A cabra ou o Carro ? "A mulher com o qi mais alto do mundo" resolveu correctamente o problema de Monty Hall. Texto de Jorge Buescu



Baixar 19.22 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho19.22 Kb.
A Cabra ou o Carro ?

"A mulher com o QI mais alto do mundo" resolveu correctamente o problema de Monty Hall.
Texto de Jorge Buescu

O leitor está num programa do tipo "Roda dos Milhões". O apresentador do programa mostra-lhe três portas iguais. Por trás de uma delas está um maravilhoso e cintilante carro descapotável. Por trás de cada uma das outras está uma cabra. O objectivo do jogo é que o leitor escolha uma das portas, ganhando o prémio que ela esconde.

    As regras, no entanto, são as seguintes: o apresentador começa por lhe pedir que escolha uma das três portas, coisa que o leitor faz. Independentemente da sua escolha, o apresentador (que sabe onde está o carro) abre uma das duas portas não escolhidas, revelando uma cabra. Em seguida, vira-se para si e dá-lhe a possibilidade de trocar a sua escolha da porta inicial para a outra porta ainda fechada.

    O que é que lhe é mais vantajoso ? Trocar de portas ou manter a escolha inicial ? Ou é indiferente ?


    Sugiro que, antes de prosseguir, o leitor pense uns minutos no problema e tente chegar por si próprio a uma resposta; esse pequeno esforço valerá a pena.

    Este curioso problema, embora não tenha uma linhagem particularmente nobre, faz já parte do folclore matemático. A história começa em meados dos anos 70, num concurso de TV americano, Let's Make a Deal, cujo apresentador dava pelo nome de Monty Hall, e que tinha aproximadamente a estrutura do 1-2-3 apresentado entre nós, nos anos 80, por Carlos Cruz.

    A situação propriamente dita fazia parte duma fase do concurso de Monty Hall, à parte pequenos pormenores (Monty não oferecia cabras mas sim torradeiras e quejandos como prémios de consolação). Este pequeno problema ficou portanto conhecido para a posteridade como Problema de Monty Hall (e já fez provavelmente mais pela fama do apresentador do que o concurso propriamente dito).

A resposta que enganou os matemáticos

    Se o leitor seguiu a sugestão de há pouco, terá provavelmente retirado a conclusão que, de tão óbvia, parece saltar à vista: é indiferente trocar de portas ou não. Na fase em que se põe a questão (2 portas, uma das quais esconde o carro e outra a cabra), a probabilidade de qualquer das portas conduzir ao prémio desejado é de 50%. Portanto, parece completamente irrelevante trocar a escolha inicial ou não. As nossas hipóteses não melhoram por isso.

    Se o seu raciocínio foi este, prepare-se para uma grande surpresa. Na verdade, e ao contrário do que a intuição parece ditar, as probabilidades de sucesso duplicam se decidir trocar a escolha!

    Antes de explicar este fenómeno contra-intuitivo, prossigamos a história do problema. A personagem seguinte é uma senhora um pouco bizarra, que dá pelo nome não menos bizarro de Marilyn vos Savant.


    Marilyn apresenta-se a si própria, sem falsas modéstias, como a pessoa com o mais elevado QI de todos os tempos (228, de acordo com o Guiness Book). É também particularmente detestada entre os físicos e matemáticos que ouviram falar dela devido ao seu livro The world's most famous math problem, de 1993, em que põe em causa de forma não-científica e bastante patética a demonstração do Teorema de Fermat por Andrew Wiles e a Teoria da Relatividade de Einstein.

    Marilyn escreve há mais de dez anos a pequena coluna semanal "Ask Marilyn" na revista Parade sobre assuntos relacionados, indirectamente, com ciência. Na sua coluna de 9 de Setembro de 1990, em resposta a um leitor que lhe colocava o problema de Monty Hall, Marilyn afirmava ser preferível trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Mantendo a escolha inicial a probabilidade de sucesso é apenas 1/3.

    Assim que publicou o seu artigo, Marilyn foi soterrada por cartas de leitores que discordavam, alguns dos quais matemáticos profissionais, e que sustentavam ambas as escolhas terem probabilidade de sucesso 50%. Em Dezembro de 1990 vê-se obrigada a voltar ao assunto, explicando melhor a solução e publicando excertos de cartas quase insultuosas.

    Por exemplo, Robert Sachs, da George Mason University, escrevia: "Como matemático profissional, estou muito preocupado com a falta de competências matemáticas da população em geral. Por favor admita o seu erro". E Scott Smith, da Universidade da Florida: "Você pôs a pata na poça em grande! Vou explicar: depois de o apresentador mostrar a cabra, você tem uma hipótese em duas de sucesso. Mudando de escolha ou não, as hipóteses são as mesmas. Já temos ignorância matemática que chegue neste país. Não precisamos que o maior QI do mundo propague mais. Que vergonha!"



O desespero da comunidade científica

    Depois de um terceiro artigo sobre o assunto e de milhares de cartas, das quais 90% era contra a sua resposta, o tom dos comentários tornou-se histérico, como o mostram afirmações como "Quantos matemáticos furiosos são precisos para você mudar de opinião ?" ou sugestões sarcásticas de que Marilyn era a cabra ou de que as mulheres não podem realmente compreender matemática.

    Depois destas reacções inflamadas, vários artigos publicados em revistas de matemática com uma análise rigorosa ao problema mostraram aos incrédulos que Marilyn tinha mesmo razão. O raciocínio intuitivo é falacioso: vale a pena trocar de portas. Fazendo-o, a probabilidade de sucesso é 2/3. Não o fazendo, é apenas 1/3.


 

Porta A

Porta B

Porta C

Caso 1

Carro

Cabra

Cabra

Caso 2

Cabra

Carro

Cabra

Caso 3

Cabra

Cabra

Carro

Para demonstrar este facto fornecem-se a seguir 4 argumentos distintos (mas evidentemente relacionados), com diferentes níveis de sofisticação matemática.

1. À partida, quando havia 3 portas e devia escolher uma, o leitor tinha apenas 1/3 de probabilidades de sucesso. Ou seja, apenas 1 vez em cada 3 terá escolhido a porta certa. 2 vezes em cada 3 terá escolhido a porta errada. Este facto não se altera quando o apresentador abre uma das outras portas. Assim, se decidir trocar, uma vez em cada três perderá o carro, escondido pela porta escolhida inicialmente, e duas em cada três ganhá-lo-á. Ou seja, a probabilidade de sucesso se trocar de portas é de 2/3, e se não trocar apenas de 1/3.

2. Chamando às portas A, B e C, construamos a listagem exaustiva de todas as possibilidades deste jogo (ver tabela). Suponhamos, para fixar ideias, que o concorrente escolhe inicialmente a porta A. Se, chegada a altura da eventual troca de portas, a sua estratégia é de manter a escolha inicial, ele só ganha o carro no caso 1, perdendo-o nos dois restantes. Se, pelo contrário, a estratégia for de trocar, ganha o carro nos casos 2 e 3. Assim, a probabilidade de sucesso para cada uma das estratégias é, respectivamente, 1/3 e 2/3.

3. Chamemos de novo às portas A, B e C, supondo que o concorrente escolheu a porta A. A probabilidade a priori de o prémio estar por trás da porta X é p(X)=1/3. A probabilidade condicional de Monty Hall abrir a porta B se o prémio está por trás de A é p(M.a.B|A)=1/2. A probabilidade condicional de Monty ("M.") Hall abrir ("a.") a porta B se o prémio está por trás de B é p(M.a.B|B)=0. A probabilidade condicional de Monty Hall abrir a porta B se o prémio está por trás de C, p(M.a.B|C)=1.



A verdadeira solução para lá das aparências

    Portanto, a probabilidade de Monty abrir a porta B é p(M.a.B)=1/2 (por cálculo directo ou considerações de simetria entre B e C).

    Assim, pelo Teorema de Bayes, a probabilidade condicional de o prémio estar em A se Monty abre a B é p(A|M.a.B)=p(A)*p(M.a.B|A)/p(M.a.B)=(1/6)/(1/2)=1/3. Analogamente, a probabilidade condicional de o prémio estar em C se Monty abre a B é p(C|M.a.B)=p(C)*p(M.a.B|C)/p(M.a.B)=(1/3)/(1/2)=2/3.     Uma vez mais, a probabilidade de sucesso para a estratégia de troca é de 2/3 e para a de manutenção da escolha é de 1/3.

4. Se o leitor continua incrédulo, sugiro que tente a solução de força bruta. Faça uma simulação do problema em computador jogando, digamos, 100 jogos, contabilize os resultados e analise as frequência relativas de sucesso para cada estratégia.

    O terceiro ponto acima revela a verdadeira natureza dos mal-entendidos gerados por este problema. Na fase de decisão, as quantidades relevantes são as probabilidades condicionais determinadas pela história anterior do jogo. Por outras palavras, o jogo não começou ali. Pelos vistos, o conceito de probabilidade condicional ainda gera, quase 250 anos depois de Bayes, alguma confusão mesmo entre matemáticos!

    Se o leitor não se deixou enganar pelas aparências e chegou por si próprio à conclusão correcta, os meus parabéns. Revelou grande sensibilidade para o problema. Caso contrário, está em excelente companhia. Quando este problema foi exposto a Paul Erdös, provavelmente o maior matemático do século XX, não só ele não chegou à solução correcta como durante vários dias se recusou a aceitá-la. Mais. Só se começou a convencer quando observou uma simulação de Monte Carlo do problema, verificando experimentalmente que era melhor trocar de portas.





Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal