes reconhecer a rica variedade de pessoas e personalidades que se combinam para formar a igreja. Nenhum esforço deve ser feito para destruir a riqueza de variedade numa tentativa por uniformidade. Tratando-se de adoração na igreja, o princípio operativo é unidade no louvor a Deus sem uniformidade no estilo.

Finalmente, a espiritualidade pascal encara as pessoas como livres. Somos livres em virtude da liberdade com que Cristo nos libertou. "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou" (Gl 5:1). Os cristãos devem ser tratados pelas autoridades religiosas como homens e mulheres livres, não como escravos. Somos seres humanos responsáveis com a capacidade de tomar decisões racionais. A obediência esclarecida (não cega) é o ideal pascal. Há pronta aceitação à verdade de que o destino de cada pessoa está nas mãos dessa pessoa, guiada e fortalecida pela graça de Cristo. Há profunda consciência de que o segredo fundamental de Jesus era seu soberano respeito pela liberdade humana. Ele nunca tentou tornar as pessoas virtuosas contra a vontade delas. Essa é a traição essencial.

A igreja institucional está sendo desleal à lei de seu "ser" sempre que viola a liberdade. Sempre que uma figura de autoridade busca suprimir a liberdade, ele ou ela estão se colocando (mesmo que inconscientemente) em oposição a Cristo e sua igreja. Deus criou-nos em sua própria imagem porque queria serviço livre e responsável. Quando a virtude da obediência é reduzida a padrão de dominação e submissão, produzimos covardes treinados em vez de pessoas cristãs.

Talvez seja esta a mais dura lição da espiritualidade centrada na ressurreição: olhar para nós mesmos e para os outros como pessoas livres e responsáveis. Em vez de criar mais liberdade, todos erguemos inconscientemente impedimentos a ela — como medo neurótico, pressão, ameaças de punição. A tragédia de nossas tentativas de forçar os outros a ser virtuosos pela força ou pela manipulação sutil é o fato de que esses esforços são tão predominantes em nossa vida, tão característicos de nosso relacionamento com os outros que a maioria de nós, na maior parte do tempo, não tem consciência do problema. Não percebemos que denunciamos uma ausência fundamental de respeito pela humanidade daqueles com quem tratamos, e que essa ausência de respeito é o problema essencial com o uso da autoridade na igreja e no lar.

Se de fato conhecêssemos o Deus de Jesus, pararíamos de tentar controlar e manipular os outros "para seu bem", sabendo perfeitamente que não é assim que Deus trabalha entre seu povo. Paulo escreve: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2Co3:17).

Esses são os traços centrais e as características dominantes da espiritualidade pascal centrada na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Morte e ressurreição não são eventos que ocorrem apenas no final de nossa jornada. São o padrão de nossa vida dia após dia.
Cada vez que abrimos mão do passado para abraçar o futuro, revivemos em nossa carne a jornada pascal de Jesus. Cada vez que permitimos que morram nossos temores e nosso egoísmo, irrompemos para uma nova vida. Cada vez que nos abrimos para o Espírito, de modo que ele possa derrubar as muralhas de suspeita e amargura, chegamos em casa para nós mesmos, para a comunidade e para o Senhor. "Morro a cada dia", escreveu Paulo, e poderia ter acrescentado: "E a cada dia sou ressurreto para nova vida".61
Escrever a carta de nossa vida sobre a assinatura de Jesus é reconhecer seu morrer e seu ressurgir à medida que eles são traçados em nossas atitudes e gravados em nosso coração. Dentro desse contexto, nem a morte nem a ressurreição serão experiências novas para nós.



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