A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo oito O amor de Jesus



Baixar 0.6 Mb.
Página9/14
Encontro29.07.2016
Tamanho0.6 Mb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   14

Capítulo oito

O amor de Jesus


Ao longo dos corredores do tempo os cristãos têm tentado lidar com a esmagadora realidade da personalidade de Jesus Cristo. Defino "lidar" como "nossa resposta pessoal de adaptação ou ajuste produzido pelo encontro com o Jesus verdadeiro".

Há uma tendência em todo cristão de "reimaginar" o Homem da Galileia, de conceber um tipo de Jesus com o qual possamos viver, de projetar um Cristo que confirme nossas preferências e preconceitos. O grande poeta inglês John Milton, por exemplo, fabricou um Cristo intelectual que desprezava a gente comum como "um rebanho confuso, populacho miscigenado que enaltece tudo que é vulgar".

E humana e universal a tendência a reconstruir Jesus em nossos termos de referência e a rejeitar qualquer evidência que desafie nossas situações e nossos pressupostos de vida. Para muitos hippies dos anos 1960, Jesus era muito semelhante a eles — agitador e crítico social, alguém que não se dobrou ao sistema, profeta da contracultura. Para muitos yuppies dos anos 1980, Jesus era o provedor de uma boa vida, o Senhor do spa, um jovem executivo motivado com uma missão messiânica, profeta da prosperidade e da limusine com chofer. Afinal de contas, ele não nos prometia cem vezes mais nesta vida?

Será o Jesus hippie ou o Jesus yuppie um retrato fiel do corajoso, dinâmico, livre e exigente Jesus do Novo Testamento?

No musical Godspell somos apresentados a um evangelho prazenteiro em que inocência carnavalesca, humor surreal e energia jovem cantam uma canção de ninar para a alma e nos seduzem a adentrar um mundo desprovido de qualquer responsabilidade pessoal. Sua abordagem seletiva produz um travesso, mas essencialmente falso conceito da mensagem do evangelho. A crucificação é uma embaraçosa "necessidade teológica" a ser rapidamente dispensada. A ressurreição é reduzida a uma canção: "Longa vida a Deus". O que concluir de um evangelho sem o mistério pascal? Onde está a assinatura de Jesus?

Em seu livro Jesus Now, Malachi Martin examina as distorções históricas de Jesus através das tempos. Primeiro vem o "Jesus César". Em seu nome, a igreja combinou riqueza e poder político com serviço professado a Deus: um casamento profano entre igreja e estado em que o papa em seu manto de arminho e César em toga de seda se mancomunavam para construir impérios. Encontramos a mesma aliança sacrílega na capital da nação quando determinados líderes religiosos espreitam os corredores do poder batizando alguns políticos e colocando outros na lista negra, sempre alegando encontrar suporte no ensino de Jesus.

O "Jesus Apolo" veio em seguida: visionário romântico, um belo líder humano sem nenhuma conotação controversa. Tornou-se o herói dos charmosos e talentosos cavalheiros do século XIX e começo do XX, pensadores como Henri David Thoreau e Ralph Waldo Emerson. Mas o Jesus Apolo nunca sujava as mãos, jamais caminhava num acampamento de imigrantes em Miami ou numa favela de Nova York. Ele não era Salvador. Não advogava um salário mínimo, moradia decente, direitos civis ou cuidado pelos idosos.

Em toda época e cultura tendemos a moldar Jesus à nossa imagem e a maquiá-lo de acordo com nossas necessidades a fim de lidar com o estresse que sua presença sem disfarce provoca. "Numa trincheira Jesus é um esquadrão de resgate; na cadeira do dentista, um anestésico; no dia da prova, um solucionador de problemas; numa sociedade afluente, um moderado bem barbeado; para um habitante da América Central, um revolucionário barbudo".69 Se pensamos em Jesus como amigo de pecadores, os pecadores são provavelmente nosso tipo de gente. Sei, por exemplo, que Jesus é amigo de alcoólatras. Minha história pessoal e condicionamento cultural tornam Jesus compatível e compassivo com pecadores seletos como eu. Tenho como lidar com esse Jesus.

Blaise Pascal escreveu: "Deus fez o homem à sua imagem, e o homem devolveu a gentileza". Ao longo de cinco décadas tenho visto cristãos moldando Jesus à própria imagem — em cada caso uma divindade assombrosamente pequena. Em sua clássica obra Seu Deus é pequeno demais, J. B. Phillips enumera diversas dessas caricaturas: Policial Residente, Dor-de-cabeça Parental, Velho Majestoso, Meigo e Manso, Colo Celeste, Diretor Executivo, Deus Apressado, Deus da Elite, Deus sem Divindade etc.

A mesma tendência persiste na cristologia de nossos dias, especialmente nos discípulos do "Jesus Torquemada". No século XV eles perseguiam e torturavam quem ousasse discordar de sua limitada expressão da Escritura. Torquemada, cujo nome espanhol quer dizer "ortodoxia de doutrina", morreu muito velho em 1498, tendo sido responsável pela morte de 2 mil pessoas queimadas na estaca e pelo exílio de 160 mil judeus da Espanha como estrangeiros indesejáveis — tudo pela glória de Deus. Os partidários de Torquemada estão vivos e ativos hoje em dia em toda denominação e não-denominação cristã. Os mesmos ódio, perversidade de espírito, inveja e ostracismo ainda dividem o corpo de Cristo.

Em resposta a sua marcante pergunta: "Quem vocês dizem que eu sou?", minha experiência de Jesus Cristo clama: "Tu és o Filho de Deus, o revelador do amor do Pai!". Essa atordoante verdade, de que Jesus corporifica para nós um Pai que nos ama mesmo quando falhamos em amar, é a Boa-Nova. A revelação de que somos amados de modo sem comparação nos capacita a ser tolos por Cristo, a celebrarmos a escuridão sob a assinatura de Jesus. "Pois o amor de Cristo nos constrange" (2 Co 5:14).

No entanto meus últimos 25 anos de experiência pastoral indi­cam que a estonteante revelação de que Deus é amor tem tido impacto irrisório na maioria dos cristãos e insignificante poder transformador. O problema parece ser que ou não temos ciência do fato ou temos ciência dele e não somos capazes de aceitá-lo. Ou aceitamos o fato, mas não estamos conscientizados dele. Ou estamos conscientizados, mas não nos entregamos a ele.

Apesar de nossa relutância e resistência, a essência e o cará­ter inovador da Nova Aliança é de que a verdadeira lei do ser de Deus é o amor. Filósofos pagãos como Platão e Aristóteles haviam chegado através do raciocínio humano à existência de Deus, fa­lando dele em termos vagos e impessoais como a Causa Não-causada e o Movedor Imóvel. Os profetas de Deus haviam revelado o Deus de Abraão, Isaque e Jacó de modo mais íntimo e apaixo­nado. No entanto, apenas Jesus revelou que Deus é um Pai de incomparável ternura; que se tomássemos toda a bondade, sa­bedoria e compaixão dos melhores pais e mães que já viveram teríamos apenas uma sombra débil do amor e da misericórdia do coração do Deus redentor.

O cristianismo se move num clima completamente permeado de amor, e somos chamados a uma vida de discipulado compatí­vel com ele — não vivendo num nível pré-cristão, encarando Deus apenas em termos de leis, regras e obrigações. Deus é amor. Apenas o amor de Jesus Cristo manifesto na cruz é certo. Não podemos nem mesmo dizer "o amor de Deus", porque a verdade de que Deus é amor só conhecemos em última instância por meio da assinatura de Jesus.

Muitos anos atrás um grupo de cinco vendedores de computador viajaram de Milwaukee a Chicago para uma convenção anual de vendas. Todos eram casados e cada um garantiu à esposa que estaria de volta com tempo de sobra para o jantar. O encontro de vendas se estendeu, e os cinco chisparam do prédio e correram para a estação ferroviária. Um apito soou, sinalizando a partida iminente do trem. Enquanto os vendedores corriam pelo terminal, um deles chutou sem querer uma mesa delgada na qual pousava uma cesta de maçãs. Um menino de dez anos de idade estava vendendo maçãs a fim de pagar seus livros e uniforme escolares. Com um sinal de alívio, os cinco subiram a bordo do trem, mas o último sentiu um laivo de compaixão pelo menino cuja mesa havia sido derrubada.

Ele pediu a alguém do grupo que ligasse para sua mulher e dissesse a ela que ele chegaria duas horas atrasado. Ele voltou para o terminal e mais tarde observou que ficou feliz de tê-lo feito. O menino de dez anos de idade era cego. O vendedor viu as maçãs espalhadas pelo chão. Enquanto as recolhia, ele notou que várias delas estavam machucadas ou rompidas. Ele puxou a carteira e disse ao menino:

— Aqui estão 20 dólares pelas maçãs que danificamos. Espero não ter estragado o seu dia. Deus o abençoe.

Quando o vendedor começava a se afastar, o menino cego chamou-o e perguntou:

— Você é Jesus?

Que Jesus é esse que é campo magnético para tanta gente e pedra de tropeço para outros?

Jesus é o revelador da natureza da divindade. Parafraseando o prólogo de João: Quando todas as coisas tiveram início, já era o Verbo. O Verbo habitava com Deus, e Deus era o Verbo. Em outras palavras, quem olhasse para Jesus veria Deus, pois "quem me viu viu ao Pai" (Jo 14:9). Jesus é a completa expressão de Deus. Por meio dele e de ninguém mais, Deus falou e agiu. Quem o encontrava era encontrado, julgado e salvo por Deus. E disso que os apóstolos davam testemunho. Nesse homem, em sua vida, morte e ressurreição eles haviam experimentado Deus em ação.

Pois "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2Co 5:19). Deus investiu-se por completo no homem Jesus de Nazaré. Em Jesus toda a plenitude de Deus habita. O que Deus é, Cristo é. "Quem crê em mim crê, não em mim, mas naquele que me enviou" (Jo 12:44). Jesus revela Deus sendo integralmente transparente para ele. O que havia estado oculto em mistério está claro em Jesus — que Deus é amor. Nenhum homem ou mulher jamais amou como Jesus Cristo.

Creio que em algum ponto de sua jornada humana Jesus foi arrebatado pelo poder de uma grande afeição e experimentou o amor de seu Pai de um modo que rompeu todos os limites de compreensão anteriores. Quaisquer que tenham sido as manifestações exteriores, o batismo de Jesus Cristo no rio Jordão foi uma experiênela pessoal tremenda. Os céus se abrem, o Espírito desce em forma de pomba e Jesus ouve as palavras: "Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo" (Mc 1:11). O Pai fala com ele com palavras de terno amor. A resposta de Jesus ao longo de toda uma vida, alçando-se do fundo de sua alma, é Abba — um termo mais íntimo do que Pai, e que depois daquele dia está sempre no cerne de sua oração.

A experiência de Abba é a fonte e o segredo do ser de Cristo, de sua mensagem e maneira de viver. Ela pode ser compreendida apenas pelos que compartilham dela. Até que nos encontremos com o Pai de Jesus e o experimentemos como um Papai amoroso e perdoador é impossível compreender o ensino de Jesus a respeito do amor.

A fim de apreender sua implacável ternura e amor apaixonado por nós, devemos sempre retornar a sua experiência de Abba. Jesus experimentou Deus como terno e amoroso, cortês e gentil, compassivo e perdoador: como riso pela manhã e conforto ao anoitecer. Abba, apelativo coloquial utilizado por criancinhas judias para dirigirem-se a seus pais e melhor traduzida como "papai" ou "papi", abriu a possibilidade de uma intimidade jamais sonhada e sem precedentes com Deus. Em qualquer outra religião mundial é impensável dirigir-se ao todo-poderoso Deus como "Abba".
Muitos muçulmanos, budistas e hinduístas são generosos e sinceros em sua busca por Deus. Muitos têm tido experiências místicas profundas. Porém, a despeito de sua imensurável profundidade espiritual, eles raramente ou nunca chegam a conhecer a Deus como Pai. De fato, a intimidade com Abba é um dos maiores tesouros que Jesus nos trouxe.70
Tampouco, de acordo com Joachim Jeremias, "Abba" tem paralelo na literatura hebraica — profética, apocalíptica ou de qualquer outra natureza. "Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11:27).

Abba. As conotações dessa palavrinha sempre nos escaparão. Sentimos nela, porém, uma intensa intimidade de Jesus com seu Pai. Tocamos o coração de sua fé. Chegamos a compreender a mente de Cristo.

As parábolas da misericórdia divina — a moeda perdida, a ovelha perdida, o filho perdido — estão enraizadas na própria experiência de Jesus com seu Pai. Ele fala à luz dessa realidade. Essas histórias destinavam-se não apenas a defender sua notória conduta pessoal ao lado dos pecadores, mas a apanhar de surpresa seus críticos, abrindo uma fissura em seu modo convencional de pensar a respeito de Deus. Jesus alfinetava seus oponentes com palavras que de fato significavam: "As prostitutas que não possuem qualquer integridade imaginada para proteger estarão dançando no reino enquanto vocês terão sua alegada virtude extinta!

Eu estava olhando para além do problema técnico que o homem havia me trazido. Eu via um garoto de 27 anos, um filho do Pai, cuja vida estava repleta de escolhas esquálidas e sonhos fracassados. O alcoolismo havia despedaçado sua vida, desmanchado o tecido de qualquer treinamento moral que ele tivesse recebido. Ele estava derrubado, alienado de si mesmo e de Deus. Um estranho numa terra estranha.

Lágrimas rolavam em meu rosto. Estendi os braços, abracei-o, segurei-o por um longo tempo e disse:

— Tenho uma palavra para você de seu irmão Jesus: bem-vindo ao lar.

Ele estava soluçando e perguntou:

— Diga-me quem é Jesus.

Contei-lhe a respeito de meu passado maculado e do Jesus que havia encontrado em minha necessidade. Oramos. Ele aceitou Jesus como seu Salvador. A luz irrompeu na escuridão. A paz encheu nosso coração.

Mais tarde, quando eu estava sozinho, o espectro da irregularidade canónica ergueu-se diante de mim, e senti um traço de culpa por não ter observado o processo oficial. Uma calma silenciosa veio quando orei: "Querido Jesus, se é uma falha ser assim tão afável com um pecador, trata-se de uma falha que aprendi com o senhor. Pois o senhor nunca repreendeu ninguém nem brandiu a Lei diante de ninguém que veio até o senhor buscando compreensão e misericórdia".

Mais adiante em seu ministério Jesus diria: "Eu e o Pai somos um", indicando uma intimidade de vida e de amor que desafia qualquer descrição. A Filipe ele diria: "Quem me vê, vê ao Pai". Jesus é o rosto humano de Deus, com todas as atitudes, atributos e características do Pai.

Tantos cristãos que conheço param em Jesus. Permanecem no Caminho sem chegar aonde o Caminho os conduz — ao Pai. Querem ser irmãos e irmãs sem serem filhos e filhas. Neles se cumpre o lamento de Jesus: "Pai justo, o mundo não te conheceu" (Jo 17:25).

Como o Pai o amou, Jesus nos amaria e nos convidaria a fazer o mesmo: "Amai uns aos outros assim como eu vos amei".

Jesus nos desafia a perdoar a todos que conhecemos e até mesmo a quem não conhecemos, e a ser cuidadosos o bastante para não nos esquecermos nem mesmo daquele contra quem demonstramos má vontade. Agora mesmo existe alguém que nos desapontou e ofendeu, alguém com quem estamos continuamente indignados e com quem somos mais impacientes, irritados, implacáveis e rancorosos do que ousaríamos ser com qualquer outra pessoa. Essa pessoa somos nós mesmos. Com absoluta freqüência estamos até o pescoço conosco. Estamos cansados de nossa mediocridade, revoltados diante de nossa inconsistência, entediados por nosso monopólio. Jamais julgaríamos qualquer outro filho de Deus com a selvagem autocondenação com que esmagamos a nós mesmos. Jesus disse que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Devemos ser pacientes, gentis e compassivos com nossa pessoa do mesmo modo que tentamos amar nosso próximo. Devo ser com o Brennan o que fui com aquele alcoólatra em recuperação de 27 anos de idade.

Por meio de um conhecimento íntimo de Jesus Cristo, aprendemos a nos perdoar. A medida que permitirmos que sua bondade, paciência e confiança para conosco nos conquistem, seremos libertos daquela antipatia por nós mesmos que nos persegue por onde vamos. E simplesmente impossível conhecer o amor de Jesus por nós sem que alteremos nossa opinião e sentimento a respeito de nós mesmos e nos unamos a ele em seu amor de plena aceitação por nós. O perdão de Cristo nos reconcilia com ele, conosco e com toda a comunidade. De acordo com Bernard Bush, um modo de saber como Jesus se sente a seu respeito é o seguinte: se você se ama intensa e livremente, então seus sentimentos a seu respeito correspondem perfeitamente aos sentimentos de Jesus.

A intimidade de Jesus com Abba Deus é traduzida num relacionamento íntimo com seus discípulos. Ele nos traz para perto de si e fala com palavras de intensa familiaridade: "Meus filhinhos, não estarei com vocês por muito mais tempo[...] Não os deixo órfãos. Voltarei para vocês. Vou preparar-lhes lugar, e voltarei para levá-los comigo". O Jesus falando aqui não é meramente um professor ou um modelo para ser imitado. Ele se oferece a cada um de nós como companheiro de jornada, como amigo paciente, gentil, nunca rude, rápido para perdoar e cujo amor não mantém registro de deslizes.

Esta é uma bela dimensão do discipulado, e Jesus concede grande ênfase a ela: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo" (Ap 3:20). "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada" (Jo 14:23). "Já vos não chamarei servos [...] mas tenho-vos chamado amigos" (Jo 15:15).

Agostinho disse a respeito desse último versículo: "Um amigo é alguém que sabe tudo a seu respeito e ainda assim o aceita". Este é

O sonho de que todos compartilhamos: conhecer um dia uma pessoa com quem eu possa realmente conversar, que compreenderá a mim e as palavras que digo, e ouça mesmo aquilo que não é dito — e continue ainda assim a gostar de mim.71 Jesus Cristo é a realização desse sonho.

Muitos anos atrás escrevi:
Amigo é alguém que permanece com você no mau tempo da vida, protege-o quando você está desprevenido, restringe sua impetuosidade, deleita-se em sua presença, perdoa suas falhas, não o abandona quando os outros o deixam na mão e compartilha do que você estiver comendo no café da manhã (da mesma forma que Jesus fez na praia do mar de Tiberíades) — peixe com batata frita, alfajor, pizza fria ou bolo de chocolate com leite.
Como nos traz à lembrança o antigo hino: Em Jesus amigo temos! Uma realidade que estonteia a mente e ofusca a imaginação! O amado Filho do Pai quer que conheçamos, percebamos e experimentemos o fato de sermos nós mesmos objeto de amor "Como o Pai me amou, assim eu também vos amei" (Jo 15:9).

Esse senso de se saber amado é verdadeiro para você? Ou tornou-se gasto pela repetição? Ou, como uma faca abrindo caminho pelo papel de parede, ele tem conduzido a um dramático avanço rumo à intimidade com Deus? Poucos anos atrás, quando eu estava em San Jose, na Califórnia, uma mulher de cerca de 35 anos veio até mim e disse:

— Nunca nos conhecemos, mas quero que você saiba que a frase no topo da página oito de seu livro A stranger to self-hatred72 mudou minha vida.

Quando perguntei qual era a frase, ela citou de memória:

— Jesus nos ama como somos e não como deveríamos ser, já que nenhum de nós é como deveria ser.

A vida de Paulo está ancorada em sua amizade íntima com Jesus. "Para mim o viver é Cristo" (Fp 1:21). Diariamente Paulo entrega sua vida a Jesus, confia nele, louva-o, pede a ele aquilo de que precisa, encontra nele sua razão de ser e com gratidão aceita seu amor, sabendo que ele não conhece sombra de mudança. Ele "amou-me e entregou a si mesmo por mim" (Gl 2:20). Nunca deixe que essas palavras sejam interpretadas como mera intelectualização de Paulo. O amor de Jesus Cristo era um realidade ardente e divina para ele, e sua vida era incompreensível a não por ele. Paulo teria sido soterrado na história como um zelote desconhecido não fosse seu amor imenso e intransigente pela pessoa de Jesus. Se você abordasse Paulo e quisesse discutir a reforma paroquial ou a adoração contemporânea, ele responderia: "Não tenho nenhuma compreensão de igreja ou de religião que não seja a do homem sagrado, Jesus, que me amou e se entregou por mim".

Paulo usa a frase "em Cristo" 164 vezes em suas cartas para descrever o que o discipulado representa. Ele é uma poderosa testemunha da conectividade que Jesus descreveu em seu discurso de despedida: "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15:5).

A videira é a mais íntima de todas as plantas, cresce sobre si mesma, para dentro e ao redor de si, intrincadamente conectada a cada uma de suas partes. A imagem de Jesus, "Eu sou a videira", é a perfeita expressão de intimidade.

O amor paternal de Abba é revelado como amor fraternal em nosso irmão Jesus. Quão profunda é a intimidade em cujo domínio somos convidados a entrar! Orar é simplesmente relaxar e deleitar-se em Jesus sem nenhum compromisso exceto celebrar a profunda afeição entre vocês. Esse encontro interpessoal aprofunda o senso de sermos amados e altera nosso relacionamento com os outros.

Tendemos a restringir nosso afeto e nossa aceitação para alguns selecionados. Porém Jesus aprofunda a amizade humana da mesma forma que aprofunda tudo que toca. Sem ele, achamos difícil nos relacionarmos com determinadas pessoas de modo amoroso e respeitador. Certa cerimônia aliada a uma atitude crítica nos impede de oferecer a essas pessoas o que elas mais carecem — encorajamento para sua vida. A amizade de Jesus, porém, nos capacita a ver os outros como ele via os Doze: imperfeitos, mas bons, curadores feridos, filhos do Pai. Descobrimos que somos compatíveis com um espectro amplo de pessoas com as quais costumávamos não nos sentir à vontade e passamos a orar como Thomas Merton: "Obrigado, Senhor, porque sou como o restante dos homens".


ESTOU ESCREVENDO ESTAS PALAVRAS numa cabana gelada e pouco iluminada perdida nas montanhas de Santa Cruz, no norte da Califórnia. Se você imaginar uma letra V, minha cabana fica exatamente no fiando do vale onde convergem as linhas diagonais — as linhas representam as montanhas que se erguem de ambos os lados. Estou aqui há seis dias em silêncio e isolamento. Este retiro tem sido uma jornada do absurdo à obediência. Absurdo vem do latim surdus: "surdo". Obediência vem do latim audire: "ouvir". Nosso mundo agitado com demasiada freqüência nos faz surdos à voz de Deus que fala conosco no silêncio.

Portanto não é de surpreender que com freqüência nos perguntemos, em meio a nossa vida ocupada e preocupada, se algo está de fato acontecendo. Nossa vida pode estar cheia a ponto de transbordar — tantos eventos e compromissos que nos perguntamos de que forma conseguiremos nos desincumbir de tudo. Ao mesmo tempo, porém, podemos nos sentir insatisfeitos, perguntando-nos se por alguma coisa vale a pena viver. Estar cheio sem estar satisfeito, ocupado porém entediado, envolvido porém solitário — são esses os sintomas do estilo de vida absurdo que nos torna desatentos às realidades espirituais.

Venho aqui ouvir a Voz sussurrando na natureza, na Palavra e nos sacramentos, nas pessoas que cruzaram meu caminho e tocaram minha vida. Hoje vagueei por uma trilha ecológica que atravessa uma densa floresta de sequoias, cantarolando em voz alta: "Quando pelas florestas e clareiras eu vaguei...". Tenho uma vívida imagem de mim mesmo olhando para o topo de sequoias de 45 metros de altura em silêncio, sentindo-me minúsculo e insignificante e sussurrando: "Quão grande és tu! Oh, Abba, que é o homem para que te lembres dele?".

Tenho uma triste confissão a fazer: até esta semana eu jamais havia sido capaz de experimentar Deus na beleza natural. Algo não desenvolvido ou fendido dentro de mim, ou talvez aprisionado subconscientemente numa visão de mundo em que apenas coisas úteis importam e coisas supérfluas como sequoias e rosas não são dignas de nota, tornou-me incapaz de encontrar Deus na natureza. Porém o amor de um pequeno filhote de pomerânio chamado Binky-Boo, cuja presença relutantemente permiti dentro de casa por causa de nossa filha Nicole, abriu-me para descobrir a presença de Deus na criação e encontrar com Shakespeare "línguas em árvores, livros nas correntes dos ribeiros, sermões em pedras e o bem em todas as coisas".73

É apenas este Jesus ferido que provê a revelação final do amor de Deus. O Cristo crucificado não é uma abstração, mas a resposta última a distância que o amor pode ir, que medida de rejeição ele suportará, quanto egoísmo e traição será capaz de suportar. O amor incondicional de Jesus Cristo pregado na cruz não hesita diante de nossa perversidade. "Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças" (Mt 8:17).

Em 1960 um pastor da Alemanha Oriental escreveu uma peça chamada O sinal de Jonas. A última cena representava o julgamento final. Todos os povos da terra estão reunidos na planície de Jeosafá aguardando o veredicto de Deus. Eles não aguardam pacificamente, no entanto; ao contrário, estão reunidos em pequenos grupos, conversando cheios de indignação. Um dos grupos é um ajuntamento de judeus, facção que conheceu pouca coisa além de perseguição religiosa, social e política ao longo de sua história. Entre eles há vítimas dos campos de extermínio nazistas. Confabulando, o grupo exige saber que direito Deus tem de emitir a sentença deles, em especial um Deus que habita eternamente na segurança do céu.

Outro grupo é formado por afro-americanos. Eles também questionam a autoridade do Deus que nunca sentiu os infortúnios do homem, nunca conheceu a miséria e as profundezas de degradação humana a que eles foram submetidos nos porções dos navios de escravos. Um terceiro grupo é composto de pessoas que nasceram de relacionamentos ilegítimos, tendo sido motivo de piada e de riso durante toda a vida.

Centenas desses grupos estão espalhados pela planície: os pobres, os afligidos, os maltratados. Cada grupo aponta um representante para colocar-se diante do trono de Deus e desafiar seu direito divino de emitir a sentença sobre seus destinos imortais. Eles se reúnem em conselho e decidem que esse Deus remoto e distante que nunca experimentou a agonia humana não é qualificado para assumir a tribuna do julgamento a não ser que esteja disposto a adentrar o estado sofredor e humilhado do homem e suportar o que os homens suportaram.

A redação da conclusão final deles: "Deves nascer judeu; as circunstâncias do teu nascimento devem ser questionadas; deves ser mal entendido por todos, insultado e zombado por teus inimigos, traído por teus amigos; deves ser perseguido, espancado e finalmente morto num lugar público da forma mais humilhante".

Essa é a sentença passada a Deus pela assembléia. O clamor ergue-se a uma altura febril enquanto aguardam resposta. Então uma luz brilhante e estonteante ilumina a planície inteira. Um a um, todos que emitiram sua sentença contra Deus quedam-se silenciosos. Pois, guarnecendo o céu para todo o mundo ver, está a assinatura de Jesus Cristo com esta inscrição: "Cumpri minha sentença".





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   14


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal