A bicha Moira Ed. Trinta Por Uma Linha



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A Bicha Moira

Ed. Trinta Por Uma Linha



Apresentação

1 de dezembro / 2012



15:00h

A Bicha Moira é uma das poucas lendas do imaginário aguedense que chegaram aos nossos dias. Inscreve-se esta lenda num corpus de narrativas com origem nos mitos das mouras encantadas, cuja origem remonta à pré-história e que, no seu percurso ao longo dos séculos, foram anexando elementos dominantes de cada época, num processo contínuo de transformação e de contextualização.


Fernanda Frazão e Gabriela Morais (in Portugal, Mundo dos Mortos e da Mouras Encantadas, ed. Apenas Livros, 2009) consideram que as mouras serão vestígios visíveis das mais antigas histórias da Humanidade que, pela sua longa cronologia, se inscreveram no nosso inconsciente coletivo. Estas lendas “guardam as memórias mais antigas dos nossos antepassados” e, apesar da contextualização que foram sofrendo na travessia de séculos, “não perderam o seu núcleo duro, revelador dessa antiguidade”. É, portanto, neste núcleo duro que se inscrevem as “bichas” ou “cobras mouras” que habitam as fontes, as grutas, as minas, os poços, as correntes de água que brotam do interior da terra, as raízes das árvores, enfim ... a Mourama – o mundo subterrâneo, o mundo dos mortos para os celtas. Referem ainda estas autoras que, atualmente, se considera que o termo moura / mouro terá como base o termo celta *mrvos – cujo significado é «morto» ou «ser sobrenatural». Seguindo a mesma linha de pensamento, Consiglieri Pedroso (in Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa, Pub. Dom Quixote, Lisboa,1988) considera que “as mouras encantadas eram divindades ou génios femininos das águas, análogas às nixen germânicas, às lac-ladies inglesas, às rusalki russas, às elfen esdandinavas, às náiades gregas, etc. Eram também, além disso, os génios que guardavam os tesouros escondidos no centro da terra, crença que é comum a todos os povos, que conservaram vestígios desta entidade mítica, que parece ser indo-europeia ou pelo menos europeia, por isso se encontra, quase sem exceção, em todos os grupos áricos da Europa. Apenas da mitologia portuguesa desapareceu a feição maléfica que estas entidades por vezes revestem em outras mitologias.”
Considerando o processo diacrónico de adaptação / contextualização atrás referido, é curioso verificar o comportamento do mito das “cobras” ou “bichas mouras”, ao atravessarem os períodos da romanização e da islamização: o facto de a palavra Mourama – o subterrâneo reino dos mortos – se confundir com a Mourama, terra de mouros, terra de Sarracenos veio a desencadear uma espécie de “aculturação” destes mitos, confundindo / relacionando as “bichas moiras” com as princesas mouras. A época da Reconquista foi terreno fértil para a “transfiguração” dos anteriores mitos, que sobreviveram sobretudo em meios rurais, nas belíssimas lendas das princesas encantadas, geralmente em consequência de amores impossíveis entre mouros e cristãos.
Passemos, então, a situar a lenda da Bicha Moira, versão aguedense, neste contexto:
Fernanda Frazão e Gabriela Morais dizem-nos que o conhecimento destes mitos vem até nós através de “rumores” – diz-se que nesta fonte...; conta-se que há uma cobra... –. A partir destes rumores conseguimos recolher o que as mesmas autoras chamam, à semelhança da Arqueologia, os “cacos” do mito.
Tendo em conta as considerações feitas atrás, quais foram, então, os “cacos” do mito, e também outras fontes, que me permitiram reconstituir e recriar a minha versão da lenda d’A Bicha Moira?
Os “rumores” já pouco nos dizem. Se perguntarmos aos aguedenses o que sabem acerca desta história, já são poucos os que nos dão uma resposta, por vaga que seja, e menos ainda os que tecem uma narrativa com encadeamento lógico. Por estranho que pareça, há mesmo poucos que saibam onde ficam a encosta e a travessa da Bicha Moira e a fonte que lhes deu o nome. O que ficamos então a saber, escutando os rumores possíveis? Diz-se....
...que uma princesa foi transformada em cobra por causa de amores proibidos;

... que a cobra vive numa gruta de onde brota uma fonte, a fonte da Bicha Moira;

... que são as suas lágrimas que alimentam a fonte;

.... que a princesa só poderá ser desencantada por um jovem que, na noite de S. João, entre na gruta de onde brota a fonte e tenha a coragem de beijar a cobra para que esta retorme ao seu corpo de princesa.

... que todo o forasteiro que beber água da fonte do Botaréu ficará em Águeda para sempre.
São estes os “cacos” do mito que persistem nos “rumores”.
Há, no entanto, algumas fontes escritas datadas de finais do séc. XIX / início de séc. XX:
1. A Bicha Moira em Duas Noites de S. João, de José Maria Vellozo – um extenso e sobrecarregado poema, escrito em 1847, em circunstâncias muito curiosas, e publicado em 1871 no semanário Escola Popular (n.ºs 36 a 49). Com efeito, na época em que o poema foi escrito, os aguedenses tinham como dado adquirido o fato de Águeda ter a sua origem em ÆMINIUM, importante cidade romana situada por Plínio entre os rios Vouga e Mondego. Ora, José Maria Vellozo, denotando algum desgosto pelo facto de, em Águeda, não ter sido descoberto qualquer vestígio arqueológico da importante cidade romana, encontra na Lenda da Bicha Moira o único vestígio do passado capaz de reerguer a grandeza perdida da velha ÆMINIUM e, portanto, de Águeda. Escreve, então, um extenso e intrincado poema, transformando a singela e tocante história da princesa num texto carregado de erudição histórica, que lhe rouba a leveza e o encanto. As circunstâncias em que foi escrito, as características poéticas e o complicado enredo da narrativa, tudo leva a crer que o texto de Vellozo não tenha sido fruto da recolha de narrativas orais ou dos tais “rumores” que, ao tempo, possivelmente terão circulado ainda com algum vigor. Inclusivamente, é Vellozo que dá o nome à princesa – Zulcide –, facto confirmado por Adolfo Portela.

Este poema vale, a meu ver, pelo fato de ter chamado a atenção para esta lenda, despertando a população para a sua existência, impedindo talvez o seu esquecimento tal como aconteceu com as lendas d’A Mesa dos Mouros e d’A galinha com porquinhos e a porca com pintainhos que, já Adolfo Portela, no seu livro “Águeda”, referiu como irrecuperáveis.


2. Tese de licenciatura em Medicina do dr. António da Costa Ferreira, intulada Águas do Botaréu, apresentada em 1903. Perguntar-se-á o que faz uma lenda de uma moura encantada numa tese de Medicina. O facto é que, com esta tese, pretendia o seu autor provar as qualidades terapêuticas e termais das águas do Cais do Botaréu onde, até há relativamente pouco tempo, o povo tomava o banho santo na noite de S. João, na esperança de cura para muitos males. Partindo desta constatação, o dr. António da Costa Ferreira investiga as qualidades da água, tendo descrito no seu trabalho uma interressante rede de pequenos ribeiros e regatos, hoje inexistentes, mas que, ao tempo, desaguavam no Ribeirinho que, por sua vez, os lançava no rio Águeda, chegando as suas águas até ao Cais do Botaréu. Ora, um destes ribeiros, o Nancrias, tinha a sua origem na Gruta da Fada, sendo a fonte da Bicha Moira a sua nascente. Daí a integração da lenda num trabalho que se julgaria exclusivamente objetivo e científico.

Por este trabalho ficamos a saber da existência da Gruta da Fada – terá sido uma Fada que encantou a princesa – e das águas milagrosas que correm da fonte até ao Botaréu, onde o povo mergulhava em noites de S.João para a cura de maleitas.


3. Foi em Adolfo Portela que encontrei a relação entre a água da fonte – lágrimas da princesa que, “namorada d'uns olhos christãos, chora toda a tragedia do seu encantamento” –, e a água do Botaréu, que, nas suas palavras, “é como um filtro de veneno doce que enfeitiça a alma de quem a prova” e, ainda, que tem “a virtude extranha de enfeitiçar quem a bebe. E esse feitiço, pelos modos, leva a gente, por mais indifférente que vá passando em terras d'Agueda, a prender-se a ella sem nunca mais poder mudar de pátria.”

É também em Adolfo Portela que encontramos ecos de “rumores” perdidos: as lágrimas da princesa “não quebrarão jamais o rosário d'oiro e prata que vão fiando por esse oiteiro abaixo; que esse oiro e essa prata, com todo o feitiço que trazem dos olhos maguados de Zulcide, hão de confundir-se sempre nas aguas do Ribeirinho; e que estas aguas, por fim, ao termo da sua curta jornada entre ribas macias, hão-de juntar-se todas, como agora se juntam, no romântico portinho do Botareu.”. E é porque as lágrimas da princesa “desfiam” ouro e prata que Adolfo Portela recolhe do cancioneiro ribeirinho a canção:


Vou encher a infuza doiro

nas aguas do Botareu.

Andes lá por onde andares

o teu peito ha-de ser meu!
Prendi-me na silva verde

mas alguém me desprendeu.

Outro tanto já não digo

das aguas do Botareu.
Poderemos, então, relacionar o rosário de ouro e prata e a infuza doiro, aqui presentes, com as cifras de ouro referidas no poema de Vellozo que a princesa lançava nas águas do regato, explicando em código o segredo do seu desencantamento. Estes “cacos” do mito remetem-nos para os atrás referidos mitos das “bichas” ou “cobras mouras”, que, desde a pré-história, guardariam tesouros escondidos no interior da terra.

Fazendo o estudo comparativo da lenda aguedense com as inúmeras lendas de bichas moiras que povoam o país, com particular incidência no Norte, verifica-se que não se afasta da matriz narrativa das mesmas. É a associação das duas fontes e o feitiço das águas do Botaréu que a situam no contexto aguedense, dando-lhe forma local.

Foi articulando e reorganizando estes “fragmentos” da história que construí a minha versão da lenda d’ A Bicha Moira. Para que a lenda não se vá delindo (termo de Adolfo Portela) com o correr do tempo, decidi partilhá-la em livro com todos os aguedenses amantes do seu património. Será uma maneira de, todos juntos, irmos passando a lenda à frente, na esperança de que nunca se perca.
Nota: Foi respeitada a ortografia das fontes escritas.

Maria da Conceição Sousa Vicente









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