A (con)fusão do poder Francisco Murari Pires



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Pelo bem da cidade responde o rei. Édipo, sensível já àquelas manifestações de atos piedosos que tomam a cidade por odores de incenso e clamores de lamentos, sai do palácio e apresenta-se diante da delegação suplicante. Soberano solícito e zeloso de seu povo, de imediato corresponde paternalmente a atender os sofrimentos dos filhos comunais, modo virtuoso de correção régia, preceito recomendável de exercício da suzerania porque a autoridade régia se configura como devoção pública: o rei se dedica à comunidade pelos zelos e afetos com que um pai cuida de seus filhos. Zelo extremado porque então bem acolhe a delegação em pessoa, dispensando mensageiros que afastam o rei das vozes dos súditos, distanciando-o de seus apelos e aflições. Logo intenta fortalecer a confiança da comunidade no poder de seu rei lembrando-lhe a fama universal do nome Édipo, título honorífico próprio da dignidade heróica de uma excelência distintiva confirmada por sua história. Assim proclama plena disposição de socorro, prova de régio condoimento paterno.

Então interpela entre os presentes a pessoa do ancião, distinta figura para com propriedade por todos expor as razões de suas súplicas diante dele, neles já assinaladas por visíveis aparências de pavores ou aflições.156

O ancião interpelado responde à ordem régia, passando a expor as razões inquiridas pelo rei:

Bem, ó soberano Édipo de meu país,

vês-nos de que idades assentados

junto a teus altares: uns ainda não a longe

voar fortes, outros com a velhice pesados

- sacerdotes, eu de Zeus -, e estes dos jovens

seletos; já o resto do povo coroado

nas praças assenta, junto ao de Palas duplos

santuários e pelas de Ismeno oracular cinza.157

Primeiro, pois, o sacerdote dirige a atenção do olhar edipiano para a percepção da comunidade presente diante dele, pondo em foco quais suas idades. Assim distinguiu:

1. filhotes ainda sem forças para voar longe;

2. anciães arqueados com o peso da velhice, assim os sacerdotes, como ele mesmo, o de Zeus;

3. e ainda jovens seletos.

Distinções, primeiro, de duas classes de idade por definições opostas: uns, as crianças, a apontar para o princípio da vida humana, outros, os velhos, a apontar para o fim. Todavia, também os associou por similitude caracterizadora de limiar de vida, dizendo as limitações do alcance de suas precípuas capacidades locomotoras, assinaladas pelas metáforas respectivas com que as qualificou: para aqueles, a fragilidade de seres aos quais falta ainda a força dos membros; para estes, também a fraqueza, mas agora por morosidade, porque gravada pelo peso dos anos. Em ambos marca o estado limiar, para uns inicial para outros final, de impotência de ação. E, a seguir, diferenciação ainda de uma terceira classe, a dos jovens seletos, que, por sua condição própria de exuberante vigor distintivo, define-se em contraposição às outras duas. Nela caracteriza a idade limiar de ação, tempo privilegiado que demarca princípio de feitos heróicos.

Visão edipiana das idades dos tebanos por imagens e metáforas que vislumbram o destino trágico da história de Édipo conexo à tríplice configuração da condição humana. Velada lembrança alusiva à vitória da ciência edipiana sobre a Esfinge por resolução da intriga de seu enigma, agora de novo (re)composta em cena comunitária diante dele.158 O apelo do sacerdote de Zeus, a (co)mover a atenção do olhar e a diligência do espírito de Édipo pela percepção da comunidade (tebana) suplicante diante dele, reitera a contemplação do enigma da Esfinge por imagens do ser de quatro, tres e dois pés! Consideração narrativa de um princípio enigmático de consecução desse destino que novamente defrontaria a distintiva potência heróica de Édipo - a excelência de sua ciência visual - ao desafio de uma reiterada ação salvadora comunitária.

A mais ainda sensibilizar a percepção régia, o sacerdote de Zeus, assumindo o pronunciamento que responde pelas instituições sagradas da cidade correspondentes à realeza celeste do deus a que serve, reforça o teor patético da desgraça que abate Tebas, então sumariando as cenas de mortes por que o contágio pestilento submerge a comunidade por um naufrágio rubro de sangue. A casa de Cadmo despovoa contra o negro Hades enriquecido por gemidos e lamentos.159 Novamente reina a morte em Tebas, reiterando situação anterior, quando da visita da Esfinge.


Mas, que mais razões, precipuamente face a tais desgraças, ensejariam à comunidade postar gestos suplicantes a seu rei nos altares palacianos? Confusão ímpia da pessoa do rei tratada por ritos antes próprios de honras divinas?

Não, adverte o venerável ancião, os tebanos não têm Édipo por igual aos deuses. Todavia, o consideram o primeiro dos homens nas vicissitudes da vida e nos contatos divinos.160 Ponderação de juizo sacerdotal que intenta desfazer o ambíguo paradoxo intrigado por aquela súplica à pessoa de Édipo: sim, ela situa reverência piedosa, (co)movendo-o como a um ser divino, e, todavia, nega-lhe justo tal estatuto.

Devidamente se reconhece, pois, o estatuto propriamente heróico do rei, ambiguamente situando seu valor entre o domínio do divino e a esfera do humano. Por um lado, dizer Édipo não igual aos deuses afirma a inferioridade de valor em relação ao divino, dissocia a pessoa da pertinência a esse âmbito, posiciona-a fora e abaixo dele e, portanto, localiza-a em meio aos humanos. Por outro, formulando contraposição adversativa, assevera também a apreciação de que sua inferioridade é apenas essa, para com o ser divino, nível absoluto da grandeza superior. Ao reconhecer Édipo como o primeiro dos homens só inferior aos deuses, o entendimento sacerdotal também admite que a superioridade de Édipo é de tal monta no âmbito dos homens que é a superioridade máxima por eles alcançável, a qual bem se aprecia medindo-a pela justeza de seu contraponto à superioridade divina.

Pois, afirmar a inferioridade de Édipo para com o divino é verdade tautológica da condição humana, válida seja para Édipo, o primeiro dos homens, seja para qualquer outro, mesmo o mais insignificante, inferiormente último em valor. A comunidade de um destino mortal define a humanidade de Édipo. Já afirmar Édipo como o primeiro dos homens supõe a distinção de um só e único indivíduo, bem destacado acima de todos, singularizado por precípua superioridade de valor. Assim se diferencia ambiguamente o hierárquico estatuto heróico de Édipo no e do âmbito humano: o herói nele se insere pelo fato genérico da condição mortal de seu ser, mas dele também, em certo sentido, se dissocia, pois é situado tão acima que se o projeta, agora pelo valor de suas ações, no limiar delimitador, quase fora dele, a tocar contíguo o divino.

Dizer Édipo o primeiro dos homens apenas inferior aos deuses, ao lembrar a humanidade homogeneizadora de seu ser, assinala também a heroicidade diferenciadora da história de seus feitos. Édipo, o primeiro dos homens, situa superioridade humana de valor tal que bem se estima sua grandeza diminuindo-a apenas porque não divina.
O justo feito de sua vitória na prova da Esfinge, aduz o sacerdote, firmara a fama da excelência heróica do rei de Tebas. Por esse episódio se marca a contraposição que distingue a individualidade excepcional do herói perante a comunidade humana genericamente referenciada na fala do sacerdote pelo nós e pelo todos que compõem Tebas. Nas agruras daquela antiga desgraça, nenhum dos cidadãos, mesmo vivenciando a crise e dispondo dos eventuais recursos informativos e instruções humanas presumivelmente respeitantes à questão interrogada pela Esfinge, conseguira decifrar o enigma. Pelas circunstâncias de sua chegada adventícia à cidade cadméia, a situação de Édipo diante da Esfinge era a mais precária, pois desprovida de todo e qualquer informe ou instrução. E, todavia, apesar de tal desfavor circunstancial de sua situação humana, decifrou-o. Como entender razões que deslindem a intriga desse fato paradoxal? Tal façanha excepcional de decifração do enigma, ao que reflete a fala sacerdotal, assinala talvez para Édipo a graça do favor divino, o concurso de sua assistência, pois auxílio humano, qualquer um, certamente não foi: Édipo o enfrentou totalmente exterior, estrangeiro, ao lugar humano que dele estava inteirado. Assim, pelo privilégio do favorecimento divino se concebe o êxito heróico da ciência edipiana. Tal é, pelo menos, o entendimento consensual da comunidade: é o que se diz, é o que se acredita.161

Então, justamente ecoando a antecedente lembrança alusiva da proclamação inicial com que Édipo se apresenta diante dos suplicantes162, também a voz da comunidade tebana, ecoada pela fala sacerdotal, reconhece a excelência heróica de Édipo: o melhor dos mortais163. O episódio da Esfinge firmara a fama de seu poder salvador: pela assistência de um deus ele restaurou a vida164 de Tebas.


Mas essa fama remonta a origem passada, feito encerrado. Agora, a atualidade presente reitera outra crise ruinosa em Tebas por contágio pestilento que igualmente a desgraça. O país necessita, outra vez, poder salvador que socorra seu povo165 em nova aflição. Daí os imperativos exortativos com que a comunidade, pela fala sacerdotal, suplica a Édipo, o melhor dos mortais, para que reerga, endireite a cidade166, a livre dos males que a submergem. Se a pestilência maléfica, flagelo pavoroso, perde Tebas, então que seu poder salvador, o rei Édipo, a salve!

Ambíguos rogos de súplica, pois tanto o sacerdote apela ao poder salvador de Édipo reverenciando-o confiante por sua exitosa prova passada, quanto também implica cobranças, reclamos à figura régia por suas responsabilidades de permanente benéfica atuação comunitária. Pois, a crise manifesta a falta desse poder, agora carente de efetividade, pondo eventualmente em suspenso sua fama. Se a areté heróica dessa potência salvadora edipiana bem se proclama pela realização de seu feito pregresso exitoso diante da Esfinge, agora, assinalada sua falha, implicadamente se questiona a atualidade desse mesmo poder salvador edipiano, então desafiado à reiteração de um novo feito. Que Édipo, pois, também agora seja sempre igual167, ainda poder salvador.


Rogo em desafio ao poder de Édipo porque outra vez ele empreenda reerguer a cidade, salvar Tebas. Benéfica ação comunal que requer vencer reiterada prova heróica a, agora, resguardar e preservar a vigência pessoal de sua condição régia. A palavra do sacerdote dita sapiente advertência a quem é o piloto e baluarte do Estado: se governarás esta terra, como dominas, com homens mais belo do que vazia é dominar, que nada é nem torre nem nau deserta de homens, sem habitantes dentro.168 Reclama-se da realeza a obrigação de seu dever precípuo de atuação, que precisamente institui e funda a autoridade da soberania: a promoção do bem comunal. Para a figura de poder que Édipo consuma, presente soberano de Tebas169, a permanência futura de sua suzerania agora depende da persistência atualizada de sua potência salvadora. Nova prova situa justa confirmação de poder régio por consoante reiteração de excelência virtuosa de finalidade salvadora.

Assim o proclama o sacerdote: Vai, resguarda-te. Que agora esta terra salvador te celebra por causa do empenho de antes; que de teu poder jamais nos lembremos por ter-nos erguido reto e também tombado depois; mas com firmeza endireita esta cidade.170 Por tal advertência sacerdotal, a história do destino régio de Édipo e a condizente memória celebradora de sua fama heróica deparam, pela pestilência que desgraça Tebas, o tempo crítico em que se decide: ou sua unicidade salvadora prolongada ou, pelo contrário, sua dualidade primeiro salvadora de comunidade ereta, príncípio fundador da realeza, contra depois ruinosa dela tombada, estigma que assinala seu fim.


Ora, mas pela ótica do arrazoamento formulado pelo sacerdote de Zeus, qual era o princípio causal de que se origina a potência salvadora da heroicidade edipiana, fonte e fundamento de sua realeza? O apanágio de sua proximidade, contato com o divino, confere primazia a Édipo em Tebas. O êxito de sua ciência no confronto contra a Esfinge manifesta o privilégio do favor das divindades. Dado que a crise atual do flagelo pestilento assinala o desagrado e desfavor dos deuses para com a cidade, sua justa superação supõe a reversão de tais desígnios divinos a ensejar apropriada intervenção piedosa de seu agente heróico intermediador, o rei Édipo. A fala sacerdotal proclamada em nome da comunidade tebana assim ambiguamente tanto reconhece a fortuna passada quanto questiona a falha presente da participação edipiana no âmbito do divino de que seu poder científico se favorece. Suplicar a Édipo compõe, portanto, apropriada solicitação religiosa de inter-relacionamento divino.

Ao contrário da prova anterior promovida pela presença da Esfinge, a atualidade de situação de crise com que Édipo se defronta dispõe-lhe, graças aos recursos de seu poder soberano, condições agora favoráveis à consecução do saber humano, pois melhor informado por inquéritos e conselhos, de modo a ensejar a descoberta do socorro salvador. Conclama-o, pois, a valer-se de todos os recursos da convivência régia nesse reiterado empenho, quer que, como antes, ele a palavra dos deuses ouça quer que pelos homens saiba, pois aos experimentados também nas circunstâncias das decisões armados vejo sobremaneira.171

Pela súplica com que principia e pelo questionamento com que termina, a fala do sacerdote de Zeus interpela a soberania de Édipo em Tebas.
Tebas, tomada de horror suplicante por anseios expressos pela voz de condigno ancião, viera até Édipo rogar-lhe uma ação salvadora, a reclamando em razão dos afetos e responsabilidades comunitárias que eram próprias dos encargos de um rei.

Solicitações, todavia, desnecessárias, ao que protesta a réplica edipiana à fala sacerdotal. Pois, ele, pelas iniciativas então ao alcance de seu poder, já as atendera antecipadamente, ainda antes mesmo que fossem enunciadas por tais rogos.

Que ele se sensibilizasse a condoer-se pelos males que alcançam os súditos era comportamento concomitante à consciência constatadora do fato mesmo, simultaneamente ativada já pela própria percepção reconhecedora de suas manifestações fenomênicas. Ele sabe, sim, conhece o desejo que os trouxe ali.172 Sua reação preocupada e aflita por esses infortúnios antecipa-se aos reclamos da comunidade que a solicita apontando uma sua eventual falta. E nele, justamente porque figura régia, tem-se comoção por sofrimentos comunitários tanto mais plena e intensa quanto integrava excepcionalmente a soma de todas as aflições comunais, contra a parcialidade a que se restringia o sofrer individual de cada um deles.173 A pessoa do rei, diz Édipo, corporifica o ser coletivo da cidade.

Que ele empenhasse toda a ciência de seu saber por encontrar a solução salvadora como anteriormente se dera no caso da Esfinge, também agora já o fizera, tomando as iniciativas cabíveis. Pois, preocupado, logo empenhara toda sua atenção reflexiva em buscar a cura reclamada por aquela crise pestilenta. Bem examinara o novo caso, mentalmente percorrendo todas as vias imagináveis que racionalizassem uma saida.174 Mas agora, diferentemente de antes quando do enigma da Esfinge, esse ato pensante experienciava errância, sem atinar a solução imediata, antes desviando-se por múltiplas indecisões. Esta outra salvação de Tebas, por modo raciocinante pronto e direto na resolução do problema que fora o princípio eficiente de seu êxito contra a Esfinge, não era agora atinado pelo espírito autônomo e independente de Édipo. Tudo o que seu pensamento alcançou como única providência que pudesse tomar, reconhecia sua dependência do concurso de outro agente sapiencial, que lhe descortinasse as instruções porque se viabilizasse aquela solução. Assim, em apropriada consonância com o âmbito de seu poder régio, tomara já a iniciativa que lhe competia: enviara o filho de Meneceu, seu cunhado, Creonte, a consultar que prescrições a palavra apolínea revelaria. O recurso do apelo à assistência divina, que o sacerdote também dele reclamara, ele, então, já o ativara, se bem que a seu modo régio ordenando aquela missão délfica. Algo diverso, portanto, dos recursos aventados ou aludidos pela fala do sacerdote de Zeus, a qual interpelava algum modo sobrenatural de contato régio com a esfera do divino. De todo modo, seja pela prudência humana do rei seja pelo mandamento sagrado do sacerdote, tem-se procedimento régio de condizente piedade, pois ampliava e plenificava o recurso às instâncias de assistência divina, acrescendo aos rogos e súplicas piedosas da comunidade às divindades políades tutelares o concurso do poder de Apolo que os pronunciamentos de sua arte mântica ditassem.

Não, afirma altaneiro Édipo, os tebanos não o encontravam dormindo, poder régio inerte.175 Todas as iniciativas de competência da ação do rei a equacionar a solução da crise já haviam sido tomadas, nelas compondo todos os recursos viabilizadores vislumbrados por sua reflexão.

A disposição edipiana por salvar a cidade é pronta e resoluta, imediatamente desdobrada em ato consequente às suas deliberações pensantes. Prontidão de atuação até mesmo impaciente, que inquieta-se por demoras indesejadas como a do retorno de Creonte, mensageiro portador de instruções oraculares, retorno que se prolongava já além do tempo previsívelmente admissível.176 E resolução tanto mais pronta, precipitada mesmo, de salvar a cidade que novamente se antecipa aos fatos, definindo já como ordem régia decidida aquelas novas ainda não conhecidas.

E tanto mais que impôs, o cumprimento dessa ordem, primeiro a si mesmo, firmando absoluto comprometimento em executá-la, pois compeliu-se por imperiosa injunção: Édipo de antemão ajuiza sua culpabilidade caso eventualmente não dê andamento às prescrições que a palavra de Apolo ditasse. Pois, a razão do pensamento edipiano assim articula os nexos de suas inferências: o fim a que atende a consulta oracular é dispor das orientações que salvem a cidade; então, é inconcebível que ele, Édipo, autoridade régia que justamente responde por essa teleologia comunal, se negue a ordená-las, inviabilizando sua execução. Se o fizesse, uma única causa viciada o poderia ter motivado: só por culpa incriminatória pode-se entender qualquer oposição contra a medida que salva a cidade da ruína. Se não as cumprir, é porque ele é o culpado.
Pela réplica de Édipo esvaziam-se as pretensas queixas de uma falta de atuação do poder régio que estivesse indisposto a salvar Tebas daquela crise. O rei é pródigo de intentos e iniciativas por livrar seu povo da desgraça: ele se condói por seus infortúnios, ele se aflige por buscar um fim a seus sofrimentos, ele se dedica com todas as suas forças por encontrar a solução salvadora. Dada a réplica da proclamação edipiana, o questionamento comunitário a seu rei fica, então, restrito à questão do poder mesmo, isto é, da potência eficaz de sua excelência heróica na renovada obra de salvação do país.

7. Oráculo


Então Creonte alcançou o palácio, de volta de sua viagem a Delfos, onde fora a mando de Édipo consultar o deus sobre a calamidade que abatia Tebas. Mensageiro sacro, já pela aparência de sua figura com cabeça ricamente coroada de loureiro frutuoso177, prenunciava solução alvissareira.

Édipo, por demais ansioso, instou-o a de imediato revelar a notícia que trazia, alí mesmo, publicamente, diante dos tebanos, assim descartando qualquer eventual cuidado pessoal da realeza que antes pudesse recomendar uma prévia informação do caso em âmbito privado, como questão familiar, lá dentro do palácio, o que lhe fora antes acautelado por Creonte. O primado do bem comunal, asseverou o rei, impunha a urgência do anúncio público daquela mensagem salvadora, a sobrepor-se contra qualquer interesse privado.178


A palavra de Febo manifestara ordem dirigida a Tebas: extirpar do país a mácula neste solo nutrida, que ela não viesse a crescer irremediável.179

Breve teor de enunciação oracular, apenas apontando mais substantivamente a existência de uma mácula tebana sacrílega, carente de expiação. Mas ordem assim tanto mais imperiosa de cumprimento porque fato agora crítico a reclamar a urgência dessa expiação, tempo último para uma providência sanadora sem mais tardar, pois alcançado já seu ponto limiar em que confluiam ainda possibilidade de salvação contra danação irremediável.180

Breve teor de enunciação orácular que então completa seu maior esclarecimento informativo pela conjugação do empenho régio edipiano, dotado de saber metódico inquiritivo, agora atualizado a interrogar o cunhado mensageiro. Nesse procedimento, integra o auxílio diretivo propiciado pela exegese informativa181 da palavra divina por Creonte por esse propósito interpelado pelo rei, pois ciente das realidades tebanas passadas. Por tal cena em assembléia pública, a atuação deliberativa dos agentes do poder palaciano ajuizam os rumos desdobradores da via de salvação principiada pela sintética ordem apolínea.

Reflexões de diálogo deliberativo obram inferências a fazer remontar o conhecimento da realidade do mal presente ao da sua causa original passada. O flagelo pestilento que desgraçava Tebas acusava a existência de uma mácula: a conspurcação da cidade por um ato sacrílego, maléfico, consumador de uma primeira desgraça, contra o qual o fenômeno da pestilência respondia por obra ruinosa do país. A sacrílega desgraça inicial consistia de um assassinato, crime de sangue inexpiado, causa de flagelo. Crime tanto mais grave pela identidade singularmente especial da vítima assim infortunada: Laio, o antigo rei de Tebas, antecedente do poder edipiano. Razão porque se prescrevia expiação purificante de consoante radicalidade reparadora de justiça, a reclamar a também eliminação de Tebas dos autores assassinos, ou por pena de desterro ou por punição de morte.182

Mas, expiação condicionada, pois, à descoberta de tais agentes homicidas, a ser consumada agora, apesar de diluídos já seus traços indiciadores pelo tempo decorrido; e, entretanto, favorecida porque, se a mácula subsistia ainda em Tebas, como o dissera o deus, eles se encontravam lá presentes, ao alcance de uma obra de descoberta, desde que não negligenciado o empenho de sua procura investigadora.183
Que traços ainda subsistiam do crime?

Sabia-se que o crime ocorrera na estrada de Delfos, quando o rei por lá ia consulente em viagem oracular: um bando de salteadores o matara, massacrada também a comitiva real, menos um servo que fugira apavorado, e assim dera essa notícia do assalto criminoso.184

Fora isso, parcos dados de informes de um assalto que vitimara Laio, nada mais se sabia. O rei fora assassinado, e todavia a descoberta de toda a verdade do fato fora travada, abortara, justifica Creonte a Édipo, de modo que ficara faltando uma sua plena investigação devidamente comprovadora.

Não, esclarece Creonte, que os tebanos a tivessem desleixado, assim incrimináveis por uma desatenção da gravidade do acontecimento. É que consumada a perda de Laio, nenhum defensor em meio a males apareceu.185 Duas circunstâncias inviabilizaram a efetivação plena dessa obra justiceira por tal falta de agente defensor. De um lado, uma circunstância específica: a vítima, Laio, que morrera sem filhos, não dispunha de devido ente familiar, seu virtual herdeiro, defensor do morto que ativasse o processo judicial de perseguição do criminoso a buscar justa reparação pela ofensa sofrida.186 Mas, sobretudo, por uma razão geral, pois um mal maior afligia então as atenções de todos os tebanos, a sobrepor-se imperativo àqueles reclamos justiceiros: a presença ruinosa da Esfinge de cantos intrincados. Se, como apontou Édipo, os apelos da justiça persecutória dos assassinos de Laio respeitavam a uma hierarquia de gravidade superior, uma vez que, assim atingido o poder régio tornado vacante, era a ordem mesma da vida comunal que ficava ameaçada pela perda de seu agente garantidor, já a obra danosa da cruel cantora, como obtemperou Creonte, atingia uma ordem ainda antecedente, pondo em risco a constituição da própria comunidade, ameaçando sua existência mesma, pois a morte por ela tocava, de perto e imediata, Tebas inteira.187

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