A barbárie: antítese ou elemento da civilização? Do Facundo de Sarmiento a Os Sertões de Euclides da Cunha. Berthold Zilly



Baixar 151.85 Kb.
Página4/4
Encontro29.07.2016
Tamanho151.85 Kb.
1   2   3   4

[14] Em muitos países de colonização espanhola, devido à predominância da mineração como principal fonte da riqueza e da exportação, os centros irradiadores da civilização se estabeleceram no interior: Cidade do México, Bogotá, Quito, Cuzco, Santiago de Chile, Córdoba, o que ocorreu no Brasil tardia e reduzidamente em Minas Gerais a partir do século XVIII, e no século XX em Brasília. Por isso, na América hispânica, a dicotomia civilização-barbárie não corresponde necessariamente àquela entre litoral-interior.

[15] Ver acima a citação do ensaio “Martín García”, in: E. da Cunha, op. cit., 1909, p. 221. Quanto às cidades em Facundo, especialmente a relação entre a iluminista Buenos Aires e a clerical Córdoba, ver Maria Ligia Coelho Prado, “Prefácio à edição brasileira”, em Domingo F. Sarmiento, Facundo: civilização e barbárie (Trad. de Jaime A. Clasen). Petrópolis, Vozes, 1997, p. 32-3.

[16] Ver Walnice Nogueira Galvão, As formas do falso: Um estudo sobre a ambigüidade no “Grande Sertão: Veredas”, (São Paulo, Perspectiva, 1986), sobretudo a 1ª parte: “A condição jagunça”.

[17] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 182 e 185.

[18] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 34.

[19] Ibid., p. 34 e 57.

[20] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 180.

[21] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 80.

[22] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 196.

[23] Lembremo-nos de que o termo brasileiro “gaúcho” pode designar não apenas o guardador de gado, montado a cavalo, nos pampas, mas também o habitante do Rio Grande do Sul. Entre os dois significados, Euclides não faz uma clara distinção, dando a entender que, em Canudos, todos os soldados provenientes daquele Estado eram cavaleiros cuidando do gado, “monarcas das coxilhas” (ibid., p. 408), o que provavelmente corresponde tão pouco à realidade histórica quanto a apresentação genérica do sertanejo como vaqueiro, também montado a cavalo. São pelo menos exageros, estilizações enobrecedoras da plebe rural semibárbara, para aproximá-la à figura do escudeiro medieval. Na verdade, em Canudos havia poucos cavalos e poucas vacas, visto que a economia da população pobre do sertão se baseava e se baseia até hoje principalmente na cabra, genericamente chamada de “bode”.

[24] Ibid., p. 184.

[25] Ibid., p. 535.

[26] Ibid., p. 215.

[27] “Malandros e caxias prometem carnavais e paradas. O renunciador promete um mundo novo, um universo social alternativo, como o fez Antônio Conselheiro e, em escala menor, todos os nossos cangaceiros ou bandidos sociais, como foi o caso de Lampião e outros. Ousaria, então, dizer que tudo indica ser o renunciador o verdadeiro revolucionário num universo social hierarquizante, como é o caso do sistema brasileiro” (Roberto da Matta, Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 206).

[28] Se falta religiosidade explícita em Sarmiento, não falta certa predisposição para tal no meio social e no próprio autor, o que mostram as numerosas alusões a paisagens bíblicas, ou a antonomásia surpreendente segundo a qual o “caudillo argentino es un Mahoma, que pudiera, a su antojo, cambiar la religión dominante y forjar una nueva”, graças ao seu poder discricionário (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 60), e que o protagonista, depois de morto, é esperado de volta pelo povo como se fosse um ser sobrenatural, quase como um messias (ibid., p. 8). Mais tarde, viajando pelo norte da África, o autor até ficará surpreso com “la semejanza de fisionomía del gaucho argentino y del árabe, y mi ‘chauss’ me lisonjeaba diciéndo-me que, al verme, todos me tomarían por un creyente”, e até gosta da idéia de ser “presunto deudo de Mahoma” (Domingo F. Sarmiento, Recuerdos de Provincia. Caracas, Biblioteca Ayacucho, 1991, p. 36). Em terras estrangeiras, Sarmiento curiosamente se identifica com o conterrâneo semibárbaro, associado a outro semibárbaro, o árabe muçulmano. A primeira educação do autor foi toda religiosa; seus primeiros e quase seus únicos professores foram sacerdotes, com os quais certamente também aprendeu a predileção pela oratória (ver principalmente o capítulo “Mi educación”, in: ibid., p. 172 s.).

[29] Ver N. Elias, op. cit., especialmente no v. II, p. 323 s.

[30] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 203. O autor argentino, depois do fim do mau herói, depois do fim da parte descritiva e narrativa que constitui a essência do livro, acrescenta dois capítulos (XIV e XV), em que tece, à diferença de Euclides da Cunha que termina o livro com o fim do inimigo principal, considerações políticas, apresentando mais uma caracterização do ditador Rosas, um balanço do presente e um projeto para o futuro. Futuro do país e, nas entrelinhas, futuro do autor que, sem modéstia nenhuma, vê o seu destino intimamente ligado ao destino da nação. Esses últimos dois capítulos, literariamente talvez os menos bem sucedidos, pouco narrativos, pouco dramáticos e pouco poéticos, destoam do livro como um todo, sendo-lhe esteticamente alheios. Assim, as opinões e intenções políticas do autor constituem uma espécie de epílogo ou até apêndice, impressão fortalecida pelo fato de não constarem na primeira versão publicada em forma de folhetim no Progreso, jornal editado pelo autor no Chile, nem na segunda e terceira edição do livro (ver ibid., p. LVIII; e Elizabeth Garrels, “El ‘Facundo’ como folletín”, Revista Iberoamericana, nº 143, 1988).

[31] Ver a relação das dramatis personae, em Euclides da Cunha, Obra Completa (org. Afrânio Coutinho). Rio de Janeiro, Aguilar, 1966, v. II, p. 77-87. A questão da literariedade foi discutida, entre outros, por Luiz Costa Lima (Terra ignota: a construção de ‘Os Sertões’. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1997) que no entanto, à procura de uma definição clara, distinta, racionalista de um livro extremamente multidimensional e de alta carga emocional, contesta, em última análise, o caráter literário de Os Sertões, ou o reduz aos aspectos ornamentais. Sobre a teatralidade de Os Sertões ver Berthold Zilly, “A guerra como painel e espetáculo: a história encenada em ”Os Sertões”, História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, Fiocruz, v. V, suplemento, jul. 1998.

[32] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 7.

[33] Ibid., p. 8. Sobre a invocação das musas na literatura ocidental ver Ernst Robert Curtius, Literatura Européia e Idade Média Latina (Trad. Paulo Rónai e Teodoro Cabral). São Paulo, Edusp/Hucitec, 1996, p. 291-311. Em Curtius não há nenhum exemplo de invocação de um ser negativo, inimigo, nefasto, seja imaginário, seja real. Ver também a interpretação em Jens Andermann, Mapas de poder: una arqueología literaria del espacio argentino. Rosario, Beatriz Viterbo Editora, 2000, p. 85-6.

[34] Tanto Os Sertões como Facundo são livros sem amor e quase sem mulheres, a não ser como personagens coletivas ou como vítimas. Se há um amor nos dois livros, é o dos autores pela pátria. Sobre as mulheres em Os Sertões, ver José Calasans, “As Mulheres de ‘Os Sertões’ ”, in: José Calasans, No tempo de Antônio Conselheiro: figuras e fatos da Campanha de Canudos. Salvador, Aguiar & Souza/Progresso, s.d. [1959], p. 7-23.

[35] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 9; e E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 169 e 231.

[36] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 91.

[37] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 300.

[38] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 19.

[39] Ver as “Notas de Valentín Alsina al libro”, in: Sarmiento, op. cit., 1985, p. 255-304, especialmente nota 2.

[40] Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti (orgs.), Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo, Edusp, 1997, p. 119.

[41] As presentes reflexões sobre as diversas funções do texto literário e de qualquer ato comunicativo devem muito a Roman Jakobson, “Lingüística e poética”, in: R. Jakobson, Lingüística e comunicação. São Paulo, Cultrix, 1969, p. 118-62.

[42] Walnice Nogueira Galvão, “Uma ausência“, in: Roberto Schwarz (org.), Os pobres na literatura brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 51.

[43] Um exemplo famoso é “centauro apeado”, no sentido de “centauro bípede”, para caracterizar a impetuosidade da infantaria do Sul, ou seja, de gaúchos que lutam sem cavalos na caatinga (E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 417). Vale a pena citar a frase toda: “Mas nos encontros a arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contrários, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas”. Aliás, quanto ao gênero gramatical da paisagem gaúcha, Euclides vacila entre o pampa e a pampa, talvez por influência do espanhol (ver ibid., p. 417 e 685). A imagem do gaúcho como centauro era corriqueira no tempo do Facundo, de modo que Alberdi, correligionário e rival de Sarmiento, a usou para sugerir a afinidade temperamental deste último com os cavaleiros do pampa: “Lo presenta como como un caso típico de inadaptación al orden posterior a la caída de Rosas. A fuerza de pelear contra la tiranía, no sabe hacer otra cosa. Es un caudillo de la pluma, ‘producto natural de la América despoblada’ (...). Libre como el centauro de nuestros campos, embiste a la Academia española con tanto denuedo como a las primeras autoridades de la República” (Alberto Palcos, “Sarmiento”, in: Sarmiento, op. cit., 1985, p. 342).

[44] Citado por Roberto Schwarz, “Sobre o amanuense Belmiro”, in: R. Schwarz, O Pai de família e outros estudos. São Paulo, Paz e Terra, 1992, p. 11.

[45] Gilberto Freyre, Perfil de Euclides e outros perfis. Rio de Janeiro, Record, 1987, p. 23-4.

[46] Sobre o conceito de livro fundacional ver Doris Sommer (Foundational Fictions: The National Romances of Latin America. Berkeley/Los Angeles, Oxford/University of California Press, 1994), que inclui na sua pesquisa o Facundo, porém não Os Sertões.

[47] Ver Roberto de Oliveira Brandão, “Presença da oratória no Brasil do século XIX”, in: Leyla Perrone Moisés, O Ateneu: Retórica e Paixão. São Paulo, Brasiliense/Edusp, 1988. Sarmiento, que diferentemente de Euclides nunca teve a chance de concluir uma formação formal, escolar ou superior, pode ter conhecido essa retórica não só através da leitura de modelos literários latinoamericanos e europeus mas também através da oratória eclesiástica (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 318 e 320; e Sarmiento, op. cit., 1991, p. 187 s.).

[48] Os dois autores se empenharam por terem seus livros traduzidos, Sarmiento com êxito rápido, pois dentro de poucos anos saíram traduções do Facundo em francês, inglês e italiano (Sarmiento, op. cit., 1985, p. LIV), ao passo que o livro de Euclides só foi publicado em outra língua depois de sua morte, pela primeira vez na Argentina, em 1938 (Marcia Japor de Oliveira Garcia e Vera Maria Fürstenau (coords.), O Acervo de Euclydes da Cunha na Biblioteca Nacional. Campinas/Rio de Janeiro, Editora da Unicamp/Fundação Biblioteca Nacional, 1995, p. 17-8). Hoje em dia, a situação parece invertida, sendo o livro de Euclides mundialmente mais lido do que o de Sarmiento, cujas traduções estão em grande parte esgotadas. É de 1923 a primeira tradução para o português (ver M. L. C. Prado, op. cit., p. 19). Sobre a rápida recepção de Facundo nas Américas e na Europa ver também Sarmiento, op. cit., 1991, p. 256 e 260-1. O próprio Sarmiento considerava a tradução uma atividade central na transferência e apropriação da civilização, de modo que a praticava ele mesmo, embora de modo bastante subjetivo (ver ibid., p. 264-5; e Florian Nelle, Atlantische Passagen: Paris am Schnittpunkt südamerikanischer Lebensläufe zwischen Unabhängikeit und kubanischer Revolution (Travessias atlânticas: Paris no cruzamento de biografias entre a Independência e a Revolução Cubana). Berlin, Tranvía, 1996, p. 156-66).

[49] Sarmiento reivindica um livro sobre a Argentina escrito por um autor científico do porte de Tocqueville, mas dá a entender que ele mesmo tem muito a dizer sobre o seu país e a América do Sul aos europeus. “A la América del Sur en general, y a la República Argentina sobre todo, le ha hecho falta un Tocqueville, que, premunido del conocimiento de las teorías sociales, como el viajero científico de barómetros, octantes y brújulas, viniera a penetrar en el interior de nuestra vida política, como en un mapa vastísimo y aún no explorado ni descrito por la ciencia, y revelase a la Europa, a la Francia, tan ávida de fases nuevas en la vida de las diversas porciones de la humanidad, este nuevo modo de ser, que no tiene antecedentes bien marcados y conocidos” (Sarmiento, op. cit., 1985, p. 9), sendo interessante a reivindicação de uma ciência social tão metódica quanto as ciências naturais; ver também as páginas subseqüentes. Euclides cumpre de certa forma a reivindicação de um estudo científico do país, pois não só lança mão das teorias sociais vigentes na Europa, aparentemente com o rigor das ciências naturais, mas também se serve destas mesmas, como viajante e como autor científico, fundindo-as com a representação poética e retórica do tipo ensaiado pelo próprio Sarmiento naquelas páginas. Mas além disso, Euclides também afirma a necessidade de algum sábio europeu um dia explicar eventos como a guerra de Canudos, no plano psicossocial, dando a entender que, quem sabe, ele mesmo, Euclides, já cumpriu parte dessa tarefa, só que em vez da ciência política ele invoca a psiquiatria social: “É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...” são as últimas palavras de Os Sertões (E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 573). Sobre a importância da literatura de viagem para a constituição da ficção brasileira ver Flora Süssekind, O Brasil não é longe daqui: o narrador, a viagem. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

[50] “Sejamos simples copistas”, diz Euclides, o que pode ser entendido de maneira tríplice: primeiramente “decifrar” e “transcrever” o “livro” da História; em segundo lugar registrar situações e acontecimentos como uma espécie de escrevente, secretário, cronista do real; em terceiro lugar reproduzir, ou seja desenhar, pintar, esculpir verbalmente quadros e cenas que a própria realidade oferece ao observador e espectador. De qualquer forma a atividade do autor “copista” está oposta à teorização e à especulação, já que as teorias da época se verificaram pouco idôneas para captar e analisar os processos sociais no sertão (ver E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 178). Sobre a metáfora da natureza ou da história como livro que o teólogo, o sábio ou o poeta teriam que decifrar, ver Ernst Robert Curtius, Europäische Literatur und lateinisches Mittelalter (1ª ed. 1948). Bern und München, Francke, 1969, p. 306-52; e E. R. Curtius, op. cit., 1996, p. 375-429. No Renascimento e no Barroco estava muito em voga essa metáfora.

[51] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 40-1.

[52] Ver Berthold Zilly, “Sertão e nacionalidade: formação étnica e civilizatória do Brasil segundo Euclides da Cunha”, Estudos - Sociedade e Agricultura, nº 12, abril 1999, Rio de Janeiro, UFRRJ/CPDA.

[53] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 299 e 476.

[54] Ibid., p. 477.

[55] Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Ästhetik (org. Friedrich Bassenge). Berlin und Weimar, Aufbau, 1965, v. II, p. 420 s.; e G. W. F. Hegel, Curso de estética: O sistema das artes (trad. Álvaro Ribeiro). São Paulo, Martins Fontes, 1997, p. 458 s. A violência e principalmente a guerra como fonte de inspiração poética e de sonhos de salvação numa civilização supostamente decadente é um dos fios condutores no livro de Schneider, por exemplo, no capítulo sobre Nietzsche (Manfred Schneider, Der Barbar: Endzeitstimmung und Kulturrecycling (O bárbaro: ambiente de fim de época e reciclagem cultural). München, Hanser, 1997, p. 201 s.). É principalmente nos espaços “incivilizados” que a fantasia dos civilizados acredita poder livrar-se das peias da moral civilizada, sendo esses espaços de suma importância para a produção poética européia.

[56] “O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa” (ibid., p. 538). Sobre massacres como método de “resolver” conflitos sociais, ver Roberto Pompeu de Toledo, “A teimosa mania de cortar cabeças”, Veja, 8/5/1996, p. 154. Sobre a violência na literatura latino-americana ver Ariel Dorfman, Imaginación y violencia en América. Barcelona, Anagrama, 1972.

[57] Ibid., p. 567 e 452.

[58] “O romance no sentido moderno pressupõe uma realidade ordenada prosaicamente, e baseando-se nela - tanto com respeito à vivacidade dos acontecimentos quanto em relação aos indivíduos e ao seu destino - ele recupera, na medida em que isto é possível nessas condições, para a poesia o seu direito de existência perdido. Uma das colisões mais comuns e mais apropriadas ao romance é por isso o conflito entre a poesia do coração e a prosa adversa das circunstâncias assim como entre aquela e as contingências acidentais” (Hegel, op. cit., 1965, v. II, p. 452. A tradução das citações é minha).

[59] Ibid., p. 549.

[60] Machado de Assis, A Semana, crônica de 22/7/1894. Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre, Jackson, 1937, v. II, p. 134.

[61] Machado de Assis, A Semana (org. John Gledson), crônica de 31/1/97. São Paulo, Hucitec, 1992, p. 401.

[62] É um chavão chamar Os Sertões de “bíblia da nação”, o que coincide com a definição da epopéia por Hegel: “Enquanto tal totalidade original, a obra épica é a lenda [Sage], o livro, a bíblia de um povo, e toda grande e importante nação tem livros assim absolutamente primordiais, nos quais lhe é enunciado aquilo que é o seu espírito original” (Hegel, op. cit., 1965, v. II, p. 407).

[63] Ver Pierre Nora, “Entre mémoire et histoire”, in: P. Nora (org.), Les Lieux de Mémoire, v. I, La République. Paris, Gallimard, 1984; e Regina Abreu, O Enigma de ‘Os Sertões’. Rio de Janeiro, Funarte/Rocco, 1998.

[64] Ver por exemplo Afrânio Coutinho, “Os Sertões, obra de ficção”, in: Euclides da Cunha, op. cit., 1966.

[65] Esta representatividade nacional se reflete, por exemplo, no título do livro de Tulio Halperín Donghi e outros (orgs.), Sarmiento: Author of a Nation. (Berkeley/Los Angeles/London, University of California Press, 1994). Ver também Ezequiel Martínez Estrada, Radiografía de la pampa (ed. crítica de Leo Pollmann). Paris/São Paulo, ALLCA XX-Ediciones Unesco/Edusp, 1996, p. 253-6.

[66] Sobre a recepção e funcionalização de Sarmiento pelas correntes ideológicas na história argentina ver Dieter Reichardt, “Sarmiento’s Essay ‘Facundo - Civilización y barbarie’ in der politischen Auseinandersetzung Argentiniens” (O ensaio de Sarmiento ‘Facundo - Civilización y barbarie’ nas lutas políticas da Argentina), in: Rolf Klöpfer e outros (orgs.), Bildung und Ausbildung in der Romania, v. III. München, Fink, 1979.

[67] A história de algumas palavras derivadas do étimo latino e grego de “bárbaro“ elucida as ambivalências que sempre acompanharam a atitude dos civilizados em relação à barbárie: pertencem a elas, entre muitas outras, as palavras bravio e brabo, o que não pode surpreender, mas também bravo e bravura, prova de que pelo menos no plano militar a barbaridade é indispensável (ver Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999, verbete “bravo”).

[68] “Estimem o historiador que trate a história como ela o merece, isto é, como ciência (...). Pois ele só aprecia o verdadeiro absoluto, ele se irrita contra as semi-verdades que são semi-falsidades, contra os autores que guardam o desenho dos acontecimentos e modificam a sua cor, que copiam os fatos e desfiguram a sua alma: ele quer se sentir como bárbaro entre os bárbaros, e entre os antigos como antigo”. (H. Taine, Essai sur Tite-Live. Paris, Hachette, 1888, p. 30; a tradução é minha). É significativo a citação de Euclides só começar com as palavras “il s’irrite”, ficando portanto fora a reivindicação de que história seja uma “science” e uma busca do “vrai absolu”. Em vez disso, Euclides acentua a necessidade da empatia que em Taine está mais bem ao serviço da neutralidade, da proximidade sempre igual do historiador com todos os seus protagonistas e portanto da imparcialidade. Não surpreende Sarmiento começar o seu livro, na introdução, com um mote que vai na direção euclidiana, encontrado em outro autor francês, Abel François Villemain, historiador da literatura, pouco conhecido hoje em dia: “Peço ao historiador o amor pela humanidade ou pela liberdade; a sua justiça imparcial não deve ser impassível. É preciso, pelo contrário, que ele espere, que sofra, ou que esteja feliz com aquilo que narra” (Sarmiento, op. cit.,1985, p. 7; a tradução é minha). A empatia, uma certa pluriparcialidade é programática nos dois autores, mas em Sarmiento ela fica, principalmente em relação ao povo e aos inimigos, bastante subliminar, devido ao seu temperamento egocêntrico, partidário, pragmático. Em Euclides ela é mais generalizada, justa, equitativa, menos partidária, pois a sua compaixão é suprapartidária, estendendo-se a homens de todas as condições, plantas, animais, pedras, a todos os seres sofridos e martirizados.

[69] E. da Cunha, op. cit., 1907, p. 297.

[70] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 135.

[71] E. da Cunha, op. cit., 1907, p. 141-68. A “cruzada” é a da civilização contra a barbárie. A última frase reza: “(...) o unico significado verdadeiramente civilizador do movimento expansionista das raças vigorosas sobre a terra, está todo em affeiçoar os novos scenarios naturaes a uma vida maior e mais alta - compensando-se o duro esmagamento das raças incompetentes com a redempção maravilhosa dos territorios...” Sarmiento não pensaria diferentemente, só que teria menos problemas morais com esse “esmagamento”. Não é a primeira nem a última vez que se veicula a idéia do desenvolvimento de um território aceitando-se a eliminação da sua população primitiva, considerada empecilho.

[72] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 538.

[73] Ibid., p. 86.

[74] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 538.

[75] Ibid., p. 373.

[76] No original alemão a famosa fórmula reza: “stahlhartes Gehäuse”, que significa literalmente “armação, cápsula, carcaça dura como aço”, um invólucro, portanto, em que o homem está inexoravelmente preso, metáfora da coerção que a economia capitalista exerce sobre os indivíduos, independentemente de sua aceitação ou não (M. Weber, Die protestantische Ethik. München/Hamburg, Siebenstern, 1969, v. I, p. 188).

[77] B. Zilly, op. cit., 1999, p. 37-40.

[78] E. da Cunha, op. cit., 1985, p. 374.

[79] Ibid., p. 538.

[80] Esteban Echeverría, amigo de Sarmiento e unitário como ele, usa esse símbolo para caracterizar o regime de Rosas, no seu conto-novela El matadero, provavelmente escrito em 1839, publicado só em 1871, onde “se ilumina la figura del joven vejado (...) por los esbirros del tirano, como la proyección simbólica en que avanza el cuadro de costumbres nacionales, diseñando una interpretación de la lucha entre civilización y barbarie” (Juan Carlos Ghiano, “ ‘El Matadero’ de Echeverría”, in: Esteban Echeverría, El Matadero. Buenos Aires/Barcelona, Emecé, 1967, p. 13). Há quem estabeleça uma filiação entre El Matadero e o Facundo (ver Roberto González Echeverría, “Redescubrimiento del mundo perdido: El Facundo de Sarmiento”, Revista Iberoamericana, nº 143, 1988, p. 385-406).

[81] Sarmiento, op. cit., 1985, p. 27 e outros trechos.

[82] É curioso essa ingenuidade também se encontrar em Martínez Estrada, em pleno século XX, que atribui a barbárie debaixo dos fraques ao caráter americano (E. Martínez Estrada, op. cit., p. 253).



[83] Jorge Luis Borges, “Diálogo de muertos”, in: El Hacedor, in: Obras Completas: 1923-1972. Buenos Aires, Emecé, 1989, v. 1, p. 791. O “sanjuanino”, naturalmente, é Sarmiento.
Catálogo: buscarace -> Docs
Docs -> Difusão da Inovação Tecnológica como Mecanismo de Contribuição para Formação de Diferenciais Competitivos em Pequenas e Médias Empresas Klauber Nascimento Brito
Docs -> Observações sobre a economia institucional: há possibilidade de convergência entre o velho e o novo institucionalismo?
Docs -> Nivalde josé de castro economia e educaçÃo da escola clássica à
Docs -> Desafio Sebrae : o Mercosul e a cultura empreendedora
Docs -> A macroeconomia do Crescimento Econômico
Docs -> Área de Interesse
Docs -> A teoria e o método no espelho da história: ou a história como filosofia do curso de Economia
Docs -> Economia Argentina: da Belle Époque a Primeira Guerra Mundial
Docs -> Moeda e Crédito no Brasil: breves reflexões sobre o primeiro Banco do Brasil (1808-1829)
Docs -> Marx depois do marxismo


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal