A cidade Sitiada Clarice Lispector



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A Cidade Sitiada

Clarice Lispector
Editora Sabiá

Terceira Edição

Capa: Eugênio Hirsh

Digitalizado por SusanaCap



www.portaldetonando.com.br/forumnovo/



Este romance, o terceiro que Clarice Lispector escreveu, foi publicado em 1949, três anos depois de O Lustre e cinco anos depois de Perto do Co­ração Selvagem.

Ao assinalar a aparição deste belo romance, Alceu Amoroso Lima co­mentou, com perfeita justeza:

"Ninguém escreve como ela. Ela não escreve como ninguém. Só seu estilo mereceria um ensaio especial. É uma clave verbal diferente, à qual o leitor custa a adaptar-se. Ê pre­ciso ler muito devagar as primeiras páginas, para entrar nesse plano es­tilístico singular, cheio de mistério e de sugestão. Uma vez nele, cremos que o leitor sentirá o mesmo encanto sombrio que sentimos. E que coloca Clarice Lispector numa trágica soli­dão em nossas letras modernas".

***

Sumário


O MORRO DO PASTO

O CIDADÃO

A CAÇADA

A ESTÁTUA PÚBLICA

NO JARDIM

ESBOÇO DA CIDADE

A ALIANÇA COM O FORASTEIRO

A TRAIÇÃO

O TESOURO EXPOSTO

O MILHO NO CAMPO

OS PRIMEIROS DESERTORES

FIM DA CONSTRUÇÃO: O VIADUTO



***

No Céu aprender é ver;

Na Terra, é lembrar-se.

Píndaro

CAPÍTULO PRIMEIRO

O MORRO DO PASTO


Onze horas, disse Felipe.

Mal acabara de falar o relógio da igreja bateu a primeira badalada, dourada, solene. O povo pareceu ou­vir um momento o espaço... o estandarte na mão de um anjo imobilizou-se estremecendo. Mas de súbito o fogo de artifício subiu e espocou entre as badala­das. A multidão, tocada do sono rápido em que sucum­bira, moveu-se bruscamente e de novo rebentaram gritos no carrossel.

Sobre as cabeças as lanternas se embaciavam tre­mulando a visão; os bazares se entortavam a gotejar. Quando Felipe e Lucrécia alcançaram a roda-gigante o sino sacudiu-se acima da noite enchendo de emoção a festa religiosa — o movimento da multidão tornou-se mais ansiado e mais livre. A população acorrera para ce­lebrar o subúrbio e seu santo, e no escuro o pátio da igreja resplandecia. Misturando-se à pólvora queimada a groselha erguia os rostos em náusea e ofuscamento. As caras ora apareciam, ora desapareciam. Lucrécia achou-se tão perto de uma face que esta lhe riu. Era difícil per­ceber que ria para alguém perdido na sombra. Tam­bém a moça fingiu falar com Felipe, olhando porém um desconhecido nos olhos que a claridade de um poste en­chia: que noite! disse ela para o estranho, e as duas caras hesitaram: o carrossel iluminava o ar em giros, as luzes caíam trêmulas... Se houvesse alguma coisa ex­traordinária a suceder enfim no subúrbio, esta viria ir­romper no âmbito da retreta, onde crianças perdiam-se das mães e gritar seria mais um grito: o largo da igreja estava frágil. E crepitava com as castanhas na fogueira. Sonolentas, obstinadas, as pessoas se empurravam com os cotovelos até fazerem parte do círculo silencioso que se formara em torno das chamas.

Uma vez junto do fogo, paravam e espiavam aver­melhadas.

As flamas apuravam os gestos, as enormes cabeças se mexiam mecânicas, suaves. Alguns componentes da procissão da tarde, ainda com as roupas sedosas e jus­tas, misturavam-se aos espectadores. Coroada de pape­lão uma menina insone sacudia os cachos — era sábado de noite. Sob o chapéu o rosto mal iluminado de Lucré­cia ora se tornava delicado, ora monstruoso. Ela espiava. A cara tinha uma atenção doce, sem malícia, os olhos escuros espiando as mutações do fogo, o chapéu com a flor.

De novo arrastada por Felipe, ambos agora seguiam uma direção desconhecida através do povo, empurrando, tateando. Lucrécia sorria com satisfação. Seu rosto queria avançar mas o corpo mal pôde mover-se porque a festa repentinamente se comprimira, perpassada por uma contração inicial longínqua. Tentou ao menos liberar uma das mãos e endireitar o chapéu que deslocado até um olho dava à cara alegre uma expressão de desastre. Mas Felipe a segurava pelo cotovelo protegendo-a e rindo...

O tenente levantava a cabeça acima das outras e ria para o céu.

A moça suportava mal esse riso livre que era um modo do forasteiro desprezar a pobre festividade da S. Geraldo. Embora ela própria não conseguisse cair plenamente no centro do regozijo que ora parecia estalar no silêncio do fogo, ora esfuziar-se dos giros dos cava­linhos — embora procurasse com o rosto o lugar de onde jorrava o prazer. Onde estaria o centro de um subúrbio? Felipe usava o uniforme. Sob o pretexto de se apoiar, a moça passava os dedos pelos grossos botões, cega, atenta. De súbito acharam-se fora da festa.

Estavam no vazio quase escuro porque o povo se comprimia na zona da retreta como dentro de um círculo demarcado. De fora era mesmo estranho espiar os habi­tantes se empurrando: aqueles cujas costas já davam para o vazio lutavam sonâmbulos para entrar. O rapaz e a moça olhavam sacudindo a poeira das roupas. Nesse momento o relógio da torre bateu longe, tranqüilo... O relógio da igreja abalou-se mais potente, misturando-se à delicadeza das outras horas. Lucrécia inquietou-se. Em breve, o tenente mal conseguindo acompanhá-la, a moça caminhava à frente quase correndo. O principal aconte­cimento da noite de S. Geraldo não fora sequer anunciado, a cidadezinha estava milagrosamente inteira ainda — Felipe ria irritado: não corra, menina! dobraram a esquina e encontraram-se no largo de pedra. A torre do relógio ainda estremecia.

A praça estava nua. Tão irreconhecível ao luar que a moça não se reconhecia. Também Felipe estacara aliviado: malditos! exclamou empurrando o quepe para trás. Sábado era noite de vários mundos: o tenente' tossiu transmitindo-lhes sucessivamente a voz sem pa­lavras. As janelas estremeceram ao relincho. Nenhum vento soprava. Apesar da lua a estátua do cavalo em trevas. Via-se, apenas mais nítida, a ponta da espada do cavaleiro suspendendo fulgor parado. O luar im­primira as mil portas mudas nas portas. E a praça se pasmara na postura torta em que tinha sido tocada. Era o mesmo frio reconhecimento de quando se ouvia a clarineta de um cego... As lajes quase reveladas, mal se podia tocá-las com as botinas. A moça bateu mesmo duas palmas... Que se dividiram imediatamente em salva surda — a praça toda aplaudia. Em menos de um segundo as palmas se separaram e uma ou outra foi sufocar-se nos becos indeterminados pela escuridão. A moça escutou um pouco hostil, as duas mãos afinal enterraram com decisão o chapéu na cabeça. Despediu-se de Felipe dizendo-lhe que não convinha serem vistos juntos.

Apenas começou a andar sozinha e já se arrependia porque era isso mesmo que S. Geraldo queria. Andava contida, mecânica, tentando mesmo certa ironia. Mas os passos se multiplicavam e a praça de pedra marchava. Interrompeu-se sem avisar, amarrou os cordões da botina... Quando ergueu a cabeça resolveu não deixar de olhar o sobrado mais estreito, a menor sombra. As lojas fechadas com as cortinas de ferro. Estava sendo delicada com todos. Toco mesmo neste poste, pensou mais confiante. O poste estava gelado.

Em momentos a música do coreto era trazida pelo ar — a retreta proliferava sob as luzes amarelas. Mas o som se retinha à beira das ruas desertas. Lucrécia olhou para cima também, com alguma insolência. Mas em cada janela da cidade deserta um homem se balançava na sombra das venezianas — as venezianas oscilavam. A mocinha estremecia de medo de estar viva. Certas coisas davam o mesmo sinal — a falta de vento — um cego tocando — o luar na pedra... persignou-se ràpidamente enquanto um rato gordo se dourava sob o poste. Passos secos soaram. O soldado diminuído pela distância apareceu numa esquina e sumiu por outra... sábado era noite de bêbedos. Um papel estremecia no chão: então ela começou a correr antes que tudo co­meçasse até encostar-se à porta de casa. Tocou a cam­painha longamente...

A estridência inesperada do som atravessava o espaço escuro. A moça parecia ter tocado a campainha de outra cidade. Aguardou um instante. Mas depois de se ter manifestado pela campainha não ousava mais estar de costas: começou a bater com punhos cerrados, o rato corria tranqüilo perto da carroça adormecida; ela batia e olhava para o céu — as nuvens transportadas pareciam imóveis e a lua passava... ela batia — batia com os punhos fechados olhando o céu, os cabelos cres­ciam de ingenuidade e horror, cada vez era mais perigoso, as casas de pé... Afinal do alto da escada puxaram a corda da fechadura. Num rangido a porta se entreabria.

Então os sinos subitamente sacudiram-se em vidro, espargiram-se da retreta sobre a cidade, fogos de arti­fício espocaram, As coisas se quebravam em desastre quase antes de ela se abrigar — fechou duramente a porta.

Aos poucos, na escuridão tranqüilizadora, aban­donou-se. Estava ainda eriçada, cada ponta revertida de coisa não poderia ser tocada, as colunas do corrimão torcidas. Também o tamanho de S. Geraldo se alargara e ela viu de baixo para cima — a imensa escadaria a subir. Os sinos tocavam. Dlin, dlen, dlin, dlen, ouviu ela com atenção. Imaginou que as ruas deveriam ter se iluminado todas ao som dos sinos... A noite agora era de ouro. Lucrécia Neves escapava.

O sobrado onde morava era atravessado de canos dágua e de janelas, o que o tornava muito fraco — a moça subia os degraus que estremeciam às derradeiras vibrações dos sinos.

O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movi­mentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gri­tavam os preços. E quando sobre o alegre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque.

Ao pôr do sol galos invisíveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda à poeira metálica das fábricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, já se respirava o silêncio com desassossêgo, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. Às vezes chovia.

A vida tumultuosa da rua do Mercado estava des­locada naquele ambiente onde um gosto passado reinava varandas de ferro forjado, nas fachadas rasas dos sobrados. E na pequena igreja cuja arquitetura modesta se erguera no antigo silêncio. Aos poucos porém, a praça de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles. Sob a necessi­dade cada vez mais urgente de transporte, levas de cavalos haviam invadido o subúrbio, e nas crianças ainda agrestes nascia o secreto desejo de galopar. Um baio novo dera mesmo um coice mortal num menino. E o lugar onde a criança audaciosa morrera era olhado pelas pessoas numa censura que na verdade não sabiam a quem dirigir.

Com as cestas nos braços elas paravam olhando.

Até que um jornal se inteirara do caso e leu-se com certo orgulho uma nota — onde não faltava ironia sobre a lentidão com que uma série de subúrbios se civilizava — com o título de: "O Crime do Cavalo num Subúrbio".

Este era o primeiro nome claro em S. Geraldo, e alguém enfim chamado, os moradores olhavam com rancor e admiração os grandes animais que invadiam em trote a cidade rasa. E que de súbito estacavam em longo re­lincho, as patas sobre as ruínas. Aspirando com as narinas selvagens como se tivessem conhecido outra época no sangue.

Mas às duas da tarde as ruas ficavam secas e quase desertas, o sol em vez de revelar as coisas ocultava-as em luz: as calçadas se prolongavam indefinidamente e S. Geraldo se tornava uma grande cidade. Três mulheres de pedra sustentavam a portada do edifício modernista que uns andaimes ainda obstruíam: era o único lugar em sombra. Um homem postara-se embaixo. Ah! dizia uma ave cortando obliquamente a intensa luz. Em res­posta, as três mulheres sustentavam o edifício. Ah! gritava o pássaro distanciando-se acima dos telhados. Um cachorro cheirava os esgotos iluminados. Homens, espaçados — jogadores de chapéu de palha e palito na boca — espiavam. Da carvoaria Coroa de Ferro saiu uma cara negra de olhos brancos. Lucrécia Neves meteu a cabeça na frescura da carvoaria; espiou um pouco. Quando a retirou — lá estava a calçada... Que realidade, via a moça. Cada coisa. Entortou a cabeça como moda de olhar. Cada coisa. Mas de repente, no silêncio do sol, uma parelha de cavalos desembocou de uma esquina. Por um momento imobilizou-se de patas erguidas. Fulgurando nas bocas.

Todos olharam de seus postos, duros, separados.

Passado o ofuscamento da aparição, os cavalos encurvaram o pescoço, abaixaram as patas — os va­gabundos de chapéu de palha deslocaram-se rapidamente, uma janela bateu. Reativada Lucrécia entrou no ar­mazém.

Quando saiu com os embrulhos, as ruas já se haviam transformado. Em vez do vazio do sol cada coisa se movia a caminho de suas próprias formas utilizando as menores sombras. O subúrbio estava agora insignificante e minucioso: iniciara-se a tarde. Onde havia água, a brisa a frisava. Uma cortina de ferro subiu com a pri­meira estridência e revelou-se a casa de quinquilharias: a loja de coisas. Quanto mais velho um objeto, mais se despojava. A forma esquecida durante o uso erguia-se agora na vitrina para a incompreensão dos olhos — e assim espiava a moça, cobiçando a caixinha de louça rosada.

Havia duas flores pintadas sobre a tampa.

Até que a sombra da mangueira se alongou pela calçada. Chegada a esse ponto a tarde ficou imutável. Algumas pessoas pensaram em piquenique. Mas não o realizaram: uma ficou de pé na esquina — outra olhava pela cortina de uma janela — outra recontou as malhas do crochê.

Nesse mesmo dia, quando o sol ia se pôr, o ouro se espalhou pelas nuvens e pelas pedras. Os rostos dos habitantes ficaram dourados como armaduras e assim brilhavam os cabelos desfeitos. Fábricas empoeiradas apitavam continuamente, a roda de uma carroça ganhou um nimbo. Nesse ouro pálido à brisa havia uma ascensão de espada desembainhada — assim se erguia a estátua da praça. Passando pelas ruas mais leves os homens na luz pareciam vir do horizonte e não do trabalho. O su­búrbio de carvão e ferro transportara-se para o alto de uma colina, os ramos das amendoeiras se balançavam. Cavalos, a terra negra e o tanque seco da praça haviam emprestado certa arrogância aos moradores de S. Geraldo. E uma audácia que lembrava a cólera sem ira. Os homens diziam muito uns aos outros: que é? nunca me viu? era comum terem olhos cinzentos e brilhantes como placas.

Domingo de manhã o ar cheirava a aço e os cães ladravam para os que saíam da missa. E de tarde, nas primeiras angústias de domingo em cidade, as pessoas limpas na rua espiavam para cima: num sobrado alguém ensaiava o saxofone. Elas escutavam. Como numa cidade, já não sabiam para onde ir.

Apesar do progresso o subúrbio conservava lugares quase desertos, já em fronteira com o campo. Esses lugares em breve tomaram o nome de "passeios". E tam­bém havia pessoas que, invisíveis na vida passada, ga­nhavam agora certa importância apenas por se recusarem à nova era. A velha Efigênia morava a uma hora de marcha além da Cancela. Quando lhe morrera o marido continuara a manter o pequeno curral, não querendo misturar-se ao pecado nascente. E embora só fosse à rua do Mercado para depositar as bilhas de leite, tornara-se um pouco dona de S. Geraldo. Se parava junto de uma loja, com o olhar seco que não parecia precisar ver, perguntavam-lhe rindo de encabulamento como iam as coisas, como se ela pudesse saber mais que todos. Pois do próprio adiantamento de S. Geraldo nascera tímido desejo de espiritualidade, do qual a A. J. F. S. G. era um dos resultados. Quando Efigênia dizia que acordava de madrugada, lançava grande inquietação nos comerciantes que, na qualidade de chefes, já começavam a dizer: S. Geraldo precisa de uma diretiva. Embora a vida espi­ritual que vagamente atribuíam a Efigênia parecesse afinal se resumir no fato de ela não afirmar nem negar, em não participar nem de si própria, a tal ponto chegara sua austeridade. A ser calada e dura como sucedia a pessoas que nunca tinham precisado pensar. Enquanto que em S. Geraldo começava-se a falar muito.

Foi nessa época de brisa e indecisão, nesse momento de cidade ainda mal erguida, quando o vento é presságio e o luar horroriza pelo seu sinal — foi no descampado desta nova era que nasceu e morreu a Associação de Juventude Feminina de S. Geraldo. De início votado à caridade, o grupo — fustigado pelos motores da usina, interrompido pelo tráfego dos cavalos e pelos súbitos apitos das fábricas — passou inesperadamente a ter seu próprio hino, e numa reviravolta que assustou mesmo as sócias — seu fim era agora o de enobrecer as coisas belas. A Associação teria talvez ficado na organização de tômbolas e recreios se não fosse Cristina que acendia um fogo vazio e destinado ao vazio, onde se consumiriam as sócias em nome da alma que deve progredir. Aos poucos as jovens se reuniam com um ardor na verdade já sem causa. À tarde viam-se entrar na casa da reunião grupos apressados de moças pequenas, com quadris baixos e cabelos compridos, tipo feminino daquela zona. Em nome de uma esperança já assustadora incitavam-se e mani­festavam-se no hino que falava com violência mal contida da alegria das flores, do domingo e do bem. Elas tinham medo da cidade que nascia. No domingo cantado elas costuravam, ao meio-dia interrompendo-se sufocadas, passando a mão pelos lábios que um buço escurecia; deitavam-se cedo. E na grande noite de S. Geraldo sucedia enfim alguma coisa cujo sentido confuso e empoeirado elas em vão tentavam de dia cantar com bocas abertas. Escutando no sono, remexendo-se, chamadas e sem poder ir, perturbadas pela importância insubsti­tuível que tem cada coisa e cada ser numa cidade que nasce. Mas Cristina as instigaria na reunião seguinte. Bastava sua presença para agitar o agrupamento e, em pouco, entre projetos de pureza e amor à alma, sem que na sombria sala de reunião uma palavra mais clara pudesse ser pronunciada, todas estavam excitadas para o caminho do bem: Cristina é a nossa vanguardista, diziam sorridentes. Era uma tentativa sorrateira de espírito pelo lado onde este menos esperava. Enquanto Cristina estabelecia com uma facilidade de inteligência novos princípios: a vida que se leva por dentro não é a vida terrena, dizia, o sacrifício da carne é realizar-se como carne, dizia. As fábricas apitavam anunciando o fim do trabalho. Em breve também se ouviam as cortinas de ferro das lojas a descer — mas as moças custavam a se separar e na sala já escura moviam-se sem saber o que fazer.

Cristina era uma moça baixa como uma mulher devia ser, um pouco gorda como deveria ser uma mulher. Era a moça mais adiantada do subúrbio. O que não impedia que chamasse pouco a atenção dos homens. Estes, mais inocentes e leais do que as mulheres de S. Geraldo, aproximavam-se dela por certa curiosidade: ela cheirava a leite, a suor, a roupas de corpo — eles farejavam apenas e iam embora.

Quando Lucrécia entrou para a A. J. F. S. G. já en­controu as sócias dando-se tanta liberdade espiritual que não sabiam mais o que ser. De tanto se exteriorizar haviam terminado como as flores cantadas, tomando um sentido que ultrapassava a existência de cada uma, agitando-se como as ruas já inquietas de S Geraldo. Tinha enfim formado o tipo de pessoa adequada a viver naquele tempo num subúrbio.

Lucrécia aproximara-se atraída pela idéia de bailes mas Cristina e ela se olharam desde a primeira vez como inimigas; só que Lucrécia não era inteligente e foi vencida. Além do mais tudo ali parecia estranho à moça e a palavra "ideal", que as outras tanto usavam, soava-lhe desconhecida. "O ideal, o ideal"! mas que queriam elas dizer com o ideal!, disse-lhes obstinada e mesmo altiva. As moças, confusas, se entreolharam rancorosas. Lucrécia não tardou a retirar-se enquanto Cristina ganhava em força, cada vez mais cruel e feliz. E em breve a per­turbação causada por Lucrécia foi esquecida. Assim como a população já deixara de acusar os cavalos.

Estes, agora despercebidos pelo hábito, eram no entanto a força sorrateira sobre S. Geraldo. E também Lucrécia, ignorada pela Associação.

A moça e um cavalo representavam as duas raças de construtores que iniciaram a tradição da futura me­trópole, ambos poderiam servir de armas para um seu escudo. A ínfima função da mocinha na sua época era uma função arcaica que renasce cada vez que se forma uma vila, sua história formou com esforço o espírito de uma cidade. Não se poderia saber que reinado ela repre­sentava junto à nova colônia pois que seu trabalho era curto demais, e quase inexplorável: tudo o que ela via era alguma coisa. Nela e num cavalo a impressão era a expressão. Na verdade função bem tosca — ela indicava o nome íntimo das coisas, ela, os cavalos e alguns outros; e mais tarde as coisas seriam olhadas por esse nome. A realidade precisava da mocinha para ter uma forma. "O que se vê" — era a sua única vida interior; e o que se via tornou-se a sua vaga história. Que se lhe fosse revelada dar-lhe-ia somente a recordação de um pensa­mento ocorrido antes de dormir. Apesar de não poder se reconhecer na revelação de sua vida secreta, ela a guiava mesmo; ela a conhecia indiretamente como a planta seria tocada se lhe ferissem a raiz. Estava no seu pequeno destino insubstituível passar pela grandeza de espírito como por um perigo, e depois decair na riqueza de uma idade de ouro e de escuridão, e depois perder-se de vista — foi o que sucedeu com S. Geraldo.

A idéia de "progredir", da Associação, encontrara Lucrécia de atenção já desperta, querendo sair da difi­culdade e mesmo usá-la — porque a dificuldade era o seu único instrumento. Até alcançar a extrema docilidade de visão. Carroças passavam. A igreja batia os sinos. Cavalos escravizados trotavam. A torre da usina ao sol. Tudo isso podia-se ver de uma janela, farejando o ar novo. E a cidade ia tomando a forma que o seu olhar revelava.

Nesse momento propício em que as pessoas viviam, cada vez que se visse — novas extensões emergiriam, e mais um sentido se criaria: era esta a pouco usável vida íntima de Lucrécia Neves. E isso era S. Geraldo, cuja História futura, como na lembrança de uma cidade sepultada, seria apenas a história do que se tivesse visto.

Até centros espíritas começavam a formar-se aca­nhadamente no subúrbio católico e Lucrécia mesma inventou que às vezes ouvia uma voz. Mas na verdade ser-lhe-ia mais fácil ver o sobrenatural: tocar na rea­lidade é que estremeceria nos dedos. Ela nunca ouvira nenhuma voz, nem sequer desejava ouvi-la; ela era menos importante, e muito mais ocupada.

E assim era S. Geraldo acumulado de carroças rangentes, de sobrados e mercados, com planos de construção de uma ponte. Mal se podia adivinhar sua umidade radiosa e tranqüila que em certas madrugadas vinha da névoa e saía das ventas dos cavalos — a umidade radiosa era uma das realidades mais difíceis de se enxergar no subúrbio. Da janela mais alta do Convento, no domingo — depois de atravessar o centro, a Cancela e a zona da ferrovia — as pessoas se debruçavam e adivinhavam-na através do crepúsculo: lá... lá estava o subúrbio es­tendido. E o que elas viam era o pensamento que elas nunca poderiam pensar. "É o passeio mais bonito de S. Geraldo", diziam então balançando a cabeça. E não havia outro modo de conhecer o subúrbio; S. Geraldo era explorável apenas pelo olhar. Também Lucrécia Neves de pé espiava a cidade que de dentro era invisível e que a distância tornava de novo um sonho: ela debruçava-se sem nenhuma individualidade, procurando apenas olhar diretamente as coisas.

Terminada a romaria dominical ao Convento, as casas se iluminando uma a uma — quanto mais uma pessoa penetrasse no centro menos saberia como é uma cidade.

Ah, se eu pudesse ir hoje mesmo a um baile, pensava a moça na noite de domingo, tocando a mesinha da sala de visitas com delicadeza. Gostava muito de se divertir. Contente, em pé junto da mesinha, rindo à idéia de um baile, os dentes amarelos aparecendo com inocência.

Mas pelo menos ela passeava quanto podia entre as coisas do Mercado, de chapéu, de bolsa, algum fio corrido nas meias. Saía e entrava em casa, ou ocupava-se du­rante horas com roupas, a transformar, a emendar; tinha alguns namorados e cansava-se muito; de chapéu e luvas velhas atravessava o Mercado de Peixe.

E passeava. Mesmo com doutor Lucas, quando se encontravam por acaso, suas relações quase de cliente e médico, a mulher dele doente no Sanatório de S. Geraldo, e Lucrécia Neves orgulhosa de andar com um homem di­plomado — eles desciam seis degraus de cimento para o parque que se estendia abaixo do nível do subúrbio. Fo­lhas úmidas jaziam no chão — eles andavam olhando o chão. E das plantas vinha um cheiro novo, de alguma coisa que se estava construindo e que só o futuro veria.

O parque de S. Geraldo era amarelo e cinzento com os longos talos enegrecidos — e as borboletas. E aquela era a sua amizade com um homem moço e austero. Se Lucrécia Neves não era sensual a diferença de sexos cau­sava-lhe certa alegria. No parque havia alguns brinque­dos de crianças, postes negros, soldados com namoradas — era um dos passeios de S. Geraldo. Doutor Lucas em­prestara-lhe uma vez um livro mas ela mal assimilava, como por teimosia e excessiva paciência. Nunca precisa­ra aliás da inteligência. Sentaram num barranco e por­que ele escrevia para a "Revista Médico-Social" a moça disse que talvez um dia escrevesse o romance de sua vida! ela disse e olhou para o ar com altivez. Tudo era men­tira e fazia frio, o médico a aconselhava — e ela no fundo possuindo aquele mal-estar feliz que era descon­fiança sobre o que podia vir de um homem: a moça era muito desconfiada. E lenta. Pois falava e falava com o médico e não conseguia transmitir-lhe nada. Mas pelo menos espiava tudo com tal clareza: via soldados e crianças. Sua forma de se exprimir reduzia-se a olhar bem, gostava tanto de passear! — e assim eram também os habitantes de S. Geraldo, talvez inspirados pela acuidade do ar de toda aquela zona, propensa a fortes chuvas e a verões altos. Mesmo quando pequena Lucrécia já manti­nha por horas os olhos abertos na cama, escutando o ruído de uma ou outra carroça que passando parecia mar­car seu destino terrestre. Enquanto em outros lugares crianças mais felizes, filhas de pescadores, faziam-se ao mar. Depois, mais crescidos, os meninos de manhã cedo já não estavam em casa — voltavam sujos, rasgados, com alguma coisa na mão.

Talvez chamada pelo começo de visão que domingo tivera da janela do Convento, na segunda-feira a moça procurava o outro passeio de S. Geraldo: o riacho. Atra­vessava a Cancela e os trilhos, descia depressa o declive espiando os pés. Por um instante imobilizada parecia re­fletir profundamente. Embora não pensasse em nada. E de súbito, irreprimível, seguia o rumo contrário — subia o morro do pasto, cansada com a própria insistên­cia. À medida em que se subia divisavam-se à esquerda um trecho arruinado do subúrbio, os sobrados enegreci­dos... Nada se via adiante senão a mesma linha ascen­dente que se estabeleceria enfim no morro.

Onde ficaria de pé espiando. Ainda ofegante da su­bida. Séria, obediente. Encontrando apenas as nuvens que passavam e a grande claridade. Mas ela não parecia desi­ludida.

Apesar do céu alto, o ar no morro era tempestuoso e, às vezes incontido, arrastava com violência um papel ou uma folha. As latas e as moscas não chegavam a povoar o descampado. A essa hora do dia pisavam-se ervas ar­dentes e não se subjugaria com o olhar a aridez e o ven­to do planalto — uma onda de poeira se erguendo ao galope de um cavalo imaginário. A moça esperava pa­ciente. Que espécie de verossimilhança viera procurar no morro? ela espiava. Até que o cair da tarde fosse acor­dando a piscante unidade que o entardecer levita no cam­po. E a possibilidade de rumor que a escuridão favorece.

Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzi­dos à ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros — uma ca­beça fria e escura de cavalo — os cascos batendo, foci-nhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e mur­múrio. E às vezes um suspiro que esfriava as ervas em tremor. Então o baio se adiantava. Andava de lado, a cabeça encurvada até o peito, cadenciado. Os outros assis­tiam sem olhar.

Meio sentada no leito Lucrécia Neves adivinhava os cascos secos avançando até estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabeça a dominar o subúrbio, lançando o longo relincho. O medo a tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, a mocinha quereria responder com as gengivas à mostra. Na inveja do desejo o rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabeça de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonâmbulo. Mal saísse do quarto sua forma iria se avolumando e apurando-se, e quando chegasse à rua já estaria a galopar com patas sensíveis, os cascos escorregando nos últimos degraus. Da calçada deserta ela olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo. Porque não havia tempo a perder: mesmo de noite a cidade trabalhava fortificando-se e de manhã novas trincheiras estariam de pé. De sua cama ela procurava ao menos escutar o morro do pasto onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caça e guerra. Até que adormecia.

Mas as bestas não abandonavam o subúrbio. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco — era um assombro no escuro. Todas estacavam. 0 cavalo prodigioso aparecia. Mostrava-se empinado um instante. Imóveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco. E a pancadinha breve quebrava a vigília: fustigados moviam-se de súbito alacres, entrecruzando-se sem se tocarem e entre eles se perdia o cavalo branco. Até que um relincho de súbita cólera os advertia — por um segundo atentos, logo se espalhavam em nova composição de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoços abaixados até a boca tocar no peito. Eriçadas as crinas; regulares, incultos.

Noite alta vinha encontrá-los imóveis nas trevas. Es­táveis e sem peso. Lá estavam eles invisíveis, respiran­do. Aguardando com a inteligência curta. Embaixo, no subúrbio adormecido, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Além da ferrovia um rato pronto a fugir.

Então o tordilho batia a pata. Ninguém tinha boca para falar mas um dava algum pequeno sinal que se ma­nifestava de espaço a espaço na escuridão. Eles espia­vam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado — nada era visto de frente, e essa era a noite de S. Geraldo, os flancos de um cavalo percorridos por rápida contração. Nos primeiros silêncios uma égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternida­de. O potro mas inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silêncio.

Até que a madrugada os revelava. Estavam separa­dos, de pé sobre a colina. Exaustos, frescos.

E no limiar da aurora, quando todos dormiam e a luz mal se separara da umidade das árvores — no limiar da aurora o ponto mais alto da cidade passava a ser Efigênia.

Do horizonte apenas mais lívido um pássaro se er­guia, e para os lados da ferrovia as névoas iam passando. As árvores espaçadas ainda mantinham a imobilidade da noite. Só os fios de capim estremeciam à frescura, na cam­pina vibrava uma folha de papel velho. Efigênia se levan­tava e olhava a planície cuja antiga aspereza fora ali­sada pelo vento de tantas noites. Tocava a luz do vidro da janela limpando-o com o cotovelo. Então se ajoelhava e rezava a única frase que lhe ficara do orfanato de irmãs, daquele tempo em que a janela mais alta do Con­vento se abria para um vilarejo perdido: sinto na minha carne uma lei que contradiz a lei de meu espírito, dizia ausente. O que era a sua carne, nunca soubera; neste momento era uma forma ajoelhada. O que era o seu es­pírito, ela ignorava. Talvez fosse a luz mal erguida da ma­drugada sobre os trilhos. Seu corpo servira-lhe apenas de sinal para poder ser vista; seu espírito, ela o via na pla­nície. Coçando-se violentamente na sua transfiguração: já não se poderia dizer que ela era pequena porque ajoe­lhada perdia a forma reconhecível. O reumatismo era a sua dureza. E tanto se concentrava difusa na claridade de seu espírito sobre a campina que este já não era seu. Assim se mantinha, pensando por intermédio da luz que via. O papel voava na planície, encostara-se a uma ár­vore e tremia preso contra o tronco. Sinto na minha car­ne uma lei que contradiz a lei de meu espírito dizia pigarreando na madrugada: tudo estremecia cada vez mais, embora nada se transformasse.

Eis porém que uma folha vibrava em aço no meio da ramagem escura como sinal para poder ser vista. Efi­gênia se levantava com esforço, recuperava a forma seca e entrava na cozinha. As panelas estavam frias, e o fogão morto. Em breve a chama se erguia, a fumaça enchia o compartimento e a mulher tossia com os olhos cheios de lágrimas. Enxugando-os, abrindo a porta dos fundos e cuspindo.

A terra do quintal estava dura. No espaço o arame de estender roupa. Efigênia esfregava as mãos esquentan­do-as: tudo aquilo estava para ser transformado pelo seu olhar. Um olhar que não vinha dos olhos mas da cara de pedra — era assim que os outros a viam e sabiam ser inútil lamentar-se. Diante daquele rosto eles deviam esconder a fraqueza, mostrar-se rude e não esperar lou­vor — era desse modo que Efigênia era boa e sem pie­dade. Voltava para a cozinha, tomava vários goles de café soprando, tossindo, cuspindo, enchendo-se do pri­meiro calor. Então abria a porta e a fumaça se liberta­va. De pé na soleira da porta, sem súplica, sem perdão.

Eis a claridade neutra cobrindo a campina. Pássa­ros escuros voavam. Toda a ramagem estava agora transpassada de luz, de gravidade e perfume. A mulher cuspia longe com mais segurança, as mãos na cintura. Sua du­reza de jóia. O arame se balançava sob o peso de um pardal. Ela cuspia de novo, ríspida, feliz. O trabalho de seu espírito tinha sido feito: era dia.


CAPÍTULO SEGUNDO

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