A baianidade nas letras de Caetano Veloso e Gilberto Gil



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3. A baianidade

A própria análise dos elementos baianos na obra de Caetano Veloso e Gilberto Gil não pode ser feita sem o esclarecimento do conceito de „baianidade“ que pode ser chamado, segundo vários autores, também de „identidade baiana“, „idéia da Bahia“ ou „o que faz ser baiano“. Mas novamente queremos sublinhar que essa baianidade diz respeito apenas à cidade de Salvador e ao Recôncavo da Baia de Todos os Santos com as cidades históricas como Santo Amaro da Purificação, Cachoeira, São Felix e outras.

O conceito de baianidade tornou-se tão frequente que mereceu até um verbete num dos dicionários da língua portuguesa, no Aurélio. Lá podemos ler: “1. Maneiras, atitudes, sentimento, próprios de baiano. 2. Amor intenso à Bahia, à sua gente, aos seus costumes”. O sociólogo baiano Milton Moura, doutor na UFBA, tentou definir a baianidade mais complexamente: “A baianidade é entendida como um texto identitário, ou seja, que realiza a asserção direta de um perfil numa dinâmica de identificação. É compreendida como um ethos baseado em três pilares: a familiaridade, que supõe a ambivalência numa sociedade tão desigual, a sensualidade associada à naturalização de papéis e posturas e a religiosidade que costuma acontecer como mistificação numa sociedade tão tradicional”.17

Então, Moura propôs aqui os três pilares básicos da baianidade, a familiaridade, a sensualidade e a religiosidade. Nessas categorias podem caber ainda outras que parecem mais explícitas e vêm à cabeça de muitas pessoas logo quando pensam na Bahia a nas características do baiano típico. Mais acertado nos parece a alegria que é a essência das festas de Salvador e do Recôncavo. Acrescentaríamos ainda a hospitalidade e a cordialidade, mas essas talvez caibam na categoria da familiaridade do sociólogo Milton Moura.

A sensualidade dos baianos poderia ser às vezes trocada até pela sexualidade, e o sexo não pode estar fora da pauta da baianidade. O assunto sempre esteve associado à Bahia, e principalmente às mulheres baianas, e muitas vezes foi abordado na literatura, chega lembrar a Rita Baiana, mulata assanhada do romance de Alúzio Azevedo ou as numerosas personagens do escritor Jorge Amado. A imagem dos baianos como sexualmente disponíveis, assecíveis, até lascivos é muito espalhada entre os brasileiros do Sul e também entre os estrangeiros. Muitos deles escolhem a Bahia só por causa dessa fama e vêm lá como turistas sexuais.

Falta ainda um aspecto da baianidade que é muito imporante. Podemo-lo chamar a primazia. Os baianos se sentem muito orgulhos de sua maior cidade que é cheia de antiguidade histórica. São bem conscientes da importância de Salvador como a primeira capital do Brasil, „a primogênita de Cabral“18. Stefan Zweig, com seu olhar europeu, foi enfático: „A Bahia é para o Novo Mundo o que para nós são as metrópoles milenárias“.19 A Bahia apresenta uma identidade cultural específica, orgulhosa de seu passado, costumes e tradições. Nenhum outro estado brasileiro aprecia tanto as tradições e a originalidade. Desse fato também provém a auto-estima dos baianos e a certa sensação de diferença. Milton Moura disse o seguinte: „Parece que um dos itens da baianidade é justamente sentirmo-nos diferentes. Claro, toda a identidade é contrástica, etc, etc. Mas a própria diferença, como módulo, é um valor para os baianos…não?20

Os conceitos da baianidade referidos (a alegria, a familiaridade, a cordialidade, a hospitalidade, a sensualidade/a sexualidade, a religiosidade, a primazia) são atribuídos a todos os baianos e passam a ser algo como a marca registrada da Bahia. Essas construções são muitas vezes utilizadas, por exemplo, pela Bahiatursa (principal órgão responsável pelo turismo na Bahia), como atração para turistas (e eles mesmo vêm a Salvador para ver a primeira capital do Brasil, curtir as festas, admirar as belas baianas ou viver uma experiência religiosa extraordinária no terreiro do candomblé), e já são tão enraizadas no pensamento dos brasileiros, assim como dos estrangeiros, que se afinal tornaram para muitas pessoas a verdade incontestável.

Todas as características atribuídas aos baianos nos parágrafos anteriores são positivas. Será que o baiano é sem jaça? Claro que não. A visão brasileira da Bahia e dos baianos é carimbada por uma certa ambivalência. A Bahia com seus habitantes não é só a terra prometida, sedutora, idealizada. Há também a opinião oposta em que a expressão „baiano“ ganhou a conotação pejorativa. É associada às grandes massas migratórias dos nordestinos para São Paulo, que foram recebidas na metrópole sulista com muito receio. Naquela época, na década de 40 do século passado, chegavam só os nordestinos sem qualificação, ameaçando assim as classes populares. Os paulistas reagiram desse jeito: começaram a inventar piadas sobre o baiano porque o representante mais visível dos nordestinos foi o baiano. Até surgiu a nova palavra com sentido despreciativo, “baianada“. Significa, segundo o dicionário Aurélio, “ação desleal, suja; sujeira, patifaria“. Essa visão do baiano permanece nos Estados do Sul até hoje e os baianos lá têm que enfrentar muitos preconceitos. O baiano é a um só tempo idealizado e depreciado, amado e hostilizado. Além de considerado “burro“, ele é também preguiçoso. O mito da preguiça baiana é um traço do preconceito contra os imigrantes, mas pode significar também o preconceito racial porque o baiano tem sangue negro na veia. E justamente o rótulo que mais irrita os baianos é a fama de preguisoso. É verdade que os próprios músicos baianos forneceram os ingredientes para esta atribuição. Eles muitas vezes mostraram as características diferenciadas em relação àquelas associadas normalmente às maiores cidades brasileiras, como por exemplo, diligência, empenho, indústria e celeridade com que tudo se faz.21 Mas a visão idealizada também não desapareceu.

Tudo que foi dito acima é a imagem da Bahia mais aceita entre os brasileiros a também os estrangeiros e é necessário dizer que se trata de uma imagem criada, fala-se até do mito da Bahia. Mesmo nesse sentido pronunciou-se sobre a Bahia Caetano Veloso e deixemos soar o pensamento dele. A citação é longa, mas preciosa:

“Olha, vou começar falando da Bahia porque é o que mais sei, eu sou de lá...Tem o seguinte: há um número muito grande de bons artistas, na música ou nas outras áreas, que são baianos. Por outro lado, a Bahia foi a primeira capital e tem ainda hoje vários bairros onde a arquitetura é interessantíssima, e é uma cidade com maioria dos negros no Brasil, é uma cidade basicamente negra, a gente pode dizer. Então, é uma cidade que desperta sempre...por exemplo, no tempo do teatro de revista todo show tinha que terminar com uma homenagem à Bahia. As escolas de samba volta e meia desfilam com um enredo sendo Bahia, e há milhões de músicas feitas sobre a Bahia, e há todo um mistério, um mito e um folclore em torno da Bahia, porque a Bahia ficou sendo como uma raiz, como sendo um lugar...onde o Brasil é mais profundo, essa coisa toda. Por causa desses elementos e da mitificação que esses elementos receberam, não é? Então, num país basicamente sem raízes, se você for comparar qualquer país da América com os países europeus ou com países africanos, você vai notar que a América toda é uma cafonada de cima e baixo, ou seja, é um continente sem passado, né? O passado americano resume-se no aniquilamento das nações indígenas, né? Claro que também no que veio depois disso, ou seja, na colonização europeia, inglesa, espanhola, francesa, holandesa ou portuguesa, e na importação de escravos e este detalhe é da maior importância neste nosso continente. Então, você...eu tô falando como se soubesse, meio professoralmente, mas não é isso...são coisas que passam na minha cabeça e eu vou falando...Você tem permanência de uma língua européia, uma continuação, mas já em outras condições que as de uma cultura européia, entendeu? Então isso dá uma bagunça danada, você tem ao mesmo tempo fossas, o americano tem fossas, o americano todo ele, do Canadá a Patagônia, fossas por falta de raízes, fossas de importação, necessidade de afirmar o caráter nacional artificialmente, coisa que não acontece na Europa, tá entendendo? Quer dizer, isso é uma visão que eu tenho. Sei pouco de história, mas é o que sinto nas coisas de agora, talvez nem seja isso historicamente, mas é uma maneira de dizer o que vejo atualmente. Então, a Bahia, no Brasil, tem feito um pouco esse papel de mito de raiz, tá entendendo? Eu não quero desmentir não, acho que a Bahia tem força, é um lugar incrível...o reconcavo baiano é um negócio maravilhoso, mas tenho uma distorção muito grande pra falar porque sou de lá. Por um lado tô mais apto a falar porque vivi todo o tempo lá, mas por outro sei que é uma visão distorcida, profundamente ligada ao lugar. Mas tenho maturidade bastante pra saber que não interessa pra gente...ultimamente vem se falando muito aqui no Sul que a Bahia tem tudo concentrado, que a Bahia é que vai dizer as coisas, que da Bahia que sai tudo, não sei o quê.”22

Muitos baianos dizem que a baianidade é uma identidade construída para satisfazer interesses como os da indústria do turismo, por exemplo. E é criada pela mídia que resolveu investir fundo nessa idéia de uma Bahia exótica e embarcou na supervalorização do que acha que é cultura afrobrasileira porque esta agrada muito e também vende por causa do exotismo. E a mídia encontra-se nas mãos dos brancos, portanto podemos dizer que a identidade baiana não é criada pelos próprios baianos (preponderamente negros), mas pela minoria branca que utiliza o mito do exotismo ligado ao negro.23 Nesse aspecto podemos unir a baianidade com a identidade afro-baiana. Mas aqui é necessário mais uma vez salientar que não existe uma marca e não existe uma identidade; só existe a tendência de generalizar, padronizar e querer tipificar.

Exitem duas teorias de construção da baianidade. Uma diz que existe uma Bahia “endógena” e a baianidade emerge de baixo para cima. Existe o ethos baiano, uma alma da cidade que se constituiu depois de 400 anos de sincretismo, da mistura afro-luso-tupi. Nos últimos 20 anos vem se constituindo outra teoria, dizendo que isso é um mito constitutivo da identidade, mas não passa de um mito. Segundo essa teoria, a Bahia foi construída de fora para dentro porque, em primeiro lugar, ela é uma imagem opositiva daquilo que foi o Rio de Janeiro no século antepassado. O Rio tornou-se a metrópole, capital do Brasil, e a Bahia tentou se construir por oposição. Portanto, diferentemente do Rio de Janeiro, vai representar a tradição, o passado, as raízes e também a negritude. Na primeira metade do século XX a metrópole cultural e industrial brasileira desloca-se para São Paulo e nesse momento também São Paulo vai produzir uma forte imagem da baianidade, colocando em oposição a crescente megalópole, que representa a civilização, o trabalho, a modernidade, a civilidade e a razão, e a Bahia com seu anacronismo, preguiça, passado, exuberância e mística.24

É claro que nos encontramos aqui com uma mera estereotipização da Bahia. O antropólogo da UFBA Roberto Albergaria vê isso assim: “O que o baiano é? Predominante evangélico. O que o baiano quer? É comer McDonald´s, não acarajé. É botar sandalinha no pé? Não, é botar tênis Nike. Mas não interessa dizer isso, por que a imagem da Bahia que vigora é a imagem da Bahia negra, tradicional, da natureza, da mística.”25 Parece que o baiano hoje em dia, segundo Albergaria, não é nem católico, nem segue as religiões afro-brasileiras; não gosta da culinária baiana e de outras coisas tradicionais. Apesar disso, temos várias camadas superpostas de imagens tradicionais da Bahia, que vão se acrescentando e se intensificando pela força da mídia e por isso o mito da Bahia hoje é tão forte. Aquela baianidade tradicional, aquela cidade praieira, festeira, que Caymmi canta, que Jorge Amado descreve, que Vergé fotografa e etniciza, não existe mais. Encontramo-nos na época, quando por causa da globalização muita gente sente a crise da identidade. Provavelmente por causa disso, muitos baianos insistem em manter a baianidade viva. Acabamos este capítulo com uma certa desconstrução do termo da baianidade, mostrando que ele já não corresponde plenamente à sua característica (maneiras, atitudes, sentimento, próprios de baiano). No trabalho a seguir, porém, vamos continuar a usar o termo porque está estreitamente ligado ao imaginário das canções analisadas.



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