A censura à rádio educativa



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A censura à rádio educativa1
Ana Baumworcel - Universidade Federal Fluminense2
Este texto analisa como a censura imposta pelo regime de arbítrio, instaurado em 1964, debilitou a Rádio MEC. Ao completar 70 anos em 2006, a emissora ainda enfrenta, como seqüela daquele período, muitas dificuldades para sobreviver. A ex-Rádio Sociedade do Rio de Janeiro ficou impedida de “prestar um grande serviço ao país” como pregava Edgar Roquette-Pinto, devido à política de esvaziamento cultural e financeiro que sucessivos governos adotaram para a primeira emissora pública e educativa do Brasil.
Palavras-chave: Rádio MEC, censura, memória, educação, história.
“Irmãos, a situação continua muito mais para urubu do que para colibri”. O alerta de Stanislaw Ponte Preta, publicado no jornal Última Hora3, refletia a ameaça que rondava a Rádio MEC logo após o golpe militar, em 1964. Através de seu famoso pseudônimo, o irreverente Sergio Porto, autor de, entre outros livros, Garoto Linha Dura (1964), Festival de Besteira Que Assola o País (FEBEAPÁ - 1966/1967), Na Terra do Crioulo Doido (1968), fez crônicas sobre a emissora, ironizando a situação: “O Sr. Eremildo Vianna, o distinto que tomou de assalto a Rádio Ministério de Educação, por motivo de vingança, continua a futricar em nome da revolução, para apanhar mais toucinho”.4 Sergio Porto, na opinião do escritor Paulo Mendes Campos, era como Bernard Shaw, quando queria fazer graça, dizia a verdade.

Em abril de 1964, Miguel Neiva, pseudônimo do jornalista Moacir Werneck de

Castro, zombava: “Já se fala por aí no próximo lançamento das comendas ODD (Ordem do Dedo-Duro), que vão premiar os ases da alcagüetagem, da delação nos tempos que correm”.5 Em FEBEAPÁ 2, Stanislaw, o criador das “certinhas do Lalau”, também comentou esta prática:

"É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da "redentora” (denominação dada ao golpe militar), cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem "otoridades", sentindo a oportunidade de aparecer, já que a "redentora", entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela de dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega como corrupto ou subversivo...), iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar”.
O professor Eremildo Luiz Vianna, além de ter invadido a Rádio MEC, em abril de 1964, para destituir a diretora Maria Yeda Linhares, também relacionou 44 professores como supostos subversivos.6 Maria Yeda Linhares - que lecionara na mesma Faculdade Nacional de Filosofia que Eremildo -, Darcy Ribeiro, José Leite Lopes, entre outros, estavam na lista dos 44 professores.7 Além de divergência política com Maria Yeda, Eremildo tinha um desafeto pessoal por ela ter dado apoio aos alunos que eram contra ele na Faculdade. Stanislaw Ponte Preta conta que “sua tomada de assalto à Rádio foi só porque Dona Yeda era a diretora de lá. E Eremildo tratou logo de inventar que ela roubara os cofres públicos, que era comunista, enfim, essas bossas manjadíssimas (...)”.8

A professora Maria Yeda Leite Linhares assumiu a direção da Rádio MEC em 1963, durante a gestão do presidente João Goulart, que tinha como Ministro da Educação e Cultura, Paulo de Tarso. Em entrevista, a ex-diretora esclarece que sua “entrada na emissora tinha algo a ver com um grupo de ativistas da Ação Popular Católica, com influência junto ao Ministro da Educação”, que ela conhecera em debates universitários sobre a conjuntura internacional - os movimentos nacionalistas e as lutas anti-imperialistas. Entre estes ativistas cita “Betinho, já fisicamente frágil e muito brilhante”.9

Maria Yeda, que já foi membro do Conselho Estadual de Cultura, duas vezes Secretária de Educação do Estado do Rio de Janeiro, relembra aquela época: “Minha passagem pela Rádio MEC rendeu-me, ao longo da ditadura, em parte por denúncias de Eremildo Luiz Vianna, oito inquéritos policiais militares, três prisões, aposentadoria pelo AI-5 e exílio de seis anos na França, onde fui nomeada, pelo governo francês, professora titular visitante”.10

Naquele abril de 1964, Eremildo, acompanhado de dez pessoas armadas, que segundo Maria Yeda eram filiadas ao MAC (Movimento Anticomunista), invadiu a Rádio MEC para destituir a diretora, “a mando do alto comando da revolução”. 11 A secretária da Rádio MEC, Sandra Ribeiro da Costa, barrou os invasores e chamou seu pai para ajudá-la, o ministro do Supremo Tribunal Militar, Orlando Ribeiro da Costa. Só com um documento da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Guanabara, Eremildo conseguiu entrar na emissora e lá ficou como diretor de abril de 1964 até dezembro de 1969.

Este episódio - a invasão da emissora pela força - foi um marco divisório na história da Rádio MEC e simboliza o Estado autoritário12 instaurado no Brasil após 1964. É um episódio que demonstra como foi a disputa pelo poder entre o que se denominou de setores da direita e os da esquerda. Para a Rádio MEC, foi o início do declínio.

O agonizante declínio de uma emissora cultural que teve em seus quadros cientistas, acadêmicos e intelectuais, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Guerra-Peixe, Radamés Gnattali, Francisco Mignone, Alceo Bocchino, Edino Krieger, Fernanda Montenegro, entre tantos outros. Chocante imaginar uma emissora formada por “homens de letras” se transformar quase numa “prisão”. Quando tomou posse, Eremildo botou todos os funcionários em fila e ficou examinando uns papéis durante meia hora. Segundo Sergio Porto parecia “um bedel de colégio interno examinando boletim de garoto levado. Depois levantou a cabeça (...) e explicou que ali todo mundo era suspeito. Estava instalado o regime do dedo-duro”.13

Um regime que não se restringiu à Rádio MEC. A prática da delação, instituída a partir de 1964, atingiu todas as emissoras do país. Saroldi e Moreira14, por exemplo, dão detalhes sobre o “caso César de Alencar”, demonstrando como a radicalização política na Rádio Nacional acarretou a demissão de 36 funcionários pelo Ato Institucional n 1 em julho de 1964. Lago transcreveu o relatório de Mário Neiva Filho, diretor da Nacional na época: “(...) elaboramos (...) com a colaboração, na qualidade de informantes, dos senhores César de Alencar, Hamilton Frazão e Celso Teixeira, a relação de todos aqueles que deveriam, como medida de segurança, ser afastados (...)”.15

Assim como a Rádio MEC, a Nacional também foi invadida em 1964 por um grupo paramilitar armado. Saroldi e Moreira16 reproduzem entrevista de César de Alencar: “(...) recebemos instruções de (...), homens responsáveis pelo movimento vitorioso, para ocupar a Rádio Nacional (...) E assim o fizemos”.17 O famoso locutor de auditório, que fez o país cantar “prepara a mão, bate outra vez, este programa pertence a vocês”, negou, em 1987, “sua participação em fatos documentados”.18

No dia 1 de abril de 1964, várias emissoras saíram do ar, como as Rádios Nacional e Mayrink Veiga, que tiveram seus transmissores lacrados. Outra prática desta época era acabar com as estações que incomodavam. Isso ocorreu de forma definitiva, por exemplo, com a Rádio Mayrink Veiga, que teve sua concessão cassada, por decreto do presidente Castello Branco, em 1965. Sua freqüência foi transferida para a Rádio Globo.19 Além do estímulo à delação, que possibilitou a demissão e perseguição de funcionários, e da extinção de emissoras, o governo autoritário recorreu à censura para se manter no poder. Na história republicana do país, somente em dois momentos a ação da censura política pode ser considerada contínua, exercida de maneira constante durante um período determinado: no primeiro governo Vargas, particularmente no Estado Novo, e no regime militar instaurado após 1964.20

Em 1936, pouco antes da doação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro por Roquette-Pinto, o presidente Getúlio Vargas sugeriu que a emissora ficasse com o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural ligado ao Ministério da Justiça. Isso só não ocorreu, porque Roquette-Pinto, em carta ao ministro Gustavo Capanema, esclareceu que a doação seria para o Ministério da Educação e não para o governo.21 Em 1939, o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural foi substituído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão que exerceu a censura durante a ditadura Vargas (1937-1945).

Moreira22 e Haussen23 analisam a ação do DIP e destacam a Nacional como a emissora que mais sofreu interferência nesta época. O presidente Getúlio Vargas incorporou a Nacional como patrimônio da União, em 1940, dois meses depois da regulamentação das funções do DIP. Sobre a Rádio MEC, pouco se sabe. Depois da doação, foi criado o Serviço de Radiodifusão Educativa, em 1937. Segundo relatório de Fernando Tude de Souza, de 1944, “houve conflito de interesses e de áreas de atuação com o DIP, que estava mais interessado na propaganda política do regime do que em valorizar os programas realmente educativos”.24 Mas é provável que a Rádio Ministério da Educação não tenha sofrido uma censura sistemática durante o Estado Novo (1937-1945) como as outras estações. Roquette-Pinto permaneceu como diretor até 1943, quando foi substituído por Fernando Tude de Souza.

A audiência, na época, ainda era pequena. Roquette não admitira propaganda comercial ou política e não havia dinheiro para modernizar o equipamento e ampliar a potência do transmissor.25 As mudanças foram lentas e a emissora demorou a crescer. Na década de 1950 o quadro era outro. Começava a época de ouro. Em 1955, oito mil discos foram gravados, 600 irradiações externas foram feitas, entre solenidades, reportagens e concertos, e a Rádio MEC ampliou o tempo de permanência no ar, conciliando o erudito e o popular em sua programação musical.26 Carlos Drummond de Andrade relatou, em crônica, os anos dourados do início da década de 1960: “(...) com a PRA-2 em plena renovação por artes do inquieto e imaginoso Murilo Miranda, assistimos ao aumento espetacular de seu índice de audiência, e isto se faz sem concessão ao mau-gosto (...)”. 27

Maria Yeda Linhares relembra que no início dos anos 60 ouvir rádio era a forma de se desenvolver um gosto musical, ampliar conhecimentos e entrar em contato com o resto do mundo. A televisão ainda não tinha grande alcance. A ex-diretora define o papel da Rádio MEC naquele período: “As transmissões diretas do Teatro Municipal, a famosa ópera de domingo, as crônicas de grandes jornalistas foram marcas de qualidade de uma estação que tinha como objetivo difundir cultura no seu sentido mais humanístico”.28

Em sua gestão, foram criados dois jornais diários com uma hora de duração: Jornal do Meio-Dia e o Jornal da Meia-Noite. “Jogávamos no ar um jornalismo didático, despojado dos jargões, explicativo e, de fato, informativo (...) Terminara aquele noticiário que se limitava a repetir os outros ou a ler telegramas de agências de notícias. A primeira prova da eficiência do novo estilo deu-se por ocasião do assassinato de John Kennedy, em Dallas. No Rio de Janeiro, rádios e televisões estavam em greve, somente a Rádio MEC ficara no ar, sem qualquer problema com a greve. (...) Mantivemos, ao longo de 24 horas consecutivas, informações e comentários. Nesse momento tivemos 100% de audiência!”, conta Maria Yeda Linhares.29

Quando a emissora foi invadida, em 1964, portanto, sua audiência estava em ascensão. A primeira censura da gestão pós-golpe militar na Rádio MEC foi a proibição da transmissão de clássicos dos russos Rachmaninoff e Rimski-Korsakov. Pouco depois, Eremildo Vianna “queimou, no piso de madeira da sala dos produtores, 200 cópias de um poema de Isaak Kastnelson (poeta russo, israelita, morto no gueto de Varsóvia) feitas para distribuição aos ouvintes do programa Aqui entre nós, apresentado e produzido por Edna Savaget”.30

Paulo Autran lembra a interferência que sofreu em Quadrante, um dos programas de maior audiência. Criado em 1957, Quadrante era apresentado, diariamente, às oito da noite e repetido no dia seguinte, ao meio-dia. Paulo Autran lia crônicas, durante cinco minutos, de escritores consagrados, como Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Fernando Sabino e Dinah Silveira de Queiros. Era um autor para cada dia da semana e dali saiu a Editora do Autor, com a publicação de livros com as crônicas.31

O ator recorda que Eremildo “queria acabar com todo e qualquer programa que tivesse liberdade artística de escolha” e esclarece: “ele não podia me demitir, pois eu já era funcionário público da Rádio, mas me dava coisas completamente desinteressantes para ler ao microfone, e eu acabei pedindo demissão da Rádio Ministério da Educação, contra a vontade dos colegas. Esta foi a minha passagem pela Rádio MEC, uma passagem muito agradável, de glórias, até o golpe de 64, e, depois, uma coisa meio constrangedora”.32

Apagar o passado


Depois de 1964, se instaurou na emissora uma política de esvaziamento cultural que se traduzia na prática de apagar fitas com programas históricos, de sumir com os livros, para que o passado fosse esquecido. Este ato de apagamento do passado se constituiu num ritual dos regimes de exceção. O objetivo ao “eliminar” o passado é apagar a identidade dos sujeitos para “silenciar” as diversas “posições de sujeito”. O intuito é transformar os sujeitos em massa uniforme para melhor impor determinado pensamento, dando a aparência de que não há possibilidade para a polissemia. Foi assim que se criou a cultura do proibido, a cultura da exclusão. Havia um sujeito que interditava os “sentidos”, que determinava o que poderia ser dito, o que poderia ser visto, o que poderia ser lido e, no caso do rádio, o que poderia ser ouvido. A população acabava obrigada a “falar o dizível, enquanto sentido imposto”. É preciso entender a censura dentro desta política de silenciamento.33

Hermínio Bello de Carvalho foi despedido da emissora nesta época: “amo a Rádio MEC, com todas as amargas lembranças que dela guardo. Sua importância é enorme para a nossa cultura. Lamento, apenas, que seu passado, boa parte dele, tenha se apagado (...), apagaram centenas (ou milhares?) de fitas de programas que, se preservados, contariam um pouco da verdadeira história do Brasil”.34

Hamilton Reis, que foi mensageiro, operador de áudio, locutor e fez de tudo um pouco, relembra o descaso com o arquivo sonoro da emissora: “Veio aquele negócio, isso não presta! É coisa velha! E muita coisa aí se foi. Tinha um acervo de 78 rotações (…) Eu vi, uma ocasião, um sujeito mandar dispor de um material que eram gravações únicas, ao vivo! -“Isso é velharia, não se usa mais! Não tem valor”. – “Não, rapaz, isso tem! Isso aqui é uma audição pública e ninguém vai repetir isso, se teve erro, se não teve erro, ninguém vai repetir!”. Mandaram doar (...)”.35

A Rádio MEC já teve várias orquestras como a sinfônica, de câmera, de sopros e a afro-brasileira; um quarteto vocal e outro de cordas; um conjunto de música antiga; um coral; um trio; vários duos; e um fabuloso quadro de solistas com maestros, que eram a nata musical do Brasil.36 A emissora transmitia, ao vivo, e, paralelamente, gravava as apresentações feitas, não só em seu estúdio Sinfônico, o único existente no país com uma mesa de 56 canais, como as do Teatro Municipal e da Sala Cecília Meireles.

Em 1974, quando o Brigadeiro Armando Troya era diretor, a prática mudou um pouco e, ao invés de se apagar tudo, passava-se o material da fita rolo para fita cassete, com inevitável perda de qualidade de som. Segundo o produtor Lauro Gomes, “eram gravações raríssimas, muitas se perderam (...) Agora, só existe cópia em cassete. Como isso aconteceu? Eu não sei. Sabe-se da penúria que era a rádio naquela época, a gente nem tinha fita pra gravar os novos programas. Então, me chamavam para saber se podia apagar tal ou qual programa (...)”. 37

Foi também no tempo do Brigadeiro Troya, que acabaram com a preciosa Biblioteca da Rádio MEC. A concertista, redatora e diretora de vários programas musicais, Geny Marcondes se espantou naquele início da década de 1970 e ironiza: “Um dia eu cheguei, entrei na Biblioteca: não havia Biblioteca! Uma biblioteca formidável que Fernando Tude de Souza havia formado, durante anos. Muitas obras, ele trouxe da Europa. Era o nosso manancial. Eu perguntei: E os livros? Explicaram, indiferentemente, como se aquilo fosse lixo, que foi tudo para a torre, lá na Penha. Inclusive coleções inestimáveis, de gravações que recebíamos do mundo todo. Em troca dessas velharias, tivemos novas salas, luxuosamente acarpetadas, e funcionários tão eficientes que corrigiam até Carlos Drummond de Andrade”. 38

Geny Marcondes lembra que Drummond ficava “danado” quando escrevia uma crônica e a modificavam: “Ele tinha posto uma palavra, que eu não me lembro agora, não era uma palavra desconhecida – você não precisava do Aurélio para saber o que era –, uma palavra comum, mas que eles não conheciam, então eles trocaram a palavra”. O poeta entrou para a emissora como funcionário em 1961 com o Quadrante. Mas, antes, em 1953, participou, com Lia Cavalcante, do programa Temas com Variações. Drummond, que fora chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, presenciou a cerimônia oficial, no dia 7 de setembro de 1936, da entrega, por Edgar Roquette-Pinto, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, “estação pioneira”, ao ministério da Educação e Saúde, “poder público”, como relatou na crônica Acabaram de ouvir...39

Geny também sofreu com as “mudanças de palavras” durante a ditadura: “Fizeram uma coisa na rádio que nunca havia existido: botaram um grupo de jovens para criticar nossos programas! Para modificar! Eu me lembro que fiz um programa sobre música e tinha uma palavra, que era uma palavra comum, e eles cortaram essa palavra!”.40



Sala de censura

Os “jovens que mudavam as palavras” eram censores que se instalavam nas emissoras de rádio com o objetivo de calar os microfones da democracia. Segundo o jornalista Alberto Dines a censura foi sutil de 1964 até o fim do governo do presidente Castello Branco. Era uma “censura branca que aproveitava a estrutura autoritária e paternalista da imprensa”.41 No entanto, em 13 de dezembro de 1968, após a leitura do Ato Institucional – número 5, no programa radiofônico Voz do Brasil, a censura no país foi oficializada com o golpe dentro do golpe. Esta censura se materializou a partir da presença de militares em salas, reservadas ou não, dentro da sede de todos os meios de comunicação. Os meios eletrônicos, como o rádio e a TV, foram os mais visados por atingirem um público maior e por serem concessões do governo.

A Rádio MEC também teve uma sala de censura. “Tinha uma sala com três oficiais do exército, três coronéis(...) A rádio oficial do governo, que pertencia ao Ministério da Educação, não podia ter “senões”, mas os milicos estavam lá...”, declara indignado o compositor e pianista, Aloysio de Alencar Pinto, que trabalhou 18 anos na emissora.42

Alberto Shatovsky escreveu e apresentou, durante 33 anos, Falando de Cinema na Rádio MEC e recorda da “misteriosa área reservada": “andavam caçando, na rádio, quem tivesse mencionado o nome de Pasolini (...) Acontece que eu não havia feito nenhuma alusão ao grande cineasta, por sinal, um comunista confesso, daí o interesse dos censores. Mostrei os meus últimos textos a um militar da área reservada e ele, nada encontrando, continuou procurando o autor da citação (...)”.43

O produtor Renato Rocha confirma: “Eu cheguei a pegar o tempo em que havia um censor na rádio. Ele era meio ressabiado, pois sabia como era visto por nós. (...) Pelo menos até 1981, 1982, não se podia programar músicas de Geraldo Vandré, Chico Buarque e Vinicius de Morais. No governo (do presidente José) Sarney, o único tabu era falar em energia nuclear: Angra, essas coisas”. 44

Marlene Blois, pioneira do Projeto Minerva, produtora e apresentadora de Educação em Debate, entre outros programas, afirma que havia censura até nos roteiros do Minerva, que eram feitos na Rádio MEC: “Os infelizes liam, principalmente, os roteiros das aulas de história, de educação moral e cívica (...) nos acompanhavam, muitas vezes, aos encontros com monitores. E nada ia gravar sem passar pela censura – os nossos scripts tinham que passar por esta sala”.45

Outra estratégia utilizada era simplesmente tirar os programas do ar e reprisar outros por “ordens de Brasília”, como ocorreu uma vez com Música e Músicos do Brasil. Isso porque “poderiam pensar que alguém estava fazendo brincadeiras com música, que estava errando tudo, então mandaram tirar...”.46 O programa era com Jorge Antunes, diretor do laboratório de música eletrônica da Universidade de Brasília, que fazia experiências de vanguarda.

Geny Marcondes denuncia uma outra forma de intimidação comum naquela época: “quando mudou a política, me consideraram uma pessoa de esquerda – embora eu nunca fosse comunista. Nunca fui. (...) De repente, perdi meu lugar de redatora. Um dia cheguei na rádio, fui sentar à minha mesa e levei um susto, porque todas as coisas de minhas gavetas estavam no chão! Alguém tinha tomado conta da minha mesa, e, inclusive, sumiram livros importantes, meus, trazidos de Nova York, livros caríssimos sobre História da Música, sobre Música Moderna (...) Eu não tinha mais mesa para escrever! (...) O meu adeus à PRA - 2 foi melancólico”. 47

Para Sergio Cabral foi adotada uma “espécie de filosofia da mediocridade, colocada em moda pelo regime ditatorial no Brasil”.48 Pelos depoimentos de ex-funcionários da emissora, pode-se notar que, ao cortar palavras, vetar nomes, impedir a apresentação de músicas, a censura teve como meta instaurar o obscurantismo numa rádio que tinha um compromisso explícito com a educação e a cultura. O jornalismo político nunca foi a marca da Rádio MEC.

Como afirmou Demichel, numa ditadura “não existe nenhuma autonomia dos aparelhos ideológicos, que não são nada mais que ramificações, entre outras, de um mesmo sistema, cuja finalidade é única: o monolitismo doutrinal da informação”.49 Já Arendt defendeu que a “força da propaganda totalitária, ao fazer cair uma cortina de ferro para impedir quem quer que seja de perturbar a tranqüilidade de um mundo imaginário, repousa sobre sua capacidade de isolar as massas do mundo real”. 50 Marconi considerou que foi a “criação de um mundo totalmente fictício, para concorrer com uma realidade palpável e desagradável, que levou os militares brasileiros a estabelecer, principalmente a partir de 1968, uma violenta censura política às informações”.51

Na década de 1970, a autocensura já predominava. Mesmo assim, a polícia federal ainda assumia o encargo da censura aos meios de comunicação. Todas as emissoras de rádio eram obrigadas a guardar por 30 dias as fitas rolo, com toda a programação que havia sido veiculada. Era a institucionalização da fita “dedo-duro”. Os roteiros escritos também ficavam a disposição do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), além dos censores que ainda estavam de plantão nas emissoras, acompanhando a transmissão de toda a programação.

Depois de 1975, o governo militar descobriu que poderia controlar a mídia através de pressões econômicas e não precisaria mais censurá-la, pois a maioria dos meios de comunicação dependia, e depende até hoje, de verbas publicitárias oficiais. Além disso, a vitória, nas eleições de 1975, do MDB, único partido de oposição na época, demonstrou o descontentamento da população com o cerceamento da liberdade de expressão. A “distensão lenta, gradual e segura” começou a ser esboçada. Foi a época em que o assassinato do jornalista Vladimir Herzog chocou a opinião pública. Em 1978, a censura prévia foi abolida nos três últimos periódicos impressos sobre os quais ela ainda atuava: Tribuna da Imprensa, Movimento e O São Paulo. As emissoras de rádio e Tv, no entanto, ainda sofreram interferências até a década de 1980.

A partir de então a estratégia de controle do governo se materializou em pressões econômicas. Essa estratégia se traduziu em várias ações, por exemplo, em relação à Rádio MEC, que trouxeram como conseqüência a sua descaracterização enquanto emissora educativa e cultural, com tentativas de popularização que não deram certo; sucateamento de equipamentos que não eram renovados; demissão ou transferência de funcionários, como os integrantes da Orquestra Sinfônica Nacional que passaram para a Universidade Federal Fluminense, em 1984.

O esvaziamento financeiro foi, aos poucos, produzindo efeitos devastadores, pois sem recursos não é possível nem mesmo comprar fitas para gravação. E, assim, as condições adversas que foram sendo criadas dificultaram a manutenção da qualidade da produção radiofônica. No entanto, alguns funcionários - que nunca esqueceram “o puro sonho e as líricas maluquices de alguns homens que amavam sua terra e queriam servir a seu povo”52 - motivados pelos ideais de Roquette-Pinto, pelo orgulho de ter como “segunda casa” uma emissora de referência cultural, foram, na medida do possível, contribuindo para a sobrevivência da Rádio MEC.

Foi uma resistência silenciosa que, apesar de toda a adversidade e da redução da audiência e dos recursos, fez com que a emissora não sumisse do dial. Curiosamente, a rádio que nasceu como Sociedade do Rio de Janeiro - numa associação de acadêmicos, cientistas, professores, músicos, poetas e escritores - hoje, 70 anos depois de ter sido doada para o Ministério da Educação, tem uma Sociedade de Amigos Ouvintes – SOARMEC– que zela por sua memória. O material sonoro, precariamente preservado, está sendo recuperado num abnegado e persistente trabalho da SOARMEC, através do lançamento de CDs. Outra iniciativa louvável é a publicação do Amigo Ouvinte, jornal que traz, entre outros assuntos, entrevistas de ex-funcionários de forma a contribuir para a reconstituição do percurso da emissora.

Uma emissora que teve sua trajetória desvirtuada do que pregara seu fundador. Depois da extinção do Serviço de Radiodifusão Educativa, a Rádio MEC foi administrada pela Funtevê, que, em 1985, virou Fundação Roquette-Pinto (FRP). Em 1995, a Fundação Roquette-Pinto foi transferida do Ministério da Educação para a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, contrariando o acordo feito em 1936. Em 1997, através de Medida Provisória, o presidente Fernando Henrique Cardoso extinguiu a FRP e a transformou em Organização Social – a Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto (ACERP). Em 1999, o setor educativo da emissora fechou definitivamente.

Hoje, os funcionários, que sobreviveram aos desvios e aos declínios sofridos pela emissora, rediscutem seu destino na esperança de criar alternativas para sua recuperação. Como diria o “pai do rádio”: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil”, só se pode desejar que a Rádio MEC sobreviva por muito mais tempo.
Bibliografia:

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____________________________________, O Amigo Ouvinte. Rio de Janeiro: SOARMEC, n. 1, janeiro de 1993.


1 Trabalho apresentado para o GT – História da Mídia Sonora, do IV Encontro da Rede Alfredo de Carvalho, em São Luiz, no Maranhão.

2 Jornalista e Professora das Disciplinas de Rádio da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Comunicação, Imagem e Informação (UFF). Coordenadora do Grupo de Trabalho – História da Mídia Sonora da Rede Alfredo de Carvalho para a preservação da memória da imprensa. Organizadora do livro Vargas, agosto de 54: a história contada pelas ondas do rádio, Ed. Garamond, 2004.

3 Maio de 1964.

4 Idem.

5 Jornal Última Hora, abril de 1964.

6 A lista foi entregue ao presidente da Comissão de Investigação da Universidade do Brasil, general Arcy da Rocha Nóbrega. Em 1969, o presidente Costa e Silva cassou e aposentou, por decreto, os 44 professores da lista feita por Eremildo Vianna, em O Globo, 11/08/1998.

7 Jornal O Globo, 11/08/1998, p.17 e O Amigo Ouvinte, n. 22, setembro de 1998.

8 Jornal Última Hora, maio de 1964.

9 Entrevista à jornalista Erika Franziska Werneck, O Amigo Ouvinte, n.19, outubro de 1997.

10 Idem.

11 O Globo, 11/08/1998, p.17.

12 Aquino (1999) define a concepção de Estado autoritário para o regime militar pós-64, no Brasil, a partir da página 208.

13 Última Hora, novembro de 1964.

14 2005, p.165 até 175.

15 Mário Lago, Na rolança do tempo, p.233-4, citado em Saroldi, 2005, p. 171.

16 2005, p.174.

17 Revista do Rádio, n 765, 16 de maio de 1964, p.6 e 7, citada em Saroldi, 2005, p.174.

18 Saroldi, 2005, p.172.

19 Moreira, 1998, p.66 e 69.

20 Aquino, 1999, p.205.

21 Revista 60 anos de Rádio MEC, 1996, p.15.

22 1998, p.31 a 33.

23 1997, p.25.a 38.

24 Moreira, 1991, p.18.

25 Revista especial dos 60 anos de Rádio MEC, 1996, p.14.

26 Revista da Rádio Ministério da Educação, 1956, p.7, citada em Cadernos da Comunicação n.6, p.50.

27 Correio da Manhã, 7/ 9/1961.

28 O Amigo Ouvinte, n.19, outubro de 1997, p.8.

29 Idem.

30 O Globo, 14/08/1998.

31 O Amigo Ouvinte, número 8, setembro de 1994.

32 O Amigo Ouvinte, número 24, abril de 1999, p.7.

33 Baumworcel, 1999, p.93.

34 O Amigo Ouvinte, número 16, janeiro de 1997.

35 O Amigo Ouvinte, n. 32, dezembro de 1999.

36 Revista especial dos 60 anos da Rádio MEC, 1996.

37 O Amigo Ouvinte, número 35, abril de 2002.

38 O Amigo Ouvinte, n. 15, setembro de 1996.

39 Correio da Manhã, 1961.

40 O Amigo Ouvinte, n.15, setembro de 1996.

41 Marconi, 1980.

42 O Amigo Ouvinte, n.27, dezembro de 1999.


43O Amigo Ouvinte, n 12, dezembro de 1995.

44 O Amigo Ouvinte, n. 40, dezembro de 2005.

45 O Amigo Ouvinte, n. 38, dezembro de 2004.

46 O Amigo Ouvinte, n.15, setembro de 1996.

47 Idem.

48 O Amigo Ouvinte, n.1, janeiro de 1993.

49 Marconi, 1980.

50 Hannah Arendt citada em Marconi, 1980.

51 Marconi, 1980.

52 Como Carlos Drummond de Andrade definiu os ideais de Roquette-Pinto, Crônica Acabaram de ouvir.., Correio da Manhã, em 7/9/1961.

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