A competiçÃo monástica: paulo e antão edmar Checon de Freitas



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A COMPETIÇÃO MONÁSTICA: PAULO E ANTÃO
Edmar Checon de Freitas
Este trabalho tem como proposta evidenciar a dimensão do conflito, da competição entre os adeptos da vida monástica cristã no fim da Antigüidade, a partir da análise de um breve livro de São Jerônimo: a Vida de Paulo, o Primeiro Ermitão.

Personagem marcante na história do cristianismo, Jerônimo legou à posteridade uma obra notável. Entre seus escritos encontramos hagiografias, tratados e uma vasta coleção de cartas, também estas assumindo o aspecto de verdadeiros tratados. Grande estudioso, conhecedor do latim, do grego e do hebraico, deve-se a ele a mais famosa versão latina da Bíblia, a célebre Vulgata. Estimado por uns, execrado por outros, Jerônimo foi sobretudo um polemista, envolvendo-se com gosto numa série de disputas que podem ser sintetizadas em dois pontos fundamentais: a defesa das virtudes monásticas e o combate em favor da ortodoxia da Igreja Romana. Presbítero e monge, Jerônimo buscou integrar à vida do clero a proposta monástica. Para ele o celibato, a pobreza, a busca da solidão, enfim, a dedicação a uma vida pautada no ascetismo deveria nortear a ação da Igreja. Daí sua luta em favor da supremacia do clero celibatário frente ao clero casado (Brown, 1990, p. 309-310). Granjeou inúmeros inimigos ao longo de sua vida, graças ao seu estilo arrogante e incisivo. Veja-se o depoimento do bispo Paládio:

“Jerônimo, um padre, habitava na região [Belém]. Era um mestre da língua romana, um homem notavelmente dotado, mas de tal maneira ciumento que isso eclipsava o seu valor intelectual. Posidônio, que convivera com ele algum tempo, disse-me ao ouvido: ‘A nobre Paula, que se ocupa dele, morrerá primeiro, livre enfim desse seu ciúme.Mas penso que, por causa dele, nenhum santo habitará esses lugares e seu rancor se estenderá até seu próprio irmão’. Foi o que aconteceu: Jerônimo expulsou o bem-aventurado Oxiperêncio, um italiano; depois Pedro, o egípcio e ainda Simeão, homens admiráveis que conheci” (História Lausíaca, 36, 6-7).

Durante o pontificado de Dâmaso (366-384) Jerônimo atinge uma posição de destaque em Roma, tendo chegado à cidade em 382 e tornado-se secretário do papa. É nessa época que vem a se tornar também o orientador de um grupo de nobres romanas dedicadas à vida ascética, ao qual pertencem Marcela, Paula e sua filha Eustóquia, suas principais discípulas. A morte de Dâmaso o coloca em desvantagem frente aos grupos rivais em Roma. Jerônimo acaba deixando a cidade e , acompanhado por Paula e Eustóquia, dirige-se ao Oriente, fundando um mosteiro em Belém. Não se desliga porém das paragens ocidentais. Através de seus escritos, sobretudo suas famosas cartas, Jerônimo participa de todas as controvérsias teológicas de seu tempo, convertendo-se num dos principais líderes da ortodoxia latina e doutrinador da vida monástica no Ocidente.

Muito antes disso, porém, podemos identificar o traço de competidor em Jerônimo. Nascido em Strídon, na Dalmácia (347), a formação monástica de Jerônimo deu-se no monastério de Aquiléia, no Norte da Itália. Tal monastério foi fundado em 345 por Cromácio, sob a influência de Atanásio de Alexandria, o grande campeão da ortodoxia nicena e divulgador no Ocidente do monaquismo, movimento de raízes orientais. Atanásio percorreu diversas cidades do Ocidente romano num de seus inúmeros exílios motivados pelas controvérsia ariana. Mas sua influência sobre o monaquismo ocidental deveu-se sobretudo à redação da Vida de Antão, o monge egípcio tido por “pai dos monges”. Jerônimo, por sua vez, fez o caminho inverso. Após vários anos de permanência em Aquiléia, partiu para o Oriente, o berço do monaquismo, fixando-se no deserto de Cálcis, na Síria. Aí permaneceu por dois anos (375-377). Nessa estadia em Cálcis, Jerônimo teria conhecido a história de Paulo de Tebas, anacoreta egípcio mais velho e mais perfeito que o famoso Antão. Numa clara disputa com Atanásio, Jerônimo compõe então a Vida de Paulo. O monaquismo em expansão buscava produzir os seus heróis.

Temos aqui a manifestação de um significativo traço do monaquismo: a competição. Em toda a história do movimento monástico, quer no Oriente quer no Ocidente, não foram apenas santas e virtuosas obras que marcaram a vida dos homens e das mulheres que optaram pela vida de solidão, renúncia e mortificação nos desertos. Não apenas contra os demônios é que se batiam os “atletas de Cristo”. Uma ativa competição os opunha uns aos outros.

A Vida de Paulo é um bom exemplo de tal disputa. Nela Jerônimo utiliza uma estratégia diferente da empregada por Atanásio para enaltecer seu herói. Na Vida de Antão nos é mostrado como o futuro “pai dos monges” decide adotar a vida solitária e como luta para vencer os obstáculos que surgem em seu caminho. A principal barreira vem a ser a tentação diabólica, que manifesta-se das mais diversas formas, desde os disfarces humanos até a aparição de animais ou seres monstruosos. Antão resiste e avança em seu propósito, sendo cumulado de dons especiais que atestam sua santidade: curas, exorcismos, interpretação das Escrituras, visões do futuro e outros mais. Ao final de uma vida virtuosa ele morre como um santo estimado por todos os seus discípulos.

A descrição que Jerônimo faz de Paulo é bem mais breve. Afirmando desconhecer os detalhes da vida do santo, inclusive suas lutas contra Satanás (VP 1)1 ele inclui em sua narrativa  após uma breve introdução em que rememora os tempos da perseguição ao cristianismo pelo Estado romano  apenas os fatos relativos ao início da carreira monástica de Paulo e ao seu final, o qual é precedido pelo encontro entre Paulo e Antão, este sim o eixo central da narrativa. No prólogo da Vida de Paulo percebe-se a primeira nota desafiadora:

“Muchos se preguntam todavía cuaál fue el monge que por vez primera habitó en el deserto. Algunos, empezando desde muito atrás, ven a Elías y a Juan (el Bautista) como los pioneros (...) Otros, que creen sostener la opinión común, afirmam que en el origem de esta forma de vida está Antonio, lo cual  en parte  es verdad. Porque, aunque no fue el primero, sin embargo gracias a él todos se sintieram atraídos por este tipo de vida. Pero Amatas y Macario, discípulos de Antonio (...) afirmam todavía hoy que el príncipe de esta vida, aunque no le dio su nombre, fue un tal Pablo de Tebas, lo que noisotros também aprobamos. (...) De este modo, como de Antonio nos quedó su memória escrita en latín y griego, mi propósito es escribir unas pocas cosas acerca de los comiienzos y del final de Pablo, más por suplir una necessidad hasta ahora incumplida, que por iniciativa de mi ingenio” (VP 1)

Deste modo, conhecemos do monge Paulo apenas suas glórias, suas virtudes cuja prova vem a ser sua velhice angélica. Ao contrário, o retrato que temos de Antão é o do monge que sofre entre os tormentos inflingidos pelos demônios, embora ao final saia vencedor da batalha. Se Atanásio, por mais fabulosa que seja sua narrativa, nos permite ver a face humana de Antão, o mesmo não se pode dizer de Jerônimo. O protagonista de sua história mais parece um anjo que um homem.

Mas os anjos habitam o Céu não o deserto. A busca dos monges pelos lugares solitários tinha uma dupla finalidade. Por um lado era a maneira mais radical de cortar os laços com o mundo. Não apenas se abstinham dos prazeres mundanos, mas afastavam-se do convívio humano. Por outro lado, o deserto era visto como um lugar de provação, campo de batalha para o enfrentamento do inimigo número um dos homens: o diabo. Cabia ao monge assumir o papel de guerreiro nessa batalha, derrotando o inimigo pela força de suas virtudes. Num certo sentido, portanto, o deserto era o habitat dos demônios, ou pelo menos uma espécie de “base de operações” dos mesmos no mundo dos homens.

Ora, o deserto habitado por Paulo de Tebas nos é mostrado a partir de uma perspectiva totalmente diferente. Fugindo da perseguição dos tempos dos imperadores Décio e Valeriano, o jovem Paulo foge para o deserto e sente-se atraído pela vida solitária. Teria dezesseis anos de idade, ou seja, ele opta pela vida monástica numa idade inferior àquela na qual Antão o faz  dezoito anos. Adentrando ao deserto, Paulo encontra uma espécie de caverna onde existiam instalações abandonadas para cunhagem de moeda falsa. Nesse local ele se depara com uma palmeira abundante em frutos e uma fonte da qual jorra água (VP 5). Visão paradisíaca. É aí que Paulo vem a passar toda a sua vida, e é aí que Antão o encontra, após uma penosa busca, noventa e cinco anos mais tarde.

Mas por que vai Antão procurar Paulo? Vejamos a explicação de Jerônimo:

“El bienaventurado Pablo ya llevaba ciento trece añod de vida celestial en la tierra cuando Antonio, nonagenario (como él decía con gusto), viviendo en otro desierto, concibió en su mente la idea de que era el único monge perfectamente solitario que habitaba en el yermo. Pero una noche, mientras estaba descansando, le fue revelado que más adentro en el desierto, había otro, mucho más perfecto, al cual debía ir a visitar” (VP 7).

Evidenciam-se mais uma vez as fraquezas humanas de Antão, frente à perfeição monástica de Paulo. O herói de Atanásio não é assim um modelo de perfeição absoluta. Ao contrário, apesar de uma vida virtuosa e de vencer o demônio em sucessivos combates, ainda é vítima da fraqueza do orgulho. É indicada como uma espécie de purificação a peregrinação de Antão até à morada de Paulo2. E assim a narrativa de Jerônimo encaminha-se para seu ponto central.

A jornada de Antão é penosa, pois ele ignora o caminho a seguir. É socorrido pela Providência divina que lhe envia uma série de sinais. O curioso é que os sinais indicativos do rumo a ser tomado por Antão no deserto são fornecidos através de criaturas fantásticas e animais: um centauro, um sátiro e uma loba. Note-se que a presença de animais e seres do deserto se dá também na Vida de Antão. Com uma significativa diferença. Nessa última esses seres são instrumentos diabólicos para atormentar o santo (VA 9 - 10; 53) O deserto desafia a santidade de Antão, inflingi-lhe torturas físicas e mentais. Na lógica de Atanásio o grande mérito de Antão consiste em ser santo em meio às tentações infernais. No caso da Vida de Paulo a situação é diferente. O deserto, com a presença de Paulo, apresenta-se transformado, até os seres mais estranhos que nele existem são instrumentos da ação divina. Jerônimo chega a colocar na boca do sátiro que orienta Antão palavras de um autêntico cristão, apontando os erros do culto pagão e confessando sua fé em Cristo.

Finalmente dá-se o encontro entre os dois santos. Após fingir não querer receber o visitante Paulo lhe franqueia a porta e inicia-se uma confraternização ao estilo monástico: poucas palavras e muita vigília. Um corvo vem trazer-lhes o pão:

“ Entonces dijo Pablo: ‘Mira, Antonio, el Señor nos ha enviado la cena, verdaderamente es piedoso y misericordioso. Hace sesenta años que me envía cada día medio pan; mas ahora, por haber venido tú, Cristo ha duplicado la ración a sus soldados’” (VP 10)

A existência angélica de Paulo é assim reafirmada. No seu deserto-paraíso há uma total harmonia entre as criaturas e nem o trabalho é necessário. O sustento de Paulo vem das próprias mãos de Deus. Isso contrasta profundamente com o quadro descrito na Vida de Antão. Até o fim de sua vida o “pai dos monges” trabalhava e muito, embora fosse também assistido por aqueles que iam buscar junto dele curas e conselhos. Àqueles que lhe levavam pão ele retribuía com cestos fabricados por suas próprias mãos (VA 53,1).

O decorrer do encontro prossegue mostrando a figura de um Antão extasiado perante a santidade de Paulo, comportando-se como um atento e respeitoso discípulo. O clímax é atingido por ocasião da narrativa da morte de Paulo. Antão, a pedido de Paulo, vai a sua morada buscar a capa que recebera de presente de Atanásio  gentilmente introduzido por Jerônimo na história  e com a qual Paulo desejava ser sepultado. Já de retorno, após vários dias de caminhada incessante, Antão vê a alma de Paulo sendo elevada aos céus3, encontrando seu corpo defunto ajoelhado em atitude oração. Com a ajuda de dois leões Antão dá sepultura ao corpo de Paulo e guarda para si a capa do santo, a qual torna-se para ele vestimenta de gala (VP 16).

Esse quadro final serve como síntese de tudo o que aqui se tentou demonstrar. Paulo no céu, como um anjo; o deserto, palco de sua vida, é um retrato do paraíso, onde as feras cooperam com os homens; Antão o discípulo que aprendeu com o mestre uma grande lição e que, agora sim, está apto a ser considerado o monges mais perfeito do mundo. Jerônimo escreve portanto não a história de Paulo mas sim procura registrar a limitação de Antão. Não que os méritos desse último sejam negados. Ao contrário, a Vida de Paulo afirma sempre a santidade de ambos os personagens. Mas trata-se de uma definição de limites, de uma ordenação segundo graus variados de santidade.

Mas toda essa discussão pode parecer estéril se não for colocada dentro de um contexto mais amplo. O que aqui temos em vista não é apenas o capricho pessoal de um padre amante da polêmica, procurando diminuir os feitos de alguém que não admira muito  no caso Atanásio (Figueiredo, 1989, p.106). Nosso olhar dirige-se para o quadro geral da história do cristianismo antigo. Analisando esses pequenos conflitos particulares pretendemos iluminar uma face a nosso ver fundamental para a compreensão dos sucessos cristãos na Antigüidade e na Idade Média: o conflito. O monaquismo, movimento dos mais vigorosos da história cristã, longe de ser um lago tranqüilo foi um mar revolto. A controvérsia sempre esteve presente em seu seio. Mas esse estado de coisas não foi jamais destrutivo. O monaquismo soube valer-se dos seus conflitos internos para crescer cada vez mais. Pois foi justamente das crises que brotaram as elaborações doutrinais, os códigos disciplinares e até mesmo os deslocamentos forçados de monges exilados. O resultado disso foi a expansão do movimento.



O mesmo se pode dizer do cristianismo como um todo. Muitas vezes atribuímos a notável expansão cristã a fatores exclusivamente de ordem política ou social: a conversão dos imperadores romanos do século IV, a reação à profunda crise do século III e outros mais. Mas não podemos nos esquecer de considerar a tremenda capacidade de adaptação do cristianismo às mais diversas circunstâncias e meios sociais. Isso aplica-se também a suas divisões internas. A religião cristã soube incorporar o resultado das crises por que passou, absorvendo as tensões vividas por um alargamento de suas próprias fronteiras. Mesmo que a intolerância e a repressão tenham predominado, que os credos dissidentes tenham sido banidos e seus líderes silenciados, a formulação do pensamento dominante, da ortodoxia, fez-se como reação a esses desafios. Poderíamos talvez comparar as crises explosivas da história cristã com as explosões dos astros no espaço sideral. Novos corpos celestes nascem e muitas vezes passam a gravitar em torno daquele do qual se desprenderam. Olhemos para as pequenas explosões e talvez possamos compreender melhor os astros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALTANER, B, STUIBER, A. Patrologia. São Paulo: Paulinas, 1988.
ATANÁSIO. Vida de Antonio. Madrid: Ciudad Nueva, 1995.
BROWN, Peter. Corpo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1990
______. O fim do mundo clássico. Lisboa: Verbo, 1972.
FIGUEIREDO, Fernando A. Curso de teologia patrística. Petrópolis: Vozes, 1990. v.3.
GOBRY, Ivan. Les moines en Occident. Paris: Fayard, 1985. 2.v.
JERÔNIMO. La vida de San Pablo, el primer ermitaño (introdução, tradução e notas de Fernado Rivas), Cuadernos Monásticos, Victória, n. 115, p. 526-551.
PALÁDIO. História Lausíaca. (tradução do texto francês “Les moines du desert, Histoire lausiaque  Paris, Desclée de Brower, 1981  pelas monjas beneditinas do Mosteiro N. S ª da Paz, de Iapecirica da Serra, São Paulo). Salvador: CIMBRA, 1986.

NOTAS

1 Nas citações da Vida de Paulo e da Vida de Antão utilizaremos as abreviaturas VP e VA, respectivamente.

2 O tema da visita de um monge a outro é recorrente na literatura monástica. A História Lausíaca de Paládio está repleta de situações semelhantes, muitas delas também envolvendo uma disputa em torno do título de monge mais perfeito.

3 Há um paralelo interessante entre esse episódio e um outro, também envolvendo Antão e narrado por Atanásio (VA 60). Sentado na montanha Antão contempla a subida ao céu da alma de Amon, famoso monge que habitava a montanha de Nítria, importante centro monástico do Egito (veja-se também a História Lausíaca, 8)



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