A barbárie: antítese ou elemento da civilização? Do Facundo de Sarmiento a Os Sertões de Euclides da Cunha. Berthold Zilly



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Estilos e públicos
Já vimos que os estilos dos dois livros têm muito em comum: a presentificação sensorial, com ênfase na descrição de painéis e narração de cenas que se gravam facilmente na memória do leitor, a referência à história européia como padrão comparativo, expressão da tendência de explicar a realidade incógnita da América Latina através de comparações e analogias com a história e literatura do Velho Mundo que fornece os parâmetros interpretativos, por exemplo, através de metáforas como “Tebas del Plata” ou “Tróia de taipa” [35]. No uso da erudição e dos recursos poéticos porém Sarmiento é menos radical, menos transgressivo e exacerbado, mais contido, sóbrio e moderado do que o escritor brasileiro, o que se explica em parte pela diferença do momento literário, bem antes dos exageros do cientificismo e do parnasianismo, como também pela finalidade mais pragmática do seu texto. Euclides às vezes pouco se preocupa com a inteligibilidade dos seus relatos, observações e reflexões, porque a função estética nele ganha autonomia bem maior do que no autor argentino, embora a crescente distância da posteridade em relação aos fatos relatados tenda a relativizar esses diferentes graus de literariedade entre as duas obras.

Para evidenciar diferenças estilísticas e compositórias, nada melhor do que exemplificá-las em trechos comparáveis:

Al sur, y a larga distancia, limitan esta llanura arenisca los Colorados, montes de greda petrificada, cuyos cortes regulares asumen las formas más pintorescas y fantásticas: a veces es una muralla lisa con bastiones avanzados, a veces, créese ver torreones y castillos almenados en ruinas [36].

A Serra do Cambaio é um desses monumentos rudes. Certo ninguém lhe pode enxergar geométricas linhas de cortinas ou parapeitos bojando em redentes circuitados de fossos. Eram piores aqueles redutos bárbaros. Erigiam-se à têmpera dos que os guarneciam. E a distância, indistintos os ressaltos das pedras e desfeitos os vincos das quebradas, o conjunto da serra incute, de fato, no observador, a impressão de topar, de súbito, fraldejando-a, subindo por elas, em patamares sucessivos e estendidas pelas vertentes, as barbacãs de velhíssimos castelos, onde houvessem embatido, outrora, assaltos sobre assaltos que os desmantelaram e aluíram, reduzindo-os a montões de silhares em desordem, mal aglomerados em enormes hemiciclos, sucedendo-se em renques de plintos, e torres, e pilastras truncadas, avultando mais ao longe no aspecto pinturesco de grandes colunatas derruídas... [37]

Comparando as duas descrições de serras ao sul de importantes vilas do interior, La Rioja e Canudos, ambas associadas com Jerusalém, revelam-se afinidades e diversidades entre os estilos: a frase euclidiana pode ser lida como ampliação, gradação, intensificação e dramatização barroquizante da frase correspondente do predecessor argentino.

Nos dois livros, a função informativa e referencial portanto é complementada e às vezes sobrepujada pelas funções expressiva, poética e apelativa, sendo as conotações talvez mais importantes do que as denotações. Facundo é mais panfletário, mais apelativo, mais diretamente voltado para a política, ao passo que Os Sertões lança mão, num grau muito maior do que o “modelo” argentino, do discurso erudito, acadêmico, principalmente do das ciências exatas ao qual Sarmiento, o autodidata do interior, tinha pouco acesso e para o qual esse homem impetuoso talvez nem tivesse a necessária paciência e meticulosidade, embora em princípio o apreciasse muito. O seu estilo é menos metódico, mais descontraído, embora altamente artístico, cheio de apóstrofes, interjeições, perguntas retóricas. O autor coqueteia, como Euclides também, com o caráter rude do livro, “obra tan informe” [38], conseqüência do clima de combate em que foi escrito e dos temas de que trata. Assemelha-se a um grande diálogo com um público imaginado, o que demonstram os freqüentes apelos ao leitor, que Sarmiento, sem muitos rodeios, pretende captar, agitar e empolgar, valendo-se menos da erudição acadêmica do que da cultura geral, da retórica romântica de tipo hugoano, amalgamada com a fala cotidiana de intelectuais e populares, citadinos e gauchos, pondo em segundo plano a factualidade histórica.39 Beira o perigo, sem incorrê-lo realmente, de aborrecer o leitor com a repetitividade de sua argumentação e sua falta de humor, ou de cair até no ridículo com seu hiperbolismo, seu ergotismo, sua vaidade desenfreada.

Euclides da Cunha, no seu requisitório, seu discurso de defesa e acusação, necessariamente persuasório, lança mão de uma retórica mais sofisticada, embora também de aparência rude, motivo de certa coqueteria do próprio autor que chama o seu estilo de “algo bárbaro” [40]. A ênfase dada à função poética, mesmo nos trechos científicos da primeira parte, intitulada “A Terra”, tende a fazer dos meios retóricos uma finalidade em si e compromete volta e meia a sua comunicabilidade, ao pôr no segundo plano as funções referenciais e apelativas [41]. A pompa estilística e “opulência retórica” [42] contrastam curiosamente com a secura do meio descrito, muito diferente, por exemplo, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em que a aridez da terra e do povo sertanejo corresponde ao caráter árido e lapidar do estilo.

Tudo isso aumenta, naturalmente, as tensões entre a vertente referencial e a vertente poética dentro de Os Sertões, que portanto se apresenta, em comparação com seu homólogo argentino, mais metódico e ao mesmo tempo mais fantasioso, mais controlado e mais apaixonado, mais científico e porém mais marcado esteticamente. Seu livro está sob alta tensão, podendo fracassar a todo momento, ser pulverizado pela comicidade involuntária do pathos, pela aspiração à grandiosidade, ao sublime, pelos exageros desmedidos, pelo pedantismo acadêmico, pelas incoerências compositórias e ideológicas, pela grandiloqüência, pelas citações ou alusões erradas, ou simplesmente pela sua incompreensibilidade. Tensão que se traduz por inúmeras metáforas e antonomásias arrojadas [43], tomadas não raras vezes das ciências exatas, uma enxurrada de oxímoros e antíteses, de repetições e sinônimos. Como o seu “colega” argentino, também Euclides soube, excetuando-se poucas frases mal-sucedidas, contornar aqueles perigos. Cabe para eles uma frase de Theodor W. Adorno: “Grandes obras são aquelas que têm sorte em seus pontos mais duvidosos” [44]. Monumentalizando o sertão e o sertanejo num memorável conjunto de painéis dramáticos o próprio texto euclidiano vira monumento, imponente, heróico e intocável, como constatou Gilberto Freyre [45].

Esses dois textos fundamentais e fundacionais, visando o autodescobrimento nacional, híbridos, violentos, opõem-se a uma classificação fácil, transgredindo os limites entre gêneros literários e áreas do saber, podendo ser provisoriamente considerados ensaios geográficos, antropológicos e sobretudo historiográficos parcialmente romanceados, dramatizados, poetizados e sobretudo altamente retóricos [46]. Há elementos de discursos solenes e teatrais de rememoração e acusação em ambos os livros que pedem não só para ser lidos mas para ser ouvidos, ou pelo menos para ser imaginados acusticamente com toda a sua faustosa eloqüência e sonoridade, oralidade em que ecoa a retórica clássica e barroca, bastante presente no ensino e na vida pública do século XIX [47]. Dirigem-se não apenas ao público letrado de seus países, no caso de Sarmiento inclusive aos leitores dos países vizinhos de fala espanhola, nomeadamente aos argentinos exilados e aos chilenos, mas também à comunidade de homens ilustrados do mundo civilizado em geral. Talvez os dois textos aqui contemplados estejam entre os primeiros livros latinoamericanos concebidos para entrarem na literatura universal [48]. Se os escritos dos viajantes estrangeiros foram estudados avidamente como modelos de pesquisa e de representação, os autores das terras americanas escreviam também com a esperança, secreta ou não, de ajudar a Europa a entender melhor o novo mundo, sendo portanto a sua interpretação tarefa comum de letrados autóctones e europeus. Além disso, para todos os países jovens ou atrasados, a Europa, principalmente Paris, era o juiz estético e intelectual, quem era reconhecido lá, era reconhecido em toda parte, o que fazia da capital francesa um trampolim para carreiras nas Américas [49].

A poesia do espaço “incivilizado”
Aproxima os dois autores também a romântica ênfase no caráter quase literário e poético da própria realidade selvagem, da natureza, da sociedade rural, atrasada, patriarcal, dramática, multicolor, violenta, o seu folclore, a singularidade e heroicidade de alguns dos seus representantes. Esse mundo bárbaro, que naquela época estava aos poucos entrando em extinção, por si só já seria poético, teatral, trágico, até musical; ou pelo menos se prestava para a representação artística, exige-a de certa forma, convida e quase obriga os autores a descobrirem a sua poeticidade, a descrevê-la e a enaltecê-la. Pois ambos recorrem à velha metáfora do mundo como livro, como escrita a ser lida ou decifrada pelos escritores [50]. A História é um livro científico, principalmente para Euclides e, mais ainda, um livro poético, exigindo dupla leitura portanto. Por outro lado, essa realidade não é apenas poesia, ela também produz poesia, através dos seus cantadores populares que a tematizam e interpretam, sendo ela duplamente poética, como sujeito e como objeto.

Existe, pues, un fondo de poesía que nace de los accidentes naturales del país y de las costumbres excepcionales que engendra. La poesía, para despertarse, (...) necesita el espectáculo de lo bello, del poder terrible, de la inmensidad, de la extensión, de lo vago, de lo incomprensible (...).

A selvageria é uma das suas condições:

La soledad, el peligro, el salvaje, la muerte! He aquí ya la poesía (...). De aquí resulta que el pueblo argentino es poeta por carácter, por naturaleza” [51].

Se todo argentino é poeta, é porque todo argentino é gaucho, poderia ter dito Sarmiento, do mesmo modo que Euclides declarava todo sertanejo vaqueiro e dava a entender que o sertanejo era, no fundo, o brasileiro por excelência [52]. Esses tipos étnicos e sociais a serem superados, transformados ou até eliminados na realidade social, foram estilizados como protótipos de suas nações no plano simbólico. Euclides concordaria, embora menos enfaticamente, no que se refere à idoneidade do sertanejo para entrar na literatura. Cita longamente a poesia dos cantadores do sertão, assim como as lendas sugeridas pela própria conformação do terreno, por exemplo quando descreve as “cidades encantadas” que teriam impressionado “frios observadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”. Atribui ao assalto do filho de Macambira à matadeira “delineamentos épicos” [53]. E depois de narrar aquele episódio, o autor o apresenta como adaptação de uma narração oral do povo, dentro e fora de Canudos, incluindo o próprio exército:

Estes e outros casos - exagerado romancear dos mais triviais sucessos - dando à campanha um tom impressionante e lendário, abalavam a opinião pública da velha capital e por fim a de todo o país [54].

Os dois escritores cultos registram, comentam e continuam portanto a produção dos seus “colegas” rústicos, os poetas e cantadores populares, condenados ao desaparecimento junto com a cultura a que pertencem. Não houvesse os autores eruditos da cidade, a bronca cultura rural seria esquecida, de modo que tanto Sarmiento como Euclides, entoando-lhe um canto de cisne, asseguram-lhe a sobrevivência no imaginário nacional. Pois se o progresso com a comercialização e a burocratização da sociedade promovem a urbanização, a educação, o bem-estar, a segurança, a moda, se acabam com dureza das condições de vida e a rudeza do trato, com a dependência do homem em relação aos poderes naturais e ao seu culto cheio de superstições, também acabam com a poeticidade do mundo, acabam com o seu mistério e o seu encanto. O fim da violência como praxe “normal” nas relações sociais é uma faca de dois gumes, pois o estado de guerra faz parte da poeticidade dos espaços “incivilizados” e, nos últimos cem anos também, da sua filmicidade. É sobretudo na guerra, elo entre a civilização e a barbárie, que esta subsiste dentro da civilização, já que um exército sem traços bárbaros seria condenado à derrota, e até a guerra mais civilizada nunca deixa de ser profundamente bárbara, não havendo guerra sem crime de guerra. Para Hegel, a guerra é o evento por excelência que mobiliza intelectual e emocionalmente uma nação, sendo portanto matéria bruta e força motriz da criação de epopéias, gênero privilegiado em que se articulam as aspirações de uma coletividade, idéia que nos parece estranha hoje em dia, depois de um século cruento e eivado de guerras [55].

Os nossos autores enquanto pensadores sociais e políticos naturalmente encaram essa ausência prática da lei, da ordem e do bem-estar - essa enxurrada de desmandos dos poderosos, rebeliões, repressões, crimes, guerras civis, massacres, catástrofes naturais - como males a serem superados, provas do atraso, motivos de vergonha. Mas enquanto escritores épicos pensam ou, antes, sentem de modo diferente, pois adivinham ou consideram que as deficiências na dominação da natureza, na administração e no policiamento de regiões selvagens ou campestres, verdadeiros “homizios” [56], evitam a rotina, a regularidade, a monotonia do cotidiano. A falta de justiça e segurança dá ampla margem de manobra aos chamados homens fortes, aos caudilhos e tiranos, mas também aos heróis e profetas, uma fauna de heróis inviáveis e supérfluos em áreas civilizadas: prato feito para os literatos. Assim como a agricultura com suas plantas cultivadas precisa da biodiversidade de áreas selvagens, parece que a cultura letrada também precisa da reciclagem com sociedades e manifestações culturais pré-modernas, “incivilizadas”. O Estado de direito com seu monopólio da violência e a sociedade do bem-estar dispensam o heroísmo, cujo desaparecimento assinala geralmente um progresso civilizatório. Ai daquela sociedade que precisa de heróis, dizia Bertolt Brecht. Onde há policiamento e segurança, não há grandes homens, onde há bombeiros, serviço de saúde, seguro social, lanternas nas ruas, correio, sistema de transporte, hospitais, escolas e centros de lazer, paz interna e externa, onde as necessidades básicas são satisfeitas, onde tudo é previsto e onde se remedeia logo o imprevisto, os heróis são dispensáveis, os santos e profetas também, e os poetas épicos, preocupados com o grandioso, o memorável e o sublime, se não desaparecem, só podem falar de culturas passadas ou “primitivas”.

Uma das mais elucidativas reflexões sobre a relação entre a história social e gêneros épicos se encontra em Hegel, num trecho da Estética em que distingue as épocas heróicas ou pelo menos aristocráticas, o contexto social e cultural das epopéias, da “atual situação prosaica”, referindo-se assim à sociedade civil burguesa do seu tempo que se oporia a uma representação ou transfiguração poética em tom elevado, épico ou sublime. Na moderna sociedade organizada pelo Estado e outras instituições, cada indivíduo, mesmo um príncipe, está preso por uma correlação de forças, está submisso a uma ordem econômica e política, cujas instituições limitam a sua liberdade de ação. “A acidentalidade da existência exterior se transformou numa ordem firme e segura da sociedade civil e do Estado, de modo que agora a polícia, os tribunais, o exército, o governo do Estado assumem o lugar das metas quiméricas que se propunha o cavaleiro”. A epopéia tornando-se inviável, surge o romance moderno a que faltaria “a situação originalmente poética do mundo da qual surge a autêntica epopéia” [57]. Como a epopéia e, ainda que em grau menor, a tragédia entram em declínio na modernidade, que não abre espaço para heróis, a prosa de ficção, ou seja o romance, passa a ser a expressão mais adequada da emergente sociedade burguesa, embora, conforme os cânones vigentes até quase meados do século XIX, ele seja considerado, oficialmente, quase gênero menor [58].

Nas margens do mundo civilizado porém ainda existem elementos tanto dos períodos heróicos da Antigüidade como da Idade Média, principalmente em tempos de guerra, quando se abrem espaços para o surgimento de indivíduos fortes, com ampla margem de ação, que conseguem marcar e moldar a realidade ainda não inteiramente prosaica, organizada de modo que os seus protagonistas, desbravadores, guerreiros, pregadores possam reassumir algumas atitudes dos antigos heróis, cavaleiros e santos. Nessas áreas distantes em relação à civilidade urbana os nossos dois autores acreditam poder satisfazer a sua romântica saudade pelo antigo e pelo autêntico, pelas origens, pelo primordial, pelo não-moderno, pelo singelo, pelo idílico, pelo maravilhoso, pelo patriarcal. O fascínio europeu pela América Latina se deve também à imagem de desmesura, grandiosidade, hiperbolismo, incomensurabilidade e sublime que ela desperta nos forasteiros desde os descobrimentos. O homem civilizado às vezes se cansa de sê-lo, de ter que domar os seus instintos, de ter que aceitar toda uma complicada aparelhagem de regras e normas objetivas, de se comportar de modo sensato e racional, jugos para as paixões, para a subjetividade e a espontaneidade, para os egoísmos e a solidariedade, para os afetos de um modo geral. Essa insatisfação, fortalecida por leituras rousseauianas e românticas, talvez seja expressão da desconfiança, nos dois autores, de que nesses valores pré-burgueses e pré-modernos existe algo cuja perda iminente será lamentada e que vale a pena preservar na memória coletiva. Parecem sentir ou pressentir o mal-estar na civilização de que fala Freud, e a decepção com o desencantamento com a fria objetividade do mundo moderno de que fala Max Weber, mal-estar esse que é mais implícito no autor argentino, mais explícito no brasileiro.

O choque entre dois mundos e dois graus de civilização, um legitimado pela razão tendencialmente determinista e o outro pela emoção meio romântica do autor e dos seus leitores, gera uma visão trágica da história nos dois autores aqui contemplados, tragicidade implícita em Sarmiento, manifesta e nítida em Euclides, visto que ele é bem mais cético em relação ao progresso e à civilização. Uma colisão trágica só é possível quando entre os campos opostos há certa igualdade de legitimação e dignidade moral [59]. Conceder tragicidade às personificações da barbárie equivale a elevar, dignificar, transfigurar os heróis vencidos, condenados pelo discurso ilustrado dos mesmos autores, e constitui uma crítica implícita à civilização.

O cronista Machado de Assis assinalou claramente, no seu tom semi-irônico, a idoneidade do movimento de Canudos como assunto literário:

Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que são criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros alinhados, registrados, qualificados, cérebros eleitorais e contribuintes. Para nós, artistas, é a renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. É a poesia que nos levanta do meio da prosa chilra e dura deste fim de século [60].

E mais adiante caracteriza a modernidade, a sociedade baseada no lucro e na troca, como antipoética, já que os escritores são os aliados naturais dos inconformados com a sociedade administrada e compartimentada:

Os direitos da imaginação e da poesia hão de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em nome deles protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro. Este homem fundou uma seita a que se não sabe o nome nem a doutrina. Já este mistério é poesia [61].

Construção do Estado nacional
Nota-se em ambas as obras um projeto historiográfico ambicioso, visando a um retrato abrangente, cientificamente fundamentado, da natureza e da sociedade de uma região periférica e, a partir dela, de todo um país em formação. Em ambos os casos esse remoto espaço rural e semi-selvagem estava ou parecia em descompasso com a missão civilizatória do país, rebelando-se contra ela. Os dois livros tendem a ser uma espécie de súmula, enciclopédia e quintessência dos traços característicos de seus países, seus problemas e possíveis soluções, na sua aspiração por se tornarem nações civilizadas, homogêneas, abastadas, desenvolvendo amplamente o seu potencial econômico e humano. Nas duas obras, o grande tema subjacente é, portanto, a construção de um Estado nacional moderno, impossível sem a incorporação dos incultos espaços interioranos, tão típicos quanto problemáticos para a definição daquilo que é nacional. Pois, o interior pode ser incivilizado, mas ele é típico e autêntico, mais nacional do que as cidades e o litoral, que são civilizadas, porém demasiado internacionalizadas. Se as duas obras aqui contempladas são livros fundadores, isso se deve em parte a essa incorporação do desconhecido e inculto interior e, por outro lado ao fato de satisfazerem a “demanda” de nações em formação por uma epopéia que possam reconhecer como a sua “bíblia” cultural e política [62]. A transformação do passado da nação em memória esteticamente elaborada é fundamental para evitar a sua descaracterização e, não é de se espantar que ambos os livros se tenham tornado lugares de memória de suas respectivas nações [63].

Os dois autores apostaram alto e ganharam. A publicação de suas “epopéias nacionais” celebrizou-os imediatamente [64]. Embora oriundos da baixa classe média do interior, longe dos setores urbanos letrados do litoral, foram logo saudados não apenas como grandes literatos, mas como porta-vozes e intérpretes máximos de uma região e da própria nação, como preceptores da pátria [65]. Se a glória de Euclides paira acima das lutas partidárias, se todas as tendências ideológicas se reportam a ele, da extrema direita até a extrema esquerda, Sarmiento, autor mais diretamente engajado e posteriormente político atuante, é mais controvertido; sendo tendencialmente identificado com o ideário da burguesia liberal que volta e meia mudou suas posições e alianças, de maneira que a sua recepção sempre dependeu até certo ponto das vicissitudes da política nacional [66]. Seja como for, os dois livros em questão entraram nos cânones literários das suas nações, como também da América Latina e do mundo inteiro.

Há toda uma linhagem de escritores preocupados com a construção da nacionalidade, de José de Alencar e José Hernández a Guimarães Rosa e Antonio Callado, que tenderam a mediar essa oposição ao conceber a sua pátria basicamente a partir do interior, valorizando as populações mestiças, suas formas de convívio e organização social, procurando nelas suas inspirações literárias e combinando-as com a vertente humanista da civilização. Tanto Euclides como Sarmiento se integram nessas tradições e de certa forma as constituem ou pelo menos as enriquecem; eles sentem e adivinham que o rude conterrâneo interiorano é um tipo condenado à extinção, destino que lamentam, por mais necessário ou, no caso de Sarmiento, até desejável que seja. Vale a pena fixar essa cultura bárbara, porém autóctone, importante para a construção da nacionalidade, erguer-lhe um monumento, antes que desapareça. Algo dela deve ser preservado, tanto é que o título do livro sarmientino usa a conjunção “y” (na grafia sarmientina “i”), em vez de uma possível “o” entre os dois conceitos-chave; ou seja que não se trata de substituir simplesmente a barbárie pela civilização mas de valorizar e fundir as duas, pelo menos no plano simbólico, criando uma cultura e, eventualmente, uma sociedade nova, nem exclusivamente civilizada no sentido europeu, nem americanamente selvagem como foi o Novo Mundo antes da vinda dos europeus e, até certo ponto, nos tempos coloniais que perduram em caudilhos como Facundo.

A diferença entre os dois autores, a este respeito, é gradual, pois Euclides gostaria, numa futura civilização nacional, de manter mais traços sertanejos do que Sarmiento em relação aos traços gauchos. Ao povo mestiço do campo, não-aculturado se nega o direito de existir, o que prefigura a futura política de extermínio promovida pelo próprio Sarmiento como homem político; porém o sertanejo de Euclides, embora condenado à extinção pela luta das raças, da qual faz parte a guerra de Canudos, paradoxalmente tem uma grande vocação virtual, pois ele seria a “rocha viva” sobre a qual se poderia construir a nação, sendo ele quase um salvador da Pátria que porém o mata tragicamente. Em Sarmiento ideólogo a salvação vem basicamente do exterior, em Euclides ideólogo ela vem do exterior mas também do interior, isto é, poderia ou deveria vir de lá. Todavia, nos dois, enquanto escritores, o homem simples do interior é personagem fascinante e indispensável, portador da especificidade nacional.

Cabe ao sertanejo, na formação étnica e civilizatória do Brasil, papel importante, pois prefigura uma raça mestiça, possível base da nação nascente, autêntica, autóctone e civilizada ao mesmo tempo. É que um Brasil puramente branco e europeu não só é impossível, é até impensável. Ou se concebe um Brasil mestiço ou não se concebe o Brasil, como já viu Martius, nos anos quarenta do século XIX. Na Argentina, porém, a idéia de país branco, não mestiço, basicamente europeu sempre foi e continua sendo miragem difundida e influente, devido à clara predominância da população de origem européia. Sarmiento, diferentemente do seu admirador brasileiro, não considera a mestiçagem um grande problema, e muito menos a solução da formação nacional.


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