A (con)fusão do poder Francisco Murari Pires



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Édipo, a (con)fusão do poder

Francisco Murari Pires


1. Interdito
O fato de uma transgressão (parbasia1) estigmatiza a fama de Laio, filho de Lábdaco2, rei de Tebas. O episódio ocorreu na corte de Pélops, hospedeiro régio que o acolhera quando de seu exílio. Mas Laio, a quem Pélops encarregara de instruir seu filho, Crisipo, nas artes do auriga, apaixonou-se pelo jovem. Então, o raptou e uniu-se a ele. Inaugurava-se entre os homens a pederastia, a realizar-se, por mímese no âmbito humano, o que Zeus modelarmente principiara raptando Ganimedes.3 Por furiosa reação paterna, Pélops imprecou contra o sacrílego hóspede uma maldição odienta, projetando-lhe punição que justamente ressarcisse o crime por efeito reverso: a destruição pelos próprios rebentos por ele gerados4.
De regresso a assumir a realeza em Tebas, Laio tinha por esposa Jocasta, filha de Meneceu.5 Pouco se sabe desse casamento, apenas uma notícia em escólia às Fenícias de Eurípides, informando que, a conquistar sua esposa, Laio tivera que matar o sogro.6 Mas essa união não gerava filhos, apesar do já longo tempo porque Laio frequentasse o leito de Jocasta.7 Intrigado, foi inquirir o deus, Febo, rogando-lhe descendentes homens que compartilhassem sua casa.

Mas a palavra oracular, a esse desejo contrapôs advertências, de formulações diversamente memorizadas pelos trágicos clássicos. Assim, as ponderações do coro de tebanos, no Sete contra Tebas de Ésquilo: lembram o dito trez vezes em umbilicais centro Píticos oraculares de Apolo, aconselhando Laio a que morresse sem filhos, reclamo dele exigido para a salvação da cidade.



Pois, a antiga digo

transgressão de pronto castigo

- pela geração terceira perdura -,

quando de Apolo Laio

violou o dito três vezes por

umbilicais píticos

oráculos, que morresse

sem filhos a salvar a cidade. 8

Já pela memória euripidiana de Jocasta, dizia:



Ó de Tebas de bons cavalos rei,

não semeies de filhos o rego contra os deuses a forçar.

Se, pois, procriares um filho, te matará o gerado,

e toda tua casa marchará em meio a sangue.9

E ainda outra memória da mesma palavra oracular associava na história de Laio o presente interdito à passada maldição de Pélops:



Láio Labdácida, de filhos uma raça afortunada pedes.

Gerarás caro filho, mas terás este destino:

de seu filho pelas mãos deixar a luz. Assim, pois, assentiu

Zeus Cronida às de Pélops odiosas maldições disposto,

de quem caro filho raptaste; mas este te desejou tudo isso.10

2. Exposição


Advertência oracular tão mais terrível por revelar interdito inevitável, a escapar do âmbito de pleno controle das ações humanas. Um dia, ou porque vencido por insensatêz amorosa de indóceis desejos11, ou porque dominado pelo vinho12, ou simplesmente porque a esquecesse13, Laio, assim perdida a (cons)ciência de seu ato - loucura uniu casal desvairado14 -, consumou o prazer, semeando um filho em Jocasta.
Então, perpretado o interdito e gerado o filho, Laio moveu intentos de evitar seus efeitos funestos, obrando recursos que inviabilizassem a consumação de seu télos parricida. Projetou a morte da criança, decidiu sua exposição.
A concepção desse fato de uma exposição pela arte trágica esquileana só pode ser apreciada minimamente, apenas preservada por uma formulação aristofânica nas Rãs.15 Neste registro da memória textual helênica, dentre os infortúnios que desgraçaram desde sempre o destino edipiano, Ésquilo diria também o evento da exposição em pleno inverno, em um vaso de barro. Essa história, pensam os críticos, lia-se no Laio de Ésquilo.16

Na concepção sofocleana17, memorizado por Jocasta, o fato da exposição é assim narrado: e quanto ao filho, do nascimento não passaram tres dias que Laio, tendo jungido as articulações de ambos os pés, o jogasse por mãos de outros em inacessível montanha. Tal fora a ordem régia de exposição do recém-nascido. Jocasta desencumbiu-se do cumprimento: encarregou do serviço um homem de Laio, escravo de confiança firmada por laços de criação familiar no senhorio, e não membro adventício comprado, a então trabalhar como pastor, seguindo os rebanhos régios pelo Cíteron e vizinhanças.18 Entregou-lhe a criança, ordenando sua eliminação. A bem cientificá-lo da gravidade do caso, foi o servo informado da razão palaciana, respeitante aos temores que moviam o casal régio: pronunciamentos divinos anunciavam na criança o assassino de seus pais.19

Na concepção euripidiana20, Jocasta também relembra o fato, dele apresentando diverso aspecto conformador do plano de exposição da criança. Diz que Laio assim decidiu porque, uma vez o fato paterno consumado, compreendera seu desvairio e a palavra do deus. O rei agora ganha ciência de sua transgressão, todavia advertida pela proclamação divina. Consciência que então projeta piedosa reparação pela falta cometida: às aspirações régias da sucessão filial de sua casa reponde, pelo contrário, a privação daquele filho mesmo, a anular, pois, sua ação geratriz. É ele mesmo quem define plenamente a exposição: não só seu modo ao transpassar por férreas pontas os tornozelos da criança ao meio21, como ainda a entrega aos boieiros, ditando-lhes o lugar apropriado, no prado de Hera nas encostas do Cíteron. O sacrifício da criança é consagrado à deusa.

Mais outros relatos antigos dizem igualmente da exposição da criança, os tornozelos perfurados ou por aguilhões22 ou por broches23, nas alturas do Cíteron, território de Platea. E já Pisandro faz menção aos cueiros e alfinetes, signos de reconhecimento da criança exposta.24


Já outras diferentes memorizações míticas dizem a exposição da criança não na montanha, e sim lançada em um cofre às águas do mar, desviada de Tebas para vagar por destino desconhecido.25 Cenas de representações figurativas em vasos de cerâmica também registram a história desse fato.

Qual seja a via alternativa da exposição (dual), ou montanhosa ou marítima, acerto da geografia régia do destino edipiano que conecta Tebas por Cíteron com Corinto por golfo. Assim alusivamente o diz jogo metafórico construído pelo vaticínio (sofocleano) de Tirésias26 com que articula percurso por que transita o destino edipiano, confundindo princípio de partida com final de chegada.


Então, pela exposição da criança destinada à morte, Laio e Jocasta deram por encerrado o infausto nascimento régio.
Depois, por outra vicissitude do reino, Laio teve que se ausentar de Tebas, em viagem a Delfos, consulente de Febo, ao que ele mesmo declarara.27 Por qual motivo? Pelo teor dos informes lembrados por Creonte, seu cunhado, assim tramados pela narrativa sofocleana, nada se sabe além daquela simples declaração.28 Pelo relato memorizado por Jocasta, agora em formulação euripidiana, reitera-se a causa da aflição régia, ainda perturbada pelo destino da criança, a inquirir o deus procurando saber se ela ainda existia.29 Mas, pondera o crítico moderno30, variantes de motivos próprias antes das vicissitudes de criação poética das tramas míticas, nesse âmbito mesmo encerrando sua (in)significância.

O rei formou reduzido séquito, de apenas cinco servidores - um arauto31 mais quatro guardas -, a acompanhar seu carro: tantas disposições a assinalar a solene dignidade régia de sua missão sacra.32

Assim foi, e não mais voltou.33 Deles todos, um único servidor retornou.34 Se salvara, disse ele, mas os demais estavam todos mortos, inclusive o rei.35 E contou então uma vaga história de salteadores de estradas, agressão violenta de um bando que os massacrou.36 Tudo se passou no local de triplos caminhos.37 Só ele escapou, que fugira.
Da morte do rei, Laio, nada mais se soube em Tebas. Uma calamidade que a dizimava desviou os cuidados da cidade toda.38

3. Encruzilhada


Pólibo e Mérope reinavam em Corinto39, se bem que outras memórias míticas apresentem variantes, por um lado dizendo a sede régia ou em Sícion40 ou em Antédon41 ou em algum ponto da Beócia42 ou na Fócida43 e, de outro, dando por nome da rainha ou Peribéia44 ou Medusa45 ou Antíoquis46. E diz-se ainda que Pólibo era filho de Hermes47 ou de Hélios48.
De Corinto, o rebanho do rei era levado em transumância49 a pastar nos valezinhos boscosos do Cíteron. Pastor encarregado desse serviço de rebanhos monteses, Euforbo. Partia na primavera. Lá permanecia por tres inteiros períodos mensais. Quando surgia no céu Arturo, tempo de voltar. Inverno já, recolhia-o ao estábulo.

Por esse mesmo serviço, de Tebas para lá vinha também o pastor servo de Laio, como nenhum outro trabalhador confiável50, conduzindo duplos rebanhos51. Então, a proximidade de andanças enseja o encontro dos dois pastores.52 Eis que o tebano lhe dá, a Euforbo, uma criança recém-nascida, enjeitada pelos pais, então atada, as extremidades de ambos os pés perfuradas.53 Convence-o a ficar com aquele dom, pois assim tivesse um filho que ele mesmo criasse.54 E disse-lhe qual era seu nome, Édipo, “pés inchados”, por causa da sorte desse seu primevo mal.55 Assim os pais a haviam chamado.56

De volta a Corinto, Euforbo passou a criança a Pólibo e Mérope, casal entretanto falto de progênie. Afeição paterna a um filho dá a razão porque o rei a aceitou e criou tendo-o por seu.57

Pela concepção euripidiana desse acontecimento mítico, são cuidadores de cavalos de Pólibo que recolhem a criança exposta pelos boieiros de Laio lá no Cíteron. Levam-na para os domínios de seus senhores, e a entregam nas mãos da senhora. Ela, então, a amamenta, persuadindo o esposo que era filho dela por ele gerado.58

Outras memórias registram mais variantes. Andrótion59, pelo relato que dele guardou a escólia à Odisséia homérica (XI.271), mencionava o oráculo dado a Laio por Febo - que seu filho o mataria -, mais seu casamento com Epicasta e a geração de Édipo, então exposto, porém salvo e criado por guardadores de cavalos siciônios. Diodoro Sículo diz que os servos de Laio, indispostos à exposição, deram a criança de presente à esposa de Pólibo, dado que ela não podia gerar filhos.60 Já o mitógrafo tardio, latino, conta que fora Pólibo mesmo quem, no curso de uma caçada, achara a criança abandonada.61

Já na versão da exposição marinha, a arca com a criança, ao sabor das ondas, foi dar na praia, lá onde a rainha, Peribéia, lavava as roupas régias. Recolheu-a das águas, e por assentimento de Pólibo, dado que eles não tinham filhos, a criaram por seu. Pelos pés furados da criança a nomearam: Édipo.62


Pela história sofocleana de Édipo63, a adoção da criança enjeitada situa o princípio episódico que define a excelência da cidadania coríntia do herói, inerente à dignidade régia, assim herdada do pai, Pólibo, e da mãe, Mérope. Um incidente, certo dia, abalou esse prestígio. Alguém, movido pelo poder do vinho nos excessos de uma festa, lançou contra Édipo um insulto, dizendo-o filho apenas postiço de seu pai. Édipo, oprimido pela agressão, penosamente a suportou naquele dia. No seguinte, buscou esclarecimento junto aos pais. Estes reagiram indignados contra o ultraje, furiosos com o caluniador. Solidariedade parental que, se rejubilou Édipo, não menos ainda o intrigou, pois não contentava as inquietudes despertadas por aquela denúncia de uma falsa origem régia. A aflição lancinante destas suspeitas persistiam a perturbar sua alma. Então, sem que o pai e a mãe soubessem, foi à busca de mais esclarecimentos, agora divinos. Tomou a estrada para Pito, a consultar o oráculo défico.

Pela história euripidiana de Édipo64, as lembranças de Jocasta pouco revelam as circunstâncias que ensejaram a viagem do herói, de Corinto à morada de Febo.Elas dizem que ele, então a principiar a idade viril bem manifesta por rubras penugens em suas faces, inquietara-se por conhecer suas origens, ou porque por si mesmo cientificara-se de tal questão ou porque alguém o informasse.65

Apolodoro66 guardou uma notícia que lembra a demarcação do pricípio etário que dá por encerrada a vida de criança, já então firmado por excelência de força distintiva, tanto que seus companheiros a isso reagiam por inveja chamando-o pretenso filho. De Peribéia, interrogada a esse respeito, nada soube. Então partiu para Delfos a inquirir o deus acerca de seus verdadeiros pais. Afim a essa história, aquela registrada por Higino67, que também lembra o início da idade viril, a superioridade de coragem, a inveja dos companheiros e o insulto, apenas acrescendo a verossimilhança de contraposição de carater que assim denunciava a falsidade da filiação edipiana: Pólibo era tão brando e ele tão agressivo. Perturbado por essa verdade, foi consultar o oráculo.
Na trama mítica sofocleana68, o teor desse oráculo (con)funde-se pelas palavras do próprio Édipo em relato a Jocasta. Às questões que ele colocara ao deus, Febo tergiversou a honra da resposta mesma por réplicas que antes cintilaram o anúncio de misérias, horrores, infortúnios. De duas ordens. A união conjugal com a mãe, assim gerando manifestação fenomênica de seres todavia de visão insuportável. E o assassínio do pai que o gerara. À resposta divina, (cor)respondeu a definição dos rumos então tomados pelo herói, envidando desviá-los de tais horrendos fins. Orientando-se pela observação astronômica, mensurou distância a afastá-lo de Corinto, e assim intentando fuga do lugar da horrível profecia, tomou novo caminho a determinar o espaço de sua existência de agora em diante.69
Assim caminhando pela rota tomada, aproximou-se de uma encruzilhada. O que ali se passou, é ele mesmo, Édipo viajante, quem o informa, rememorando mais tarde sua visão da cena.70 Percebeu um carro e comitiva que vinha contrário a ele. Logo distinguiu dois dos personagens, um arauto e, montado no carro tirado por potros, um ancião. Mas então, o condutor e o ancião, juntos, com violência o compeliram para fora da estrada. A raiva o tomou: golpeou quem assim o afastava, o condutor. O ancião, espreitando sua passagem ao lado do carro, aproveitou o momento para batê-lo com seu duplo aguilhão no meio da cabeça. Agredido, Édipo devolveu-lhe golpe desferido pelo bastão empunhado em sua mão. O ancião caiu de costas e, do meio de seu carro, rolou direto ao chão. Pelo massacre de todos, Édipo finalizou o episódio.

Na tragédia euripidiana71, o relato do assassínio de Laio é apresentado pelo dizer de Jocasta, que então rememora toda a história de Édipo. O encontro de ambos dera-se na Fócida, no mesmo lugar do Caminho Fendido. Ambos dirigiam-se à morada de Febo, em consulta ao oráculo. A ordem régia, proclamada pelo cocheiro que acompanhava Laio, reclamou passagem: Ó estrangeiro, a tiranos ao largo dá lugar. Édipo, todavia, quieto avançou, mente grandiosa de idéias. À passagem do carro não ficou imune, que os cascos dos potros lhe tingiram púrpura os tendões dos pés. A morte do ancião pelo jovem respondeu pela agressão havida. O vitorioso então tomou a atrelagem do rei, e por ela presenteou Pólibo, provedor de sua existência.

Dos informes guardados do relato de Pisandro72, segundo os anotou a escólia ao verso 1760 das Fenícias de Eurípides, diz-se que Laio, mais seu cocheiro, foram mortos na encruzilhada por Édipo, em reação contra a chicotada que levara do rei. O herói alí os sepultou, após despojar o cadáver régio do cinturão e espada que trajava. Tomando também pelas rédeas o carro por prêmio de seu feito, retornou para casa, e do carro fez dom a Pólibo.

Pelo registro de Apolodoro73, o fato é narrado supondo-se a ótica edipiana do informe, como em Sófocles. Aqui, Édipo, deixando Corinto apavorado pelas previsões oraculares de Apolo, partiu em seu carro, e quando atravessava a Fócida, encontrou-se, em um estreitamento da estrada, com outro carro. Neste ia Laio. Então Polifonte, arauto de Laio, lhe ordenou que saisse da estrada. A delonga desobediente de Édipo custou-lhe a perda de um cavalo, abatido por Polifonte. Édipo, fervendo de raiva, matou ambos, Polifonte e Laio. Foi Damasístrato, rei de Platéias, quem sepultou Laio.

Diodoro Sículo74 é mais sintético, anotando em seu relato o encontro na Fócida, ambos a caminho de Delfos, pelos ensejos mesmos que Eurípides lembra nas Fenícias. Segue-se o insulto de Laio arrogante a Édipo a ordenar-lhe passagem livre, Ao que responde a raiva edipiana matando Laio, inciente de que era seu pai.

Já Higino75, lembrando as razões que motivaram as viagens de ambos os consulentes délficos76 a virem encontrar-se em meio do caminho, anota que os servos de Laio pediram passagem para o rei, entretanto recusada por Édipo. O rei, então, forçou passagem, jogando os cavalos contra o outro, então ferindo-lhe o pé esfolado por uma roda. Enfurecido, Édipo, não sabendo quem ele era, arrancou-o do carro, e o matou.

Nicolau Damasceno77 narra a história um tanto diversamente da tradição mais antiga. Édipo, já crescido, fora à busca de cavalos em Orcomeno na Beócia. Então encontrou Laio acompanhado de Epicasta, que por alguma razão ia como enviado sacro a Delfos. O arauto régio avançou em sua direção, pedindo-lhe que saisse do caminho do rei. O orgulho edipiano, adverso ao pedido, moveu o herói a sacar sua espada em golpe contra o arauto, e vindo Laio em seu socorro, foi morto. Na esposa, todavia, ele não tocou. Fugiu para a montanha, embrenhou-se nas matas. Epicasta, por suas criadas tardias ao encontro, fez procurar o assassino, em vão. Então deu sepultura a Laio e ao arauto, lá no Lafistíon onde tombaram, e voltou para Tebas. Já Édipo, de Orcomeno retornou para Corinto, à casa de Pólibo, seu pai, trazendo-lhe as mulas que despojara do carro de Laio.

Mais tantos outros detalhes são acrescidos em memórias várias do fato mítico. Um fragmento de Ésquilo situa o encontro em Pótnias, nas tres vias de um caminho fendido. Desse local fatídico, a Estrada Fendida, também fala o viajante erudito, Pausânias78, que o visitou: lá se via ainda no seu tempo a tumba de Laio e seu servo, bem no meio do entroncamento dos caminhos, assinalada por pedras empilhadas. E acrescenta o dado de que fora Damasístrato, rei de Plateías, quem, encontrando os corpos, os sepultara. Dos cavalos de Laio dados por Édipo a Pólibo dizia também Antímaco de Cólofon, em sua Lyde, segundo o anotou o escoliasta de Eurípides ao verso 44 das Fenícias.79


Foi assim que dois viajantes estrangeiros, ignorantes de suas respectivas identidades, se encontraram em meio ao caminho de Delfos, e o jovem matou o velho. Ambos incientes de que ali se consumava a advertência da palavra oracular que lhes fora anunciada, a morte do pai pelas mãos do filho, que os dois igualmente por todos os meios intentaram evitar.80

4. Esfinge


E a Esfinge apareceu em Tebas.
Por Hesíodo nomeada Fix, ela pertence à linhagem do Mar (Póntos). O deus, amante da Terra, sua mãe, gerou o viril Fórcis e Ceto de belas faces, os quais, por sua vez cônjuges-irmãos, pariram prole inúmera de monstros, dentre eles Equidna. Esta, unida a Tífon, desdobrou ainda mais prole monstruosa, por Ortos, Cérbero, Hidra e Quimera. Então, por outro acasalamento de mãe e filho, Equidna foi emprenhada por Ortos, parindo Fix e o Leão de Neméia.81

Por tal ascendência de linhagem divina - filha de Equidna, ser cuja natureza ela herda -, a Esfinge é um daímon, potestade sagrada cujo domínio se situa sim aquém do poder divino, porém além do genericamente humano.82

Ser divino, concebido como monstro, compósito de formas heterogêneas. Fera, das aves rapaces têm asas e garras.83 E, consoante ao gênero feminino com que os antigos gregos preferiam categorizar as ameaças monstruosas84, por rosto ela é também jovem mulher, virgem.85 Virgem mista, fera terrível, por asas errantes e garras carniceiras, diz Eurípides.86 Por vezes ainda representada com peito, patas e rabo de leão, ou dragão pela cauda,87 conforme hibridismo afeito às heranças orientais de sua proveniência.88 Assim, ser híbrido cuja natureza participa igualmente do numinoso e do monstruoso.89
A Esfinge, presença divina mortífera em Tebas. Que divindade para lá a enviou? Foi a cólera de Hera que a mandou, vinda das partes mais remotas da Etiópia, assim agindo contra os tebanos que deixaram impune o amor ímpio de seu rei, Laio, pelo jovem Crisipo, raptando-o em Pisa. É o que diz Pisandro, pelo relato que de sua narrativa compôs o escoliasta de Eurípides.90 Eurípides, nas Fenícias, nomeia Hades infernal, que a lançara sobre os cadmeus.91 Já em outro verso o tragediógrafo diz apenas: cruento dentre os deuses, quem dela era o agente.92 E assim, como foi suposto pelo escoliasta desses versos euripidianos, tem-se agora Dioniso, presumivelmente a desforrar contra Tebas a desonra que lhe infligira Penteu, não acolhendo seu culto. E, todavia, ainda outra escólia93 da mesma tragédia lembra já Ares por agente divino da presença tebana da Esfinge, tendo por finalidade vingar a morte do dragão.94

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