A cidade sitiada e o momento da fundaçÃo maria Beatriz G. L. de Albernaz



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A CIDADE SITIADA E O MOMENTO DA FUNDAÇÃO
Maria Beatriz G. L. de Albernaz
Doutoranda de Poética – Ciência da Literatura – UFRJ

Em busca de uma “paidéia poética” na cidade

Empenhar-me nesta pesquisa significa enfrentar questões de ordem pessoal e profissional. A educação não apenas é parte da minha formação e trajetória mas de um desejo de reordenamento, de ultrapassagem de uma condição social, política e humana de aviltamento. No entanto, ao entrelaçar este desejo à ordenação da literatura, mais precisamente do fazer-poético, o desejo praticamente se dissolve; é obrigado a se ver com uma liberdade que confunde. Nesta empreitada, educação abre-se a uma linguagem que não indica, sugere, isto é, que acena com a possibilidade de um caminho estranho. Por isso, às vezes, falo em “paidéia” e não mais em “educação”, numa tentativa de alargar o horizonte da educação não como busca de um conhecimento dos objetos ou de nós mesmos, como sujeitos da história. Com a escolha da palavra “paidéia”, procuro abarcar uma reflexão de formação do ser humano, em sua integridade. Mas esta formulação também rapidamente sucumbe na homogeneidade redutora do efeito discursivo. Por isso, é preciso distinguir a paidéia que procuro como poética. Quem diz poética, diz concreta, diz experimental, no sentido de abertura às coisas como acontecimentos.

Mas onde entra a cidade aí? E sua fundação? E Clarice Lispector, com seu romance “A cidade sitiada”? A cidade é um tema do qual não consigo me afastar, ainda que muitas vezes tenha desejado ardentemente. Meu interesse na cidade vem de um estranhamento em relação ao seu fazer, ao nosso modo de habitá-la, de convivermos uns com os outros. Vem também de uma necessidade e de uma aposta no reencontro da chamada “compaixão cívica”, como diz Sennett, para que possamos não só habitar a cidade como também deixar-nos habitar por ela. Mas o clima de indiferença, de abandono, de inércia não nos propiciam este deixar-ser a cidade em nós. O clima de envolvimento ativo, isto é, na busca turística, freqüência social, e conhecimento informativo dos seus lugares tampouco nos parece o mais propício à convivência.

Fundação poética da cidade


O que fazer então: voltar à fundar a cidade? Fundar uma nova cidade, deixando esta em que vivemos para trás? E fundar significaria construir edificações, melhorias do espaço urbano no processo de modernização de suas estruturas? É estranho que construir com concreto esteja tão colado à abstração calculista e geométrica da cidade como um espaço planejado. Neste sentido, o romance de Clarice Lispector, em sua narrativa da trajetória de Lucrécia Neves, uma habitante anônima do subúrbio de São Geraldo, pode nos falar em linguagem poética, do que é fundar concretamente uma cidade.

Em São Geraldo, Lucrécia vive com a mãe em um sobrado cheio de bibelôs, numa vida acanhada e inquieta. É pelo seu olhar de estranhamento que somos apresentados à cidade com a qual ela estabelece uma relação ambígua: vive momentos de abertura às coisas e de desejos de ingresso a uma “ordem superior”, como ela mesma diz, procurando se adaptar a um discurso mecânico instituído em conformidade com a convivência banalizada com o mundo.

Na primeira metade do livro, conhecemos os três namorados de Lucrécia: o forasteiro Felipe, um soldado; o cidadão Perseu; e o advogado Mateus, com quem se casará e irá morar em uma metrópole. Porém, não agüenta a cidade grande e traz seu marido de volta ao subúrbio. Mas seu lugar modernizou-se e Lucrécia burocratiza seu olhar. Seu marido viaja, ela vai passar uma temporada numa ilha onde reencontra o antigo médico e experimenta o amor e os obstáculos próprios do movimento amoroso.

Depois, viúva, de volta a São Geraldo, sem a presença dos cavalos em seu horizonte, Lucrécia, vive sozinha entre bibelôs e torpor. A submissão a uma ordem banalizadora, que antes tomou o sentido da fuga e depois o da inércia, torna-se agora adulação enganadora, com mediana satisfação de desejos esporádicos. Porém, numa tarde, provocada pela penumbra, durante o seu tricotar cotidiano, Lucrécia reencontra sua visão pensadora e fundadora de mundos. Um gesto simples e um olhar direto para uma coisa igualmente simples muda a sua trajetória mediana. Por fim, num fim insólito, separa-se de São Geraldo que agora vai mudar de nome. Lucrécia vai de encontro à mãe que lhe acena, do campo, a possibilidade de um novo casamento.

Desde o início da narrativa, os cavalos têm o lugar do contraponto com a urbanidade. Eles e a titubeante Lucrécia, com seu olhar de aderência às coisas manifestantes na cidade, fazem com que a mesma aconteça. Em seu anonimato e em sua relação ambígua com a cidade, são os seus fundadores. Concretamente, poeticamente, fundam a cidade integrando-se a ela como uma de suas coisas. Isto não significa dizer tornar-se autômato, mas sim como diz a própria Clarice em “Um sopro de vida”, “humanizar” as coisas.

Leitura poética do romance


Quando se inicia a leitura de “A cidade sitiada”, a atmosfera de estranhamento que se cria é imediata. Cada pedaço de frase parece ali uma esquina que não se sabe onde vai dar. Para o leitor que procura se perder dentro de uma cidade, nada melhor. Explicando: o tema da cidade atualmente parece multiplicar-se mas a diversidade, caso a busquemos com um mapa ordenador, ou com um esquema interpretativo condutor, torna-se una, compacta. Porém, o texto de Clarice propõe um aprendizado poético, inquietante porque incerto. Então, para onde nos leva esta leitura?

Primeiro, ao poder do olhar. Lucrécia Neves é uma mulher que vê, mas vê para além do banal, isto é vê as coisas para além da sua serventia: a estátua, o cavalo, a flor, a cadeira, o morro, as janelas, a praça, os soldados, a vitrine, tudo pode ser um acontecimento se ao invés de se querer possuir as coisas, a gente se deixar possuir por elas.

E este é o segundo ponto para onde nos leva o texto – para o acontecimento apropriador como condição para habitar um lugar. Realmente, pode parecer meio estranho: a gente se deixar possuir por uma cadeira. Ainda mais se esta cadeira não é só um sustentáculo de nosso corpo mas se ela é o nosso corpo. Muito estranho. Num dado momento, Lucrécia se vê como estátua da Praça mas não para ser louvada e sim por assumir o seu olhar de bronze, a sua postura estática, enfim, o seu ser estatual.

Num outro momento, Lucrécia vê um soldado que a vê. E então sente que assume a forma dela mesma vista por ele. A realidade é então o que o sujeito vê? Não seria este o império da subjetividade? Ou do protagonista “Zelig”, no filme de Woody Allen, que se transforma permanentemente no outro? Um terceiro ponto trazido pela leitura de “A cidade sitiada” é o do pensamento coisal. Este, próprio de Lucrécia, manifesta-se não assumindo diferentes aparências, já que ela sabe estar olhando. O pensamento coisal não pode ser interpretado de acordo com as condições estanques subjetividade-objetividade. Como foi dito, Lucrécia sabe estar olhando e não deixa de ser ela própria. Existe um momento, como diz Merleau-Ponty, em que as coisas são espetáculos e os espetáculos são coisas. Lucrécia ama ver mas, ao mesmo tempo, ela ama, vendo. Continuando a citação de Merleau-Ponty, há um momento em que eu sou o outro e o outro sou eu.

E então, chegamos ao quinto ponto para onde nos leva o texto – o da reunião integradora. O olhar de Lucrécia é íntegro: ele permanece porque olha, pois quando quando Lucrécia não mais vê, ela também se esvai.

Reunião integradora das coisas, no vazio


Heidegger chama atenção para uma forma de compreender o real que é não de aprisionamento a esquemas pré-concebidos mas que é de abertura aos acontecimentos em sua dimensão ambiental, quer dizer, enquanto manifestação do céu e da terra; em sua dimensão mortal ou mundana; assim como em sua dimensão desconhecida, desconhecível. Estar aberto a todas estas dimensões do ser das coisas demanda uma liberdade visceral, não só mental mas corpórea pois a liberdade reside justamente em desapegar-se a qualquer intenção impositiva. Nestes momentos, deixamos que os acontecimentos nos aproprie, perpassando a percepção banalizadora do real, que nos faz acreditar que coisas e pessoas estão aí para nos servir e para serem conquistadas.

Lucrécia seria então uma personagem da massa mas que vai de encontro ao vazio. Este encontro com o vazio é o ligeiro distanciamento que a permite ver melhor, apesar de torná-la também ligeiramente esquisita em relação aos outros que desempenham bem as suas funções. No entanto, é no vazio que se funda mundo. É no vazio, que se vê o acontecimento. Assim, por exemplo, às duas horas da tarde, o sol é ofuscante em São Geraldo. Lucrécia como os outros não vê nada pois nada se distingüe naquela luz. Quando, porém, ela vê o movimento de um homem a buscar a sombra, Lucrécia distingüe ali um lugar para se estar. Parece óbvio mas Lucrécia viu a luz acachapante e sua integração a ela; viu as pessoas sem feições e o homem em busca da sombra. Com isto, seu tempo suspendeu-se ou como diz Pontieri, espacializou-se. Nesta operação do seu olhar, ela habitou o lugar, abriu-se a sua dimensão céu, terra, humanidade e mistério pois ali mesmo naquele lugar algo se deu, algo se apoderou dela, a fez parar e refletir. Algo que não cabe explicar. Ali cabem o sol, o vento, o homem, a procura, a sombra, enfim, o caber tanto num só lugar é que o faz habitável.



Gestos simples inaugurais

É extremamente simples. Contudo, por que não nos abrimos a esta simplicidade, preferindo nos ocupar do construir permanente? Se não pudermos olhar a terra, em sua secura, jamais verteremos a água e nunca compreenderemos que o alívio vem do gesto simples que requer a suspensão momentânea da construção humana da cidade. Há no livro uma outra personagem emblemática: Efigênia. Numa passagem que encerra o 1o capítulo do romance, denominado “O morro do pasto”, Efigênia, mulher velha, guardiã da memória da cidade, justamente por estar fora dela e ser contrária ao seu “progresso”, última moradora do morro, ela reza a única frase que se lembra da única oração que recorda: “sinto na minha carne uma lei que contradiz a lei do meu espírito”. Toda manhã, antes de iniciar seus afazeres, ela se ajoelha e repete a frase. “O que era sua carne, nunca soubera; neste momento era uma forma ajoelhada. O que era o seu espírito, ela ignorava. Talvez fosse a luz mal erguida da madrugada sobre os trilhos” (p. 29).

Em “A cidade sitiada”, através de Lucrécia, percebemos os movimentos dos olhos de quem busca esta experiência rudimentar de integração. Efigênia, a guardiã, se coça enquanto seu espírito sobre a campina não é mais seu. Luz, vento, árvore, pigarro, madrugada, vibração, corpo em pé, secura, cozinha, panela, fogão, chama, fumaça, tosse, cuspe. Lucrécia é a herdeira urbana de Efigênia aldeã.

Historicidade e aprendizado


Mas o que isso tudo nos ajuda a ser em nossa própria cidade? Nos ajuda tanto quanto é possível nos lembrarmos de que no céu, aprender é ver. Mas deixemos por um momento a epígrafe do livro: um fragmento do filósofo Píndaro (“No céu, aprender é ver; na terra, é lembrar-se.”) e vamos de volta à pergunta feita há pouco. É preciso dizer que com esta leitura espera-se refletir a vivência na cidade aberta à história do ser. O que vem a ser esta pretensão? Nada mais do que abrir-se ao olhar de quem vê o óbvio com a liberdade de deixá-lo acontecer em todas as suas dimensões. Tudo o que é óbvio se interpõe ao olhar. A cidade é muito mais do que uma sucessão de eventos, um substituindo ao outro. Neste sentido, ela pode ser fundada permanentemente. Não há redenção, como se esperaria de uma visão histórica progressiva, mas recomeço.

É assim que a epígrafe do filósofo Píndaro prenuncia um aprendizado. Lucrécia assume a perspectiva de quem vê. Ela é o próprio céu, a luz e o vento que mobilizam a história narrada por Clarice. Esta é a terra. Aquela que não permite que o olhar de Lucrécia seja esquecido. Clarice aprende, lembrando. Enfim, neste romance, personagem e narradora dependem uma da outra.

Quanto à cidade, ela depende de ambas mas insiste no esquecimento, na construção contínua. Será preciso a coragem de uma Lucrécia para destruí-la, suspendendo o tempo, fundando um lugar habitável, integrando-se às coisas-pessoas. Será preciso a determinação de uma Clarice para destruir a estátua eqüestre, narrando a história dos cavalos expulsos da cidade moderna como os poetas o foram da cidade clássica. No final do livro, os cavalos que fantasmagorizavam a São Geraldo emergente desaparecem. Lembrar deles é trazê-los de volta. Assim, se algum cavalo perdido generosamente se oferecer a nossa visão, poderemos fundar uma cidade em que ele possa existir.

Ensinamento metafórico

Vitrines podem ser quebradas por paralelepípedos, podem apenas expor objetos mas podem também ser espelhos de um eu que ao se perceber refletido, vê a superfície do vidro e não só a si mesmo: vê também manequins através e vê copas de árvores, vê a rua, vestidos e gente passando. A fundição – no sentido de apagamento das fronteiras e ao mesmo tempo de percepção dos vários elementos co-existentes, cada um participando de um todo – faz a fundação. E fundação vem a ser a possibilidade destes elementos serem em toda sua integridade.

Na voz ordenada de um guarda, podemos ouvir: “Fique onde está!”, mas se ele olhar para quem gritou, se olhar para o homem com cara de bêbado e ver noites pregadas em seus olhos, humilhações, um anjo em seu ombro, a mãe que o pariu; se o guarda se ver refletido nesta vitrine de vermes e de sucos, de tecidos velhos, pode até sair do seu espaço demarcado, pode até adquirir a coragem de tocá-lo como a uma estátua de si mesmo e pode até pensar que deveria salvaguardar aquela estátua em toda sua arte, e até ouvi-la falar a respeito da cidade que ali se funda.

A medida da fundação é a extensão de gestos simples, do olhar simples que abre-se para o momento de quebra da mímica, para poder ser Momo, o quebrador das regras.”Cidade educativa”, um conceito momentâneo, vem como forma de tecer um comentário, refletindo a educação enquanto vitrine e enquanto salvaguarda. Será a educação “paralelepípedo e ordem” ou “espelho e escuta”? E esta escuta – como dimensão de salvaguarda – significaria re-conhecimento de si próprio na pobreza do outro? A cidade, humaníssima, salta num gesto inesperado e simples que transcende a tarefa, a atividade e a labuta; e a transcendência está em refletir e reconhecer tarefa, atividade e labuta, em sua pequenez, grandiosa pequenez. Viver numa cidade, só faz sentido no momento de sua fundação.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNET, J. T. Otras educaciones. Mexico, Universidad Pedagogica Nacional/Anthropos, 1993.

HEIDEGGER, M. “A superação da metafísica” e “Construir, habitar, pensar”. In: Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, Vozes, 2002.

LISPECTOR, C. A cidade sitiada. 4ª ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1975.



PONTIERO, R. Clarice Lispector uma poética do olhar. São Paulo, Ateliê Editorial, 2001.

SENNETT, D. Carne e pedra. Trad. Marcos Aarão Reis, Rio de Janeiro, Record, 1997.


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