A construção da identidade na discussão de alguns erros em língua estrangeira



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A construção da identidade
na discussão de alguns erros em língua estrangeira


Cristina Vaz Duarte (Unicamp)

Este estudo tem por objetivo considerar alguns erros de língua estrangeira como sendo parte integrante de um processo de construção da identidade. Para o aluno de língua estrangeira, muitas vezes o erro aparece como um não-saber da língua, mas algumas vezes ele pode estar revelando, na verdade, certo saber sobre sua identidade.

Esta pesquisa toma como ponto de partida uma atividade em classe de francês como língua estrangeira. Trata-se de propor ao aluno que esteja aprendendo o passé composé que treine as estruturas desse tempo verbal por intermédio de um pôster que ele compõe com recortes de revistas.

O aluno é convidado a folhear revistas de interesse geral (moda, culinária, esportes, turismo, carros, atualidades, etc.) na sua própria língua e em língua estrangeira. Em seguida, pedimos para ele recortar imagens que lhe ajudem a falar do seu passado, as quais ele vai colando ao longo de uma estrada da vida. Depois de decorar o pôster com cores ou palavras, o aluno escreve um texto baseado no seu passado. Por fim, o aluno comenta o seu pôster por alguns minutos diante de uma câmera. O vídeo que se obtém nessa operação é analisado com a ajuda do programa Video Analyser, desenvolvido na Suécia pelo Instituto de Educação de Estocolmo.

A primeira etapa dessa pesquisa e análise de dados se concentra numa amostra de sete alunos de uma classe de francês para iniciantes no Brasil. Os alunos têm entre 17 e 20 anos e estudam francês há dois semestres, num total de 120 horas de aprendizado da língua no Centro de Ensino de Línguas da Unicamp.

O artifício de passar por imagens que os alunos selecionam para começar a falar no passé composé, em francês, tem por objetivo implicar o aluno numa atividade manual que não lhe é mais familiar nesta época digital, para que numa relação de proximidade com seu corpo (o aluno senta no chão da classe, usa as mãos, se recosta confortavelmente na parede para folhear as revistas numa posição que não é a do alerta da sala de aula...) ele se aproprie de um material que se torna pelas suas mãos familiar, e que vai ajudá-lo a ser introduzido numa estrutura verbal que lhe parece no mínimo “estranha”. Trata-se de um recurso lúdico-técnico para se alcançar uma competência oral em língua estrangeira. O aluno participa de uma dinâmica criadora na qual ele compõe um edifício de fabulações sobre o seu passado, construindo um saber lingüístico que, como veremos mais adiante, está estruturado por um saber mais amplo, que é um saber de si.

A experiência de convidar o aluno a usar papel, cola e pincéis para decorar com tinta a estrada da vida tem o objetivo de combinar o antigo das experiências do passado com o novo das imagens, novo este que, de viés, se aproxima das cenas da sua vida, conjugando a experiência atual do aprendizado de uma língua (brincar de fazer arte na aula de francês) com o antigo das vivências em língua materna. O aluno cria um pôster que lhe pertence, tateando uma nova forma verbal no jogo de encontrar palavras-chaves em língua estrangeira que revelem elementos da sua experiência pessoal reelaborando criativamente imagens do passado. A fabulação de imagens representa nessa atividade a fonte lingüística da aquisição em língua estrangeira.

O aluno, ao procurar uma palavra em língua estrangeira que sintetize a imagem recortada, imagina, combina e modifica representações do seu passado, onde a função criadora se apresenta como regra e não como exceção.

O aluno participa da aquisição de novas palavras como inventor numa tarefa manual que exige dele critério, criatividade e crítica para expor na linha do tempo representações sobre sua própria vida.

Ao procurar falar sobre as imagens dos pôsteres, os alunos se deparam com estabilidades e instabilidades. Assim, interpenetram-se conhecimentos que buscam estabilidade com imagens instáveis do passado, ou ainda o inverso desse processo, na dinâmica da aquisição. Os “erros” surgem no âmago dessas instabilidades entre conhecimentos instáveis ou que procuram estabilidade e imagens estáveis e instáveis do passado.

Trata-se de mais uma das atividades em classe de língua estrangeira em que o aluno se confronta com a sua história legendada e legendária, como no caso da aluna Marina. Esta última começa a falar do seu pôster dizendo que ela nasceu em 1983, dia 13 de setembro, e que sua mãe a nomeou Marina porque ela queria um nome que começasse com Ma, pois a mãe se chama Marília, o pai, Massarraro, e a irmã, que nasceu em 1985, Marcela. Toda a família possui, portanto, iniciais MA no primeiro nome. Sua relação familiar está marcada pelas iniciais MA, e quando Marina revela, ao longo da entrevista, o seu apelido, ela emprega o gênero feminino à palavra “apelido” em francês. Ela diz “ma surnom est cafard”, quando a forma correta em francês seria “mon surnom est cafard”. Ao longo da sua entrevista eu faço várias tentativas, em que digo o gênero correto e tento fazer com que ela ouça que “surnom” em francês é masculino e se diz “mon surnom”. Mas nada lhe permite ouvir as minhas correções de modo a incorporá-las, e ela reitera “ma surnom” ao longo de toda a entrevista.

Além disso, ela revela não gostar do apelido, que é “barata”, nome de um inseto que se procura evitar. Apesar disso, ela o comunica aos colegas da universidade, que passam também a chamá-la de “barata”.

Para Marina, tudo o que se refere ao seu nome e à sua identidade está aparentemente marcado pelas iniciais MA. Assim, para ela o gênero em francês do apelido que substitui o nome é MA, e não “mon”, como diz a regra do uso de gênero em francês.

Nesse caso, o erro de francês, o erro em língua estrangeira, revela uma certa construção da identidade na qual, para Marina, o nome e o que o substitui está marcado pela invasão do significante MA. Dizer o gênero em francês não é para ela mais importante do que afirmar a sua filiação. “Eu sou ‘MA’” é mais importante do que dizer o seu nome ou apelido. Lembremos ainda que M e A também são as primeiras letras de “mãe” em português.

Como nomear essa atividade passional que significa o erro de outro modo, que não seja um simples não-saber lingüístico? Usamos para nomear essa atividade o recurso da semiótica das instâncias de Jean-Claude Coquet, que tem por origem a corrente lingüística do estruturalismo dinâmico centrado sobre o vir-a-ser (devenir). R. Jacobson se inscreve nesse espaço, assim como E. Benveniste, este último avançando em 1956 a noção de instância, e em seguida, em 1960, a noção de “centros”. Dando prosseguimento ao trabalho de Benveniste, ao longo dos anos 80 J.-C. Coquet coloca em evidência a noção de instância enunciante na semiótica discursiva e subjectal. O vir-a-ser, marca dessa corrente lingüística, é determinante no estudo da problemática do erro em língua estrangeira, sobre o qual pretendemos refletir nesse trabalho com a ajuda do recurso do programa Video Analyser. A instância enunciante, que ultrapassa a instância da fala, engloba mais amplamente o gestual e o corporal.

Com a semiótica das instâncias, nós estamos na presença de uma semiótica do contínuo que constrói sistemas de significação, com ou sem suporte verbal, o que a diferencia da semântica das línguas naturais. São colocados em cena actantes que são “centros”, que se deslocam no tempo e no espaço. O actante sujeito (S) se afirma como “eu” e acerta sua identidade. O actante não-sujeito (NS) não completa esse ato reflexivo (dizer-se ego). A instância do prima-actant engloba sujeito e não-sujeito. Na vida de todos os dias somos confrontados com instabilidades que nos levam, em questão de segundos, a sermos NS ou S. Nossa experiência é vivenciada pelo não-sujeito, e o ato racional da nossa reflexão, pelo sujeito. O mundo das nossas inúmeras percepções é do âmbito do não-sujeito, que sabe, vê e percebe sem poder interferir sobre essas experiências, e que não pode fazer nada em relação ao seu estado porque o não-sujeito é por excelência aquele que não pode avaliar o seu estado.

Se pensamos no caso Marina, na impossibilidade que ela tem de reconhecer em Ma um gênero muito além da sua experiência psíquica de um som que lhe dá todo o significado de sua filiação, podemos reconhecer nesse instante, quando ela diz “ma surnom”, uma vivencia do não-sujeito.

O actante sujeito avalia o objeto “mundo” positivamente ou negativamente, ele se posiciona como centro capaz de colocar o mundo exterior à distância. Tal não é o caso de Marina quando ela insiste na construção “ma surnom”. Marina não está numa relação binária, autônoma, livre, em que vemos a relação R (S, O), na qual S é o sujeito e O é o mundo. A relação R (S, O) coloca o sujeito e o objeto em relação independentemente de uma força maior, que seria um terceiro-actante.

Marina experiencia sua relação ao nome dominada por uma força interna que se constitui como um terceiro-actante imanente. Uma força que tal como a fome, a sede ou a sensação de frio, tem sua sede, isto é, toma apoio no seu corpo, pois lhe remete à origem. “MA” é para ela como um vínculo com uma experiência primeira de nomeação. Seria como se MA significasse o saber primeiro, que vem necessariamente antes da reflexão que atribui a MA qualquer saber segundo. A instância não-sujeito está inscrita numa relação ternária R (TAi, NS, O) onde TAi é o terceiro-actante imanente (força que remete à origem), NS é o não-sujeito (incapacidade de se dizer ego) e O é o objeto (mundo). O “eu” não-sujeito não permite uma real intersubjetividade e se relaciona ao mundo pelo viés da sua percepção sem distanciamento. Sua vivência perceptiva lhe tem como prisioneiro das iniciais MA, sem o distanciamento necessário que permite ver um erro de uso do gênero em francês.

No caso Marina, somos confrontados com a impossibilidade de apropriação do código lingüístico num certo ato de fala por parte de um “eu” que não estabelece diferenciação entre os gêneros. Assim, MA é o nome do pai, é o nome da mãe e também o da irmã com o dela próprio amalgamados. O “eu” do não-sujeito enuncia, mas não afirma a sua identidade. É o “eu” do gozo e não do corte, que permitiria uma diferenciação. Enquanto Marina não distingue o gênero masculino e feminino em “ma surnom”, ela está sob a égide do contínuo da sua experiência fusional familiar. No instante em que ela pudesse ouvir e incorporar a diferença entre o masculino e o feminino em francês e se estabelecesse o corte, um distanciamento seria criado. Mas isso não acontece durante a entrevista.

Na estrutura da nossa análise de dados com o programa Video Analyser estabelecemos três colunas, a terceira das quais seria a coluna do não-sujeito, que está constituída por elementos que expressam a incapacidade de falar, ou ainda os brancos do pensamento, e também, como no caso Marina, pela impossibilidade de corrigir o gênero feminino pelo masculino. Na primeira coluna colocamos transcrições da aprendizagem do francês, estruturas novas que o aluno assimila e domina, e, na segunda coluna, erros cometidos que são do âmbito do sujeito que ainda não domina uma certa estrutura de língua em francês. Temos portanto duas colunas para o sujeito e uma coluna para o não-sujeito.

As colunas referentes ao sujeito mostram possibilidades de afirmação do sujeito, em que ele constrói para si e para o mundo a sua identidade. A terceira coluna pode revelar elementos com os quais o sujeito precisa lidar para construir a sua identidade, mas nessa coluna o não há asserção de ego. O sujeito se diz “ego” apenas nas duas primeiras colunas, e a terceira se constitui como sendo a coluna do não-sujeito. Esta última é a coluna do continuum da experiência, e as duas primeiras são as colunas da retomada dessa experiência. Podemos dizer ainda que a terceira coluna é aquela que está sob a égide do gozo, e as duas primeiras colunas, do corte. A construção da identidade se faz na dimensão do corte, isto é, do descontínuo oposto ao continuum do gozo. A construção da identidade se dá pelas descontinuidades que se impõem ao continuum da experiência. No caso Marina, por exemplo, a individuação se daria se ao continuum da experiência do som MA se estabelecesse um significante ligado ao gênero e sua distinção entre feminino e masculino.

Gostaríamos de apresentar agora o caso Cíntia. Durante a entrevista, logo no início ela conta que seus pais moravam numa cidade que ela odiava. Ao dizer que ela havia odiado a cidade, ela afirma em francês: “C’est *un ville que j’ai tellement deteste” (“É ‘um’ cidade que eu detestei tanto”). Ela não se contenta em dizer uma só vez – ela repete a frase dizendo que os pais ainda moram lá e ela repete a frase no passado: “Ah... ils ont... ils sont jusqu’aujourd’hui. J’ai tellement détesté”.

Dizendo que eles estão lá até hoje, ela repete a frase “tellement détesté” acompanhada de um gesto brusco das mãos, dando muita ênfase à frase, além de usar uma entonação da língua portuguesa ao enfatizar a palavra “tellement”.

A palavra “tellement” toma proporções gigantescas e se constitui como uma figura do excesso. Dizer pela segunda vez a mesma palavra não é dizer a mesma coisa. A ênfase exagerada da palavra revela uma experiência atualizada do sofrimento experienciado nessa cidade, que ela traz para a palavra “tellement”.

Aqui o continuum da experiência do sofrimento não admite cortes, como também ela não faz a distinção de gênero para falar da cidade. O sofrimento é masculino. “A cidade” se diz em francês “la ville”, mas a experiência do seu sofrimento torna masculina a palavra: “un ville”. O masculino aparece aqui para dar mais ênfase ainda ao sofrimento, que se estabelece como intenso a ponto de provocar uma mudança de gênero na palavra “cidade”, que passa a ser masculina para Cíntia devido ao imaginário da violência do desprazer da cidade, sintetizado na entonação de “tellement”. Esta última não parece ser masculina o bastante para expressar a violência do seu desprazer. Há que se impor a palavra francesa “tellement”, o que significa tanto uma entonação fora de propósito quanto gestos que também sejam violentos. A experiência do continuum não distingue num primeiro momento “ils ont” de “ils sont” – no continuum dos sons não há corte que estabeleça uma construção da identidade em que o sujeito se diz ego. E mais além a aluna continua dizendo: “La ville s’est développée dans le chaos... dans le désordre.” Ela retoma nessa frase a palavra “cidade” com a justa distinção de gênero, e quando diz “caos” precisa dizer em português antes de dizer em francês. Quando usa a palavra “desordem” há de novo contaminação do gênero, mas desta vez parece ser o uso da língua materna que, por proximidade do significante em português, chama o gênero para o feminino, como em português (“a desordem”), em vez do francês masculino (“le desordre”). Chamamos a atenção para o fato de que a ênfase precisa ser dada em língua materna para se tornar experiência. O uso da língua estrangeira nessa frase e suas entonações apareceria aqui como corte e descontinuidade, ao passo que o uso da língua materna durante a entrevista está ligada à dimensão do continuum do gozo da experiência dita, expresso na figura passional da invasão do significante “tellement” – figura do excesso que se expressa pela entonação da língua portuguesa ao dizer “tellement” em francês.

Observemos agora o caso Reynaldo e sua experiência do esquecimento. Reynaldo conta das suas atividades lúdicas ao descrever a sua estrada da vida no pôster. Ele fala sobre algumas atividades no passado, como por exemplo ter andado a cavalo, de bicicleta e ter sempre gostado de futebol. Mas antes de dizer tudo isso ele tem uma experiência do esquecimento, ou do temido “branco”: “Je... je... je toujours... non non deu branco”, diz ele num gesto de entrega.

A experiência do esquecimento está marcada pela repetição “Je...je... je”, ou ainda “non... non...” A impossibilidade momentânea de dizer alguma coisa está marcada por repetições que mostram o continuum da experiência do esquecimento. O corte seria a lembrança – nesse caso, a lembrança que permitiria dizer, como ele faz mais adiante: “Je... je... J’ai *faire du cheval une fois. *Je suis allé beaucoup de velo. J’adore faire du velo. J’ai toujours aimé tante autante assister lês deux de football.Aqui o erro em francês é o corte, que permite se subtrair à experiência do gozo por enunciados cheios de erros em francês, mas que têm um valor muito importante de retomada do sujeito: nas frases com erros em francês Reynaldo se diz ego e constrói a sua identidade fazendo a experiência do corte.

Mas por que será que o encontro com a língua estrangeira provoca tantos abalos e o exercício da aquisição da língua estrangeira se mostra tão revelador? Precisamos lembrar que aprender uma língua estrangeira é um exercício que nos leva a solicitar as bases de nossa estruturação psíquica, e com elas “aquilo que é, a um mesmo tempo, o instrumento e a matéria dessa estruturação: a linguagem, a língua chamada materna” (Revuz, 1992). Assim como afirma Christine Revuz, “toda tentativa de aprender outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está inscrito em nós com as palavras dessa primeira língua. Muito antes de ser objeto de conhecimento, a língua é o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional. Se não se escamoteia essa dimensão, é claro que não se pode conceber a língua como um simples ‘instrumento de comunicação’”.

É, portanto, essencial falarmos em aprendizado de língua estrangeira na medida em que apontamos os obstáculos, como eles surgem e como formulamos hipóteses de que esses obstáculos constituem indícios sobre o funcionamento psíquico do sujeito, tomando essa última palavra, desta vez, por seu sentido em psicanálise.

A relação com os erros em língua estrangeira está ligada à perda e à apropriação – dois processos que tomam como base a língua materna –, isto é, a um processo de distanciamento do sujeito da semiótica das instâncias que leva à constituição do sujeito em psicanálise, além de ser a maneira como o não-sujeito da semiótica das instâncias experiencia o seu próprio distanciamento no mesmo momento em que nos familiarizamos com o estranhamento da língua estrangeira.

Devemos lembrar que aquele que suporta a língua, para o psicanalista, é o sujeito que fala. E o sujeito em psicanálise é aquele que surge no embate entre o sujeito e o não-sujeito da semiótica das instâncias. É o que aparece no interstício entre ambos. E falar é uma ação que pressupõe a presença concomitante do sujeito da psicanálise (aquele que sabe) e do sujeito das semióticas das instâncias (o que domina o sentido e se diz ego), ou do não-sujeito da semiótica das instâncias (o que experiencia o sentido e não se diz ego). O sujeito em psicanálise é aquele que surge no confronto entre o saber (distanciamento do sujeito) e o não-saber (experiência do não-sujeito).

Falar é agir e distinguir, mas é também perceber e sentir. O sujeito em psicanálise aparece no confronto de uma distinção e da percepção – das ações que se estruturam em um espaço figurado pela língua materna que Lacan chama de “Lalangue” (Lacan, 1972). Como diz Miller (1975), o inconsciente é feito de Lalangue, cujos efeitos vão muito mais longe do que o fato de comunicar, já que seus efeitos vão conturbar o corpo e a sua alma, assim como o pensamento. O sujeito em psicanálise é aquele que lida com a Lalangue e seus efeitos, e o inconsciente é uma elucubração de saber sobre Lalangue.

Lalangue é o resíduo, o que resta das pegadas dos outros “sujeitos”, isto é, a maneira como cada um, digamos, inscreve seu desejo na própria Lalangue, pois como afirma Miller é preciso ao ser falante significantes para desejar, e do que ele goza? De seus fantasmas, isto é, de ainda mais significantes. Lalangue é o “gozo do significante”.

Lembremos ainda com Miller que a tese clássica de Lacan é a seguinte: “O gozo é proibido àquele que fala como tal.” (Lacan : 181) A partir dessa tese Lacan evocava que talvez o gozo apenas pudesse ser dito nas entrelinhas. A noção de Lalangue em psicanálise faz parte do seu matema estrutural daquilo que é passível de tradução e daquilo que não é passível de tradução.

Miller conclui seu texto Ornicar (1975) da seguinte forma:

Eu direi somente para terminar que provavelmente Lalangue como tal não tem referência. É a razão pela qual cada discurso fundamental lhe inventa uma. É o que se parece (“semblant” em francês e “the semblance of” em inglês), colocado no lugar do agente. Mas é apenas para cada um uma outra maneira de fazer com que falte. A psicanálise ela mesma não seria certamente esse discurso que não seria do “semblant”. Ela toma ela mesma o ponto de partida daquilo que se dá a parecer, o objeto a. Como qualquer outro discurso, a psicanálise é um artifício. Ela é um certo modo de abordar lalangue. Seu privilégio, o da psicanálise, é como Lacan o define, é de ser o viés que tem vocação de fazer falhar os pareceres. Isso supõe que ela não exagere, porque afinal, o seu “semblant” para ela, esse é abjeção.

O conceito de lalangue, como o texto de Denise Lachaud evidencia, tem a ver também com a Lei (Lachaud, 1991). Lalangue é a língua “pas-toute”. Não poderemos jamais dizer tudo, nem toda a verdade última de um sujeito, de um texto, de um sonho, etc. Lalangue é o que se relaciona com a interpretação e que é sustentada pela repetição. Qual língua, nesse sentido, é a que pode maternar? nos pergunta Lachaud. A língua materna não é um conceito para a psicanálise, e sua pertinência é e permanece sendo aquilo que leva à interrogação, pois a língua materna nos aparece como sendo a única língua estrangeira.

Lachaud aponta em seu texto que Freud dizia que o sentido com o qual uma palavra se reveste não é o sentido da palavra no dicionário. A língua materna se perde ao ser falada.

A língua materna é a língua da falta que garante a lalangue, que é a língua “pas-toute”– a impossibilidade de traduzir tudo, de dizer tudo.

O discurso psicanalítico, segundo Lachaud, se distingue dos outros campos susceptíveis de apreender o que seja língua materna, cuja tentativa de definição e de apreensão é um fantasma que precisamente a própria língua organiza e permite. Ela é o que se dá a parecer.

No caso Marina, exposto mais acima, a impossibilidade de distinção do gênero se esclarece mais se compreendida no âmbito do conceito lacaniano de lalangue. A fala é o que faz cindir na língua, na qual tudo não pode ser representado ou nomeado. Existe o que resta. Este resíduo é a lalangue em ação, isto é, o espaço onde alguma coisa sabe.

A experiência do esquecimento no caso Reynaldo também pode ser a lalangue em ação, na medida em que ela é também expressão do interdito – assim como a grande ênfase dada à palavra “tellement” no caso Cíntia, que não encontra significado em nenhuma língua de tão desproporcional que a entonação precisa ser; que não se pode traduzir nem em língua materna mas que no entanto possui algum sentido e o transmite – algo se traduz, mas nem tudo.

No caso Marina, a palavra acidental do gênero feminino em “ma surnom”, muito além de ser um erro, é uma figura da invasão de uma experiência de lalangue em que uma palavra pode insistir invasiva como demanda, como desejo – uma palavra que exige e que deve ser incorporada na aquisição da língua estrangeira como o que se recusa ao entendimento.

Aprender uma língua estrangeira é ser confrontado com o estranhamento da língua materna, e, mais ainda, com a recusa de um entendimento que nunca se estabelece como completo. O que se traduz de uma língua para outra não está em nenhuma, e o que não se pode traduzir está em todas elas, e aquilo que dinamiza essa verdade é a lalangue em ação.

Bibliografia

LACAN, Jacques. Écrits. Seuil, Paris, 1966.

––––––. Seminário XIV. Paris: Seuil, 1966.

––––––. Seminário XXI. Paris: Seuil, 1968.

LACHAUD, Denise. La langue maternelle ou la division du sujet. In La Psicanalyse de l’Enfant. Paris, 1991.

MILLER, J. Alain. Ornicar. Bulletin Périodique du Champs Freudien. Paris: Janvier, 1975.



REVUZ, Christine. Education Permanente, n°107, Paris, 1992.





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