A baianidade nas letras de Caetano Veloso e Gilberto Gil



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7.6. Primazia


A Bahia é retratada muitas vezes como lugar onde as coisas aconteceram e acontecem primeiro, onde começam, nascem, surgem. Evidentemente, este discurso tenta retomar a história do Brasil – a Bahia é mencionada como local onde os descobridores portugueses aportaram pela primeira vez e Salvador como a primeira capital do país. Desse começo do Brasil, passa-se a várias derivações – local onde se aprende a fazer certas coisas, onde certos sentimentos e hábitos nascem. Com o passar do tempo, o tema da Bahia como a fonte do tudo não perde sua força – muito pelo contrário. Na virada do século XX, com as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, o governo da Bahia relembra isso através de um slogan publicitário de circulação nacional “Bahia – o Brasil nasceu aqui”.72 A idéia da primazia significa para muitos ao mesmo tempo prioridade, superioridade e respeito, o que pode ser entendido como uma conseqüencia, um resultado do pioneirismo. No discurso da baianidade, então, o pioneirismo não é reivindicado aleatoriamente porque ele frequentemente serve como um dos importantes argumentos para justificar a superioridade baiana.

Gilberto Gil e Caetano Veloso referem-se com muito prazer a esta primazia da Bahia, usando as palavras “primeiro“, “nascer“ ou mesmo “primazia“. A canção “Iniciática” de Gilberto sugere já com seu título que algo se inicia, nasce: “O que veio e ser você / Nasceu aqui / Neste lugar do Plano / Inclinado a dar início / A um movimento regular / De descida e subida / Dos homens da cidade / Adormecida / Do Salvador”. Temos aqui um curioso jogo das palavras para referir-se ao plano inclinado do Pilar, que está situado no lugar onde a cidade começou a ser edificada, na área ao redor da Praça da Sé.

Em outra canção, Gil enumera vários pioneirismos baianos. A Bahia tem algumas primazias, mas não todas são de bem. Foi primeira na colonização, no desbravamento e também na crueldade, pois a formação da sociedade brasileira se deu através do trabalho forçado: “Que Deus entendeu de dar a primazia / Pro bem, pro mal / Primeira mão na Bahia / Primeira missa / Primeiro índio abatido / Também que Deus deu / Que Deus entendeu de dar toda magia / Pro bem, pro mal / Primeiro chão da Bahia / Primeiro carnaval / Primeiro pelourinho / Também que Deus deu”. Caetano Veloso continua no mesmo estilo: “Viva a princesa menina, uma estrela / Riqueza primeira de Salvador“. Também aprecia a tradição que ainda influencia a vida dos baianos em Salvador: “Nas sacadas dos sobrados / Da velha São Salvador / Há lembranças de donzelas / Do tempo do imperador / Tudo, tudo na Bahia / Faz a gente querer bem / A Bahia tem um jeito”.

Outro pioneirismo baiano, que é muitas vezes lembrado já em várias canções da primeira metade do século XX, diz respeito ao lugar onde surgiu o mais conhecido estilo musical brasileiro, o samba. Há uma velha disputa sobre essa questão: para alguns, por exemplo Vinícius de Moraes, “o samba nasceu lá na Bahia”, enquanto outros juram que foi no Rio de Janeiro. Com muita elegância, Caetano Veloso entra na disputa, creditando, é claro, o papel de pioneira à Bahia, sem deixar de render homenagem ao Rio, que é o continuador da tradição. Uma das mais conhecidas escolas cariocas de samba é também chamada Estação Primeira da Mangueira e para Caetano a Bahia é então a “Estação primeira do Brasil”. A Bahia e o Rio aparecem como semelhantes, por exemplo no samba, na arte, inclusive porque eram baianas as primeiras mulheres que promoveram em suas casas batuques, dos quais se desenvolveu o samba: “A Bahia / Estação primeira do Brasil / Ao ver a Mangueira nela inteira se viu / Exibiu-se sua face verdadeira / Que alegria / Não ter sido em vão que ela expediu / As Ciatas pra trazerem o samba pra o Rio / (Pois o mito surgiu dessa maneira)”.

Quando se fala tanto em pioneirosmo, primazia, tradição, é difícil escapar de noções como autenticidade, pureza, forma, verdadeira, certa: “Rompeu-se a guia de todos os santos / Foi Bahia pra todos os cantos / Foi Bahia / Pra cada canto, uma conta...Daquela terra provinha / Tudo que esse povo tinha / De mais puro e de mais seu” (Gil).

No discurso da baianidade há vozes que defendem a proveniência baiana como uma característica melhor e portanto também Caetano Veloso e Gilberto Gil revelam em sua obra a altivez, o orgulho de ser baiano, com maior tradição etc.: “É moda dizer que o baiano está por cima“ (Gil– “Ninguém segura este país”). Em várias músicas podemos observar o orgulho com que eles confessam sua origem baiana: „Barra-Barris-Barroquinha / Ó, Maria / Faz tempo que você sabe / Que eu também sou da Bahia” (Gil – “O, Maria”) ou “Eu sou da Bahia / Marinheiro só / De São Salvador / Marinheiro só” (Veloso – “Marinheiro só”).

Não sempre a afirmação da proveniência é feita com altivez, mas, apesar disso, não fica velada e é exprimida com muita clareza, como algo sem que a personalidade do autor não fique completa. Assim faz Caetano em outra canção intitulada “Branquinha”: “Eu sou apenas um velho baiano / Um fulano, um caetano, um mano qualquer”. Temos aqui ainda um depoimento de Ceatano Veloso que nos pode esclarecer sua atitude à Bahia, como e porque ela espalha-se em seu trabalho. Quando foi indagado se “entende as suas coisas sem a Bahia, sem a sua existência, a sua formação baiana”, ele respondeu: “Não, de jeito nenhum. Mas isso é muito complicado, porque tenho nenhum interesse em regionalismo, tá entendendo? Eu tô ligado com a Bahia concretamente e só sai no meu trabalho essa ligação na medida em que ela é efetiva...não como um compromisso de representar uma região...Era preciso que fosse uma descentralização conjugada com uma desprovincianização. Agora, você tá querendo que eu fale mais da imporância de eu ter nascido na Bahia no negócio do meu trabalho, né? Só é difícil falar porque não há outra experiência pra comparar, o que aconteceu comigo, tá entendendo? Há coisas que são assim necessariamente porque eu sou baiano, mas você pode transar altíssimo a partir de qualquer coisa, eu acho. Por isso eu tava falando que me sinto um pouco mal quando se fala em ser baiano como privilégio, isso colocaria uma nova centralização desagradável, entendeu? A idéia de privilégio é uma coisa que não me interessa. Privilégio de ter nascido na Bahia, ter vivido tais e tais coisas. Eu não vejo muito isso”.73

Até quando Gil defende sua independência, como faz na música “Aquele abraço”, ele reserva um verso para homenagear sua herança cultural, como início de tudo, influência constante e a fonte de conhecimento: “Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço / A Bahia só me deu régua e compasso / Quem sabe de mim sou eu – aquele abraço!”.





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