A baianidade nas letras de Caetano Veloso e Gilberto Gil


Os lados negativos dos baianos



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7.9. Os lados negativos dos baianos


Assim como muitos compositores da primeira metade do século XX, também Caetano Veloso e Gilberto Gil admitem uma das qualidades negativas, tão freqüentemente atribuída aos bainos – a preguiça. Apesar de a preguiça não poder ser considerada algum elogio, eles, porém conseguem transformá-la àz vezes em primor, em algo necessário para que o resultado do trabalho, do empenho renda os frutos: “Sem correr, bem devagar / A felicidade voltou pra mim” (Gil – “Bem devagar”) ou “Agora deve estar chegando a hora de ir descansar / Um velho sábio na Baha recomendou: Devagar” (“Cada tempo em seu lugar”). Também da autoria de Gilberto Gil é a canção “Ladeira da Preguiça” em que, cantando sobre uma das ruelas de Salvador, confessa sua preguiça: “Essa ladeira / Que ladeira é essa? / Essa é a ladeira da preguiça / Preguiça que eu tive sempre “. Claro que ninguém suspeita que Gil ou Caetano sofressem da preguiça, porque a obra tão ampla não podia surgir sem grande empenho dos autores, mas a declaração da preguiça nas canções pode servir, então, como a recepção, feita com exagero, do preconceito aos baianos.

Entre compositores da primeira metade do século XX o tema da pobreza baiana não é muito freqüente. Quando a pobreza é referida, em geral, é suavizada pela alegria, fé ou otimismo. Assim fez também Gilberto Gil: “Onde a gente não tem pra comer / Mas de fome não morre” ou: “Pobre não tem valor / Pobre é sofredor / E quem ajuda é Senhor do Bonfim” (“Madalena“). Mas Gilberto não foi só eufemístico. Nos anos 80, com Caetano Veloso foram vozes um pouco destoantes e abordaram alguns dos mais ardentes problemas baianos. Gil novamente falou da pobreza, descrevendo a personagem principal do livro de Jorge Amado por excelência baiano nomeado Jubiabá, Antônio Balduino: “Trava com o destino uma batalha cega / Pega da navalha e retalha a barriga / Fofa, tão inchada e cheia de lombriga / Da mostra miséria da Bahia”. A cidade Salvador tem muitos problemas. Um deles é o fato, que desde o fim da escravidão, a maior parte da população descendente dos escravos ainda não encontrou os efetivos meios da sustentação. Também permanece limitado e deficiente o acesso à educação, ao mercado formal de trabalho ou à assistência de saúde.

Exemplos de abordagem desse quadro podem ser encontrados em várias canções, como nas letras de Caetano Veloso, que além de citar os problemas referidos, fez protesto contra a sujeira de Salvador, que durante muito tempo foi considerada uma marca da cidade: “Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano“ (“Neide Candolina”). Ou, ainda com maior veemência se queixa de Salvador: ”Salvador, isso é só Salvador / Sua suja Salvador../..A cidade, a baía da cidade / A porcaria da cidade”.

Veloso, consciente do desequilíbrio na distribuição de renda na sociedade baiana, se aproximou muito da poesia do poeta barroco Gregório de Mattos, que também falou desse tema, e até musicou os versos do chamado Boca do inferno76: “Triste Bahia, oh, quão dessemelhante estás / E estou do nosso antigo estado / Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado / Rico te vejo eu já, tu a mim abundante / Triste Bahia, oh, quão dessemelhante”. A canção foi gravada em 1972 no disco “Transa”, após o músico deixar definitivamente o exílio. Caetano Veloso aproveitou dois quartetos do soneto do Boca do inferno e acrescentou-lhes versos da própria lavra. Na primeira estrofe da “Triste Bahia”, quarto verso, Caetano troca o verbo “ver” no pretérito perfeito do indicativo (vi) de Gregório pelo verbo no presente do indicativo (vejo) e faz ainda outras mudanças, principalmente do tempo verbal.77 Essas, além de trazerem o enunciado para o presente da enunciação, sugerem que a degradação político-existencial afeta o autor, exilado pela ditadura militar, como a realidade brasileira, ambos tocados pelas ordens extremamente impositivas dos atos institucionais e do fechamento político do país.78 As alterarações dos versos acentuam a contradição, porque tanto Caetano Veloso como a Bahia estão em estado pobre.

Outro aspecto típico para o contexto baiano, que é bastante abordado por Gilberto Gil e Caetano Veloso, é o abuso do poder político. Quando se fala do poder, é quase sempre em suas formas negativas, ou seja, autoritarismo, nepotismo, clientelismo, demagogia ou populismo. Como já dissemos, a Bahia é ancorada em tradições e a certa percepção tradicional, aristocrática do exercício de poder influencia a Bahia.

Após a queda da ditadura, Caetano e Gil comentam essas “manchas” com muita freqüência: “Ninguém / Ninguém é cidadão “. Que ninguém é cidadão fica comprovado nos métodos truculentos usados pelo poder público para a manutenção da ordem: “Quando você for convidado pra subir no adro / Da Fundação Casa de Jorge Amado / Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros pretos / De ladrões mulatos / E outros quase brancos / Tratados como pretos“ (Veloso e Gil – “Haiti”). Caetano exprime um certo otimismo: chega a escolher nas eleições a pessoa certa: “A mim me bastava que um prefeito desse um jeito / Na cidade da Bahia / Esse feito afetaria toda a gente da terra / E nós veríamos nascer uma paz quente” (”Vamos comer”).

A pessoa certa podia ser Gilberto Gil que até queria candidatar em fins da década de 80 para o cargo de prefeito da cidade de Salvador. Mas o governador da Bahia de época, Waldir Pires não aprovou a candidatura de Gilberto para o prefeito e ele podia candidatar só para vereador. O poeta fez uma canção que pode servir como a polêmica com seu rival - governador, mas também como a crítica dos eleitores que se interessam mais em títulos, riqueza dos candidatos e relações tradicionais do poder, antes de preferir o próprio programa político: “Pra prefeito, não / E pra vereador: / Pode, Waldir? Pode, Waldir? Pode, Waldir? / Prefeito ainda não pode porque é cargo de chefia / E na cidade da Bahia / Chefe!, chefe tem que ser dos tais / Senhores professores, magistrados / Abastados, ilustrados, delegados / Ou apenas senhores feudais / Para um poeta ainda é cedo, ele tem medo / Que o poeta venha pôr mais lenha / Na fogueira de São João / Se é poeta, veta! / Se é poeta, corta! / Se é poeta, fora! / Se é poeta, nunca! / Se é poeta, não!” Dessa primeira experiência política, não plenamente bem sucedida para Gilberto Gil, surgiu um livro escrito em parceria com o antropólogo e amigo Antonio Risério, intitulado O poético e o político e outros escritos.



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