A chave da Sabedoria Fernando Faria Índice analítico



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10. O cristianismo I

Terminado o jantar e servido o café, os jovens subiram. Todos acomodados, tio Marcos começou a aula da noite.

Nós já falamos da religião dos índios, da religião dos negros e hoje vamos falar da religião dos brancos, conquistadores e colonizadores do Brasil.

Vamos iniciar falando um pouco dos povos da Antigüidade.

As pesquisas sobre os tempos mais remotos da espécie humana indicam que os primeiros homens provavelmente foram nômades, vivendo da caça, da pesca e da coleta de produtos vegetais, tais como frutas, grãos, folhas, raízes, etc. Moravam em abrigos rústicos. Cada grupo exercia isoladamente suas atividades dentro de um espaço territorial delimitado. Com o esgotamento dos recursos de uma determinada área, a comunidade era obrigada a mudar-se, a emigrar em busca de novas fontes de alimentos.

O surgimento das atividades agrícolas e do pastoreio possivelmente tenha sido o principal fator de sedentarização, isto é, fixação das populações nômades em sedes. Ou seja, quando o homem começou a plantar e a colher alimentos, a domesticar e a criar animais, passou a depender cada vez menos da caça, da pesca e da coleta de alimentos vegetais. Desta forma, passou a morar mais tempo ou permanentemente na mesma área. Com isso, foi possível a construção de moradias sólidas, que com o tempo se transformaram em vilas e cidades.

Não se sabe ao certo quando surgiram os primeiros aglomerados de habitantes, aos quais se pôde dar o nome de cidade. Mas, há milhares de anos, existiam concentrações urbanas com acentuada divisão de trabalho entre os moradores. Há registros de concentrações deste tipo, entre os povos da Antigüidade, desde 1900 a.C., tais como os egípcios, os hititas, os antigos chineses e os hebreus.

Os hebreus, pertencentes aos povos semitas, durante várias fases da sua história foram pastores nômades. Chegaram à Mesopotâmia e se instalaram na Caldéia, na cidade de Ur, em 1900 a.C., chefiados por Abraão, que os iniciou no monoteísmo, isto é, na adoração de um só deus. Nessa época adoravam o deus Iavé. Com a ocupação do seu território pelos indo-europeus, imigraram para o Egito em 1290 a. C. e lá viveram por quatro séculos, sendo dirigidos por Moisés. Ao saírem do Egito, Moisés recebeu de seu deus Jeová o Decálogo, no Monte Sinai, contendo os dez mandamentos. Depois atravessaram o Deserto do Sinai e passaram a viver em Canaã, a Terra Prometida, situada na Palestina, no Oriente Médio, a partir do século XIII a. C. Na terra de Canaã, enfrentaram várias guerras. Entregaram, então, o governo geral aos juízes, que eram militares ou políticos. O primeiro deles foi Josué, sucessor de Moisés. Em 1250 a.C., Josué atravessou o Rio Jordão, na Palestina, e conquistou a cidade de Jericó, situada no Vale do Jordão, junto ao Mar Morto.

Os hebreus eram então constituídos por doze tribos, sendo cada uma formada por pessoas descendentes de um dos doze filhos do patriarca bíblico Jacó, que por sua vez era filho de Isaac.

Ao se estabelecerem em Canaã, adotaram a monarquia. O seu primeiro rei foi Saul, sucedido por Davi e Salomão. Ficou na história o Templo de Jerusalém, construído por Salomão, para abrigar a Arca da Aliança, onde estavam guardadas as Tábuas da Lei, dadas a Moisés por Jeová, no Monte Sinai.

Após a morte de Salomão, as dez tribos que viviam ao norte, na Galiléia, formaram o reino de Israel, que existiu de 931 a 721 a. C. e cuja capital era a cidade de Samaria. As duas tribos restantes, que viviam ao sul, formaram o reino de Judá, cuja capital era Jerusalém.

Em 721 a.C., os assírios conquistaram Samaria, destruíram o reino de Israel e levaram os israelitas como escravos. Essas dez tribos perderam-se. Nunca mais apareceram. Persistiu somente o reino de Judá e a sua capital Jerusalém.

Em 587 a.C., o Templo de Jerusalém, construído pelo rei Salomão, foi destruído por Nabucodonosor, ocasião em que a elite da população da cidade foi deportada para a Babilônia.

Em 538 a.C., Ciro II, rei da Babilônia, autorizou os judeus a retornar à sua cidade e reconstruir o Templo de Jerusalém.

Em lá chegando, reergueram o templo e os muros da cidade.

Na Antigüidade Clássica, a partir de 900 a. C., ocorreu um grande desenvolvimento das cidades gregas e romanas. Elas formavam centros de comércio e pontos de concentração, com intensa circulação de pessoas e de mercadorias, cujo domínio estendia-se do litoral até o interior da Europa mediterrânea, ocupada e organizada pelo Império Romano, cuja capital desde 300 a.C. era Roma.

Em 100 a.C., Roma possuía uma notável organização militar, vencendo guerras contra quase todos os povos existentes nesse tempo.

Pompeu (106-48 a.C.), general e político romano, em 64 a.C. invadiu a Síria e ocupou Jerusalém, capital da Judéia, tornando-a um principado. Era nessa época imperador de Roma César Otaviano Augusto, o qual desencarnou em 14 d. C. e foi substituído por Tibério Júlio César.

A Judéia era o antigo reino de Judá e nessa época, por ocasião da ocupação romana, era urna província do sul da Palestina. Essa região da Palestina era cortada pelo Rio Jordão, o qual formava o Lago Tiberíades antes de desaguar no Mar Morto.

No ano zero da linha do tempo, nasceu em Belém, a pátria do rei Davi, Jesus, o Cristo, um dos espíritos moralmente mais evoluídos que já encarnaram no planeta Terra.

Quando Jesus nasceu, Roma governava a Galiléia através de procuradores.

Tio Marcos, o que quer dizer “o Cristo”? Era o sobrenome de Jesus? - perguntou Fernanda.

Não, esse cognome “o Cristo” significa “redentor” ou “aquele que torna o homem livre através da Verdade”, e esclareço mais: mas livre de quê?, pode alguém perguntar. Livre do misticismo. Livre da escravidão mental. Livre do temor aos deuses. Livre para pensar por si próprio, para resolver os seus problemas existenciais, sem rezas, peditórios ou promessas.

Resumidamente, a doutrina libertadora de Jesus, o Cristo, ensinada antes dos Evangelhos, é a seguinte: no Decálogo de Moisés, pela primeira vez apareceu o conceito de “próximo”. Do quinto ao décimo mandamento, tudo se refere ao próximo. Na concepção da Tábua da Lei, Moisés ressaltou o próximo como alguém que deveria ser respeitado nos seus direitos pessoais e patrimoniais.

Jesus ampliou o conceito de próximo trazido por Moisés. O próximo não seria mais uma criatura subjugada a Deus, mas, sim, seu filho, como Partícula da Inteligência Universal que era, pois emanou dele, para seguir o seu caminho, para fazer a sua trajetória evolutiva, iterativa, isto é, pela reencarnação e pelos ensaios e erros. Portanto, o próximo passou a ser a pedra angular do processo libertador do Espírito.

Jesus ensinou também que o próximo, além de ser o nosso irmão, pois todos nós temos a mesma origem, a Força (Deus), é também alguém que, pela Lei da Causa e Efeito, evolui inter-relacionado conosco, guardando uma estreita relação de débito e crédito. O próximo está atrelado a nós no processo reencarnatório e somente poderemos galgar os graus evolutivos superiores se seguirmos a seguinte lei natural: “Quem bem faz, para si está fazendo”.

Jesus também acrescentou aos ensinamentos de Moisés a existência da vida futura, que ele não havia falado, e das penas e recompensas que esperam o homem depois da desencarnação, de acordo com a lei: “Não as faças que as pagas”.

Jesus ensinou ainda que a nossa morada verdadeira não é o planeta Terra. Será um dos milhares de milhões de mundos que estão no espaço sideral, carregando cada qual suas humanidades de um ou mais graus evolutivos.

A doutrina de Jesus, o Cristo, assim que começou a ser difundida, exerceu uma atração muito grande naquele povo, que passou a propagá-la dia a dia cada vez mais. Ela despertou naquela nação oprimida a esperança de um futuro melhor. Era uma espécie de aurora para as pessoas pobres, para. as mulheres e para as crianças, que na ocasião não possuíam nenhum direito, desde a mais remota Antigüidade. Eram os párias sociais da época.

Jesus foi um filósofo profundo. Com os essênios aprendeu e desenvolveu poderosas faculdades paranormais (mediúnicas) e, mergulhando no estudo, compreendeu a Verdade, em toda a sua plenitude, divulgando-a depois junto às massas populares, com um alto poder de comunicação, tanto quanto essas massas podiam entender.

Aos humildes e ignorantes, ensinava com paciência e com tolerância. Aos escribas e fariseus, ele os desmascarava e repreendia com energia sempre que eles deturpavam ou mistificavam conscientemente. Para estes foi um acusador enérgico. Não falava para agradar. Os fariseus odiavam-no por revelar seus desígnios ocultos e admoestá-los.

Tio Marcos, quem foram os essênios? - perguntou Solange.

Muito bem, Solange. A sua pergunta vai ajudar a esclarecer qual foi a escola de Jesus - disse tio Marcos.

Os essênios eram ascetas e místicos de uma antiga e misteriosa seita judaica. Viviam em pequenas comunidades localizadas no lado ocidental do Mar Morto e no Lago Maoris, no Egito, onde eram conhecidos como terapeutas. Em 1947, alguns mercadores beduínos descobriram rolos de manuscritos, dos quais o principal é o “Manual de Disciplina”. Esses documentos remontam, pelo menos, ao segundo século pré-cristão. Essas fontes apresentavam os essênios vivendo uma vida simples, meditativa e contemplativa. Eram frugais, vegetarianos, castos, contrários ao sacrifício de animais e à escravatura, e mantinham os seus bens em comum. Foi uma seita que não teve analogia com qualquer outra, baseada em princípios e mistérios que são diversamente interpretados como cabalistas, pitagóricos, orientais, maçônicos, além de judaicos. Ensinavam as doutrinas da preexistência da alma e da reencarnação. Seus membros mais eruditos expunham as Escrituras por meio de símbolos e parábolas. Estudavam o Torah, isto é, os primeiros cinco livros da Bíblia, que contém a essência da lei mosaica. A filiação à seita não dependia de raça, e sim da livre escolha do pretendente, o que denota não terem tido ligação com as sinagogas dos fariseus. Foi entre eles que Jesus conviveu durante vários anos da sua mocidade.

Entre os anos de 1947 e 1956, mais pergaminhos foram descobertos em onze cavernas, nas vizinhanças do Mar Morto, onde hoje fica a Cisjordânia, perfazendo aproximadamente mil textos escritos em pele de carneiro. Ficaram sendo conhecidos como os Pergaminhos do Mar Morto. Esses pergaminhos registram fatos ocorridos entre os anos 250 a.C. e 68 d.C., justamente na época, segundo os Evangelhos, em que viveu Jesus. A partir de 1991, um acervo de aproximadamente 800 manuscritos foi liberado aos pesquisadores, e aproximadamente 250 estão em poder de autoridades israelenses e de estudiosos católicos.

Os pesquisadores constataram que os pergaminhos escritos pelos essênios, pelo menos aqueles que foram liberados ao público, não mencionam, numa primeira constatação, nenhum dos apóstolos, nem a figura de Jesus conforme a descrita nos Evangelhos. Em compensação, fornecem um quadro completo das crenças e do modo de vida de várias seitas judaicas que se confrontavam na época de Jesus.

O escritor John Dominic Crossan, um especialista em Bíblia, escreveu no seu livro Jesus, uma Biografa Revolucionária que o pensamento de Jesus era similar ao dos filósofos gregos da Escola Cínica, vigente na época. Os cínicos eram filósofos gregos antigos, como Diógenes (327 a.C.), que professavam uma moral ascética e um desdém absoluto às conveniências sociais da época. Pregavam a libertação em face do mundo e de todas as paixões humanas. Afirmavam que o bem ideal estava na Virtude, que era colocada acima dos bens materiais.

Segundo Crossan, Jesus ensinava a igualdade de condições para todos os membros da sociedade. Era radical nesse igualitarismo. Jesus também exigia que seus discípulos fossem itinerantes.

Em face desta pregação libertadora, as adesões à sua doutrina aumentavam diariamente. Isto contrariava muito os doutores da lei do Sinédrio, isto é, do tribunal dos judeus em Jerusalém, composto de sacerdotes, os quais julgavam tanto as questões criminais como as políticas.

No auge da sua pregação na Galiléia, Jesus entrou definitivamente em conflito com os seus contemporâneos, autoridades judaicas, governo romano e sacerdotes hebraicos.

As autoridades achavam que a doutrina ensinada por Jesus implicaria numa transformação política radical. As autoridades romanas acreditavam que os ensinamentos de Jesus sutilmente espalhariam a subversão entre o povo. Em face dessa situação, o Sinédrio insuflou o procurador romano Pôncio Pilatos e este prendeu, condenou e crucificou Jesus, o Cristo, como se ele fosse um malfeitor.

Antes dos Evangelhos, o ambiente cultural da Judéia ocupada pelos romanos era elevado, pois predominava a cultura grega. Muitos possuíam discernimento mental suficientemente desenvolvido para entender a moralidade ensinada por Jesus e desprezar a religião vigente.

O desenvolvimento intelectual, nestes tempos, baseava-se nos ideais morais ensinados pelos gregos, pois, para esses filósofos, o conceito bíblico de Deus não era lógico. Sócrates (469-399 a.C.) foi o filósofo moralista que mais influenciou essa época, por ter sido o ponto mais alto do pensamento humano já manifestado. Foi o fundador da ciência moral. Como introdução das suas aulas afirmava: “Só sei que nada sei”, “Conhece-te a ti mesmo”, “O Espírito é o único assunto digno de estudo”, “O verdadeiro Eu não é o corpo, mas a alma, a vida, a vida interior”, “O homem inteligente fatalmente há de preferir o bem”, “O homem mau é antes de tudo um ignorante”. Aos 71 anos de idade, virtuoso, recusou escapar da morte imposta pela lei e bebeu cicuta por “não ter respeitado os deuses e ter corrompido a juventude”. Sócrates foi o mártir da razão humana.

Tio Marcos, o que quer dizer Evangelho? - perguntou Fernanda.

Evangelho quer dizer boa nova em grego. O Evangelho é constituído por quatro livros, contendo quatro biografias de Jesus, cada qual relatada por autores diferentes, chamados evangelistas.

Não devemos aceitar o Jesus descrito nos Evangelhos, porque seu comportamento relatado nestes livros discorda fundamentalmente do perfil de um espírito superior, que o bom senso aceita e a razão compreende.

O escritor Burton Mack, outra autoridade bíblica, escreveu no seu livro O Evangelho Perdido que: “Os Evangelhos narrativos não podem almejar serem relatos históricos. Os Evangelhos são criações imaginárias”.

Esses livros são atribuídos a alguns discípulos de Jesus, também chamados apóstolos. Os autores dos Evangelhos são Mateus, Marcos, Lucas e João. Em geral, considera-se o que Marcos escreveu o mais antigo e que serviu de base para os Evangelhos de Lucas e de Mateus. Já o Evangelho de João é uma redação original. Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos entre os anos 70 e 80. Já o de João foi escrito por volta de 100.

O Evangelho de João é o que menos fé merece, por estar todo impregnado de influência grega e de ter sofrido várias revisões para adaptá-lo aos objetivos religiosos e místicos da Igreja Católica.

Estes Evangelhos incorporam o Novo Testamento do Cristianismo e foram redigidos inicialmente em grego.

Os 800 pergaminhos do Mar Morto, que eu já comentei, não falam nada dos apóstolos nem de Jesus, o Cristo. Pode ser que os 250 restantes, cujo conteúdo não foi ainda divulgado, contenham alguma coisa.

Jesus viveu num período particularmente tumultuado da história judaica, marcado por guerras e revoluções.

A Jerusalém daqueles tempos era um lugar em que conviviam, juntamente com as tradições gregas, a opressão romana e a cultura das seitas hebraicas.

Desse caldo de culturas diferentes, brotou o Cristianismo.

Depois da morte de Jesus, o número de crentes da doutrina foi crescendo incessantemente. Os correligionários acreditavam num próximo regresso de Jesus, o qual, voltando com poderes ilimitados, soberano, absoluto, viria para premiar os seus discípulos. Essa esperança constituía uma alucinação absorvente e contagiosa, em virtude da propaganda que neste sentido era feita pelos primeiros cristãos fanáticos.

Aos poucos foi se extinguindo a geração contemporânea de Jesus, portanto depositária direta dos seus ensinamentos, e daí em diante foi se deturpando a doutrina original, surgindo um Cristianismo sobrenatural, contemplativo, místico, religioso, impregnado de rezas, orações, lendas e milagres.

No ano 70, por ocasião da grande revolta dos judeus, os romanos destruíram a cidade de Jerusalém, inclusive o Templo de Salomão, que tinha sido restaurado por Herodes, rei da Judéia de 40 a. C. a 4 d. C.

A partir da Judéia, o Cristianismo passou a ser pregado pelos apóstolos itinerantes nos países do Mediterrâneo.

O apóstolo mais ativo da Igreja nascente foi Paulo de Tarso, que propagou o Cristianismo a seu modo, na Ásia Menor, Grécia, Macedônia, Itália e todas as povoações de fala grega. Por isso, o grego foi a língua do Cristianismo nos primeiros tempos.

Paulo de Tarso nasceu na Cilícia, região da Turquia asiática, a 15 d. C. e faleceu no ano 67 d. C. em Roma. Era de origem judia, mas de cidadania romana. Recebeu forte educação religiosa, que fez dele um fervoroso fariseu, adversário dos cristãos.

Quando Paulo de Tarso apareceu, o Cristianismo primitivo já estava muito influenciado pela cultura grega e enveredava para o dogma. Para não ser destruído, defendia-se das possíveis perseguições atacando aos adversários antes de por eles ser atacado.

Era já o deus cruel e vingativo dos hebreus quem prevalecia, conforme Moisés ensinou: “Olho por olho, dente por dente”, que sucedia a doutrina preconizada por Jesus, que havia ensinado ser o princípio de todas as coisas “o Grande Foco de Luz” que, espargindo-se sobre todas as consciências humanas, orientava-lhes a trajetória da evolução e do progresso. Os cristãos de então passaram a aceitar o sobrenatural, os milagres, enveredando para os peditórios, para o misticismo e para as rezas. Isto porque, para o homem, a coisa mais difícil foi sempre pensar.

Essa deturpação do Cristianismo, adotando nova concepção religiosa, iria fazer no futuro, pelos séculos afora, mais estragos e violências do que haviam feito as superstições do paganismo, já então em declínio acentuado.

Foi justamente nesta fase que apareceu o famoso perseguidor dos cristãos.

O aparecimento de Saulo de Tarso no cenário religioso cristão e suas causas determinantes são fatos que nunca ficaram bem esclarecidos.

Ninguém ignora que ele foi de uma crueldade insuperável na perseguição aos cristãos, como autêntico fariseu que era e discípulo do sumo sacerdote Gamaliel. Na época, ano 37, Estevão era um dos sete diáconos da primeira comunidade cristã de Jerusalém. Estevão era um judeu convertido que falava grego. Foi perseguido por Saulo de Tarso e apedrejado. A ferocidade desse assassinato abalou na época profundamente os cristãos, que desde então passaram a temê-lo.

A conversão de Saulo de Tarso ao Cristianismo nunca ficou bem explicada.

Alguns explicam esta mudança levando-a à conta de histerismo religioso, argumentando que o Saulo convertido continuou tão violento e intolerante como tinha sido o Saulo fariseu.

Além do histerismo religioso, outra causa, mais compatível com o perfil comportamental de Saulo de Tarso, a História registrou. Foi o seguinte: o sumo sacerdote Gamaliel tinha uma filha de rara beleza e grande cultura, por quem Saulo de Tarso se apaixonou.

Ambicioso, ele pretendia também, desposando-a, suceder a Gamaliel e tornar-se o chefe religioso dos israelitas, galgando assim uma posição social invejável em Jerusalém.

Neste sentido expôs ao pai da jovem a sua pretensão, já certo do êxito.

Contudo, a fúria de Saulo de Tarso contra os cristãos causava horror à jovem que, mesmo sendo muito tolerante e compassiva, repeliu o pretendente. Essa atitude da jovem desnorteou-o terrivelmente. Esta repulsa foi o desmoronamento de um imenso castelo de cartas e a liquidação das suas pretensões de predomínio, de vir a ser o sumo sacerdote.

Ambicioso como era, não podendo obter uma supremacia entre os judeus, pensou em conquistá-la entre os cristãos.

Conseguiu isso à custa da célebre aparição na Estrada de Damasco, historieta que contou a seu modo, talvez interessante para crianças de tenra idade, mas sem nexo, sem lógica, sem fundamento, que somente por medo poderia ter sido aceita por aqueles que, tendo sido já objeto de suas perseguições, temiam-no profundamente.

Tio Marcos, que aparição foi essa na Estrada de Damasco? - perguntou Solange.

Saulo de Tarso viu na Estrada de Damasco uma aparição de Cristo, que fez com que caísse por terra e ouvisse Jesus dizer:

 Saulo, Saulo, por que me persegues?

E Saulo, atônito, perguntou:

 Quem és, Senhor?

E a aparição respondeu-lhe:

 Eu sou Jesus, a quem tu persegues.

 Senhor, que queres que eu faça?

E disse-lhe o Senhor:

 Entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.

Saulo levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via ninguém. Estava cego.

Esteve três dias sem ver.

Em Damasco, o Senhor apareceu a Ananias, e disse-lhe:

 Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos reis, dos filhos de Israel e dos gentios.

E Ananias foi, entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse:

 Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e seja cheio de Espírito Santo.

E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas e recuperou a vista. Levantando-se, foi batizado.

Esta lenda, contada por Saulo de Tarso, é inverídica. É impossível ter acontecido. Sabemos, de acordo com as Leis Naturais e Imutáveis que regem o Universo, que um espírito do Astral Superior, como Jesus Cristo, não tem condições de se manifestar no planeta Terra, sem o apoio de uma forte corrente fluídica, formada por dezenas de médiuns de moral ilibada, honrados e cumpridores do dever.

E pensar que foi sobre essa historieta que se fundou a Igreja Católica, conforme veremos a seguir.

Saulo, depois de convertido, mudou o nome para Paulo, como homenagem e reconhecimento a Sergius Paulus, procônsul romano em Chipre, onde este tolerou que ele um dia fizesse a sua pregação.

Qual era, porém, a natureza da pregação de Paulo e que rumos lhe imprimiria o recém-convertido?

Ele fez uma aprendizagem de alguns dias e logo principiou a pregar nas sinagogas.

Desde então, criou uma doutrina nova, baseada nos dogmas universais, dizendo-se inspirado pelos doze apóstolos de Jesus. Passou o Cristianismo a ser uma seita que misturou idéias judaicas com outras, oriundas do helenismo, firmando-se como religião revelada, isto é, de origem divina, fazendo de Jesus, “Deus” ele próprio.

Paulo, visitando Antióquia, centro cristão florescente desde o século I d.C., ali imbuído pela metafísica grega, pregava que Jesus fora o mediador e o salvador de toda a humanidade. Esboçava-se já o dogma da divinização de Jesus, que ia deixando de ser o Messias, como o apresentavam os cristãos da Palestina, para ser o Salvador, divindade cuja missão era imolar-se para a salvação do gênero humano. Copiava os deuses do politeísmo de Canaã, da Palestina.

A atuação de Paulo de Tarso foi tão grande na evangelização dos povos do século I d.C. que certos autores atribuem-lhe o papel de segundo fundador do Cristianismo.

Para alguns estudiosos do Catolicismo, quem primeiro exerceu as funções de verdadeiro papa foi Paulo de Tarso. Era ele quem doutrinava os primitivos súditos, como autoridade suprema.

Paulo, em 58, tinha um comportamento dúbio. Ora preconizava uma coisa, ora praticava em público ostensivamente outra. Essas atitudes ocasionavam perturbação e confusão na comunidade cristã de Jerusalém e incomodavam muito o Sinédrio.

Neste ano, indo a Jerusalém, o povo fez tudo para linchá-lo. Nessa situação, o procurador romano foi instigado pelas autoridades judias a prendê-lo. Preso, a sua condição de cidadão romano valeu-lhe a transferência do seu julgamento para o Tribunal do Imperador e ele foi transferido para Roma, onde passaria dois anos em liberdade vigiada.

Em continuação a esse fato, há duas versões: uma diz que entre os anos de 62 e 64, ele foi martirizado em Roma. Outra, defende a idéia de que ele foi libertado pelos romanos e, após novas viagens missionárias, teria sido decapitado em 67, na Estrada de Óstia, em Roma.

A sua contribuição para a literatura do Catolicismo foram catorze epístolas (cartas), as quais trazem um resumo do seu pensamento e da sua personalidade.

Entre 64 e 67, Pedro foi considerado o primeiro papa. Diz a tradição que ele exerceu uma autoridade superior na Igreja Cristã de Jerusalém.

Escavações realizadas sob uma basílica em Roma, lugar presumível do túmulo de Pedro, não deram o resultado esperado. Mostraram, contudo, que desde o ano 120 a lembrança do apóstolo Pedro era venerada naquele lugar.

Os romanos, em matéria religiosa, eram em geral tolerantes com os povos conquistados. Mas os cristãos, negando-se a cultuar os deuses pagãos e a adorar a pessoa do imperador romano, foram considerados rebeldes, foras-da-lei e inimigos do Império.

Para divertir o povo de Roma, Nero processou e castigou cruelmente aqueles odiados malfeitores chamados cristãos. Diz a tradição católica que o apóstolo Pedro foi uma das vítimas das perseguições de Nero.

Os cristãos eram martirizados, crucificados e atirados às feras nas arenas dos circos romanos.

Muitas vezes, os cristãos utilizavam cemitérios subterrâneos, em Roma, chamados catacumbas, como centro de reunião, a fim de evitar as perseguições dos romanos. Essa perseguição durou 240 anos.

Vimos, até aqui, que a doutrina de Jesus, o Cristo, por ele ensinada até a data da sua crucificação, foi deturpada por Paulo de Tarso, o qual criou uma nova religião, o Catolicismo, apoderando-se da figura de Jesus, respeitado pelo povo humilde da Palestina.

Mais tarde, o Catolicismo de Paulo foi consolidado pelos evangelistas, em cujos escritos foram inseridos, além do dogma de Paulo, a “salvação” e outras posturas contrárias à lógica e ao bom senso, como a adoração, o temor a Deus, Céu, Inferno e outras fantasias, impedindo as massas de raciocinarem, tornando os católicos escravos mentais subjugados pelas rezas, em busca do perdão e das graças.

Há vinte séculos a Igreja afirma que o Catolicismo foi fundado por Cristo. Os estudiosos da História sabem que esta afirmação é falsa. A massa inculta pode acreditar nisso, mas a História não. A verdade é que o Catolicismo, sob o nome de Cristianismo, foi fundado pelo imperador Constantino.

Em 313, pelo Édito de Milão, o imperador Constantino de Roma concedeu a liberdade de culto aos cristãos. Com esse ato, o imperador Constantino tornou-se o primeiro imperador cristão de Roma. A partir de então, justificou a sua dominação sobre o Império, unificado por uma “teologia política”, pois a sua autoridade vinha de Deus e o seu poder imperial surgia como uma imagem terrestre da monarquia divina.

Na história da conquista do Império Romano por Constantino, há muita fantasia, pueril e ingênua, conforme passaremos a relatar.

Constantino achava-se comandando as legiões romanas na Grã-Bretanha, quando o imperador Diocleciano foi obrigado a abdicar, isto em 305, em conseqüência de revoltas em várias legiões, cujos soldados cristãos promoviam um motim.

Ambicioso ao extremo, Constantino sonhou com a conquista do trono vago, do qual Maxêncio seria o pretendente legítimo.

Conhecendo a força de que já dispunham os cristãos, pela sua expressão numérica, tanto nas legiões como na sociedade romana, para conquistar o apoio dessas tropas repetiu a farsa de Saulo de Tarso. Inventou a história do aparecimento nos ares de uma cruz luminosa, com os seguintes dizeres em latim: “In hoc signo vinces”, que se traduz: Com este sinal vencerás.

Divulgada a célebre aparição, que somente ele viu no acampamento militar, obteve a adesão de todos os cristãos, adotando para os seus exércitos um estandarte em que figurava a cruz, com os célebres dizeres latinos.

Investiu contra Maxêncio, derrotando-lhe as legiões. Venceu porque o seu exército era maior e mais bem-organizado.

Assumindo o Império Romano, iniciou uma série de crimes dos mais revoltantes. Começou mandando matar Maxêncio, após ter prometido ao general vencido salvar a sua vida.

Constantino também não hesitou em exterminar a própria família, irmão, esposa e filhos, suspeitos de conspiração.

Perspicaz, aproveitando um momento político propício, juntou os destroços de várias seitas que se diziam cristãs e que se hostilizavam reciprocamente, e as fundiu num só bloco homogêneo. Desde então, tornou-se o senhor dos cristãos e o clero nunca mais largou o poder.

Em 337, Constantino morreu, em meio aos preparativos de uma guerra com os persas. Foi enterrado em Constantinopla.

A legalidade conquistada pelo Cristianismo permitiu a realização de grandes assembléias de bispos de toda a cristandade, chamados concílios. Os que acataram a autoridade dos concílios constituíram a Igreja Católica. Os que não aceitaram foram denominados hereges.

Em 380, pelo Édito de Tessalônica, o imperador Teodósio proclamou o Cristianismo a religião do Estado.

Em 391, Teodósio, através do Édito de Milão, colocou o paganismo fora da lei.

Aos poucos, foi desenvolvida uma organização eclesiástica, monárquica. Então, o bispo de Roma assumiu o comando do clero, passando a chamar-se papa.

Tio Marcos - interrompeu Maria -, nisso tudo, como nasceu o Diabo?

Pouca gente sabe como surgiu essa ficção. Na mesma época em que o imperador Teodósio proclamou o Cristianismo a religião do Estado, era muito difundido entre os intelectuais o pensamento de um filósofo persa chamado Maniqueu (215-275). A sua doutrina chamava-se Maniqueísmo e transformou-se numa seita religiosa, que rapidamente se espalhou por todo o Oriente, África, Península Ibérica e pelo Império Romano.

Esta doutrina prega que o Universo foi criado e dominado por dois princípios antagônicos, opostos: o Bem e o Mal. O Bem é representado por Deus, o bem absoluto, e o Mal, representado pelo Diabo, o mal absoluto.

Então, tais princípios foram absorvidos pelo Catolicismo, isto é, pelo Cristianismo religioso do Estado romano. Isto foi feito da seguinte forma: inventaram uma estória, dizendo que um anjo mau, rebelando-se contra Deus, foi precipitado no Inferno e, desde então, ele procura a perdição e a desgraça da humanidade.

Com essa estória, passaram a dominar pelo terror os seus seguidores, ameaçando-os com os demônios e os fogos do inferno, domínio do Diabo. Era a condenação máxima dos pecadores ao fogo eterno.

A tradição popular passou a representar a figura do Diabo como um ser meio homem, meio cabra, de orelhas pontudas e chifre, com asas de morcego, braços com mãos aduncas qual garras de ave de pilhagem, uma cauda de ponta bifurcada e patas com cascos também bifurcados, geralmente de cor vermelha ou preta.

O incrível é que essa fantasia persiste até hoje, atemorizando os ingênuos, os semiletrados, os analfabetos e demais criaturas sem espiritualidade e sem esclarecimento.

Tio Marcos parou de falar, levantou-se, desejando uma boa-noite de sono a todos, e prometeu voltar ao assunto no dia seguinte.

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