A (con)fusão do poder Francisco Murari Pires



Baixar 285.45 Kb.
Página4/6
Encontro29.07.2016
Tamanho285.45 Kb.
1   2   3   4   5   6

Agentes homicidas sediados em Tebas, mais assassinato perpetrado fora da cidade! Da conjunção desses indícios do crime assim enunciados a Édipo, a lógica inferencial da reflexão edipiana aventa de pronto conjectura com que presume a verdade do fato ao expor suas determinações: conspiração regicida tramada por autor tebano, instrumentalizando o homicídio por paga a bando de supostos salteadores. Só assim o entendimento racionalizante de Édipo descortina o desígnio de um projeto que (cor)responda à ousadia reclamada para um regicídio.188 Lógica edipiana, portanto, ditada pelas razões que consubstanciam um saber político de interpretação dos fatos, especialmente respeitante à história do poder.
E não é apenas o sentido desse acontecimento da história do poder régio tebano - a descoberta, envolta sob a aparência de um assalto na estrada, de uma trama regicida por esse modo instrumentalizada - que a reflexão do saber edipiano alcança a compreensão, pois ela apreende também as vicissitudes de sua temporalidade. Assim, a ordem da palavra apolínea, ao reclamar a urgência de expiação da mácula que desgraçava Tebas, originada de um crime impune como o identifica o informe exegético de Creonte, repõe, no presente da história da cidade, o princípio atualizado daquele fato passado, e assim reitera o imperativo de finalização daquele procedimento judicante de perseguição do assassino de Laio porque se restaura a justiça, justiça esta, todavia, desde outrora olvidada.

Devidamente Febo, e também Creonte - então mensageiro portador de sua palavra -, já haviam, por suas solicitudes pelo morto, assumido a iniciativa desse procedimento de expiação da mácula daquele crime no âmbito de sua dignidade sagrada. Édipo, então, alia-se a esse empreendimento, prestando-lhe o devido concurso da justiça régia de que ele é o agente atual na cidade. Outrora, no passado inaugural do fato, essa justiça régia faltara, frustrada pelo efeito daquelas circunstâncias situacionais inviabilizadoras da ação de defesa do morto. Agora, no presente atualizado do fato, a realidade da realeza edipiana supera tais entraves em sua dupla ordem de razões. Ele, Édipo, apresenta-se como herdeiro do morto, pois assumira a sucessão do trono de Laio vacante. Que assim o faça, então na atualidade desse presente da história trágica, mesmo que supostamente não intitulado por vínculos de parentesco, compõe uma de tantas belas ironias por que primam as ambiguidades do texto sofocleano, pois, de fato, tem-se por Édipo justamente o filho de Laio! Édipo, então, porque rei de Tebas, preenche a figura do defensor de Laio morto.

Outrora, no passado, a urgência maior dos males da presença da Esfinge mormente inviabilizara a consecução do procedimento judicante: então conflitavam com esse dever os interesses pessoais dos tebanos todos, e todavia justos, porque a ele se sobrepunham já que respeitantes a seu bem maior, a vida mesma de cada um, as existências individuais dos tebanos, contra as quais rondava de perto e imediata a morte. Já agora, no presente atualizado desse fato, a excepcionalidade da figura régia de Édipo supera também esse conflito. Ao cumprimento daquele dever soma-se a razão desse seu justo interesse pessoal de rei. Pois, pondera Édipo: não por amigos afastados, mas eu mesmo de mim repelirei essa impureza, pois, quem seja ele o assassino, em mim por uma tal mão vingar quisesse. Reflexão de intrincado sentido, a que a acuidade preciosa da análise do crítico moderno, Jean Bollack, desvenda a trama racionalizante. A mácula do regicídio inexpiado, que compromete coletivamente a punição fatal de Tebas, alcança singularmente Édipo. Ao rei, porque autoridade jurídica, compete a decisão que efetiva o processo de perseguição do criminoso régio. A ele cabe dar prosseguimento a essa vingaça reparadora de justiça, sacra e política. Se ele assim não agir, a mácula o alcança pela culpa incriminadora dessa falta.189 Destino reverso dessa obra de justiça: ou ele vinga justiceiro o rei morto encetando a perseguição de seu assassino, ou é a perseguição dessa culpa que então o atinge, (novo) rei, por vingança reversa, assim causando também semelho golpe regicida. É a potência concretamente fatal dessa mácula que, neste momento preciso de conhecimento da palavra apolínea, Édipo então pessoalmente teme em razão de sua figura régia.190

Assim, para Édipo singularmente porque rei, a imperiosa mobilização do interesse pessoal afligido pelos infortúnios da crise tebana que individualmente o atingem o instiga a encetar todo empenho pessoal no empreendimento de perseguição do assassino a punir o crime inexpiado, fonte e origem da mácula. A confluência agora solidária, e não mais conflitante como quando da calamidade posta pela Esfinge, entre a razão do interesse subjetivo, pessoal, com a razão do interesse objetivo, público, da realeza livra plenamente a decisão régia de empreender o procedimento judiciante do crime desde outrora inexpiado. Agora realiza-se plenamente a viabilização do princípio desse procedimento. A assistência que assim Édipo presta à causa daquele rei morto, Laio, obra igualmente o serviço por sua própria pessoa.191

Decisão régia que efetiva, dando-lhe início, o processo de expiação do assassinato de Laio pela perseguição de seu assassino finaliza o tempo da súplica tebana a seu rei, pois satisfeitos todos os propósitos que a ensejassem. Em especial, Édipo ativou todos os recursos de salvação da cidade dele reclamados. A assistência do concurso divino, um dos princípios que, pelo entendimento sacerdotal, fora causa mesma do êxito de seu feito anterior de salvação contra a cruel cantora, também agora era atualizado plenamente por essa decisão régia obediente às prescrições da palavra apolínea. Por essa disposição régia edipiana de dar prosseguimento aos comandos do deus, o princípio da via de salvação divina apolínea, ensejada pelas revelações de sua palavra oracular, adentrava, alí na praça palaciana, o âmbito do terreno político. Bem o disse o sacerdote de Zeus: Febo, que enviou estes oráculos, que ele venha também, Salvador, e médico da doença.192 Nesse espaço público, então, termina o ato de súplica - que os tebanos se levantem dos degráus, vão e levem seus ramos - porque concomitante inicia-se já o ato de proclamação régia a enunciar a aplicação política da ordem apolínea: que alí, na praça palaciana, congregue-se, pois, o povo de Laio em assembléia a inteirar-se da ordem régia.
Os princípios de salvação da cidade completam-se: conjunção das potências de dupla ciência terapêutica, uma divina apolínea, assim augurada pelo sacerdote e atuada pelo oráculo délfio, mais outra heróica edipiana, que segura de seu saber também proclamara ao anunciar sua decisão: do princípio de novo isso eu esclarecerei.193 Atuando em consonância graças à ordem régia edipiana, abrem-se as duas vias de salvação da cidade. Se elas são uma só ou não, logo se revelará pelo fim a que por elas caminhando Tebas chegará, preconiza Édipo: ou afortunados com o deus seremos, ou arruinados. Se o concurso do favor divino alia-se à causa de Tebas, salvação é o fim, mas ao contrário, ruina. Elíptica suposição desse pensamento edipiano, apenas apontada pelo nós de sua formulação verbal: solidariedade de destinos entre Édipo e Tebas, rei e comunidade, a comungar, entende ele, as sortes de um mesmo fim, ou para ambos afortunado, ou desgraçado.

8. Edito


Édipo, rei atual de Tebas, enceta então a perseguição judicial do assassino de seu antecedente no trono, Laio. Uma proclamação pública dispõe o modo porque ele irá princípiá-la, conformando a via a seguir em tal obra investigativa de descoberta de um criminoso desconhecido.
Mas, como pode a reflexão de Édipo descortinar essa via? Duas ordens de razões negativas cerceiam e delimitam o campo de possibilidades com que se depara a ação de sua mente, sua medit--ação, porque vislumbrasse a saída. Primeiro, a circunstância da mais estrita singularidade que diferencia excepcionalmente a inserção de Édipo no âmbito da cidade tebana: é ele cidadão tardio dentre os cidadãos, estrangeiro ao que se passou. E ainda, a somar-se a essa realidade circunstancial de estranheza e exterioridade ao fato em questão, a privação, a falta, de um indício que já de si mesmo indicasse o princípio, o ponto de partida da via almejada por tal investigação.

Então só lhe resta, e se lhe impõe, um outro longo caminho. Se o criminoso é desconhecido, e se nem mesmo se dispõe do indício a partir do qual poder-se-ia (per)seguir a via que o descobrisse, a instrução oracular pítica sugere o único meio de sabê-lo: pois há em Tebas quem certamente o sabe, que conhece a verdade do crime, já que Apolo revelou estar o criminoso lá presente, em Tebas, sendo ele a causa e fonte conspurcadora da desgraça pestilenta porque o reino arruina. Há certamente alguém em Tebas que pode tudo revelar, dar a conhecer a Édipo quem é o assassino de Laio. Quem? Duas possibilidades se abrem, duas alternativas a situar quem detém o segredo desse conhecimento: ou o criminoso mesmo, ou um seu cúmplice, pois a suspeita de um complô conspiratório regicida de Laio fora já implicada pelas primeiras inferências edipianas a desvendar o caso. Daí, a proclamação da ordem régia porque Édipo conclama-o à revelação:



Quem quer dentre vós que sabe acerca de Laio, filho de Lábdaco, sob os golpes de qual homem ele pereceu, eu lhe ordeno, a este homem, tudo me dar a conhecer.

Por esse apelo, Édipo tenciona alcançar a identificação do criminoso pela indução de um primeiro procedimento, o qual reclama a mais imediata e direta auto-apresentação do(s) sujeito(s) mesmo(s), quer porque agente quer porque agenciante do crime. A ensejar a persuasão do ciminoso mesmo, Édipo decide os modos porque irá tirá-lo dos impasses que eventualmente o impedissem de assim fazê-lo: tanto livra-o dos temores consequentes ao ato de sua denúncia e instrução acusatória, pois sua auto-apresentação concomitantemente a suprimiria, quanto assegura-lhe desde já a brandura porque restringe todo o alcance da punição do crime, definida apenas pelo exílio de Tebas, condição necessária para que se efetue a purificação ordenada pelas revelações da consulta oracular. Já ao cúmplice tebano agenciante, a persuasão indutora da quebra do silêncio de uma denúncia reveladora do estrangeiro agente do crime propõe as seduções das vantagens ganhas por esse seu ato assim benéfico para com a comunidade: de Édipo pessoalmente uma recompensa, e de todos a gratidão.

Que (a consciência de) Tebas, pois, onde se aloja o conhecimento do criminoso, não se cale! Tal é a primeira indução de procedimento proclamada pela ordem régia edipiana, a finalizar, pela justa identificação e consequente exílio do agente maculador que desgraça a cidade, a salvação do país.

Essa primeira saida salvadora não é, entretanto, certa de consumar-se, pois ela conta com, e portanto depende da disposição de Tebas agir justo nesse sentido de obrar uma palavra reveladora. Ora, mas Tebas pode também, pelo contrário, porque ainda dominada pelo medo a afastar ou de um amigo ou de si mesmo esta palavra reveladora, antes calar-se! Assim, há que conceber a saida de um desvio para esse silêncio, que, todavia, contra esse silêncio mesmo, obre a purificação ordenada pela palavra apolínea ao reclamar a extirpação dos efeitos maculadores daquele crime não expiado.

No caso de não se finalizar tal purificação pela exclusão do criminoso de Tebas de modo a que fique livre o país do fato de sua presença, Édipo ordena alternativamente como, não obstante, anular a efetividade conspurcadora de tal presença. Trata-se de, pelas várias disposições da maldição de um interdito, isolar o alcance de suas contaminações, segregando plena e radicalmente todos os passos de sua convivência nos limites do reino tebano. Que o criminoso, amaldiçoa Édipo, não mais se relacione de modo algum com qualquer tebano que seja, nem a acolhê-lo em sua casa ou dirigir-lhe a palavra, nem a associá-lo em ritos sacros, seja em preces aos deuses, seja em sacrifícios, seja mesmo dispondo-lhe a água lustral. Não, que ele fique condenado ao isolamento, de sua casa rechassado todo contato, pois, como justamente o revelou o oráculo pítico, é lá que reside a mácula para Tebas. Sobre a existência tebana do criminoso Édipo lança a maldição do miserável destino do excluído da vida citadina, projetando anular, pela trama da ambiguidade assim concebida, o fato mesmo de uma presença todavia de contágio inativado na cidade. Essa a mais grave punição com que a ordem régia ameaça amaldiçoar a persistência do criminoso mesmo lá em Tebas.

E também, a mais fortemente compelir agora a injunção persuasiva do ato da palavra reveladora através dessa maldição ameaçadora de um destino de desgraça maior, também contra o eventual cúmplice, contraventor de sua ordem por conivente silêncio guardado a ocultar seu conhecimento, Édipo vota similar execração dessa vida de excluído. E bem avaliza sua imprecação por pessoal disposição mesma, sempre modelar, de obedecê-la, tanto que faz voltar primeiro contra ele mesmo, assim integrado como uma das vozes da cidadania tebana, antes do que contra todos, os males desse anátema, caso viesse ele a incidir na contravenção dessa conivência, e o criminoso estivesse abrigado lá, em sua própria casa, a partilhar com ele a lareira doméstica, e ele o soubesse e nada falasse.

9. Profecia
Ao edito régio pronunciado por Édipo em assembléia reunida diante do palácio, a interpelação de sua ordem alcança primeiro de todos o Conselho dos Anciães lá presentes, como tal figurado pelo Coro trágico. A(s) voz(es) uníssona(s) deste falam em nome do Eu colegiado por que se enuncia a palavra aconselhadora das decisões régias. De imediato protesta isenção porque inocente e ignorante daquele crime. Porém aventa quem em Tebas o pudesse esclarecer por dominar palavra profética afim da apolínea, de condizente verdade: o venerável Tirésias, em dotes de vidência o mais próximo de Apolo, a quem deve o rei recorrer porque desvende clarividente o mistério, pois adivinho sagrado, único dentre os homens em quem a verdade lançou raízes.194

Ainda outra vez, por pronta e diligente iniciativa, Édipo antecipara cuidados sotéricos reclamados dele pela comunidade. Já enviara duplos emissários ao adivinho que o convocassem a comparecer ao palácio. Fora Creonte que o aconselhara. Édipo prontamente acolhera a sugestão tomando a providência que a atendia. E tanto mais zeloso de seus deveres estava que já afligia-se com a demora, o retardo, daquela visita de uma auxiliar palavra divinatória que justo então alcança o palácio.


Cena de confronto querelante entre Édipo e Tirésias em que contendem discursos díspares consoante divergentes âmbitos de constituição de conhecimento humano e respeitantes a distintos modos de concepção de sua atualização valiosa conexa à posse do saber. Duas nomenclaturas conceituais respondem por opostos métodos intelectivos: gnóme em Édipo, divinatio em Tirésias.
Saber de dimensão totalizante, onisciente, figurado pelo profeta apolíneo por fundamento de nexo divino, que tudo conhece, o que foi revelado e o que é oculto, o que habita o céu e o que pisa a terra195. Pelo contrário, saber de dimensão tópica, localizada de incidência fenomênica, representado pelo rei heróico. A operação da gnóme, dependente da visão física, é adstrita ao tempo presente, fonte de que se origina a convicção de sua certeza. Pelo contrário, dela alheia a ação da divinatio, pois profeta cego, que enxerga pelo espírito196, atuante por outras vias, tais o presságio das aves197. Então, saber pronto porque responde imediata a divinatio, contra saber metódico, processual, questionador, porque responde a gnóme198,

Discurso homogeneizante porque responde pelo benefício social, valia humana da ciência arrazoante, a finalizar salvação comunal, sem qualquer distinção ou discriminação de instâncias constituintes da cidade, todas conjuntamente integradas por tal razão política. Primado de preceito de atuação cívica nobilitadora insistentemente reiterado por Édipo, que ele mesmo absolutamente acata e ativa, e de que todos igualmente reclama, inclusive do profeta. Diferenciações de figuras sociais - ou rei ou profeta - se (con)fundem pela razão do discurso régio no nós solidário que diz a cidade199. O amor pela cidade, afeto e devoção, conjuga-se com o imperativo de Justiça que a ordena200. Pelo contrário, discurso social dissociante porque responde a autonomia, a valia independente do saber divino intermediado pela arte mântica, em vislumbre das divergências dialéticas porque conflitam inconciliáveis (des)vantagens e (des)favores discriminados201.


Da parte de Édipo, encadeamento lógico de inferências cumulativas porque se desdobra o exercício do saber gnômico ao se deparar confrontado com a incompreensível recusa obstinada do profeta em disponibilizar a revelação da arte de seu saber que salvasse a comunidade: quem assim age a perda da cidade só pode ser traidor202, malvado dos malvados, mau carater por suprema insensibilidade, indiferença e irreverência cívica203. Daí, primeiro movimento reflexivo em corolário de seu desempenho dedutivo, então conexo a assalto de cólera, explosão de furor irado, consoante ditames de ética régia de (cor)reta indignação porque reage a honra heróica ofendida. Então descarta atender às (in)conveniências de sua contenção por preceitos de diplomacia de convivência social porque se reprime e cala a franqueza nua e crua de uma verdade ofensiva em sua contundência, agora exposta ao ensejo do ímpeto colérico: Tirésias traidor convicto, agente promotor de conjura contra o poder régio porque Laio fora assassinado. Entendimento que dá a razão porque Édipo (des)entende aquela suspeita obstinação do adivinho em recusar as revelações reclamadas de sua arte mântica: encobria a própria culpabilidade naquele regicídio. Não fosse ele cego, ao que prosseguem os nexos inferenciais da gnóme edipiana, seria ele mesmo o criminoso. Acumpliciara, portanto, mãos de outrem que matara o rei.

Tirésias, de seu lado ressentindo-se das provocações que injuriam a honra de sua sabedoria apolínea, também exaspera-se furioso, similarmente indignado, livrando agora o que até então aprisionara obstinadamente em seu espírito: palavras enunciadoras que progressivamente desvelam a verdade do fato que ele conhece204. Volta contra Édipo a acusação do misterioso crime, nele imputando a aitia, o miasma que contamina Tebas205: ele é o matador buscado206, assassino de Laio. E, verdade ainda mais estarrecedora: vive, inadvertido, em conúbio torpe com os seus207.


Para a inteligibilidade da razão edipiana, acusações absurdas, i-lógicas, desprovidas de quaisquer evidências de realidade que as sustentassem. Porém, não despropositada, lançada a esmo, pelo contrário, seu móbile reforçava a desconfiança da primeira suspeita que Édipo indiciara na atuação do adivinho, a conjura regicida: agora vislumbrava a eminência parda, nexo maior de seu acumpliciamento, Creonte, irmão de Jocasta, aspirante mais próximo ao trono. Assim Édipo finaliza o dizer da razão que apreende todos os intrincados nexos da inventiva sinuosa, estratégia de um projeto ambicioso de tomada do poder tebano intrigado por Creonte, então acumpliciando em suborno o falso, corrupto profeta, também este ambicioso porque usufruisse segundas regalias, e igualmente invejoso porque a primorosa inteligência racional de Édipo, decifradora da Esfinge, desmascarara o charlatão, afeito a manhas pseudo divinatórias de (dis)simulações apolíneas:

Riqueza, reino, engenho ultragenhoso,

conduzem a um viver plurinvejado!

Quanto rancor se fixa em torno a vós!

A pólis concedeu-me o dom do reino;

sem meu empenho o pôs em minhas mãos;

e o leal Creon, amigo desde o início,

cozia o plano sórdido em surdina,

sócio do mago nessa megatrama,

do charlatão manhoso, de olho no

regalo das propinas, vate cego!

Onde imperam teus mânticos domínios?

Por que negaste auxílio ao povo quando

vivia a Esfinge, cadela de rapsódias?

Não de um desavisado a solução

do enigma dependia, mas de um profeta.

Ficou patente: nem as aves, nem

os deuses te inspiravam. E eu chegueii;

dei cabo dela, alguém sem crédito, Édipo;

vali-me do pensar e ão dos pássaros.

A mim pretendes expulsar agora,

sonhando secundar Creon no cargo?

Lamentareis querer purgar a pólis.

Não fosses na aparência um ser decrépito,

conhecerias sofrendo os teus projetos.208
No debate Édipo versus Tirésias conflitava a agonística dividida de pretensões no âmbito da cidade pela autoridade cognitiva, dualidade de modos de agenciamento humano orgulhosos de saber verídico.

Pela percepção do olhar edipiano, formulação discursiva de entendimento deliberativo resoluto, que proclama deslindar nas palavras do antagonista aleivosias conspiratórias, conluio de ambições despudoradas porque acumpliciado a Creonte em projeto de realeza tebana. A verdade clarividente pelo olhar de quem diz conviver com a luz, dinamiza razão pensante que denuncia a palavra mentirosa e fraudulenta de falso profeta, que nem as aves nem os deuses inspiram209, antes desacertam apenas sandices210, pronunciamentos de con-dizente cegueira de mente, ouvido e vista211 por quem se nutre de trevas212.

Contra a percepção desse olhar edipiano fundado na razão intelectiva (lógos), Tirésias opõe em confronto a revelação de palavra mântica, que atua por modo inverso visionário da verdade porque sustentado por nexo de divino fundamento apolíneo, de equivalente convicção intelectiva por que reverte a transitividade do lance acusatório entre eles jogado:

És rei, mas nós nos igualamos nisto:

nossas palavras pesam igualmente.

Reclamo o meu poder! Não sou teu servo,

sirvo a Apolo, e independo de Creon.

Falo, pois meu olhar opaco humilhas:

dotado de visão, não vês teu mal,

com quem moras, em que lugar habitas.

De onde vens? Sabes ser o horror dos teus,

desses que a terra encobre ou - sobre - vivem?

Terror nos pés, a maldição te expulsa

daqui, mater-paterna, açoite duplo.

E a ortovisão de agora então se entreva.

Que golfo, que montanha do Citero

a sinfonia de teus gritos não

ecoará, quando saibas de tuas núpcias,

porto inóspito, ao fim de um navegar

tranquilo? Nem suspeitas da desgraça

que atingirá a ti, como a teus filhos.

Achincalha Creon e cada som

que pronuncio. Ninguém conhecerá

um desmoronamento pior que o teu.213
Então, alcance o mais profundo da acusação que Tirésias dirige a Édipo porque insciente de sua própria identidade, ignorante das circunstâncias que precisam o destino de sua história: que vias navega e a que porto chega, de onde vem e em que lugar habita, quais suas núpcias e com quem mora... em suma, qual sua proveniência, quem são seus pais?

1   2   3   4   5   6


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal