A chave da Sabedoria Fernando Faria Índice analítico



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8. Raça II

Tio Marcos, acabando de tomar o cafezinho que esta noite fora servido por tia 71nha, na saleta das palestras, como ficou sendo chamada a salinha do quarto das meninas, iniciou o assunto da noite, com as seguintes palavras:

Assim como os europeus conquistadores rotularam os nativos americanos de índios, denominaram a todos os africanos, que viviam ao sul do deserto do Saara, de negros.

A partir de 1500, Portugal monopolizou o tráfico de escravos, de ouro e de marfim da África e de especiarias do remoto Oriente.

Portugal, tendo como vice-rei da índia Afonso de Albuquerque, tornou-se uma das mais poderosas e ricas nações da Europa. Afonso de Albuquerque (1445-1515) tinha uma personalidade múltipla. Era profundo conhecedor de ciência, grande navegador, militar talentoso e ótimo administrador. Hábil diplomata, estendeu o império português, conquistando em 1507 o estreito de Ormuz. Em 1510, conquistou Goa e em 1511, Málaga, destruindo o poderio mercantil árabe. Obteve no Oriente a submissão de pequenos reinos e exclusividade do comércio. Auferiu grandes lucros e tornou os portugueses grandes comerciantes, como o foram os fenícios, os gregos e os cartagineses da Antigüidade. Lisboa tornou-se entreposto do comércio da Europa com o Oriente, arruinando os mercadores de Veneza e de Alexandria.

Nessa época, o Brasil ainda não interessava ao governo nem aos comerciantes portugueses, pois não tinha importância econômica e só oferecia ao comércio a sua madeira vermelha, o pau-brasil. Essa madeira foi objeto de intenso comércio nos tempos coloniais, em virtude do corante vermelho que se extraía dela, utilizado para tingir tecidos e fazer tinta de escrever.

A partir de 1530 Portugal percebeu que, para tomar conta do Brasil e ter lucro com isso, era preciso colocar mais gente na terra. Era preciso colonizar o Brasil para que produzisse riquezas. Para isso, enviou em 1532 uma expedição comandada por Martim Afonso de Souza, que marcou o início da colonização do Brasil.

Em 1536, D. João II, rei de Portugal, dividiu o Brasil em catorze capitanias hereditárias.

Enquanto os portugueses se interessavam apenas pelo pau-brasil, suas relações com os indígenas eram amistosas. Todavia, depois de 1530, os índios habitantes do litoral começaram a ser desalojados de suas terras e convertidos em mão-de-obra barata. Foram forçados a trabalhar nos canaviais em expansão, pois, nessa época, os portugueses eram os maiores fornecedores de açúcar para a Europa.

Como os índios escravizados acabavam fugindo ou morrendo, em 1559 teve início a importação de negros africanos como escravos, para trabalharem nos canaviais.

D. Sebastião (1554-1578) foi o décimo sexto rei de Portugal. Subiu ao trono com 14 anos de idade. Desde então, pensava obsessivamente em conquistas na África. Mais tarde, insistindo nesse projeto, pediu auxílio a Felipe II de Castela, o qual era herdeiro do trono português no caso de D. Sebastião desaparecer. Com 24 anos de idade, em 1578, partiu de Lisboa para o Algarve com uma armada de 500 navios. Na África, teimou em entrar pessoalmente em combate contra o príncipe mouro Abdal-Malik. Expôs-se a perigos. Não acreditou quando os seus observadores lhe disseram que os mouros tinham forças superiores. Em 4 de agosto de 1578, travando a batalha de Alcácer-Quibir, D. Sebastião foi morto. Em Portugal, a expectativa do seu retorno gerou o estado de espírito conhecido como sebastianismo.

Após o desaparecimento de D. Sebastião, Felipe II, rei da Espanha e primo de D. Sebastião, pelo suborno e pela força, conquistou o trono português.

Sob o domínio espanhol Portugal decaiu.

No Brasil, nessa época, os portugueses, para conquistar o Nordeste, tiveram que enfrentar os corsários franceses, holandeses e ingleses, além das tribos indígenas locais.

A partir de 1600, os franceses, com auxílio dos índios tupinambás, tentaram estabelecer uma colônia no Maranhão. Nessa época, o produto básico da economia do Brasil era a cana-de-açúcar, cultivada em grande escala em Pernambuco. Outra atividade importante, que também começou no Nordeste, foi a criação de gado bovino, como atividade paralela aos engenhos de açúcar.

A união de Portugal com a Espanha, que durou sessenta anos, permitiu aos portugueses aumentar o seu império brasileiro. Não havendo mais fronteiras com as colônias espanholas, os bandeirantes avançaram para o interior e conquistaram grande parte do nosso território: Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas.

A partir do século XVI, algumas expedições armadas, denominadas entradas, foram enviadas ao interior do Brasil para procurar pedras preciosas e ouro. Estas entradas abriram caminho para que bandeiras, de iniciativa particular, demandassem os sertões brasileiros, em busca de escravos índios, mão-de-obra mais barata que os negros.

Em 1637, a idéia de separar Portugal da Espanha começou a tomar vulto. Pensou-se logo em D. João, duque da Casa de Bragança, uma das mais ricas e nobres de Portugal. A situação interna da Espanha se apresentava propícia ao movimento de separação de Portugal. Dado o golpe em 1° de dezembro de 1640, em Lisboa, o duque foi aclamado rei em 15 de dezembro do mesmo ano, passando a chamar-se D. João IV.

Do Brasil, no dia 27 de fevereiro de 1641, o Padre Vieira embarcou para Portugal. Deixava Vieira a Bahia, depois de ali ter passado os 27 anos mais decisivos da sua formação. Em 30 de abril, foi recebido por D. João IV e desde então passou a assessorar o rei antes de qualquer decisão importante. O Padre Antônio Vieira nasceu em 1608 e desencarnou em 1697.

Antônio Vieira é o patrono do Racionalismo Cristão na Terra, e após 213 anos da sua desencarnação, na Bahia, passou a ser o mentor espiritual de Luiz José de Mattos e Luiz Alves Thomaz, para fundarem em Santos, no ano de 1910, o Racionalismo Cristão.

Foi no final do século XVII que foram descobertas as primeiras minas de ouro no Brasil.

Essas minas deslocaram o eixo econômico e político do litoral nordestino para o centro-sul, em especial para Minas Gerais, onde se desenvolveu uma verdadeira civilização do ouro, acompanhada de notável florescimento cultural.

Nessa época, governava Portugal D. João V, o Magnânimo, que reinou de 1706 a 1750. Riquezas fabulosas, provenientes das minas de ouro e diamantes do Brasil, entraram em Portugal. Mas essa riqueza não foi empregada por D. João V no desenvolvimento da economia portuguesa. Esbanjou-as com intensa prodigalidade. O luxo da corte era deslumbrante. Quando D. João V morreu, deixou o Estado endividado e o povo espoliado pelos altos impostos.

Sucedeu-lhe D. José I, o Reformador, rei de Portugal de 1750 a 1777. Ao assumir o trono, escolheu para ministro José de Carvalho e Mello, depois Marquês de Pombal, que se revelou o mais ilustre estadista da história de Portugal.

A partir do século XV, os brancos começaram a chegar à África e a tomar conta de tudo. Os africanos começaram a ser caçados e empilhados em navios e levados para outras terras, como a América do Norte, América Central e a América do Sul. Portanto, desde 1700, os portugueses, espanhóis e ingleses iniciaram intenso e muito lucrativo tráfico de escravos, trazendo milhares de negros da África para o Brasil, onde foram concentrados unicamente nas áreas de agricultura de exportação, espalhando-se posteriormente por todo o território brasileiro, trabalhando em plantações de cana-de-açúcar e de café.

Os povos africanos trazidos para o Brasil vinham de regiões diferentes, possuindo cada povo cultura e costumes diferentes entre si.

Os negros eram vendidos para fazendeiros, em substituição à mão-de-obra escrava dos índios, nas lavouras de cana-de-açúcar. A substituição dos índios pelos negros aconteceu principalmente porque trazer africanos para o Brasil e vendê-los acabou virando um grande negócio para o rei e para os próprios comerciantes portugueses.

Os negros trazidos para o Brasil pertenciam a três grupos bem diferentes. Foram os seguintes:



1. Sudaneses: constituídos por povos nagôs que habitavam a África Ocidental.

2. Guineenses: praticavam a religião islâmica ou muçulmana, isto é, acreditavam no profeta Maomé e seguiam o Alcorão, livro sagrado do Islamismo.

Os negros da Guiné conheciam mais as técnicas agrícolas do que os próprios colonos brancos. E logo passaram a tomar as decisões nas fazendas, pois os colonizadores portugueses deixavam tudo por conta deles. Além dos europeus colonizadores terem muita dificuldade em trabalhar no calor dos trópicos, eram nobres. Os nobres portugueses contemplados com as capitanias hereditárias mantinham no Brasil os mesmos costumes e tradições da corte, isto é, não trabalhavam para ganhar a vida. A nobreza da época, pertencente a vários países da Europa, considerava o trabalho indigno. Dedicava-se à guerra, às aventuras violentas, à caça e aos esportes. Enquanto os negros, adaptados ao clima tropical, trabalhavam nus da cintura para cima, o branco, ao contrário, continuava usando a roupa que era moda na Europa, própria para os climas frios.



3. Bantos: pertencentes a diversas tribos das regiões de Angola, Congo e Moçambique, inicialmente foram introduzidos em Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Já os sudaneses foram concentrados inicialmente na Bahia e no Maranhão.

É claro que essa distribuição de escravos visou somente atender às necessidades de mão-de-obra do ciclo da cana-de-açúcar. No ciclo da mineração, época em que os portugueses e também muitos brasileiros exploravam as minas de ouro, diamantes e outras pedras preciosas, por volta de 1700, os negros sudaneses foram deslocados para as regiões de mineração em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.

A casta de negros mais procurada nos mercados de escravos era de sudaneses, pertencentes ao povo iorubano da Nigéria, também conhecidos como nagôs. Eles eram inteligentes, altos e fortes.

Assim, começava uma vida totalmente diferente para os africanos, num país distante e estranho, num lugar onde se falava uma língua diferente, com costumes e religião também diferentes e com um tipo de atividade obrigatória, disciplinada e forçada: o trabalho. Não havia mais a vida de liberdade das tribos. Os parentes, pais, filhos, tios, avós, netos, primos, que formavam famílias, foram separados uns dos outros. É claro que os negros não podiam ficar satisfeitos com essa situação. Muitos se suicidavam, outros se recusavam a trabalhar e conseqüentemente eram castigados violentamente. Houve casos de revoltas em que matavam fazendeiros ou os capatazes encarregados de vigiar o trabalho escravo nas fazendas.

Tio Marcos. por que Deus permitiu que se fizesse essa grande maldade com os escravos? - perguntou Solange.



Tio Marcos respondeu calmamente.

Porque o deus cultuado pelas religiões dos povos não existe e é claro que, não existindo, não poderia fazer nada.

O Sr. Racional explica que foi o homem quem imaginou, concebeu e criou os deuses. Criou-os mentalmente, com a forma humana e as mesmas qualidades e defeitos que o homem possui.

Para a maioria dos homens, que não raciocina, que não gosta de pensar, deus é uma entidade que se presta a promover castigos, distribuir graças e a lavrar, em caráter eterno ou temporário, condenações e absolvições.

É comum atribuir-se a Deus, cujos desígnios afirmam ser impenetráveis, a responsabilidade de grande parte das coisas que acontecem na Terra. Dessa maneira, se desencarna uma pessoa da família, foi Deus quem a levou. Se acontece um desastre, Deus assim o quis. Se alguém escapa de ficar sobre as rodas de um automóvel, a Deus passa a ser creditado o salvamento da quase vítima. A individualidade fica sempre subordinada à ação de uma terceira entidade, e essa subordinação exerce esmagadora influência negativa sobre o espírito humano.

Repetindo, o Sr. Racional ensina que os espíritos encarnados e desencarnados são Partículas Inteligentes emanadas do Grande Foco. Ele também demonstra ser o Universo constituído de Força e Matéria. A Força incita e movimenta todos os corpos e enche o espaço infinito de vida.

Repetindo: a Força existe latente no reino mineral. É vida no reino vegetal e é Vida e Inteligência no reino animal.

Força é a expressão empregada quando ela se associa à Matéria, e Grande Foco significa o agente universal, na sua concepção infinita. São, porém, termos sinônimos, têm igual sentido.

Ninguém, por mais sofista que seja, poderá apontar em qualquer destas duas expressões, Grande Foco ou Força, a mais ligeira afinidade com o vocábulo deus, já tão desmoralizado pelo sentido mesquinho e materialista que lhe emprestam os adoradores de todas as religiões, e existem mais de oito mil delas no mundo todo.

O Principio Fundamental da Vida, inclusive o progresso dos povos, no Universo, é a evolução. Nela reside a base do entendimento para tudo o que se passa dentro e fora do alcance da visão humana.

Mas vamos continuar a história dos negros no Brasil.

A partir do início do século XVII, os escravos que conseguiam fugir das fazendas e dos engenhos começaram a reunir-se em lugares seguros, onde ficavam vivendo em liberdade, longe dos seus senhores. Esses lugares chamavam-se quilombos. Alguns chegaram a durar muitos anos e os mais importantes foram o de Palmares, no Nordeste, e o do Jabaquara, em Santos. O primeiro foi fundado em 1694 e o segundo, em 1886.

No início do século XVII, um grande conjunto de quilombos formou-se na região de Palmares, que ficava situada ao norte do Brasil, entre o Rio São Francisco e os sertões de Pernambuco, onde hoje é o estado de Alagoas, 30 léguas dentro do sertão. O nome Palmares foi dado devido ao grande número de palmeiras nativas na região. O quilombo mais importante chamava-se Palmares e era situado junto à Serra da Barriga. Foi o mais importante deles e durou 65 anos. Chegou a contar com uma população de 20 mil pessoas, o que era uma quantidade respeitável de habitantes na época. Era um quilombo formado de vários outros, organizado sob a forma de reino.

Quando houve a segunda invasão holandesa, em Pernambuco, realizada de 1630 a 1654, os diversos quilombos que compunham Palmares foram bastante aumentados, isto porque inúmeros escravos deixaram as fazendas onde viviam e iam refugiar-se neles, aproveitando a ausência dos seus senhores, que fugiam dos holandeses.

Enquanto os brasileiros e portugueses lutavam contra os holandeses, os fugitivos trataram de fortificar os seus quilombos o melhor possível.

Os negros fugitivos, predominantemente de Angola, instalaram em Palmares um tipo de Estado africano baseado na pequena propriedade e na policultura.

Depois de expulsos os holandeses, o governo de Pernambuco entrou em guerra contra esse quilombo, com o objetivo de reaver as terras ocupadas pelos negros.

Em 1695, um exército composto por índios e brancos, comandado pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, especializado na captura de índios do Nordeste, após ter sitiado Palmares durante 22 dias, fez chegar ao fim a resistência do quilombo, que por aproximadamente cinqüenta anos suportou dezessete tentativas de invasão. Zumbi, o chefe do quilombo, foi aprisionado juntamente com 500 negros.

Diz a lenda que, para não retornar ao cativeiro, Zumbi, encurralado pelas tropas de Domingos Jorge Velho, num gesto teatral, atirou-se de braços abertos num precipício, juntamente com muitos de seus companheiros.

Tio Marcos, olhando para as crianças. perguntou:

Vocês conhecem a história de um negro que ficou conhecido com o nome de Chico Rei?

Não - responderam todos em coro.

Pois bem, vou contá-la resumidamente.

Numa aldeia africana, certa noite, quando se realizava uma das festas que eram comuns ali, os brancos atacaram de surpresa. Pouco sobrou da alegre aldeia. Alguns negros fugiram, outros foram mortos ou abandonados por serem velhos ou estarem feridos, e o restante aprisionado. A família real da aldeia, o rei, a rainha e seus filhos, foi aprisionada e misturada no porão do navio com os demais escravos.

Durante a viagem, que durou vários meses, o rei e um de seus filhos conseguiram sobreviver. Os outros, juntamente com a rainha, não resistiram. Depois de muito tempo de viagem, o navio chegou ao Brasil. Aquela leva de escravos foi vendida e enviada para Minas Gerais. Era final do século XVII. Os bandeirantes haviam descoberto muitas jazidas de ouro. Desde então, desencadeou-se uma verdadeira corrida para o sertão de Minas Gerais, em busca de ouro. O Brasil iniciava o ciclo da mineração.

Em Minas Gerais, o rei africano recebeu o nome de Francisco e ficou sendo conhecido por Chico.

Chico aceitou a sua sorte e tratou de trabalhar com gosto. O seu filho ficou trabalhando junto com ele, seguindo o seu exemplo, sem se revoltar.

Pouco tempo depois, ficaram muito queridos por causa de sua dedicação ao serviço. Chico, então, começou a sonhar em ter o seu reino de volta aqui no Brasil. Era inteligente. Formulou um plano e tratou de realizá-lo.

Chico começou a guardar todo o dinheiro que ganhava. Como era muito esforçado e trabalhava com capricho, seu senhor sempre lhe dava algumas moedas, que iam imediatamente juntar-se às anteriores.

Depois de muito sacrifício, conseguiu acumular o suficiente para comprar a liberdade de um escravo. Mas não pensem que ele comprou a própria liberdade, não! Ele comprou a liberdade de seu filho.

O senhor de Chico ficou muito impressionado com a nobreza de seu escravo. O negócio foi acertado e o filho de Chico ganhou liberdade. Aí, os dois uniram as suas forças. Um juntava dinheiro daqui e o outro de lá. Transcorreu algum tempo e novamente Chico apresentou-se ao seu senhor e comprou a sua liberdade.

Tão logo se viu livre, foi morar com o filho numa pobre cabana. Trataram de juntar mais dinheiro e libertaram outro escravo que pertencia à sua tribo.

Outra vez, os três economizaram dinheiro e libertaram um quarto. Assim continuaram até que todos os escravos pertencentes à tribo de Chico ficaram livres.

Chico, agora conhecido como Chico Rei, continuou a ser o rei de sua gente e formou uma comunidade que ele próprio dirigia com grande capacidade.

Chico, mais tarde, casou-se, e seu filho também, formando uma nova família real.

Jamais um espírito deverá deixar-se abater. Um acidente desfavorável, uma vicissitude, um infortúnio, uma desgraça não significa mais do que um incidente passageiro. Um revés deve servir para chamar a atenção para algo que foi negligenciado, ou que era desconhecido. Muitas vezes um insucesso chega até a ser útil, pois, de qualquer modo, sempre há de haver uma experiência a colher e uma lição a guardar, em cada sofrimento que nos ocorre.

Na vida, nada acontece por acaso. Tudo tem a sua explicação, o seu motivo, a sua causa, a sua razão de ser. Ninguém pode aprender somente com o êxito, pois também se aprende muito com a dor. A felicidade, a saúde e o bem-estar não seriam tão desejados se fossem desconhecidas a desgraça, a doença e a miséria. Na luta pela vida, muitas vezes a melhor estratégia não é a revolta, mas sim a renúncia.

Bem, voltemos ao nosso assunto: toda a escravidão do negro no Brasil foi descrita e ressaltada pela obra de um dos maiores poetas brasileiros, chamado Antônio de Castro Alves (1847-1871), o qual, sempre a serviço da causa abolicionista, fez da sua poesia uma arma para defender os escravos. A causa abolicionista lhe inspirou uma coletânea de poemas, publicados postumamente, em 1883, sob o título Os Escravos. Imortalizou-se com o seu livro Espumas Flutuantes.

No Rio de Janeiro, Castro Alves foi amigo de Rui Barbosa e recebeu elogios de dois dos maiores escritores brasileiros da época: José de Alencar e Machado de Assis.

Tio Marcos, qual era a religião dos escravos? -perguntou Boris. interessado.

Não era somente combatendo nos quilombos que os negros resistiam à escravidão. Havia outra forma de resistir a essa situação. Era através da religião, dos cultos, da música, da dança e do artesanato, predominando a cultura dos povos iorubas. A língua que eles falavam, o nagô, se converteu por algum tempo na língua geral dos negros da Bahia. Um dos aspectos mais marcantes dessa cultura é a religião dos orixás, oriunda da Nigéria. Os nomes dos orixás tornaram-se conhecidos de todos: Oxalá, Xangô, Exu, Ogum, Yemanjá, Yansã, Oxum e Oxossi.

Para conseguirem a sobrevivência da sua religião, no período da escravidão, até 1888, quando a escravidão foi abolida no Brasil, os negros associaram os orixás aos santos do catolicismo vigente. Por exemplo: Oxalá era o Senhor do Bonfim, Xangô era São Jerônimo e Ogum, São Jorge.

Embora difundidos por outras partes do Brasil, os rituais nagôs ou qualquer das grandes festas dos iorubas eram chamados de candomblé e se concentravam no recôncavo baiano.

A respeito da religião dos negros e demais povos primitivos, o Positivismo ensina que o espírito humano deve renunciar a querer conhecer a natureza das coisas e contentar-se com as verdades tiradas da observação e da experiência dos fenômenos. Mas, para vocês entenderem em que fase evolutiva encontra-se a religião dos negros, vamos ver o que a filosofia positivista diz a respeito.

Vocês sabem que filosofia é uma forma de explicar o conjunto das coisas que constituem a natureza e o Universo. Na Antigüidade houve vários filósofos famosos, dos quais vou destacar os seguintes: Hermes no Antigo Egito; Krishna na Índia; Sócrates, Platão, Aristóteles, Euclides e Arquimedes na Grécia. A contribuição desses filósofos gregos para a humanidade foi notável. Eles ensinaram que a razão era a maior faculdade do espírito, apesar de não existir na Antiga Grécia o ambiente racional dos tempos modernos. Mas, como estamos falando da religião dos negros, vamos ver o que Augusto Comte escreveu sobre esse assunto.

Augusto Comte (1798-1857), pensador francês, publicou em 1842 o livro Curso de Filosofia Positiva, onde classificou as ciências, segundo uma ordem de complexidade crescente. Também formulou a lei que denominou Lei dos Três Estados, que descreve as etapas sucessivas seguidas pelo desenvolvimento da humanidade. Essas etapas são as seguintes:



1. Estado teológico: nesta fase do seu desenvolvimento, o homem explica os fenômenos da natureza recorrendo aos seres sobrenaturais. Inicialmente cultua objetos, depois passa para o politeísmo, isto é, acredita na pluralidade de deuses. É o caso dos romanos e dos gregos da Antigüidade, os quais possuíam uma imensa galeria de deuses. Este também é o caso dos nossos negros, pois são politeístas acreditando em vários orixás. Passando dessa fase politeísta, a humanidade atinge o monoteísmo. Por exemplo: o povo hebreu, que adora Jeová, o deus único.

2. Estado metafísico: neste estado, o homem quer conhecer a essência dos seres e suas causas. O deus supremo é a natureza. O estado metafísico confunde-se com a doutrina do filósofo Spinoza (1632-1677) que prega a identificação de deus com o mundo. “Só o mundo é real, sendo deus a soma de tudo quanto existe.” Esta filosofia chama-se panteísmo.

Tio Marcos fez uma pequena pausa e acrescentou:

Eu não quero que vocês acreditem que deus seja o mundo. O mundo que nos cerca é um efeito. A causa é a atuação do elemento Força associado ao elemento Matéria. A Força age em obediência às leis evolutivas, naturais e imutáveis, utilizando-se da Matéria no estado primário desta, e com ela realizando fenômenos incontáveis e indescritíveis, muitas vezes predominando a Vida e a Inteligência. Ao agente universal, na sua concepção infinita, chamamos Grande Foco e, quando da sua associação com a Matéria, para produzir o mundo que nos envolve, chamamos de Força. O Sr. Racional sempre repetia: “No Universo somente existem Força e Matéria”.

3. Estado positivo ou científico: o homem, na busca da Verdade, restringe-se somente aos fatos e tenta explicá-los estudando e descobrindo as leis que os regem. É nesse estado que atualmente encontra-se a humanidade ocidental, desde que Galileu usou o método experimental para investigar as leis da natureza.

O pensamento positivista influenciou muito a primeira legislação republicana brasileira. Promoveu a separação entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro. O lema “Ordem e Progresso” da nossa bandeira também é de origem positivista.

Como eu estava dizendo, os bantos eram negros de estatura baixa e fisicamente mais magros do que os sudaneses. Foram inicialmente instalados no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso. Os bantos desenvolveram cultos afro-brasileiros, bastante marcados pelo sincretismo, isto é, pela fusão de elementos culturais diferentes. Podemos entender o sincretismo afro-brasileiro como a associação das crenças indígenas com as crenças católicas, mais as crenças espíritas kardecistas, adicionando tudo isso à religião dos orixás e que hoje, genericamente, chama-se de umbanda.

Aqui no Brasil, os bantos, negros oriundos do sul da África, também chamados de angolas, cabindas, benguelas, congos e moçambiques, desenvolveram um culto de magia negra, isto é, a magia praticada com maus propósitos, constituída de bruxarias e também adivinhações pela invocação de espíritos inferiores, para consertar a vida das pessoas ou fazer o mal, mediante o pagamento de “serviços” ao pai-de-santo. Esta linha chama-se candomblé.

A umbanda possui no Brasil milhares de seguidores num processo cultural onde se misturam as crenças portuguesas, indígenas e africanas, formadoras da cultura da nação brasileira. Em seus altares vivem juntas as imagens de Cristo, Nossa Senhora, orixás, caboclos e pretos velhos. Ela não é a soma das antigas religiões, mas algo novo, diferente.

O Sr. Racional ensina que o espiritismo que se pratica no Brasil é magia negra, cuja assistência astral é obsessora e danificadora de corpos e almas, pois são espíritos do Astral Inferior  mesmo os benévolos  carregados de fluidos deletérios, causadores de muitos malefícios aos encarnados. Além do mais, consciente ou inconscientemente, os freqüentadores desses centros e que também prestigiam os pais-de-santo e outros médiuns mistificadores, além de muito se prejudicarem com essa freqüência, correm sérios riscos de ficarem obsedados, paralíticos e até com a vida material e familiar arruinada, pois vivem saturados de fluidos pestilentos.

Ensina também que o espiritismo místico praticado por criaturas ignorantes do que sejam Força e Matéria, base da composição do Universo e de tudo o que existe, somente males, somente danos morais e materiais pode produzir, e de fato produz, sendo esta a razão de muitas criaturas sensatas não levarem a sério tais práticas. Outro não foi também o motivo de os egípcios e gregos haverem ocultado ao povo ignorante o conhecimento do espiritismo científico, por não estar a população preparada para praticar essa verdadeira ciência, cuja chave da sabedoria está no pensamento e na ação.

Cada ser encarnado tem que evoluir por si, e para isso deve esclarecer-se para não andar por aqui e ali, à procura da salvação espiritual, da melhoria dos negócios e da família, oferecendo dádivas aos antros espíritas, aos pais-de-santo, a São Jorge, Cosme e Damião e outros que tais.

Não negamos que existam criaturas bem-intencionadas em todas as seitas e no espiritismo religioso, mas a boa intenção não basta. É preciso luz espiritual, raciocínio clarividenciado para o ser humano poder habilitar-se à correção de todas as suas fraquezas, domínio dos seus maus instintos, controle dos pensamentos, e despojar-se de todos os pensamentos que a consciência lhe apontar como inferiores, e desenvolver pensamentos puros, de amor à Verdade e ao próximo.

Ninguém melhor do que José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência, lutou pela abolição da escravatura no Brasil. Um ano após a Independência do Brasil, em 1823, apresentou à Assembléia um projeto de lei, constituído por uma análise da escravidão dos negros e uma exposição de motivos, seguidas de 32 artigos, para serem objeto de uma nova lei, que ele requereu, para regulamentar e propiciar a futura libertação dos escravos. Esse trabalho foi publicado em 1825, sob o título Representação á Assembléia Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a Escravatura.

Na exposição de motivos desse trabalho, vou mencionar o seguinte trecho, que bem retrata a sociedade brasileira da época: “Qual é a religião que temos, apesar da beleza e santidade do Evangelho que dizemos seguir? A nossa religião é pela maior parte um sistema de superstições e de abusos anti-sociais. O nosso clero, em muitas partes, é ignorante e corrompido, é o primeiro que se serve de escravos, e os acumula para enriquecer pelo comércio e pela agricultura, e para formar, muitas vezes, com as desgraçadas escravas um harém turco”.

Bem, queridos sobrinhos! Vamos dormir para repor as energias anímicas gastas no dia de hoje. Boa noite a todos.


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