A centralidade do Verbo



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A centralidade do Verbo

A Gramática Tradicional caracteriza-se pela apresentação de um modelo lingüístico a ser seguido, que se assenta na reiteração da definição da arte de falar e escrever corretamente. As regras da sintaxe são obtidas através da análise de textos literários de escritores consagrados, ou seja, as formas segundo as quais os escritores combinam e organizam os enunciados de seus textos.

No modelo Estruturalista, o que teremos é a descrição de uma língua com base na depreensão de sua estrutura e a explicação das relações que os elementos estabelecem entre si. Na sintaxe, as regras obtidas consideram as diferentes modalidades e variedades dessa língua, buscando princípios gerais que determinam as relações sintáticas em qualquer enunciado.

O estudo empreendido no texto “Abordagem Sintático-Semântica da Oração com base na Estrutura Argumental”, centra esforços no princípio da centralidade do Verbo, ou seja, é a partir do verbo, o predicador, que se estrutura uma oração. Essa Gramática de Valência, ou Gramática de Casos vem complementar os modelos anteriores, uma vez que a definição de sintaxe, embora distinta, vem associada aos valores semânticos das palavras dentro da oração.

Para Tesnière, há nas frases uma relação de hierarquia e dependência, desconsidera-se a estrutura binária (sujeito/predicado) equiparando o sujeito aos complementos do verbo. A valência do verbo é obtida através do número de actantes, ou argumentos obrigatórios, que o verbo mantém sob sua dependência, são os “lugares-virtuais” que o verbo exige para se estruturar uma oração. Além dos actantes, há também os circunstantes, que funcionam como elementos livres dispensáveis para o entendimento da oração.

Os principais casos semânticos indispensáveis para a complementação verbal dentro da oração são:



Agente: é o responsável pela ação verbal, isto é, é ele quem a realiza.

Exemplos:



O homem afiou a faca.

A ave comeu o alpiste.

O agente é animado, causador, volitivo (tem a intenção de agir) e possui controle sobre a ação.



Paciente: recebe a ação verbal ou sofre os resultados de um processo. Encontra-se na condição de afetado.

Exemplos:

A criança quebrou o vaso.

O gelo derreteu-se.

Receptivo ou Destinatário: a quem se destina a ação verbal.

Exemplos:

O menino chamou o cachorro.

A menina recebeu uma carta.

Beneficiário: o que se beneficia ou é afetado pela ação ou processo.

Exemplos:



João ganhou um presente.

João colheu flores para a namorada.



Experimentador: ser animado afetado física ou psicologicamente por determinado processo.

Exemplos:

Quando caiu, a criança sentiu dor.

A flor murchou.

Causativo:é o responsável por uma ação ou processo. Caracteriza-se por ser não animado, potente para atuar sobre algo e não possui controle sobre a própria ação.

Exemplos:



O furacão arrancou as árvores do chão.

As árvores foram derrubadas pelo furacão.



Instrumental: é o desencadeador de uma ação. Caracteriza-se por ser controlado por um agente.

Exemplos:

Minha mãe abriu a porta com chave.

O trator destruiu a favela.

Objetivo: ponto de referência de uma ação ou de um estado. Caracteriza-se por sua neutralidade, isto é, não é afetado.

Exemplos:



Esta mesa é de madeira.

Ele olhava para a tela.



Origem: Ponto de origem de um processo.

Exemplos:



O vulcão jorrou ondas de lava.

Locativo: local onde se realiza a ação ou lugar de referência de um estado de coisas.

Exemplos:

Esta noite, estarei em casa.

Nas últimas férias, viajei ao Amapá.

Porto Alegre sediou o Fórum Social Mundial.

Note-se pelos exemplos que a função sintática Sujeito pode ter variadas funções semânticas.

A distinção entre função sintática e função semântica está evidente, pois a função sintática varia de acordo com a estrutura da oração, enquanto que a função semântica, não. Por exemplo: O menino pintou o vaso, temos a função sintática de sujeito, para “menino” e a classificação de agente, considerando-se a função semântica, enquanto que “o vaso” assume sintaticamente a função de objeto direto, e paciente se relevado a função semântica. Todavia, se passarmos esta oração para a passiva, O vaso foi pintado pelo menino, o “vaso” agora, exerce a função de sujeito, mas não deixa de ter o sentido de paciente na oração, e, “o menino”, classifica-se por agente da passiva, mas em sua função semântica, continua atuando por agente.

Tipologia verbal

Do ponto de vista lógico-semântico, os verbos podem representar uma visão dinâmica ou uma visão estática da realidade. A primeira indica ação, processo e ação-processo e a segunda, estado.

A gramática tradicional fala em verbo de estado (verbos de ligação), fenômeno (da natureza) e de ação (todos os restantes). Essa classificação é inadequada porque nem todos os verbos de ação pressupõem uma ação praticada pelo sujeito como, por exemplo, o verbo emagrecer.

1) Verbos de ação:

Indica um FAZER em relação ao sujeito. Esse sujeito é agentivo, um ser animado, tem controle sobre o ato e pode ser humano ou não-humano.

Ex. A criança brincava no parque.

O verbo de ação pode admitir complemento não-afetado, isto é, que não sofre alteração física ou psicológica, por exemplo, em:

“Hoje visitarei meus parentes”

A natureza do verbo vender não caracteriza alteração física nem psicológica no complemento.

2) Verbos de Processo:

Indica um ACONTECER. Alguma coisa que acontece com alguém. O sujeito, nesse caso, é afetado física ou psicologicamente e se apresenta como paciente ou experimentador.

Ex: Maria entristeceu-se hoje;



Chovia torrencialmente;

A enxurrada descia vagarosamente.

O verbo de processo pode construir-se seguido de um elemento indicativo da causa do processo.

Ex: O gelo derreteu com o calor.

3) Verbo de ação-processo:

Indica ao mesmo tempo uma ação e um processo. Um fazer por parte do sujeito e um acontecer em relação ao objeto. Se atribuirmos x ao sujeito e y ao objeto, faremos as seguintes perguntas: “Que fez x?” e “Que aconteceu a y?”.

Ex: João abriu a porta com a chave falsa;

A chave falsa abriu a porta;

O vento abriu a porta.

Sempre haverá um complemento afetado.

4) Verbo de estado:

Indica um SER/ESTAR/EXISTIR em relação ao sujeito. Esse tipo de verbo pode estabelecer uma relação entre uma entidade e um estado em que se encontre, indicar uma qualidade que lhe é atribuída ou um sentimento de que é dotada.

Ex: O vaso está quebrado;

Pedro é estudioso;

Maria ama João.

É importante ressaltar que uma mesma forma verbal pode funcionar como verbo estativo ou dinâmico. Em “A estrada vai de São Paulo a Campinas”, por exemplo, o verbo é estativo e tem um sentido de localizar-se. Já em “O rio vai para o mar”, o verbo apresenta dinamismo e é considerado de processo, porque algo acontece com o “rio”. Há ainda um terceiro caso em “Paulo vai a Campinas”, em que o verbo é dinâmico e de ação.



Valência Verbal

Na gramática tradicional, temos os verbos classificados em transitivos diretos/indiretos, aqueles que precisam de complementos, com ou sem preposição, e intransitivos, os que não necessitam de complementos, levando em consideraçã levando em consideraçlementos.inntos,retos/indiretos e intransitivos de acordo com o tipo de complemento exigido por esse verbo somente a análise sintática. A Valência abrange, pois, além do nível sintático, também o nível semântico.

Temos três tipos de valência verbal:

1) a valência quantitativa, que se refere ao número de argumentos, ou actantes exigidos pelo verbo, podendo ser classificados em avalente, bivalente, trivalente, tetravalente. No caso de Venta, o verbo é avalente, pois não exige nenhum complemento, já na oração Cátia trouxe o quadro de São Paulo ao Rio de Janeiro, o verbo será tetravalente.

2) a valência sintática, isto é, a descrição dos actantes de acordo com a relação sintática dos elementos que constituem os argumentos, com o verbo, como por exemplo, o verbo fechar, que necessita de um sintagma nominal com a função de sujeito, e um outro sintagma nominal com a função de objeto. Marcos abriu a porta;

3) valência semântica, que caracterizam os argumentos verbais de acordo com o papel semântico que exerce dentro da oração, assim sendo, o verbo fechar, exigiria um agente (com traços de humano, animado, controlador) e um paciente (um afetado pela ação).



Tipologia Oracional

As orações classificam-se de acordo com o sentido que o verbo assume na oração, assim elas podem ser dinâmicas ou estáticas.

As orações dinâmicas se subdividem em três tipos:

1) Ativas: pressupõem um verbo de ação, com um sujeito agente, como em: O homem trabalha. As orações ativas podem apresentar um Complemento Especificador ou um Objetivo. Em Petrolínia canta sambas e Cremilda só pensa no samba, temos, respectivamente, complemento especificador e objetivo.

2) Processivas: organiza-se a partir de um verbo de processo, selecionando um sujeito - paciente experimentador ou objetivo e um complemento causativo ou instrumental.

Em O gelo derreteu verifica-se um sujeito paciente e em Maria entristeceu temos um sujeito experimentador.

3) Ativo-Processivas: organizam-se a partir de um verbo que indica ao mesmo tempo um FAZER por parte do Sujeito e um ACONTECER por parte do Objeto, ou seja, um verbo de ação-processo. Assim, temos Objeto, sendo Paciente, caracteriza-se por ser afetado, seja ela física ou psicologicamente, pela ação verbal. Esse tipo de frase se constrói com Sujeito Agente, Causativo ou Instrumental, e com Complemento Objetivo ou Experimentador.

Como exemplos de Sujeito Agente, Instrumental e Causativo têm, respectivamente: Maria abriu a porta; A chave abriu a porta e O vento abriu a porta.

As orações estatísticas subdividem-se em quatro grandes grupos:

1) Atributivas: O verbo estabelece uma relação de atribuição de um estado ou de uma qualidade ao Sujeito, ou ainda pode relacionar o Sujeito com um atributo de natureza quantitativa. Normalmente o Sujeito se caracteriza como Objeto, mas pode ser ainda Experimentador, com verbos que indicam sentimentos ou estado de alma. O Complemento pode ser Atributivo ou Objetivo.

Como exemplo de oração estatística atributiva e sujeito objetivo têm: João é inteligente; Josefa pesa 80 quilos e O rapaz media 2 metros.

2) Possessivas: O verbo estabelece uma relação de posse entre o Sujeito e o complemento. O Sujeito pode ser Objetivo-Possessivo e o Complemento é Objetivo.

Ex: Fernando tem um carro.

3) Locativas: Há uma indicação de lugar em relação ao Sujeito ou ao Complemento, caracterizando-se como Locativo ou como Objetivo.

Ex: Um lago cercava a casa e Brasília fica num planalto. Na primeira frase temos um sujeito objetivo e na segunda um locativo.

4) Existenciais: Há indicação de existência do Sujeito, que sempre é Objetivo e o Complemento é Locativo.As orações construídas com o verbo “ haver” no sentido de “ existir”, ou seja, orações sem Sujeito também são existenciais.

Ex: Fantasmas não existem e Há grampos no telefone. Na primeira o sujeito é objetivo e na segunda não existe sujeito.

Vale lembrar que os Argumentos e os Circunstantes também se realizam na forma oracional. As orações subordinadas substantivas (ou completivas) fazem parte da estrutura nuclear do verbo, incluindo-se, então, na categoria de Argumentos, fazendo parte da valência verbal. Já as orações subordinadas adverbiais apresentam um caráter extra nuclear, sendo, portanto, adjuntos. Excetuam-se, neste caso, as orações subordinadas adverbais locativas. As orações subordinadas adjetivas, como sendo atributos de um nome expresso na oração principal, não fazem parte da estrutura argumental do verbo.








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