A construção de uma “rostidade” da subjetividade saudosista na poética de Florbela Espanca (1894 – 1930)



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A construção de uma “rostidade” da subjetividade saudosista na poética de Florbela Espanca (1894 – 1930).

Priscilla Freitas de Farias (UFRN)



Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou Irma do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida...

Florbela Espanca1

Saudade implica na necessidade de ter novamente o objeto saudoso, por isso a normativa dos comportamentos saudosistas é a manutenção de uma ordem que desfaz os sentidos que está em transformação; o saudoso rompe com a linearidade temporal, pois traz o passado para o presente, fundindo uma nova ordem do tempo no espaço. Indubitavelmente, a memória caminha juntamente com a saudade. É interessante perceber que a memória da saudade - em muitos relatos e/ou poesias -, tem uma tonalidade cor sépia, pois expressa uma cor nem muito leve, nem muito alegre, nem carregada: expressa o aveludado do céu em dias chuvosos, as tintas de um triste poente no outono ou a indefinida opulência das noites de solidão. As imagens da saudade vêm em brumas, quanto mais no passado, mais nebulosa é a imagem. A saudade é uma dada forma de ser, de pensar, de se relacionar e de olhar o mundo através das lentes nostálgicas.

A saudade não tem uma existência em si, não tem um ser próprio, é a substância da presença do outro na ausencia; a saudade redesenha os contornos da vida, do já vivido ou apenas sonhado; a saudade é múltipla, porém há lugares comuns ao sentir a saudade. Esse sentimento de caráter poético, de dimensão imaginária e de idealização, que por muitas vezes é dado como naturalizado, na verdade, constitui-se uma aprendizagem social, pois a saudade não vem de mim, vem do passado e dos códigos que definem o que é saudade em um tempo. Nesse sentido, a saudade é uma força histórica, move os sujeitos, por isso é possível estudar esse sentimento, porque é culturamente e socialmente construído, o que implica na mudança das emoções e dos sentimentos dos sujeitos ao longo do devir histórico (ELIAS, 1987).

A saudade está diretamente ligada a um sistema de imagens2 (CORBIN, 1987, p. 10) transportadas do passado para o presente, por isso é possível seu estudo porque o comportamento saudosista é regular, constante, não aleatório - o que não quer dizer que não haja comportamentos diferentes -, segue códigos sociais, segue um padrão, uma linearidade, caso contrário, o discurso da ciência não teria como estudar os sentimentos e/ou as emoções se não houvesse uma padronização, pois o discurso científico é baseado em grande parte na generalização.

Sendo possível estudar esse sentimento, portanto, o presente escrito tem por principal objetivo fornecer uma interpretação acerca da consciência e sensibilidade saudosista na poesia de uma das mais célebres sonetistas de Portugal, Florbela d’Alma da Conceição Lobo Espanca, aquela que foi chamada de Soror Saudade, monja da saudade. Nesse trabalho, portanto, pensaremos e relacionaremos três categorias básicas: tempo, saudade e história. Propomos tomar a saudade como algo que está fundado em um dado contexto histórico, cultural e social, como um sentimento que emergiu da experiência e concepção de tempo de Florbela Espanca. Nesse sentido, propomos investigar e problematizar que relações podemos estabelecer entre a experiência subjetiva saudosista de Florbela com o contexto sociocultural português de sua época. Qual é o sentido da saudade na obra de Florbela? Qual é o sentido dado por Florbela Espanca ao conceito de saudade, ao sentir saudade?

Destarte, trataremos as obras de Florbela segundo as recomendações de Linda Hutcheon, tomando a literatura como um sistema de significação, quer dizer, discursos que carregam as coisas de sentido, que impregnam de significados o mundo. Por esse motivo, as fontes literárias têm um grande valor expressivo para a história, no sentido que tem capacidade de significar a realidade, portanto, serão encaradas como processos de “significação pelos quais damos sentido ao passado” (HUTCHEON, 1991, p. 122-123), mas sempre reconhecendo que estes campos operaram com as especificidades de cada saber.

Florbela d’Alma da Conceição Lobo Espanca, nasceu e cresceu entre os horizontes abertos da região alentejana - sul de Portugal -, cercada por generosas sombras de árvores de olivais, adornada por pomares e vinhedos, onde o ritmo de vida é semelhante aos cantos indolentes da região. Florbela cresceu em contato com os tradicionais artesanatos têxteis, com as festas populares e a saborosa culinária alentejana, mas, por outro lado, ela presenciou as situações mais dramáticas da região, testemunhou a pobreza, a fome, a sede e a dor, sem falar que presenciou um dos maiores movimentos de massa emigratória no início do século XX.

Florbela cresceu em meio a uma atmosfera de incerteza e de crescente pluralismo, de pessimismo e de decadentismo, marcada por um contexto de grandes dificuldades políticas e econômicas que alastrava em todo país, assinalada pelo medo, miséria e abandono. A monarquia portuguesa era alvo de críticas devido à incapacidade de resolver tal situação: faléncia de bancos e fábricas, escassez de alimentos, altos impostos, inflação e péssimas condições de vida tanto no campo quanto na cidade. Até que em 1908, na volta de uma estadia em Vila Viçosa, D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, foram assassinados em pleno Terreiro do Paço. De um só golpe, decepavam a monarquia portuguesa. As dificuldades econômicas foram aproveitadas pelo Partido Republicano e, paulatinamente, foi conquistando adeptos, antecipando a queda da monarquia e a implantação da República no dia 5 de Outubro de 1910.

No mundo moderno, especificamente no final do século XIX e início do século XX, nada se firmava seguramente, sobretudo, uma crença para si e para tudo ao redor; vivia-se o hoje, o agora e o amanhã, mas nunca o depois de amanhã, pois absolutamente nada era inabalável, nada era inexorável. O desprezo e a destruição marcavam esse período obscuro em que os sujeitos tentavam a todo custo conservar o antigo e não deixar esvair o novo que mal compreendiam. Era um período em que os sujeitos estavam se acostumando aos novos valores impostos pela República - a pátria, a bandeira, o cientificismo, etc -, era um novo ponto de partida, onde, dali, tudo poderia ascender ou descender em relação à vida, à cultura e ao homem.

Os sujeitos modernos eram vítimas da inquietação por um fenômeno exterior e interior, eram vítimas de uma sociedade esquizofrênica que submetia o indivíduo a um processo de despersonalização, a uma sistemática dissociação do eu. Uma multiplicidade de sensações angustiantes perpassava essa realidade complexa e confusa. Nesse cenário desordenado, as subjetividades se revelavam cada vez mais desterritorializadas, cada vez mais distantes da identificação e classificação das tradicionais forças normativas e, como efeito desse processo, houve uma transvalorização dos códigos de valores imperantes. Era um período de conformação de novas subjetividades e, portanto, um período de redefinição do sujeito, cofigurando novas dinâmicas culturais e posicionamentos políticos, econômicos e religiosos.

Nesse sentido, Florbela foi contemporânea dessa crise social, civilizacional e subjetiva, ressentindo-se de uma cultura que põe em evidência os traumatismos sociais, resultando na incapacidade de viver nessa realidade e, consequentemente, a necessidade de escapar para o mundo do imaginário, procurando transcender-se através da literatura. Frente a essa total degeneração social, as experiências de Florbela foram conduzidas a um arroubamento de espírito, atingindo um estado de enfermidade, de inércia ou do inconsciente coletivo do medo à realidade, extremamente acentuado pelos acontecimentos e estranhamentos da época. A sua linha de conduta imaginária encontra nesse vazio, a disposição para a neurastenia; Florbela carregava uma apatia para com a vida e parece-nos carregar uma dolorosa tormenta fechada a sete chaves, parece-nos carregar dentro de si infinitos fantasmas que a sufocavam, provocando um grande vácuo do pessimismo e da decadência potencializada pelo niilismo3 existencial.

Como resposta ao vazio de uma sociedade em degeneração, jovens poetas refugiaram-se na cultura, na transcendentalidade da arte e da poesia para só assim regenerar seu povo. Ao mesmo tempo em que era fundada a República, surgiu o movimento da Renascença Portuguesa, em 1914, encabeçado por Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, como um projeto de (re)encaminhar Portugal aos tempos áureos de um passado glamoroso de muita pujança, fundamentando numa filosofia mitológica genuinamente portuguesa, em que a saudade e o neo-sebastianismo era a principal linha de conduta dos poetas.

Levando em consideração que a literatura é de fato um importante elemento do patrimônio cultural e artístico de um povo, podemos dizer que há uma relação muito estreita entre a produção cultural e literária do início da República em Portugal com o contexto histórico do país, considerando que a literatura daquele momento caracterizava uma época muito conturbada, marcada pela mudança, pelo medo e constante insegurança de um futuro vazio, na qual Florbela estava inserida. Podemos dizer, então, que Florbela teve uma forte influência dessa literatura saudosista emergente no início do século XX, na qual ela construiu toda sua poética encima da saudade, dando-lhe um significado muito singular ao sentir saudade.

O primeiro projeto de poesia de Florbela foi um manuscrito intitulado por Trocando Olhares4, escrito entre 1915 e 1917, no qual podemos observar transparecer a propaganda nacionalista em evidência no momento, suas poesias carregam traços muito marcantes do sebastianismo e do lusitanismo idealista saudosista. No entanto, de maneira alguma Florbela se limitou à saudade politicamente engajada; ela se relaciona com a saudade de uma forma muito peculiar e muito própria da sua personalidade complexa. Dois anos após a produção do seu primeiro manuscrito, após um infeliz aborto involuntário, envolvendo-a numa crise emocional, num imensurável martírio consigo mesma, eclodindo numa crise matrimonial, Florbela Espanca publica, efetivamente, seu primeiro livro intitulado Livro de Mágoas5: livro de sombras, de ressentimentos, de amarguras, de desgosto e de saudades. A saudade tem a cor da morte, da palidez, é sinônimo da dor. A saudade está relacionada diretamente com a derrocada de um sonho, saudade de um sonho6:

“Amei-te muito, muito! Tão risonho

Aquele dia foi, aquela tarde!...

E morre como morre todo o sonho

Deixando atrás de si só a saudade...


E na taça do amor, a ambrosia

Da quimera bebi aquele dia

A tragos bons, profundos, a cantas...

Pra que morreste, ó sonho?!”7


Claramente Florbela sente saudade de um sonho que nunca realizou, sente saudade de um grande amor que ficou no plano onírico, no mundo da quimera; e que aquele sonho, aquele desejo, consubstancia-se e realiza-se como saudade. Florbela sente um imenso ermo por um amor que nunca teve, enquanto que seu passado estava coberto de frustrações que destroçavam seus sonhos, sonhos que foram amortalhados e envolvidos à luz de uma saudade. Para Florbela, a vida é uma máquina destruidora de sonhos, cruelmente degola um a um. Ela sofre pelos filhos que nunca teve, sofre pelos seus amores nunca concretizados, sofre por ela não ser quem queria ser; esses desejos, idealizações e sofrimentos são transformados em uma saudade angustiada, quer dizer, a saudade tem um forte impacto na forma de Florbela se relacionar com tudo ao seu redor, tendo devaneios sobre a própria saudade:

“Doente. Sinto-me com febre e com delírio

Enche-se o quarto de fantasmas. ’ma visão

Desenha-se ante mim tão branca como um lírio

Debruça-se de leve... Estranha aparição!
É uma mulher de sonho e de suavidade

Como a doce magnólia florindo ao sol poente

E disse-me baixinho: “Eu chamo-me Saudade!

Venho pra levar-te o coração doente!”8


Vejamos como Florbela ressalta a saudade com letra maiúscula, ela cria uma entidade para a saudade, ela personifica a saudade em forma de mulher: uma mulher de sonho, idealizada, uma mulher pálida, que simboliza a majestade, a inocência, a paz e, até mesmo, a saudade. Esse personagem da Saudade vem para levar seu coração doente, vem para arrancar a dor e o sofrimento de um coração em enfermidade, prometendo deixá-la apática no sofrimento. Florbela tem devaneios em torno da saudade, como se tivesse viciada na eternização das tristezas: morte, amor frustrado e saudade. Seu espírito niilista toma uma queda nas afetividades vácuas da saudade.

Nesse período, Florbela estava cursando a Faculdade de Direito em Lisboa, envolvendo-se cada vez mais nos ciclos de discussões literárias. Assim, em meio a esses grupos literários, Florbela conhece Américo Durão – poeta e escritor português –, com quem não só constrói uma afetuosa amizade, mas que a influenciará em suas obras. Destarte, em meio aos debates acadêmicos e às desilusões de mais um casamento falido, Florbela termina seu segundo livro em 1922, intitulando-o inicialmente por Claustro das Quimeras, no entanto, pelo fato de Alfredo Pimenta9 ter publicado no mesmo período um livro intitulado por Livro de Quimeras, Florbela alterou o título para Livro de Soror Saudade10, provavelmente inspirado no soneto que seu amigo Américo Durão fez para a poeta, no qual apelidava Florbela de Soror Saudade:

“Irmã. Soror Saudade, ah! se eu pudesse

Tocar de aspiração a nossa vida,

Fazer do mundo a Terra Prometida

Que ainda em sonho às vezes me aparece!”11

Sem saber, Américo Durão cria indiretamente uma identidade para Florbela, cria um território na “Terra Prometida”, um lugar idealizado muito próximo ao sonho. Confusa e perdida, sem uma definição para si, ao ser chamada Soror Saudade, Florbela se encontra, acha uma referência para si, encontra uma territorialidade subjetiva para habitar, encontra um rosto. Como prova disso, Florbela faz alusão da poesia de Américo Durão citada acima, na primeira página do Livro de Soror Saudade e, em seguida, dedica ao poeta uma poesia intitulada por Soror Saudade:

“Irmã Soror Saudade, me chamaste...

E na minh’alma o nome iluminou-se

Como um vitral ao sol, como se fosse

A luz do próprio sonho que sonhaste.
Numa tarde de Outono o murmuraste;

Toda a mágoa do Outono ele me trouxe

Jamais me hão-de chamar outro mais doce;

Como ele bem mais triste me tornaste...


E baixinho, na alma de minh´alma,

Como bênção de sol que afaga e acalma

Nas horas más de febre e de ansiedade,
Como se fosse pétalas caindo,

Digo as palavras desse nome lindo

Que tu me deste: “Irmão, Soror Saudade”.”12

Percebe-se que ela encarna imediatamente esta identidade de devota da saudade, pois este nome que designa um lugar de sujeito daria expressão à sua subjetividade saudosista. Dessa vez, Florbela não só vê a saudade como uma entidade, mas ela mesma passa a se definir através da saudade, assumindo o lugar de Soror Saudade: monja da saudade, aquela que se dedica religiosamente à saudade, aquela inteiramente devotada à saudade. Florbela constrói para si um rosto, aquilo que Deleuze e Guattari chamaram de rostidade, simula uma face para se apresentar no mundo:

“Logo pela manhã muito vaidosamente pedi um espelho para me ver. Fiquei contente: muito pálida, com boca muito pálida, com umas grandes olheiras roxas, a cabeça envolvida com ligaduras brancas, eu era mesmo, mesmo... Soror Saudade!

E, com uma escandalosa trança preta aparecia a perturbar um pouco a grande religiosidade da minha pessoa, pedi que a escondesse bem. As monjas tem o cabelo cortado, pois não tem? Riram-se da minha infantilidade e talvez me chamassem doida, mas eu fiquei contente porque então é que eu era mesmo, mesmo igual a Soror Saudade.”13

Segundo Deleuze o rosto é uma construção social que se distribui em torno de um sistema muro-branco-buraco-negro, onde se organizam os traços de rostidade. O rosto é uma superfície, um muro-branco sobre o qual se inscreve signos e redundâncias, onde se projeta um significante, onde se constrói um rosto que é a nossa fronte, nossa apresentação, nossa identidade, como nós nos representamos para a sociedade. O buraco negro, por sua vez, inscreve a consciência, a paixão e a subjetivação sobre estes significados absorvidos (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p. 32). Como bem vimos há pouco, Florbela desenha para si um rosto de Soror Saudade, ilumina-se um rosto da saudade nela e, assim, cria uma subjetividade saudosa para si. Ela faz um cosmo, um universo de significação para construir um rosto para si sobre o muro-branco, rosto que se codifica e se espalha para além dos sentidos, espalha para os objetos (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p. 35). O rosto da saudade de Florbela se recodificada no pôr do sol e/ou nas noites solitárias, pois ela cria códigos e imagens que simbolizam a decadência, o declínio, o ocaso, o término e a morte, que estão diretamente relacionados a esses fenômenos e à sua concepção de saudade, por isso se materializam quase ficcionalmente no pôr do sol e no taciturno do anoitecer.

Em uma carta direcionada a Américo Durão, amigo de estudos já citado anteriormente, Florbela fala amargamente dessa saudade que ela não tem:

“...eu não tenho recordações. Ninguém guarda lembranças do que profundamente despreza. Nunca mais falaremos disso, quer? Que estas palavras bastem: sofri porque não sou leviana nem fútil. Para me salvar, meu amigo, imitei a célebre frase de Danton: Para salvar a França ele gritou bem alto <> Não me lembro mais de nada. Nunca mais falaremos disso, quer? Eu não tenho nada, nada, nada a prender-me no passado, como no presente.”.14

Florbela tem saudade de saudades que não tem, porque ela despreza o passado, um passado obscuro que só provocou angústia, que só ressuscita mágoas, assim, ela se protege negando o passado, por isso sente saudade de algo abstrato, quimérico, não do passado como foi, mas do passado como poderia ou deveria ter sido, por isso a saudade é sentida de uma forma tão dolorida. Ela afirma não ter saudades devido a um passado conturbado, um passado marcado por crises e atravessado por tristezas, o que reforça a ideia dela ter uma saudade do que não houve, do que não aconteceu, ter saudade dos sonhos, dos sonhos com o que ela não teve e gostaria de ter tido ou sido.

Florbela foi aquela que, com seu espírito profundo e paradoxal, passou pelo mundo sem conseguir se compreender, sem conseguir se definir; foi aquela atormentada, intangível, implacável e intocável. Mas, por outro lado, foi uma mulher corajosa e sincera consigo mesma. Seus escritos são os maiores testemunhos de que Florbela nunca renegou suas convicções políticas, ideológicas e sentimentais. Uma mulher que não silenciou o que pensava, muito menos o que sentia, pelo contrário, seus escritos fornecem imagens reconhecíveis dessa realidade que viveu. Em toda sua obra, a saudade angustiada do sonho tombado, a fantasia candente e geralmente frustrada, Florbela se faz falar. Em suas linhas expressivas uma mulher malfadada e solitária, no seu olhar uma mulher vulnerável, conturbada e assustada com o novo e com as incertezas.

Ao longo de toda a sua vida, especialmente entre a primeira década do século XX até final da década de 1920, existiram fatores consideráveis que nos levaram ao entendimento e a uma explicação para Florbela Espanca ter uma relação tão frustrada e angustiada com a saudade - uma vida amorosa completamente conturbada, por ter sido violentada e humilhada por um de seus maridos, por perder dois filhos que ela tanto desejou, por se sentir rejeitada não só pela família, mas pela sociedade, por sofrer com os códigos religiosos e com os modelos sociais -, enfim, as tantas decepções para com a vida levou Florbela transvestir a máscara da Sóror Saudade, passando a viver no claustro da saudade, onde conseguia lidar com seus sofrimentos, perdas e dores.

Os escritos de Florbela estão aferrados não só as suas experiências passadas quanto ao tempo presente, por isso desabafa constantemente que se sente oprimida pela cultura presente, questionando o moralismo, o cristianismo e o patriarcalismo. Sua alma niilista se apega a dor do vazio da saudade e da angústia que esse sentimento provoca, aferra-se a sensação de um coração magoado. Ao mesmo tempo em que sente uma saudade da ausência de um objeto indefinido, esta saudade parece por momentos realizar seus sonhos malogrados.

A saudade de Florbela não é nostálgica, em nem um momento ela deseja voltar e reviver o passado, porque ela sabe que tudo mudou, a sociedade mudou, mas, sobretudo, ela mudou, ela deixa claro em seu diário que não sente a mesma energia, não sente mais aquela euforia de viver; o seu olhar, não tem o mesmo brilho de antes, suas utopias foram sugadas pelo tempo. Florbela tem consciência que nada seria o mesmo, por isso, acredita que não vale a pena reviver as peças do tabuleiro do quebra cabeça do passado. A saudade de Florbela é um refúgio de perfeição, é uma idealização do que poderia ter sido e não foi, o que pode ser visto como um desacerto, um contratempo com a vida, por isso, a saudade é sentida com angústia e sofrimento, tem tons fúnebres e acinzentados.

Notas

ESPANCA, Florbela. Eu. In: Sonetos. 15ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010, p. 27.



2 Um conjunto e/ou arquivo de imagens que rege e conforma nossa subjetividade psicológica cotidiana. Nesse sentido, a saudade - que trabalha com a ausência do objeto saudoso - está diretamente ligada a uma determinada imagem que possibilita remontar mentalmente o passado no presente.

3 Segundo Nietzsche, o niilismo seria fruto da desvalorização universal dos valores, da derrocada da moral cristã, a medida que os sujeitos voltavam-se contra a hipocrisia da Igreja Católica, questionando toda interpretação cristã do mundo

4 O manuscrito Trocando Olhares foi comprado pelo empresário Rui Guedes que, muitos anos depois da morte da autora, publicou em Obras Completas de Florbela Espanca.

5 O Livro de Mágoas é publicado sob a direção de Raul Proença, jornalista e escritor português que integrou não só a Renascença Portuguesa, como também o grupo fundador da revista Seara Nova (1921).

6 Exemplos de poesias com temática da saudade do sonho: Filhos (p.74), Desejo (p.9) e Nunca mais (p. 97).

7 ESPANCA, Florbela. Balada. In: Trocando Olhares. São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 114.

8 ESPANCA, Florbela. Visões da Febre. In: Trocando Olhares. São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 86.

9 Historiador, poeta e escritor portugués de posturas autoritarias, simpatizou com o integralismo Lusitano e, posteriormente, assumiu-se como salazarista.

10 TORRES, Maria Ester (prefaciador), [S.D], p.16 – 17.

11 Publicado no jornal O Século, no dia 27 de dezembro de 1919.

12 ESPANCA, Florbela. Soror Saudade . In: Sonetos. 15ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. P. 59

13 Carta de Florbela Espanca para Américo Durão. Vila Visoça, 5 de janeiro de 1920

14 Carta de Florbela a Américo Durão de 05-01-1920.

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