A brasileira de Prazins 1 — Introdução



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A Brasileira de Prazins

1 — Introdução

  • Grande nome da segunda geração romântica de Portugal.

  • Célebre por suas novelas passionais, repletas de dramas.

  • A simbiose entre a vida e a obra de Camilo fez com que muitos pesquisadores se valessem dos estudos biográficos como instrumento para os estudos literários da produção camiliana.

  • Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez.

  • Com a morte deste, Camilo e sua irmã, foram morar com uma tia, Rita, mulher gananciosa e desonesta, que vivia no Norte de Portugal.

  • Para se livrar da dependência da tia e apoderar-se da herança, Camilo casa-se aos dezesseis anos com Joaquina P.França(15).

  • A partir de então, a vida sentimental de Camilo corre numa sucessão vertiginosa de paixões interinas, com fugas, raptos, duelos, emboscadas, abandonos, adultérios, prisões e mortes, até o escritor conhecer Ana Augusta Plácido, que será a última e a mais estável companheira de Camilo, e que lhe dará três filhos, o primeiro, morto aos dezenove anos; o segundo, doente mental; e o terceiro, um estróina, viciado em jogos de azar.

  • Como estudante, tentou a Medicina, o Direito e o sacerdócio.

  • Dessa obra, entre poesia, teatro, crítica, biografia, crônica e textos de polêmica, destaca-se a prosa de ficção, em que se tornou mestre.

  • Em 1890, como um trágico final a Camilo, depois de uma existência atribulada e aflitiva, o escritor suicida-se.


2 - Apontamentos ideológicos - Romantismo

  • Entre a aspiração do sentimento e a experiência social.

  • Em linhas gerais, Camilo possui uma trajetória dentro do Romantismo português que poderia ser assim sintetizada: sua obra parte de um dominante idealismo sentimental espiritualista e ingênuo até chegar a um forte materialismo de consciência social.

  • Não se pode, é lógico, tomar esses valores como absolutos.

  • O Romantismo dividiu-se em duas tendências distintas e opostas: a idealização e o realismo (não confundir com o Realismo).

  • Será, enfim, dentro dessa antinomia romântica — idealismo/materialismo que oscila, pendularmente, a obra camiliana.

  • O realismo camiliano é assemelhado — ao menos em alguns pontos — ao realismo romântico francês.

  • Ou seja, adota uma perspectiva desmascaradora da sociedade hipócrita, desprezadora do arrivismo e dos preconceitos burgueses.

  • Uma perspectiva, pois, cruel e acutiladora, mas que, ao mesmo tempo, afigura-se pacificadora e moralista, explícita nas posições cristãs e fraternas do narrador-autor, que vaza, quase sempre, uma filosofia otimista, de crença na redenção do homem, que nem por isso deixa de ser, exposto em seus limites e fraquezas.

  • Trata-se, enfim, de um “realismo espontâneo”,natural, não propositor nem seguidor de fórmulas de escola literária.

  • Para a obra camiliana, convergem, — nem sempre em equilíbrio,—, a força sublime e libertária do sentimento amoroso e a energia rasteira e mesquinha dos interesses pessoais, alinhados à conveniência social.

  • Camilo encara o homem como um ser dilacerado pela ação dessas duas potências antagônicas e intrínsecas à natureza humana: a capacidade de transcender através do amor e a disposição para afocinhar na lama dos vícios.


3 - Pressupostos de leitura de A Brasileira de Prazins

  • A narrativa possui como pano de fundo histórico os desdobramentos da Guerra Civil portuguesa de 1832-34.

  • Quando D. João VI morre (1826), o país vive uma crise sucessória.

  • O herdeiro legítimo da Coroa portuguesa era D. Pedro, que em 1822 havia sido aclamado imperador do Brasil.

  • Sem poder ser rei de Portugal e imperador do Brasil a um só tempo, D. Pedro abdica o trono português em favor de sua filha D. Maria da Glória (futura D. Maria II), que contava apenas sete anos.

  • D. Pedro outorga a Portugal uma Carta Constitucional, procurando conter os excessos liberais da Constituição de 1822 e conciliar de uma forma tão ampla e harmoniosa quanto possível os anseios do Liberalismo comercial sob uma ordem monárquica restrita.

  • Em 1826, acordou- se o casamento de D. Miguel com a sobrinha, ficando o príncipe regente do reino durante a menoridade da rainha.

  • Tal matrimônio objetivava aplacar os ânimos daqueles que consideravam D. Miguel o autêntico sucessor de D. João VI, uma vez que D. Pedro optara pelo Brasil.

  • D. Miguel, em princípio, acede às imposições do irmão (Carta, casamento, regência provisória, respeito ao sistema liberal).

  • No entanto, em 1828, tão logo chega do exílio D. Miguel fora exilado após uma tentativa de golpe contra o pai, em 1824: fato que também explica a preterição de seu nome para a sucessão de D. João VI —, o príncipe é aclamado rei absoluto por seus partidários, contrariando as determinações de D. Pedro.

  • Tornado monarca, D. Miguel nega a Carta e empreende uma terrível perseguição aos liberais que se opunham ao novo rei.

  • Exílios, prisões e mortes ocorreram em grande escala.

  • Depois de várias tentativas internas para derrubar o regime de D. Miguel, D. Pedro, em 1831, abdica do trono brasileiro e regressa à Europa a fim de combater pessoalmente o despotismo do irmão.

  • Os liberais auxiliados por um exército de mercenários, sob o comando de D. Pedro, reúnem-se na ilha Terceira, no Açores, único pólo português ainda resistente ao miguelismo, e de lá invadem Portugal, em julho de 1832.

  • A partir de então, o país torna-se palco de violentas batalhas entre tropas liberais e forças miguelistas, que lutam entre si até maio de 1834, quando os adeptos de D. Pedro subjugam definitivamente seus inimigos e obrigam D. Miguel a renunciar à Coroa.

  • A guerra travada entre os dois irmãos representa mais do que uma simples luta pelo poder.

  • Representa o confronto do Portugal tradicional, nobre e absolutista, e o Portugal moderno, comercial e técnico.

  • O povo dividiu-se entre o velho e o novo, entre as grandezas de um passado glorioso e as grandiosas perspectivas dum futuro que, a cada dia, se avizinhava mais liberal e burguês.

  • Dentro desse contexto, Pedro personifica o caminho da nação portuguesa na direção do Liberalismo europeu e D. Miguel, a permanência dos antigos costumes, a memória dum país aristocrático heróico e austero, o Portugal da Idade Média e do Renascimento.

  • Derrotado, D. Miguel retorna para o exílio, mas sua imagem e o que ela simboliza, associadas às crises geradas pela implantação do Liberalismo, fomentarão movimentos revolucionários em defesa do retomo do príncipe proscrito que passa a assumir, para muitos, sobretudo para as camadas mais populares, a figuração do sentimento sebastianista de resgate da auto-estima nacional.

  • D. Pedro I, do Brasil e IV de Portugal, morre em 1834 e sua filha, a rainha D. Maria II, com 15 anos, é declarada maior e assume o poder.

  • D. Miguel, que ao deixar o país, também em 34, publicara um manifesto em que afirmava que sua renúncia era “um mero acto provisório a salvar os meus vassalos de Portugal de desgraças que a minha justa resistência lhes não teria poupado”, falece em 1866.

  • A narrativa concentra-se no ano de 1845, período em que o fenômeno denominado “miguelismo” (desejo do retorno de D. Miguel), mesmo clandestino, alcança grande repercussão, sobretudo nas províncias do Norte do país, onde se passa a história camiliana.


4 - Notas de vocabulário histórico

  • Em A Brasileira de Prazins, há várias referências aos partidários de D. Miguel e de D. Pedro, aludidos com termos específicos da época.

  • Os miguelistas são realistas, legitimistas e absolutistas.

  • Os adeptos de D. Pedro, liberais, constitucionais e malhados, este último apelativo era uma forma pejorativa.


5 – A Obra

  • Introdução, 20 capítulos, uma Conclusão e um P.S. (post-scriptum).

  • O termo brasileiro possui um sentido específico no século XIX, além do convencional, ou seja, “aquele que nasceu no Brasil”.

  • Ele designa o português que, depois de fazer riqueza como emigrante no Brasil, retornava à terra de origem.

  • Marta, a brasileira de Prazins, é “brasileira” não por nascimento, mas porque se casou com o “brasileiro” Feliciano de Prazins, um português que enriqueceu em Pernambuco.

  • A designação possui um sentido pejorativo, pois aponta, na visão dos portugueses, para um tipo arrogante de novo-rico que procura, através da opulência material, esconder sua humilde descendência.


6 - Narrador ou ponto de vista

  • Na literatura camiliana, como técnica folhetinesca que visava a assegurar a veracidade da narrativa, o narrador em geral, se apresenta como o autor que indica aos leitores, sempre no início do relato novelesco, como lhe chegou a história que vai ser narrada.

  • Designaremos a voz narrativa camiliana como narrador-autor, entendendo este como um enunciador narrativo que se nos apresenta como o próprio autor ou que, com ele se identifica.

  • Um outro dado a destacar do narrador camiliano é seu caráter, em tese, estritamente profissional ou técnico da escrita.

  • Em outros termos, segundo declarações suas, o narrador não efabula a narrativa, apenas dá forma literária a ela.

  • Assim, a história de Marta, com a extensa e incidental história de Veríssimo Borges, é exposta ao narrador pelo padre Osório, que se configura, pois, como fonte da narrativa.

  • Ao primeiro, com sua técnica artística cabe transformar o discurso “espontâneo” e natural de padre Osório em discurso literário trabalhado profissionalmente.

  • O narrador com discurso próprio, afigura-se com preponderância na “Introdução” e nas partes finais — “Conclusão” e “PS.”

7 - Estilo

  • Antes de a narrativa central (ou narrativas centrais), o narrador, na “Introdução’, dispõe para o leitor as bases estilísticas :

“Como a exposição do reitor (o padre Osório) saiu muito enfeitada de jóias sentimentais - detestável espécie arqueológica que ninguém tolera—, farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores de modo que as cenas dramáticas se exponham áridas, bravias como cerro de montanha por onde lavrou incêndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a Aurora imperle uma lágrima. A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra numa idéia a sua certidão de idade e uma relíquia testemunhal da Idade da Pedra! Ah! os bigodes tingem-se; mas as frases — madeixas do espírito — são refractárias ao rejuvenescimento dos vernizes.”

  • O narrador oscila entre dois níveis de expressão: o romântico “jóias sentimentais” —, que considera ultrapassado e o pós - romântico ou pretensamente realista — desflorido, árido, bravio, que defende.

  • A linguagem ora pende para uma expressão mais subjetiva das abstrações sentimentais, ora atém-se ao comezinho concreto do cotidiano; enfim, ora tende ao sublime, ora é prosaica, dependendo da natureza da matéria que focaliza.

  • Sob uma perspectiva mais genérica, que compreende a balança Romantismo, Realismo-Naturalismo na qual se equilibra a novela, bem como a produção final de Camilo, observe-se, para ficarmos apenas num exemplo de destaque, que a loucura de Marta, deflagrada romanticamente pela impossibilidade da realização amorosa, apresenta justificativas científicas, com base no determinismo.


8 - Espaço

  • Do ponto de vista geográfico, o espaço predominante é o Norte agrário de Portugal, onde, aliás, Camilo se criou.

  • Os lugares são particularizados para emprestar à narrativa o caráter documental de que ela, supostamente, se reveste.

  • No entanto, tratam-se apenas de referências cenográficas.


9 - Tempo

  • O tempo do enunciado ou da escrita é 1882, data com que o narrador assina o final do volume e que serve também como referência implícita ao episódio da “Introdução”.

  • Ao iniciar a história de Marta, o narrador volta para 1843, quando a personagem, com quatorze anos, conhece José Dias e Zeferino das Lamelas se apaixona por ela.

  • Logo, a narrativa centra-se em 1845, quando se desenrolam os acontecimentos envolvendo a farsa do falso D. Miguel.

  • Há, no entanto, antes do desmascaramento de Veríssimo Borges, duas digressões narrativas em forma de recuo temporal: o episódio da ‘”espada heróica” de Gaspar das Lamelas, ocorrido em 1838, e o caso da fuga de D.Miguel.

  • A narrativa, então, para retomar o fio central regressa ao ano de 1843 e 1846, quando ocorre a revolução da Maria da Fonte.

  • A morte de Zeferino e o casamento de Marta se dão em 1847.

  • A Conclusão sintetiza os principais acontecimentos desde a união matrimonial de Marta até o tempo da escrita do narrador.

10 - Personagens

  • Personagens planas.

  • As personagens surgem quase como personificações dos sentimentos humanos (amor, ódio, ambição, amizade..), que comandam e restringem seus atos, apontados sempre na direção do desfecho do enredo. Dessa forma:

  • Marta e José Dias personificam o amor trágico ou contrariado.

  • Zeferino, o amor e a revolução miguelista (impetuosa, e, até certo ponto, ingênua);

  • Cerveira Lobo representa a revolução e a credulidade in cauta (daí que ele e Zeferino demonstrem tantas afinidades);

  • Simeão personifica a cobiça;

  • Veríssimo Borges e Torquato Nunes, o oportunismo;

  • Padre Rocha, a previdência e Feliciano, a avareza.

  • Ainda dentro desse contexto generalizante, avultam na novela os retratos femininos, quase sempre nada lisonjeiros.

  • A viúva Joaquina de Vilalva é mulher “bastante estragada no moral e ainda mais no físico”;

  • D. Honorata de Guião casou por interesse e mentiu para Adolfo Silveira ao dizer que casara por imposição, além do mais, desprezou os filhos antes de depois de abandonar o casamento; suas filhas foram amantes de engenheiros de estradas;

  • A mãe de José Dias, Maria de Vilalva, com toda a sua religiosidade, raivosamente, dispõe preconceitos acima dos sentimentos cristãos;

  • Libânia de Covas possuía jóias “ganhadas com o pudor diluído no suor do seu bonito rosto’;

  • A mãe de Veríssimo Borges foi assassinada em flagrante adultério.




  1. - Síntese da história

    • A “Introdução” objetiva esclarecer como o narrador-autor teve notícia dos eventos que serão narrados.

    • Assim, ao se revelar como o escritor conheceu os fatos de que se valerá para compor a obra procura-se responsabilizar as vicissitudes e fatalidades da existência, a que todos estamos sujeitos pelo argumento narrativo do romance.

    • Ao artista caberia, com sua sensibilidade e técnica, apenas a tarefa de dar forma artística à matéria romanesca descoberta.

    • A história se inicia com o narrador indo à casa de uma senhora viúva, a Senhora Joaquina de Vilalva, por ter sabido que lá havia uma adega repleta de livros velhos, deitados ao esquecimento.

    • A viúva abre-lhe a adega e informa que os livros jazem ali por mais de trinta anos, desde que o cunhado dela, um estudante a quem o lote pertenceu, morrera vitimado pela tuberculose.

    • O narrador escolhe apenas dois: uma versão castelhana de poemas de Virgílio e um muito raro Entendimento Literal e Construção Portuguesa de Todas as Obras de Horácio, por indústria de Francisco da Costa, impresso em 1639.

    • Em casa, folheando este último volume, o narrador encontra, por entre as páginas, um papel amarelecido e recortado que continha uns dizeres manuscritos, com letra redonda, cujo conteúdo era:

“José, teu irmão, quando eu hoje saía da igreja, onde fui pedir a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. Agora o que peço a Deus é que me leve tarnbém. Se não morrer, endoudeço. Perdoa-me, José e pede a Deus que me leve depressa para ao pé de ti. Marta.”

  • Estava esboçado aqui um entrecho romanesco que o narrador como um repórter, começará a perseguir.

  • Como no frontispício do vetusto volume havia uma assinatura de posse em nome de José Dias Vilalva, o narrador conclui que o José do bilhete e o da assinatura deveriam ser o mesmo.

  • Pelo sobrenome, julga também ser o cunhado da Senhora Joaquina de Vilalva, a que esta, em sua casa, se referira.

  • Procura a viúva no intuito de buscar esclarecimentos sobre o caso.

  • A viúva confirma as conjecturas do narrador e passa-lhe outras informações.

  • Marta, com quem José Dias se envolveu amorosamente no passado, tornou-se a brasileira de Prazins, casada com Feliciano Rodrigues Prazins, rico proprietário rural que fez fortuna no Brasil.

  • Consta que Marta enlouquecera.

  • Senhora Joaquina não sabe ao certo se Marta enlouqueceu antes ou depois da morte de José Dias, que, segundo alguns, adoecera do peito por conta de dissabores amorosos.

  • Trata-se de uma história cheia de lances trágicos e dramáticos.

  • Assim é que o narrador pede mais detalhes.

  • Mas quem os tinha, diz a viúva de Vilalva, era o vigário de Caldelas, o respeitável padre Osório, que foi íntimo de José Dias.

  • O narrador, então, sai no encalço desse sacerdote, e quando o encontra pergunta-lhe por José Dias de Vilalva.

  • O narrador, então, declara que reproduzirá a seguir para os leitores a história narrada pelo reitor ( cura’, vigário’) de Caldelas.

  • Marta era filha de um lavrador de poucas posses.

  • Contava 14 anos e estudava primeiras letras com a irmã do padre Roque, que lecionava latim para jovens aspirantes ao seminário.

  • Sempre que Marta e outras meninas da região iam às aulas, no mesmo sítio onde estudavam os alunos do padre-mestre estes “grandes parvajolas(tolos)” diziam “gracejos” às raparigas ou as espiavam com desejo acintoso.

  • Marta sempre passava de cabeça baixa pelos rapazes que lhe chamavam ”boa pequena, franga e peixão”.

  • Apenas um estudante não participava do assédio: José Dias, um rapaz que estava deixando os estudos, devido à sua frágil saúde.

  • O pai de Marta, ao saber cortejo, esbravejou contra o padre, que exigiu à menina, diante dos alunos, que apontasse os culpados.

  • O Padre pediu que ela denunciasse os responsáveis.

  • Porém, não fora ela quem expressara queixa ao pai.

  • Era o denunciante um pedreiro que trabalhava nas redondezas da casa do padre-mestre e que se apaixonara pela menina.

  • Chamava-se Zeferino, o Zeferino das Lamelas.

  • Mas Marta, por essa época, já pegara amor pelo jovem que, dentre os estudantes, não a importunava: o José Dias.

  • Até uma carta para ele, a menina já havia escrito.

  • Simeão de Prazins, o pai de Marta, era um homem muito ambicioso, interesseiro e materialista.

  • Vociferava sempre contra o irmão Feliciano, que enriquecera no Brasil, porque este não lhe mandava dinheiro.

  • Quando Marta se alfabetizou, a primeira carta que ela escreveu foi ao tio para lamentar as condições financeiras da família em Portugal.

  • Marta escreveu as palavras ditadas por Simeão.

  • Zeferino das Lamelas gozava de boa situação econômica.

  • Sabendo das dificuldades de Simeão, o mestre de obras propõe negócio de casamento ao lavrador de Prazins.

  • Zeferino quitaria todas as dívidas de Simeão, inclusive, já sabia o valor total dessas dívidas e em troca teria Marta como noiva.

“- Você fala sério, á Sor Zeferino?

- Se falo sério?! Então você não sabe com quem trata.

— Ora bem, entendamo-nos, é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura?

— Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.



— A rapariga é sua.”

  • Simeão negociara a filha com o Zeferino “como tinha negociado com o Tarracha a vaca amarela na feira dos 13”.

  • Feliciano de Prazins manda dinheiro e notícias do Brasil para o irmão e para a sobrinha em Portugal.

  • Avisa que está voltando para a terra de origem e pede a Simeão que procure umas propriedades que estivessem à venda.

  • Propriedades grandes, antigos mosteiros.

  • A nova deixa Simeão eufórico.

  • O regresso do milionário irmão “brasileiro” muda os planos de entregar Marta a Zeferino.

  • Simeão diz a Zeferino que esperasse que o negócio do casamento estaria temporariamente adiado, até a chegada de Feliciano.

  • O pedreiro explode.

  • E uma desonra desapalavrar um acordo.

  • Coisa de gente que é de “má casta”. Ambos discutem.

  • O bate-boca segue num crescendo.

  • Zeferino, já descontrolado, empunha um machado.

  • Nesse momento, aponta, à distância, o José Dias, controlando uma matilha que persegue um porco.

  • Com a aproximação dos cães e do rival Zeferino sabe que Marta simpatiza com José Dias — o mestre de obras ameaça a todos, em altos brados, com graves ofensas e os olhos a pular das órbitas.

  • José, sem saber o que estava acontecendo retruca as ofensas.

  • Zeferino cresce na direção do estudante.

  • Ataque do cão: “No calor da luta, (Zeferino) não sentira esfriar-se-lhe a pele descoberta, nem se lembrou que andava sem ceroulas”.

  • Marta, que assistira à cena de casa, “não podendo já consigo, entalada de riso, fugira da varanda e atirara-se de bruços sobre a cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma cólica”.

  • D. Miguel está por vir

  • Zeferino vai visitar o padrinho, um major inativo, miguelista sério e respeitado, para lhe narrar os infortúnios daquela tarde em que se metera em discussões com Simeão, José Dias e cães caçadores.

  • Mostrou a calça remendada e prometeu vingança.

  • O padrinho, também Zeferino, Zeferino Bezerra de Castro, morgado de Barrimau, vivia com o irmão, Frei Gervásio, um beneditino afastado das ordens eclesiásticas.

  • Por esse tempo, meados de 1845, começou a se espalhar pela região Norte de Portugal - a volta de D. Miguel.

  • Assim, quando o pedreiro declara que brigaria pelo amor de Marta, o padrinho e frade alertam Zeferino acerca de uma outra batalha muito mais importante, nobre e urgente: que se fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defesa do trono e do altar”.

  • Zeferino, filho de um bravo miguelista(Gaspar), entre surpreso e eufórico, esfrega as mãos e jura ao major fidelidade.

  • Gaspar fora um alferes que lutara junto às hostes realistas, durante a guerra civil que culminou com a deposição de D. Miguel.

  • Quando da vitória dos liberais, autoridades seqüestraram os bens do miguelista das Lamelas que, procurado, andou foragido.

  • Foi então que o filho, desamparado do pai, fez-se pedreiro.

  • Aplacados os ânimos da revolução, Gaspar retorna, recupera suas terras, mas em estado pior do que as deixou, e por tudo isso a humilhação da clandestinidade, o prejuízo material — vive remoendo sua revolta contra os “malhados”.

  • Na tarde do Natal de 1838, o alferes de 50 anos embebedou-se a valer e saiu às ruas, de espada à mão, dando “vivas” a D. Miguel.

  • Seu ímpeto revolucionário alcançou o espírito alcoolizado de outros labregos realistas, que, juntos, armados de foices, varas, três espingardas e uma espada, formaram uma choldra de guerrilheiros sequiosos de justiça patriótica, aguardente e vinho de safra especial.

  • O bando foi bater à porta do morgado de Barrimau, para receber seu apoio e sua liderança.

  • O major Bezerra, sempre muito cauteloso, tenta abrandar e dispersar o grupo.

  • Inútil, A guerrilha inflamada deixa a casa do respeitado miguelista e avança na direção de Santo Tirso.

  • A cidade, já avisada, prepara-se para o combate.

  • Os revoltosos somam, ao chegar, mais de trezentos.

  • Um exército de pobres-diabos, movidos pelo combustível da embriaguez, que são esmagados pela corporação organizada.

  • Gaspar consegue salvar-se, nadando pelo rio Ave.

  • Salva também sua espada, prendendo-a entre os dentes enquanto braceja em fuga espetacular pelas águas.

  • Passado o episódio heróico, Gaspar é acometido de um “reumatismo articular” que lhe tolhe os movimentos.

  • Paralítico, o alferes chora por não poder mais empunhar sua espada, que pende na parede em frente à sua cama.

  • Morto, Gaspar será enterrado junto com sua ilustre companheira.

  • Cristóvão Bezerra, ex-capitão-mor de Santa Marta de Bouro, escreve ao primo de Barrimau, o major Zeferino Bezerra, para noticiar a presença de D.Miguel na região.

  • A restauração tão sonhada preparava-se e estava próxima.

  • A informação era ultra-sigilosa e não poderia ser detalhada.

  • Se o governo liberal viesse, a saber, tudo poderia vir abaixo

  • O major Bezerra desconfia da notícia.

  • Manda o afilhado Zeferino pessoalmente a terras de Bouro com um escrito em que pede ao parente que enviasse pormenores sobre o caso por meio de um mensageiro confiança.

  • A resposta vem com todas as indicações: D, Miguel estava hospedado na casa do abade de São Gens de Calvos, o reverendo Marcos Antônio de Fana Rebelo, no concelho” de Póvoa de Lanhoso.

  • Poucas pessoas tinham acesso à Sua Majestade que articulava com generais estrangeiros a invasão de Portugal pela Galícia.

  • O major estranhou esta última nota: a restauração não precisaria de força militar estrangeira.

  • Aliás, seria uma deslealdade para com os militares portugueses.

  • Consultou, então, algumas altas patentes realistas.

  • A resposta: que sim, que havia movimentos de restauração fermentando em diversas regiões do país; que não, que D. Miguel não estava em Portugal, para onde só viria quando pudesse assentar-se de vez em seu trono usurpado.

  • Nessa ocasião, ainda segundo Cristóvão, D. Miguel distribuiu títulos e condecorações a clérigos e a leigos.

  • O capitão-mor, foi agraciado com duas comendas e um baronato: barão de Bouro, dignamente nomeado por el-rei em pessoa!

  • O major Bezerra consultou suas fontes, que, retornaram: D, Miguel não estava no reino, mas que deixasse correr o marfim, porque era necessário uma agitação preparatória, um simulacro, uma apalpadela .

  • O major tenta dizer isso ao afilhado Zeferino, que não acredita absolutamente no padrinho.

  • D. Miguel estava sim em Portugal e a restauração logo se faria.

  • E não era apenas Cristóvão que o afirmava, Vasco Cerveira Lobo, ex-tenente-coronel do exército realista e fidalgo de Quadros, também garantia: “el-rei já por cá anda”.

  • Antes da vitória do Liberalismo em terras portuguesas, Vasco, morgado de Quadros, era um fidalgo militar, íntimo freqüentador do palácio , amigo de D. Miguel e muito disputado pelas damas do reino.

  • Com trinta anos, casara-se com D. Honorata Guião, uma mulher bonita e ambiciosa, que “aceitara o major Cerveira, porque era rico e estadeava na corte as suas librés”’

  • Durante a guerra civil, o tenente-coronel Cerveira Lobo foi preso pelos liberais, que lhe tomaram a patente militar.

  • Tornou-se um desequilibrado.

  • Solto, voltou para casa e de lá não mais saiu.

  • Vivia alcoolizado e dormia sobre o próprio vômito.

  • Dizia indecências às damas que passavam ligeiras e amedrontadas

  • Recebia amantes dentro de casa e era agressivo verbal e fisicamente com a esposa.

  • Esta, por sua vez, abandonou a educação dos cinco filhos que, crescidos, tornaram-se homens bêbados e mulheres vulgares.

  • O único amparo de Honorata era D. Andresa da Silveira, uma mulher religiosa a quem costumava narrar suas agruras, e que, um dia, sensibilizada com tanto sofrimento, tentou ajudar a infeliz.

  • Apresentou-lhe o irmão, Adolfo Silveira, que era “bacharel delegado”, para que este instruísse a mulher de Cerveira Lobo sobre a possibilidade de uma separação judicial, antes que o suicídio da “esposa deplorativa” pusesse termo ao desventuroso casamento.

  • Adolfo era um ultra-romântico.

  • Ela era um anjo de infelicidade que casara por imposição assim afirmou Honorata a Adolfo — e que não amava os filhos — por isso não cuidou da educação deles porque nunca amou o marido, e só quando os pais se amam é que esse sentimento, ainda segundo ela, podia ser transferido aos descendentes.

  • Adolfo e Honorata, uma noite, fogem juntos.

  • Zeferino trabalhou como pedreiro na propriedade de Cerveira Lobo.

  • Lá, conheceu mais de perto o enlouquecido miguelista que mandava “botijas de genebra e maços de cigarros” para outro miguelista, o alferes Gaspar das Lamelas, pai de Zeferino.

  • No caso particular do fidalgo, em armas e em dinheiro, já que o morgadio de Quadros produzia vultosa renda.

  • Quando Zeferino soube da presença de D. Miguel em Portugal, correu para contar a nova ao tenente-coronel.

  • Cerveira Lobo desejou ir naquele instante mesmo a Póvoa de Lanhoso, onde estaria el-rei.

  • Então, pediu ao pedreiro que fosse a Lanhoso como mensageiro de uma carta que escreveria.

  • Que pedisse uma resposta ao rei, pois ficaria esperando.

  • Cerveira Lobo pediu auxílio ao padre Rocha para escrever a carta, O tenente-coronel não era hábil em gramática.

  • O clérigo, também realista, mesmo descrente sobre D. Miguel estar em Portugal, mas sem o admitir, ajuda Cerveira Lobo para, pela resposta, se a houvesse, descobrir quem andava caçoando com o morgado de Quadros. “O padre tinha muita compaixão do Fidalgo que a mulher e as filhas enlameavam torpemente”.

  • Pronta a carta, Zeferino partiu com destino a Lanhoso.

  • Antes de Póvoa de Lanhoso, entretanto, Zeferino parou em terras de Douro, para falar ao capitão-mor Cristóvão Bezerra, que foi quem asseverou ao pedreiro estar D. Miguel escondido nas cercanias.

  • O padre Marcos Rebelo, abade de São Gens de Calvos, morava em uma casa velha e pequena.

  • Religioso realista, enfeitava as paredes de sua monda litografias de dois santos: Santo Antônio, santo português e São Jerônimo, santo de muita devoção em Portugal; e de dois ilustres representantes da ordem monárquica portuguesa: D. João VI e o Marquês de Pombal.

  • Na casa do abade de Calvos surge “um sujeito de mediana estatura, ombros largos, barba toda com raras cãs, olhos brilhantes, pálido-trigueiro, um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e qua renta anos. (...) Coxeava um pouco”.

  • Ao ser avistado por uma criada, é logo reverenciado:

“- Vossa Majestade passou bem?

- Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.

- Estimo muito, real Senhor. O Senhor Abade foi chamado às oito horas para confessar uma freguesa que está a morrer duma queda, e deixou dito que pusesse o almoço a Vossa Majestade, se e não chegasse às nove e meia.

— Quando quiser, Senhorinha, quando quiser visto que o abade deu essas ordens e quem manda aqui é ele. “



  • O hóspede é tratado como D. Miguel, rei deposto, refugiado secretamente na casa do abade de Calvos.

  • Depois do almoço, devorado com solene gula, a criada anuncia ao nobre real a chegada do visconde Nunes, o Torquato Nunes, sargento do exército realista de Calvos, que, há bem pouco, a criada apenas conhecia como o “safardana do Trocatles”, mas que agora, tomado visconde, era um dos homens de confiança de Sua Majestade.

  • O visconde entra e fecha-se no quarto com o rei; O abade chega em seguida e pergunta à cozinheira se tudo vai bem.

  • O padre Marcos entrega a D. Miguel uma carta de Cristóvão, informando a presença de um mensageiro na região, que solicitava entregar pessoalmente uma correspondência de Vasco ao rei.

  • O rei, com alguma dificuldade, mas com ajuda do visconde, lembra-se de Cerveira Lobo.

  • E autoriza a vinda do mensageiro.

  • O abade ainda combinava com o rei a vinda do mensageiro de Cerveira , quando a criada anunciou a chegada de outro mensageiro.

  • O rei e o visconde fecharam-se no quarto.

  • O padre Marcos Rebelo recebeu uma carta do abade de Priscos, que era enviada a el-rei junto com “cem peças, donativo que as Senhoras Botelhas, de Braga, ofereciam de joelhos a Sua Majestade”.

  • Dois grossos cartuchos são deixados sobre a mesa.

  • O padre Marcos chama o mensageiro para dar-lhe um recibo.

  • Os dois saíram da alcova.

  • Os rolos estavam sobre a mesa.

  • Eles tinham ouvido falar em recibo, O visconde Nunes, esgazeando os olhos, foi apalpar o embrulho, e muito baixinho:

“— Arame! pesa que tem o Diabo! É oiro! Começa a pingadeira! Vês?

O outro arregalou os olhos e deitou a língua de fora quanto lhe foi possível. Nem parecia um rei!”



  • Às oito, chegam Cristóvão Bezerra e Zeferino , O barão de Bouro apresenta o pedreiro ao monarca, salientando que Zeferino era filho de Gaspar Ferreira, o herói da batalha de Santo Tirso.

  • D. Miguel pede detalhes do episódio.

  • Impressionado com a narração e compungido com o desfecho do evento — Gaspar entrevado na cama, depois de atravessar o rio Ave com uma espada nos dentes —, Sua Majestade promove o alferes Gaspar Pereira, conhecido como Gaspar das Lamelas, ao posto de coronel e ainda despacha a patente de sargento-mor a Zeferino das Lamelas, em respeito ao feito heróico do pai.

  • D. Miguel, então, recebe a carta de Cerveira Lobo.

  • Na resposta, instado às escondidas pelo visconde, el-rei, que iria pedir dois, solicita ao morgado de Quadros, em nome do movimento revolucionário, uma contribuição de três contos de réis.

  • Zeferino, excitado com tudo o que presenciou, ao deixar a casa do abade de Calvos, viaja sem dormir, pela escuridão da noite.

  • Pelo sobrescrito do envelope, Cerveira Lobo toma conhecimento de duas novas honrarias a ele outorgadas: a de conde e a de general.

  • Amua-se, no entanto, ao saber das outras patentes concedidas, a de coronel a um alferes e a de sargento-mor a um pedreiro.

  • Parecia-lhe uma injustiça e um despropósito tamanha benevolência deitadas por el-rei a dois plebeus.

  • Abriu a carta com “moderado entusiasmo” e desconfiança.

  • Durante a leitura, porém, seu semblante esplende.

  • Era, sem dúvida, D. Miguel o autor daquelas palavras.

  • Cerveira Lobo reconhecia-o.

  • Exultou e pediu particularidades do encontro a Zeferino.

  • Depois, mandou chamar o padre Rocha.

  • Cerveira queria dar provas de seu prestígio junto ao rei e desfazer as incertezas sobre a presença de D. Miguel em Portugal.

  • O padre Rocha comparece a Quadros e lê a carta do monarca.

  • O padre Bernardo Rocha sai de Quadros não convencido da autenticidade da carta.

  • Considerava imprudência Cerveira desembolsar três contos.

  • Aquilo tudo cheirava a engodo e a golpe.

  • Padre Rocha procura “o impulsor, a alma, o cérebro do gigante miguelista nas províncias do Norte”, o padre Luís de Sousa Couto, que, mantinha regular correspondência com D. Miguel no exijo e com o mais próximo auxiliar do monarca, o ministro Ribeiro Saraiva.

  • A pergunta seca do padre Rocha, o padre Luís de Sousa Foi taxativo: não, D. Miguel não estava em Portugal.

  • E mostrou uma carta assinada pelo regente português, datada de quinze dias antes, proveniente da Itália.

  • Ambos concordaram que, em vista dos acontecimentos, o falso D. Miguel deveria ser denunciado às autoridades competentes.

  • Padre Rocha assim o fez.

  • Denunciado o falsário, uma escolta de infantaria cerca pela manhã, enquanto todos dormiam, a casa do abade de Calvos, que acorda sob o impacto de coronhadas na porta e esconde el-rei na adega.

  • Aos soldados, o reverendo demonstra despreocupação e nega a presença ali do príncipe proscrito.

  • Prisão de um homem.

  • O sargento da tropa, então, depois de umas graçolas ao impostor, dá voz oficial de prisão ao sujeito.

  • Mas o abade patrioticamente interpõe-se aos guardas e oferece resistência para entregar o monarca.

  • Os soldados ainda levam da casa, como provas do crime, papéis em que constavam nomes e nomeações decretadas pelo falso rei.

  • Por essas anotações poderiam chegar a outros envolvidos.

  • O prisioneiro é levado de São Gens de Calvos para Braga, sede do Governo Civil da região.

  • Lá, já se encontravam Zeferino das Lamelas e Cerveira Lobo.

  • Ambos prontos para levar o dinheiro a el-rei, quando chega a notícia da prisão do falso D. Miguel.

  • Há um alvoroço na cidade.

  • Seria mesmo um farsante ou o verdadeiro rei destronado?

  • O preso é exposto aos populares.

  • Cerveira Lobo acha o muito parecido... Mas um dos presentes, o major de Vila Verde, levanta a voz e atesta:

“— Olha quem ele é! Oh, que traste! Que grande mariola! Forte malandro!

— Quem é? Quem é? —perguntavam todos.



- E o Veríssimo, foi da minha companhia, andou com o Remexido, e safou-se de Messines com o prêt dos guerrilhas”

  • Veríssimo Borges Camelo da Mesquita estudou humanidades em Coimbra para seguir carreira na jurisprudência, mas a vertigem política’ fê-lo abandonar os estudos e a compostura.

  • Tornou-se militar e lutou contra os liberais.

  • Numa batalha no Porto foi Ferido na perna, por isso coxeava.

  • Com a vitória dos constitucionais, Veríssimo Borges voltou para casa e encontrou o pai, Norberto Borges, um sujeito outrora estável, num estado de pobreza franciscana.

  • Assim, foi viver com uma tia, D. Águeda, uma viúva que ainda possuía alguns bens.

  • Logo, a tia quis fazer do sobrinho padre.

  • Em princípio, Veríssimo aceitou, não por vocação, mas sim pelos privilégios que a vida eclesiástica proporcionava.

  • Transferiu-se para Braga, onde reencontrou Torquato Nunes, que estudava letras jurídicas e fora seu companheiro militar.

  • Ambos folgam juntos, numa amizade estreita largada.

  • Quando surge a guerrilha de José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, os estudantes alistam-se nas frentes de batalha.

  • Veríssimo pede à D. Agueda “uma quantia mais avultada para pagar as últimas despesas do sacerdócio” e sai, de armas em punho, em socoro de D. Miguel.

  • Sufocado o movimento quadrilhesco do Remexido e/morto seu líder, Verissimo volta para a casa da tia Agueda, que, miguelista fervorosa, recebe o sobrinho condescendente e carinhosamente.

  • Norberto Borges morre, e, logo, D. Águeda também.

  • Veríssimo passa um tempo de abundância por causa da herança.

  • Manda chamar Torquato Nunes.

  • Na política e no jogo, dilapida a fortuna familiar.

  • Dois anos depois de morta a tia, estava arrasado financeiramente.

  • Fez se, então amanuense, escudeiro, feitor, trocando sempre de ofício devido a envolvimentos com mulheres.

  • Como feitor das quintas de um fidalgo de Gouvinhas, conheceu Libânia de Covas, com quem fugiu.

  • Foi professor de primeiras letras no Porto e, quando tentava ser dentista, reencontra, uma vez mais, o Torquato que lhe pede dinheiro.

  • Mas, agora, ambos estavam pobres.

  • Então, numa ceia com Veríssimo e Libânia, Nunes, valendo-se da semelhança do amigo com o rei banido de Portugal, tem a idéia do golpe do falso D. Miguel.

  • Libânia, enquanto o plano se realizasse, empregar-se-ia num tear.

  • Veríssimo e Nunes, depois de venderem tudo o que tinham, foram, respectivamente, para Póvoa de Lanhoso e para São Gens de Calvos.

  • Nunes vai à casa de padre Marcos e, à boca pequena, informa que o rei está na região.

  • Pede sigilo ao religioso, pois a difusão da notícia só prejudicaria o levante do Norte, que estava para estourar.

  • Veríssimo hospeda-se em Lanhoso dizendo-se viajante de longe.

  • O dono da estalagem convida o hóspede a ir a Calvos, onde o filho representaria num drama cômico ao ar livre.

  • Veríssimo aceita o convite do estalajadeiro e assiste à comédia dum camarote improvisado.

  • Nunes, ao saber da presença do amigo, avisa padre Marcos.

  • Ambos vão juntos ao entremez onde o abade reconhece, na figura de Veríssimo, o rei D. Miguel.

  • Como começasse a chover, o padre oferece sua casa a Veríssimo, que, em princípio, não será chamado de Majestade.

  • No dia seguinte, por causa da chuva persistente, o abade não permite que o hóspede se vá.

  • Ao contrário, ordena ao Nunes que buscasse na estalagem de Lanhoso a bagagem do fidalgo.

  • Na tarde desse dia, o padre Marcos, muito emocionado, de joelhos ao lado do Nunes, revela reconhecer no visitante a identidade de D. Miguel I, estimado rei de Portugal. A farsa ia bem..

  • A farsa ia bem até a ação do padre Rocha desmascará-la.

  • Veríssimo, então, foi preso, mas, sem testemunhas de acusação e tendo como juiz relator do caso o conselheiro Fortunato Leite, um amigo muito próximo de Norberto Borges, o prisioneiro foi posto em liberdade, depois de alguns dias, para alegria de Nunes e de Libânia.

  • Livres, Nunes e Veríssimo arranjaram-se sob a proteção do desembargador Fortunato Leite,

  • Quando das lutas entre liberais radicais e conservadores, entre 1846 e 47, os dois amigos engajaram-se em questões políticas, defendendo os ideais do conselheiro Leite, um liberal conservador.

  • Mas sem muita convicção e sem sequer desembainhar espadas.

  • Findas as discórdias entre os liberais em junho de 1847, o Nunes, por indicação, alcança um posto de “escrivão de Direito” numa região ao Norte de Lisboa, e Veríssimo, protegido por forças constitucionais, torna-se fiscal e depois diretor de alfândega no Norte do país.

  • Desmascarado o falso D. Miguel, Zeferino voltou para as Lamelas.

  • E voltou envergonhado.

  • O pedreiro já havia espalhado a notícia de sua patente de sargento-mor e da promoção do pai a coronel.

  • Sobre Marta de Prazins, dizia que nem queria ouvir falar.

  • Este conhecia a fortuna de Joaquim de Vilalva, pai de José Dias, e aprovava a união da filha com o estudante.

  • Quem se mostrava irredutível a esse casamento era Maria de Vilalva, mãe de José Dias, que atribuía à Marta, por herança hereditária, os mesmos sintomas de comportamento da mãe.

  • Genoveva de Prazins, que era epiléptica e adúltera, e que morreu louca, atirando-se ao rio Ave.

  • José Dias, para vencer a resistência da mãe, uma beata extremada e ortodoxa, pensa em cometer com Marta “um desses pecados que se remedeiam com o matrimônio’.

  • Diz isso ao padre Osório, que o desaconselha.

  • Mas já era tarde. Dato já se havia consumado.

  • A notícia dos encontros secretos do estudante com Marta espalhou-se pela região.

  • Maria agora prendia o filho à noite num quarto sem janelas.

  • José Dias não conseguia reagir à mãe, e a doença do pulmão complicava-se junto com a amargura da alma.

  • O estudante revela ao padre Osório seu desejo de fugir com Marta se a situação não melhorasse.

  • Joaquim de Vilalva, meio a contragosto, aceita o casamento do filho, mesmo sem o consentimento da mulher.

  • A saúde de José Dias melhora.

  • E Marta, muito aflita, tem esperanças.

  • Em março de 1846, surgiram as primeiras movimentações da revolta popular que ficou conhecida como Maria da Fonte.

  • O motivo da rebelião foi o caráter autoritário do governo português.

  • Alguns padres realistas, por exemplo, aproveitam-se da atmosfera de descontentamento para pro mover a idéia da restauração da monarquia e do monarca exilado D. Miguel.

  • Zeferino insufla e lidera um ajuntamento guerrilheiro anticabralista e miguelista, com posto por molambentos bêbados e vadios.

  • A intenção de Zeferino é matar José , que foge, instigado pelo pai.

  • Feliciano Prazins retorna do Brasil, depois de trinta anos de emigração, com 47 anos de idade e uma fortuna de 300 contos

  • Era casto, de pureza intacta. “Numa palavra, estava virgem”.

  • Simeão passa a articular o casamento da filha com o tio.

  • José Dias e o pai permaneciam em Braga, fugidos de Zeferino.

  • Simeão aproveitava a ausência do estudante para pressionar Marta, que se demonstrava inflexível.

  • Por cartas, José Dias prometia casar-se com a menina.

  • E, para isso, contava com o apoio do padre Osório, apesar da resistência da mãe. Em Braga, a doença do estudante se agravou.

  • Morte de José Dias.

  • Marta, ao saber da morte do amado, corre em disparada ao rio Ave, onde a mãe se suicidara, mas é interceptada por jornaleiros.

  • Contra a vontade do pai, durante o período de convalescença, a menina vai morar com o padre Osório e sua irmã, D. Teresa.

  • Os cabralistas sufocam os rebeldes populares da Maria da Fonte, O tenente-coronel Cerveira Lobo morre de apoplexia alcoólica.

  • Zeferino assiste à morte do amigo, que é sepultado numa igreja.

“— Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do Sol! Veja você; há três anos que não tenho uma migalha de estifação cum raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lho eu! Você verá, Sor pai, que ou me matam ou eu acabo numa forca prà mor daquela rapariga que foi o Diabo que me apareceu, e não me passa daqui! — e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.”

  • Reprimida a Maria da Fonte, o governo determina às autoridades regionais das áreas mais rebeldes que percorressem as residências suspeitas e para recolher todas as espingardas que encontrassem nas mãos de populares.

  • Como regedor, Simeão foi destacado para uma diligência cuja ação incluía Lamelas.

  • Assim invade com um batalhão militar a casa de Zeferino e apreende um punhado de espingardas que lá se achavam.

  • Zeferino, no momento da invasão, conseguiu fugir.

  • Quando pôde retornar, desesperou-sede ódio contra Simeão.

  • Zeferino ataca Simeão, dando-lhe uma paulada.

  • Simeão foi levado em uma maca a Prazins.

  • Ao avistar o pai nos estertores, expirante e afogado em sangue, Marta desmaia.

  • Quando acorda, em seu quarto, onde é retida para não assistir ao “espetáculo dos paroxismos” do agonizante, ouve o ritual da extrema-unção e carpe-se “em altos gritos”, implorando “que a deixassem despedir-sede seu pai”.

  • Todas as suspeitas do crime recaíram sobre Zeferino.

  • Simeão fica bem próximo da morte

  • Num momento de vigília , Simeão voltou-se para a filha:

“...e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O Feliciano acudiu.

- Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe há-de faltar. E minha sobrinha; não tenho mais ninguém neste mundo,

- Eu morria contente — balbuciou Simeão lacrimoso — se ela fosse sua mulher.

Fez-se um silêncio esquisito. Marta abaixou os olhos; a D, Teresa olhou para o irmão a ver o que ele dizia; o padre Osório olhava para o brasileiro a ver como se expressavam as suas idéias, o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa, E então o pai de Marta, aconchegando-a de si, com muita ternura:

- Casas com teu tio, minha filha? É o último pedido que te faço...

Marta fez um gesto afirmativo, e caiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluçar; depois deu um grito e escorregou para o chão, em convulsões, com o rosto muito escarlate e a boca a espumar.



Marta herdara da mãe a epilepsia."

  • Feliciano protege-se e contrata Melro para matar Zeferino.

  • Porém, o rapaz envolve-se em uma briga e acaba morto.

  • Casamento de Feliciano e Marta

  • Intensificam-se as crises de Marta

  • O médico chamado não deu grande importância ao caso.

  • Declarou apenas que “a Sra. D. Marta era nervosa’ e que Feliciano a proporcionar a mulher banhos de mar, bife na grelha vinho do Porto e, sobretudo uma gravidez: “um filho, quando sai do ventre da mãe, traz consigo para fora os maus nervos, e acabam os chiliques’.

  • Marta tornava-se cada vez mais sombria.

  • Agora, durante os ataques, ria e chamava o marido de “José, seu Josezinho”.

  • O padre Osório consultou Pedrosa, um grande clínico”, que conhecia a família de Prazins. O diagnóstico foi desalentador.

  • Marta fazia-se a cada dia mais beata.

  • Tinha sonhos e visões com José Dias, e vinha sofrendo de desejos voluptuosos pelo amante morto.

  • Começou a se confessar com frei João de Borba da Montanha, um missionário muito místico e exorcista.

  • O religioso indicou uma oração para aplacar as tentações carnais.

  • Depois de algumas sessões no confessionário, frei João concluiu que Marta precisaria passar por um exorcismo, pois estava possuída pelo Demônio.

  • Mais racionalista e conhecedor do histórico familiar de Marta, padre Osório discordava do quadro diabólico projetado por Borba da Montanha: “Ah! meu frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o Catolicismo, que deve a sua existência à vitória que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade’.

  • Mas o frei arrolava uma série de sintomas da obsessão incuba.

  • Trava-se uma discussão entre os dois, deixando bem claro a dificuldade de aproximação entre ciência e fé.

  • A contenda foi interrompida por Feliciano, que noticiou aflito aos religiosos mais um ataque espasmódico de Marta.

  • D, Teresa, depois de alguns dias, levou Marta para a Retorta.

  • Feliciano, que nunca fora mesmo muito crente em coisas de religião desistiu dos exorcismos e autorizou para a sobrinha um tratamento hidropático, de recomendação médica.

  • Marta teve uma filha.

  • D. Teresa teve esperanças de ver melhora no comportamento.

  • O amor materno poderia distrair a mãe das lembranças e das visões de José Dias.

  • Marta recebeu a filha como se fora uma criança alheia.

  • E continuou experimentando sua paixão pelo amado morto.

  • Os ataques epilépticos agora eram menos freqüentes.

  • Nas épocas de calmaria mental, o marido procurava-a faminto dos instintos.

  • Assim em sete anos, a brasileira de Prazins deu à luz cinco filhos.

  • D. Teresa morreu em 1848. Nos trinta anos seguintes, Marta não saiu da Retorta.

  • Assim, reclusa, chegou aos cinqüenta e três anos, os filhos saíram-lhe todos hipersensíveis e fracos, marcas — tudo faz crer das leis da hereditariedade.

  • Com o passar dos anos, Feliciano ficou mais sovina e mais rico.

  • Padre Osório terminava de contar toda essa história ao narrador da novela quando avistou Feliciano de Prazins ou Feliciano da Retorta, como também era chamado, no mercado de Famalicão.

  • Sua aparência era a de um desvalido, de um coitado.

  • No entanto, nos seus oitenta e quatro anos, o brasileiro somava uma fortuna de quinhentos contos e quatorze quintas.

  • Uma fortuna ainda com muito tempo para crescer, porque, segundo o velho Alexandre Dumas” — ironizou o padre Osório ao narrador —‘ os egoístas e os papagaios vivem cento e cinqüenta anos.”

  • Por fim, o narrador procura responder a uma dúvida freqüente entre os leitores da época:

“O leitor pergunta: qual é o intuito científico, disciplinar, moderno, deste romance? Que prova e conclui? Que há aí proveitoso como elemento que reorganize o indivíduo ou a espécie?

Respondo: nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende reorganizar coisa nenhuma. E o autor desta obra estéril assevera, em nome do patriarca Voltaire, que deixemos este mundo tolo e mau, tal qual era quando cá entramos.



12 - Ação

  • A ação da novela é bifronte, divide-se em duas porções distintas e opostas. Vejamos:

1. Há a romântica história de Marta, que amou José Dias, por ele — e também por disposição hereditária — enlouqueceu, fomentou o amor de Zeferino das Lamelas, e, premida por circunstâncias dramáticas, casou-se com o tio, para ser, até o fim do relato do narrador, uma mulher tolhida pela infelicidade.

2. Há a burlesca história de Veríssimo Borges, que se passa por D. Miguel para aplicar golpes de estelionato em pro desavisados. Por fim, é descoberto e preso, mas acaba em situação favorável com emprego estável e rendoso.

  • Em suma, por uma perspectiva estritamente analítica, os pontos de intersecção que amarram e conjugam as paralelas num mesmo plano narrativo, sem os quais teríamos duas histórias totalmente quebradas — são o espaço, com o tempo implícito, e, mais que estes a personagem-elo Zeferino.

  • Por que Camilo com os episódios de que dispunha, não escreveu duas novelas mas uma com duas histórias? Capricho ou estratégia? Afinal, há ou não uma unidade implícita dentro da disjunção narrativa?

  • Vamos, em princípio, considerar que sim, que há urna unidade e uma estratégia, hipótese mais provável. Então, que estratégia terá sido? E, principalmen te, que efeitos buscava o novelista?

  • O sentido comum que ligam as duas histórias é o tema: o tema da espera idealizada.

  • Repare: o povo português espera ansiosamente o retorno de D. Miguel, e Marta, antes e depois da morte de José Dias, espera a chegada do amado.

  • Mais: o povo (representado por uma parcela dele, é claro) assiste à volta de D, Miguel, e Marta vê e ouve José Dias, mesmo depois de morto.

  • Só que ambos — o rei e o amado — são falsos.


13 - Lapsos camilianos

  • Ao percorrer A Brasileira de Prazins, o leitor se depara com alguns “deslizes” do autor, são os chamados “lapsos camilianos”, muito freqüentes na produção do novelista. Vejamos alguns exemplos:

• No capitulo IV, Vasco Cerveira Lobo, o morgado de Quadros, é denominado como Vasco Cerveira Leite;

• No capítulo XVI, o Patarro, bandoleiro de Monte Córdova, transforma-se em Tarrago;



• No capítulo Xl o narrador nos informa que Feliciano de Prazins retorna a Portugal com quarenta e sete anos, e que “com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta anos arredondara trezentos contos” .

  • Logo, Feliciano deixou a pátria para ganhar a vida no Brasil com dezessete anos.

  • No entanto, dois capítulos após, o padre Osório declara:

“mas ocorria-me que Feliciano me confessara repetidamente que saíra de sua aldeia aos doze anos e tornara casto e puro como saíra”


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