A caminho do céu osvaldo polidoro (reencarnação de Allan Kardec)



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LENDO O MEU RELATÓRIO


Não é agravante, para mim, o ter desencarnado, nesta última vez, nas condições em que o fiz; pois nada tinha a agravar, por nada ter tido de importante em outras vidas, a me aureolar a fronte de vivedor simples e humilde. Conheço quem não possa dizer o mesmo, por haver esbanjado bens internos em experiências mal orientadas; quem borrifou de fiasco, nova migração pela carne, depois de ter dado de si, em outros tempos, provas de belas realizações. É que, como ninguém se completa de uma só vez, tendo de experimentar situações estas e aquelas, para efeito de complemento, esbarra em ângulos menos eficientes de sua própria organização. Há mesmo, em todos nós que ainda somos pobres de virtudes despertas, pontos fracos, regiões morais menos sólidas. Cumpre, portanto, ao programar nova abordagem à carne, fazê-lo com prudência, não excedendo nos exageros da auto-suficiência. É melhor andar devagar e seguramente.

Não sei o porquê, mas foi Alva quem me veio trazer, um dia, meu relatório. Era e ainda deve ser, devendo estar no departamento competente, um calhamaço em ordem, limpo, bem guarnecido. Não tinha, nem seria preciso ter, como me disseram, referências sobre os primeiros lances do espírito consciente, ou de entrada imediata no reino hominal. Começou, mais ou menos, e com citações mui ligeiras, no tempo da vinda da raça adâmica, há pouco mais ou menos quinhentos mil anos atrás. Não sou adamita, não vim barrado de outro plano, sou evita, sou da raça primitiva como muita gente o é, pois deveis saber que nos compomos, os habitantes da Terra em geral, da carne e dos países astrais, de uma infusão de advindos e primitivos, rareando muito os emigrados voluntários de outros planetas.

Há quem pense muito, sei-o agora, nessa questão; isto é, em ir para melhor casa cósmica, pensando que, para encontrar céus lindos, indizíveis em esplendor, seja preciso deixar a Terra. Que erro grosseiro! Pois, nem cismando coisas ditas sonhadoras, e que em si contivessem os néctares dos sonhos, poderia dizer alguém encarnado, ou habitante dos países inferiores do astral, daquilo que a Terra comporta, em suas zonas mais afastadas, lá para onde não consegue atingir o vibrar inferior das camadas mais próximas do centro.

Porque a Terra é um todo, sendo que, quanto mais para o centro geral, tanto mais inferior, na direta proporção em que, quanto mais para fora, mais divinizados os ambientes são. Descobre o ser, os seus bens inatos, os seus dotes de emanação divina que é, para certificar-se do que afirmamos aqui, de onde o plano geral se torna de fácil compreensão. A Terra comporta todos os céus desejáveis. Que ninguém perca tempo em pensar ir para longe, porque o mais difícil é atingir os cimos dela mesma. Nos seus extremos domínios, possui a casa cósmica dirigida pelo Diretor Planetário, ambientes subidíssimos. Não sei isso apenas por estudos diagramáticos que nos são aqui oferecidos; experimentei o prazer de saber de fato, em virtude de escalada organizadora, como prêmio, e onde Alva era uma das dirigentes da minúscula caravana.

Apenas, é bom considerar, a muita luz cega aos morcegos... Em nossa organização característica, existem três pontos essenciais — o inferior, o ótimo e o superior. O inferior atingimos pela degradação, e não sei até onde possa ir, sem ser que atinge o revolvimento das formas animais primitivas por onde transitamos em simplicidade, o que então era normal. O ótimo é aquele estado normal, como o meu, no presente, que estou em equilíbrio entre merecimento e o meio ambiente. E o superior, que é o forçamento do ótimo, coisa que cansa, pois constitui um sustentar altura vibratória não comum, não ordinária. As alturas cansam muito, sendo normal que, nos extremos do forçamento, não podemos manter o posto por nós mesmos, sendo necessária a intervenção de agentes mais categorizados. Há, porém, para o inferior e o superior, campo acessível, onde, sem prejuízo, se pode viver e servir. Nunca deixaria de haver um campo de flexão, para cima e para baixo, em tons e matizes. Uns sobem para estudar, para encetar aprimoramentos, principalmente nos casos de encarnações missionárias em vista. Outros, abnegados, descem para se tornarem mais úteis, para estarem ao pé daqueles a quem pretendem auxiliar. Os nossos planos estão forros destes tais.

Mas eu dizia de mim mesmo, como evita, como elemento da raça-mãe, daquela raça que ofereceu encarnação à legião adâmica, faz mais ou menos quinhentos mil anos, segundo dizem sábios destes lados, através de seus livros e suas palestras.

Que coisas andei a fazer, então, por todo esse tempo, no seio do cardume humano, na Terra como se fora em qualquer outro mundo da mesma categoria? Vivi e fui, como acontece com todos, preparando meu caráter pessoal. Porque ser uma individualidade distinta, à parte das demais partes, nada demais é; o principal é a organização do caráter, a feitura do próprio eu característico. E demorei-me desanimado, porventura? Não, pois milhões de anos temos vivido, nos planos inferiores, de antes do mineral, nas gamas hierárquicas incontáveis dos reinos anteriores ao reino animal. E como atravessamos o reino animal? De um salto, talvez? Não, pois na Obra Divina, no Deus Manifesto, não há saltos, tudo é paulatino, lento, progressivamente lento.

Revi, também, através de aparelhagens próprias, vidas e vidas, nas eras que se foram, nos continentes que já não existem, no seio de raças que se transfundiram. Adorei a um mesmo Deus por fanatismos vários. Ofendi a um mesmo Deus, pelas razões que também hoje são usadas pelas diferentes religiões, nos seus entrechoques sectários. Defendi cores, bandeiras, clãs, credos. Matei e fui morto. Lá para trás, não muito longe, comi e fugi comido.

Assim como hoje o fazem milhões, na carne e fora dela, ao invés de adorar a Deus, pela decência de conduta, bajulei, lambi, adulei, chaleirei. E não sei se o farei ainda, pois em volvendo à carne, muito mais fácil é temer e chaleirar a Deus, fazer lambetismo indecoroso, do que viver decentemente para com o semelhante, que é o que Deus quer que façamos. A turba humana não sabe ainda compreender e amar; por isso mesmo, teme e adula, por meio de formalismos pagãos, idólatras, em si mesmos repugnantes. A capacidade de hipocrisia é tal, a tal ponto sobe a deselegância em conduta moral-mental-religiosa, que, mesmo depois de reconhecidas as fraudes teologais, os falsos adornos, as verdades postiças, as mentirosas disposições convencionais, ainda continuam a ceder, por via dos rótulos, dos títulos, dos preconceitos, das famigeradas obrigações sociais, protocolares e ditas civilizadas. O homem, de fato, está sepultado bem no fundo do homem fictício, do homem formal, do homem fantoche, do homem convencional. E é por isso que a morte envia, todos os dias, para os rincões de treva, pranto e ranger de dentes, dezenas de milhares de engalanados do mundo, de gente de tripa forra e herdeira de valiosos símbolos do mundo. Se o diabo existisse, seu melhor negócio seria com os titulados das religiões.

Como a morte poderia rir da vida, não fosse ela da vida prolongamento, não tivesse de ser veículo de transições lentas, judiciosas e belas! E, se fosse dado a mortais olhos, no plano da carne, ver em como se transmudam em trevosos certos luminares do mundo? E se o espírito encarnado, que focaliza nos empíreos celestiais a certos seus devotos, fosse dado vê-los nos barraçais de toda ordem? Em que sorte de prostração cairiam milhões de seres, simples e humildes, em vendo a seus heróis apeados de seus pedestais insólitos? Como se portaria a Humanidade, que compra tudo quanto carece de espiritual, quando visse os seus funcionários pedindo, mãos postas, lamacentos, suarentos, tétricos, um pouco de paz, uma medida de redenção, uma oportunidade de ressarcimento? Como se portariam os filhos do povo, em vendo que aos simples pais, mães, filhos, irmãos, gente decente, foi entregue o bastião da espiritualidade, a ordem de autoridade, sendo que aos donos de credos, proprietários do pensar alheio, outro rumo não foi indicado, sem ser o das reencarnações dolorosas, o das provas por vezes horripilantes?

Sim, amigos, imaginai nisso tudo, pois a Justiça Divina vos mostra tudo e de pronto. Quem é esse homem que vedes, sempre, estirando a mão à cata de uma esmola, encostado à porta de um templo qualquer? Não teria estado ontem, lá dentro, a vender sacramentos, ou à custa destes a fabricar ignorantes e simplórios, para mais logo os explorar? E aquele cego, aquele coxo, aquele leproso, aquele surdo-mudo, aquele paralítico, etc.? Quem está por fora vedes, mas quem está no cerne não podeis ver. Contudo, poderíeis imputar fraude, dolo, precariedade, à Soberana e Interna Justiça? Pois não vos confundais, amigos, com os rótulos do mundo. O mundo veste a fantasia de um modo assaz incerto. Daqui vos falamos, porque ordens superiores assim determinaram, em virtude do ciclo que se vence. Nova era despontará, lentíssima, nos horizontes da vida planetária, conclamando ao bem, ao fraternismo sem rótulos, sem presunção, sem ostentação, sem exteriorismos falsos, que primeiro ludibriam aos sentidos e depois chafurdam os espíritos nos antros abismais. De futuro, sem dúvida, respeitar-se-á o ser pelas suas virtudes e pelo seu saber de fato. Quem mais tem mais deve dar, em obras de Humanidade, não em forjaduras idólatras, não em farândolas simbólicas, mistificadoras e infernais.

Revendo o meu longo viver sobre a Terra, em todos os tempos, eras, continentes, raças, povos, credos e pátrias, posso dizer que vi, em linhas gerais, o viver, o deslizar da Humanidade por sobre a Terra. E, se dolorosa é a história humana em geral, desgastando as arestas do interior, em luta contínua contra as quinas do ambiente exterior, também proveitosa foi a dura jornada de milênios. Atravessando o homem coletivo, a Humanidade, os vulcões do mundo exterior, suas guerras e cataclismos, também, conjuntamente, foi conseguido burilar, quebrar cantos, amolgar ângulos de sua estrutura ainda feroz, animal e truculenta. Houve permuta em todos os sentidos, sem dúvida, entre a luta do homem contra o meio e do meio contra o homem, obrigando-o à melhora, ao progresso em geral. E é para isso mesmo que tudo existe em torno do homem, da monera ao macrocosmo: para o tanger, inculcar-lhe o espírito de luta, por idealismo, ciência, arte, necessidades em geral. Nada deixará jamais de instruir ao homem, desde que ele queira pensar nas origens, no plano de ação e nos destinos de todas as coisas. Uma simples formiga é um monumento de estrutura mecânica; sondar numa monera o seu porquê, as suas bases físico-químico-mecânicas vale por um curso técnico que não podemos ainda completar, em virtude de ir esbarrar na transcendência de tudo, na Causa Originária. O simples duplo-etéreo de um homem, encerra desafio a todas as argúcias científicas, apesar dos imensos informes do Consolador, porque em tons e matizes qualquer ordem de fenômeno se estende ao infinito.

E o amor nunca fabricou desgraças, o amor de ordem superior, é claro. Mas vi levantarem-se, dos proscênios religiosistas, não cânticos de glórias a atrair bênçãos, não cortejos de nobres atos a forçar o florescimento de dons de alma, mas sim vi, pasmo, chocado, assombrado, que eles subiam, como fumo de breu, colunas de dor, de ódio, de perseguições, de vinditas cruéis, que subindo um pouco, depois desciam, saturando tudo com a pestilência de suas ingênitas virulências. É que falando de Deus, na Verdade, no Amor, os credos oficializados e organizados em bases político-econômicas, nada mais têm feito que trair e trair! Atiram Deus contra Deus, a Verdade contra a Verdade, o Amor contra o Amor! Nunca! Isso jamais se daria, porque as coisas puras não são atingíveis pelas baixezas do homem ignaro. Estes é que, presumidos e maldosos, se atiram nos abismos, nos grilhões das reencarnações dolorosas. É triste arrastar a coletividade para as concepções indignas do Amor e da Justiça de Deus. Moisés, descendo do Monte Sinai, com ordem de não matar, havendo morto quase vinte e quatro mil, não traiu a Lei, nem em sua forma, nem e menos ainda em seu espírito — traiu-se a si mesmo. O Cristo, dando-se à morte ignominiosa, ressurgiu no mundo dos ultralibertos, coroando com os galardões de mais um imperecível triunfo e poder de mando. Eis que existem, amigos, várias ordens de vitória. Algumas vitórias valem por fragorosas derrotas, por descidas a abismos consciencionais e exteriores.

DEVOLVIDO AO TRABALHO

Fazia já bem tempo que havia deixado a Casa de Recuperação, quando numa de suas visitas, disse-me Alva:

— Mesquita devia ir, também; mas surgiram à última hora, dificuldades imprevistas. Iremos nós, como estava combinado, assistir a uma conferência, na crosta, feita por um irmão encarnado. Como já teve a oportunidade de ver, ou rever a história do homem sobre a Terra, terá agora a oportunidade de ouvir, da boca de um encarnado, uma exposição resumida da mesma história. Como já ouviu dizer, trabalhamos sob a égide de Jesus, no plano geral; mas, no quadro das ramificações obrigatórias, das funções executivas, os trabalhos obedecem à orientação de grandes oficiais, de subalternos categorizados. Assim, pois, os serviços em torno à unificação da fé, por compreensão e não por mística piegas, estão afetos a quem de direito, por outorga da própria Diretoria Planetária.

— Compreendo perfeitamente, amiga Alva, que a Terra vale, para efeito de administração, por um país maiorzinho e bem mais justamente administrado, do que os países pequeninos de nós bem conhecidos. E que assim como os países da Terra possuem seus chefes-supremos, seus ministros, seus governadores, seus secretários, seus chefes de repartições, etc. também um planeta os possui, é claro, e em bem melhores e maiores expressões.

— Muito bem. Pois iremos nós três: você, Cristina e eu. Esteja pronto à hora de costume.

E deixou-me a meditar. Mas a meditar com outro conhecimento de causa, que não aquele dos primeiros dias, quando tudo era confuso. Agora, sabia bem que tudo é por ordem, por hierarquia, por gamas vibratórias e administrativas, havendo direção para tudo, de dentro para fora e de fora para dentro. Tudo simples, natural, altamente respeitável.

Pelas seis e pouco, acompanhado de Fábio, entrou Mesquita. Entrou, devo dizer, para a casa onde então passei a habitar, residência de velho amigo. Porque, afinal, por obrigação funcional ou o quer seja, não quis e não poderia, de fato, ter ido para regiões outras, onde tivesse parentes radicados. Foi imperioso ficar em lugar propício para certo desenvolvimento de atividade. E tudo corria bem, trazendo-me o serviço em curso, a todos os momentos, oportunidades de felizes amizades e ricos aprendizados.

Sorriso largo à vista, saudou-me Mesquita:

— Boa noite, Adroaldo. E boa noite com todos os “rr” e “ss”...

Como se tivesse querido aludir às concepções de certos credos do mundo, que presumem haver e teimam que há, de fato, uma tremenda ou total separação entre tudo o que é dito da Terra e tido como do Céu, ratifiquei:

— Boa noite, com todos os “rr” e “ss”, não há dúvida alguma. Mas sabemos que os nossos “erres” e “esses” possuem encontros inimagináveis, quando se trata de nossas noites.

— Quero lhe dizer, que, apesar de tudo isto ser imensamente belo, profundamente deslumbrante, enternecidamente adorável, tenho saudades das noites de minha terra! O Ceará, com suas noites claras e seus mares bravios, parece que surgiu, de um sonho do próprio Deus!... Demais, a Terra, por si só, sem o desmazelo humano, sem a barbárie intelectualizada, apesar de suas convulsões telúricas, dos extremismos de suas erupções cataclismáticas, não deixaria jamais de ser um poema vivo, palpitante, a atrair perenemente os sentidos do homem superior, da alma capaz de sondar, na pujança dos seus arrebóis, na embaladora doçura dos seus crepúsculos, o porquê da própria vida! Não existe trecho de estrada, galho de árvore, pétala de flor, regato serpeante, que não tenha herdado, pelo menos uma só bênção das musas. A dor, o amor, a alegria, a tormenta, o dia, a noite, o riso, a lágrima, o belo, o feio, a ignorância e a sabedoria, que coisas são, em conjunto, sem ser o motivo de todas as sinfonias, a alma de todas as canções, a base de tudo o que se possa argumentar? Por causa da Terra, amigos, as inteligências mais belas, os cérebros mais atilados, os corações mais amantes, sonharam com o que de mais sublime possuem os céus! Jesus, em Sua grandeza, mandou olhar para os lírios do campo e para as aves do céu. Por que, meus amigos? Por causa da singeleza, por vias das tremendas lições que a simplicidade encerra e prodigaliza.

Alva entrou, ouviu um pouco e sorrindo lhe ciciou aos ouvidos:

— Que cheirinho de poesia anda por aqui hoje!...

— Estamos na hora? — indagou Mesquita, volvendo-se.

— O senhor também vai? — quis eu saber, pois estando presente e dizendo Alva o que disse, supus ter havido qualquer nova deliberação.

Vou para a crosta, mas cumprir outras ordens. Vou para aquele Centro onde fomos ver aquelas operações espirituais... Lembra-se do caso do Fábio?

— Lembro-me perfeitamente.

— Temos ordens a transmitir aos guias daqueles serviços — informou.

— É interessante — considerei, imaginando no que se teria passado, desde aquela noite, quando bem má impressão tais serviços nos causaram, pelo inferiorismo em geral ali reinante.

Notando-me a curiosidade construtiva, tornou ele, em resumida explicação:

— Expus aos dirigentes o meu parecer. E a resposta levo-a, para, no caso de aceitação do alvitre superior, contribuir com elementos de melhoria em geral.

— A resposta está sendo endereçada aos guias do Centro?

— E os guias falarão aos seus imediatos, que são os trabalhadores encarnados. Não ficaria bem, em tal caso, falar diretamente aos encarnados. Afinal, se outra fosse a ordem intelecto-moral reinante, da parte dos encarnados, outra seria a ambiência do plano astral. Falaremos, pois, àqueles que são o reflexo do pensar ambiental. Como deve ter lido, somos atraídos ou repelidos, pelo modo de pensar e sentir dos que na carne se reúnem. Eles é que possuem a chave, pelo imenso poderio eletromagnético cujos pensamentos fazem intervir.

— E se não aceitarem a oferta superior?

— Continuarão como estão — respondeu, fazendo significativo gesto de ombros.

— Não seria justo impor...

Como que antecipando-se ao meu dizer, sorriu inteligentemente e salientou:

— Nada disso, pois não são de modo algum maldosos; falta-lhes superioridade; falta-lhes evolvimento em hierarquia, doutrina e técnica. E quem para lá se encaminhar, pouco mais ou menos, também estará por essas paragens de merecimentos. Em aceitando, que terão de fazer, sem ser abandonar certas práticas que a todos agradam, que são os ritualismos? E crê que aceitarão?

— Então — intervi — nem conviria aconselhar!

— Enquanto se tratar de lidar com elementos evolutíveis, precisamente por isso, convém tentar.

— Dentre os encarnados?

— De ambos os lados. A lei é melhorar ou subir sempre, avançar sempre, conquistar ao infinito as melhores expressões em performace edificante. Nunca se deve pensar que já se tem ou sabe tudo, estabelecendo o regime de círculo vicioso. Tampouco, e saliente bem isto, deve-se imaginar na obrigação de homogeneidade ambiental; a homogeneidade, para ser construtiva, só sendo de ordem relativa. De resto, precisas são as múltiplas concepções, desde que ungidas de santos objetivos. E queira ou não nossa mente admitir isso, haverá sempre um segundo modo, pelo menos um segundo modo de se entender uma primeira ou última idéia. Lá, pois, apesar do inferiorismo parecer geral, gente haverá com vontade e preparada para avançar um pouco. Essa gente, portanto, ou forçará no sentido de renovação de meios e processos, ou tomará rumos outros, indo frutificar melhor mais para a frente.

— E estamos na hora, pois havemos de ter tempo para mais prosa por lá — observou Alva, tomando o ancião pelo braço e dizendo-lhe fosse chamar Cristina, que se achava pelo interior da residência.

— Morrer, bem o sabia, não significa terminar empreitadas. Mas vejo que o problema humano, por aqui, torna-se múltiplo em detalhes e características interessantes. Sobretudo, considero um ponto de ordem ética: enquanto na carne julgamos que a morte nos separará de certas obrigações, criando uma distância, dispondo barreiras, aqui viemos encontrar uma ordem em todas as coisas e propósitos, pois a unidade nas operações firma-se de modo espetaculoso. Há, compreende-se facilmente, aumento de cuidados em geral, de base educativa, de fundo orientador, num sentido de forçamento universal e contínuo, embora ressalvando o respeito às possibilidades pessoais.

Em ouvindo Fábio assim falar, quis saber mais de perto se qualquer coisa de ordem íntima o ressentia, qualquer coisa toda pessoal. Explicou-me:

— Você também é marinheiro de primeira viagem. Não sente em si uma opressão do meio, uma como que coerção fantástica, principalmente no sentido intelectual da vida? Não lhe parece que nos estão a reclamar alguma coisa?

— Fábio, você bem sabe que eu era católico, e que um católico é apenas um crente empírico, tudo ignorando sobre o realismo da vida de extratumba. Como poderia eu, crente na errônea concepção de uma só vida, na salvação por encomendas ritualísticas, no realismo dos conceitos de céu, inferno e purgatório como territórios, como poderia eu, agora, portanto, não me encontrar em perene encantamento? Estou no céu, estou bem, é o que lhe devo dizer. Nada me oprime, tudo me enleva. Sinto-me uno com Deus, assim como diz no catecismo que logo de entrada nos deram para ler. E quereria eu mais do que isso? Quero é certo, pois assim determina a lei; mas, por ora sinto-me no céu.

Fábio ficou meio desconcertado, cismático, a observar-me bem. Coisas enuviantes deviam estar a lhe entravar o ingresso em melhor estado de estar. Mas, que poderia eu fazer, ou dizer, se vultos de outro coturno silenciavam a seu respeito, a respeito do seu estado de alma? Fiz-lhe ver, em palavras, enquanto Mesquita, Alva e outros haviam ido buscar Cristina, que bom seria falasse claramente com algum chefe. Havia um porquê qualquer, sem dúvida, por resolver, sendo que os elementos e meios não deviam estar longe. Ele, então, falou-me assentindo; iria, assim lhe calhasse de oportuno, escancarar a alma. Para mim, sabia que qualquer deles estava a par de tudo; mas que a iniciativa devia ser dele, por ser dessas coisas cuja ordem pertence à deliberação individual.

Quando vieram do interior da casa aqueles que haviam ido à cata de Cristina, Fábio esboçava leve sorriso, coisa em si ainda bem rara.

— São sete e trinta — avisou Alva.

Com algumas recomendações de Mesquita, partimos deixando-o a sós com Fábio. Isto é, partimos em cinco pessoas, inclusive Alva e Cristina. Com minhas poucas probabilidades de êxito, fazia força mental no propósito de que Fábio, uma vez a sós com Mesquita, dissesse do que lhe ia pelo mundo interno. Talvez por simples questão de fraternidade, quem sabe por razões históricas de mim não lembradas, o certo é que aquela contínua tristeza de Fábio me atormentava.


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