A chave da Sabedoria Fernando Faria Índice analítico



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11. O Cristianismo II

Todos já estavam sentados e conversavam animadamente. As meninas falavam sobre o clube de campo da cidade vizinha, o Country Club, onde foram passar o dia com tia Zinha. Vô Mário era sócio. Os meninos comentavam as pacas que viram na beirada do rio, durante a pescaria que fizeram com Severo, quando tio Marcos entrou.

Bem, moçada, vamos continuar.

Em 1054 uma dissidência separou a igreja da cidade de Bizâncio, ou melhor, a Igreja Bizantina, fundada pelos gregos no século VII, da Igreja Latina. Surgiu dessa separação a Igreja Ortodoxa, também chamada Igreja Católica Apostólica Ortodoxa ou Igreja do Oriente.

Depois, no século XVI, ouve nova cisão, originada por um grande movimento religioso, criando numerosas igrejas cristãs dissidentes, que ficaram conhecidas como Igrejas Protestantes ou Evangelistas ou, ainda, Evangélicas.

Tio Marcos, esse movimento foi chamado de Reforma? Meu professor de História falou a respeito por alto - comentou Boris.

A Reforma foi um movimento revolucionário, religioso e político, ocorrido na primeira metade do século XVI, o qual quebrou a unidade católica na Europa Ocidental, onde uma parte da Igreja Latina, a maioria situada em países ao norte da Europa, separou-se, criando outra religião.

A Reforma, denominada também Reforma Protestante, tem como personagem central o monge alemão Martinho Luthero (1483-1546).

Em 1511, constatou, durante a sua estadia em Roma, que o Catolicismo já não era mais do que uma infeliz caricatura do Cristianismo primitivo e que as sucessivas deturpações sofridas pelos Evangelhos e outros textos canônicos obedeciam a um intuito premeditado de adaptá-los aos interesses mercantis da Igreja. Conscientemente, deu um grito de revolta diante do estado vigente das coisas, a saber: o ritualismo pagão, as deturpações das Escrituras e o tráfico de influências crapuloso e imoral que a Igreja de Roma praticava e que tão profundamente o impressionou.

Luthero, desde então, fulminou com os seus escritos o celibato sacerdotal, os votos, a abstinência, o culto dos santos, a confissão, o purgatório, a doutrina do pecado, respeitando apenas o Batismo e a Eucaristia (presença de Jesus representada pelo pão e pelo vinho).

O Vaticano, então, compreendeu que estava surgindo uma convulsão no seio da Igreja, de conseqüências imprevisíveis.

Em 1520, o Papa Leão X publicou uma bula excomungando Luthero e enviou um emissário à Alemanha para a respectiva promulgação solene.

Os escritos de Luthero foram aparatosamente queimados. Mas, em represália, Luthero, por sua vez, fez a queima da bula papal e simultaneamente de todas as leis eclesiásticas promulgadas na Idade Média, isto em praça onde era professor na universidade local.

O papa ficou irritadíssimo, pois via o seu prestígio seriamente abalado em todo o orbe católico.

Imitadores de Luthero surgiram na Suíça, França, Escandinávia e Grã-Bretanha.

Nos primeiros tempos da Reforma, foram criadas sucessivamente três novas igrejas cristãs principais: a Luterana, a Calvinista e a Anglicana.

Houve causas políticas, econômicas e religiosas na época que ajudaram a implantação da Reforma. No caso particular da Alemanha, a Reforma permitiu que a nobreza resistisse à autoridade da Família Imperial, enérgica defensora do Catolicismo.

Reis e nobres de diversos países do norte da Europa consideravam o papa um estrangeiro e viram na Reforma um modo fácil de apoderarem-se das propriedades eclesiásticas: terras, jóias, ouro, etc. As arrecadações de impostos pelo papa esgotavam esses países e enriqueciam a Igreja. A Europa do Norte sentia-se como se tivesse sido ocupada e conquistada por uma potência estrangeira que lhe impunha tributo. Havia também a vontade, por parte dos burgueses alemães, de acumular riquezas, sem sofrer nenhuma censura religiosa, pois a Igreja condenava os ricos.

O ideal ascético da Igreja Católica considerava o lucro, a cobrança de juros e o enriquecimento dos fiéis como imoral, como pecado.

Também, uma das causas do advento da Reforma foram casos graves de corrupção, tais como: a venda em larga escala de cargos eclesiásticos; a venda de indulgências, isto é, de perdões, mesmo para crimes hediondos.

Todo aquele que tivesse dinheiro e resolvesse canalizar uma parte dele para o Vaticano, tinha todo o direito de ser patife, crápula, criminoso e prevaricador, porque o pagamento de indulgências lhe punha a alma limpa. Outra das causas da Reforma está na vida escandalosa de alguns papas, como o dissoluto Rodrigo Borgia (1431-1503), então Papa Alexandre VI.

Tio Marcos, eu gostaria de saber alguma coisa a mais sobre a vida de Luthero! - falou Marquinho, que tinha uma coleguinha muito simpática que era luterana.

Martinho Luthero nasceu em Eislebeu, na Alemanha. Foi frade da Ordem de Santo Agostinho e professor de Teologia na Universidade de Wittemberg. Era muito sensível e constantemente perseguido pela idéia do pecado. Somente conseguiu a paz de espírito quando, estudando a obra de Santo Agostinho, convenceu-se de que a chave da salvação era a fé e a confiança em Cristo.

Deixem-me sair um pouco do assunto Luthero para falar desse Santo Agostinho, que muita influência teve na Igreja.

Santo Agostinho (354-430), padre da Igreja Latina, manteve-se por longo tempo alheio à Igreja, embora fosse filho de Santa Mônica. Buscava os prazeres carnais, levando uma vida amorosa conturbada, entregando-se a prazeres que depois condenou. Convertido em Milão, sob a influência do Bispo Ambrosio e pelas orações de sua mãe, foi batizado em 387. Retornou para a África. Foi ordenado padre e feito depois bispo de Hipona, em 398. Sua obra escrita é imensa, destacando-se a obra A Cidade de Deus (413-427), que é o tratado fundamental da teologia cristã da História. Santo Agostinho morreu no início do cerco de Hipona pelos vândalos. Ficou célebre a sua frase: “A mulher é a porta do diabo”.

O Papa Gregório IX, em 1223, cheio de zelo, confiou o Tribunal da Inquisição somente aos religiosos da Ordem de São Domingos. Esses frades, querendo evitar que se dissesse deles o que se falava dos bispos acusados de serem demasiadamente benévolos, caíram no extremo oposto, exercendo o seu cargo com muito rigor. Os dominicanos foram os assassinos da Inquisição. Mais adiante, explicaremos por que essa ordem foi criada.

Mas voltemos ao nosso assunto, Luthero.

Como eu estava dizendo, em 1517, Luthero sublevou-se contra a “questão das indulgências”, contra o sistema de “perdoar pecados” mediante pagamento, o que considerava um comércio torpe. Atacou os dogmas e rituais da Igreja, o que levou o Papa Leão X a condenar esta sua posição, exigindo retratação. Luthero, porém, como eu disse, queimou em praça pública a bula condenatória em dezembro de 1520 e foi excomungado. Começou então a Reforma.

Condenado como herege, mas protegido pelo príncipe da Saxônia, refugiou-se, permanecendo oculto até a morte do Papa Leão X. Nesse período, Luthero traduziu a Bíblia para o alemão corrente, numa tradução clara e acessível a todos.

Em 1529, Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, convocou uma assembléia política, a Dieta de Spira. Nessa reunião, resolveram tolerar o Luteranismo onde já existisse; contudo, decidiram evitar a sua propagação às novas cidades. Cinco príncipes e catorze cidades protestaram contra essa decisão, daí a origem do nome protestante.

A partir de 1555, o Luteranismo foi estendido rapidamente da Alemanha para a Suécia, Noruega e Dinamarca.

Na França, João Calvino aderiu ao movimento reformista. Em 1533, foi perseguido por Francisco I, rei da França (1515-1547), e fugiu para a Suíça. Em Basiléia, redigiu uma síntese da sua doutrina, publicada em 1536.

Nessa época, Calvino tinha 26 anos de idade e um caráter ríspido e despótico.

Calvino não permitia o menor deslize na prática da sua doutrina. E os castigos eram duríssimos, que iam desde beijar a terra publicamente até ser queimado vivo, como aconteceu com Miguel Servet (1511-1553), médico e teólogo protestante espanhol que, em seu livro Restabelecimento do Cristianismo, negou a divindade de Jesus Cristo.

Essas idéias de Servet foram consideradas inaceitáveis, tanto pelos católicos como pelos protestantes. Para escapar da Inquisição espanhola, ele fugiu para Genebra, onde foi preso e queimado vivo, depois de ter sido processado por Calvino.

Este, julgava-se delegado divino na Terra. Dizia ele: “Recebo de Deus o que eu ensino, e Deus me outorgou a graça de declarar o que é bom e o que é mau”. Calvino foi um grande fanático.

O Calvinismo é mais radical que o Luteranismo. Para ele, a salvação é obtida só pela fé, e não pelas obras. Preconiza que a fé é um dom concedido por Deus. Há homens que nasceram marcados para a salvação, os eleitos, ou para a condenação, os réprobos. Esta é a doutrina da predestinação absoluta, peculiar ao Calvinismo.

Já o Sr. Racional afirma que a predestinação não existe. O nosso futuro dependerá somente do que fizermos do nosso livre-arbítrio hoje. Daí a necessidade de aprendermos a pensar e a raciocinar.

Os huguenotes da França, os reformistas da Holanda, os presbiterianos da Escócia, os puritanos da Inglaterra, eram todos calvinistas.

Tio Marcos, agora há pouco o senhor falou em Inquisição. O que vem a ser isso? - perguntou Solange.

A Inquisição foi um tribunal eclesiástico, instituído pelo Papa Inocêncio III, encarregado de reprimir a heresia.

As primeiras vítimas da Inquisição foram os albigenses, uma seita religiosa que existiu no sul da França no século XII. Foram todos dizimados. Até 1209, foram massacradas mais de 50 mil pessoas.

Foi a perseguição aos albigenses que deu margem à criação da Ordem Dominicana, cuja finalidade era estirpar a heresia, objetivo que tão tristemente celebrizaria os padres dessa ordem.

Era lúgubre a procissão que conduzia os hereges à fogueira. Em Lisboa a procissão saía do paço onde estava instalado o Tribunal do Santo Ofício. O cortejo era precedido por uma escolta de arcabuzeiros que no ato da cremação servia para transportar a lenha. Seguiam-se os padres dominicanos, carregando uma cruz com um Cristo e logo atrás o estandarte vermelho de São Domingos, com a figura do santo empunhando uma espada flamejante.

Ante os progressos da Reforma Protestante, a Inquisição foi restaurada. A última vez que tinha sido acionada foi no Languedoc, na França, na cruzada contra os albigenses.

Para combater a Reforma, a reação católica foi a fundação da Companhia de Jesus e a reorganização da Inquisição.

Em 1534, Ignacio de Loyola fundou a Companhia de Jesus, aprovada pelo Papa Paulo III, para dedicar-se ao ensino, tornado indispensável para combater a Reforma Protestante.

Loyola foi um fidalgo e militar espanhol. Ferido em ação de guerra, durante a sua convalescença despertou a sua vocação religiosa.

A Companhia de Jesus não foi criada para a meditação, mas para a ação. Jesuítas, assim era chamados os padres pertencentes à Companhia de Jesus. Foram escritores, professores e missionários. Basta lembrar as notáveis figuras do Padre Antonio Vieira, Manoel de Nóbrega e José de Anchieta, que foram exceções.

O objetivo primordial dos jesuítas era firmar a crença católica em oposição aos protestantes, por meio da pregação, da confissão e do magistério.

Na História, eles foram sinônimos de indivíduos dissimulados, hipócritas e astuciosos.

Em Portugal e nas suas colônias, contrariaram os interesses da Coroa. Foram banidos pelo Marquês de Pombal. Pela lei de 3 de setembro de 1759, foram expulsos de Portugal e seus domínios. Os jesuítas declarados rebeldes, traidores, adversários e agressores foram exilados e tiveram os seus bens seqüestrados. Muitos foram presos, e o Padre Malagrida foi estrangulado e queimado em Lisboa.

Na Espanha, a Inquisição se tornou um instrumento político para combater a Reforma Protestante. Ela foi restaurada na sua forma primitiva, sob as ordens do papa.

Os inquisidores julgavam o delito de heresia e a justiça Real encarregava-se do castigo, que era aplicado com toda a crueldade.

O traço característico, tenebroso deste terrível tribunal era o absoluto segredo da informação judiciária.



Após uma pequena pausa, enquanto tia Zinha servia café com pipocas, tio Marcos continuou.

Que diferença existia entre a tolerância religiosa dos romanos e a tolerância religiosa católica?! As leis romanas, nos primórdios do Cristianismo, eram muito mais humanas e tolerantes que as leis católicas. O Panteon Romano admitia em seu interior os deuses de todas as seitas que dentro do Império tivessem alguns seguidores.

Contam que, um dia, solicitaram ao imperador Tibério licença para supliciar um cristão que havia ofendido os deuses romanos. Tibério deu a seguinte resposta:

 Não. Deixai que os deuses defendam eles mesmos a sua honra.

Tomás de Torquemada, inquisidor espanhol (14201498), prior do convento dominicano de Segóvia, tornou-se inquisidor-geral de toda a Península Ibérica em 1483. Sua intolerância manifestou-se pela expulsão dos judeus e pela morte na fogueira de mais de 8 mil pessoas. Essas condenações ocorriam muitas vezes por fanatismo, outras por razões políticas de interesse da Monarquia e outras por suspeitas de bruxaria.

A Inquisição dispunha de um exército regular, bem armado, cuja função era procurar hereges protestantes, judeus e cristãos-novos.

Em 1545, o Papa Paulo III criou a Congregação da Inquisição, sob o nome de Santo Ofício.

Portugal adotou a Inquisição em 1557, no reinado de D. João III, seguindo o sistema recebido da Espanha.

Quando os espanhóis foram à América, levaram consigo a Inquisição. Portugal introduziu-a nas índias Orientais.

Estima-se um total de aproximadamente 186 mil o número de pessoas entre as assassinadas, torturadas, condenadas à prisão perpétua e com os bens confiscados, que foram vítimas da intolerância católica.

O Catolicismo em nome da conquista para levar a luz do Evangelho aos gentios massacrou, a partir do século XVI, 19 milhões de índios na América do Norte, América Central e América do Sul.

Na Europa, os melhores artesãos, os mais eminentes sábios, os comerciantes mais importantes, os melhores médicos, todos procuravam fugir para não cair nas garras sanguinárias dos Torquemadas.

Joana D'Arc, nascida em Domrémy em 1412 e desencarnada em Rouen em 1431, foi a heroína francesa que venceu os ingleses, quando estes procuravam conquistar a França. O rei da França, Carlos VII, sentindo-se abandonado, pensava em refugiar-se na Escócia, quando o aparecimento de Joana D'Arc lhe deu consciência da legitimidade do seu reinado. Joana D'Arc, pela primeira vez na História, difundiu o sentimento nacional, o patriotismo, o espírito de unidade da nação francesa. Este foi o ponto de partida de uma difícil reconquista do reino da França aos ingleses. Mas essa nova postura do povo incomodou muito o Vaticano, pois o clero francês havia sido submetido ao rei.

Comandando as batalhas contra os ingleses, Joana D'Arc quis socorrer Compiègne, cidade francesa às margens do Rio Oise, cercada por tropas do Duque de Borgonha. Foi aprisionada em 1430 e entregue aos ingleses. Após um processo vergonhoso, foi acusada de feitiçaria, pois ouvia vozes, intuições do Astral Superior. Por isso, foi condenada à fogueira pelo Tribunal da Inquisição, presidido pelo bispo de Beauvais, morrendo na fogueira, na praça do velho mercado, na cidade de Rouen, em 30 de maio de 1431. Tornou-se, mais tarde, uma heroína nacional. Os bonzos do Vaticano a canonizaram em 1920.

Foi preciso que Napoleão Bonaparte, o maior gênio militar de todos os tempos, comandante do grande exército francês, entrasse vitoriosamente na Espanha, em 1808, para pôr termo ao canibalismo clerical da Inquisição, vigente na Espanha e em toda Península Ibérica até aquela época. Em 1834, a Rainha Maria Cristina de Bourbon expulsou os inquisidores de todos os domínios da Espanha.

 Tio Marcos, por que tantos crimes foram praticados em nome de Jesus? - perguntou intrigada Solange.



O Sr. Racional explica bem esta questão. Foi pela existência do fanatismo. O fanatismo é condenável pelo poder que tem de impedir que o raciocínio seja aplicado para resolver situações difíceis. Com a razão colocada de lado, as pessoas partem para soluções através da violência.

O fanatismo religioso é o mais nocivo defeito da alma humana, pois, gerando ódios e paixões, leva as criaturas a cometerem atos desumanos e crimes abomináveis. Na história da humanidade, nunca existiram guerras tão bárbaras quanto as religiosas, de tamanha crueldade e de tanto vandalismo como aquelas em que participaram os cruzados, cujo ódio os levou a despedaçar mulheres, crianças e velhos, todos indefesos e aterrorizados.

A pavorosa Noite de São Bartolomeu, na França, ficou marcada com o sangue de milhares de vítimas, assassinadas à traição, de emboscada, por serem huguenotes, assim chamados os calvinistas.

Essa chacina foi iniciada em 24 de agosto de 1572. Como as prisões também foram muitas, além do morticínio geral, as execuções prolongaram-se pelos meses de setembro e outubro seguintes, em várias cidades, nelas tendo tomado parte saliente, tristemente saliente, o clero e muitas confrarias. Houve historiadores que calcularam em mais de 50 mil o número de vítimas. Esse é um exemplo bem ilustrativo dos extremos a que o excessivo zelo religioso pode levar o homem.

O homem, que é por excelência um espírito criador, quando influenciado pela falsa idéia do milagre, da fé, da ajuda divina, da proteção celestial, chega muitas vezes ao fracasso, achando que foi porque Deus assim o quis. Mas não é assim. Fracassou porque desconhece a existência em si mesmo de duas poderosas forças, as quais na maioria das pessoas jazem adormecidas e ignoradas. Estas forças são o pensamento e a vontade.

A força de vontade é a mais poderosa alavanca de que dispõe o Espírito para chegar ao triunfo, não existindo dificuldades, dentro das limitações humanas, que ela não seja capaz de superar.

A força de vontade não conhece a timidez, nem tampouco o desânimo, e tem o poder de subjugar todas as fraquezas, todas as paixões, todos os vícios, no momento em que o ser humano souber como utilizar-se conscientemente desse atributo.

Quando o espírito encarnado for assaltado por um desejo inferior, se possuir força de vontade bem desenvolvida, ela intervém, dominadoramente, vencendo esse desejo, principalmente se o aliarmos à renúncia.

A força de vontade bem desenvolvida é o resultado de uma série de sucessos alcançados com esforço e decisão nas encarnações passadas. Desta forma, é uma conquista e um grande recurso para vencermos as mais árduas pelejas da vida.

 A propósito, vocês conhecem a estória das duas moscas? - perguntou tio Marcos.

 Não - responderam todos.

 Pois bem, vou contá-la.



Duas moscas, em busca de alimentos, vieram voando e pousaram na borda de uma xícara contendo leite frio. Ambas, de tanto ir e vir na borda, acabaram caindo no leite.

Uma delas, desesperada, começou a gritar:

Socorro, me ajudem! Estou me afogando! Meu Deus, valei-me!



E começou a rezar em voz alta. Mas como rezas não ajudam ninguém em nada, foi se afundando, afundando e morreu afogada.

A outra permaneceu calma, boiando, e começou a raciocinar: “Com a minha força de vontade, eu vou sair daqui”.

E começou a bater as pernas incessantemente. Quando o cansaço chegava, ela pensava: “Não vou desistir, eu vou sair dessa”. E continuava a bater as pernas no leite. Bateu tanto que o leite foi endurecendo, virou manteiga e ela, galhardamente, apoiada na manteiga, levantou vôo.

Também a força do pensamento é um grande recurso que possuímos. Ela tem a grandeza do grau evolutivo que o ser humano atingiu.

Desde que o Espírito cresça na consciência de si mesmo e se identifique com as suas poderosas faculdades latentes, encontrará na força do pensamento o instrumento seguro e eficaz para a realização de todos os seus anseios e aspirações e saberá como proteger a sua saúde física e mental.

O pensamento vigoroso emana do espírito forte, adestrado, experiente. Em cada encarnação bem aproveitada, trabalha ele conscientemente para melhorar ainda mais a sua personalidade psíquica. E é na ordem deste progresso que crescem o poder do pensamento e a capacidade de conceber, de criar e de realizar obras cada vez mais importantes.

Tio Marcos parou, olhou para o relógio e disse:

Ainda temos tempo para eu contar uma pequena estória que revela o poder do pensamento, na prática.

Numa região montanhosa do Canadá, uma empresa construía uma usina hidroelétrica. Na região nevava muito e as máquinas do canteiro de obras eram movidas por eletricidade, através de uma linha de transmissão que vinha de uma subestação, distante vários quilômetros.

A empresa construtora estava encontrando dificuldades para manter o programa de obras, porque a neve, acumulando-se nos condutores da linha de transmissão, pesava muito e os rompia, interrompendo o suprimento de energia elétrica, conseqüentemente paralisando as obras.

Várias reuniões foram feitas para que os técnicos encontrassem uma solução.

Houve quem sugerisse desativar a rede aérea e instalar cabos elétricos em valas pelo chão. Essa solução era economicamente inviável, porque os cabos elétricos custavam caríssimo, bem como a instalação era onerosa.

Também houve quem sugerisse diminuir as distâncias entre as torres de transmissão que sustentavam a rede trifásica, colocando mais uma torre entre duas já existentes. Essa solução também era inviável, pois a região era montanhosa e entre as duas torres existiam vales profundos.

Sugeriram, ainda, substituir os condutores por outros mais resistentes, com alma de aço, para que agüentassem, desta forma, o peso do gelo. Solução também inviável por dois motivos: custavam muito caro os novos condutores propostos e, pelo contrato, não teriam tempo hábil para fazer a substituição.

Quando faziam uma pequena pausa para tomar chá bem quente, pois estava fazendo muito frio, um jovem engenheiro ainda estagiário sugeriu o seguinte:

 Considerando-se que a meteorologia avisa com algumas horas de antecedência se vai ou não nevar, por que não se coloca de prontidão um helicóptero, para quando a chuva ou a neve começar o helicóptero levantar vôo e fazer passagens rasantes sobre a linha de transmissão, não deixando acumular água ou gelo nos condutores? Desta forma, o vento das hélices do helicóptero não deixaria acumular gelo nas linhas.

Todos olharam com admiração para o jovem e a aprovação da sua idéia foi por unanimidade.

A capacidade de usar o raciocínio e a criatividade do rapaz resolveu o problema por um custo bem baixo, considerando-se que o canteiro de obras era uma instalação provisória.

Tio Marcos levantou-se e despediu-se dizendo:

Amanhã falaremos sobre as nossas duas vidas. Boa noite.

12. As nossas duas vidas

Tio Marcos sentou-se, apanhou um cobertor dobrado ao lado da sua poltrona e cobriu com ele as pernas, pois fazia frio e estava chovendo. Depois, olhando para todas as crianças, iniciou.

A alma é o princípio espiritual do homem, oriunda do Grande Foco, portanto inascível, imortal e independente do corpo físico. Não possui realidade material ou física. É a sede dos pensamentos, dos afetos, dos sentimentos, das paixões e do conhecimento.

Nos últimos anos do século XX, a alma acessível à pesquisa científica de laboratório deixa de ser do “outro mundo” para se integrar neste.

A sua relação com o corpo físico mostra que ela não é sobrenatural, mas extrafísica, ou seja, apenas não sujeita às leis físicas.

A alma é uma entidade a que se atribui as características essenciais à vida e ao pensamento. Manifesta-se para evoluir, em mundos materializados como o planeta Terra, através da materialização de longa duração, aproximadamente 80 anos, via útero. Também pode manifestar-se em materializações de curta duração, utilizando para isso ectoplasma de médiuns de efeitos físicos.

Tio Marcos, o que é ectoplasma? Eu ainda não estudei isso - perguntou Marquinho.

Em 1870, William Crooks (1832-1919), físico e químico inglês de renome internacional, pelas várias descobertas que fez no campo da Física, fazendo experiências com os médiuns Daniel Dunglas Home, Kate Fox e Florence Cook, deu um impulso rigorosamente científico à Ciência Espírita. William Crooks estudou as materializações, ficando célebres as materializações do espírito de Katie King com a médium Florence Cook.

A materialização ou ectoplasmia se processa pela condensação do ectoplasma que, conforme os ensinamentos do Dr. Gustave Geley (médico francês), é uma substância amorfa, ora sólida, ora vaporosa, transparente ou de cor branca leitosa, que os médiuns segregam pelos poros do corpo e pela boca, nariz e ouvido. Os espíritos, geralmente do Astral Inferior, possuem a faculdade de moldar o ectoplasma, produzindo objetos ou novas formas com característicos anatômicos ou fisiológicos de órgãos do corpo humano, iguais aos dos vivos.

William Crooks publicou várias obras relatando suas pesquisas, destacando-se, entre elas, os livros Fatos Espíritas e Katie King.

O barão prussiano Shrenk-Notzing mandou fazer em laboratórios de Berlim e de Viena a análise química do ectoplasma. Essas análises revelaram tratar-se de matéria orgânica, com muitas células epiteliais, isto é, do tecido de revestimento da pele e das mucosas. Com isso, ficou provado que o ectoplasma provinha realmente do organismo do médium.

Caberia aos russos, a partir de 1939, continuar esse estudo utilizando câmaras kirlian, adaptadas a poderosos microscópios eletrônicos. Essas experiências estão relatadas no livro Experiências psíquicas atrás da Cortina de Ferro, de Sheila Ostrander e Lynn Schroeder, da Editora Cultrix.

As máquinas kirlian são máquinas fotográficas que tiram fotografias da aura humana.

Tio Marcos, o senhor poderia falar um pouco mais sobre a fotografia Kirlian? - pediu Marquinho.

Desde a Antigüidade, cerca de 3.000 a.C., os artistas das civilizações da época desenhavam um halo de luz em volta dos seus deuses e de pessoas moralmente evoluídas.

Na Idade Média, entre os anos 1000 e 1500, os pintores desenhavam os santos da Igreja Católica com uma auréola, tal qual um círculo dourado, envolvendo-lhes a cabeça.

Os egípcios, já em 3.000 a.C., afirmavam que os homens possuíam um segundo corpo espiritual, denominado KA. Afirmavam que o KA prendia-se ao corpo material por cordões de luz prateada. Após a morte do corpo material, com a decomposição, lentamente estes cordões vão se desfazendo, até libertar o corpo KA. Com a técnica do embalsamento, os egípcios impediam que o corpo físico entrasse em decomposição, impedindo o rompimento desses cordões fluídicos de luz prateada, ficando o KA preso indefinidamente ao corpo embalsamado. Desta forma contrariavam a lei natural, razão pela qual, segundo hipóteses de alguns estudiosos espiritualistas, foi banida do planeta Terra a civilização egípcia, não restando dela nem a raça nem a língua.

Algumas seitas esotéricas, como a Teosofia, a Yoga, o Ocultismo, a Maçonaria Filosófica, etc., afirmam que possuímos um segundo corpo chamado corpo astral, significando corpo de luz.

Esse corpo de luz irradia uma luminosidade que denominaram aura. Possuem aura os elementos minerais, as plantas, os animais e o homem. No homem ela é uma luz que envolve a superfície do corpo numa espessura de vinte centímetros.

As seitas espíritas dizem que possuímos um segundo corpo, chamado perispírito. Quem criou essa terminologia foi Allan Kardec, em 1854. Kardec afirmava que o homem é constituído de três partes, a saber: espírito (imaterial), corpo físico (material), e ligando o espírito ao corpo físico, por laços, existe um corpo semimaterial, ao qual deu o nome de perispírito. Essa nova palavra surgiu da analogia entre a constituição do homem e a constituição de um fruto. Envolvendo as sementes dos frutos há uma polpa, chamada pela ciência botânica de perisperma. Como o perisperma envolve a semente, também o perispírito envolve o espírito. Nesta analogia, a casca do fruto representaria o corpo físico.

O corpo de cada pessoa possui aura específica. A luz que essa aura irradia é a somatória das três auras: a aura do corpo material, a aura do perispírito e a aura do espírito.

Com o advento do Espiritismo Científico, desenvolvido por vários estudiosos do final do século passado e no início do século XX, vários videntes passaram então a narrar a existência das auras das pessoas, descrevendo as suas cores.

A partir de 1908, o Dr. Walter Kiler, em Londres, descobriu que uma película de diacina, produto químico derivado do carvão-de-pedra, era um estimulante da visão e era possível enxergar, através dessa película, uma luz em volta das pessoas observadas.

Em 1939, na Rússia, o casal Kirlian descobriu como fotografar a aura.

A fotografia kirlian é uma fotografia sem luz. A luz é substituída por uma radiação eletromagnética, na faixa de 75 a 200 mil ciclos por segundo. Portanto, é uma fotografia tirada com alta freqüência.

Opera-se da seguinte forma: coloca-se a mão, um dedo ou uma folha de árvore sobre um filme colorido, numa câmara escura, e dispara-se um fluxo de radiação de alta freqüência.

Revelado o filme, aparece, por exemplo, a figura da mão, e saindo da ponta dos dedos uma efluviografia com diversos raios de luz colorida de vários matizes.

Esta seria a fotografia da aura humana. Os cientistas descobriram que a coloração e a forma dessas efluviografias determinam o estado emocional e a saúde da criatura.

Para explicar as efluviografias, os cientistas russos dizem que possuímos um corpo energético, equivalente ao corpo físico, e deram a esse corpo o nome de corpo bioenergético ou corpo bioplasmático.

Essa descoberta propiciou a construção de microscópios e também de máquinas filmadoras cinematográficas para fazer pesquisas sobre o corpo bioenergético. Desde então, muita coisa descobriram, a saber:

1. As doenças dos homens, como a dos animais e das plantas, podem ser diagnosticadas primeiro no corpo bioenergético, através da fotografia da aura.

2. Os estados de espírito como o ódio, o pessimismo, a infelicidade, os sofrimentos, aparecem com efluviografias escuras, sem brilho, puxadas para a cor marrom lodosa e de formatos irregulares.

3. A felicidade, o otimismo, aparecem como efluviografias lindamente coloridas, luminosas, regulares e fulgurantes. As filmadoras kirlian revelaram que, quando duas criaturas humanas simpáticas entre si se encontram, suas auras se fundem, formando um ovóide brilhante, abrangendo as duas pessoas. Quando se antipatizam, as auras se repelem.

Em Curitiba, o médico psiquiatra Dr. Alexandre Sech é um grande pesquisador das efluviografias e do corpo bioenergético. Em algumas conferências que ele proferiu em Santos, afirmou que a aura de um espírito desencarnado pode causar interferência na aura de um encarnado. Em casos de obsessão essa interferência é tão grande que chega a predominar na efluviografia do encarnado somente a aura dominadora do obsessor.

Parece-nos que, em futuro próximo, a efluviografia será mais um importante recurso ao alcance da Medicina para fazer diagnóstico de doenças, como o são atualmente a radiografia, a tomografia e a ultra-sonografia.



Tio Marcos fez uma pausa, olhou o relógio de pulso e disse:

Agora, vamos continuar o nosso assunto, quando discorríamos sobre o ectoplasma.

Na pesquisa dos cientistas russos, o ectoplasma revelou-se como um fluxo de protoplasma, constituído de partículas atômicas, elétrons, prótons ionizados e outras partículas ainda não identificadas. Portanto, a sua constituição é de natureza material.

Segundo os cientistas russos, o corpo astral é tal qual um organismo unificado e apresenta-se resplandecente como um céu estrelado. A luminosidade ou a luz descrita pelos médiuns videntes tem agora a sua comprovação científica.

Mas voltando ao assunto, alma, para continuarmos é muito importante aceitar a reencarnação do Espírito que, pode-se dizer, foi provada pelas pesquisas do Prof. Ian Stevenson da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, conforme publicou no seu livro 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, Editora Edicel.

São também importantes para comprovar a teoria da reencarnação as pesquisas sobre as comunicações de espíritos, obtidas em gravação de fitas magnéticas, sem a intermediação de médiuns, iniciadas por Friederich Juraenson na Suécia, por Konstantin Randive na Alemanha e pelo Dr. Giuseppe Crosa em Gênova, na Itália, fundando a Transcomunicação.

Não podemos deixar de mencionar novamente a descoberta do corpo bioplasmático do homem, cuja existência foi comprovada pelos cientistas soviéticos, estudando a fotografia kirlian. Eles descobriram que o corpo bioplasmático do homem retira-se do respectivo corpo físico no momento da morte. Este corpo, descoberto pelos cientistas russos, é o mesmo corpo astral, isto é, o intermediário que liga o espírito ao corpo físico e, portanto, o que o modela e configura.

Em face desses fatos, existe no mundo científico uma tendência para a aceitação da tese do Prof. Joseph Banks Rhine, da Duke University dos Estados Unidos, a qual defende a sobrevivência do homem após a morte física e a possibilidade de sua ação sobre a matéria.

Outros cientistas de renome internacional, sérios e altamente competentes, chegaram a sustentar, com base nas suas investigações, a sobrevivência da mente após a morte física.

O Prof. Whately Carington, da Universidade de Cambridge, fazendo experiências de telepatia com a transmissão de desenhos, forneceu as primeiras provas científicas da precognição, isto é, de se poder conhecer algo antes de acontecer. Ele chegou a formular uma teoria da continuação da existência após a morte.

O Prof. Harry, catedrático de Lógica da Universidade de Oxford, sustenta a tese da continuação da vida post-mortem. afirmando que a mente humana sobrevive à morte do corpo e tem o mesmo poder da mente do homem vivo, de influir sobre outras mentes e sobre o mundo material. O parecer deste homem da ciência comprova a existência de obsessores, conforme os casos tratados pelo Racionalismo Cristão.

O Prof. Rhine, que já mencionamos aqui, no seu livro O Novo Mundo da Mente, reconhece que nas experiências estudadas por sua esposa, a Profa. Louise Rhine, também na Duke University, tratou ela de casos que sugerem a participação de uma entidade extracorpórea.

As pesquisas científicas de Rhine seguem um curso ascendente. Na primeira fase dos seus estudos provou que os fatos espíritas “paranormais” existem. Em seguida provou que a mente não é física e age por vias extrafísicas sobre a matéria. Em continuação, os seus seguidores provarão a sobrevivência do Espírito, satisfazendo os métodos da ciência oficial.

Eu quero lembrar a vocês que até agora os homens de ciência nada provaram contra a Ciência Espírita. Pelo contrário, somente têm comprovado os seus postulados, os quais vêm sendo anunciados desde a segunda metade do século XIX, por vários cientistas como William Crooks (1832-1919), Cezar Lombroso (1835-1909), Pinheiro Guedes (1842-1909), Charles Richet (1850-1935), Sir Oliver Lodge (1851-1940) e muitos outros.

O médico Dr. Pinheiro Guedes escreveu no seu livro Ciência Espírita, publicado pelo Racionalismo Cristão, que: “Por demonstração analítica, o Espiritismo é uma ciência. É ciência de observação, a qual também recorre ao método experimental; prova a existência da alma e que é ela quem dirige o corpo, quem o anima e o domina; que o corpo é para a alma o que a roupa é para o corpo, um agasalho, um abrigo contra as intempéries”.

Como a alma não tem os limites exteriores da matéria de que é constituído o corpo e que confere a este uma configuração, um aspecto particular, ela apresenta-se com a figura que lhe aprouver. Os espíritos do Astral Inferior geralmente são vistos pelos médiuns videntes como pessoas escuras, encapuzadas, sem mostrar o rosto ou, então, como bolas negras, conforme já nos referimos.

Estes espíritos estão por toda parte, aguardando a oportunidade de se associar àqueles cujos pensamentos e sentimentos se afinem com os seus, geralmente concernentes aos vícios, maledicência, sensualismo, fúria, usura e outros.

São esses espíritos que se manifestam, a qualquer hora, nas reuniões espíritas feitas em casas de família ou nos centros espíritas, tendas de umbanda, candomblé, ou mesmo na rua, num ônibus, se o médium não tiver controle. Desta forma, basta uma vacilada que, pela Lei de Atração, eles se apresentam às dezenas. São todos obsessores e pululam nos círculos esotéricos, reuniões teosóficas, lojas rosa-cruz, templos protestantes, centros kardecistas, reuniões carismáticas católicas; assessoram cartomantes, astrólogos, grafólogos, jogadores de búzios, assembléias sindicais, comícios e reuniões políticas.

Organizados em falanges, muitos ditam livros, fundam doutrinas, criam seitas e sistemas religiosos, cultuando e defendendo vivamente a sua “verdade”, que agrada o seu paladar psíquico, achando impura e dissociativa a “verdade” que não é da sua simpatia.

As religiões ou os sistemas que se julgam certos estão em guerra com os sistemas que julgam errados e a confusão aumenta porque todos apregoam que o seu sistema é o melhor e o único detentor da última verdade, quando não da verdade integral.

Isto ocorre porque estes espíritos do Astral Inferior não precisam de corrente fluídica pura para se manifestar. Basta a faculdade mediúnica do sensitivo, independentemente da sua moralidade, para lhe tomarem o controle da mente. Todos esses espíritos trazem os seus corpos astrais impregnados de fluidos maléficos, provenientes das regiões astrais onde vivem. Portanto, o relacionamento com eles só trará malefícios.

Essa foi a grande descoberta de Luiz de Mattos e de Luiz Alves Thomaz, fazendo pesquisas no Centro Amor e Caridade, em Santos, em 1910.

Os espíritos superiores, apoiados numa forte corrente fluídica, mantida por dezoito médiuns honrados e de moral elevada, apresentam-se aos videntes como grandes focos de luz colorida de elevada intensidade, geralmente com formato geométrico.

À medida que esses espíritos vão alcançando graus evolutivos mais elevados, opera-se neles a mudança na cor e no aroma que lhes são próprios, em virtude do novo estado moral alcançado.

Esses espíritos somente conseguem chegar até nós atraídos magneticamente por forte corrente fluídica, conforme acima nos referimos, obedecendo à rígida disciplina prescrita pelo Racionalismo Cristão, sendo tudo supervisionado pelo Presidente Astral do Racionalismo Cristão na Terra, o imortal Antonio do Nascimento Cottas, pelos presidentes astrais das Filiais do Centro Redentor e por um exército de espíritos auxiliares dos mundos opacos, verdadeiros soldados que preparam o terreno para os espíritos do Astral Superior se manifestarem, ainda assim por poucos minutos, oito ou dez no máximo.

Nas sessões do Racionalismo Cristão, nos dez minutos iniciais, quando se processa a limpeza psíquica, com o auxílio das correntes fluídicas, como antes já explicamos, os espíritos do Astral Superior penetram na atmosfera da Terra e coarctam o livre-arbítrio dos espíritos desencarnados presentes, arrebatam os obsessores de toda espécie, dos mais pacatos aos mais agressivos, e os transportam para os seus mundos de estágio.

Tio Marcos, o que é obsessão? - perguntou Serginho.

Existem dois sentidos para a palavra obsessão.

O primeiro sentido diz respeito à neurose obsessiva, que pertence ao campo da Psicanálise.

O segundo diz respeito à Ciência Espírita e foi muito estudado pelo Racionalismo Cristão.

Vamos falar sobre o que sejam esses dois casos.

A Psicanálise preocupa-se com a análise da alma, denominada psique. É uma ciência que estuda a alma com enfoque materialista.

A Ciência Espírita se preocupa com as provas da existência e da sobrevivência da alma, e com o futuro que a espera, de acordo com a sua trajetória evolutiva. Estuda a alma com enfoque espiritualista.

A neurose obsessiva foi estudada pelo Dr. Sigmund Freud (1356-1939), médico austríaco que desenvolveu a Teoria Psicanalítica. No início do desenvolvimento dessa teoria, Freud foi muito combatido na Alemanha. Em 1933, os nazistas queimaram uma pilha de livros de Freud, em Berlim. Ele comentou o fato:

 É um progresso o que está se passando. Na Idade Média, eles teriam jogado a mim na fogueira. Hoje em dia, contentam-se em queimar os meus livros.

Foi Freud quem revelou ao mundo o que existe nos porões da nossa consciência.

Vejamos os conceitos principais da sua teoria psicanalítica.

A mente é constituída de consciente, inconsciente e pré-consciente.

O consciente é somente uma pequena parte da mente. Contém tudo o que sabemos num dado momento.

No inconsciente estão os elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à consciência. Além disso, há material que foi excluído da consciência, censurado e reprimido. Este material não é esquecido nem perdido; contudo, não é permitido que seja lembrado. Os processos mentais inconscientes não são influenciados pelo tempo. Isto significa que é um arquivo o qual não é ordenado seqüencialmente, obedecendo a uma ordem de tempo. O tempo de modo algum os altera. A idéia de tempo não lhes pode ser aplicada.

A maior parte da consciência é inconsciente. Ali estão os principais determinantes da personalidade: as fontes de energia psíquica e os instintos.

O pré-consciente é uma parte do inconsciente, mas, uma parte que pode tornar-se consciente com facilidade. As porções da memória que são facilmente recordadas fazem parte do pré-consciente. Por exemplo: tudo o que fizemos ontem, o nosso segundo nome, a data do nascimento, etc.

Isto explicado, podemos dizer que muitas dificuldades com as quais lidamos no dia-a-dia têm origem nos primeiros anos da nossa infância.

Deve-se sempre ensinar as criaturas a enfrentar os problemas, principalmente aqueles que possam induzir em suas mentes auto-imagens negativas.

As crianças são extremamente vulneráveis durante os primeiros anos de vida, pois os padrões de suas ondas cerebrais são similares à hipnose, tornando-as suscetíveis à programação, sem as funções da lógica e da razão.

Se chamarmos freqüentemente uma criança de burra e a acusarmos de não conseguir aprender, mesmo tendo capacidade para tornar-se um futuro Einstein, seu desenvolvimento intelectual será abaixo da média.

O subconsciente será convencido através da repetição. Introjetamos, desta forma, uma imagem negativa na criança, geralmente produto de coisas impensadas que se diz à criança, nos momentos de raiva, de impaciência, como, por exemplo: “você é desajeitada (ou lerda, briguenta, gorda, magra, burra, etc)”, “não consegue fazer nada direito”, “nunca será alguém”, “nunca conseguirá nada”, “é fraca, ruim”, etc., etc.

A criança recebe programação similar nos comerciais e nos filmes da TV.

Na TV, ao invés de se enfatizarem valores como caráter, moral, estudo, trabalho ou tipo de personalidade desejados, mostra-se à criança que ela obterá sucesso, prazer, será amada e tudo estará bem no seu mundo se usar determinado vestuário ou se alimentar com as guloseimas anunciadas. Semelhante processo se dá com filmes cujas estórias ressaltam ações de roubo, assassinato, vícios, ensinando o desrespeito total à lei e à ordem, com mocinhos solucionando tudo, no fim, através da agressividade e da violência.

Não é de se admirar que existam tantos jovens sem objetivos, frustrados e infelizes no mundo.

Mas continuemos com o nosso assunto: Freud definiu ainda instintos, libido e energia agressiva.

Os instintos são pressões que dirigem o organismo para fins particulares. São forças propulsoras que incitam as pessoas à ação. Cada instinto tem uma fonte de energia em separado.

Libido, palavra latina que significa desejo, anseio, é a energia dos instintos de vida, isto é, de toda conduta ativa e criadora do homem. Explica os fenômenos psicossexuais.

A energia agressiva é a energia do instinto de agressão ou da morte.

Esse modelo psíquico que acabei de apresentar foi usado por Freud até 1920, quando então publicou o livro Além do Princípio do Prazer, no qual expôs uma importante mudança no seu pensamento. Introduziu a noção de compulsão da morte, bem como um novo modelo do aparelho psíquico, formado por id, ego e superego.

O id é o reservatório da energia de toda a personalidade. É a parte mais profunda da personalidade. No id estão os impulsos dominados pelo Princípio do Prazer e pelos desejos impulsivos.

As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao id. Os conteúdos do id são quase todos inconscientes. Eles incluem configurações mentais que nunca se tornaram conscientes. O id pode ser comparado a um rei, cujo poder e autoridade são totais e criadores, mas depende dos outros para distribuir e usar esse poder. Um pensamento ou uma lembrança, excluídos da consciência, são localizados no porão do id e são capazes de influenciar o comportamento mental de uma pessoa. Pensamentos esquecidos conservam o poder de agir com a mesma intensidade, mas sem o controle do consciente.

Tio Marcos, pelo que o senhor acabou de explicar, nós somos verdadeiros fantoches do nosso id, isto é, iguais àqueles bonecos movimentados por cordões, não é? - comentou Silvinho.

Ser ou não títere do nosso id depende do nosso valor. O Sr. Racional ensina que: “O Valor do indivíduo principia onde começa o domínio de si mesmo”. A qualidade essencial, necessária ao desenvolvimento do valor, consiste em saber controlar os nervos e os pensamentos, subjugando os ímpetos e as inclinações condenáveis para que o raciocínio possa apontar-lhes as melhores soluções.

Fortalecer os atributos de valor para resistir aos procedimentos indignos é uma necessidade imperiosa e inabalável.

Quem tem valor, tem coragem e também paciência, isto é, possui a virtude de suportar os infortúnios, com perseverança tranqüila.

Conta-se que, um dia, três intelectuais discutiam diante do Conde de Chatham, célebre estadista inglês do século XVIII, a questão de saber qual era a qualidade mais necessária a um primeiro ministro.

Um dos interlocutores disse que era a eloqüência; o outro, a ciência; e o terceiro, o trabalho.

 Não - disse o Conde Chatham. - É a paciência.

Assim se manifestou por saber, por experiência própria, que a paciência implica no domínio de si mesmo, condição imprescindível para vencer as dificuldades.

Antonio do Nascimento Cottas (1892-1983), Presidente do Racionalismo Cristão em continuação a Luiz de Mattos, escreveu no livro Cartas Doutrinárias de 1949 a 1952, publicado em 1956, na página 85, a seguinte orientação: “A confiança nas Forças Superiores origina paz de espírito. Estamos no mundo Terra para lutar e trabalhar sem revolta, todos temos horas boas e horas más, mas quando se dá valor ao pensamento e se sabe aquilo que se quer, nunca se deseja o impossível, vai-se conseguindo transpor as barreiras da vida, aumentando sempre as forças espirituais para palmilhar com segurança a estrada que nos há de levar ao fim da jornada”.

Voltando ao nosso assunto, o ego é a parte da personalidade que está em contato com a realidade externa. Desenvolve-se a partir do id, à medida que o bebê torna-se cônscio de sua própria identidade. Como a casca de uma árvore, o ego protege o id. O ego tem a tarefa de garantir a saúde, a segurança e a sanidade mental.

O superego desenvolve-se a partir do ego. Atua como juiz ou censor sobre a atividade e os pensamentos do ego. O superego é o depósito dos códigos morais e dos modelos de conduta. O superego é responsável pelas seguintes funções: consciência, auto-observação e formação de ideais.

Uma vez explicados estes conceitos básicos, podemos dizer que a neurose obsessiva é um distúrbio proveniente de desejos reprimidos ou de ansiedades neuróticas referentes à força das paixões do id.

Em 1933, num de seus livros, Freud escreveu o seguinte: “E aqui gostaria de acrescentar que não penso poderem nossas curas competir com as que se verificam em Lourdes. São muito mais numerosas as pessoas que crêem nos milagres da Santa Virgem do que aquelas que acreditam na existência do inconsciente”.

Freud escreveu exaustivamente. Sua obra compreende 24 títulos.

Em 1938, os alemães ocuparam a Áustria e permitiram que Freud fosse para Londres. Um ano depois, morreu de câncer na boca e na mandíbula.

O jornal O Globo de 29 de junho de 1959 publicou pronunciamento do Dr. Leônidas Martins, diretor da Casa Humaitá, sobre as doenças mentais: “Os neuróticos ainda constituem um grande problema para a Psiquiatria. A Psicanálise tem tentado resolver o caso das neuroses, porém, na minha opinião, não tem adiantado grande coisa, porque, além de outros fatores, é um tratamento moroso e dispendioso”.

Na Suécia, numa assembléia de médicos, o Prof. Dr. Odenkrantz propôs aos médicos psiquiatras que procurassem curar os seus loucos pelos processos espíritas, lembrando o êxito que vinha tendo com tais procedimentos o famoso médico Dr. Wickland.

Com essa proposta, se ainda existissem as fogueiras da Inquisição, ele na oportunidade teria sido queimado.

A imprensa caiu matando e o Dr. Odenkrantz foi tido como louco.

Aos protestos veementes de seus colegas, ele respondeu que o Espiritismo Científico curava e era mais humano.

Foi o que provaram Luiz de Mattos e Luiz Alves Thomaz, fundando em 1912 dois hospitais para curar loucos, um em Santos e o outro na cidade do Rio de Janeiro.

Luiz de Mattos, comerciante muito bem sucedido na cidade de Santos, a partir de 1910 começou uma larga campanha de divulgação pela imprensa do que era a Doutrina Racionalista Cristã.

Jornalista brilhante, escreveu uma série de artigos em que explicava que a loucura, assim como muitas outras enfermidades julgadas incuráveis pela classe médica, era curável com o tratamento preconizado pelo Racionalismo Cristão, na cidade de Santos.

Luiz Alves Thomaz, no Centro Espírita Amor e Caridade, adido ao hospital em Santos, e Luiz de Mattos, presidindo o Centro Redentor e o hospital no Rio de Janeiro, ambos desde 1912, conhecendo que os espíritos do Astral Superior, pela ação fluídica, acabavam com as obsessões e com a loucura, afastando espíritos obsessores e destruindo os miasmas deletérios que envolviam os enfermos, começaram a curar loucos, cegos, paralíticos, tuberculosos e enfermos de doenças várias, que a medicina oficial não conseguia curar, porque desconhecia que a causa da doença era um agente desencarnado.

Estes hospitais da Doutrina Racionalista Cristã funcionaram até 1915, quando foram desativados, pois, apesar de Luiz de Mattos ter convidado os médicos e o governo a comparecer para estudar e concorrer com os seus conhecimentos para esclarecer as curas excepcionais de loucos que se produziam em grande escala, infelizmente esses fatos não despertaram interesse da ciência médica da época.

Desta forma, à luz da Doutrina Racionalista Cristã, o segundo sentido da palavra obsessão é o seguinte: a obsessão é uma enfermidade psíquica resultante do mau uso do livre-arbítrio, da vontade mal-educada, das inclinações sensualistas, do descontrole nos atos cotidianos, do nervosismo desenfreado, dos desejos que não se podem vencer, da ambição desmedida, do temperamento voluntarioso, da falta de disciplina, do desconhecimento ou da inobservância dos ensinamentos do Racionalismo Cristão.

A obsessão é também um estado da alma devido à ação mais ou menos direta de espíritos desencarnados ou mesmo de pessoas encarnadas, influindo sobre as criaturas de diversos modos, desde a simples sugestão insistente, perene, tenaz, até a ação discreta, enérgica, violenta, provocando os chamados ataques.

O espírito obsessor age movido sob o influxo do amor ou do ódio. Dominando a sua paixão, ele procura captar a confiança da sua vítima. Sua ação é intencionalmente demorada, branda, incessante, delicada. Se, porém, a paixão o domina, a agressão é violenta e brutal.

Tio Marcos, como se processa a obsessão espiritual? - perguntou Marquinho.



Tio Marcos, olhando para todos, disse:

Prestem atenção!

Foi necessário que primeiro fosse aberta uma brecha intelectual, com o poder da Ciência, para romper a golpes de descobertas e invenções o pensamento religioso fanático existente no século XIX, para que os homens pudessem entender o fato espírita, fazendo analogia desses fatos com as coisas que os inventores e pesquisadores descobriram mediante observação, dedução e principalmente pelo método experimental de Galileu.

Para vocês compreenderem bem como se processa a obsessão, eu vou discorrer, antes, sobre como foi descoberta a telegrafia sem fio, pois o espírito obsessor e o obsedado se comunicam usando uma espécie de sintonia, tal qual numa comunicação de rádio, quando ambos atuam simultaneamente como transmissor e receptor.

Em 1887, o físico alemão Heinrich Hertz (1857-1894), estudando os campos magnéticos criados por uma corrente elétrica ao atravessar um condutor, verificou que se essa corrente fosse alternada de alta freqüência, os campos magnéticos circulares que normalmente se produzem ao longo do condutor (como ondas formadas por uma pedra que cai num lago de águas paradas) irradiam-se por todo o espaço que circunscreve o fio. Essa propagação também é em ondas circulares, tal qual as ondas na água formadas pela queda da pedra, mas percorrendo o espaço com a velocidade da luz.

Estes campos de alta freqüência descobertos por Hertz foram inicialmente chamados de ondas sem fio e posteriormente de ondas hertzianas, em homenagem ao seu descobridor.

Em 1890, o físico francês Edouard Branly (1844-1940) inventou um instrumento para indicar a presença das ondas hertzianas no espaço ambiente, cujo instrumento foi chamado coesor a limalha, o qual mais tarde foi aperfeiçoado, substituindo-se a limalha por um cristal de sulfeto de chumbo chamado galena.

Em 1895, Aleksander Popov (1859-1906), engenheiro russo, criou a antena radielétrica e no ano seguinte construiu o primeiro receptor de ondas eletromagnéticas.

Neste mesmo ano de 1895, o físico italiano Guglieno Marconi (1847-1937), juntando o oscilador de alta freqüência de Hertz, mais o coesor de Branly, mais a antena de Popov, conseguiu em Bolonha, Itália, transmitir e receber sinais eletromagnéticos, a uma distância de 1600 metros. Estava inventado o telégrafo sem fio.

Em 1897, o físico inglês Sir Oliver Lodge (1851-1940), estudando as ondas hertzianas, descobriu que um oscilador de alta freqüência, funcionando com um capacitor variável, fazia com que as ondas hertzianas existentes no espaço pudessem ser sintonizadas, isto é, fluir livremente por este circuito, quando oscilava na mesma freqüência das ondas hertzianas recebidas. Com esta descoberta, vários transmissores de ondas hertzianas poderiam funcionar simultaneamente, desde que possuíssem freqüências diferentes, sem causar interferências nas comunicações. Com essa invenção, Oliver Lodge deu grande impulso à telegrafia sem fio. É esta invenção que permite mudarmos as estações de rádio e os canais da TV.

Em 1899, Marconi estabelece comunicação pela telegrafia sem fio, através do Canal da Mancha e depois, em 1901, através do Oceano Atlântico.

Em 12 de outubro de 1931, às 19 horas, por ocasião das festividades da inauguração do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, erigido no Corcovado, Marconi, de Roma, acionou pela telegrafia sem fio a iluminação desse monumento.

Mas, voltando ao nosso assunto, obsessão, quando uma criatura encarnada emite, ou melhor, irradia pensamentos de ódio, cobiça, inveja, maledicência, revolta, etc., da mesma forma que um aparelho de rádio, sintoniza-se com espíritos do Astral Inferior, passando a receber desses espíritos fluidos deletérios e intuições perniciosas e imorais, passando com o tempo a ser totalmente avassalada, num processo idêntico à simbiose.

Vocês sabem o que é simbiose? Vou lhes recordar.

Em Botânica, define-se simbiose como a associação de duas plantas, na qual ambos organismos interagem entre si, ainda que em proporções diversas. É o caso dos líquens. O líquen é um vegetal formado pela íntima associação de uma alga verde ou azul com um fungo superior. As algas ficam dentro do talo, formando uma camada verde. Os líquens são muitos usados pela indústria farmacêutica para a produção de antibiótico.

Portanto, pensar é o mesmo que atrair, é o mesmo que sintonizar pensamentos iguais, atraindo espíritos do Astral Superior ou do Astral Inferior, como se os espíritos encarnados e desencarnados fossem verdadeiros transmissores e receptores de rádio, funcionando simultaneamente. Uma vez atraído o espírito do Astral Inferior, começa a ocorrer uma espécie de simbiose fluídica, com muito prejuízo para o encarnado. Um exemplo disto são os hospitais psiquiátricos e hospícios, repletos de obsedados.

Mas retornemos ao nosso assunto: quando nós estudamos a colonização do Brasil, vimos que a sua população encarnada é constituída por brancos, índios (vermelhos), negros e seus descendentes.

A heterogeneidade existente na sociedade brasileira, tanto quanto em relação aos grupos étnicos como aos respectivos níveis culturais, também existe entre os espíritos que habitam a atmosfera astral do Brasil. Por serem invisíveis e espargirem fluidos deletérios, próprios dos ambientes astrais em que vivem, são muito nocivos aos homens.

Esses espíritos, apesar de desencarnados, continuam com os mesmos conhecimentos que possuíam antes de desencarnar, com os mesmos vícios, os mesmos defeitos morais e a mesma religião. O estado de desencarnado não os melhora em nada. Muitos continuam sendo fanáticos rezadores das linhas de umbanda, candomblé, católica, espírita kardecista, ocultista, evangélicos, protestantes, etc.

A perda do corpo carnal não lhes proporcionou nenhum adiantamento moral, nem tampouco os conduziu aos seus respectivos mundos de estágio.

Ficaram aqui na atmosfera da Terra por ignorância, por desconhecerem a vida fora da matéria e não saberem como viver em espírito. Tudo nós temos que aprender com esforço próprio. Nada nos cai do céu, inclusive como viver a vida de espírito correspondente ao nosso grau evolutivo. E como desconhecem que temos outra vida, pensando que só existe a realidade física, desconhecem até que desencarnaram.

Para que isso não aconteça conosco quando desencarnarmos, precisamos aprender tudo o que for possível sobre a vida espiritual, bem como viver nos mundos espirituais de estágio.

Devemos nos conduzir como se nos preparássemos para morar em um país cuja língua, costumes e moda fossem desconhecidos por nós.

Muitos encarnados, por desconhecerem a existência da espiritualidade superior, praticam um espiritismo grosseiro, difundido por pessoas incultas, semiletradas, que conseguem ludibriar as pessoas de destaque social, muitas mesmo portadoras de títulos universitários. Essas pessoas freqüentam sessões em casa de família, ou vão a terreiros, lugares estes que são verdadeiras pocilgas espirituais, onde, muitas vezes, para satisfazer a animalidade de espíritos obsessores, habitantes das regiões do Astral Inferior, são sacrificados bodes, patos, galinhas, todos de cor preta, para que os espíritos ignorantes, quais vampiros, possam sorver a energia vital do sangue desses animais. Daí o nome de magia negra.

Não compreendemos como pessoas decentes, de destaque social, podem se enganar e se misturar aos praticantes de magia negra, achando que tal miséria lhes poderá trazer sorte, resolver problemas financeiros e amorosos, vencer inimigos, conquistar a mulher do próximo e até acertar na loteria.

Todas essas pessoas são espiritualmente cegas, instrumentos dóceis de espíritos do Astral Inferior, de entidades zombeteiras, gozadoras, galhofeiras, que se aproveitam da ignorância de assistentes, de médiuns e de donos de centro para ludibriar os que levam esses trabalhos a sério. Muitos, apesar de possuir estudo, não têm luz. A luz é um estado de consciência que pode ser alcançado quando irradiamos regularmente aos espíritos superiores, nas sessões das Casas Racionalistas Cristãs ou durante as sessões de limpeza psíquica praticadas no lar. Com a luz, teremos condições de ampliar nosso entendimento, nosso raciocínio e de compreender claramente a Verdade e as intuições provenientes das Forças Superiores.

Consciente ou inconscientemente, esses seguidores do baixo espiritismo, além de muito prejudicarem a si próprios freqüentando esses centros, correm o risco de ficarem obsedados, loucos e até com a vida material e financeira arruinada, contribuem também para a proliferação dessa chaga social, que se vai estendendo cada vez mais, por toda parte, com graves riscos para a sanidade mental das criaturas encarnadas.

Todos aqui conhecem a estória daquele médium espírita que atuava aqui perto, na cidade de Palmelo-GO. Era um médium de efeitos físicos, semiletrado, que talvez nunca tenha lido Kardec. Fazia operações cobrando por esse serviço. Ficou riquíssimo. Os médicos da região o chamavam de Antonio Capador. Gostava muito de beber pelos bares das cidades vizinhas a Palmelo, e também de pescar. Certa ocasião, indo pescar num lago de uma das suas fazendas, depois de ter tomado uns goles, eis que surge um enxame de abelhas africanas, que o atacou na canoa. Levou instantaneamente mais de 2 mil picadas. Quando o socorreram estava morto, pois era alérgico a picadas de abelha e não sabia.

Por isso, caros sobrinhos, vocês precisam, nesta encarnação, estudar a vida fora da matéria. Precisam se esclarecer, pois somente serão vítimas dessas misérias as pessoas fracas e as que tiverem medo dessa marginalidade astral, as que forem supersticiosas, religiosas, fanáticas, revoltadas, as nervosas que se irritam por qualquer coisa, as que maldizem de tudo e de todos, as gozadoras da vida, que como suínos vivem para a engorda, para a satisfação e o abuso de todos os prazeres, não querendo ter a menor noção do que sejam respeito ao próximo e moralidade.

Tio Marcos olhou para o seu relógio e disse:

Para encerrar o assunto desta noite, vou falar um pouco sobre as adversidades, sobre os reveses da vida, principalmente para vocês que estão saindo da infância e entrando na mocidade.

O Espírito, quando encarnado, passa por quatro fases distintas da vida e em cada uma colherá valiosos ensinamentos.

Estas fases são a infância, a mocidade, a madureza e a velhice. Em cada fase, tem deveres a cumprir, trabalhos a realizar e obrigações a satisfazer.

A vida durante essas fases é balançada por angústias e tormentos. São contrariedades que não deixam de vir, para sacudir e para despertar, pois fazem parte da nossa trajetória evolutiva. Quando submetida a um revés, se a criatura não for esclarecida, se não conhecer a verdade espiritual, poderá sentir-se indolente, perplexa, atordoada pela insegurança que constata no vácuo da sua existência.

Para vocês usufruírem uma felicidade relativa, o Sr. Racional aconselha sempre, em todas as situações da vida, a leitura do livro Racionalismo Cristão.

Deverão ter sempre à mão este livro e fazer dele um manual de cabeceira. Deverão estudá-lo freqüentemente, com disciplina, um pouquinho de cada vez, porém incessantemente. Quando chegarem ao fim, retornem ao começo. Desta forma, minimizarão a dor da existência quando os reveses chegarem.

Outra coisa: quando vocês saírem da madureza e adentrarem a velhice, não devem pensar: “Estou velho, acabado, no fim da vida”. Esta postura mental é errada, pois quem pensa é o espírito, que é eterno, portanto imortal e inascível. Por isso deve-se pensar: “Estou na fase da madureza eterna, a velhice, apesar de ser uma lei natural no planeta Terra, não é condição permanente do Espírito. A velhice não condicionará o meu espírito”.

Para vocês sentirem a importância desse livro, posso dizer-lhes que o Racionalismo Cristão ensinou-me que, enquanto eu dependesse de alguém para alguma coisa de foro íntimo ou para me sentir completo, realizado, seria infeliz, frágil e qualquer satisfação seria efêmera. Então passei a aplicar as minhas energias vitais para a vida, para o trabalho, para o estudo e não mais para queixas, revoltas e lamentações.

Consegui, desta forma, encontrar a paz e a felicidade relativas, livrando-me da necessidade ou da dependência de coisas, pessoas, protetores espirituais, guias, deuses e demais criações da imaginação.

Passei a reagir aos estímulos da vida, respondendo com pensamento e raciocínio, embutindo também nessa atitude, quando fosse necessário, o planejamento, a organização, a disciplina e o controle de todos os meus cursos de ação, para bem atingir os objetivos de ordem material e também os de ordem espiritual.

Também será de bom senso vocês aceitarem as informações que lhes chegarem por diferentes meios, tais como mídia (jornais, revistas, cinema, rádio, etc.), conferências, estudo, leitura, etc... Vocês não devem descartar informações recebidas simplesmente por serem novas, diferentes. Tratem e trabalhem com elas até que provem ser verdadeiras ou falsas. Tenham coragem de desafiar a si próprios e às respectivas crenças, empenhem-se em viver a vida espiritual para descobrir a Verdade, que lhes trará a libertação dos condicionamentos e a independência dos seus pensamentos.

Para encerrar a aula de hoje, vou lhes lembrar uma pequena poesia de Cora Coralina, poetisa de Goiás (1895-1985), a qual sintetiza a nossa trajetória evolutiva, nesse mundo-escola, em versos magistrais, pois tanto a Poesia quanto a Matemática dão grandes definições, fazem grandes demonstrações com um mínimo de palavras ou caracteres. Disse ela:

DAS PEDRAS

Ajuntei todas as pedras

Que vieram sobre mim

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