A barbárie: antítese ou elemento da civilização? Do Facundo de Sarmiento a Os Sertões de Euclides da Cunha. Berthold Zilly



Baixar 151.85 Kb.
Página3/4
Encontro29.07.2016
Tamanho151.85 Kb.
1   2   3   4

Dialética da civilização
Qual é o rumo da História? Como representá-la? Como explicar a barbárie? A principal característica da história é a marcha inexorável da civilização na sua luta contra o seu contrário. A barbárie, por mais fecunda que seja poeticamente e, por mais necessária que seja militarmente [67], não deixa de ser preocupante, podendo ser, quando não controlada, um empecilho para o progresso. Euclides assume, à primeira vista pelo menos, a atitude isenta e objetiva do cientista à procura da verdade, pesquisando a essência por trás das aparências, as causas profundas por baixo das causas imediatas, as leis naturais e sociais por trás dos fenômenos, para organizar e classificar as suas inúmeras e meio caóticas impressões. Em última análise, assume a atitude de um historiador, “um narrador sincero” que escreve para aquela divindade secularizada que é a História, prefigurando o juízo da posteridade, representada por futuros historiadores, de maneira que escreve quase sub specie aeternitatis. O leitor vai percebendo que as ciências exatas e a historiografia não se contradizem, mas que estão intimamente ligadas, não apenas devido à doutrina da influência do meio sobre a sociedade e do condicionamento da evolução cultural pela evolução genética, da história humana pela história natural. As duas vinculam-se por analogia e correspondência, graças à poetização da linguagem, servindo a natureza como prefiguração da história, entremeada de catástrofes, e sendo a vida social caracterizada por metáforas naturalistas, de modo que não é de maneira nenhuma supérflua a primeira parte do livro intitulada “A Terra”.

Por outro lado, como cronista e historiador, Euclides é, dir-se-ia algumas décadas depois nas ciências sociais, uma espécie de “observador participante”, de caráter predominantemente empírico no meio dos soldados e oficiais, seus companheiros desde a Escola Militar, e de modo antes imaginário entre os sertanejos que quase só conheceu indiretamente, através de textos ou relatos orais de outras testemunhas, ou observando-os de longe, entrevistando-os como prisioneiros condenados à morte, vendo-os mortos. Essa empatia não é apenas uma questão de temperamento, mas também programa, porque aparece no mote, tomado em Hippolyte Taine no fim da “Nota Preliminar” de Os Sertões, o que modifica de certa forma sua atitude olímpica de autor que escreve para futuros historiadores e para o juízo da posteridade [68]. Euclides sofre e se alegra e se irrita com seus personagens, menos ostensivamente e menos unilateralmente do que o seu predecessor do Rio da Prata cuja estética da empatia também se apóia em autoridade francesa, com posição mais romântica, mas não diferente na substância. Esse envolvimento emocional com os personagens permeia, relativiza e até domina o discurso lógico-histórico, a começar pela nota prelinimar, até o fim do livro; ele não impede a busca da verdade mas a favorece. A crítica à civilização como progresso instrumental que homogeneiza o mundo, atropelando todas as alteridades, se esbarra volta e meia na afirmação da necessidade dessa mesma civilização do ponto de vista científico sem que haja qualquer mediação ou ponderação entre as dicotomias do dilema. Manter as peculiaridades regionais e nacionais significaria dificultar ou impedir a adoção da civilização: “Velar pela originalidade ainda vacillante de um povo (...) equivale quase a impropriar-nos ao rythmo acelerado da civilização geral” [69]. Note-se, por outro lado, que a crítica euclidiana à civilização como progresso instrumental não invalida ou denuncia a civilização tout court, ela se baseia ao contrário na civilização entendida como progresso humanitário, na vaga esperança de que os sacrifícios exigidos pela primeira beneficiem algum dia a segunda. Assim ele pode legitimar por exemplo o colonialismo francês na África, visto como modelo para missão civilizadora que o Brasil litorâneo exerce no sertão, à qual esta comparação confere um estatuto colonial [70].

Sarmiento, por sua vez, concentra todo o mal, ou seja, a barbárie em uma pessoa, Facundo, o caudilho do interior, e no tipo humano representado por ele, o gaucho; porém, como deixa claro na introdução, ele visa no fundo outra pessoa, o ditador Rosas, que ainda detém o poder na hora em que o livro está sendo escrito. Por isso o autor argentino não vê motivos para criticar a ferocidade da luta contra o líder do atraso, o inimigo da civilização. O bem e o mal estão claramente delimitados e distribuídos, pois o exilado argentino no Chile tem uma boa consciência na sua campanha jornalística e literária contra os gauchos, dos quais ele se considera vítima, e sabemos que as vítimas sempre têm razão. Em 1845, Sarmiento não pode ter certeza ainda de que pertencerá aos vencedores da História, embora Facundo já tenha morrido, por traição, por culpa de Rosas, como sugere o autor, num trecho altamente dramático que é quase uma crônica de uma morte anunciada, no capítulo XIII, o último do livro em algumas edições, de qualquer forma o ponto alto do ponto de vista épico: “¡¡¡Barranca-Yaco!!!” Esse desenlace, talvez o único lance verdadeiramente heróico do protagonista, o transfigura num ser imortal, demonizado e glorificado pelo relato do autor inimigo, de modo que o leitor, em vez de execrar esse facínora, finalmente passa a se preocupar com a sua vida e a temer a sua morte, desejando que escape à tocaia armada. A heroicidade do inimigo derrotado é velho lugar comum de toda literatura de guerra, pois a admiração pelo vencido enaltece também o vencedor ao passo que o triunfo sobre um inimigo fraco e covarde ou o menosprezo pelo inimigo morto acarretariam pouca honra. Já em Homero, os Troianos, depois de vencidos, são apresentados quase como vencedores morais e, os principais artífices da vitória grega, Agamenon e Ulisses, têm que pagar caro por ela, Aquiles já tendo morrido antes.

A situação de Euclides é moralmente mais incômoda e intrigante do que a de Sarmiento no seu exílio. O autor brasileiro, mais de meio século depois, como oficial reformado e membro da comitiva do ministro da guerra, esteve do lado dos poderosos, dos vencedores, dos autores de um crime não justificável com os alegados crimes anteriormente cometidos pelas vítimas. Embora, ainda vários anos depois da luta, tome repetidas vezes o partido da civilização [71], por outro lado denuncia o exército como “multidão criminosa e paga para matar”, cujas atrocidades não sabe explicar satisfatoriamente [72]. Se lhe parecia viável interpretar os crimes dos sertanejos através do darwinismo social e do evolucionismo da época, os crimes da oficialidade branca, do governo vencedor, da civilização européia que mandou os seus canhões Whitworth, Canet e Krupp e da qual os soldados brasileiros foram “mercenários inconscientes”, não podiam ser imputados à mestiçagem, mas à própria Civilização. Esta, já no começo do livro, na “Nota preliminar”, aparece como sujeito histórico, impelido, por sua vez, pela luta de raças, aquela “força motriz da História” [73], nas palavras do sociólogo polonês-austríaco Ludwig Gumplowicz, decifrável como expressão mistificada da concorrência capitalista em escala mundial. A “animalidade primitiva” [74], na cada vez mais pessimista visão euclidiana, é atributo do gênero humano e não apenas do homem pré-moderno, não-europeu ou mestiço; o homem faz parte da natureza vista numa perspectiva darwinista, ele é feroz seja troglodita, seja moderno. O caráter desumano do gênero humano instrumentaliza a civilização e é instrumentalizado por ela no combate ao suposto não-civilizado, expulso da nação. A idéia do progresso tende a inverter-se, pois em Canudos os bárbaros se verificam menos bárbaros do que os civilizados com sua barbaridade apoiada pela tecnologia moderna. O centro da barbárie parece identificar-se cada vez mais com a capital do país:

A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas (...). E a guerra de Canudos era, por bem dizer, sintomática apenas. O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos [75].

Pode-se vislumbrar nos dois autores uma implícita dialética da civilização, como geradora dos seus próprios opostos, muito embrionária em Sarmiento em que se desenrola ao nível literário, no sentido de um desencanto, bastante nítida em Euclides que a vê também ao nível social e político, pois para ele a civilização engendra a sua própria antítese: uma barbárie moderna, mais perigosa e desumana do que a barbárie pré-moderna, e que só pode ser superada por meio da própria civilização que deve incorporar elementos das combatidas culturas tradicionais. Por outro lado, estas românticas contrapartidas só têm valor, só podem sobreviver como parte da própria civilização, pois para esta não existe alternativa, dela não se escapa, tampouco como da “armação de ferro” de Max Weber à qual no fundo é idêntica [76]. Só é possível, eventualmente, humanizá-la, através dos seus próprios elementos humanistas que prometem justiça, Estado de direito e bem-estar e através de elementos das culturas subjugadas do interior da América Latina. Mas mesmo em Euclides, essa almejada conciliação entre Civilização e Barbárie no sertão é mais ficção do que realidade, pois a oposição não se resolve ao nível da realidade, a tese e a antítese não levam a nenhuma síntese, a não ser ao nível da representação estética. A conciliação acontece no livro, ela é o livro [77].

A indignação e o protesto de Euclides permanecem ateóricos, acientíficos, inoperantes, são puramente éticos e poéticos. Nutrem-se da intuição de que toda essa visão determinista da história não é a última verdade, pelo que protesta com ironia sarcástica contra a nação que procura levar o sertanejo “para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas” [78]. O que objetivamente vale é a eficiência na matança, a “produtividade” do material bélico, ou seja, a sua destrutividade. O progresso técnico-militar é um retrocesso humano, porque a carabina, a metralhadora e o canhão são facas potenciadas, cujo efeito atroz às vezes não se vê de perto, principalmente no caso da artilharia, quando a distância entre os campos beligerantes e a assimetria do armamento geram a possibilidade de os atiradores assistirem à batalha como a um drama, um espetáculo ficcional, esteticamente desfrutável, livre de detalhes cruentos e desagradáveis, numa guerra limpa, ilusão evocada criticamente em Os Sertões. O engenheiro, personagem emblemático da Civilização industrial, se torna espectador que contempla a partir do quartel-general a eficácia mortal da sua engenhosidade. Se a faca representa um estágio artesanal de matança, os canhões marcam o seu estágio industrial, numa guerra em que a barbárie pré-histórica se funde com a barbárie moderna. Se nem aos mortos se concede dignidade, sendo até o Conselheiro morto degolado, uma profanação de sepulcro, embora com fins científicos, isto é, para estudos de cranologia, é lógico o teatro da guerra ser caracterizado como “matadouro” [79], metáfora mas também metonímia que lembra a famosa frase de Hegel sobre a História como matadouro e sobre a escassez de felicidade nela existente [80].

Se Euclides parece mais velho do que o seu colega argentino, embora os dois tivessem a mesma idade ao escreverem os livros aqui confrontados, é porque reflete experiências de mais de meio século que se desenrolou depois do aparecimento do livro argentino. A civilização já teve tempo de revelar alguns dos seus reversos, principalmente na sua periferia, o que permitiu ao autor brasileiro vislumbrar elementos de uma “dialética do iluminismo”, na acepção de Adorno e Horkheimer. Em Sarmiento, o interior dominado por Facundo também é caracterizado pelo terror cruento, do qual é emblemática a degola que tem seu domínio generalizado na capital e no país inteiro pela ditadura de Rosas, permeando o livro todo [81]. Mas o autor argentino não problematiza realmente a gênese da violência, simplificando-a como conseqüência do atraso, falta de educação, falta de comunicação, falta de progresso. Em momento nenhum ele considera a própria civilização como geradora de violência e selvageria, pois ignora, de propósito ou não, as monstruosidades cometidas em seu nome. De certa forma a sua fé no progresso é tão ingênua quanto a de Candide no conto de Voltaire que acredita viver no melhor dos mundos possíveis [82]. Se Sarmiento também pressente traços bárbaros dentro da civilização, as atribui à predominância do interior atrasado, do campo bárbaro, de formas de organização primitivas sobre a sociedade urbana.

O que fustiga, porém, no regime de Rosas são, sem que tenha consciência disso, aspectos, embora embrionários, do Estado ditatorial moderno, com terror sistematizado e culto da personalidade, fenômenos bem conhecidos do século XX. Ele denuncia Rosas, o antigo estancieiro e caudilho rural, como bárbaro, para não ser obrigado a criticar a própria civilização, sobre a qual alimenta muitas ilusões. Considera o ditador homem do campo, para não ter que criticar o Estado autoritário, centralizado, racional, assim como a problemática hegemonia da capital sobre o país inteiro, prolongação da dependência do país em relação à economia mundial dominada pela Inglaterra. Não viu o caráter classista do Estado, nem o caráter limitado, racista e dependente do seu projeto republicano. Se o Estado nacional civilizado é por vezes incivilizado e até anticivilizatório, esse defeito não é extrínseco, como pensava Sarmiento, é intrínseco como intuía Euclides.

No fundo, Rosas, o ditador, era homem da cidade, da modernidade, da civilização, e poderia ter dado ao escritor argentino a oportunidade de vislumbrar a barbárie dentro da própria civilização. O que lhe turvou a perspicácia foi a falta de informações e sobretudo a teimosia em equiparar o político urbano ao caudilho campestre, sob o signo comum da barbárie gauchesca. Por outro lado, Rosas como personagem principal teria sido bem menos romântico e épico do que Facundo. Borges tinha toda razão em acentuar a distância entre os dois líderes do Federalismo, só aparentemente da mesma estirpe, ao desruralizar Rosas, apresentando-o como homem da cidade e da civilização. Também imaginou, com igual razão, que o bárbaro Facundo teria apreciado muito o seu retrato no livro que leva seu nome e que se tornou o seu monumento, ainda que escrito por seu inimigo político e ideológico. Em "Diálogo de muertos", uma miniatura em prosa, o caudilho dos pampas diz postumamente ao seu aliado e rival:

Rosas, usted no me entendió nunca. (...) A usted le tocó mandar en una ciudad, que mira a Europa y que será de las más famosas del mundo; a mí, guerrear por las soledades de América, en una tierra pobre, de gauchos pobres. (...) A usted le debo este regalo de una muerte bizarra, que no supe apreciar en aquella hora, pero que las siguientes generaciones no han querido olvidar. No le serán desconocidas a usted unas litografías muy primoroas y la obra interesante que ha redactado un sanjuanino de valía [83].

_______________



Berthold Zilly é professor do Instituto América Latina da Universidade Livre de Berlim. Originalmente publicado em De sertões, desertos e espaços incivilizados (Rio de Janeiro, Faperj, Ed. Mauad, 2001), este ensaio está aqui reproduzido por expressa autorização do autor

__________



Notas
[1] Usei as seguintes edições: Domingo F. Sarmiento, Facundo: Civilización y barbarie. Barcelona, Biblioteca Ayacucho, 1985 (1a ed. Santiago de Chile, 1845); Euclides da Cunha, Os Sertões (Edição crítica de Walnice Nogueira Galvão). São Paulo, Brasiliense 1985 (1a ed. Rio de Janeiro, 1902). Sarmiento viveu de 1811 a 1888, Euclides da Cunha de 1866 a 1909. Sobre a história e a função ideológica dos conceitos de “civilização” e “barbárie” ver Roberto Fernández Retamar, “Algunos usos de civilización y barbarie”, Casa de las Américas, año XVII, nº 102, 1977; Norbert Elias, Über den Prozess der Zivilisation: Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen, 2 v. Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1997 (Ed. bras. O processo civilizador - Uma história dos costumes. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990); e especificamente sobre “barbárie” na história colonial Ronald Raminelli, Imagens da colonização: a representação do índio de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro/São Paulo, Jorge Zahar/Edusp, 1996.

[2] Há quem negue que Euclides se tenha inspirado em Facundo, como Adelino Brandão que explica as numerosas semelhanças entre os dois livros com leituras e preocupações idênticas ou afins, o que em princípio é plausível, embora em certos detalhes talvez exagerado (A Sociologia d’Os Sertões. Rio de Janeiro, Artium, 1996, p. 167); por exemplo, o romance 1793, de Victor Hugo, não pode ter inspirado Sarmiento, visto que só foi publicado em 1874. Sobre a leitura desse romance por Euclides ver Leopoldo M. Bernucci (A imitação dos sentidos: prógonos, contemporâneos e epígonos de Euclides da Cunha. São Paulo, Edusp, 1995, p. 25-38) que também faz um confronto entre Euclides e Sarmiento, atendo-se a semelhanças estruturais e ideológicas (ibid., p. 39-50).

[3] Euclydes da Cunha, Á Margem da História. Porto, Chardron, 1909, p. 168 (a grafia, inclusive dos nomes próprios, desta e das outras citações, é a das edições consultadas).

[4] Euclydes da Cunha, “Academia Brasileira de Letras: Discurso de recepção”, in: Contrastes e Confrontos. Porto, Emprêsa litteraria e typographica, 1907, p. 347-8. Em Á Margem da História, no ensaio “Martin Garcia”, nome de uma ilha no Rio da Prata, em que Sarmiento localizou sua utopia, Argirópolis, Euclides também menciona Facundo, elogiando o “espirito glorioso do pensador de Civilización y barbarie”, ainda que vislumbre nele uma certa tendência hegemônica para com os países vizinhos, semelhante até “ao imperialismo raso de Manuel Rozas”. Isso não o impede de dedicar ao escritor argentino frases de grande admiração: “Nos ultimos tempos da ditadura de Rozas todos os alentos da nacionalidade desangrada pela Mashorca parecia concentrarem-se na fortaleza moral de um homem. Domingos Sarmiento sobresaía nas crizes da sua terra despedindo os clarões de suas grandes esperanças, presagos de um proximo amanhecer depois de uma noite nacional de vinte anos” (E. da Cunha, op. cit., 1909, p. 214-5). Ver também o capítulo “Entre utopias e pesadelos: Argirópolis, Canudos e as favelas”, Miriam Viviana Gárate, “Leituras cruzadas: entre Sarmiento e Euclides da Cunha”, Tese de Doutorado, Campinas, Unicamp, 1995.

[5] A idéia é antiga, mas a fórmula dos “dois Brasis” é dos anos 50 (ver Jacques Lambert, Os dois Brasis. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976).

[6] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 68; e Cunha, op. cit., 1985, p. 201, onde esse nome aparece com a grafia “Achanti”.

[7] Tanto Sarmiento como Euclides mencionam Charette de la Contrie (1763-1796), um líder aristocrático e monarquista da Vendéia (Vendée), sublevação contra-revolucionária que os dois autores confundem com a dos Chouans, numa região vizinha, na Bretanha, como termo de comparação para caracterizar rebeldes latinoamericanos antieuropeus; porém, ao passo que Sarmiento pretende caracterizar com essa comparação Bolívar, pondo este militarmente acima de Charette (ibid., p. 17), Euclides a usa de modo semi-irônico e auto-irônico, para caracterizar a imagem dos conselheiristas na imprensa brasileira da época, que via neles um bando de aliados do partido monarquista. O autor brasileiro se serve ambiguamente da metáfora da Vendéia como designação do movimento de Canudos, adotando-a e rejeitando-a ao mesmo tempo (ver ibid., p. 461, 249, 282). Mas Sarmiento também está cheio de ambigüidades ao equiparar implicitamente Bolívar e Facundo, por intermédio da comparação de ambos com Charette, como chefes militares e como expressões das terras americanas. Se o elemento autóctone e mestiço, base de uma guerrilha eficiente, é tão positivo em Bolívar, evidentemente por ser anti-espanhol, não pode ser tão negativo em Facundo, só por ser antiunitário, antiliberal, antieuropeu. Por outro lado, essa contradição é atenuada um pouco pela hipótese de que o antiespanholismo de Bolívar é visto como atitude esclarecida, civilizada, moderna, pois a Espanha da época passava por clerical, monarquista e reacionária.

[8] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91. O interesse pelas ruínas se deve em parte ao escritor francês Constantin de Volney (1757-1820), viajante pelo oriente próximo, arabista, historiador meio romântico, meio iluminista e quase materialista, político ligado aos girondinos na Revolução Francesa, autor de Les ruines ou méditations sur les révolutions des empires (1791), muito lido na América Latina na primeira metade do século XIX, sob o título Las ruinas de Palmira, livro citado também por Sarmiento (ver ibid., p. 26). A idéia, já existente no autor argentino, de que o interior bárbaro é ao mesmo tempo velho e novíssimo, caduco e embrionário, vetusto e jovem, ruína e início permeia mais acentuamente ainda todo o livro de Euclides, sem que ele cite Volney expressamente. Sobre a presença deste na obra euclidiana ver Francisco Foot Hardman, “Brutalidade antiga: sobre história e ruína em Euclides”, Estudos Avançados, São Paulo, USP, janeiro/abril 1996, v. 10, n° 26, p. 293-310.

[9] Estou me referindo às duas primeiras edições de Facundo, de 1845 e de 1851, publicadas em Santiago de Chile. O título da primeira é: Civilización i barbarie. Vida de Juan Facundo Quiroga i aspecto físico, costumbres i ábitos de la República Arjentina, Santiago de Chile, 1845, sendo o da segunda edição quase idêntico. Sabe-se que Sarmiento pretendeu americanizar, argentinizar e popularizar o castelhano também através de uma reforma ortográfica que aplicou nos seus primeiros livros, mas que não vingou. O livro euclidiano, nas três edições que saíram durante a vida do autor, em 1902, 1903, 1905, sempre manteve o mesmo título: Os Sertões (Campanha de Canudos) , embora alguns raros editores tenham posteriormente omitido o subtítulo.

[10] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 86.

[11] Depois de voltarem ao Rio, alguns soldados se estabeleceram num morro com o nome sugestivo da Providência, ao lado da estação ferroviária Central do Brasil, denominando-o Morro da Favela, de onde o nome se espalhou virando termo genérico, de modo que aquela favela específica readotou mais tarde o antigo nome de Morro da Providência.

[12] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 237.

[13] Se há uma cidade no Facundo comparável, pelo menos minimamente, com Canudos e talvez ainda mais com Monte Santo, é La Rioja, situada no deserto, ou na sua margem, comparada pelo autor com Jerusalém, igual Canudos: “Más hacia el oriente, se extiende una llanura arenisca, desierta y agostada por los ardores del sol, en cuya extremidad norte, y a las inmediaciones de una montaña cubierta hasta su cima de lozana y alta vegetación, yace el esqueleto de La Rioja, ciudad solitaria, sin arrabales y marchita como Jerusalén, al pie del Monte de los Olivos” (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91). Essas llanuras lembram a Palestina mas também o sertão de Canudos: “El aspecto del país es, por lo general, desolado; el clima, abrasador; la tierra, seca y sin aguas corrientes. El campesino hace represas para recoger el agua de las lluvias y dar de beber a sus ganados” (ibid., p. 91). E, como no sertão, há nos arredores uma alternância de terras áridas e terras férteis, principalmente no plano espacial, menos no plano temporal das estações do ano: “Hay una extraña combinación de montañas y llanuras, de fertilidad y aridez, de montes adustos y erizados, y colinas verdinegras tapizadas de vegetación como los cedros del Líbano” (ibid., p. 92). Sobre o caráter mítico e metafísico do sertão ver Fernando Cristóvão, “A transfiguração da realidade sertaneja e a sua passagem a mito (A Divina Comédia do Sertão)”, Revista da USP, nº 20, dez./jan./fev. 1993-1994.


Catálogo: buscarace -> Docs
Docs -> Difusão da Inovação Tecnológica como Mecanismo de Contribuição para Formação de Diferenciais Competitivos em Pequenas e Médias Empresas Klauber Nascimento Brito
Docs -> Observações sobre a economia institucional: há possibilidade de convergência entre o velho e o novo institucionalismo?
Docs -> Nivalde josé de castro economia e educaçÃo da escola clássica à
Docs -> Desafio Sebrae : o Mercosul e a cultura empreendedora
Docs -> A macroeconomia do Crescimento Econômico
Docs -> Área de Interesse
Docs -> A teoria e o método no espelho da história: ou a história como filosofia do curso de Economia
Docs -> Economia Argentina: da Belle Époque a Primeira Guerra Mundial
Docs -> Moeda e Crédito no Brasil: breves reflexões sobre o primeiro Banco do Brasil (1808-1829)
Docs -> Marx depois do marxismo


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal