A construçÃo da modernidade: Brasília e a imagem do Brasil Moderno



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Encontro30.07.2016
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SILVA, Adriana Hassin
A CONSTRUÇÃO DA MODERNIDADE: Brasília e a imagem do Brasil Moderno
As imagens em nossa mente, eis a matéria e o conteúdo de nossas opiniões. Não à toa Walter Lippmann, editor do jornal americano Washington Post na década de 1950, conclui um de seus textos com tal exclamação. Revelando, em tão simples palavras, uma reflexão profunda, Lippmann nos faz pensar num conceito de mundo e numa imagem sobre este elaborada; questiona-nos, o autor, acerca do papel da imagem, na medida em que esta outorga o substrato de nossas percepções às experiências vividas. Nosso conceito de mundo se dá por aquilo que somos capazes de ver; tudo o que para nós existe, foi previamente registrado em nosso arsenal de conhecimentos e ninguém é capaz de conhecer uma determinada situação sem antes experienciá-la.

Propomos, nesta comunicação, uma breve reflexão sobre a década de 1950; em verdade, estenderemos nosso olhar, aqui, e observaremos o conceito de modernidade candente nesta sociedade. Para tanto, arriscamo-nos à observação de imagens produzidas por este mundo, de modo a compreender o mundo existente e real de então. Buscamos, assim, perceber as imagens de um mundo que se define, segundo a historiografia clássica sobre os anos 50, nas fronteiras da modernidade. Este mundo é o mundo do pós-guerra, da fundamentação da Guerra Fria, da corrida espacial, da pílula anticoncepcional, do concretismo na poesia e nas artes.

Década regida pela nouvelle vague, cantada e encantada nas rádios nacionais por Lupicínio Rodrigues, Maíza, Johnny Alf, Dolores Duran, Antônio Maria, João Gilberto, Elizete Cardoso, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, relida pelo neorealismo literário de Tristão de Athayde, Antônio Cândido e Guimarães Rosa1, a década de 1950, por assim dizer, inovou. A bossa é nova; o realismo é neo; e o mundo é moderno, enfim!

A década de 50 inovou no pensamento sócio-político, com GFreyre, RFaoro e SBHolanda2, inovou no teatro, a partir do surgimento do Teatro Brasileiro de Cultura3, da Escola de Arte Dramática de São Paulo, o Grupo Oficina, o Tablado, o Teatro Universitário de Pernambuco, o Teatro de Adolescentes do Recife, o Teatro Popular do Nordeste, criando as condições para o uso deste teatro como uma arma política, na década de 604. Inovou-se também no cinema: filmes como Um bonde chamado desejo, de Marlon Brando, Vidas Amargas, de James Dean e a presença marcante e sensual de Marilyn Monroe nas telas, contribuíam na formação de hábitos, valores e comportamentos renovados. Até a geração dos anos 50, existiu a (...) juventude para a qual restava somente o espaço do não, palavra com a qual enfrentava, a resistência da sociedade a seus anseios 5. Todavia, as mudanças destes anos 50 mudariam o estatuto de uma geração, na medida em que os heróis rebeldes, adotaram o rock and roll como hino. A música country, o blues dos guetos americanos, a revolução musical causada por Elvis Presley, redirecionaram a juventude, fazendo-a expressar, pela arte, seu descontentamento e inquietação6.

Já na imprensa, os jornais passam a carregar em si a função objetiva de veículo dinâmico de notícias e propaganda, a partir da modernização da impressão em seus aspectos gráficos e técnicas de redação. Gradativamente, a partir da década de1940, com o estabelecimento de cursos de jornalismo no Rio de Janeiro e em São Paulo, a influência francesa sobre as técnicas de jornalismo foi dando espaço para o modelo americano. Uma outra inovação a ser ressaltada foi o surgimento de títulos de consumo em escala, tais como gibis, revistas de rádio, TV e cinema, além de revistas femininas e encartes em formato de suplementos semanais, que muito além de caracterizarem, sustentaram o consumo de massa dos periódicos na década de 1950

Em se tratando especificamente do contexto interno brasileiro, a segunda metade da década de 1950 contou com o governo de Juscelino Kubitschek e toda a sua direção desenvolvimentista alinhada às demandas modernizantes internacionais. O Brasil de JK assumiu o compromisso de dar por findo o tal ciclo do atraso, encampando o projeto desenvolvimentista definido nas 31 áreas de ação apontadas no Plano de Metas. Privilegiando áreas como energia, transportes e indústria, JK capitaneou a direção modernizadora nacional.

Entretanto, tal direção modernizadora não se deu de forma descomprometida, nem tampouco aleatória. Não resta dúvidas que o projeto desenvolvimentista de JK encetava uma direção potencializadora da indústria e da modernidade nacional; tal desenvolvimento condicionava-se às amarradas de um expoente bastante significativo de progresso: Brasília.

Brasília teria sido construída para ser mais do que o símbolo de uma nova época; sua construção apontava a idéia de criar essa nova época, transformando o país. (...) a proposta de mudança da capital inseriu-se em um projeto modernizador da sociedade brasileira,(...) a face mais visível de modernidade. 7

Os simbólicos ’50 anos em 5’ tiveram uma cidade como materialização histórica: Brasília, a capital inaugurada em 21 de abril de 1960. Simboliza essa cidade o tom que o presidente da República imprimiria ao país-dinamismo, coragem, tenacidade, pioneirismo desbravador e audácia, fruto da vontade política associada ao espírito de aventura. 8
Neste sentido, segundo o projeto político vigente, o Brasil rumava para o futuro. Brasília, após inaugurada, seria o corolário da modernidade nacional. Um país moderno, industrial, pulsante em suas veias rodoviárias, tendo como coração a cidade sonhada, planejada e realizada.

Para estudarmos o desenvolvimento nacional atrelado à Brasília, elegemos duas fontes de época; nosso trabalho repousa sobre a interpretação de fontes periódicas contemporâneas ao governo JK (1956-1960), tendo como núcleo de observação duas revistas semanais de expressiva tiragem e circulação entre os anos de 1956-1960, que cobriam todo o território nacional: O Cruzeiro e Manchete. Do ponto de vista teórico, nossa pesquisa se estrutura a partir da discussão do modelo fotojornalístico de produção de notícia e, consequentemente, dos mecanismos de produção de uma determinada realidade.



Detendo-nos à breves reflexões acerca do fotojornalismo e do uso da imagem fotográfica como discurso, percebemos que, nas revistas ilustradas, o modelo noticioso de fotoreportagem vem conferir aos periódicos um apelo diferenciado. O deslocamento da função da fotografia de mera ilustração para enunciadora de um discurso, de um testemunho9, vem cumprir um papel fundamental no ciclo da produção da notícia. A fotografia detém, no modelo fotojornalístico, um espaço na discursividade da mídia, antes alicerçada exclusivamente no texto escrito. Tal refuncionalização e reapropriação do uso das imagens pela mídia acontecem na medida em que técnica e tecnologia fotográficas desenvolvem-se; imagens e texto passaram a guardar uma relação direta, dialógica.

Contudo, seria ingenuidade nossa pressupor uma composição ‘neutra’ destas imagens/texto. Cientes das possibilidades de produção das falas fotográficas, que afastaram da fotografia o estatuto de reprodutora fiel da realidade, as revistas ilustradas passam a operar com, segundo a terminologia de Gombrich, a complementariedade dos discursos verbais e imagéticos10. Assim, a fotografia passa a ser ‘vazia’ de conteúdos intrínsecos, mas permeada dos sentidos que lhe são dados a ver11. Criam-se as edições de imagem e nestas infundem, quer quando de sua produção, quer em sua apropriação ou interpretação, o texto que se desejar. Nas palavras de Helouise Costa, A fotografia é o palco, no qual se encena a história desejada. 12, sendo que o É o fotógrafo quem escreve a História atualmente. O jornalista apenas rotula as personagens. 13



Neste sentido, as fontes por nós escolhidas para esta comunicação se caracterizam, à primeira vista, de maneira bastante comprometida com as questões indicadas acima.

Selecionamos para esta comunicação dois números especiais publicados, de ambas as revistas, quando da inauguração da nova capital nacional. A Manchete, composta de 104 páginas, veiculou uma edição e histórica inteira em notícia e comemoração da inauguração, fora de sua numeração serial; já O Cruzeiro, datado de 7 de maio de 1960, publicou um número comum da revista, contendo em suas 116 páginas uma seção EXTRA, trazendo a reportagem completa sobre a inauguração de Brasília, de 32 páginas.

Tais elementos, consoante às reflexões acerca da ‘parcialidade’ de produção do material (imagem e texto) produzido e publicado, são reveladores quando cruzados com dados políticos e biográficos de 3 personagens de projeção nacional – Assis Chateaubriand, Adolpho Bloch e Juscelino Kubitschek. Quando cruzadas, estas informações nos trazem informações relevantes sobre o perfil editorial de cada uma das revistas em questão. Bloch, proprietário da Bloch Editores, empresa proprietária da revista Manchete, detinha relações pessoais e fraternas com JK, diferentemente de Chateaubriand, proprietário do império Diários Associados, que guardava relações, por assim dizer, formais com o presidente. Por uma lado, revela-nos a historiografia: por um lado, o empresário Adolpho Bloch, líder do grupo Manchete, do Rio de Janeiro, era Amigo de Juscelino, a ponto de, quando no ostracismo político, JK conservar seus laços com o proprietário das empresas Bloch onde, em cuja sede o ex-presidente tinha escritório.14. No outro extremo, lemos: (...) Assis Chateaubriand, o temível Chatô que, desde os primeiros dias, vinha mantendo em seus jornais e rádios uma feroz campanha contra a construção de Brasília. (...) Assis Chateaubriand, o inimigo número um de Brasília.15 Tal dado confirma-se no histórico das fotoreportagens sobre Brasília publicadas ao longo dos anos 1956 à 1960, quando temos 25 fotoreportagens publicadas na Manchete, contra somente 7 d’O Cruzeiro.

Consoante às relações editoriais acima expressas, um outro dado interessante de percebermos é a própria capa das duas revistas em questão: quanto ao exemplar da Manchete, ´amiga’ de Brasília, temos uma fotografia tirada da Praça dos Três Poderes, retratando a fachada da Câmara dos Deputados; evoca-se Brasília como edição histórica. Por outro lado, O Cruzeiro, a ‘inimiga’, enquadra em sua capa uma fotografia de um Juscelino sorridente, que acena àqueles que o olham. Somos capazes de compreender tal intencionalidade, na presença de Kubitschek na capa da revista, antes mesmo de uma imagem, por pequena que fosse, da capital inaugurada, a partir do cruzamento destes dados com declarações como a citada por Ronaldo Costa Couto: Assis Chateaubriand, o poderoso e influente rei da imprensa brasileira, dono dos Diários Associados, considerava a construção de Brasília “uma loucura de Kubitschek e um crime contra o país.”16 Segundo a ideologia d’O Cruzeiro, Brasília era um feito de Juscelino, uma decisão (ou loucura) individual, sobre quem toda e qualquer responsabilidade haveria de recair.

No tocante ao efetivo conteúdo das revistas, temos, somados, um total de 140 imagens fotográficas, mais as duas fotografias de capa. Deste montante, 90 imagens (64%) são assinadas pelos fotógrafos da Manchete, enquanto que as 52 (36%) restantes compõem as páginas d’O Cruzeiro. Na quantificação das publicidades da iniciativa privada veiculadas em ambas as revistas, totalizam-se 27 peças publicitárias cujos textos e/ou imagens (ilustração ou fotografia) remontam a comemoração de Brasília: 20 foram publicadas na Manchete (74%), enquanto que as 7 restantes (26%) estampam-se n’O Cruzeiro. Tal dado nos revela que, segundo a expectativa desta iniciativa privada anunciante, a Manchete contaria com um número maior de leitores do que o exemplar da O Cruzeiro referente à inauguração. Assim não fosse, não haveria uma diferença tão significativa no quantitativo das publicidades, já que todo anúncio é pago para ser lido ! Vale ressaltar ainda que, destas peças publicitárias, 3 empresas (a Fogos Caramuru, a General Motors e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais) publicam o mesmo anúncio em ambos os periódicos.

Para melhor sustentar o que estamos dizendo, elegemos em nossas revistas uma fotoreportagem que apresenta o diálogo entre texto e imagem, isto é, entre legenda e fotografia, na construção de uma idéia de modernidade vinculada à Brasília. A primeira delas, publicada na Manchete e assinada por Arnaldo Niskier, com fotografias da equipe, intitula-se A Epopéia de Brasília. Composta por 12 páginas e 11 fotografias, a fotoreportagem intenciona resgatar todo o processo de construção da nova capital. Tendo sido elaborada com grande rigor técnico para a época [título em cores, textos e legendas sobrepostos em 7 das 11 fotografias (64%), fotografias de página dupla, diagramação variada], compõe-se de 7 blocos de texto, um título, 5 subtítulos e matriz preta-e-branca.

A primeira fotografia, que abre a fotoreportagem, remonta o momento inicial do projeto de construção da capital, quando JK, Niemeyer, Lúcio Meira, Lott e Israel Pinheiro, entre outros, dão um grande passo pela construção de Brasília. Retratando um grupo de aproximadamente 25 homens, em trajes oficiais (fardas, ternos, paletós) caminham sobre um descampado do Planalto Central.

Eternizando a imagem da caminhada de tão importantes homens do cenário político nacional, o primeiro grande passo indicado na legenda, para além de aludir à imagem da caminhada, na qual observam-se movimentos de passos, dialoga com o pequeno texto introdutório da reportagem, que versa sobre os destinos de grandeza do país, revelando-se a tal complementariedade entre texto e imagem expressa por Gombrich e anteriormente indicada.



A epopéia de Brasília, inscrita como título desta fotoreportagem, detém um conteúdo semântico interessante, ao indicar a construção de Brasília como um feito louvável e iluminar seu mentor e executor, o herói Juscelino Kubitschek (segundo a fotoreportagem, em sua pessoa se reproduz em todos aqueles que o acompanham nesta fotografia publicada, uma vez que Niemeyer, Israel Pinheiro e seus companheiros ‘puseram a mão na massa’ de Brasília tanto quanto JK). Para além da expressão semântica, cumpre ressaltar também o recurso técnico utilizado na composição desta fotoreportagem, cuja apresentação mesclando texto, título, imagem, em palheta colorida (o título é em azul sobre fotografia preta e branca) e não-linear, representa uma técnica de redefinição do ritmo de leitura ainda incipiente nas publicações brasileiras.

Já as fotografias número 2 e 3 da fotoreportagem iluminam um sentido de descoberta, num misto de possibilidade e revelação do desenvolvimento BRASILiense. As legendas Aquele, sim, foi um grande dia ! Diziam que em Brasília não havia água e ela estava ali e Mal. Lott, Melo. Meira Lima e outros, com o Presidente, que ouve as primeiras impressões sobre o local em que a sede do governo será instalada se carregam, por um lado, um tom visionário, indicando uma espécie de DESTINO para Brasília, encontram consonância na apresentação de JK, em ambas as fotografias sentados. Lê-se, no subtítulo sobreposto à fotografia 3, a descoberta do planalto, e não a construção, ou invenção da capital.

Em se tratando da questão lexicográfica, um parênteses se faz interessante e oportuno. Dentre todas as 18 fotoreportagens publicadas nestas edições especiais dos periódicos, um levantamento criterioso acerca das palavras e expressões empregadas referenciando Brasília serve-nos como comprovação de nossas hipóteses.

É impressionante a profusão de adjetivos imputados à Brasília: nada menos do que 95 adjetivos atribuídos à capital da esperança, ao coração do Brasil, à cidade do ano 2000. Admirável, amena, cinematográfica, colossal, dinâmica, perfeita, excepcional, inesquecível, fantástica, extraordinária, faraônica, formosa, febril, imensa, histórica, inesquecível, maravilhosa, poderosa, possível, saudável e originalíssima, dentre inúmeras outras invocações, destacam-se com maior recorrência as qualidades amistosa, arrojada, encantadora, chique e bossa-nova (2), audaciosa, calorosa, deslumbrante, funcional e gigante (3), apoteótica (4), sonho (5) e bela (6); contudo, a maior invocação à Brasília, como não podia ser diferente, repete-se 18 vezes: NOVA. A capital do Brasil referenda-se sobre seu caráter peculiar de novidade, ineditismo, nascimento. Modernidade.

Fechando nossos parênteses e dando prosseguimento à observação da fotoreportagem, a fotografia número 4, de página dupla, permitindo ao leitor testemunhar a 1ª missa celebrada em Brasília. Destacando-se o barracão erguido para a cerimônia, uma multidão se aglomera frente ao altar (invisível à lente do fotógrafo). Da simbologia religiosa, avista-se somente uma cruz, à direita de nossos olhares.

Tal fotografia, assim como as duas imagens subsequentes (fotografias números 5, 6 e 7) referendam a opção católica assumida por Brasília, sendo consagrada à São João Bosco e tendo, como diz o próprio texto sobreposto, por plano piloto: o próprio sinal da cruz. Destacando no texto da reportagem a vastidão do território do Planalto Central, tal esforço seria necessário, uma vez que a própria amplidão da fotografia, seu enquadramento horizontal e seus planos lineares contribuem para um olhar infinito sobre a imagem. Novamente, evoca-se, ao final do texto, assim como na primeira fotografia descrita, à MISSÃO de Brasília, seu destino quase manifesto, nos verbos “proféticos” da oração: Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta Alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande Destino. (p43). Tal oração indica-nos, igualmente, a perspectiva da modernidade atrelada à Brasília na referência genérica à região como ALVORADA, como o sol que há de nascer e iluminar, trazendo luz e calor ao país...

Fotografia 8: A bela e a fera ? Não. Ela é realmente bela, mas ele há muito não é fera. O diálogo entre as personagens é fenomenal ! Ela, no mais perfeito estereótipo civilizado; ele, na mais folclórica caracterização aborígene. Mas tal diferença, segundo a legenda da própria fotografia, já é passado; superou-se a diferença cultural na capacidade realizadora do homem (p 47), e, a partir de Brasília, a unidade nacional há de reinar imperante, com os índios da tribo dos Carajás no planalto de seus ancestrais sentindo bater o novo coração do Brasil. Obviamente, um Brasil que também é deles, riqueza inconcebível (p 47) da qual eles também fazem parte.

A capital da esperança se constrói no otimismo (p 48) dos versos do poeta Cassiano Ricardo: vou-me embora para Brasília / sol nascido em chão agreste. / como quem vai para uma ilha / a esperança mora no oeste. Neste sentido, a última fotografia da fotoreportagem faz-se precisa e preciosa; JK caminha sorridente em frente ao Palácio da Alvorada, acompanhado de perto por algumas pessoas. Os candangos formam hoje uma legenda em que o espírito aventureiro se mistura à vontade de trabalhar, diz a legenda da fotografia, vertical, de página inteira, preta-e-branca. Ao fundo, a fachada do palácio, nas curvas e vidros de um projeto de Niemeyer, emoldura um cenário que, para um leitor desavisado, estaria radicalmente incoerente com a legenda inscrita. Porém, conforme dito outrora, esta fotoreportagem condensa a idéia de modernidade vinculada à Brasília, na complementariedade entre seus textos, imagens e contextos.

De que forma, então, se relacionam imagem e texto ? Onde estão os candangos evocados pela legenda da imagem? Onde está a modernidade defendida neste trabalho ?

Perceber, em uma simples fotografia, a consolidação de todos os elementos aqui apontados como relevantes à composição de um determinado discurso pode parecer um pouco econômico... Obviamente, é na totalidade da fotoreportagem aqui analisada que encontraremos pleno sentido em nossas afirmação. Entretanto, se pudermos fazer, de uma única imagem, tal qual Juscelino fez com Brasília, isto é, consagrá-la como síntese de toda uma ação, esta última imagem será a mais indicada. Nas paredes de um palácio construído, a vontade de trabalhar, não só dos candangos, mas também de Juscelino, mescla-se ao espírito aventureiro de um homem que ousou fazer de uma cidade a síntese de seu governo. Brasília construída, a obra concreta dos candangos, ausentes na imagem, mas presentes no resultado de seu trabalho, é o resultado de um governo que encarou o desafio do desenvolvimento com armas de um outro tipo: deserto, poeira e sonho são palavras, em nossas fotoreportagens, que testemunham Brasília. Ousadia, perfeição e vitória consagram o desenvolvimento conquistado por JK. Nas revistas ilustradas, o retrato da modernidade que conhece sua Alvorada...



1 Respectivamente com as obras Introdução à Literatura Brasileira (1956), Formação da Literatura Brasileira (1957) e Grande Sertão: Veredas (1956).

2 Respectivamente com as obras Sobrados e Mocambos (1957), Os donos do poder (1959) e Visões do Paraíso (1959).

3 O TBC e as contribuições sócio-culturais ocorridas neste espaço de cultura foram longamente estudadas por RIDENTI, Marcelo. Em busca do Povo Brasileiro. RJ: Record, 2000.

4 Segundo Augusto Boal. RODRIGUES, Marly. A década de 50. Populismo e metas desenvolvimentista no Brasil. SP: Ática, Série Princípios, 1992.

5 RODRIGUES, Marly. A década de 50. Populismo e metas desenvolvimentista no Brasil. SP: Ática, Série Princípios, 1992, p 14.

6 Em 1954, após a projeção de “Sementes de Violência”, cuja trilha sonora é “Rock around the clock”, cantada por Bill Halley and his comets, platéias do mundo todo provocaram tumultos que chamaram a atenção para a insatisfação reinante entre os jovens e, sob o ponto de vista da comunicação, para o poder de mobilização contido no novo ritmo. RODRIGUES, Marly. A década de 50. Populismo e metas desenvolvimentista no Brasil. SP: Ática, Série Princípios, 1992, p 15.

7 MOTTA, Marly Silva da. “Que será do Rio?”- Refletindo sobre a identidade política da cidade do Rio de Janeiro IN: Revista Tempo, v. 4, p 149.

8 BOMENY, Helena. Utopias de cidade: as capitais do modernismo. IN: GOMES, Ângela de Castro. O Brasil de JK. RJ: Record, 1991, p 145.

9 SOUSA, Jorge Pedro. Uma História Crítica do Fotojornalismo Ocidental. SC: Grifos/Letras Contemporâneas, 2000, p 25.

10 GOMBRICH, Ernest. The Visual Images: its place in communication IN: The essential Gombrich: selected writings on art and culture. London: Phaidon Press, 1996, pp 41-64.

11 SOUSA, Jorge Pedro, Op. cit., p 67.

12 COSTA, Helouise. Palco de uma História Desejada: o retrato do Brasil por Jean Manzon IN: Revista do IPHAN. RJ: 1998, v 27, p 148.

13 LACAYO, Richard e RUSSELL, George. Eyewitness: 150 years of photojournalism apud SOUSA, Jorge Pedro, Op. cit., pp 69-70. Tradução livre. It is the photographer that writes history these days. The journalist only labels that characters.

14 COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. RJ: Record, 2001, p 211.

15 NETO, João Pinheiro. Juscelino, uma história de amor. RJ: Mauad, 1995, pp 140-141.

16 COUTO, Ronaldo Costa. Op. cit., p 216

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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