A barbárie: antítese ou elemento da civilização? Do Facundo de Sarmiento a Os Sertões de Euclides da Cunha. Berthold Zilly



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A barbárie: antítese ou elemento da civilização? Do Facundo de Sarmiento a Os Sertões de Euclides da Cunha.

Berthold Zilly

Facundo, modelo de Os Sertões?
Sob muitos aspectos, o Facundo de Sarmiento e os Os Sertões de Euclides da Cunha apresentam semelhanças e diferenças elucidativas, sobretudo em relação à dicotomia tematizada que, por ser crucial em ambos os livros, principalmente no primeiro onde já aparece no título, pode servir, de um modo geral, como chave interpretativa [1]. Ambos discutem, a partir dos problemas de uma região atrasada e de uma guerra civil, os destinos da Nação, da qual se tornam interpretações até hoje influentes e mesmo constitutivas. Embora a questão da influência do primeiro livro sobre o segundo não careça de interesse, vou me limitar a poucas observações a este respeito, não só porque os dois autores parcialmente beberam nas mesmas fontes, o que dificulta, com relação a muitas imagens e idéias, o estabelecimento de uma filiação direta, mas também porque mais significativas do que esta me parecem as próprias afinidades e divergências formais, temáticas, ideológicas entre as duas obras que se explicam e se interpretam mutuamente e, mesmo que Euclides nunca tivesse ouvido falar de Sarmiento, a comparação entre os dois autores sempre seria interessante [2].

Euclides conhecia bem o Facundo. Em seu ensaio “Viação Sul-Americana”, publicado em Á Margem da História, fala das “páginas admiráveis de um dos maiores livros sul-americanos, ressoantes ao tropear das cavallarias disparadas dos Quirogas e dos Chachos”. Analisando a relação entre estrada de ferro, progresso econômico e liberdade política, aplaude o raciocínio de Sarmiento na obra que cita como Civilización y barbarie [3]. No “Discurso de recepção” proferido na Academia Brasileira de Letras, o novo acadêmico aponta o autor argentino como historiador-escritor modelar, junto com Thierry, Macaulay, Alexandre Herculano, pois todos eles trabalhariam no “dominio commum da fantasia e da razão”, ao passo que no Brasil faria falta um autor “que nos abreviasse a distancia do passado e, num evocar surprehendente, trouxesse aos nossos dias os nossos maiores com os seus caracteres dominantes, fazendo-nos compartir um pouco as suas existencias immortaes (...)” [4]. Esse “evocar surpreendente” será realmente um dos principais recursos compositórios da historiografia euclidiana.

Em Os Sertões, ainda que falte qualquer alusão direta a Sarmiento, a presença do Facundo é manifesta à primeira vista, a começar pela seqüência dos tópicos: o meio físico, a população e a cultura, a guerra. Ambos os textos transitam livremente entre os gêneros literários e modos de discurso, entre diversos tipos de pesquisa e representação da realidade, combinando geografia, antropologia e história em um texto que é crônica, ensaio e ficção ao mesmo tempo. Ambos coincidem na relevância dada ao contraste entre campo e cidade, o alheio e o próprio, o desconhecido e o conhecido, o sul-americano e o europeu, barbárie e civilização, numa visão dualista da sociedade que esboça uma teoria implícita das duas Argentinas e dos dois Brasis [5].

Quem conhece Facundo e começa a ler Os Sertões volta e meia tem a impressão do déjà-vu. Não só o plano geral mas também numerosos detalhes temáticos e lexicais, alusões, metáforas, nomes são indícios de que para Euclides o famoso livro argentino foi, senão modelo, pelo menos incentivo para conceber o seu ensaio sobre a campanha de Canudos e dar-lhe a feição que tem. O personagem central de Sarmiento, o gaucho, também aparece em Euclides, em sua forma brasileira de “gaúcho”, como termo de comparação do sertanejo. Palavras-chaves como desierto, ruina, tapera, cuchillo, deguella, rudeza, civilizado, bárbaro, só para dar uns poucos exemplos, reaparecem em forma portuguesa no livro euclidiano. Os dois autores associam a crueldade das populações do interior com a dos Ashanty [6], comparam os movimentos rebeldes na América Latina com a revolta dos Chouans durante a Revolução Francesa [7], relacionam algumas serras do interior com fortalezas e castelos arruinados [8].



Já nos seus títulos os livros fazem uma referência ou pelo menos alusão a uma temática dupla ou tripla, vinculada a três espaços geográficos e culturais: a região, a nação, a história universal, sendo esta marcada pela civilização, centrada na Europa, mas conquistando o mundo. Começam por uma temática genérica, depois, no subtítulo, indicam o caso específico analisado, ou melhor, narrado [9]. Nota-se logo que, apesar desse paralelismo, tanto o título como o subtítulo são bem mais abrangentes em Sarmiento do que em Euclides onde a dicotomia sarmientina está presente mas de modo implícito. Pois Os Sertões, no plural, designação dos espaços secos, inóspitos e “incivilizados” do Norte, hoje chamado de Nordeste e, por antonomásia, de todas as regiões pouco habitadas, atrasadas e bárbaras do Brasil, senão do mundo, pressupõem a sua contrapartida, ou seja as regiões cultas, produtivas, modernas, civilizadas do litoral brasileiro e da Europa, sendo o conflito entre essas duas áreas e culturas antagônicas causa principal da guerra e fio condutor do livro. A diversidade dos títulos assinala uma diferença menos na temática geral do que no seu modo de representação: o livro sarmientino promete discutir e provar uma hipótese genérica, universal, exemplificada no caso escpecífico de uma biografia e de uma região, quase um roman à thèse. As numerosas alterações do título nas diversas edições preparadas por Sarmiento ou por editores de sua confiança mostram porém que não havia para ele uma clara prioridade entre o abstracionismo das antíteses históricas e a concretude das paisagens, personagens e eventos representados, de modo que variou de edição para edição o grau de literariedade do livro. O título de Euclides no entanto, evocando uma paisagem ou diversas paisagens, é específico, concreto, e ao mesmo tempo genérico, simbólico, polissêmico, sugestivo, ao passo que o subtítulo se refere a um determinado evento, “a campanha de Canudos”, denominada porém na “Nota preliminar” “variante de assunto geral”, ou seja do avanço da civilização no interior que implicaria no “esmagamento das raças fracas pelas raças fortes” [10]. Felizmente o autor não mantém sistematicamente essa desconcretização durante o seu relato da guerra.

Terras
Os dois livros começam por extensa pesquisa mesológica, histórica e sociológica, inspirando-se o primeiro na Ilustração e no Romantismo, e o segundo, embora de forma crítica, no Positivismo e no Evolucionismo, sem tampouco renegar uma boa dose de Romantismo.

Os Sertões, livro um tanto disforme em muitos sentidos, como também o seu homólogo argentino, mais do que este se estrutura no plano espacial, além do cronológico, como é natural em toda obra histórica. Se na visão dos letrados do litoral as antíteses Norte-Sul, sertão-litoral, aridez-umidade, esterilidade-fertilidade estão correlacionadas com a dicotomia barbárie-civilização, na visão dos sertanejos elas se identificam, inversamente, com as antíteses terra da fé-terra do Anticristo, terra da promissão-terra da condenação. O próprio sertão tem uma estrutura concêntrica, de modo que, para quem se aproxima de Canudos, centro do sertão, aumenta o seu caráter inculto, inóspito e ao mesmo tempo místico, sagrado. Um dos perímetros mais próximos do teatro de guerra é a elipse com eixos de poucos quilômetros, “cercadura de montanhas” de que fazem parte o Cambaio e a Canabrava, cujo topo estrategicamente mais significativo e mais chegado a Canudos é o morro da Favela, a 1.800 metros das duas igrejas [11]. Estas marcam o bairro central e mais bem defendido da aldeia sagrada que, com sua mágica força centrípeta, atrai os fiéis para salvarem a alma e os soldados para perderem a vida, repelindo com força centrífuga os atacantes feridos. Esta comunidade está vinculada diretamente a Deus, fora do alcance das autoridades seculares, quase um Estado teocrático dentro da jovem República laicista.

Em Facundo, a organização do espaço é menos clara, menos transparente, é cambiante e excêntrica ou policêntrica, pois não há nenhum lugar fixo ou central, de convergência ou de irradiação que dominasse os outros, capaz de atrair e de repelir grandes contingentes de atacantes. O palco das andanças do anti-herói sarmientino é muito mais extenso e menos uniforme do que o do Conselheiro durante a guerra, pois na hinterlândia argentina não há centro rebelde, não há um núcleo aglutinador das forças bárbaras, contrapartida selvagem da metrópole civilizada. Temporariamente, devido à derrota dos unitarios, o país inteiro está nas mãos da anticivilização, toda a Argentina é por assim dizer uma imensa Canudos, uma barbárie não de roupagem religiosa, mas não menos fanática e irracional, do ponto de vista esclarecido e civilizado.

Há porém uma região nuclear que procria e gera de certa forma o protagonista, onde este está em casa, e que tem algumas semelhanças com a terra do Conselheiro, pois se trata de um ermo, espaço árido, curiosamente chamado de travesía no castelhano argentino, lugar de passagem, deserto onde nenhum forasteiro gosta de parar por muito tempo, nisto parecido com a vila sagrada, ainda que ali o termo “travessia” tenha um sentido predominantemente religioso, sendo ao mesmo tempo metonímia do mundo: “Canudos era o cosmos. E este mesmo transitório e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora; o último pouso na travessia de um deserto - a Terra”, visão apocalíptica assumida pelo narrador através do estilo indireto livre [12]. A travesía em Facundo todavia não é um determinado lugar, e muito menos o mundo, podendo ser qualquer deserto que fique longe de um povoado, lugar abandonado e inóspito, o típico berço tanto dos profetas como dos bandidos [13]. O pampa, como região correspondente ao sertão euclidiano, diferentemente deste, não tem centro nem antítese claramente demarcada.

Além de Buenos Aires, há vários outros centros irradiadores do comércio e da cultura, viveiros da civilização, entre os quais merece destaque a vila de San Juan, terra de Sarmiento, descaracterizada porém, no tempo da redação do livro, também pela ação de Facundo Quiroga, à espera de seu verdadeiro dono que é o autor [14]. Por outro lado, a Argentina civilizada, exceto alguns elementos esparsos no país inteiro, está naquele momento, em 1845, no exterior, na emigração, na memória e na projeção; já foi realidade parcial e será realidade plena. E, como dá a entender o autor, há um lugar simbólico para essa memória e projeção, antítese da Argentina barbarizada: o livro que está escrevendo ele mesmo, o mais importante antagonista de Rosas, e é assim que Euclides entende o papel histórico do escritor argentino [15].



Homens
Ambos os livros apresentam visão ambivalente da “plebe rural” semi-selvagem que é tendencialmente mão-de-obra supérflua, entre submissa, vadia e revoltada, atribuindo-lhe propensão para a criminalidade e violência, mas também, diante do onipresente perigo de morte, estoicismo e até heroísmo, com façanhas lendárias e quase sobrenaturais [16]. Os dois negligenciam os aspectos socioeconômicos da condição do homem do campo e da sua inserção no clientelismo dominado pelo latifúndio, propagando ao contrário uma imagem festiva do gaucho e do gaúcho, “um vitorioso jovial e forte” para quem o rodeio é “uma festa diária” [17], um “fuerte, altivo, enérgico” [18]. Em ambos se encontra a idéia ao mesmo tempo romântica e pequeno-burguesa de que os guardadores de rebanhos no fundo não trabalhariam, pois dariam, diferentemente de suas mulheres, na maior parte do tempo, passeios a cavalo e se divertiriam em festas, o que vale principalmente para o gaucho [19], mas também, em grau menor, para “o vaqueiro preguiçoso” que “quase transforma o campião que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dous terços da existência” [20].

No entanto há também, na visão euclidiana, profundas diferenças entre os dois tipos de moradores do campo, como se pode depreender do cotejo de duas cenas que narram o confronto do homem bárbaro com as forças mais bárbaras ainda da natureza:

(...) Algunos minutos después, el bramido se oyó más distinto y más cercano; el tigre venía ya sobre el rastro, y sólo a una larga distancia se divisaba un pequeño algarrobo. Era preciso apretar el paso, correr, en fin, porque los bramidos se sucedían con más frecuencia, y el último era más distinto, más vibrante que el que le precedía.

Al fin, arrojando la montura a un lado del camino, dirigióse el gaucho al árbol que había divisado, y no obstante la debilidad de su tronco, felizmente bastante elevado, pudo trepar a su copa y mantenerse en una continua oscilación, medio oculto entre el ramaje. Desde allí pudo observar la escena que tenía lugar en el camino: el tigre marchaba a paso precipitado, oliendo el suelo y bramando con más frecuencia, a medida que sentía la proximidad de su presa. (...) En efecto, sus amigos habían visto el rastro del tigre y corrían sin esperanza de salvarlo. El desparramo de la montura les reveló el lugar de la escena, y volar a él, desenrollar sus lazos, echarlos sobre el tigre, empacado y ciego de furor, fue la obra de un segundo. La fiera, estirada a dos lazos, no pudo escapar a las puñaladas repetidas con que, en venganza de su prolongada agonía, le traspasó el que iba a ser su víctima. ‘Entonces supe lo que era tener miedo’ - decía el general don Juan Facundo Quiroga, contando a un grupo de oficiales este sucesso [21].

À noite, a suçuarana traiçoeira e ladra, que lhe [ao sertanejo] rouba os bezerros e os novilhos, vem beirar a sua rancharia pobre. É mais um inimigo a suplantar. Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se com um tição aceso no terreiro deserto. E se ela não recua, assalta-a. Mas não a tiro por que sabe que desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a onça, ‘vindo em cima da fumaça’ é invencível. O pugilato é mais comovente. O atleta enfraquecido, tendo à mão esquerda a forquilha e à direita a faca, irrita e desafia a fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um golpe [22].

O sertanejo, diferentemente do gaucho, não foge da “suçuarana”, que corresponde ao tigre argentino, não se esconde medroso numa árvore, como faz o herói dos pampas, ele, pelo contrário, procura, desafia e esfaqueia a fera, para proteger o lar e o gado. Difícil saber se o autor brasileiro concebeu esta cena como réplica direta à cena-chave de Facundo, da qual citamos dois trechos, episódio seminal que introduz a biografia do personagem principal, narrando o seu nascimento a partir do medo. De qualquer forma, essa façanha, apresentada como ato quase costumeiro na vida do sertanejo, unterstatement hiperbólico do escritor brasileiro, se insere na estratégia discursiva do autor de comparar dois tipos de guardadores de gado, representantes da civilização do couro, concedendo certa superioridade ao vaqueiro do sertão. A contrapartida do caudilho argentino não é determinado líder canudense e muito menos o próprio Conselheiro, cuja valentia é sublimada e transfigurada em fé e abnegação, mas o simples caboclo, quase um anti-herói, o sertanejo como tipo, porém mais brabo, mais corajoso, mais lutador do que o mais valente, o mais perigoso, o mais temível dos gauchos, que é o próprio protagonista sarmientino.

O gaúcho aparece duplamente como antípoda do canudense: primeiramente como termo de comparação; em segundo lugar como inimigo, uma vez que grande parte do exército brasileiro era composto de rio-grandenses que sempre tiveram participação desproporcional na vida militar do país, até hoje em dia [23]. A freqüente caracterização do sertanejo conselheirista, na imprensa da época, como “jagunço”, ou seja, bandido, pistoleiro, capanga, aproximando-o ao significado de gaucho malo, no fundo é uma calúnia inventada por latifundiários e jornalistas, que Euclides parece não ter nenhuma hesitação em adotar, pelo menos no início da campanha.

Do gaúcho Euclides tem uma imagem ambígua. Por um lado, apresenta-o como menos bárbaro, mais refinado, mais ostensivamente heróico, mais próximo da civilização do que o sertanejo visto quase como o seu primo bruto, selvagem, primitivo, inferior na escala barbárie-civilidade. A natureza do sertão, mais selvagem, mais dura e impiedosa do que a do pampa, no entanto tem vantagens, pois obriga o homem a ser exímio lutador: “O jagunço é menos teatralmente heróico; é mais tenaz; é mais resistente; é mais perigoso; é mais forte; é mais duro” [24]. Por outro lado, o gaúcho se caracteriza por um modo de matar pessoas que, copiado no abate do gado, bestializa tanto o matador como a sua vítima: a degola, fio condutor da trama nos dois livros aqui contemplados. Ele pode ser mais civilizado do que o sertanejo, no entanto ou talvez por isso mesmo é mais cruel e ajuda a barbarizar ainda mais o sertão. Diferentemente das guerras civis na Argentina porém, na guerra de Canudos esse método pré-moderno de homicídio é praticado em nome da civilização, contra prisioneiros intimados cinicamente, antes de serem trucidados, a gritar um “viva à República” [25].

Facundo e Conselheiro, importantes líderes de massas rurais, têm pouco em comum. O primeiro é ambicioso, ganancioso, lúbrico, brutal, colérico, viciado em jogos de azar, porém um líder militar genial, capaz de gestos generosos, ótimo conhecedor do povo, que o teme e o admira, um Napoleão desgarrado nos llanos e nos pampas. Em outras condições, num país civilizado, poderia ter sido um estimado estrategista ou estadista, embora, pelo menos na apresentação polêmica de Sarmiento, não tivesse projeto político, faltando-lhe educação e controle social por parte de instituições que possam regulamentar o seu poder.

O Conselheiro, na imagem euclidiana, é o seu antípoda em quase tudo, sendo menos herói e dominador do que representante, quase encarnação da comunidade de Canudos, da população do sertão todo, e emissário do poder divino. Se Antônio Mendes Maciel se extingue através da desgraça amorosa, “fulminado pela vergonha” do incidente “algo ridículo” [26], ele depois renasce como Antônio Conselheiro, pregador e líder popular. A sua ascendência sobre o povo é de caráter religioso e moral, mas também socioeconômico, pois atua como redistribuidor de renda para os moradores mais necessitados de Canudos, aspecto negligenciado por Euclides. Se o Conselheiro tem pouca visibilidade para o leitor e até para os soldados que podem contemplá-lo de perto só como morto, isso também vale para o autor, mas nem sempre para o narrador que se permite alguns olhares diretos para o chefe de Canudos e líder do sertão. Este exerce o seu poder de modo quase imóvel e silencioso, fugidio, e embora seja ele o personagem mais importante do livro, não é propriamente o seu protagonista como Facundo no livro que leva o seu nome no título. O Conselheiro afigura-se-nos menos como agente e herói do que como sofredor e renunciador, na definição de Roberto da Matta, encarnação da fé, abnegação e perseverança, homem de transição para um mundo melhor [27].

A motivação de Facundo não tem nada de religioso, ele parece uma força natural, sendo o seu atraso de certa forma anterior à fase religiosa da humanidade que já seria um certo progresso ético e civilizatório [28]. Se o tipo ideal, no sentido weberiano, que está por trás de Antônio Conselheiro é exatamente o conselheiro, forma superior do beato, leigo particularmente devoto e orientador do povo, aquele que está por trás de Facundo é o gaucho malo. Facundo não conhece nenhuma solidariedade, não funda nem família, nem associação, nem comunidade, nem cidade. Não cria, só destrói. Quanto ao controle dos afetos e instintos, tanto o Conselheiro quanto Rosas são bem mais civilizados do que o líder dos pampas, na acepção de Norbert Elias [29]. Rosas, sim, tem um projeto sociopolítico, é sedentário, tem uma capital, vive por uma comunidade, a nação, e por uma causa, o federalismo e o nacionalismo, embora de modo deturpado e cruel, na visão do autor.

Os dois autores porém se assemelham no intuito não só memorialístico mas civilizador dos seus livros, em que se afirmam como explicadores e preceptores de suas nações, como “conselheiros” de sua gente.



Lutas
Os dois enredos são basicamente constituídos pela história de uma guerra civil entre as forças do atraso e as do progresso, imbricada com a biografia de importante líder de massas rurais, abominado pelos adeptos da civilização, com a vitória final destes últimos, a que pertencem os narradores, e com a morte do mau herói a que é concedida nesse momento, no entanto, uma quase apoteose, principalmente no livro euclidiano, contrariando as anteriores condenações.

Só que, se em Os Sertões a morte do Conselheiro e o fim da campanha de Canudos de 1897 praticamente coincidem, o livro saindo cinco anos depois, em Facundo há uma diferença de 17 anos entre a morte do protagonista, em 1835, e o término do regime de Rosas em 1852, sendo a narração do meio, de 1845. O autor argentino, quanto à construção do enredo, portanto hesita entre dois desenlaces, um que termina com o assassinato de Facundo no passado, dez anos antes da redação do relato, e outro que narra sucintamente a historia posterior, prolongando-a em considerações políticas até o futuro, até a almejada e pressagiada queda de Rosas: “Por la puerta que deja abierta al asesinato de Barranca-Yaco, entrará el lector, conmigo, en un teatro donde todavía no se ha terminado el drama sangriento” [30]. A magnanimidade para com o inimigo sendo mais fácil depois da vitória, Euclides, principalmente como narrador, menos como autor político, pode enaltecê-lo mais do que Sarmiento, para quem o Facundo morto continua perigoso no Rosas vivo.

Nos dois livros a história é encenada, mas no caso de Canudos a própria realidade vem ao encontro de sua literarização e, principalmente, de sua representação como espetáculo. Pois fica evidente que a guerra de Canudos preenche, aproximativamente, vários requisitos do drama clássico, as unidades do lugar, do tempo, do enredo. A unidade do tempo talvez seja menos patente no caso da guerra de Canudos, já que esta durou bem mais de um dia, exatamente onze meses, tendo porém início, meio, fim, diferentemente das intermináveis guerras civis da Argentina, algo informes e intransparentes, sem claros contornos cronológicos. Essa mesmice, demarcação e nitidez do lugar e do tempo ajudam a memória coletiva, ajudam a imaginação, ajudam tanto a narrativa organizadora e reflexiva do historiador assim como a narrativa evocadora do escritor. Não é exagero dizer que o livro euclidiano é, não obstante os seus fortes traços épicos, construído como um drama em cinco atos [31].

A intenção de aproximar o Facundo da tradição épica fica assinalada logo no início pela típica invocação, desta vez porém não de uma musa, de algum deus ou herói, como reza a tradição, mas de um defunto que conhece por dentro a paisagem e o povo dos pampas:

¡Sombra terrible de Facundo, voy a evocarte, para que, sacudiendo el ensangrentado polvo que cubre tus cenizas, te levantes a explicarnos la vida secreta y las convulsiones internas que desgarran las entrañas de un noble pueblo! Tú posees el secreto: ¡revélanoslo! [32]

O autor esconjura um demônio, o seu arquiinimigo que curiosamente se torna um aliado na busca da verdade histórica e como fonte de inspiração narrativa. O autor o obriga a servi-lo na obra de evocação e interpretação da alma do povo argentino, das guerras civis e da política nacional, dando-lhe em troco aquilo que o povo já lhe concedeu: a imortalidade [33]. Trata o antagonista vencido como este tratou o tigre apunhalado, apoderando-se de suas forças, como também se apodera da tradição oral popular. O autor aparece, aqui já, como líder, pois dialoga com Facundo morto em nome da sua platéia, da Argentina antirosista, congregada no pronome da primeira pessoa do plural. Escusado dizer que Euclides, apesar de toda a pretensão literária, começa o seu livro, à primeira vista pelo menos, como autor puramente científico e historiográfico, sem apóstrofes e invocações, sem dialogar diretamente com vivos e muito menos com mortos.

As duas quase-epopéias nacionais se complementam de modo singular, pois pertencem, ao nível do enredo e dos deslocamentos no espaço, a modelos diferentes, arquetípicos, ambos prefigurados em Homero. Pois Facundo, construído no seu núcleo narrativo como um romance de aventuras, tem alguma analogia com a trama da Odisséia, sendo o seu herói ao mesmo tempo um Ulisses, astuto e forte, embora também covarde e sanguinolento, que vagueia pelos pampas, e pretendente ilegítimo de uma Penélope coletiva, ou seja da Nação argentina. O verdadeiro Ulisses entretanto, o próprio Sarmiento, banido da pátria, com algumas interrupções, durante mais de duas décadas, parecido ao herói homérico, erra pelo mundo, lutando para sobreviver e para reconquistar sua pátria-esposa mais ou menos fiel, lutando principalmente mediante o livro que estamos analisando. Depois de muitas aventuras e percalços, narrados também em outros livros - por exemplo em Viajes, de 1849, e Campaña del Ejército Grande, de 1852 - ele consegue voltar. Facundo é um episódio da odisséia do autor que começou com o seu primeiro exílio no Chile, em 1831, e que só terminará em 1852, com a queda de Rosas, e de certa forma em 1855, quando o autor se instala em Buenos Aires, no seio da Nação com a qual renova e consuma o himeneu. Essa união com a pátria se manifesta numa carreira política brilhante, em que vai galgando os mais altos cargos, chegando em 1868 à presidência, impensável sem o Facundo e o caudilho homônimo ao qual por outro lado confere imortalidade, quase uma relação de troca de favores entre personagem e autor.

Os Sertões pelo contrário segue a certa distância o esquema da Ilíada, os conselheiristas desempenhando o papel dos troianos e os soldados o dos gregos, uma guerra de sítio de meses, mas com antecedentes de décadas, entre os quais o rapto de uma Helena sertaneja, a esposa do Conselheiro, seduzida por um soldado, ato ilegítimo que desencadeou, ao nível da narrativa, as peregrinações de Antônio Mendes Maciel e sua transfiguração em Antônio Conselheiro, líder espiritual da população sertaneja. O adultério é importante mola do enredo, constituindo um dos principais pressupostos da guerra que se trava entre a comunidade fundada pelo marido traído e os “colegas” do sedutor, só que, diferentemente da epopéia grega, a posse da raptada não é motivo da guerra, já que são os raptores que atacam a comunidade chefiada pelo ex-marido da raptada, juntando um segundo crime ao primeiro. Os raptores ganham a guerra e nunca devolvem a raptada cujo destino fica desconhecido, não interessando mais aos dois partidos beligerantes. Se a violação dos direitos por agentes do aparelho do Estado levou os vitimados a sua auto-organização, nem essa saída é permitida [34].

Não falta a intervenção de poderes olímpicos, em Os Sertões quase só do lado do exército: grupos e partidos políticos, a imprensa nacional e internacional, os intelectuais, a indústria bélica européia, os bancos ingleses, ainda que estes últimos não apareçam no livro. A “Tróia de taipa”, como a chama o próprio Euclides, só tem Deus como aliado de fora, e alguns deuses pré-olímpicos, principalmente a Terra e as serras ciclópicas, o que pelo visto não é suficiente. Em Facundo, a Civilização, como instância superior, está teoricamente do lado de Sarmiento e dos unitários, mas na prática as potências européias fazem uma espécie de Realpolitik, colaborando com Rosas, o que o autor explica como falta de informação da parte daquelas.



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