A causa secreta de machado de assis



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O OLHAR EM A CAUSA SECRETA DE MACHADO DE ASSIS
Alice Atsuko Matsuda Pauli – Doutoranda (UEL)
O conto “A causa secreta” foi publicado pela primeira vez em 1885. Posteriormente, foi publicado em Várias histórias (1896), obra que representa o ápice do contista Machado de Assis.

Conforme Candido, o conto trata do tema da “transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual. Este tema é um dos demônios familiares da sua obra, desde as formas atenuadas do simples egoísmo até os extremos do sadismo e da pilhagem monetária” (1970, p.28). Pode-se afirmar que o conto é uma espécie de síntese do tema do sadomasoquismo.

O enredo está estruturado in medias res. O narrador inicia o relato dos acontecimentos pelo meio da diegese. Trata-se da história de dois homens: Garcia, jovem estudante de medicina e Fortunato, um burguês abastado, capitalista, de meia-idade, que após salvar a vida de Gouveia, atacado por capoeiristas no centro do Rio, tornam-se sócios de uma Casa de Saúde. Fortunato tem a aparência de um homem normal, bem casado com Maria Luísa, porém, em verdade, é o guardador da causa secreta – possui um impulso atemorizante de sadismo, escondidos sob os signos de generosidade e vingança. As vítimas e fontes de prazer do personagem são muitas: animais que servem de experimentos científicos, os doentes da Casa de Saúde, um rato, sobre o qual impõe tortura chinesa, sua própria mulher e seu amigo Garcia.

Para narrar os acontecimentos de “A causa secreta”, Machado utiliza-se da narração ulterior, posição clássica da narrativa do passado; da narração intercalada, narração entre os momentos da ação, resultando a fragmentação, e utiliza-se também da narração simultânea, narrativa no presente, contemporânea da ação.

A narração ulterior é utilizada para narrar toda a história de como Garcia e Fortunato se conheceram. Ele dirige-se ao narratário, indicando que se trata de um fato que já aconteceu e que será relatado. Nota-se que ele cria um suspense, um mistério: “Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço ... em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender, é preciso remontar a origem da situação” (1982, p.182).

Percebe-se também o uso da narração intercalada ao observar a fragmentação da narrativa. Ela inicia no momento presente, depois volta para o passado por meio da analepse e segue em uma ordem cronológica, chegando até o momento presente e continua contando o fato até o seu fim. O primeiro parágrafo é o da enunciação em que presenciamos Garcia nervoso, Fortunato absorto e Maria Luísa nervosa. Observa-se uma desestrutura, a presença de um conflito. Os dois primeiros parágrafos estão no tempo presente. Do terceiro parágrafo até quase no final, após o incidente com o rato, há todo um retrocesso, momento em que é relatado como Garcia e Fortunato se conheceram e se fica sabendo do porquê das atitudes dos personagens no início do conto.

A narração simultânea ocorre quando o narrador, após relatar o episódio do rato, remete ao início do conto, fazendo o leitor entender o que se passara. Dessa forma, Machado dinamiza o conto, enredando o leitor no enredo da história.

O narrador heterodiegético utiliza-se da narrativa não-focalizada ou de focalização zero para descrever os acontecimentos. Neste tipo de focalização, o narrador tem a capacidade de conhecimento praticamente ilimitada, podendo, por isso, facultar as informações que entender pertinentes para o conhecimento minucioso da história, colocando numa posição de transcedência em relação ao universo diegético. Assim, percebe-se que o narrador, como um demiurgo, conhece intimamente as personagens e dá sua opinião a respeito dos sentimentos e pensamentos deles. Note-se no trecho: “Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida” (1982, p.182).

Utiliza-se também da narrativa de focalização interna – variável que permite a circulação do núcleo focalizador do relato por várias personagens. No caso, o ponto de vista passa a ser da personagem focal – começa por Garcia, depois, no final, passa a ser de Fortunato. Por meio da focalização de Garcia, sobre o seu olhar, o comportamento de Fortunato é desvendado. Isso pode ser verificado acompanhando o olhar de Garcia, conforme afirma João Alexandre Barbosa. Segundo ele, a complexidade de “A causa secreta” está “montada na criação de um tipo sádico, Fortunato, e a maneira pela qual, através de uma personagem testemunha, Garcia, ele vai sendo desvendado aos olhos do leitor” (1990, p.18). Compactuando com Barbosa, pode-se afirmar que:
Realmente aos olhos: o sentido da visão desempenha um importante papel no conto à medida que os atos do protagonista são decifrados, para o leitor, por Garcia. Desde as primeiras frases, é acentuada esta presença do olhar, que inclui o leitor pela construção da cena: “Garcia, em pé mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha” (1990, p.18).
Por meio do olhar, Fortunato e Maria Luísa são descritos, revelando dois personagens totalmente opostos no modo de ser. Isso pode ser percebido pelas observações de Garcia quando foi pela primeira vez à casa de Fortunato:
A figura dele (Fortunato) não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove (ASSIS, 1982, p.184).
Conforme Barbosa, “a narrativa é preenchida pelas observações de Garcia acerca de Fortunato, sempre interpretando, para o leitor, os atos inusitados do amigo” (1990, p.18). Garcia faz papel de um psicólogo, analista obsessivo: “Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo” (ASSIS, 1982, p.184).

Essa observação pode ser constatada, acompanhando os encontros entre Garcia e Fortunato. O primeiro encontro ocorre no ano de 1860, à porta da Santa Casa, quando Garcia entrava e Fortunato saía. Garcia ainda era estudante de medicina e a figura de Fortunato impressionou-o. Conforme o narrador, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro poucos dias depois no teatro de S. Januário. O interesse de Fortunato pela peça, a atenção redobrada nos lances dolorosos chama a atenção de Garcia: “os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho” (ASSIS, 1982, p.183). Nota-se o comportamento sádico de Fortunato, que sente prazer com a dor alheia e para aumentar seu prazer, na volta para casa, sai dando bengaladas nos cachorros que estavam dormindo.

Esse fato é reforçado no terceiro encontro depois de algumas semanas, no acidente com Gouveia, ferido por capoeiristas. A atitude solícita de Fortunato para com o ferido faz com que Garcia tenha a sensação de repulsa ao mesmo tempo de curiosidade. Nesse momento, o comportamento e as características de Fortunato são revelados aos olhos do leitor por Garcia. Observe como o olhar predomina na descrição dessa cena:
Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido que gemia muito. [...]

Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma cousa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios (ASSIS, 1982, p.183) (grifos meus).


No entanto, quando Gouveia foi agradecer Fortunato pela sua atitude benevolente, é recebido com desdém. Esse fato deixa Garcia assombrado e curioso, desejando falar com ele.

Tempos depois, já formado, encontra-se com Fortunato em uma gôndola. Encontrou-o ainda outras vezes e a freqüência trouxe a familiaridade. Assim, recebeu o convite de ir à casa de Fortunato. A primeira vez, Garcia nota que, embora tenha se casado, a “figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes” (ASSIS, 1982, p.184). A segunda vez, Garcia percebe que entre Fortunato e Maria Luísa “havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcediam (sic.) o respeito e confinavam na resignação e no temor” (ASSIS, 1982, p.184).

Em uma outra visita, Garcia conta a Maria Luísa como ele conhecera seu marido e observa o prazer que Fortunato sente ao relatar a situação constrangedora de Gouveia, quando veio agradecê-lo pela generosidade.

Na Casa de Saúde, depois de aceitar ser sócios, Garcia observa a dedicação de Fortunato com os feridos, principalmente, em curar os cáusticos, e via que era da própria natureza dele. Depois ele começa a estudar anatomia e fisiologia e, nas horas vagas, ocupava-se em rasgar e envenenar cães e gatos. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, deixando Maria Luísa atormentada.

Dois dias depois, ao ver Fortunato sacrificando um rato em um espetáculo repugnante, Garcia consegue desvendar a alma desse homem e vê que ele reveste-se de máscaras. Observa no rosto de Fortunato que tortura o rato, cortando pata por pata vagarosamente e levando ao fogo, “um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma cousa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas” (ASSIS, 1982, p.186). Garcia tenta impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, “porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia” (ASSIS, 1982, p.186). Ao fixar a cara de Fortunato, vê “nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma cousa parecida com a pura sensação estética ... “Castiga sem raiva”, pensou o médico, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem” (ASSIS, 1982, p.186). O rato é símbolo da relação devoradora de homem a homem. “O homem, transformado em instrumento do homem, cai praticamente no nível do animal violentado” (CANDIDO, 1970, p.31).

Depois deste incidente, Maria Luísa que já parecia ter uma saúde frágil, fica doente – era tísica. Observa-se, por meio da focalização zero (onisciente), a descrição do prazer de Fortunato em cuidar de Maria Luísa:


Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. (ASSIS, 1982, p.187).
Outro momento de prazer de Fortunato é percebido no velório de Maria Luísa. Por meio da focalização interna variável, agora a partir do olhar de Fortunato. Ele observa Garcia sofrer de amor, do amor calado que aos poucos foi crescendo ao passar a jantar quase todos os dias na casa de Fortunato e notar a solidão moral de Maria Luísa. Fortunato sente prazer em ver a dor de Garcia, chorando em borbotões, irremediavelmente desesperado: “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa” (ASSIS, 1982, p.187).

Dessa forma, Machado desvenda a alma humana, tira a máscara e revela que o homem vive da aparência e não da essência. Fortunato, embora mostre perfeita normalidade social – senhor rico, casado e de meia-idade, que demonstra interesse pelo sofrimento, socorrendo feridos e velando doentes – reside, na verdade, um sádico, que transformou a mulher e o amigo num par amoroso inibido pelo escrúpulo. Este escrúpulo, que gera sofrimento do par, é a causa secreta do prazer de Fortunato e de sua atitude de manipulação de que o rato, no conto, é símbolo. Assim, de um narrador onisciente, nos principia o relato de um triângulo amoroso, trama comum a diversas ficções machadianas, enriquecidas aqui de uma novidade incomum nas demais, o sadismo.

Segundo Bosi, “Fortunato possui, como a Fortuna que traz no nome, um caráter maligno, ... Fortunato, que se diverte com as convulsões da agonia, é um caso particular da perversão universal” (1982, p.455). Ele é um homem anormal, mas revela perfeita normalidade social de proprietário abastado e sóbrio, que vive de rendas e do respeito da sociedade. O ganho, o lucro, o prestígio, a soberania do interesse são molas dos personagens de Machado. Os “mais desagradáveis, os mais terríveis dos seus personagens, são homens de corte burguês impecável, perfeitamente entrosados nos mores da sua classe” (CANDIDO, 1970, p.31). Portanto, analisando o comportamento de Fortunato, verifica-se o senso machadiano de compreender o funcionamento da alma humana e da estrutura social e moral – conforme o que lhe convém é ético, é correto.

Outra questão abordada no conto é a da emergência do outro, da duplicidade. A “mais perturbadora que a revelação cabal do outro Fortunato é a emergência súbita desse Outro no leitor, que se vê aturdido, pego na armadilha de um texto do qual pensava, até então, dominar todos os segredos” (CUNHA, 1998, p.162). Na cena do martírio do rato, observa-se que se Fortunato é sádico; Garcia é masoquista. Embora sinta repulsa, fica a contemplar a cena. Da mesma forma, nós leitores, identificamo-nos com Garcia, visto que observamos pelo seu olhar. Somos também masoquistas. Portanto, jogando com a dubiedade conhecida e familiar da sua narrativa, Machado de Assis assalta de repente o leitor com a dúvida que se faz permanente acerca de sua própria alteridade, fruto das projeções antagônicas que propõe – Garcias e/ou Fortunatos, quem somos nós? Comovemos com a solidariedade do sofrimento e/ou sentimos prazer com o sofrimento do outro?


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ASSIS, Machado de. A causa secreta. In: _____. BOSI, Alfredo. Et alli. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

BARBOSA, João Alexandre. Leituras: o intervalo da literatura. In: _____. A leitura do intervalo – ensaios de crítica. São Paulo: Iluminuras, 1990.

BOSI, Alfredo. Et alli. A máscara e a fenda. In: _____. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. Ín: _____.Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.

CUNHA, Patrícia Lessa Flores da. Em busca de uma tipologia. In: _____. Machado de Assis – um escritor na capital dos trópicos. Porto Alegre: IEL: Editora Unisinos, 1998.



CURVELLO, Mário. Polacas para um Fausto suburbano. In: BOSI, Alfredo. Et alli. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

SOARES, Osmar. A causa secreta: sentenças de Freud e Machado de Assis. http://www.duplipensar.net/artigos/2005-Q1/causa-secreta-machado-de-assis.html no google obtida em 10set.2005 14:45:19 GTM. Publicado em 02.02.2005.


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