A beleza da montanha lembranças de Krishnamurti



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A BELEZA DA MONTANHA
Lembranças de Krishnamurti

(Friedrich Grohe)

PREFÁCIO

Estas lembranças de Krishnamurti, ou “K” como ele muitas vezes referia-se a si mesmo, compreendem os três últimos anos de sua vida, durante os quais convivi pessoalmente com ele. A maioria das pessoas conhece Krishnamurti através de seus livros e fitas, ou por terem assistido às palestras públicas que ele costumava fazer pelo mundo. Várias vezes K disse sobre si mesmo: A pessoa não é importante, mas o que ela diz é. Mesmo assim, encontrei muitas pessoas ardentemente interessadas em saber como ele levava sua vida diária. Por isso gostaria de lembrar aqui eventos aparentemente insignificantes que, contudo, podem mostrar que este extraordinário ser humano de fato viveu os chamados “Ensinamentos”.

Os Ensinamentos contém grande beleza, e a beleza só pode existir quando o “ego” está ausente – como K freqüentemente apontou. Assim, ele mesmo era sem “eu”.

Gostaria de citar aqui uma passagem do livro Questions and Answers:


Pergunta:
Entendi as coisas que discutimos aqui durante estes encontros, mesmo que só intelectualmente. Acho que são verdadeiras num sentido profundo. Agora, quando voltar para meu país, devo falar sobre seus ensinamentos com amigos? Ou, desde que sou ainda um ser humano fragmentado, apenas provocarei mais confusão e prejuízo falando sobre eles?
Krishnamurti:
Toda pregação religiosa dos sacerdotes, dos gurus é divulgada por seres humanos fragmentados. Embora digam, “Somos seres humanos superiores”, eles são ainda seres humanos fragmentados. E o interrogante diz: “De algum modo entendi o que você diz, parcialmente, não completamente; não sou um ser humano transformado. Entendo, e quero falar para outros o que entendi. Não digo que entendi o todo, entendi uma parte. Sei que é fragmentado, sei que não está completo, não estou interpretando os ensinamentos, estou apenas informando o que entendi.” Bem, o que há de errado nisso? Mas se você diz: “Compreendi o todo completamente e estou lhe contando” – aí você se torna uma autoridade, o intérprete; tal pessoa é um perigo, ela corrompe outras pessoas. Mas se vi algo que é verdadeiro, não estou iludido; é verdade e nisto há uma certa afeição, amor, compaixão; sinto isso muito fortemente – então naturalmente eu não posso ajudar mas falar para outros; seria bobagem dizer que não o farei. Mas previno meus amigos, digo, “Olhem, tenham cuidado, não me coloquem num pedestal”. O orador não está num pedestal. Este pedestal, esta plataforma, é só por conveniência; não lhe confere nenhuma autoridade. Mas como o mundo é, os seres humanos estão ligados a uma coisa ou outra – a uma crença, a uma pessoa, a uma idéia, uma ilusão, um dogma – assim eles são corrompidos; e o corrompido fala e nós, estando também de algum modo corrompidos, nos juntamos à multidão.

Vendo a beleza destas montanhas, o rio, a extraordinária tranqüilidade de uma nova manhã, o contorno das montanhas, os vales, as sombras, como tudo está em proporção, vendo tudo isso, você não escreverá para seus amigos dizendo, “Venham aqui, vejam isto”? Você não estará interessado em si mesmo mas apenas na beleza da montanha.”

Nessas reminiscências, gostaria de partilhar com meus amigos, e com quem mais possa estar interessado, a beleza da montanha.

INTRODUÇÃO


Durante um período de mais de setenta anos Krishnamurti proferiu milhares de palestras públicas e debates em muitos países mas nunca disse uma palavra em excesso. Seu discurso era preciso e claro, e sua aparência elegante e bem cuidada. Ele era basicamente reservado, ou como algumas vezes observou, tímido. No entanto, daria toda sua atenção a quem quer que se dirigisse a ele, se interessando por todos os aspectos e detalhes. Seu amor pelas pessoas significava que qualquer um podia aproximar-se dele.

Desde 1983 – quando o conheci – estive em contato regular com ele, acompanhando-o em alguns de seus passeios e indo com ele em sua última viagem à Índia; nos encontrávamos em Brockwood Park, Saanen e Ojai regularmente. Em Brockwood ele providenciou que eu tivesse um quarto na chamada “West Wing” (Ala Oeste), a parte do complexo da escola em que ele mesmo vivia.

Desde que foi criada em 1969, K passava cerca de quatro meses por ano em Brockwood Park. Porque ele tinha um profundo interesse em iniciar um centro de estudos para adultos ali, gostaria de citar sua declaração sobre o significado de Brockwood Park e do futuro centro.



Brockwood hoje e no futuro



Há quatorze anos Brockwood é uma escola. Começou com muitas dificuldades, falta de dinheiro, e assim por diante, e todos nós ajudamos a construí-la até a presente condição. Têm havido encontros todos os anos, seminários e todas as atividades de gravação de áudios e vídeos. Chegamos ao ponto não só de avaliarmos o que estamos fazendo mas também de fazermos de Brockwood mais do que uma escola. Embora tenhamos nos encontrado nos últimos vinte e dois anos durante um mês e pouco em Saanen, Brockwood é o lugar em que K despende mais tempo e energia. A escola tem uma boa reputação e a sra. Dorothy Simmons colocou nela sua maior energia, sua paixão. Todos nós ajudamos a construir a escola apesar de grandes dificuldades, tanto financeiras quanto psicológicas.

Agora Brockwood deve ser mais do que uma escola. Deve ser um centro para aqueles que estão profundamente interessados nos Ensinamentos, um lugar onde podem ficar e estudar.

Antigamente um “ashrama” – que significa retiro – era um lugar aonde as pessoas iam para acumular suas energias, morar e explorar aspectos religiosos mais profundos da vida. Lugares modernos deste tipo geralmente têm algum tipo de líder, guru, abade ou patriarca que guia, interpreta e domina. Brockwood não deve ter tal líder ou guru, porque os próprios Ensinamentos são a expressão desta verdade que as pessoas sérias devem descobrir por si mesmas. O culto pessoal não tem lugar aqui. Temos que enfatizar este fato.

Infelizmente nossos cérebros são tão condicionados e limitados pela cultura, a tradição e a educação que nossas energias ficam encarceradas. Nós caímos em rotinas confortáveis e nos tornamos psicologicamente inúteis. Para compensar gastamos nossas energias com interesses materiais e atividades egocêntricas. Brockwood não deve se render a esta tradição batida. Brockwood é um lugar de aprendizagem, de aprender a arte de questionar, a arte de explorar. É um lugar que demanda o despertar da inteligência que surge com a compaixão e o amor.

Não deve se tornar uma comunidade exclusiva. Geralmente comunidade implica alguma coisa separada, sectária e fechada em propósitos idealistas e utópicos. Brockwood deve ser um lugar de integridade, profunda honestidade e do despertar da inteligência em meio da confusão, do conflito e da destruição que acontecem no mundo. E isso não depende de qualquer pessoa ou grupo mas da consciência, da atenção, do afeto das pessoas que lá estão.



Tudo isso depende das pessoas que vivem em Brockwood e dos curadores da Fundação Krishnamurti. É deles a responsabilidade de produzir isso.

Assim cada um tem que contribuir. Isso não se aplica apenas a Brockwood mas a todas as outras Fundações Krishnamurti. Parece-me que se pode estar perdendo tudo isso de vista, ficando-se envolvidos profundamente por diversas atividades, presos em interesses particulares de modo que não se tem tempo nem disposição para se interessar profundamente pelos Ensinamentos. Se este interesse não existe, as Fundações não têm significado. A pessoa pode falar indefinidamente sobre o que são os Ensinamentos, explicar, interpretar, comparar e avaliar mas tudo se torna superficial e realmente sem significado se a pessoa não está de fato vivendo os Ensinamentos. Continuará a ser responsabilidade dos curadores decidir que forma Brockwood terá no futuro, mas Brockwood deverá ser sempre o lugar onde a integridade pode florescer. Brockwood é um belo lugar com antigas e magníficas árvores, cercado por campos, prados, bosques e a quietude do interior. Deve ser sempre mantido assim pois beleza é integridade, bondade e verdade.

J. Krishnamurti

1983

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