A construçÃo da imagem simbólica coletiva da deficiência no decorrer da história e a formaçÃo de atitudes frente à inclusão escolar



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1.5 INCLUSÃO ESCOLAR



Mediante todas as dificuldades reconhecidas pela escola e na escola, vivenciamos a precariedade da relação aluno/ professor/ escola. E isso é refletido na aprendizagem tradicional dos alunos, ou melhor, alunos que apresentam condições de bom ou relativo desenvolvimento, alunos que aparentemente deveriam apresentar resultados satisfatórios de sociabilidade e assimilação no contexto escolar. No entanto, a maioria apresenta dificuldades de convívio, comportamento, assimilação de conteúdos e entendimento do que a escola pode oferecer. É notório que a escola está envolvida por objetivos generalizados, ou seja, visa transmitir ensinamentos educacionais de forma homogênea e avaliativa. Ainda neste ambiente os alunos buscam superar-se para a melhoria de seus desempenhos, conseqüentemente sendo inseridos em conceitos de produtividade e improdutividade. Paralelamente a esses aspectos o aluno com deficiência está conquistando e reivindicando seu espaço e direito de atuação na escola. É na escola segregada e despreparada para o novo que o aluno com necessidades educacionais especiais estará dando seus primeiros passos na relação ensino-aprendizagem. Mas todos esses aspectos citados são gerados principalmente pela ausência de uma política de formação continuada capaz de promover o desenvolvimento profissional dos professores. Sabe-se da dificuldade e do desconhecimento que a comunidade escolar possui com relação a educação na perspectiva da diversidade. Segundo Amaral (1998), a discussão tanto teórica como das possibilidades práticas de superação de processos estigmatizantes do interior da escola, que se situa no contexto histórico de uma sociedade que tem se orientado pela ótica da homogeneidade entre pessoas, homogeneidade esta que, ao se colocar, repercute sobre constituição e existência de outro que seja o diferente. Ainda neste processo é identificada situação de aspectos comparativos de alunos normais com os diferentes, gerando padrões de comportamento, de aprendizagem, de sociabilidade e produtividade. Na inclusão escolar ou na sociedade deve-se assumir o deficiente, mas, paradoxalmente, vislumbrar a atuação dessa pessoa como cidadão imerso no contexto das relações humanas, relações que superem velhos preconceitos, rótulos, estigmas e mitos. Deve-se acreditar em planejamentos e estratégias para o desenvolvimento e a superação do deficiente. Conforme o Parecer CNE/CEB 17/2001, homologado pelo SENHOR MINISTRO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO em 15 de agosto de 2001. Refletindo sobre as funções da escola, não podemos focar apenas na socialização do alunado, e principalmente, do deficiente. A instituição pode elaborar planos de desenvolvimento que alcance o máximo da capacidade do aluno nos mais diferentes aspectos. Pimenta (1999) aponta para a escola a função de incorporar os alunos no processo civilizatório, garantindo que os alunos deficientes se apropriem dos avanços do conhecimento, da tecnologia e da diversidade das manifestações culturais. A escolarização tem como objetivo educacional à formação do ser crítico, autônomo e criativo. Deve haver oportunidade de conhecimento e vivências do mundo contemporâneo, culminando na transformação do sujeito e na melhoria da sua atuação na sociedade. Nesta perspectiva é esperada uma tendência na qual se coloca menos ênfase nos aspectos orgânicos e de constituição biológica da deficiência e mais ênfase nas relações sociais e na atenção educacional, mais adequada a ser fornecida pelos sistemas de ensino. Em suma, a expectativa é que dentre todos os aspectos positivos que a Inclusão Escolar estabelece, possa haver a extensão de ações significativas na vida social-cultural de todas as pessoas, sejam deficientes ou não.
1.6 RETOMANDO O FIO DA MEADA: A LEITURA E A LITERATURA INFANTIL COMO CAMINHOS FACILITADORES PARA A ARTE DE VIVER E CONVIVER

Acreditamos que a leitura de mundo, bem como a leitura oral e o discurso literário, poderiam ser apontadas como caminhos facilitadores para a difícil arte de viver. Observamos que a própria bíblia traz em seus escritos preciosas promessas para aqueles que seguem seus mandamentos escritos como: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios - 22:6). Ou ainda, numa história mais próxima e contextualizada, podemos citar D. Pedro II, ao demonstrar sua admiração pela tarefa de educar, de formar, de ensinar, de alfabetizar, ao afirmar que se não fosse Imperador, desejaria ser professor, pois não conhecia missão mais nobre que a de dirigir as inteligências juvenis e preparar os homens do futuro. Vemos uma educação dentro da escola, que vai muito além da seqüência discursiva, que acredita numa seqüência de reconhecimento político da diferença, prática da diferença, experiências comunitárias, outras diferenças/ alteridade, experiências culturais, educação e interação educativa. Portanto, devemos buscar viver diferentemente de outros tempos, que deixou mostras do que não deu certo, para que erros antigos não voltem a ser cometidos, muito menos perpetuados, visando com isso, a eterna procura de uma adequação para uma vida melhor, mais justa e mais digna para todos aqueles, aos quais chamamos de Seres e Humanos. Que façamos então do nosso destino uma escolha acertada, que de fato possamos alcançar, não ficando a mercê de uma sorte já lançada. Além disso, é preciso pensarmos mais sobre os mitos que cultivamos em nossa sociedade, perpetuados ou não por nossas práticas de leitura e contação de contos tradicionais, pois deles também dependem, o tipo de pensamento e atitudes que temos frente ao diferente, ao deficiente ou anormal, ou seja, ao que foge dos padrões preestabelecidos para nós, como sendo o modelo de normalidade. Assim, como Medina (1990), acreditamos que seja necessário conspirar e extrapolar, subverter e transcender, sair das engrenagens. Construir o novo, pois só somos sujeitos enquanto expressão de uma totalidade. Desta forma, se somos seres históricos, temos nossa própria história, percorremos um caminho sendo por ele produzidos e produtores pelas práticas do mesmo. Observamos também que a simplificação feita pela Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID) (handicaps) com relação às terminologias existentes sobre deficiência, não resolveu e nem facilitou a compreensão, muito menos a comunicação de todos com relação aos diferentes conceitos de deficiência. O fato é que uma das críticas à essa classificação, é a de que ela permanece muito próxima ao modelo médico de doenças, o qual se apóia no positivismo. Assim, o conceito de doença e de deficiência da Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID) estão muito próximos, o que implica na patente subordinação ao diagnóstico médico. Desta forma, de acordo com a proposta da Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID), de que as definições deveriam ser elaboradas por pessoas qualificadas e competentes para isso, o que acaba por indicar somente a categoria médica para tal, excluindo assim outros profissionais, a comunidade e até as pessoas com deficiências, o que remete a uma tendência ao reducionismo, uma vez que sua figura ainda encontra-se muito atrelada a estereótipos e à figura de médico. Por isso, devemos estar atentos às barreiras sociais, que não estão necessariamente relacionadas à deficiência em si, mas sim aos estereótipos, aos tipos de preconceitos e discriminações existentes. A linguagem utilizada por uma sociedade está totalmente ligada às suas condições filosóficas, políticas, bem como em sua geografia e clima. Assim, o preconceito não seria ou estaria imposto, mas sim metabolizado na corrente sangüínea de toda uma sociedade, onde o poder de dominar as pessoas e a significação do estigma, através da palavra, deveria ser reconhecido por todos. Para reverter o estigma, deveria se contextualizar a relação com nossas deficiências e com o nosso corpo, realizando mudanças não só nos termos em si, mas na gramática utilizada: adjetivos e nomes que igualam o indivíduo à deficiência. Ex: - inválido e deformado - que desacredita o indivíduo como um todo; o uso de preposições que descrevem relações e encorajam a separação entre a deficiência e o indivíduo - Ex: Um homem com deficiência; o uso do verbo na voz ativa e não passiva - Ex: Um indivíduo usando cadeira de rodas e não confinado a ela; o uso do verbo Ter ao invés do Ser - Ex: O indivíduo tem uma deficiência ou incapacidade e não ele é um deficiente ou incapacitado. Desta forma, a construção de pontes culturais seria de extrema importância para que houvesse proximidade e comunicação entre os indivíduos. A Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID) também visa permitir essa comunicação entre os profissionais, sobre o nível de comprometimento que um distúrbio ou doença possa acarretar para uma pessoa. Entretanto, o que observamos é a ineficácia das discussões sobre os rótulos, sendo restritas apenas às tentativas de renomear denominações e conceituações, não superando, contudo, as conotações e generalizações que possam estar implícitas. Portanto, consideramos que a tentativa de mudar a terminologia, por muitas vezes é desviada, sendo que muitas pessoas bem intencionadas acabam fazendo críticas umas às outras, ao invés de estarem direcionando-se para alvos mais apropriados como: as organizações sociais, as prioridades políticas, os preconceitos existentes na nossa sociedade, além de outros mitos destrutivos. Conforme esclarece D’Antino:
Pelo verbo portar, do latim portare, significando carregar, levar, conduzir. Assim penso que a expressão (esta sim) “porta” impropriedades posto que, por maiores (e mais pesadas) que sejam as necessidades das pessoas, não se constituem em objetos que devem ser carregados, levados, ou conduzidos. Melhor expressado: necessidade não me parece algo possível de ser carregado, mas no caso em questão, um direito a ser conquistado por corresponder a especificidades (D’ANTINO, 2001, p.182).
Qual seria o papel do leitor crítico ou de um crítico leitor? De acordo com o que acabamos de analisar, seria o de perceber e reproduzir conscientemente em sua alma, uma obra alheia, estando ele então, totalmente ligado à obra (subjetivamente - suas impressões). Por isso, deve esse leitor e crítico ou vice-versa, encontrar-se constantemente dentro da esfera da obra, tendo sua verdadeira interpretação sobre ela, não sendo influenciado por nada que fora escrito sobre a mesma, o que enfatizaria uma idéia de compromisso com a obra literária! Gornfeld (1972), afirma que se certo fanatismo é impossível falar, defender e encarnar a verdade, aquele que tenha que dizer algo seu, uma palavra nova, aquele que pretenda criar seu próprio Hamlet, pode ser tolerante de uma maneira objetiva unicamente no prólogo, mas não nas páginas de seu trabalho. Importante aqui salientar o fato de as obras de arte literárias (em especial a dos contos), bem como qualquer outra produção humana, trazem consigo explícita ou implicitamente a marca de seu criador, que carrega a marca de seu grupo de referência, que por sua vez traz a marca de uma cultura, e assim por diante. Desta forma, em meio a condições socioculturais tão adversas, superar as contradições sociais é algo necessário e imprescindível para combatermos as mais diversas formas de preconceito existentes, repassados e às vezes até perpetuados também pela literatura infantil (através dos contos). Entretanto, tal superação não é nada fácil, muito menos rápida. Por esse motivo, creio que cabe a nós educadores a tentativa de superação do preconceito velado, mas existente no ambiente escolar, tendo em vista mudanças de atitudes e comportamentos, muitas vezes resistentes, frente à inclusão escolar de crianças com deficiência. Acreditando que esse estudo possa vir subsidiar o trabalho de professores, profissionais da educação, pais, propomos que seja feita uma leitura crítica das obras literárias infantis, pois somente a leitura crítica pode fazer a diferença entre o perpetuar e o diminuir o preconceito. É importante ressaltar que esse estudo não representa o universo total de contos referentes ao tema, sendo apenas uma pequena amostra representativa, o que não invalida seu resultado, mas sugere uma pesquisa mais abrangente com um maior número de contos. Voltando à questão inicial deste trabalho, porém de uma maneira mais afunilada: De que maneira ou maneiras, o deficiente ou diferente, têm sido inscritos no imaginário coletivo, dentro do universo da Arte da Literatura, sobretudo na Literatura Infantil dos contos de fadas? Segundo Vovelle (1987), não existe real sem o discurso que lhe confere uma realidade específica, assim como não existe ação sobre o real sem uma representação dele. Desta forma, é a longo prazo que muitos concordam em reconhecer, com o tempo próprio da história das mentalidades, que a Literatura veicula as imagens, os clichês, as lembranças e as heranças, as produções sem cessar, distorcidas e reutilizadas do imaginário coletivo, perpetuando-as. Em toda nossa trajetória histórica, lidamos com os mais variados tipos de leitura: a de mundo, a oral, a escrita, a de imagens, a gestual, etc.; enfim, o tempo todo somos bombardeados com palavras verbalizadas, escritas ou subentendidas nas ações e reações existentes em nossos círculos relacionais. Mas o que vem a ser a Leitura e a Literatura? Não pretendemos fazer aqui nenhum estudo aprofundado de definições ou conceituações a respeito desse assunto, mesmo porque, não nos cabe tal competência, além do que não pretendemos desviar o rumo de nossa pesquisa. Procuraremos aqui fazer uma elucidação, do que consideramos pontos importantes para o desenvolvimento desse trabalho. Há muito mistério sobre a necessidade do homem em transmitir-se a si próprio, como uma forma de imortalizar suas percepções, suas ações, medos, esperanças, questionamentos e crenças. Esse mistério pode ser constatado nos milênios que nos separam das primeiras inscrições de imortalidade, feitas pelos homens primitivos nas rochas das cavernas. Interessa-nos apenas enfatizar qual o discurso utilizado nas obras literárias, bem como a qualidade interpretativa das mesmas sobre a realidade do mundo. Para isso, necessário se faz estabelecermos um recorte, do que caracteriza a obra em si (do real), bem como um recorte de como o narrador interpreta, sintetiza (na fantasia), para depois então, recorrermos ao saber do leitor - intérprete. Antes porém, é preciso sabermos como se dá a compreensão da leitura pelos olhos do leitor. Sendo o ambiente escolar um campo dinâmico, capaz de movimentar ideologias, valores e a própria democracia, acredito que a inclusão mereça seu lugar de destaque, desde que busquemos uma reestruturação dentro desse espaço, com os profissionais desse espaço, mobilizando para isso procedimentos que reconheçam e valorizem as infinitas possibilidades que abarcam o ser humano, com toda sua diversidade. No caso deste estudo, proponho um repensar sobre as práticas pedagógicas com os Contos de Fadas, sobretudo nas séries iniciais - não pretendo apregoar a sua exclusão, muito pelo contrário - mas que se tenha em vista uma revisão, um repensar dos reais valores e crenças, que cada um de nós possuímos acerca da deficiência/ diferença. Que esse repensar não fique na teorização, mas que seja convertido numa prática de aceitação, reconhecimento e respeito aos direitos da pessoa com deficiência, garantindo-lhe não somente o acesso e a permanência (como tem acontecido na maioria das vezes) - mas também e, sobretudo o direito à aprendizagem (respeitando seu tempo, suas necessidades educacionais especiais para tal). Somente assim, acreditamos que a inclusão escolar se efetivará de fato, livre de preconceitos, com o crescimento e desenvolvimento de todos, uma vez que a educação escolar é para e portodos’.




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