A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo sete Celebrando a escuridão



Baixar 0.6 Mb.
Página8/14
Encontro29.07.2016
Tamanho0.6 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   14

Capítulo sete

Celebrando a escuridão


Certo cristão achava de vital importância ser pobre e ter uma vida austera. Nunca lhe ocorrera que vitalmente importante era abrir mão de seu ego; não lhe ocorrera que o ego engorda tanto com a santidade quanto com o mundanismo, com a pobreza tanto quanto com a riqueza, com a austeridade tanto quanto com o luxo. Não há nada que o ego não use para inflar a si mesmo.
Discípulo. Venho a ti com nada em minhas mãos. Mestre. Então o largue imediatamente!

Discípulo. Como posso largar? Não é nada! Mestre. Então o arraste com você! Você pode fazer de seu nada um bem. E carregar sua renúncia por aí como um troféu. Não abra mão de suas posses. Abra mão de seu ego.62
Morrer para si mesmo é necessário a fim de viver para Deus. Uma crucificação do ego é requerida. É por isso que uma oração cristã madura conduz inevitavelmente à purificação que São João da Cruz chamou de noite escura dos sentidos e do espírito — que, por meio da solidão e da aridez, enterra o egoísmo e leva-nos para fora de nós mesmos a fim de experimentarmos a Deus.

A "noite escura" é um lugar muito real, como pode atestar qualquer um que já esteve lá. Allan Jones chama-a de "segunda conversão". Enquanto a primeira conversão é caracterizada por alegria, entusiasmo e é cheia de consolação sentida e de um profundo sentimento da presença de Deus, a segunda é marcada por secura, esterilidade, desolação e um profundo sentimento da ausência de Deus. A noite escura é um estágio indispensável de crescimento espiritual, tanto para o cristão quanto para a igreja.

Merton escreve:
Há uma necessidade absoluta do tipo de oração solitário, exposto, sombrio, além do pensamento e além do sentimento[...] A não ser que essa dimensão esteja presente em algum lugar da igreja, o grupo todo carece de vida, luz e inteligência. É também uma espécie de estabilizador e compasso oculto, secreto e desconhecido. Sobre isso não tenho hesitação nem dúvidas.63
Embora dolorosa, a purificação do ego na noite escura é a estrada principal para a liberdade e maturidade cristã. De fato, ela é com freqüência resposta à oração.

Você já orou por uma vida de oração mais profunda? Já orou por uma percepção vívida e consciente da presença interior de Deus ao longo do dia? Já orou para ser gentil e humilde de coração? Já pediu um espírito de desapego das coisas materiais, relacionamentos pessoais e conforto na vida diária? Já clamou por um aumento na fé?

Sei que já o fez, e suspeito que todos já tenhamos orado por esses dons espirituais. Mas me pergunto se de fato dissemos o que queríamos quando pedimos essas coisas? De fato queremos aquilo pelo que pedimos? Creio que não. De outro modo, por que recuamos chocados e tristes quando nossas orações são respondidas? O sofrimento envolvido ao chegar à resposta nos faz arrepender de ter pedido em primeiro lugar.

Pedimos crescimento espiritual e maturidade cristã, mas não os queremos de fato — pelo menos não do modo em que Deus escolhe concedê-los a nós. Por exemplo, se pedimos ao Senhor uma vida de oração mais profunda, de que forma ele responde a essa oração? Levando-nos a dobrar os joelhos em adversidade e sofrimento. Você já ouviu a reclamação cristã: "O que houve? Na semana depois que 'nasci de novo' tudo deu errado. Perdi meu emprego e as chaves do carro, briguei com a minha esposa, pe­guei o avião errado e acabei em Filadélfia em vez de em São Francisco".

Através de uma seqüência de eventos humanos, divinamente inspirados, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo nos conduz a um estado de devastação interior. Quando estamos assim é mui­to provável (embora não inevitável) que passemos a orar mais. Até agora talvez não tivéssemos estado orando em profundida­de. Mas agora estamos de fato orando. Podemos não estar profe­rindo um número tão grande de orações, e podemos não estar seguindo as fórmulas de oração estabelecidas que espera-se que sigamos, mas estamos orando como nunca antes. Perguntamos: "O que está havendo?" E a resposta vem: "Você não lembra? Foi isso que você pediu. Isso não é graça barata. Você queria uma vida de oração mais profunda. Agora aqui está você".

"Senhor, faz de mim o que devo ser; muda-me, a qualquer custo". Ao proferir essas palavras perigosas, devemos estar preparados para que Deus as ouça. Essas são palavras perigosas porque o amor de Deus não tem remorsos. Deus quer nossa salvação com a determinação de sua devida importância. E, conclui o Pastor de Hermas: "Deus não nos deixa até que nos tenha partido o coração e os ossos".64

Jesus diz: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11:29). Essas belas palavras são um retrato do coração de Cristo. Então respondemos: "Jesus, gentil e humilde de coração, faze o meu coração como o teu". Agora sim vamos ver o que é bom. Acabamos de abrir a caixa de Pandora. Por quê? Porque não aprendemos a humildade lendo sobre ela em livros espirituais ou ouvindo-a ser louvada em sermões. Aprendemos a humildade diretamente do Senhor, do modo que ele deseja nos ensinar. Com freqüência aprendemos a humildade pela humilhação.

O que é humildade? É a rematada percepção e aceitação do fato de que sou totalmente dependente do amor e da misericórdia de Deus. Ela cresce por meio de um despir-se de toda auto-suficiência. A humildade não se adquire com a repetição de frases piedosas; ela é executada pela mão de Deus. E Jó sobre o monturo vez após outra enquanto Deus nos lembra de que ele é a única esperança verdadeira.

Conheço um homem que se sentiu confortavelmente próximo de Cristo durante trinta anos porque seu ministério rinha sido um sucesso. Ele deixara sua marca, produzira um bom trabalho e ganhara o respeito e a estima de roda a comunidade. Parecia que o sucesso era uma recompensa por sua fidelidade. Um dia Deus teve misericórdia dele e lhe concedeu o desejo por humildade de coração.

O que aconteceu?

Num cegante momento de verdade, o homem enxergou seu sucesso ministerial como impregnado de vaidade e egocentrismo. Logo os amigas começaram a se afastar. Sua popularidade caiu. Ele ficou consciente da falta de confiança por parte de outros.

A humildade não se pega através da repetição de frases piedosas; ela é executada pela mão de Deus. E Jó sobre o monturo vez após outra enquanto Deus nos lembra de que ele é a única esperança verdadeira.

Conheço um homem que sentiu-se confortavelmente próximo de Cristo durante trinta anos porque seu ministério tinha sido um sucesso. Ele deixara a sua marca, produzira um bom trabalho e ganhara o respeito e a estima de toda a comunidade. Parecia que seu sucesso era uma recompensa pela sua fidelidade. Então um dia Deus teve misericórdia dele e concedeu-lhe o o seu desejo por humildade de coração.

O que aconteceu?

Num cegante momento de verdade, o homem enxergou seu sucesso ministerial como impregnado de vaidade e egocentrismo. Logo os amigos começaram a se afastar. Sua popularidade caiu. Ele ficou consciente da falta de confiança por parte de outros. Surgiram diferenças radicais a respeito de questões como cresci­mento da igreja e evangelismo. Uma enfermidade trouxe inatividade e acentuou a sensação de perda.

O homem adentrara a noite escura. Pela primeira vez ele ex­perimentava a insuportável ausência de Deus. Ele suspeitava que sua vida fosse um desapontamento para Deus, um desapontamento que era incapaz de reparar. Sentia que havia perdido Jesus atra­vés do orgulho e egoísmo. Estava convencido de que a repreensão do divino Juiz no livro de Apocalipse era dirigida a ele: "Pois dizes: 'Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma', e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu" (3:17).

A dor era excruciante, a noite escura, sombria. Mais tarde, no entanto, quando o homem refletiu sobre essa experiência doloro­sa de redução de ego, reconheceu que sua agonia era resposta de oração, que a humilhação que ele havia suportado era o modo de Deus dizer sim ao pedido dele de ser mais como Jesus.

Biblicamente falando nada há de mais detestável do que uma pessoa auto-suficiente. Ele é tão cheio de si, tão ensimesmado de orgulho e prepotência que é insuportável. Eis um cenário que me vem à mente.

Uma mulher humilde me procura por causa de meu renome como guia espiritual. Ela é simples e direta:

— Por favor me ensine a orar.

De forma concisa, pergunto a ela:

— Fale-me da sua vida de oração. Ela abaixa os olhos e diz, contrita:

— Não há muito o que contar. Agradeço pelas refeições. Arrogantemente, eu respondo:

— Agradece pelas refeições? Então, não é demais? Minha se­nhora, agradeço quando acordo e quando me recolho; agradeço antes de ler o jornal e antes de ligar a televisão. Agradeço antes de passear e de defecar, antes do teatro e da ópera, antes de fazer cooper, de nadar, de caminhar, de jantar, de palestrar, de escre­ver. Agradeço até mesmo antes de agradecer!

E Deus sussurra para mim:

— Seu mal-agradecido. Até mesmo o desejo de agradecer é dom meu.

Conta uma antiga lenda cristã:
Quando o Filho de Deus pregado à cruz entregou o espírito, foi diretamente da cruz ao inferno libertar todos os pecadores que estavam em tormento ali. O Diabo chorou e lamentou, porque pensava que não conseguiria mais pecadores para o inferno. Então Deus disse a ele: "Não chore, pois vou lhe mandar todos aqueles santos que se tornaram complacentes na consciência de sua bondade e cheios de justiça própria na condenação dos pecadores. E o inferno se encherá novamente por gerações até que eu volte".65
Na maior parte do tempo o cristão auto-suficiente está cego para suas arrogantes pretensões. Ele segue seu caminho feliz recitando frasezinhas piedosas como: "Jesus, mantém-me humilde". E por fim o Deus que não pode ser manipulado ou controlado replica: "Tudo bem. Você quer ser humilde? Esta seqüência de humilhações e fracassos deve dar um jeito nisso".

A escola da humilhação é uma grande experiência de aprendizado; não há outra igual. Quando o dom de um coração humilde é concedido, aceitamo-nos mais e nos tornamos menos críticos dos outros. O autoconhecimento traz uma consciência humilde e realista de nossas limitações. Leva-nos a ser pacientes e compassivos para com os outros quando éramos antes exigentes, insensíveis e arrogantes. Desaparecem a complacência e a estreiteza de mente que tornam Deus supérfluo. Para a pessoa humilde, existe a constante consciênela da própria fraqueza, insuficiência e desesperada carência de Deus.

Provavelmente o momento de minha vida em que estive mais perto da Verdade que é Jesus Cristo foi a experiência de ser um indigente abandonado nas calçadas de Fort Lauderdale, na Flórida.

É claro que a experiência mais contundente de ego-redução acontece quando oramos: "Senhor, aumenta a minha fé". Temos de pisar com cuidado aqui, porque a vida de pura fé é a noite escura. Nesta "noite" Deus permite que vivamos pela fé, e pela fé apenas. Uma fé madura não tem como crescer enquanto estamos empanturrados de todos os tipos de confortos e consolações espirituais. Todos esses devem ser removidos se é para avançarmos na direção da pura confiança em Deus. O Senhor retira todas as escoras tangíveis a fim de nos purificar o coração, para discernir se es­tamos apaixonados pelos dons do Doador ou pelo Doador dos dons.

A pergunta é: adoro a Deus ou a minha experiência com Deus? Adoro a Deus ou a idéia que faço dele? Se quero evitar uma abordagem narcótica à religião que me compele de uma ex­periência a outra na esperança de coisas maiores e melhores, devo saber no que creio à parte dos sentimentos agradáveis ou torpes que podem ou não acompanhar essa crença. A se­gunda conversão [a noite escura da alma] está relacionada a aprender a resistir e prosperar quando os agradáveis senti­mentos, consolações e escoras que acompanham a primeira conversão são retirados. A fé por acaso evapora quando os sentimentos iniciais se dissolvem? Em termos psicológicos, o ego tem de quebrar; e esse quebrar é como adentrar uma grande escuridão. Sem essa luta e aflição não pode haver movimento em amor.66

A oração por uma fé maior separa os homens dos garotos, as mu­lheres das meninas, os místicos dos românticos. Em sua autobiogra­fia a mística do terceiro século Catarina de Siena descreveu sua vida de oração como gloriosa. Ela desfrutava de uma percepção altamente consciente da habitação divina, amando passar dias so­zinha, trancada em seu quarto desfrutando da presença sentida do formoso Deus que lhe habitava o coração. Essas eram ocasiões de imensa consolação espiritual, experiências fundamentais, momen­tos de íntimo encontro pessoal. Havia paz, alegria, segurança, cer­teza. Deus, seu Deus, sempre com ela. Sua vida no Espírito seria uma ininterrupta espiral ascendente rumo à santidade.

Assim pensava ela.

Até um dia em que sua vida confortável em Cristo foi estilha­çada. Ela perdeu os sentimentos familiares de segura possessão de Deus. A habitação da Trindade, sentia ela, havia se encer­rado. Perdera a sensação de sua presença e sentia-se indiferente a sua autoridade. Mesmo a lembrança dele parecia irreal. Deus havia se desvanecido como o sonho da noite passada. Agora a única coisa que ocupava sua consciência era o pecado. Imagens impuras enchiam-lhe os pensamentos, e seu corpo comichava em resposta. Ela sentia como se tivesse sido mergulhada num tanque de imundície, como se tivesse perdido para sempre sua vida har­moniosa e jubilosa com Cristo. Havia se precipitado na noite es­cura. Mas a escuridão provou ser a matriz da qual brotaram luz, graça e crescimento na fé.

Depois de um longo período de insensibilidade, vazio e ari­dez, sem nenhum preparativo ou aviso, Catarina encontrou Jesus novamente. Ela teve uma experiência profunda de sua presença amorosa no mesmo quarto em que tinha sido tentada tão impla­cavelmente. Indignada, ela queixou-se:

— Senhor, onde o senhor estava quando todas essas imagens vis atormentavam-me a mente?

A resposta de Jesus conduziu-a a uma nova profundidade de fé:

— Catarina, o tempo todo durante suas tentações tenho perma­necido com você no mais profundo do seu coração. De outro modo você não as teria vencido.

Naquele momento crítico, Catarina de Siena abriu mão, para sempre, de seu antigo conceito da presença de Deus. As palavras de Jesus haviam lhe ensinado que a presença dele no coração era algo mais profundo e santo do que ela podia imaginar ou sentir. Nesta vida, ele é sempre um Deus oculto. Os sentimentos humanos não podem tocá-lo e os pensamentos humanos não podem medi-lo. A experiência pessoal não pode acentuar a certeza de sua presença mais do que a ausência da experiência diminuí-la. Essas palavras fizeram Catarina perceber como nunca que nada além de pecado grave, consciente e deliberado poderiam separá-la do Amado de sua alma. Nem ruído nem gente, nem distrações nem tentações irritantes; sentimentos de consolação ou desolação, sucesso ou fracasso; nada além de dar as costas a ele poderia jamais separá-la do amor de Deus tornado visível em Jesus Cristo, Nosso Senhor. Ele sempre estaria ali na silenciosa escuridão exatamente como prometera: Não temas. Estarei contigo. Catarina havia perdido a presença de Deus apenas para voltar a encontrá-la na "profunda e estonteante escuridão" de uma fé mais rica. A noite escura havia respondido a sua oração. Ele era livre para celebrar a escuridão.

Temos tendência a acreditar que não sentir mais a presença e a consolação de Deus quer dizer que ele não está mais presente. Alan Jones resume a teologia de São João da Cruz sobre a noite escura:


O primeiro sinal [da noite escura da alma] é não termos mais nenhum prazer ou consolação quer em Deus, quer na criação. Nada nos agrada. Nada nos toca. Tudo e todos nos parecem apagados e desinteressantes. A vida é pó e cinza na boca. O segundo sinal é um senso crônico e penetrante de fracasso, embora o cristão escrupulosamente tente centrar sua vida em Deus. Há um sentimento de jamais ter feito o suficiente e a necessidade de compensar por algo que não tem nome.

O terceiro sinal, e o mais ameaçador para nós hoje, é o fato de que não é mais possível orar e meditar com a imaginação. Imagens, figuras e metáforas não parecem mais chegar até nós. Deus (se é que ele está presente) não mais se comunica conosco pelos sentidos. Em termos mais contemporâneos, é uma questão de se viver a partir de outro centro que não o ego. Mesmo começar a fazer isso é adentrar uma grande escuridão; uma nova espécie de luz ou de iluminação vem e, por meio dela, nosso relacionamento com Deus, embora mais oculto do que antes, torna-se mais profundo e mais direto.67


Essa experiência de escuridão é parte integrante do estilo de vida influenciado pela cruz. Com o ego depurado e o coração purificado pelas provações da noite escura, a vida interior de um discípulo autêntico é caso oculto e invisível. Hoje Deus está aparentemente chamando muitos cristãos comuns a esse ritmo de perda e ganho. A fome de silêncio, solidão e oração centrada que encontro ao longo do país é o Espírito de Cristo chamando-nos do raso para o profundo.

Sem dúvida, na vida de cada um de nós houve períodos de intenso fervor em que éramos quase capazes de tocar a bondade de Deus. Estudos bíblicos, reuniões de oração, retiros e tempo devocional representavam preciosa segurança para muitos de nós. Era um prazer pensar a respeito de Deus, um conforto falar dele, uma alegria estar em sua presença. Talvez tudo isso tenha mudado. Talvez sintamos que perdemos a Cristo e temamos que ele nunca volte. Agora é difícil juntar dois pensamentos sobre ele. A oração tornou-se artificial. As palavras ditas a ele soam vazias de sentido em nossa alma vazia. Ainda pior, opressivos sentimentos de culpa acentuam a sensação de perda. A noite se fecha ao redor de nós. Nós o desapontamos. Foi tudo nossa culpa.

É um conforto saber que esse é um caminho que muitos trilharam antes de nós. Além disso é reconfortante reconhecer que o desejado crescimento na fé não está longe. O amor e a misericórdia de Deus não nos abandonaram. Nuvens podem envolver-nos em trevas, mas acima delas o sol resplandece. A misericórdia de Deus nunca falha. O cristão que se entrega confiante a essa verdade encontra Jesus Cristo de forma nova. Isso marca o início de uma vida mais profunda de fé onde a alegria e a paz vicejam mes­mo na escuridão, porque estão enraizadas não em sentimentos humanos superficiais, mas na profundez da obscura certeza da fé de que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente.

A própria incapacidade de sentir sua presença com nossas emoções instáveis, ou de apreciar sua bondade com nossos débeis pensamentos, torna-se uma ajuda ao invés de um impedimento. Alegria e tristeza podem causar devastação em nossos sentimen­tos, mas sob essa superfície em mutação Deus habita na escuridão. È ali que vamos nos encontrar com ele; é ali que oramos em paz, silenciosos e atentos ao Deus cujo amor sabemos desconhe­cer sombra de mudança. É ali que celebramos a escuridão na serena segurança da fé madura.

O contemplativo não é o homem ou mulher que tem visões ardentes de querubins..., mas simplesmente aquele que ar­risca sua mente no deserto além da linguagem e além das idéias, no qual Deus é encontrado na nudez da confiança pura, quer dizer, na entrega total de nossa pobreza e incompletude, não mais a fim de nos agarrarmos a nós mesmos com um espasmo da mente, como se pensar nos fizesse existir.

O que vem à mente é a imagem de um galho mergulhado diversas vezes no fogo. A medida que o fogo tosta a madeira, queima todas as seivas e sucos naturais próprios da madeira. Num primeiro momento a madeira fica carbonizada e feia. Cada vez que o galho é jogado no fogo, a depuração continua. Finalmente, quando toda a seiva natural que havia resistido à ação do fogo é queimada, a madeira assume as qualidades do próprio fogo e incandesce.

As graças da oração, da humildade, do desapego e de uma fé aprofundada são as belas qualidades da chama. Podemos obter essas qualidades apenas pela ação depuradora da graça de Deus. Nesse processo de purificação, somos preparados para receber os dons pelos quais oramos.

Quando chegamos ao fundo e somos esvaziados de tudo o que achávamos importante, então de fato oramos, tornamo-nos verdadeiramente humildes e desapegados e vivemos na resplandecente escuridão da fé. Em meio ao esvaziamento chegamos ao conhecimento de que Deus não nos desertou. Ele meramente removeu os obstáculos que nos afastavam de uma união mais íntima com ele. Estamos na verdade mais próximos de Deus do que já estivemos, embora privados das consolações que uma vez associamos à nossa espiritualidade. O que achávamos ser comunhão com ele era na verdade obstáculo a essa comunhão.

Ainda assim a noite escura não é o fim — apenas o meio de união com Deus. Pedimos a Deus pelo dom da oração, e ele nos visita com adversidade para nos deixar de joelhos. Oramos por humildade, e Deus nos derruba em humilhação. Clamamos por uma fé maior, e Deus nos despe de toda segurança que havíamos anteriormente identificado com a fé.

Será que o crescimento em Cristo segue-se automaticamente?

Não. O sofrimento por si não produz um espírito de oração. A humilhação sozinha não promove a humildade. A desolação por si não garante uma fé maior. Essas experiências meramente nos dispõem à oração, à humildade e à fé. Podemos ainda continuar chafurdando em autopiedade e rebelião, orgulho e apatia, e o estado final será pior do que o inicial. Podemos comer o pão de dores até a padaria fechar e emergir com apenas uma amargura avarenta nas mãos. Exige-se um passo adicional no processo de abate do ego.

O traço mais característico da humildade de Jesus era o perdão e a aceitação dos outros. Em oposição, nossa não-aceitação dos outros e falta de perdão nos mantêm num estado de agitação e inquietação. Nossos ressentimentos revelam que a assinatura de Jesus não está ainda escrita em nossa vida. O sinal mais inequívoco da união com o Cristo crucificado é nosso perdão àqueles que perpetraram injustiças contra nós. Sem aceitação e perdão a noite escura não passará disso. A conclusão será um coração perturbado. O perdão dos inimigos sela nossa participação na noite escura de Jesus Cristo, que clamou em favor de seus assassinos: "Pai, perdoa-os porque eles não sabem o que fazem".

Certa noite anos atrás, no monastério de Steubenville, Ohio, alguns irmãos estavam mencionando o melhor livro que já tinham lido fora a Bíblia. Um erudito disse que As confissões, de Agostinho erguia-se acima de todos os outros. Outro frei mencionou a Summa theologica, de Tomás de Aquino. Um terceiro acrescentou A catequese batismal, de Cirilo de Jerusalém. Sem piscar, eu disse que o livro mais poderoso que já tinha lido, sem contar a Bíblia, era On being a Christiany de Hans Küng. Para mim ninguém jamais escreveu ou falou com comparável inteligência e paixão sobre a noite escura de Jesus Cristo. Eis uma citação do livro:
O sofrimento voluntário e a morte desamparada de Jesus, amaldiçoado e desonrado, para seus inimigos e mesmo amigos, foram o sinal inequívoco de que ele estava acabado e não tinha mais nada a ver com o verdadeiro Deus. Sua morte na cruz foi o cumprimento da maldição da lei: "O que for pendurado no madeiro é maldito de Deus". Ela estava errado por completo e por inteiro: Sua alegação agora refutada, sua autoridade estilhaçada, seu caminho demonstrado falso... O professor herético é conde­nado, o falso profeta desonrado, o agitador do povo desmas­carado, o blasfemador rejeitado. A lei havia triunfado sobre esse "evangelho". Jesus viu-se deixado sozinho, não apenas por sua gente, mas por aquele para quem havia constantemente apelado como ninguém havia feito antes dele. Deixado absolutamen­te só. E visto que a causa pela qual ele vivera e lutara estava tão intimamente ligada à sua pessoa, essa causa caía com sua pessoa. Não havia causa independente de sua pessoa. Como poderia alguém crer em sua palavra depois de ele ter sido silenciado e morto dessa maneira ultrajante? É uma morte não simplesmente aceita com serenidade, mas suportada num brado a Deus.68
Uma vivida descrição da noite escura de Jesus Cristo. Mente humana alguma jamais compreendeu a profundidade da desolação, a indescritível solidão, o absoluto abandono por trás do clamor de Jesus: "Eloí, Eloí, lama sabachtani" ("Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?"). A cruz é ao mesmo tempo símbolo de nossa salvação e padrão de nossa vida. Tudo que aconteceu a Cristo de alguma forma nos acontece. Quando a escuridão nos envolve e nos tornamos surdos a qualquer outra coisa além do grito de nossa dor, ajuda saber que o Pai está traçando em nós a imagem de seu Filho; que a assinatura de Jesus está sendo gravada em nossa alma.

Para Jesus, a escuridão da noite abriu caminho para a luz da manhã: "Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Fp 2:9-11).

O perdão é a chave de tudo. Ele forma a mente de Cristo dentro de nós e impede que o processo custoso e doloroso da noite escura se torne uma ego trip. O perdão nos impede de nos sentirmos tão "espiritualmente avançados" que olhemos de cima os que ainda estão desfrutando do conforto e da consolação da primeira conversão. O gentil e humilde de coração tem a mente de Cristo.

Henri Nouwen conta a história de um velho que costumava meditar toda manhã bem cedo sob uma enorme árvore na margem do Ganges. Certa manhã, depois de ter terminado sua meditação, o velho abriu os olhos e viu um escorpião flutuando sem defesa na água. Quando o escorpião se aproximou da árvore pela água, o homem depressa estirou-se sobre uma das longas raízes que se espraiavam rio adentro e estendeu a mão para resgatar o animal que se afogava. Logo que o tocou, o escorpião picou-o. Instintivamente o homem recolheu a mão. Um instante mais tarde, depois de recuperar o equilíbrio, ele se estirou novamente sobre as raízes para salvar o escorpião. Desta vez o escorpião picou-o tão gravemente com sua cauda venenosa que a mão do homem ficou inchada e ensangüentada, e seu rosto contorcido de dor.

Naquele momento um passante, vendo o velho estirado no chão a lutar com o escorpião, gritou:

— Ei, velho imbecil, o que há de errado com você? Só um idiota arriscaria a vida por uma criatura tão feia e maligna. Você não sabe que pode se matar tentando salvar esse escorpião ingrato?

O velho virou a cabeça. Olhando o estranho nos olhos, disse calmamente:

— Meu amigo, só porque é da natureza do escorpião picar, não muda minha natureza de salvar.

Sentado aqui em meu escritório, volto-me para o símbolo do Cristo crucificado na parede à minha direita. E ouço Jesus orando por seus assassinos: "Pai, perdoa-os. Eles não sabem o que fazem".

O escorpião que ele havia tentado salvar finalmente o matara. A mim, o passante que o vê estirado sobre o madeiro e grita: "Só um idiota arriscaria a vida por uma criatura tão feia e maligna", Jesus responde: "Meu amigo, só porque é da natureza da humanidade decaída ferir, não muda minha natureza de salvar".

Eis aqui o repúdio final do ego. Abrimos mão da necessidade de vingança, entregamos o reino do eu ao Pai, e na soberana liberdade de perdoar nossos inimigos, celebramos a luminosa escuridão.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   14


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal