A chave da Sabedoria Fernando Faria Índice analítico



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6. A evolução III

Tio Marcos, em pé meditando bem junto à janela da saleta do quarto das meninas, contemplava as estrelas quando falou:

Hoje, encerraremos esse importante capítulo que trata da Evolução.



Depois, sentando-se á mesa, continuou ...

Vocês já compreenderam que, durante a evolução dos seres unicelulares até aos diferentes seres multicelulares, com os quais convivemos em nosso ambiente, passaram-se bilhões de anos.

As primeiras idéias de como surgiu a grande variedade de seres vivos existentes no planeta são de Aristóteles, em 350 a.C., na Grécia, pela hipótese da geração espontânea. Nesta hipótese, Aristóteles dizia que os seres teriam surgido a partir da matéria bruta.

Durante quase dezessete séculos, a hipótese da geração espontânea foi largamente defendida, chegando-se a acreditar que gansos, carneiros e outros animais pudessem originar-se de certas árvores que os produziam como frutos.

No final da Idade Média, Paracelso (1493-1541), tido como o pai da Medicina, e Van Helmont (1577-1644), médico e químico holandês, escreveram receitas para produzir espontaneamente ratos, sapos e tartarugas a partir de panos velhos, água, ar e madeira podre.

Os hebreus, povo semita instalado na Palestina entre 2000 e 1750 a.C., acreditavam que todos os seres tinham sido criados por um deus onipotente, de uma só vez e para sempre.

Até o século XVIII, quando a Ciência começou a admitir a possibilidade da evolução dos seres vivos, as espécies eram consideradas fixas e imutáveis.

A partir de então, foram publicados vários ensaios a respeito do passado histórico da Terra.

Em 1795, Hutton publicou um artigo no qual afirmava que os fenômenos na crosta do planeta eram gradativos e contínuos, e que as rochas e os solos se modificavam através do processo da erosão.

Mesmo aceitando que a Terra se modificava através dos tempos, ninguém acreditava que tivesse havido qualquer transformação nas plantas e animais. Entretanto, Erasmos Darwin (1731-1802), avô de Charles Darwin, publicou no fim do século XVIII um tratado, no qual afirmava a crença na evolução das espécies. Não formulou, porém, qualquer hipótese sobre a natureza dessa evolução.

A partir do século XIX, os cientistas começaram a reconhecer a utilidade do estudo de animais e plantas fossilizados, encontrados nas escavações, para se identificar as camadas geológicas.

Com esses estudos, muitas informações sobre as características animais e vegetais foram acrescentadas às já existentes. Porém, a grande maioria das espécies descritas pelos geólogos já não existia mais, estava extinta há milhares de anos.

Começou então a germinar a idéia da sucessão dos seres vivos, através dos tempos, mas nenhuma hipótese evolucionista consistente foi levantada. Eu, respondendo a uma pergunta da Fernanda, já falei em Lamarck. Repetindo: o primeiro cientista a elaborar uma teoria para explicar a evolução dos seres vivos foi o francês Jean Baptiste Lamarck. Esse notável sábio teve o grande mérito de anunciar, claramente e pela primeira vez, a noção de evolução, criando uma teoria que explicava a evolução dos seres vivos pela influência das variações do meio sobre o comportamento dos órgãos.

Coube a Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês, estabelecer a grande teoria da evolução das espécies, por seleção natural e pela sobrevivência do mais apto.

Após o término de uma viagem que fez ao redor do mundo, iniciada em 1831 e terminada em 1837, passou vinte anos estudando os dados coletados, para confirmar a ocorrência de variações nas espécies. Afirmou que “as espécies, ao contrário da crença quase universal, não são estáticas e imutáveis, mas se modificam através de longos períodos de tempo, pela Seleção Natural, permanecendo vivo o mais apto”.

O biólogo alemão August Weismann (1834-1914) desenvolveu a Teoria da Hereditariedade, a partir de estudos de Darwin e chegou a uma visão aproximada da atual Teoria Cromossômica. Por volta de 1890, estabeleceu a distinção entre as células do corpo (células somáticas) e as células germinativas. Concluiu que somente as células germinativas transmitiam as qualidades do ser. Os caracteres adquiridos não se transmitem. Como eu já disse, fizeram experiências cortando rabos de rato de centenas de gerações em laboratório e, mesmo assim, sempre continuaram nascendo ratos com rabo.

O abade austríaco Mendel (1822-1884) descobriu as Leis da Hereditariedade.

Em 1901, o holandês De Vries, baseando-se nas pesquisas de Mendel, lançou a Teoria das Mutações. Mutação é uma modificação brusca e hereditária que aparece nos seres vivos, dando origem a novas espécies.

O cientista De Vries, divulgando a noção de mutação, isto é, dizendo que há uma modificação na informação genética situada nos genes dos cromossomos, os quais se encontram nos núcleos das células, explicou que a genética elabora, nas células, um registro estatístico, inexorável, que conduz as espécies a adaptações ao meio, com uma perfeição estupenda. Por exemplo: os mamíferos desenvolveram mecanismos orgânicos de termorregulação da temperatura do sangue, mantendo-o a 37,5°C, qualquer que seja a temperatura externa do ambiente em que eles vivem.

Essa capacidade de termorregulação dos mamíferos foi o que proporcionou a esses animais a supremacia sobre as demais espécies, durante os períodos de glaciação da Terra, muitas das quais desapareceram por não possuir essa capacidade.

Tio Marcos, eu não entendi ainda como surgiu a vida em nosso planeta! - falou curioso Serginho.

Há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, surgiram os primeiros seres vivos neste planeta. Eram seres simples, unicelulares, isto é, formados por uma única célula.

A atmosfera primitiva da Terra continha, nas proporções adequadas, moléculas de carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. Essas mesmas moléculas constituem hoje 95 % da composição dos corpos de todos os seres vivos.

No início da Terra, chovia torrencialmente.

Os intermináveis aguaceiros escorriam das montanhas e rochas, e muitas substâncias químicas que existiam nelas foram carregadas para os oceanos de águas mornas. Na água, algumas destas substâncias combinaram-se com outras. Uma delas era muito abundante, o carbono (C), que se combinou com diversas outras substâncias, de maneiras diferentes. Formaram-se, então, pequeninos glóbulos que se comportavam distintamente. Eles se dividiam em duas partes iguais, e cada parte se combinava com substâncias diferentes, de maneira a se dividir novamente em outras duas partes idênticas. Dessas combinações originaram-se muitas outras substâncias químicas e pequenas plantas verdes que tinham um poder especial: usavam a luz do sol para fabricar compostos que chamamos de amido e açúcar. Desta forma, surge o alimento no mundo. Nós chamamos essa substância verde das plantas de clorofila e os glóbulos unicelulares, que se alimentam de amido e açúcar, de protistas, divididos em protófitos e protozoários.

Estes pequenos animais e plantas desenvolveram-se pouco a pouco, até formar todas as espécies de plantas e animais que existem atualmente. Esta mudança gradativa recebeu o nome de evolução.

Ninguém sabe se, de fato, foi isso mesmo que aconteceu. Os cientistas continuam estudando indícios e elaborando hipóteses para contar como tudo se passou. E todos eles concordam num ponto: tudo ocorreu muito lentamente e a luz do sol teria sido o fator preponderante para facilitar todas essas combinações de substâncias químicas.

Já o Sr. Racional ensina que, mal cessavam os terremotos, maremotos e as intensas erupções vulcânicas, a Terra, qual imensa fornalha, possuía condições químicas, minerais e energia (luz, calor e outras radiações vindas do sol) para poder receber o Princípio da Inteligência Universal, permitindo que ele, manifestando-se na matéria, desse origem às grandes populações de seres unicelulares, como o vírus, a monera, o protista e o fungo.

Desde então, pela reprodução assexuada, isto é, sem o uso de órgãos sexuais, as células primitivas dariam origem ao reino vegetal.

Portanto, o Princípio Inteligente, partindo dos vírus e passando por espécies cada vez mais adiantadas, bactérias, amebas, algas e vegetais, adquiriu condições para manifestar-se, mais tarde, nas espécies animais, esboçando uma estrutura esquelética.

Depois, animando outra série de espécies, desenvolveu, durante milênios, o sistema vascular e o sistema nervoso.

Segundo nos informa o Sr. Racional, o Princípio Inteligente, desenvolvendo um corpo físico, nos reinos vegetal e animal, desenvolveu também, simultaneamente, um corpo astral e um corpo mental, muito rudimentares, ficando cada partícula, então, materializada, constituída por três corpos: o mental, o astral e o físico.

O corpo mental é a sede do ser, de onde derivam seus objetivos e a grande necessidade de existir. É a sede do instinto e do pensamento.

O corpo astral funciona como um molde que preside a formação e a ligação do corpo mental com o corpo físico. É a sede das sensações.

O corpo físico é a sede onde o ser se manifesta materializado.

Os orientais fazem desse conjunto de corpos a seguinte analogia: um cavalo puxando uma carruagem, conduzido por um cocheiro.

O cavalo seria o corpo astral; a carruagem, o corpo físico, e o cocheiro seria o espírito.

Quando o corpo físico morre, isto é, a carruagem quebra, o cocheiro (espírito) monta no cavalo (corpo astral) e parte para o seu mundo, rumo às regiões a que pertence.



Tio Marcos interrompeu, para que todos tomassem café com bolinhos que tia Zinha havia preparado, e em seguida continuou a aula.

Todo o desenvolvimento do corpo físico, compreendendo os órgãos, foi elaborado com lentidão, atendendo às necessidades dos corpos mental e astral, os quais tiveram que aprender a adaptar-se ao meio ambiente, desenvolvendo, primeiramente, os sentidos, da seguinte forma:

1. Tato: foi criado quando a Partícula Inteligente passou pelas espécies unicelulares, habitantes das águas e da terra úmida.

2. Visão: principiou nos organismos unicelulares pela sensibilização do protoplasma, isto é, citoplasma e núcleo, desses seres expostos ao clarão solar.

3. Olfato: começou nos animais aquáticos, de expressão mais simples, por estímulo do ambiente em que evoluíam.

4. Paladar: surgiu nos vegetais, muitos deles armados de pêlos viscosos destilando sucos digestivos.

5. Sexo: formou-se nas algas marinhas, providas de células masculinas e femininas, as quais nadam atraídas umas para as outras.

Tio Marcos, o que são elos perdidos na cadeia evolutiva ? - perguntou Boris.

Na Geologia e na Antropologia, são alguns fósseis que estão faltando para completar o estudo da evolução dos seres. À medida que se ampliam os estudos das cadeias evolutivas dos seres vivos e se aprofundam as investigações dos fósseis, continuamente os cientistas encontram restos fósseis que estabelecem elos entre um animal ou planta atuais e seres que existiram há milhões de anos. O melhor exemplo talvez seja o cavalo. Com os dados geológicos que possuímos, pudemos acompanhar o desenvolvimento do cavalo moderno, a partir de um cavalinho do tamanho aproximado de um cão e que tinha três dedos nas patas. Pudemos estudar o desaparecimento de dois desses dedos, até se formarem os ossos característicos das patas do cavalo atual. O animal primitivo, do tamanho do cão, é ou era algo que poderíamos chamar de cavalo, mas como era diferente do cavalo de hoje! Os fósseis nos deram também os elos perdidos da cadeia evolutiva entre os répteis e as aves e entre o elefante atual e os seus antepassados de há 30 milhões de anos.

Tio Marcos, o que é recapitulação dos embriões? - perguntou Serginho.

Gostei da pergunta porque a respectiva resposta completa o assunto que estamos tratando.

Se acompanharmos o desenvolvimento dos animais da atualidade, a partir do óvulo fecundado até o nascimento, veremos que as fases embrionárias de todos eles são muito semelhantes umas às outras. Os embriões do gato, da galinha e da cobra, em seu período inicial, são tão semelhantes que dificilmente saberíamos distingui-los. Além disso, o coração, as artérias principais e as regiões do pescoço obedecem ao mesmo plano de construção que se vê nos peixes. O coração do embrião de gato não é dividido em quatro câmaras, mas é igual ao coração de um peixe; e o pescoço tem fendas branquiais, o que nos conduz à recapitulação. O embrião recapitula, embora não completamente, a sua história ancestral. Um embrião de mamífero parece peixe, em certa fase de sua história. Só mais tarde é que se diferencia em verdadeiro mamífero. Donde se conclui que animais e plantas derivaram de um tronco comum, no obscuro passado geológico.

Tio Marcos, nisso tudo, como se desenvolveu a consciência? - perguntou Marquinho que, repetimos, adorava Biologia.

A Partícula da Inteligência Universal, na ocasião em que estava evoluindo no reino mineral, aprendeu, quando estava sujeita às leis de formação dos cristais, o que era atração e o que era afinidade. Passando para o reino vegetal, desenvolveu a sensação. Terminada esta fase, passou para o reino animal, onde através do instinto natural começou a desenvolver a sensibilidade e a inteligência, transformando gradativamente toda a atividade nervosa em vida psíquica.

A Ciência Espírita explica que, durante as fases em que as Partículas da Inteligência Universal vivenciaram a afinidade no mineral, a sensação no vegetal e o instinto no animal, ocorreu o crescimento da consciência da criatura, transformando toda a atividade nervosa em pensamento contínuo, em vida psíquica, formando um corpo mental.

O Sr. Racional diz que as Partículas da Inteligência Universal que, em obediência às leis naturais e imutáveis, animam e movimentam os diversos reinos da natureza, estabelecem a vida em todos os seres, a qual se inicia na pedra, indo para os metais, depois para os vegetais, os animais e o homem, seguindo em constante ascensão para a luz, para a sua fonte de origem, que é o Grande Foco, incitador de tudo que existe.

Assim, vão essas partículas passando por todos os corpos dos reinos da natureza em evolução, em constante purificação, e assim cada vez mais, aumentando sua luz, sua força, para o cumprimento do dever, que é confundir-se com a Grande Luz, de onde partiram para este e outros planetas.

Desta forma, é claro que, quando essas partículas chegarem a organizar, incitar e movimentar corpos humanos, já realizaram grande progresso e fazem parte das forças de categoria verdadeiramente racional e, como tais, com inteira responsabilidade de seus atos e pensamentos que as fazem conduzir-se neste mundo como melhor lhes pareça, sem que para os seus atos reprováveis possa haver desculpas, considerações e muito menos perdão pela prática de atos que prejudiquem o próximo. Eles são, portanto, racionais, conseqüentemente responsáveis por tudo que possa acontecer de mau.

Vimos que os sentidos físicos como o tato, a visão, o paladar, o olfato e a audição foram desenvolvidos quando a Partícula da Inteligência Universal peregrinou pelos diferentes reinos da natureza. Em seguida, quando a criatura já se encontrava encarnada como homem, possuindo um corpo mental bem desenvolvido, através de inúmeras experiências, com ensaios e erros ao longo das vidas sucessivas, outros atributos foram também sendo desenvolvidos, como a razão de ser, o entendimento, a lógica, o juízo, o propósito, o objetivo e, por fim, já em estágio bem adiantado, a concentração e o pensamento. A criatura, tendo conquistado a capacidade de pensar, inicia o desenvolvimento dos atributos morais do espírito, os quais, quando vivenciados no dia-a-dia, proporcionam uma conduta cujo resultado é usufruir de uma felicidade relativa.

Os atributos morais do espírito são os seguintes: firmeza de caráter, honradez, equilíbrio mental, domínio de si mesmo, disciplina, percepção, concepção e capacidade de trabalho.

O Espírito, também através da sua peregrinação evolutiva, já com milhares de reencarnações, desenvolve também uma faculdade chamada mediunidade intuitiva, que seria uma espécie de sexto sentido, capaz de perceber o que aos outros escapa. A potência dessa mediunidade varia de indivíduo para indivíduo. Portanto, em nosso atual estado evolutivo, somos todos médiuns.

Para encerrar o assunto desta noite, vou comentar o que o Sr. Racional pensa sobre a evolução. Diz ele o seguinte: o homem surgiu neste mundo como resultado da evolução dos animais que o precederam. E, apesar do adiantamento atual do planeta, a marcha evolutiva nos três reinos da natureza (mineral, vegetal e animal) prossegue sem qualquer interrupção ou alteração. As condições para evoluir dos que iniciam agora o seu progresso em corpo humano são mais favoráveis ao seu desenvolvimento mental.

Embora essas criaturas, iniciando a sua marcha evolutiva, possam ser consideradas muito mais evoluídas que os animais, de onde se originaram, são ainda desprovidas de razão, sendo suas vidas muito mais orientadas pelo instinto.

Não é admissível que o “deus” que as seitas ensinam os povos semiletrados a adorar, sendo onipotente e soberanamente justo e bom, fosse criar um espírito mais atrasado do que outro e fizesse conscientemente o imbecil e o sábio, como justa maneira de proceder.

Desde quando foram escritos, há milhares de anos, até hoje, no Século das Luzes, os livros que compõem a Bíblia embevecem e atrofiam o raciocínio de milhões de espíritos adoradores. A revelação da vida, apresentada por este livro, é cheia de incoerências, absurdos e contradições, porque foram baseadas em sandices, intuídas por espíritos do Astral Inferior que se diziam profetas, atuando em médiuns confabuladores, desequilibrados, iguais a muitos que andam por aí, a explorar a crendice dos adoradores, de onde auferem grandes lucros, explorando a ingenuidade dos ignorantes.

A compreensão e o conhecimento das coisas são frutos da evolução do Espírito, e muitos dos que hoje estão encarnados já consideram a vida sob um aspecto que mais se aproxima da Verdade.

O desconhecimento da Lei da Evolução provoca na humanidade profundos desentendimentos, os quais geram muitas tragédias, muitos males, muitas desgraças, inclusive o ódio, as guerras, a miséria e a fome.

A humanidade, vítima do dogma da salvação, ensinado pelas religiões adoradoras, induz a criatura encarnada ao comodismo, que impede o trabalho, o esforço, a luta para evoluir e toma o progresso material como um mal, acreditando que poderão melhorar de vida com a proteção das supostas divindades, ou espíritos protetores, confiando na “graça” e nos “favores do céu” para saírem-se bem na vida.

Tio Marcos, como é pensar certo? - perguntou Marquinho.

Pensar certo é pensar com lógica, racional e coerentemente. Vou lhes dar um exemplo: numa sala de aula, o professor de português solicitou aos alunos que fizessem uma redação de vinte linhas sobre o que estavam vendo. E mostrou-lhes uma folha de papel com um ponto no centro.

Terminada a aula, o professor recolheu as composições e leu as mais diferentes colocações.

Um aluno tinha visto uma estrela brilhando no firmamento. Outro descreveu uma mosca morta no leite. Outro, um urso num campo de neve. Outro, um barquinho no mar e assim por diante. Somente um não era sonhador. Era racional e coerente, e escreveu o que estava vendo: “Uma folha de papel com um ponto negro pintado no centro”. Deu as dimensões aproximadas da folha, avaliou a espessura do papel e presumiu que o ponto estava no centro da folha.

Quando as situações da vida forem negativas, pensar certo é a melhor forma de reagir a esse estado. Nessas situações devemos modificar nossas ações, buscando um desempenho positivo.

Façam um esforço, se preciso for, consciente, deliberado para interpretar papéis positivos, criados por vocês mesmos, em suas mentes. Se preciso for, renunciem a algum objetivo ou vantagem material.

Também devemos ter paciência no relacionamento com o nosso próximo, sem sermos covardes nem irresponsáveis.

No início da minha carreira profissional na Petrobrás em Cubatão-SP, tive um chefe, Eng. San Giovanni, pessoa íntegra, de grande capacidade de trabalho e muito conciliadora.

Na primeira vez que entrei no seu gabinete, deparei com a fotografia de um sapo, enquadrado e pendurado na parede, atrás da sua mesa de trabalho, bem no alto. Era uma fotografia grande, colorida.

Depois de tratar com ele o assunto que me levara até lá, perguntei-lhe qual o significado daquele sapo. Ele sorriu e me respondeu:

 É a primeira. coisa que olho, quando aqui chego de manhã. E logo penso: quantos sapos engolirei hoje? E. em seguida, justificou essa sua atitude dizendo:

 As discussões estéreis não levam a nada e a troca de farpas e desaforos nos fazem muito mal. Os insultos nos envenenam a alma. Se tenho que corrigir alguém o faço com energia, porém respeitosamente, com educação, embora muitas vezes tenha vontade de sair aos gritos.

Por isso, caros sobrinhos, nas situações difíceis, somos nós que devemos controlar a evolução dos acontecimentos e não deixar que situações negativas nos controlem.

O Racionalismo Cristão ensina que, quando discutimos com alguém, nossa mente sintoniza-se com as mentes desencarnadas do Astral Inferior, atraindo falanges inteiras de espíritos galhofeiros, que se divertem com os desentendimentos e com as discussões e bate-bocas, sugando as energias anímicas dos contendores. Por isso, evitem as discussões.

Tio Marcos parou de falar, olhou para o seu relógio de pulso e disse:

Por hoje basta. Boa noite, moçada.



7. Raça I

As crianças, sentadas á mesa, tinham um ar cansado, pois trabalharam a tarde inteira, ajudando tia Zinha a fazer pamonhas.

Foram dois sacos de milho verde que Marquinho e Serginho descascaram.

Solange e Maria tiraram das espigas descascadas os estigmas, ou cabelos do milho, que eram guardados numa vasilha, para serem usados para fazer chá. Era um poderoso diurético. A Fernanda separava as palhas.

Boris e Silvinho ajudaram Severo a ralar as espigas descascadas e já sem cabelos, enquanto tia Zinha preparava as palhas de milho para embrulhar as pamonhas, atando-as depois com cordão de algodão, para não desmancharem durante o cozimento.

Dona Maria preparava o toucinho para ser derretido e, com a banha derretida e bem quente, escaldar a massa ralada e peneirada, para tirar o bagaço. O grande segredo de fazer a pamonha era adicionar essa gordura fervendo até o ponto certo, quando a massa não a absorvesse mais. Dona Maria era perita nesta arte. No final, sempre separava um pouco de massa para fazer pamonha doce, pois a pamonha goiana é salgada.

Dona Maria tinha colocado um tacho no fogão com água pela metade para ferver e cozinhar as pamonhas. Era a última operação do processo de fabricação, que terminava com o mutirão da limpeza.

Fazer pamonha era um ritual. No meio da lida, quantos “causos” surgiam! Todos tinham estórias para contar.

Tio Marcos, com as mãos apoiadas na borda da mesa, principiou ...

De hoje em diante, iremos falar dos povos que colonizaram o Brasil. É comum dizer-se que o brasileiro é o fruto da mistura de três raças: a branca, a negra e a vermelha. Mas não é bem assim, porque a palavra raça não dá idéia dos níveis evolutivos destes povos, isto é, da cultura que possuíam. Por isso perguntamos: que brancos, que negros e que índios formaram o povo brasileiro? Até 1822, ano da Independência do Brasil, os brancos que emigraram para o nosso país eram em sua quase totalidade portugueses. Eram brancos muito diferentes dos que colonizaram os Estados Unidos (ingleses) ou o Canadá (franceses). Do mesmo modo, os negros que vieram para cá não são os mesmos que foram para os Estados Unidos ou para a Jamaica ou para o Peru. E, por fim, os índios brasileiros são muito diferentes dos índios mexicanos, bolivianos, colombianos e dos Estados Unidos.



Quando se fala do encontro dessas três raças, é preciso lembrar as condições em que ele se deu: os brancos eram senhores, os negros eram escravos e os índios, povos conquistados. Mais do que as diferenças de pele, as condições desse encontro marcaram fortemente a sociedade brasileira. Hoje, as condições são outras, mas as raízes do passado ainda estão muito fortes.

Tio Marcos. por que existem gente branca, preta, amarela, etc? - perguntou Fernanda.

A pele que reveste o corpo humano é constituída por duas partes: a epiderme, que é a parte externa, a que enxergamos, e o derma, parte interna, sobre a qual se assenta a epiderme.

A epiderme é revestida por uma película transparente, incolor, permitindo ver-se as cores por baixo dela.

Logo abaixo dessa parte transparente, encontra-se uma camada especial de células que produzem uma substância marrom-escura, chamada melanina.

Agora vocês podem compreender por que algumas pessoas têm a pele mais escura do que as outras.

As pessoas de cor negra não têm uma quantidade maior de células produtoras de melanina, em comparação com a das pessoas de cor branca. A diferença é que as células das pessoas negras produzem mais melanina. Se as células produzem apenas um pouco de melanina, a pessoa terá uma pele muito branca, muito clara. Há uma anormalidade congênita chamada albinismo que se caracteriza pela ausência total ou parcial do pigmento da pele. São pessoas totalmente brancas, mesmo as de raça negra. Se o conjunto de células da pele não produzir melanina uniformemente, a pessoa terá uma pele manchada e será sardenta. Se cada célula produzir uma grande quantidade de melanina, a pele será marrom-escura, tão escura que realmente parecerá preta.

Os cientistas não sabem por que as células da pele se comportam desta maneira. Alguns naturalistas acham que a pele escura ajudou os povos antigos a viver bem na África, onde o sol é abrasador e há poucas nuvens.

Quando os homens se instalaram nas regiões situadas bem ao norte do planeta, em terras onde o tempo é freqüentemente nublado, com pouco sol, aqueles que tinham pele mais clara se adaptaram melhor. Gradativamente estes povos se tornaram pálidos. Sua pele, na atualidade, é quase branca, mas parece às vezes rosada, por causa do sangue, cujos vasos sangüíneos situam-se logo abaixo da epiderme.

Alguns povos do Oriente não são nem escuros, nem róseos. Sua pele tem coloração dourada. Esta cor vem de uma fina camada de gordura amarela, situada por baixo da camada que contém os vasos sangüíneos. A substância amarela que colore esta camada de gordura é chamada caroteno. É o mesmo corante da gema de ovo, da manteiga de leite, da cenoura, etc. Por que esses povos têm mais caroteno que os outros? Não sabemos, ainda.

Nós não devemos ter preconceito quanto à cor da pele dos outros.

Como espíritos que somos, devemos pensar: “Eu sou eu. Nesta encarnação estou habitando um corpo branco, ou preto, ou amarelo, ou vermelho, ou mestiço, masculino ou feminino”. Isso significa que o planeta Terra não é habitado por corpos, mas sim por “eus”, que simplesmente vivem encarnados em diferentes corpos. A essência do “eu” não é negra, nem branca, nem vermelha, nem amarela, nem mestiça, nem masculina, nem feminina. Ela apenas é. Nossa percepção, nosso “eu” não é masculino nem feminino. Não é branco, nem negro, nem de qualquer outra cor. Simplesmente é, e os corpos que habitamos são nossos trajes, nossas roupas para bem convivermos com as condições físicas do planeta Terra e para representarmos nossos papéis, durante nossas passagens pelo cenário do mundo em que vivemos. E não se esqueçam! Esses papéis nós mesmos o escolhemos antes de reencarnar, e todo sucesso ou insucesso que ocorrer no desempenho deles dependerá exclusivamente de nós próprios, através do uso que fizermos do nosso livre-arbítrio durante a vida.

Tio Marcos, está correto nós usarmos, em nossa conversação, as expressões “Graças a Deus”, “Se Deus quiser”, “Deus lhe pague”, “Tenho fé em Deus”, etc? - perguntou Serginho muito sério.

Está muito errado - respondeu tio Marcos. E continuou ...

Este costume de em nossas conversas estar-se louvando ou usando para tudo a figura de Deus é um condicionamento que o Catolicismo, usando no ritual da missa velas e incenso, hipnoticamente introjetou no inconsciente das beatas e das mais diferentes pessoas, geralmente pobres, ingênuas e semiletradas. Estas expressões são ditas pelos fanáticos que não sabem pensar. Não sabem usar o livre-arbítrio nem o raciocínio para resolver os seus problemas existenciais. Tornam-se mendigos da caridade divina, verdadeiros escravos psíquicos. As religiões transformam milhares de romeiros, devotos dos santos ou seguidores de seitas espíritas em verdadeiros aleijados mentais que precisam das muletas da proteção divina para resolver as suas dificuldades morais e financeiras. Não sabem que é somente com pensamentos de valor, com força de vontade, com raciocínio, com trabalho e com o livre-arbítrio que as pessoas resolvem os seus problemas.

Mas voltemos ao assunto que iremos tratar: os índios.

Quando se fala em índios, muita gente pensa que são selvagens que vivem em aldeias cercadas. Pensam também que matam os inimigos e durante as suas danças praticam o canibalismo, isto é, devoram a carne humana. Essa prática é chamada antropofagia. Mas isso não é verdade. Trata-se de um preconceito que o colonizador estendeu a todos os povos indígenas, quando conheceram os índios tupinambás, que praticavam o canibalismo durante os rituais guerreiros. Os tupinambás pertenciam a diversas tribos tupi-guaranis que habitavam o litoral do Brasil, no século XVI.

No início da colonização, em 1700, existiam no Brasil mais de 3 milhões de índios, que doenças e guerras de conquista reduziram a pouco mais de 200 mil nos tempos atuais. Em 1900, havia 230 grupos tribais, mas muitos deles desapareceram nos últimos oitenta anos. Mesmo assim, existem ainda no Brasil quase 150 povos indígenas, que falam mais de cem línguas diferentes. Apesar de haver semelhanças, cada povo possui características físicas, língua e costumes próprios, que o diferenciam dos demais. Além das várias línguas diferentes, existe grande diversidade biológica, como, por exemplo, no grupo tupi, os índios são baixos; entre os tupinambás, predominam indivíduos de estatura média e magros; já os índios do Alto Xingu são bem altos e corpulentos, existindo entre eles os da raça kreen-akore, que têm pele escura e são quase negros.

As aldeias variam de tribo para tribo. Os antigos tupinambás construíam suas aldeias dispondo as casas em círculos; os xavantes já dispunham as suas casas em semicírculos, formando uma ferradura, e os caiovás têm suas aldeias reduzidas a uma enorme casa. Várias tribos são seminômades, ou seja, parte do ano permanecem na aldeia e na época da seca vagueiam à procura de alimentos, construindo pequenos abrigos.

A diversidade dos índios brasileiros também é grande no que diz respeito à produção de alimentos. Existe uma estreita relação entre os costumes alimentares e os recursos naturais da região onde cada tribo vive. Por exemplo: os índios do Alto Xingu dedicam-se muito mais à pesca do que à caça; caçam individualmente e preferem a caça de aves. Já os timbiras fazem grandes caçadas coletivas, pois a caça tem enorme importância na sua alimentação.

As técnicas agrícolas são quase as mesmas nos vários grupos tribais, mas existem muitas diferenças quanto ao tamanho das roças, a quantidade e o tipo de produtos cultivados. A agricultura dos xavantes consiste apenas no plantio de três vegetais: o milho, a fava, uma espécie de vagem, e a abóbora. Já os índios mundurucus, que vivem na bacia do Rio Tapajós, plantam mandioca, batata-doce, milho, fava, abóbora, cará, ananás e pimenta.

Ao chegarem à América, os europeus pensavam ter chegado às índias. Por isso, chamaram de índios todas as populações aqui existentes, do norte ao sul do continente americano, embora eles fossem radicalmente diferentes, tanto no aspecto físico como no cultural, como, por exemplo, os tupinambás do Brasil e os iroqueses da América do Norte.

Tio Marcos, qual era a religião dos índios? - interrompeu Fernanda, que gostava muito da história dos índios.

Espere um pouquinho que vamos chegar lá. Mas,antes. quero lhes falar sobre o governo dos índios.

No Brasil, eles não tinham um chefe responsável por todos. O chefe era sempre o chefe da aldeia, geralmente chamado de cacique, morubixaba, tuxaua, etc. A transmissão dessa chefia podia ser hereditária, isto é, de pai para filho, ou não. Os caciques deviam conduzir a aldeia nas mudanças de região, na guerra; deviam manter a tradição, determinar as atividades diárias e responsabilizar-se pelo contato com outras aldeias ou com os civilizados. Muitas vezes, eles eram assessorados por um conselho de homens experimentados, que os auxiliavam em suas decisões.

Os primeiros povos a serem escravizados no Brasil foram os índios.

Tio Marcos, como surgiram os escravos? - perguntou Maria.

Desde a Antigüidade, 3000 anos a.C., os escravos eram os prisioneiros de guerra. Seus conquistadores os faziam trabalhar na canga, isto é, quais bois de carro, presos por uma peça de madeira que se prendia ao pescoço.

Às vezes, assaltantes atacavam pequenas cidades chamadas burgos simplesmente para capturar escravos. Outras vezes, prendiam homens, mulheres e crianças de tribos nômades para vendê-los.

Escravos com cangalhas eram postos a trabalhar, construindo canais e cavando minas. Movimentavam os enormes remos das galeras, que eram antigas embarcações, compridas e estreitas, com cerca de quinze a trinta remos de cada lado. Cada remo era manejado por três ou cinco homens. Algumas galeras envergavam velas náuticas redondas ou retangulares e podiam ter até três mastros.

Frotas de galeras eram usadas pelos cartagineses, romanos, fenícios, etc., por volta de 900 a. C.

Em Tiro, uma grande cidade da Fenícia, havia um grande mercado de escravos de todas as raças que abastecia as cidades e os palácios do Oriente. Vendiam-se como escravos os prisioneiros de guerra. Negociava-se com negros da Líbia, da Nigéria, da Etiópia ou com brancos capturados na Grécia, no Cáucaso ou com crianças que os pais, naquela época, trocavam por bugigangas.

Mas nem todos os escravos eram prisioneiros de guerra. Muitos homens livres, que tomaram dinheiro emprestado e não puderam pagar, vendiam-se como escravos ao agiota, ou então vendiam sua mulher e seus filhos.

Em 500 a.C., algumas cidades gregas mandavam expedições assaltarem regularmente, em busca de riquezas e de cativos que tivessem habilidades profissionais. Esses prisioneiros eram transformados em escravos nas oficinas das cidades.

Explorando a escravidão, os gregos tinham todo o conforto que quisessem e desprezavam aqueles que se preocupavam com coisas corriqueiras do dia-a-dia. Todo artesão, tanto livre quanto escravo, era olhado com desdém.

Nas idades Moderna e Contemporânea, os europeus que conquistaram a América não acharam facilidade em escravizar os índios. Então eles passaram a capturar negros na África. Isso não foi porque certas raças se prestavam à escravidão mais do que outras. Isso aconteceu porque os africanos não podiam correr de volta para suas casas, mas os índios podiam, e fugiam.

Com a chegada dos portugueses, os índios perderam as suas terras, e foram caçados como animais, para serem obrigados a trabalhar. Na região de São Paulo, por exemplo, eram organizadas verdadeiras caçadas aos índios pelos bandeirantes. Os bandeirantes eram integrantes de expedições armadas que, partindo geralmente da capitania de São Vicente ou de São Paulo de Piratininga, desbravavam os sertões, no começo do século XVIII, a fim de aprisionar índios ou descobrir minas de ouro. Eram expedições organizadas no período colonial pelas autoridades ou por particulares, para explorar o interior do Brasil com fins comerciais. Essas expedições fundaram cidades, abriram caminhos e ampliaram nossas fronteiras.



Tio Marcos fez uma pequena interrupção e, olhando para Fernanda, falou:

Fernanda, agora vamos falar da religião dos índios.

No Brasil, muitas tribos praticam os ritos de passagem, que se referem à gestação, ao nascimento, à iniciação à vida adulta, ao casamento e à morte. As tribos também possuem os seus mitos.

Tio Marcos, a que é mito? - interrompeu a jovem.

Mitos são estórias que contam fatos dos tempos heróicos e também traduzem a idéia que fazem do Universo. Poucos índios acreditam na existência de um ser supremo, senhor de todas as coisas. A maioria deles acredita em heróis místicos, misteriosos, muitas vezes nas figuras de dois gêmeos, responsáveis pela criação dos animais, das plantas e dos costumes. Emile Durkheim (1858-1917) escreveu, no fim do século XIX vários estudos sobre as sociedades abrangendo os povos primitivos, como os nossos índios. Ele contribuiu muito para uma ciência chamada Sociologia.

Tio Marcos, o que é mesmo Sociologia ? - perguntou Boris.

Sociologia é a ciência que estuda as relações sociais, as leis e as instituições. É a ciência dos fenômenos sociais. Não confundam Sociologia com Socialismo.

Socialismo é um sistema dos que querem reformar a sociedade, pregando a comunhão dos meios de produção e a volta dos bens materiais à coletividade. Mas estamos saindo do nosso assunto. Estamos falando da religião dos índios. Como eu estava dizendo, um sociólogo francês do século XIX, chamado Durkheim, estudando as práticas religiosas dos povos selvagens, considerou a mentalidade desses povos como pré-lógica, isto é, numa fase anterior ao desenvolvimento da razão, propriamente lógica. São politeístas, isto é, acreditam em vários deuses e numa concepção fantasiosa do mundo, cheia de mistérios e superstições. Essa concepção continua a existir ainda, nas civilizações agrárias e pastoris.

Estes povos primitivos, não podendo explicar os fenômenos da natureza, achavam que esses fenômenos eram obras de muitos deuses. Desta forma, eram divinos o vento, os rios, a terra e principalmente os astros, onde supunham que moravam os deuses.

Na Antigüidade, no Egito e na Mesopotâmia, estes povos cultuavam deuses protetores e demônios vingativos. Eram representados com a cabeça de um animal e o corpo de um homem ou com a face humana sobre um corpo de animal.

No Egito, a esfinge de Gizé representa um monstro fabuloso, com corpo de leão e a cabeça de gente. Era originalmente a guardiã do monumental conjunto arquitetônico de Quéfren, constituído pelas majestosas pirâmides construídas pelos faraós da IV dinastia, Quéops, Quéfren e Miquerinos, que edificaram aí o seu vasto complexo funerário. Essa esfinge de Gizé tem os traços fisionômicos do faraó Quéfren. Napoleão Bonaparte, em 1798, vindo conquistar o Egito, parou em frente das pirâmides e disse:

 Soldados! Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam.

Entre esses povos primitivos e a nossa civilização, temos uma grande distância que vai da selva à nossa sociedade industrial, e é a mesma que existe entre a imaginação e a realidade.

Os povos ditos selvagens, apesar de humanos nos corpos, são ainda espiritualmente muito jovens e, assim, muito atrasados em raciocínio, vivendo mais pelo instinto do que pelo raciocínio ou pelo pensamento.

Esses silvícolas das Américas difundiram entre os seus conquistadores costumes primitivos e deletérios, como, por exemplo, o vício de fumar. Este vício tem trazido à humanidade um grande malefício, e trouxe também a magia negra, causadora de loucos.

Também surgiram entre eles tensões sociais e preconceitos, provocando manifestações de agressividade e violência.

Essa situação ocorre em razão de os seres humanos, habitantes do planeta Terra, possuírem, como eu já disse, graus evolutivos desiguais, isto é, possuem atitudes, modos de agir, costumes, conhecimentos e valores de juízo muito diferentes. As reações aos estímulos da vida também são muito diversos, pois há os que se comprazem no vício, no crime e os que cultuam a virtude, em razão de possuírem graus de espiritualidade diferentes.

Uma das principais características que diferenciam os seres humanos entre si é a sua capacidade para aprender e acumular conhecimentos.

Desde que nascemos, começamos a aprender uma série de coisas de nós mesmos e da realidade que nos cerca, da qual fazemos parte.

Fazemos isso, durante a vida, de diferentes maneiras, através da experiência individual, usando os nossos sentidos (visão, tato, audição, olfato e paladar) e os nossos atributos (sensibilidade, firmeza de caráter, honradez, equilíbrio mental, lógica, domínio de nós mesmos para o bem, disciplina, raciocínio, inteligência, percepção, concepção, força de vontade e trabalho). Nesse processo, além das experiências sensoriais, também memorizamos os resultados dessas experiências. Durante a vida, vivenciamos diferentes experiências, registrando os resultados. Por isso, somos capazes de imaginar, reconhecer e enfrentar novos acontecimentos. Toda essa experiência é transferida do cérebro físico, através do cérebro do corpo espiritual (corpo astral, perispírito), ao espírito, que vai compondo um grande arquivo consolidado. Depois da nossa desencarnação, já em nosso mundo de estágio, esses conhecimentos recém-adquiridos na última encarnação serão incorporados definitivamente à nossa personalidade espiritual. E nas futuras reencarnações, manifestaremos esses conhecimentos na forma de aptidões, facilidade de compreensão, vocação, capacidade de raciocinar e encontrar soluções através da criatividade.

O ponto que mais se destaca na sociedade é a desarmonia. Ela começa na família e estende-se à cidade, ao país e ao mundo. Isto ocorre em virtude dos graus de esclarecimento existentes entre as diversas classes de espíritos, pois espiritualidade e intelectualidade são atributos muito diferentes entre si. A compreensão e o conhecimento das coisas são frutos da evolução do Espírito, e muitos dos que hoje estão encarnados já consideram a vida sob um aspecto que se aproxima cada vez mais da espiritualidade.

Tio Marcos, o que é reencarnação? - perguntou Fernanda.

A reencarnação consiste em admitir que o Espírito evolui através de várias existências sucessivas em mundos materializados. A reencarnação também é tratada como pluralidade da existência em vários livros da literatura espiritualista.

Os Vedas, constituídos por quatro livros sagrados, escritos na mais remota antigüidade pelos hindus, pregam a imortalidade da alma e a lei da reencarnação. No livro Bagavad-Gita, obra-prima da filosofia bramânica, o “Eu Superior” Krishna transmite ao “Ego” Arjuna a maneira de se libertar do fluxo dos renascimentos.

O Hinduísmo admite a reencarnação e a metempsicose. A metempsicose significa a encarnação da alma do homem no corpo de animais, como punição temporária, mas o Sr. Racional não admite isso. Os animais não possuem sistema nervoso desenvolvido para comportar o potencial das emoções humanas.

O Budismo também prega a reencarnação. No Tibete, existem muitos mosteiros budistas, principalmente em Lassa, sua capital, situada a 3500m de altura, no Himalaia. Nesses mosteiros, além da reencarnação, também se admite a transmigração da alma, que é uma doutrina segundo a qual a mesma alma pode animar sucessivamente corpos diversos, homens, animais e vegetais. Também admitem que, com a desencarnação de um mestre espiritual, este pode reencarnar e mais tarde ser reconhecido ainda criança. O chefe supremo dessa religião e do Estado teocrático do Tibete é chamado Dalai-Lama. Em 1950, tropas comunistas chinesas ocuparam o Tibete, incorporando o país à China.

O Cristianismo primitivo admitia a reencarnação. Orígenes (185-254), escritor grego cristão, teólogo e comentarista da Bíblia, foi padre da Igreja de Alexandria e admitia a preexistência da alma, como necessidade lógica para a explicação de certas passagens da Bíblia, chegando à conclusão de que, se a reencarnação não existisse, Deus seria sumamente injusto. Em 250, Orígenes, por sua celebridade, foi perseguido pelo imperador romano Décio, que na época perseguia os cristãos. A tese de Orígenes sobre a reencarnação foi rejeitada pelos concílios da Igreja, quando foram estabelecidos os dogmas fundamentais da Igreja Católica, que adotou a tese da unicidade das existências, isto é, a alma teria uma única existência e após a morte submeter-se-ia ao Juízo Final, indo parar no céu, purgatório ou inferno. Mas as sandices dos concílios não pararam por aí. Em 787, por ocasião do 2° Concílio de Nicéia, foi instituído o culto às imagens nas igrejas, com a obrigatoriedade de se prestar veneração e adoração honorífica às imagens de barro ou madeira, sob pena de excomunhão. Este concílio deu ao Catolicismo todas as características de paganismo, restabelecendo a adoração dos ídolos. Deixou de ser cristão para ser pagão. A reencarnação foi ensinada por Jesus antes dos Evangelhos, através da seguinte lei: “Não as faças que as pagas”.

O Universo Espiritual é o nosso mundo eterno, preexistente e sobrevivente a tudo, o que quer dizer que sempre existiu e sempre existirá.

Quando um espírito vai habitar um mundo materializado, dizemos que ele reencarnou e nessa ocasião perde a recordação das suas vidas passadas. Existem as reencarnações planejadas em que o Espírito, encontrando-se no seu mundo de estágio, prepara-se para reencarnar e, na ocasião propícia, nasce num mundo-escola. Nenhum espírito sai da atmosfera da Terra diretamente para a reencarnação. Precisa, antes, passar pelo mundo de estágio a que pertence, para depurar-se das perturbações ocasionadas pelo Astral Inferior.

Existem também as reencarnações compulsórias, em que os espíritos reencarnam independentemente da sua vontade. O livre-arbítrio de cada um é coarctado temporariamente e eles iniciam o processo reencarnatório.

O Espírito, em reencarnando, traz consigo a memória anímica, registrada em seu corpo astral, conseqüentemente conservando uma espécie de atavismo espiritual, responsável pelos seus apetites grosseiros, por seus instintos rudes, ou melhor, por seu caráter, suas aptidões e tendências afetivas e intelectuais. Nesse estado, reiniciará a depuração das suas imperfeições, através da dor e do sofrimento.

Tio Marcos, o que é atavismo? - perguntou Boris.

A ciência biológica diz que atavismo é a “herança de certos caracteres físicos ou psíquicos, remotos, de quem se descende”.

O Dr. Pinheiro Guedes (1842-1908) diz que é “o predomínio da alma sobre o corpo”.

O Sr. Racional diz que é “o modo de ser que o perispírito conserva da forma e do caráter adquiridos em vidas passadas, próximas ou remotas”.

Como exemplo de atavismo, podemos citar: um homem de forma e gostos feminis; uma mulher de aspecto e aptidões masculinas, ou ainda, o que não é raro, pessoas que herdam o tipo de um animal e, como ele, seus instintos, embora brandos.

Portanto, o corpo astral conserva o modo de ser de existências anteriores.

Nós, espíritos encarnados, na atual fase evolutiva em que nos encontramos, já realizamos milhares de encarnações, sendo aproximadamente 50% delas como homem e 50% como mulher.

As características físicas e psíquicas de cada sexo são muito diferentes. O Espírito, como homem, molda-se para a sobrevivência, para a luta, para a conquista, para a guerra. Como mulher, molda-se para ser mãe, para procriar, para atender à criança. Portanto, é delicada, meiga e passiva. Quando um espírito, por necessidade evolutiva, deixa de reencarnar como homem, para vivenciar a experiência de ser mulher, ele passa, no seu mundo de estágio, por um processo psíquico de adaptação, para perder as características masculinas, desenvolver o modo de ser e as formas femininas.

Desenvolvidos essas características psíquicas do sexo em que o Espírito vai reencarnar, estaria pronto para iniciar a sua nova trajetória evolutiva.

Muitas vezes, por razões de resgates dolorosos, um espírito na condição de homem deverá compulsoriamente nascer como mulher. Atendendo à lei: “Não as faças que as pagas”, nascerá sem ter tido tempo de realizar a sua adaptação psíquica à sua nova condição de existência como mulher. E, por atavismo, apesar de possuir todas as características físicas femininas, o seu comportamento psíquico será de homem.

Para reencarnar, o Espírito sofre um processo de materialização de longa duração, via útero, cuja gestação dura nove meses, gerando um corpo que viverá aproximadamente oitenta anos. O Espírito, que é luz no seu mundo de estágio, reduz o seu corpo astral à dimensão do de um bebê e passa a presidir a formação do feto no útero da mãe, permanecendo do lado de fora do corpo físico desta, mais do lado esquerdo. Durante a gestação, vai ligando-se fluidicamente, molécula a molécula, ao feto. À medida que dura a gestação, o corpo astral vai crescendo, acompanhando o corpo físico do bebê, e o processo de ligação somente se completa imediatamente após o nascimento da criança. O crescimento do corpo astral continua até a idade adulta do espírito reencarnante.

Quando um espírito encarnado não tiver mais erros a resgatar, portanto, não havendo mais necessidade de depuração, os sofrimentos desse espírito quase desaparecem. Os bons hábitos tomam o lugar dos maus, as correntes do Astral Superior afastam os espíritos do Astral Inferior e começa, então, a haver mais saúde e mais tranqüilidade. Os seus negócios prosperam, a amizade no meio social floresce e a vida se transforma para melhor. Nessa condição, esses espíritos já atingiram a 18ª classe.

Passam a pertencer aos mundos diáfanos. Somente reencarnarão novamente em mundos materializados em missão a serviço do Astral Superior.

Entretanto, há espíritos que não conseguem progredir nos mundos materializados. Eles estacionam, envolvidos pelas sensações materiais. Por isso, estes espíritos preferem continuar sua trajetória evolutiva nos mundos opacos, a serviço dos espíritos dos mundos superiores. Desta forma, estão sujeitos a uma evolução mais lenta, embora segura.

Tio Marcos levantou-se e foi até a janela. Olhando para a imensidão sideral, continuou.

Para bem compreendermos a vida dos homens encarnados, precisamos entender claramente as diferenças culturais dos povos. Temos, desta diferença cultural, registrado um exemplo em nossa história, que é o seguinte: todo o esforço dos padres jesuítas para catequizar os nossos índios fracassou, em virtude do desnível cultural existente entre os padres e os indígenas. Pois bem, o Padre Manoel da Nóbrega, vivendo no Brasil desde 1549, sempre a serviço da catequese, deixou escritos dois livros notáveis: Informações das Terras do Brasil, publicado em 1549, e Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, em 1557. Neste último livro, o Padre Manoel da Nóbrega confessa o doloroso fracasso da catequese. Nesta época, o Padre Anchieta e o Padre Manoel da Nóbrega admitiam que somente com a violência, com a força, poderiam sujeitar os índios a Cristo, o que negava a própria essência da catequese.

Bem, vamos voltar para o nosso assunto, os índios, interrompido pela pergunta de Fernanda sobre reencarnação, e de Boris sobre atavismo.

As tribos de índios possuem um chefe espiritual chamado pajé. Ele é um misto de sacerdote, profeta e médico-feiticeiro. Ele conhece a arte de curar, onde entram infusões de plantas medicinais, benzeduras e cantorias, com as quais tratam as mordeduras e picadas de animais peçonhentos e de algumas doenças.

O Sr. Racional explica que todos nós possuímos uma faculdade chamada mediunidade intuitiva. Essa mediunidade possibilita a comunicação entre as pessoas encarnadas e a alma dos mortos, principalmente de espíritos do Astral Inferior. A mediunidade intuitiva é congênita, isto é, nasce com o indivíduo. A potência da mediunidade varia de pessoa para pessoa, de acordo com o desenvolvimento que a criatura vai adquirindo, fruto de estudo, raciocínio e sofrimento, das dores e angústias da vida que a alma encarnada vai enfrentando e vencendo, como cantava o poeta Gonçalves Dias: “Viver é lutar”.

O Sr. Racional dizia sempre que “na vida devemos saber esperar, mas lutando sempre”, e diante dos sofrimentos, a grande escritora racionalista cristã Maria Cottas afirmava: “Tudo passa na vida”.

Como eu estava dizendo, os pajés, possuindo a mediunidade intuitiva mais desenvolvida que os demais índios da tribo, podiam realizar curas, principalmente conhecendo a ação curativa das plantas, que a ciência denomina Fitoterapia.

Quero chamar atenção de vocês sobre o seguinte fato, muito bem estudado pelo Sr. Racional: o médium não é um santo. É um homem comum com a faculdade mediúnica mais desenvolvida que os demais, como se tivesse uma vista melhor ou um ouvido mais apurado.

Os médiuns desconhecedores da Doutrina Racionalista Cristã acham que foram contemplados com um “favor divino”, por “uma graça” do “Pai Celestial”. Essa maneira de pensar é falsa. Os médiuns são espíritos endurecidos. Muitas vezes, esta faculdade é uma condição para vivenciarem a vida fora da matéria e é uma última oportunidade para se depurarem a serviço do Astral Superior.

Se comerciarem com essa faculdade, como a maioria dos médiuns que se dizem espíritas fazem, geralmente perdem a mediunidade, passam a mistificar e acabam avassalados por espíritos do Astral Inferior, normalmente desencarnando por morte violenta em acidentes e, quando não, por assassinatos. Se falirem, após curta permanência em seus mundos de estágio, voltarão em condições muito piores que as da sua última encarnação.



Tio Marcos levantou-se e bocejando disse:

Quem está com sono hoje sou eu. Boa noite a todos.


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