A constituiçÃo dogmática dei verbum sobre a revelaçÃo divina e a sua contribuiçÃo para a liturgia maria de Lourdes Zavarez e Maria do Carmo de Oliveira introduçÃO: «A palavra de Deus é viva e eficaz»



Baixar 131.76 Kb.
Página1/3
Encontro20.07.2016
Tamanho131.76 Kb.
  1   2   3
A CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM

SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

E A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A LITURGIA

Maria de Lourdes Zavarez e

Maria do Carmo de Oliveira

INTRODUÇÃO:

«A palavra de Deus é viva e eficaz» (Hb 4,12), «capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados», (At 20,32; 1 Tess. 2,13).

Com estas palavras da Escritura que definiram a trajetória do Concílio Vaticano II, apresentamos esta pesquisa sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum, destacando sua importância para a Liturgia. Desejamos colaborar com nosso crescente processo de enamoramento e amor com a Palavra do Senhor, elemento constitutivo e indispensável da liturgia, como celebração da Aliança. Em nossa fé cristã temos a certeza que nosso Deus dá-se a conhecer numa relação pessoal e coletiva, revelando-se à humanidade e a cada um de nós. É proposta de bem-querer que se estabelece a dois, num constante diálogo. Nesse movimento de ir e vir, a Sagrada Escritura é de máxima importância principalmente quando celebrada comunitariamente.(cf.SC 24)

O afeto envolvente e a própria celebração da Palavra de Deus herdamos dos pais e mães do judaísmo, desde as grandes assembleias da Aliança do Primeiro Testamento (Êxodo 19-24; Neemias 8-9). Herdamos também a estrutura da celebração sinagogal, centrada nas leituras bíblicas e na oração dos Salmos.

O próprio Jesus cita as Escrituras do primeiro Testamento aplicando-a a sua pessoa e à sua missão, como sugeriu de recorrer à Bíblia para entender sua mensagem(cf Jo 5,39) e, além disto, exerceu na sinagoga de Nazaré o ministério de leitor e fez a homilia.(cf.Lc 4,16-21). Explicou aos discípulos de Emaús, “começando por Moisés, passando por todos os profetas interpretou-lhes em toda Escritura o que a Ele dizia respeito”(Lc 24,27) antes de partir com eles o pão. Assim, ao “abrir-lhes a inteligência”, entregou aos discípulos, depois da Ressurreição, o sentido último das Escrituras. (cf.Lc 24,44-45).

Todas as liturgias do Oriente e do Ocidente reservaram um lugar privilegiado para a Sagrada Escritura em todas as celebrações. A Bíblia foi o primeiro livro litúrgico da Igreja. (cf.2Tm 3,15-16)

O Concílio Vaticano II ouvindo o apelo do Espírito e das igrejas, rompeu com séculos de distanciamento e recolocou a Palavra Deus em seu lugar central, especialmente com as constituições sobre a Revelação(DV), sobre a Igreja(LG) e a Liturgia(SC).

Este fato está entre os mais importantes da reforma litúrgica, do ponto de vista ecumênico, pastoral e espiritual, a chave e a medida de uma renovação litúrgica para toda a Igreja.

Palavras embebidas da Palavra, no dia 11/10/ 1962, mais de 2.000 bispos, vindos de todo mundo, oriente e ocidente católico, puderam ouvir do bondoso Papa João XXIII, na abertura solene do Concílio Vaticano II. Suas palavras demonstram o perfil humano de um verdadeiro e fiel seguidor da Palavra, Jesus Cristo o Verbo de Deus, encarnado na história, no tempo, nas culturas.

A Igreja sempre se opôs aos erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade”.

“Misericórdia é que quero, e não o sacrifício”. (Mt 9,13)

O mesmo se deu, quando tratou da finalidade principal do Concílio:

O Senhor disse: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6, 33). Esta palavra “primeiro” exprime, antes de mais, em que direção devem mover-se os nossos pensamentos e as nossas forças; não devemos esquecer, porém, as outras palavras desta exortação do Senhor, isto é: “e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33). Na realidade, sempre existiram e existem ainda, na Igreja, os que, embora procurem com todas as forças praticar a perfeição evangélica, não se esquecem de ser úteis à sociedade. De fato, do seu exemplo de vida, constantemente praticado, e das suas iniciativas de caridade toma vigor e incremento o que há de mais alto e mais nobre na sociedade humana”.1i

Seu gesto, no início da primeira sessão, de tomar a Bíblia e colocá-la à frente da assembléia conciliar, dizendo que a Palavra de Deus seria a condutora de todos os trabalhos do Concílio tornou-se paradigmático, sendo repetido em todas as outras até o final do Concílio. “Cada reunião iniciava-se com a entronização da Bíblia, seguindo-lhe a celebração da Missa, celebrada nos vários ritos, na língua desses, com seus cantos próprios.2

Apresentamos a seguir, algumas informações gerais, anteriores ao Concílio Vaticano II, que clareando nosso olhar, nos colocam em sintonia com este momento histórico e pascal de nossa caminhada eclesial, no que diz respeito à Palavra de Deus e sua relação com a sagrada Liturgia.



  1. Fatos anteriores ao Concílio Vaticano II, sinais da ação do Espírito!

  • Por fatores históricos e teológicos, os irmãos protestantes estavam com relação às Sagradas Escrituras, à frente dos católicos. Dedicavam-se aos estudos sobre gêneros literários, história das formas, distinção entre verdades teológicas e verdades históricas presentes nos textos bíblicos e afirmavam que as Escrituras são a única fonte de Revelação marcando assim sua diferença dos católicos que por muito tempo não tiveram acesso à leitura bíblica.

  • No século XIX houve uma tímida, mas significativa abertura, alimentando as esperanças de novas perspectivas teológicas e eclesiais, com o papa Leão XIII (1810-1903), que incentivou a pesquisa e o estudo dos textos originais da Bíblia – em hebraico, aramaico e grego – e os textos patrísticos.

  • Em 1890, o Pe. Marie-Joseph Lagrange-OP fundou a Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém e a Revista Bíblica.

  • Em 1910 surge o Instituto Bíblico de Roma, ao lado da Um

  • iversidade Gregoriana.

  • O estudo da Bíblia deu origem ao Movimento Bíblico, que rompeu com a rigidez de um único sentido literal dos textos bíblicos, trazendo avanços na compreensão da inspiração e da interpretação dos textos.

  • O estudo dos textos patrísticos deu origem ao Movimento Litúrgico que buscou resgatar a Liturgia dos tempos antigos, profundamente cristológica e essencialmente mistagógica - catequética e espiritual orientada para o mistério de Cristo. Esse resgate denunciava a rigidez e a formalidade da Liturgia da época.

  • Além desses dois movimentos, surgem outros de reflexão e ação: Movimento Teológico, Movimentos Ecumênicos, Movimento Social (Doutrina Social da Igreja), Movimentos Leigos (Ação Católica), trazendo sua contribuição específica e influindo na vida da Igreja.

  • Entre 1945-50, a Igreja vive um movimento de volta às fontes na Liturgia, na Escritura, na Pastoral e na Teologia. Torna-se urgente harmonizar os fundamentos da fé com elementos novos do mundo atual de então. Aí fica claro que a compreensão da Revelação é decisiva para a fé da Igreja. Fé e a ação só têm sentido quando deixam transparecer a adesão à Palavra revelada de Deus.

  • Todos estes Movimentos trouxeram a questão da modernidade para dentro da Igreja, como desafio para que ela saísse da imobilismo conservador e abrisse espaços para um diálogo com o mundo moderno. Assim, na segunda metade do século XX, não restava alternativa às Igrejas cristãs, a não ser assumir a necessidade de mudanças internas. Estes diversos fatores influenciaram na convocação e na orientação do Concílio Vaticano II, que possibilitou uma atualização eficaz, com a finalidade de tornar viva e atual a mensagem de esperança do Evangelho, para atender melhor as exigências dos novos tempos.




  1. SAGRADA ESCRITURA - sua redescoberta como fonte da iiRevelação Divinaiii

A constituição Dei Verbum é fruto de um caminho de amadurecimento que levou anos, sofrendo grande influência das encíclicas de Leão XIII, Bento XV e Pio XII.

  • 1903 - Providentissimus Deus, de Leão XIII, sobre os estudos bíblicos.

  • 1920 - Spiritus Paraclitus, de Bento XV, no 15º centenário da morte de São Jerônimo:

"Pelo que nos toca, Veneráveis Irmãos, à imitação de São Jerônimo jamais deixaremos de exortar todos os fiéis cristãos a que leiam todos os dias principalmente os Santos Evangelhos de Nosso Senhor, os Atos e as epístolas dos Apóstolos, tratando de convertê-los em seiva do seu espírito e em sangue de suas veias"..."Todo aquele que se aproxima da Bíblia com espírito piedoso, fé firme, ânimo humilde e sincero desejo de aproveitar, nela encontrará e poderá degustar o pão que desce dos céus". (Enquirídio Bíblico nº 477). 3

A atitude de Bento XV foi uma novidade na Igreja depois do Concílio de Trento.



  • 1943 - Divino Afflante Spiritus (Inspirados pelo Espírito Divino), de Pio XII recomendando a difusão da Bíblia entre os fiéis:

"Os prelados favoreçam e prestem ajuda às piedosas associações cuja finalidade é difundir entre os fiéis os exemplares das Sagradas Letras, principalmente dos Evangelhos, e procurem que nas famílias cristãs se faça ordenada e santamente a leitura diária das mesmas; recomendem eficazmente a Santa Escritura traduzida para as línguas vernáculas com a aprovação da Igreja".

Divino Afflante Spiritus focou pontos essenciais para os exegetas católicos:



    1. Dedicação ao estudo da Bíblia em suas línguas originais e no estudo da Filologia.

    2. Utilização da crítica textual, sem interferência de interesses próprios na transcrição ou tradução.

    3. Interpretação da Bíblia nos textos originais e não apenas na Vulgata latina.

    4. Interpretação da Bíblia em seu sentido literal e/ou espiritual.

    5. Interpretação da Bíblia valendo-se da Tradição da Igreja, sobretudo na Patrística.

    6. Compreensão estrutural da natureza e dos efeitos da inspiração divina.

    7. Importância de perceber a atuação do hagiógrafo na escrita das Sagradas Escrituras e que sendo palavras de Deus em letras humanas, por analogia ao Verbo Divino ela não possui erro.

    8. Atenção à análise das formas literárias antigas que o autor humano inspirado emprega e da sua diferenciação do dado histórico ou científico.

    9. Valor histórico que possui a Bíblia para o povo da Primeira Aliança e para nós.

    10. Atenção às dificuldades ainda não resolvidas, e que os métodos modernos de interpretação da Bíblia parece nos mostrar um novo caminho na medida em que aplicarmos ao texto bíblico as descobertas realizadas pela arqueologia, história antiga e ciência das antigas literaturas.




  • Foi um longo e lento período de despertar para a Palavra de Deus, que refletia a necessidade da Igreja de dar mais valor à Sagrada Escritura. Mas nas encíclicas citadas, não houve nenhuma referência, ou tentativa de ligar Bíblia e a proclamação litúrgica da Palavra; nem na Encíclica do Papa Pio XII, “Mediator Dei” (1947) sobre a Sagrada Liturgia, apareceu a centralidade das Escrituras nas celebrações.

  • Por ocasião do Concílio, chegaram a Roma 102 proposições que foram selecionadas, agrupadas e aprofundadas pela comissão preparatória. Devido à sua complexidade e após 104 intervenções, os padres conciliares pediram que se parassem as discussões e que o esquema fosse reelaborado. O texto atual foi promulgado a 18/11/1965, após receber 2.344 votos a favor e 6 contra. O maior objetivo do Concílio era difundir a Palavra de Deus, em cumprimento ao desejo de Jesus Cristo que anunciou: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Notícia a toda a Humanidade.» (Mc 16,15)



  1. Tomando nas mãos a Dei Verbum, com o coração na Liturgia!

DV é designada "constituição dogmática" porque trata de temas de fé; aborda a relação entre Escritura e Tradição. Não é um documento sobre a Bíblia, mas sobre a Revelação Divina. Foi fruto do Concílio, mas também de todos os movimentos e estudos anteriores. Esta constituição esteve presente do começo ao final do Concilio, influenciou as decisões do mesmo, tornando-se “sua pérola”.4

A estrutura da DV é simples, mas bela e profunda, cobrindo os grandes temas da fé cristã. Teve seis redações, perpassou todas as etapas do Concílio e ficou assim organizada:



  1. Proêmio

  2. Capítulo I – A Revelação

  3. Capítulo II – A transmissão da Revelação Divina

  4. Capítulo III – A inspiração divina e a interpretação da Sagrada Escritura

  5. Capítulo IV – O Primeiro Testamento

  6. Capítulo V – O Segundo Testamento

  7. Capítulo VI – A Sagrada Escritura na vida da Igreja

PROÊMIO: INTENÇÃO DO CONCÍLIO

Os padres conciliares se apresentam como uma assembléia que “ouvindo religiosamente a Palavra de Deus, a proclamam com confiança e a obedecem”. A DV tem por motivação e iluminação a I Carta de João 1,2-3: “porque a vida manifestou-se, nós a vimos, damos testemunho dela e vos anunciamos esta vida eterna que estava no Pai e que nos foi manifestada. O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.” Seu objetivo é “propor a genuína doutrina da Revelação divina e sua transmissão, para que ouvindo e acolhendo a salvação, o mundo creia, espere e ame.” (cf. DV 1)



CAPÍTULO I - A REVELAÇÃO EM SI MESMA

  1. Natureza e objeto da Revelação

  2. Preparação da revelação evangélica

  3. Cristo completa a Revelação

  4. A revelação acolhida com fé

  5. As verdades reveladas

O primeiro capítulo trata da existência, do objeto, da natureza e da finalidade da Revelação. Deus quis se revelar e estabeleceu uma comunicação contínua com a humanidade. Deus deu-se a conhecer, tirou o véu que encobria sua face, manifestou sua vontade e a sua verdade diversas vezes ao longo da história com o objetivo de conduzir toda a humanidade à comunhão Consigo. Na plenitude dos tempos, revelou-se de modo pleno e definitivo através do seu Filho, Jesus Cristo, o Verbo Encarnado. No prólogo do Evangelho de João temos estes dados teológicos: «No começo a Palavra [Verbo] já existia: a Palavra estava voltada para Deus e a Palavra era Deus... E a Palavra fez-Se ser humano e habitou entre nós.» (cf. Jo 1,1-18). A Revelação de Deus deve ser aceita pela fé e obedecida como resposta à comunicação iniciada pelo Senhor.

  • Encontramos aqui um paralelismo entre revelação e liturgia:

  1. Na revelação temos os momentos significativos de salvação, diálogo amoroso de aliança entre Deus e a humanidade, que em Jesus chega à sua plenitude.

  2. Na liturgia, Deus revela-se a si mesmo e seu plano de salvação realizada em Jesus Cristo na proclamação da Palavra. Ele comunica sua vida e nos faz participantes dela por meio dos sacramentos. Não se trata apenas de uma leitura da história da salvação, mas uma atualização dela: a liturgia proclama e realiza a obra de nossa salvação.(cf SC 2,5,6)

CAPÍTULO II - A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

  1. Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho

  2. A sagrada Tradição

  3. Relação mútua entre a Tradição e a Sagrada Escritura

  4. Relação de uma e outra com a Igreja e com o magistério

O enfoque é a transmissão da Revelação divina e nosso acesso a ela, através da pregação dos Apóstolos e dos seus sucessores. É a chamada Tradição entregue à Igreja, sob a inspiração do Espírito Santo. A Tradição ajuda a compreender a Escritura, pois as duas estão intimamente relacionadas, são dois pilares da fé cristã para conduzir todas as pessoas e toda criação a Deus. A Sagrada Escritura foi escrita por mãos humanas, sob a inspiração do Espírito Santo. Para a interpretação da Bíblia é preciso ter em conta a sua inspiração divina, os gêneros literários, os estudos exegéticos e hermenêuticos e tudo o mais que possa contribuir para um aprofundamento e melhor compreensão do texto. O magistério da Igreja é servidor da Palavra. Incentiva-se assim as pesquisas e estudos bíblicos por parte de todos as cristãs e cristãos.

“Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo desta fonte única da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado.” (DV n.10)



  • Estas devem ser as disposições de quem proclama a Palavra na liturgia, como ministros e servidores. Leitor/a da Palavra, salmista e quem faz a homilia, convertem-se de algum modo, em sinal e instrumento da presença de Cristo em sua Palavra, sacramento de Cristo revelador do Pai. Isto exige uma atitude de humildade e de compromisso espiritual no desempenho deste ministério.

Capítulo III – A INSPIRAÇAO DIVINA E A INTERPRETAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA

  1. Inspiração e verdade da Sagrada Escritura

  2. Interpretação da Sagrada Escritura

  3. A condescendência da sabedoria divina

Deus escolheu pessoas para escreverem os livros sagrados, dentro de suas habilidades; devem ser considerados autores, em que Deus, por seu Espírito, age e conduz conforme sua vontade. É Deus quem fala através das Escrituras. Por isso elas nos ensinam solidamente a verdade que Ele quis comunicar ao gênero humano. Quem interpreta precisa procurar o sentido que o hagiógrafo (autor humano) quis transmitir dentro de suas condições de tempo, cultura, gênero literário, o modo de sentir, dizer e narrar em uso em sua época, mantendo atenção às formas literárias. Mas é o Espírito que ampara tanto o hagiógrafo como quem lê as Escrituras. Pela benignidade e condescendência de Deus, sua Palavra tornou-se semelhante à linguagem humana, como o Verbo que se fez carne. Quem faz exegese precisa ler “por trás das palavras”.5

  • A Liturgia tem um modo próprio de ler e de interpretar a Palavra de Deus, como leitura feita pela comunidade eclesial, em um ambiente de fé no qual, pela ação do Espírito, atualiza o mistério da salvação. “Deste modo, a mesma celebração litúrgica, que se sustenta e se apóia principalmente na Palavra de Deus, converte-se num acontecimento novo e enriquece a palavra com uma nova interpretação e eficácia. Por isso a Igreja continua fielmente na liturgia o mesmo sistema que usou Cristo na leitura e interpretação das Escrituras, partindo do “hoje” de seu acontecimento pessoal.”(IELM, 3)

  • No relato litúrgico de Emaús, Jesus se revela nosso modelo de intérprete da Escritura. Seu processo de interpretação parte da vida, da realidade, da situação de medo, dispersão, descrença, desespero, fuga, morte (Lc 24,13-24). Ele “abre” a Escritura para iluminar a vida, situar os fatos dentro do projeto de salvação, mostrar que a história não tinha escapado da mão de Deus e transforma a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e esperança. (Lc 24, 25-27). A Bíblia, sua leitura e interpretação fez arder o coração, mas o que faz abrir os olhos é a fração do pão, a celebração comunitária em torno da mesa da hospitalidade e da partilha, da oração em comum. (Lc 24, 28-32) Ler os fatos da vida, deixar-se julgar pela Palavra, celebrar em comunidade tem como objetivo colocar-nos novamente no caminho de volta para Jerusalém, mas com novo olhar, nova atitude: coragem, em vez de medo; retorno, em vez de fuga; fé, em vez de descrença; esperança, em vez de desespero; consciência crítica, em vez de submissão e fatalismo frente ao poder opressor; liberdade alegre e confiante. Em vez da má notícia da morte, a Boa Notícia da Ressurreição!(Lc 24, 33-35)

  • Na hermenêutica praticada e ensinada por Jesus reconhecemos a síntese da Tradição Judaica que acredita que o mundo se firma sobre três colunas: a Palavra, a Liturgia e o Amor, ou seja: a Bíblia, a Celebração e o Serviço para a construção de uma vida melhor para todos os seres.

  • De modo particular na liturgia, como momento privilegiado da escuta e da atuação da Palavra, é o verdadeiro lugar da hermenêutica ou interpretação cristã da Bíblia. Interpretação que tem alguns princípios: a unidade em Cristo de toda a história da Salvação; a fidelidade ao Espírito que inspirou toda a Escritura; introdução no mistério que se celebra: seu caráter mistagógico e sua dimensão escatológica.6

CAPÍTULO IV – O ANTIGO TESTAMENTO

  1. A história da Salvação nos livros do Antigo Testamento

  2. Importância do Antigo Testamento para os cristãos

  3. Unidade dos dois Testamentos

O quarto capítulo trata do Primeiro Testamento. Deus, em seu bem-querer, nos revela acontecimentos da história da salvação: escolhe um povo para quem confia suas promessas e estabelece com ele a sua Aliança. A esse povo Deus se revela como único. Deus fala pela boca dos profetas. A economia da salvação7 predita, descrita e desenvolvida pelos autores sagrados, encontra-se no Primeiro Testamento como Palavra de Deus.

A DV nº 16 afirma a unidade entre o Primeiro e Segundo Testamentos.



  • “ A Igreja anuncia o mesmo e único mistério de Cristo quando proclama, na celebração litúrgica, o Antigo e o Novo Testamento. Com efeito, no Antigo Testamento está latente o Novo e no Novo se faz patente o Antigo.”(IELM, 5)

  • Os lecionários na forma como estão organizados evidenciam “a unidade entre os dois Testamentos” oferecendo aos fiéis no decorrer do ano Litúrgico os textos mais importantes da Escritura.(cf. IELM, 60). Isto exige da parte de quem faz a homilia um conhecimento estreito da relação entre o Antigo e Novo Testamento. (cf.IELM, 24.39)

É verdade que são muitas as palavras escritas pela pena dos profetas, mas a totalidade da Escritura é um único Verbo de Deus.”8

CAPÍTULO V - O NOVO TESTAMENTO

  1. Excelência do Novo Testamento

  2. Origem apostólica dos Evangelhos

  3. Caráter histórico dos Evangelhos

  4. Os outros escritos do Novo Testamento

O quinto capítulo dedica-se ao acontecimento de Jesus Cristo, sua encarnação, sua pessoa, vida, ministério, palavra, paixão, morte e ressurreição, núcleo central do Segundo Testamento. “Quando chegou a plenitude do tempo, quando se cumpriu o prazo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher.”(Cf. Gl 4,4) Veio instaurar o Reino, manifestar a pessoa do Pai com obras e palavras. No Segundo Testamento o Evangelho é fundamental. A Igreja crê e ensina a historicidade dos quatro escritos evangélicos; afirma que eles transmitem o que Jesus realizou e ensinou durante sua vida terrena até que foi elevado ao céu e enviou seu Espírito. Os demais escritos do Segundo Testamento confirmam o que se diz a respeito de Cristo Jesus e narram a vida das primeiras comunidades.

  • Na liturgia, Deus fala a seu povo; Cristo continua anunciando o Evangelho” ( SC 33) “Cristo presente está em sua Palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras.” (SC 7) “Ele é o centro e a plenitude de toda a Escritura e de toda a celebração litúrgica”.(IELM, 5)

  • A leitura do Evangelho constitui o ponto culminante da liturgia da Palavra; as outras leituras que, segundo a ordem tradicional, fazem a transição do Antigo para o Novo Testamento, preparam a assembléia reunida para esta leitura evangélica.”( IELM,13)

  • A primazia do Evangelho na liturgia se manifesta pelos elementos rituais que envolvem sua proclamação: O livro é trazido entre luzes e aclamação, é incensado, beijado, colocado sobre o altar, mostrado ao povo(cf.IGMR 117). A homilia na lógica de seu desenvolvimento, deveria também respeitar esta primazia do evangelho em relação às outras leituras.
  1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal