A (con)fusão do poder Francisco Murari Pires



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Se descontadas as especulações dos escoliastas que neste acontecimento mítico (con)fundem as razões de atos e histórias de outros tempos míticos, e se apreciado o significado antes simbólico de ambiência lutuosa contextualizada quer pela expressa menção a Hades quer pela alusão anônima ao deus cruento pelo coro das mulheres fenícias95, tem-se a forte razão da ira de Hera como instância divina determinante da presença ruinosa da Esfinge em Tebas, apropriadamente respondendo por punição ressarcidora das honras precípuas de seu poder, a manter os justos preceitos da ordem do casamento procriador de filhos.


Então a Esfinge postou-se em Tebas. Fera montês, como a diz Eurípides96, sua sede lá ficava numa rocha, que assim dela derivou seu nome: Fícion. Foi o que Apolodoro registrou em seu compêndio mitográfico, e o que também Pausânias afirmou.97 Outros informes, mais tardios, a situam ainda na montanha, talvez o Cíteron.98 Já outros preferem vê-la empoleirada sobre as muralhas de Tebas.99 E nas representações figuradas dos vasos de cerâmica clássicos, ela aparece sentada no alto de uma coluna, na ágora mesma de Tebas. Variantes de memórias míticas - montanhas, rochedo, Acrópole, muralhas - a diversamente ilustrar o mesmo fato, ressaltam os críticos modernos100: sede em local elevado, posto em alturas precípuo de sua natureza de ave, porque voa a afligir os tebanos. E variantes que assim nos aspectos de definição da sede ressaltam ou as conotações do espaço selvagem101 em que ela se acomoda ou as conotações dos destinos régios implicados por sua história.
A Esfinge, monstro teriforme, contudo aliava em sua obra ruinosa o poder da palavra. Por ela propunha a prova questionadora de um enigma, desafio terrível de toda sapiência humana de quem quer que ousasse decifrá-lo, pois o fracasso terminava por desfecho sinistro102: a ave rapace o tomava em suas garras levando-o em vôo fatal, assim fazendo-o desaparecer do mundo. Uns dizem que ela os devorava, como fera de rapina, monstro carniceiro. Outros vêm no rapto cenas de posse sexual mortífera, por tais razões eróticas selecionando o monstro íncubo belos e sedutores jovens tebanos. Mas, pelo que revelam as concepções supostas pelo imaginário iconográfico da época clássica, a Esfinge é antes nesse ato a Raptora, nada nos autorizando a identificar nele nem a devoração cruenta da fera selvagem, nem a posse sexual do íncubo.103

Ela é virgem de canto profético.104 Todos os encantos de poder da palavra perfaziam-se no enigma, conformado pelo épos de canção oracular hexamétrica, aprendido das Musas105, mas desacompanhada da lira106. Assim por cantos recitativos também é dita cadela rapsodo.107 Similitude de ambigüidade enunciativa de uma verdade sapiencial que situa a dura cantora108 em paralelo com a pitonisa das artes mânticas, ambas também virgens sacras.109 Esfinge de cantos intrincados, diz o Creonte sofocleano110, e também a Antígona euripidiana111 Tramas de palavra sagaz e astuciosa consoante com sua natureza feminina: mulher, seu poder não é erótico, e sim intelectivo.112 Então, palavra insidiosa de sapiente virgem113, porém por ciência maléfica de uma inteligência perversa114.

Do enigma fatídico, dispomos apenas a memória de sua formulação versificada oracular, assim recolhida por Asclepíades de Tragilos, um discípulo de Isócrates, em sua coletânea das Tragodoumena, repositório das lendas míticas atualizadas pelas tragédias áticas da época clássica. Assim o informa, pelo menos, a escólia ao verso 50 das Fenícias. O enigma dizia:

Há um bípede sobre a terra, e quadrúpede, de uma voz,

também trípode. E único altera sua natureza de quantos sobre a terra

rastejantes existem, ou ao alto no éter, ou pelos mares.

Mas quando por mais pés apoiado caminha,

então o vigor pelos membros mais fraco o move.115

A prova suposta pela Esfinge enigmática bem define, pois, um combate heróico, cuja vitória sobre seu poder maléfico requer todavia excelência não de força física, mas de recursos inteligentes.116


E assim a comunidade dos cidadãos tebanos viu-se interpelada pelas interrogações do enigma posto pela presença da Esfinge na cidade, princípio de mortes. O mitógrafo tardio pensou-os mesmo a reunirem-se publicamente, como em assembléia, deliberando e refletindo respostas, sem todavia atiná-la.117

Instantâneos dessa presença enigmática da Esfinge em Tebas foram imaginados pelos pintores de vasos da época clássica, que os transpuseram, fixados para sempre, em cenas figuradas porque os ornavam. A perícia brilhante do leitor moderno dessas representações iconográficas, de nome Jean-Marc Moret118, permite-nos apreciar suas concepções imagéticas.

Transparecem os ares da pólis. Vemos os interlocutores tebanos da Esfinge: adolescentes, uns de faces ainda lisas e outros com as primeiras barbas. Lembranças de cenas de efebos, talvez transposição das ambiências pedagógicas do ginásio ou da escola, com os mancebos assim surpreendidos nas ocupações quotidianas com que encerravam sua formação cidadã. Um deles é mostrado com a lira a seu alcance, e o homem que se inclina em sua direção bem pode ser o pedagogo.119 Aspectos juvenis das vítimas tebanas interpeladas pelo desafio da Esfinge também sublinhados pelos narradores míticos, que precisam o fato de serem elas filhas de cidadãos, de berço nobre. A Esfinge abate Tebas na flor da sua juventude.120

Pelas imagens da Hídria da Coleção Cahn, a percepção de Moret transpõe em narrativa a cena. Esboços de respostas dos tebanos que se exteriorizam através das inscrições, nada mais que suas palavras visualizadas. Iniciativa mínima de contraposição à questão fatídica que a Esfinge então coloca, ação apanhada figurativamente pelas palavras que saem de sua boca e pelo movimento de sua pata.121

E já no Skyphos do Pintor de Teseu, conta-se o fracasso das respostas esboçadas, com a Esfinge a ponto de saltar sobre sua vítima, paralisada de medo. Aqui, um jovem cavaleiro é a única testemunha da cena: inteiramente nu ele porta uma lança na mão direita, símbolo de efebia, cujos quadros a Esfinge dizimava.122

Por vezes, ela é já representada deixando sua sede na coluna, levantando-se sobre suas patas, agitando suas asas ou dando a impressão de caminhar.123

Pisandro124 guardou dois nomes de nobres tebanos, vitimas de carreiras heróicas frustradas de início, derrotados em seu feito inaugural: Hemon, filho de Creonte, de estirpe cadméia, e Hípios, filho de Eurínomo, combatente dos Centauros, de linhagem eólia, descendente de Magnes. O primeiro era nativo de Tebas, mas o segundo, lá apenas hóspede, e mesmo assim foi agarrado pela Esfinge.


Pela presença da Esfinge, símbolo da morte125, Tebas era toda lutos. As cenas desse tempo lúgubre, plenificado apenas pelos desesperos e aflições das perdas tebanas da flor de sua juventude, foram representadas pelos cantos rememorados em contexto de tempos uma geração posteriores, assim transpondo aquela sua atualidade fúnebre a este presente, também ele ainda alcançado pelos encadeamentos trágicos de mais desgraças da história Labdácida. É o Coro euripidiano das jovens fenícias que assim tudo rememora.

Primeiro diz condensado relato desses tempos de morte que assombraram Tebas:



que não a virgem alada, fera montês, viesse,

da terra os lutos

de uma Esfinge com os mais estranhos cantos,

ela que então da raça cadméia por quádruplas garras

próxima às muralhas leva para à luz etérea inacessível

uma geração, ela que o Hades subtérreo

aos Cadmeus enviou.126

E depois, agora intensificada ainda mais a obra perniciosa daquele monstro pelo sacrifício de Meneceu, o Coro feminino reforça suas impressões rememorativas, agora já presentificando em seus cantos lastimosos127 os lamentos e queixumes das mulheres tebanas daquele passado, a deplorar os infortúnios que com a Esfinge semearam de mortes a cidade:



Vieste, vieste,

ó alada, da terra rebento

e da infernal Equidna,

de Cadmeus rapina,

de múltiplas perdas e lamentos,

semi-virgem,

ruinosa fera,

de peregrinantes asas

e garras carniceiras.

Que outrora vinda das Dírceas

paragens jovens raptaste

em meio a um canto sem lira,

devastadora Erínia,

trazias, trazias à pátria aflições

sangrentas; cruento dentre deuses

quem disso era o agente.

Lamentos de mães,

lamentos de virgens,

com seus gemidos pelas casas.

Queixoso grito,

queixosa canção,

que cada um variados entoava

em sucessão cidade ao alto.

A trovão o gemido

e as queixas eram semelhos,

sempre que sumia da cidade

a alada virgem com um dos homens.128

Tebas, cidade abatida por rapinagens de fera enigmática129, e assim cidade agora totalmente indefesa, ameaçada de ruína, porque já sem mais rei salvador e porque ainda tem dizimada justamente sua efebia, aquela reserva de elite que, todavia destinada como sua guarda defensora, assim via encerrado já no princípio esse seu destino irrealizado.


Mas, um estrangeiro apareceu em Tebas, trajes de viandante (clâmide, pétasos, sandálias), e armas de herói (lanças à mão, espada no boldrié).130 O adventício, assim lá chegado, dispôs-se ao enfrentamento daquele monstro terrível.

Nas cenas desse encontro heróico figuradas em vasos clássicos, as nuances gestuais dos contendentes compõem, por meio de sinais alusivos próprios de seu modo de exposição dos episódios condensados em instantâneo visual, os aspectos factuais de um desfecho agora inverso. Retornemos, de novo, a narrativa do mito aos dizeres de sua percepção iconográfica conforme a bela versão dada por Jean-MarcMoret.131



A atitude da Esfinge, diante deste estrangeiro, é outra que a assumida perante os tebanos, agora marcada por menores mobilidade, agitação e agressividade. A Esfinge aparece antes imóvel, apenas seu olhar expressa ainda algum efeito, e de perturbação interior.132 Já o estrangeiro senta-se silente diante dela, ao contrário de seus antecessores tebanos, falantes, caoticamente errando arremedos de respostas. Ele, mão ao queixo, tanto observa quanto ouve, mente toda atenta: a expressão da atenção visual de seu franzimento frontal transpõe em imagem sua atenção auditiva da enunciação oral do enigma. Ele perscruta o adversário, sem ceder a seu poder de fascínio, pois seu olhar é claro, penetrante, contrariamente ao da Esfinge, que têm as pálpebras baixadas. Reflexivo, o herói procura e encontra. Melhor, ele já encontrou e vai responder. A Esfinge ainda fala, e o estrangeiro abre já a boca com a resposta.133

E ele soube a resposta. Nos manuscritos das Fenícias euripidianas têm-se o registro de sua suposta formulação dita em réplica também versificada:



Escuta mesmo que não queiras, maligna cantora alada de mortes,

nossa voz, fim de tua perdição.

O homem enuncias, que quando pelo chão rasteja

primeiro é nato quadrúpede infante dos flancos,

mas ancião movente um terceiro pé por bastão apoia

ao a nuca gravar pela velhice recurvado.

Outras memórias do fato mítico preferem lembrá-lo como simples gesto significativo, tendo o estrangeiro, interpelado pela Esfinge, apenas apontando com a mão para si mesmo, tocando a cabeça, e assim definindo por sua própria figura individual a definição do homem como solução do enigma.

Efeito imediato da resposta, eliminação da presença da Esfinge em Tebas. Das alturas de seu posto enigmático - ou de cima da rocha134 ou do ápice da coluna135 -, atirou-se em vôo derradeiro, agora descaindo por vazios de um desaparecimento. Alguns assim falaram de sua morte, mas pode um daimon morrer?
Já em cenas figurativas de alguns vasos o estrangeiro aparece atacando armado a Esfinge, ou por uma lança ou por uma maça levantada, pronto já para o golpe letal. Concepção do combate heróico contra o monstro resolvido por ato de força que comentadores mais antigos entendiam compor originariamente a trama mítica, ainda ignorante do motivo do enigma. Teorizações estas das histórias míticas, entretanto, formuladas nos quadros de uma sua concepção genética, que as críticas mais recentes desfizeram os equívocos, os quais, todavia, firmavam-se já como dogmas na tradição dos estudos clássicos.136
O nome do estrangeiro? Édipo, que de lá na ecruzilhada, sempre meditando o maior distanciamento do lar paterno, tomara o rumo de Tebas.
A tradição mítica predominante consagra, pois, em Édipo a figura do decifrador de um enigma graças à obra da ação inteligente do espírito que desfaz sua trama intrincada137, a assim revelar o poder de sua ciência138 e definir o singular modo de excelência heróica porque venceu a Esfinge.

5. Jocasta


Édipo libertador de Tebas, que a livrou do tributo pago à dura cantora, assim o proclama um venerando cidadão, o sacerdote de Zeus.139 Ele se erigiu como uma muralha contra a morte140, assim o comemoram mais outras vozes tebanas - o coro de seus anciães -, em frase lapidar que diz todo o sentido do feito heróico de Édipo vitorioso sobre a Esfinge. Obra de salvação de uma cidade da presença monstruosa que a arruinava, valeu ao estrangeiro a realeza, via casamento com a rainha viuva, figura depositária da transmissão do poder régio no país tebano.
Por variadas concepções a tradição mítica consagrou essa articulação episódica definidora de uma história de transmissão do poder real em Tebas.

Pisandro meramente apresenta as sequencias factuais da história, assim implicando sua causalidade mítica imbricadora: após o que ( a morte de Laio), ele desposou sua mãe, tendo solucionado o enigma.141 Justaposição sintética dos fatos, condizente com os modos de memorização da epopéia, de que o registro homérico da Odisséia142 dissera ainda mais elíptico, lembrando apenas princípio e fim - Ele, depois de ter morto o pai, foi marido da mãe -, assim ignorando a mediadora prova heróica de sua vitória sobre a Esfinge.

Eurípides, nas Fenícias, supôs, no episódio da sucessão de Laio em Tebas, o interregno de Creonte, irmão de Jocasta, a rainha viuva. Porque a rapinagem da Esfinge abatesse a cidade carente de senhor, ele então proclamou as núpcias da rainha, sua irmã, a unir-se no leito com quem conhecesse o enigma da sapiente virgem. Porque sabia a hermenêutica da Esfinge, definiu-se a soberania de Édipo no país tebano, pois o cetro era o prêmio assim disposto. Então, desposou Jocasta.143 Assim também o conta Apolodoro144, igualmente dizendo a proclamação feita por Creonte a oferecer o reino mais a esposa viuva de Laio a quem conseguisse decifrar o enigma. E dá a razão patética deste seu ato: é que a Esfinge, dentre suas vítimas tebanas, acabara por eleger Hêmon, seu filho. E como Édipo o solucionasse, obteve a sucessão régia e concomitantes esponsais com Jocasta. Ainda da proclamação instituindo a realeza de Tebas em recompensa ao vencedor da Esfinge diz também o relato de Diodoro Sículo145, sem, todavia, lembrá-la como decisão de Creonte, referindo-a antes anonimamente.

Já Pausânias146 registrou uma versão um tanto modificada dessa história de sucessão régia, transmutando suas figuras e personagens. A Esfinge agora é uma filha natural de Laio, que tinha ainda outros filhos, todos de concubinas. O tema do rei de paixões transgressoras persiste, com Laio louco de amor por Esfinge, tanto que lhe revelou o segredo reservado, entretanto, apenas ao encadeamento sucessivo dos reis de Tebas, no princípio assim transmitido por Cadmo, que o soubera pelo oráculo de Delfos. Porque os bastardos de Laio, irmãos de Esfinge, o desconhecessem, pagavam com a morte sua ambição régia de suceder o pai. Veio, todavia, Édipo, ele filho de Epicasta, e respondeu às exigências impostas por Esfinge, pois em sonho lhe fora revelado o oráculo régio tebano.


Assim se precipitaram os acontecimentos consumadores do destino da história de Édipo, a começar pelo assassinato de Laio na encruzilhada e a terminar pelo casamento com Jocasta em Tebas. Precipitação tanto mais acelerada quanto intriga a inteligibilidade moderna de sua avaliação cronológica sequencialmente ordenada. Então, a irrupção da presença lutuosa da Esfinge precede, e enseja, a consulta oracular da fatídica viagem de Laio a Delfos, ou apenas a ela se segue? Para qual desses dois sentidos apontam as, entretanto, vagas alusões, quase silêncios, das elípticas lembranças expostas pelo Creonte sofocleano?
Pelas tramas do mito, Édipo, que ascende à realeza de Tebas por decifrar o enigma da Esfinge, é justo o filho de Laio, rei de Tebas, portanto em princípio seu herdeiro natural. Mas ele é também o assassino de Laio, o agente que o destrona ocasionando a vacância do poder régio, instaurando a questão de sua sucessão. Configuram-se pelos atos de Édipo a atualidade em questão dos princípios hheróicos de definição da sucessão régia: por "herança de nascimento", por afirmação de "força" e por "mèrito": conjugação de itens constitutivos de excelência hheróica.

A afiirmação do princípio do mérito (a excelência de gnóme na prova da Esfinge) é apenas o o princípio final que encerra a história da sucessão régia de Tebas (a passagem do trono vacante de Laio para Édipo). Embora esse princípio defina a especificidade da identidade heróica de Édipo (distingue-se como herói pela superioridade-excelência no domínio da gnóme), ele não excclui a afirmação dos outros dois, antes os supõe e suplementa.

A ascensão do novo rei à soberania (realeza) implica,, porque supõe, a vacância do trono: a eliminação do velho rei em circunstância de crise da realeza agora impotente. O princípio básico dessa eliminação se dá por morte violenta, por assassinato: prova de afirmação heróica pelo princípio da força guerreira, fundamento de vitória no ccombate.

Todo herói que se apresenta para postular, por provas heróicas, a sucessão real, é filho de reis, nascido em berço palaciano. O princípio do nascimento régio é uma condição do destino heróico: para aspirar, se apresentar, para ser rei é preciso ter nascido rei: embora não seja condição suficiiente (pois, para ser rei é preciso provar-se heróico), é condição ciircunstancial necessária (a natureza heróica tem gênese-origem régiia-principesca--palaciana). Dado que o nascimento do herdeiro na casa real coloca potencialmente-virtualmente a questão da sucessão régia (põe virtualmente em risco a vigência do poder régio como que prenunciando pelo advento de um sucessor), pode-se entender que o advento do herói prefigura a crise dinástica, representa um (in)certo mal na medida em que, sendo a negação potencial do poder régio vigente, ameaça a ordem e propseridade ccomunal do reiino, cuja eliminação é então equacionada através dos ritos de exposição do herdeiro recém--nascido, ouu alternativamente pelo rito de seu exílio da cidade agora já no limiar-transição que inaugura sua trajetória heróica. Daí que, por esta segunda alternativa, o herdeiro real se torne rei em outro reino que não o paterno. Já pela exemplaridade das peripécias do mito de Édipo, que (con)funde princípio-fim, é justo rei onde era herdeiro.


Assim principiou a história régia de Édipo, consagrada pela excelência heróica distintiva de sua inteligência, potência cognitiva porque superou o enigma oracular da Esfinge, dando-lhe solução ciente da realidade da condição humana em seu tríplice destino de estados: antes de fragilidade e impotência de ação ao princípio da existência, pela infância, e ao fim, pela velhice, mediados por potência de auge vigoroso a iniciar juvenil.

Conhecimento edipiano que, então, situou o herói na via sapiencial precípua do poder de Apolo, que no pórtico de seu templo em Delfos justamente aludia à questão da condição humana em sua advertência: conhece a ti mesmo, que és homem.



6. Peste
Após o terrível flagelo manifesto em Tebas pela presença monstruosa da Esfinge, outra desgraça dizimava novamente o país. Um mar de sangue inunda a cidade, nau adernante batida pelas ondas rubras, em já aflitivo esforço final de naufrágio, tão mais desesperado quanto impotente de ainda erguer a cabeça acima não submersa.147 Por todo o país alastra-se a presença da morte. Tebas perece, não atualiza mais os princípios de restauração, renovação e geração de vida. A natureza toda, agora, é só esterilidade, impotencializada toda vida nascente. Fenece o alimento agrário, pois sementes e grãos ainda encapsulados, princípios recipientes de guarda de vida vegetal, não mais germinam fecundantes do ventre térreo, antes embotam e murcham sepultos no chão. Definham nos pastos os rebanhos, massas perdidas de alimento animal. E as mulheres abortam labores de parto, assim infrutíferos, ficando negado o princípio de natividade que as distingue.148 Contágio pestilento de epidemia por generalizada esterilização mortífera, negação de todos os princípios de fertilidade e fecundida natural, a impotencializar todos os modos de prolongamento e desdobramento de vida terrena. Tebas agoniza novamente.

Peste odienta, epifania assassina149 de deus ignífero em obra destrutiva que abate, devasta, despovoa a casa de Cadmo, semeando-a de mortes.150 Crise lutuosa que põe o cosmos em desordem, pois o domínio do negro Hades, sede da morte, extravaza por ela seu império, a estender-se pelos espaços da vida terrena, ampliando seus modos de riquezas também aqui, na Tebas Cadméia, pelos gemidos e lamentos dos ainda (sobre)viventes apenas a chorar seus mortos.151
A comunidade de Tebas, diante dos terríveis males com que os desígnios divinos a arruinam, duplica uma só reação de enfrentamento da crise: piedosas súplicas. Por um lado, o povo coroado congrega-se nas praças tebanas rogando auxílios a deuses tutelares e divindades mânticas, Palas de duplos santuários e Ismeno da cinza oracular.152 Tantos modos de reação comunitária que plenificam a cidade com a fumaça odorífera dos incensos e os sons de peãs e gemidos, compondo apelos aos entes divinos para que curem a cidade dos males que a afligem.153 Por outro, como a náu do Estado soçobra, e o rei é seu piloto, uma delegação comunal alcança também os altares edipianos154, junto ao palácio, alí todos dispondo-se assentados com suplicantes ramos coroados155, a igualmente buscar o socorro de seu rei, Édipo.
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