A construçÃo do mito do fundador do estado do tocantins (1988 – 2002)



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A CONSTRUÇÃO DO MITO DO FUNDADOR DO ESTADO DO TOCANTINS (1988 – 2002)
Patrícia Orfila Barros dos Reis

Universidade Federal do Rio de Janeiro



patriciaorfila@yahoo.com.br

  1. O mito e seus conceitos

Para o pesquisador Luis Felipe Miguel (1994), em sua tese Em Torno do Conceito de Mito Político: Uma Análise a partir da Campanha Eleitoral Brasileira de 1994: “Os mitos enquanto lendas, narram as origens, já os discursos políticos, em vez de narrarem as origens, muitas vezes narram o futuro.”

Marilene Chaui (2001, p. 9) entende o mito não só no sentido etimológico do termo (mythos – narração pública de feitos lendários de uma comunidade), mas também em sentido antropológico, como uma espécie de narrativa utilizada para explicar, entender, ou ainda justificar determinada realidade, solução imaginária para tensões, conflitos e contradições “que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade.”

Mais próximo do que trata este artigo são os questionamentos de José Murilo Carvalho no livro Formação das almas. O imaginário da república no Brasil, por exemplo: Que dizem sobre a história de um país os monumentos erguidos em praça pública? Ou as bandeiras e hinos nacionais? Ou, ainda, caricaturas e charges tiradas das páginas de um jornal? Tais recursos nos ajudam a decifrar a mitologia e a simbologia de um sistema político. Mitologia, no mais elevado sentido da palavra, significa “o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual.” (CASSIRER, 2006, p. 19)

Este artigo trata do mito político criado em torno da figura de Siqueira Campos, cujos discursos e práticas remetem ao futuro do novo Estado do Tocantins, a criação da capital Palmas, dos prédios e monumentos construídos na principal praça da cidade, dos artistas contratados para retratar a historiografia tocantinense e responsáveis por mitificar a imagem de Siqueira Campos em painéis e murais dos prédios públicos. Mas também remete ao passado quando a figura simbólica de Theotônio Segurado1 e de Juscelino Kubitschek aparecem para dar legitimação à imagem de Siqueira Campos.

Watt (1997, p. 16) afirma que mito é “uma história tradicional largamente conhecida no âmbito da cultura, que é creditada como uma crença histórica ou quase histórica, e que encarna ou simboliza alguns valores básicos de uma sociedade”. Neste sentido, creditou-se na figura de Siqueira Campos a liderança no processo de luta pela separação do norte de Goiás, considerada pobre e atrasada quando comparada ao sul, embora os movimentos em prol da separação tivessem vindo de diversas lideranças políticas e estudantis agregadas. É notável como a imagem de Siqueira Campos como pioneiro-construtor do novo Estado está impregnada no imaginário popular, a ponto de muitos o denominarem o criador do Tocantins.

Para Miguel (1997), o mito é fruto, menos ou mais refletido, de uma estratégia política. O emissor do discurso o escolhe confiando em sua utilidade. O mito é também um produto coletivo; cabe estudar as condições de sua apropriação individual (ou por um grupo). O discurso mítico está inserido em um meio social no qual já existe. Para Chauí (2001, p. 8), por exemplo:

Os brasileiros construíram, sobre si mesmos, formas de mitificação das representações que têm de si: o índio corajoso, os negros estóicos e os bravos e melancólicos portugueses cuja mestiçagem produziu, entre outras coisas, o samba. O mito fundador é, dessa forma, compreendido como aquele que explica a origem ou a fundação de determinado povo e este é eternizado pela sua constante resignificação a cada momento da história de um povo.

Chauí mostra algumas crenças generalizadas sobre o Brasil, como por exemplo: o Brasil é um dom de Deus e da Natureza, que tem um povo pacífico, ordeiro, generoso, alegre e sensual, mesmo quando sofredor, ou ainda que é um país sem preconceitos.

No caso de Palmas, é sobre o planejamento desta nova capital e aos acontecimentos relacionados à criação do Estado que será abordada a construção do mito do fundador do Tocantins: Siqueira Campos. A figura deste político tem sido fixada na historiografia tocantinense como o “fundador” Estado, desde sua criação em 1988, pela Constituição Federal. A imagem de pioneiro-construtor vem sendo cotidianamente moldada desde o nascimento ex-nihilo (a partir do nada) de Palmas e intensificada nos monumentos da cidade, nos prédios públicos, escolas, museus, e citações e aparições na mídia local.

Siqueira Campos nasceu em Crato, interior do Ceará, em 1928 e é oriundo de uma família de migrantes que morou na Amazônia, onde seu pai trabalhou como seringueiro, morou também no Rio de Janeiro e trabalhou neste período no Partido Comunista em sua antiga sede na no bairro da Glória. Segundo ele: “Convivia com João Saldanha, Oscar Niemeyer, Mario Martins e eventualmente com o próprio Prestes.” (ACAMPORA, 2004, p. 169). Participou da campanha de Juscelino Kubitschek e posteriormente mudou-se para a cidade de Colinas do Tocantins (1963), foi Presidente da Câmara dos Vereadores de Colinas (1966), Deputado Estadual, Deputado Federal (1972 a 1988) e Governador do Tocantins por três vezes (1989 – 1991/1995 – 1998/1999 – 2003).


  1. A construção ex nihilo de Palmas

Logo que o Tocantins foi criado, rápidas decisões políticas foram tomadas para a escolha da localização da nova capital. Todavia, poderia a nova capital do Tocantins ter sido instalada em uma cidade já existente. Algumas cidades como Araguaína, Gurupi e Porto Nacional teriam condições de tornarem-se capitais, por serem cidades mais estruturadas. Porém, a nova capital foi construída ex nihilo, por quê?

As cidades de Araguaína, Gurupi e Porto Nacional possuíam certa liderança na economia do Estado e disputavam a vaga de capital provisória, foram muitas as discussões que tinham como pano de fundo interesses de forças políticas locais, mas, por ‘decisão’ do Presidente da República José Sarney (decreto n° 97.215 de 13/12/1988), Miracema do Norte (que mais tarde passou a se chamar Miracema do Tocantins), que não estava na disputa, foi a escolhida, tornou-se a capital provisória, enquanto a nova cidade seria gestada “do nada”, em posição centralizadora no mapa do Tocantins. O discurso dos gestores era de que a localização escolhida para Palmas representava um ponto de convergência relevante da gestão político-administrativa do Estado, estando estrategicamente localizada no centro geográfico de Tocantins.

Através dos tempos, e na maior parte das culturas, a posição central tem sido utilizada para exprimir perceptivamente o divino, ou algum alto poder. O deus, o santo, o monarca, vivem acima das tensões e dos esforços da multidão que tudo esmaga. (ARNHEIM , 1990, p.149)

Para os gestores, a cidade foi planejada como ‘impulsora’ do desenvolvimento igualitário de todo o Estado, através da articulação de suas atividades e dos diversos espaços urbanos ou rurais. Através dessa medida geopolítica, pretendia-se a ocupação do território, tanto da margem esquerda quanto da direita do rio Tocantins, de modo a estimular o desenvolvimento sócio-econômico de toda a região. (CERQUEIRA, 1998, p. 44). Sobre esta polêmica questão de localização Siqueira Campos afirma:

Meus adversários políticos são adversários do Tocantins. Não temos nenhuma cidade com infra-estrutura para sediar uma capital. Você percebe as dificuldades que temos com Miracema. Sei que todas as cidades querem sediar a Capital e isso é muito positivo porque demonstra nosso ânimo e nossos desejos de desenvolvimento, mas a nova cidade está planejada como uma das alavancas para o desenvolvimento do estado. Ela está situada geograficamente no ponto mais central de nosso território e, na margem direita do rio, a região mais carente de investimentos. Está colada em Porto Nacional, nossa cidade guardiã do patrimônio cultural pela luta de independência, está também nas proximidades da futura usina de energia elétrica, que formará um vasto lago dimensionando a paisagem e assegurando qualidade de vida à população. (ACAMPORA, 2004, p. 169)

Os argumentos do governador para a construção do novo estão apoiados, sobretudo, no discurso de Juscelino Kubitschek para a construção de Brasília, Nota-se no trecho que segue:

Eu vivi a construção de Brasília e acredito na política de urbanização como propulsora de desenvolvimento, como forma de expansão de fronteiras de exploração econômica. Veja bem quantos novos investimentos serão possíveis aqui. Quanta gente, quantos investidores que poderão crescer com mais democracia, sem a competição dos grandes grupos varejistas e industriais, desconcentrando o progresso do sul para o interior do Brasil. Foi esse processo que Juscelino teve coragem de iniciar e nós vamos dar continuidade e vamos transformar o Brasil. Você imagina quando tivermos a Norte-Sul. Isso vai ser uma nova revolução econômica no país. O Brasil vai mudar até culturalmente. Quando o norte for desenvolvido estaremos mais próximos de parceiros como Peru, a Bolívia, as Guianas, a Venezuela. Vamos poder exportar a baixo custo para a Europa pelo porto de Itaqui no Maranhão.(ACAMPORA, 2004, p. 169)

Mas ainda cabe aqui uma questão fundamental: porque criar uma nova cidade? Uma nova cidade é acima de tudo um forte símbolo e um instrumento político valioso, uma obra de considerável alcance e um acontecimento histórico marcante, este seria, por tanto, o grande motivo para a criação do novo.

Para realizar tais objetivos, Siqueira Campos reedita antigas práticas e as utiliza como instrumento para a realização de seus ideais políticos e construindo desta forma também o mito. Uma das práticas é o projeto urbanístico da nova capital, realizado pelo escritório goiano GrupoQuarto2 a convite do governador. Neste mesmo sentido, as referências à Capital Federal e seu idealizador Juscelino Kubitschek são continuas. Para Marx (1958, p. 8):

Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

As palavras de Marx aparecem aqui mais para uma reflexão, do que por gratuita ironia, afim de que se demonstre como, de certa forma, Palmas representa uma ‘paródia’ de Brasília ou de Siqueira Campos e Juscelino Kubistchek. As práticas que serão mostradas neste sentido configuram também o que Hobsbawm e Ranger definiram como ‘tradições inventadas’.

A tais práticas citadas se dá o nome de ‘tradições inventadas’, compete a elas um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas, de natureza ritual simbólica, que visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, implicando, portanto, no estabelecimento de uma continuidade em relação ao passado. (HOBSBAWM; RANGER, 1997, p. 9).


Vejamos alguns pontos: se em Brasília houve a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), em Palmas houve a Comissão de Implantação da Nova Capital (Novatins), ambas responsáveis pela gestão de recursos e construção da cidade. Ainda nas palavras de Marx (1958):

A tradição de todas as gerações mortas pesa como um sonho mau no cérebro das gerações vivas. E exatamente quando parecem engajados na revolução, na criação de algo inteiramente novo [...], os homens ansiosamente conjuram os espíritos do passado, tornam de empréstimo seus nomes, seus slogans de batalha, suas fantasias, para apresentar a nova cena da história mundial sob o disfarce de um tempo venerável e sob uma linguagem de empréstimo.

As ‘lembranças’ e ‘inspirações’ à Brasília se estendem às associações de Siqueira Campos a Kubistchek, muitas vezes em emblemáticas situações, como em fotos oficiais muito similares. Uma é bastante marcante e mostra Juscelino sobre um trator, simbolizando a construção da nova cidade. Siqueira Campos aparece em cenário semelhante na inauguração de Palmas (Fotos 01 e 02). Outros registros semelhantes são feitos quando empresários e autoridades estrangeiras visitam o canteiro de obras dessas cidades. Há diversos registros, também, junto aos operários.








Foto 01: Siqueira Campos dirigindo um trator na Inauguração de Palmas (1989).

Fonte: Casa da Cultura (2009).

Foto 02: Juscelino Kubistchek de co-piloto em um trator que participava da derrubada da mata original. (1957)

Fonte: MANCHETE (2001)

Nota-se, ainda, a repetição da história na imagem de pioneiro-construtor que Siqueira Campos tenta fixar. Ele utiliza o repertório de Kubitschek, como por exemplo: “o projeto de levar a modernidade aos sertões, através da ocupação de ‘desertos populacionais’ e da expansão do mercado nacional a regiões desintegradas do fluxo da economia de mercado.” (SOUZA, 1995, p. 59)

Um episódio simbólico nos reporta à inauguração de Goiânia, Brasília e Palmas, por exemplo, onde o Cruzeiro é um ícone reincidente, é junto a ele onde se realiza a Primeira Missa, o ‘batismo espiritual’ da cidade vindoura. Mas é preciso retomar o processo primeiro, que nesse caso remete-se a Primeira Missa celebrada no Brasil em 1500, rezada pelo Frei Henrique Coimbra, relativa ao ‘Descobrimento do Brasil’. (Fotos 03, 04 e 05)

O que entende-se a respeito destas práticas é um evidente anacronismo, pois a Primeira Missa no Brasil nada tem a ver com a inauguração dessas cidades novas, a não ser por tornar-se um poderoso signo que será utilizado como parte da história daquele lugar, tornando-se também um ‘lugar de memória’, que perpetuará a intenção do seu fundador, visto que o Cruzeiro muitas vezes é preservado como monumento oficial da cidade. Tais práticas se sustentam em ações passadas, de onde se extraem símbolos capazes de legitimar as ações do presente, como se ali estivessem desbravando novas terras e tomando posse do lugar. As imagens falam por si.






Foto 5: Primeira Missa de Goiânia.

Fonte: Teles (2005).

Foto 03: Primeira Missa em Palmas (1989)

Fonte: Jornal do Tocantins (20/05/2000).

Foto 04: Primeira Missa de Brasília (1960)

Fonte: Revista Brasília (1960).

O Cruzeiro (Foto 03) permanece na Praça dos Girassóis, em Palmas, até hoje, simbolizando a primeira missa, que aconteceu dia 20 de maio de 1989, por ocasião da criação da nova capital e onde, aproximadamente, dez mil pessoas estiveram presentes.

A missa foi rezada em torno de uma grande cruz de pau-brasil. Houve a colocação de duas placas ao lado do altar, uma proclamando a criação da Comarca de Palma (sem o s, neste momento) assinada por Theotônio Segurado e a outra comemorativa da cerimônia, assinada por Siqueira Campos, neste sentido, simbolicamente colocados lado a lado, resumindo a historiografia do Tocantins nos nomes de Theotônio e Siqueira. Para Souza (1995, p. 59), trata-se de um artifício de ‘atualização da história’ como meio de legitimação da construção e, por conseqüência, elevando o lugar do pioneiro-mor, a Siqueira Campos.

A construção da cidade foi iniciada em 20 de maio de 1989, numa cerimônia de grande densidade simbólica, em que são atualizadas as referências históricas que pretendem organizar a identidade em construção dos tocantinenses. Esse evento tem maior riqueza do ponto de vista ideológico que a transferência oficial do poder administrativo em 1 de janeiro de 1990, data da efetivação da função política da cidade. (SOUZA, 1995, p. 59)

Podemos verificar as mesmas práticas na inauguração de Brasília e de Goiânia (Fotos 04 e 05), a primeira missa de Brasília foi realizada em 3 de maio de 1957, por Dom Carlos Vasconcelos Mota, Cardeal-arcebispo de São Paulo e reuniu cerca de 15 mil pessoas. É importante destacar nestes ‘rituais’ religiosos uma tradição inventada, sobretudo pela presença simbólica de índios Xerentes na Primeira Missa de Palmas, que de uma forma mítica tenta relembrar e fixar na história recente do Tocantins, a presença do colonizador e do índio.

Chama atenção, também, em Palmas a primeira residência do Governador, o ‘Palacinho’ (Foto 06), que possui muitas semelhanças, a começar pelo nome, ao ‘Catetinho’ (Foto 07), primeira residência do Presidente da República em Brasília.






Foto 07: Catetinho: a primeira repartição pública e uma das construções pioneiras de Brasília, onde Juscelino se hospedava e despachava em suas visitas à região (1956).

Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal.

Foto 06 Palacinho: Primeiro edifício da Capital e Primeira Sede do Governo.

Autor: Elson Caldas (1989).

Fonte: Casa da Cultura (2009).

O Palacinho abrigou inicialmente as autoridades durante as visitas às obras de construção da cidade, mas, com a antecipação da transferência da capital provisória de Miracema do Norte para o local permanente, foi necessário adaptá-lo para funcionar como sede administrativa do novo Governo.

As associações com o construtor de Brasília são diversas, por exemplo, o lema de Juscelino Kubitschek sobre a criação de Brasília de ‘50 anos em 5’ foi reeditado por Siqueira Campos, na promessa de fazer o Tocantins crescer ‘20 anos em 2’. O investimento político é prioritário nesses dois anos iniciais do Estado, com a fixação da imagem de Siqueira como o grande construtor-civilizador, o que futuramente será importante para a perpetuação de seu grupo político no Estado. (SOUZA, 1995, p. 60)


  1. A Praça dos Girassóis como lugar de memória

“Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares.”

Pierre Nora 3
A história tocantinense vem sendo criada através da seleção de fatos históricos que pontuam, sobretudo o Centro Cívico, a Praça dos Girassóis, através da arte, do urbanismo e da arquitetura. A ausência de um centro antigo na cidade contribui para que o ‘gestor/criador’ crie lugares de memória, com o intuito de ‘inventar” uma identidade tocantinense e uma história do Tocantins, ainda que Palmas tivesse acabado de ser criada. A Praça dos Girassóis está localizada no centro cívico do plano urbanístico, no cruzamento das principais avenidas da cidade, a Av. Theotônio Segurado e Av. Juscelino Kubitschek. Nela estão localizados os principais prédios governamentais de Palmas: o Palácio Araguaia (sede do poder executivo), a Assembléia Legislativa (Palácio João D´Abreu), o Palácio da Justiça (Palácio Feliciano Machado Braga), o Memorial Coluna Prestes e as Secretarias do Estado.

Além de prédios institucionais, ela abriga também os seguintes monumentos: o relógio do sol, o Cruzeiro (símbolo religioso), Monumento aos Pioneiros, Monumento à Biblia, Praça Krahô (homenagem aos grupos indígenas do Tocantins) e o Monumento aos 18 do Forte de Copacabana. Este é um espaço privilegiado, onde há um encontro de símbolos do governo de Siqueira Campos, uma presença mítica, que vai do monumento religioso à praça indígena, como afirma Carvalho (p.9, 1990): “o instrumento clássico de legitimação de regimes políticos no mundo moderno é, naturalmente, a ideologia, a justificação racional da organização do poder.”

Carvalho destaca, ainda, que o extravasamento das visões de República “não poderia ser feito por meio do discurso, inacessível a um público com baixo nível de educação formal. Ele teria de ser feito mediante sinais mais universais, de leitura mais fácil, como as imagens, as alegorias, os símbolos, os mitos.” (CARVALHO, 1990, p.9)

Alguns artistas eram requeridos pelo governador à medida que se julgasse necessária a produção de uma arte voltada à construção destes símbolos. Ainda parafraseando Carvalho, “o artista deveria usar sua arte para difundir tais valores”.

Maurício Bentes foi um desses artistas que participou da construção da cidade nos seus cinco primeiros anos. Carioca, nascido em 1958, formado em Economia pela Faculdade Cândido Mendes (1979), seguiu a carreira de artista, iniciando sua formação com Celeida Tostes, na Escola de Artes Visuais do Parque Laje. Em 2001 foi à capital do Tocantins a convite de Siqueira Campos para fazer um estudo sobre uma obra que o governador encomendou para fixar no Palácio Araguaia. Fez o estudo, foi aprovado e executou os “frontispícios”, nome dado a dois globos dourados com raios instalados sobre o prédio, que representam o “sol alado”. Executou também uma série de esculturas em auto-relevos em volta do monumento.

Com esse trabalho acabou mudando-se para Palmas, aonde veio executar outras obras na Praça dos Girassóis, como: os “18 do Forte de Copacabana”, a escultura de Luiz Carlos Prestes sob uma coluna, no Memorial Coluna Prestes projetado por Oscar Niemeyer.

O Monumento aos 18 do Forte de Copacabana foi inaugurado em 2001. Para o governador este monumento, que reproduz um confronto, é uma homenagem aos tenentes que fizeram o levante do Forte de Copacabana, em 1922. Existe um evidente homônimo entre Tenente Antônio de Siqueira Campos (um dos líderes do movimento), com o então governador do Tocantins. Não entrando no mérito do valor estético desta obra, cuja expressividade é evidente, mas há uma questão importante que deve ser levantada: que relação esta obra tem com o Tocantins? Com exceção do fato da Coluna Prestes ter “riscado” uma pequena parte do território Tocantinense, quando este ainda era Goiás, nenhuma outra relação possui esta obra com a história do Tocantins. É até mesmo é de se estranhar a homenagem de Siqueira Campos a um ex-membro do PCB e o Movimento Tenentista, ambos localizados próximos à sede do governo estadual, na Praça dos Girassóis.

Segundo Carvalho (1990, p. 10), estes artifícios fazem parte das batalhas ideológicas e políticas, que são travadas através de símbolos e alegorias, “para fazer a valer a nova ordem. Atingir o imaginário popular em favor da nova cidade, da legitimação do novo Estado.” Para Firmino (p. 123, 2003), a estratégia de evidenciar a presença dos tenentes na história do Tocantins é utilizada para manter Siqueira Campos eternamente presente nessa história pelo evidente homônimo com o Tenente.


    1. O Palácio Araguaia, a “História” do Tocantins retratada em auto-relevo e os painéis do artista DJ Oliveira

Projetado pelos arquitetos Maria Luci da Costa e Ernani Vilela e construído em 1990, o Palácio Araguaia (Foto 01) é um prédio que se tornou referência para a cidade, tanto pela sua localização centralizadora, quando pela sua arquitetura monumental.

Os painéis em auto-relevo (Foto 02), denominados de “frisas” no projeto que originou a sua criação, são sucessivas imagens monocromáticas a céu aberto, feitos em fibras de vidro em auto-relevo, gravadas nas vigas de concreto do Palácio. São painéis que contam a “história” do Tocantins, também obra do artista Mauricio Bentes.






Foto 01 - Palácio Araguaia (Sede do Executivo). Projeto: Ernani Vilela, Maria Luci da Costa (Praça dos Girassóis).

Autor: Maurício Bentes (2002).

Foto 02 - Detalhe em auto-relevo mostrando a primeira missa realizada em Palmas, no momento da instalação da Capital, em 20 de maio de 1989. Autor do Painel: Maurício Mendes (1958-2004).

Autoria da Foto: Patrícia Orfila (2008).

Quarenta e oito cenas representam a história do povoamento, colonização do território que hoje constitui o Estado do Tocantins, com a entrada dos bandeirantes, até os dias da fundação da capital e lançamento de sua pedra fundamental. A composição das cenas nos painéis procurou obedecer a “cronologia histórica”. Aqui a arte mais uma vez fortalece o vinculo entre arquitetura e o discurso político hegemônico de seus criadores, aqui aparece no cenário político mais um personagem “convocado” a ilustrar a história tocantinense: o artista plástico DJ Oliveira. O Palácio Araguaia é um exemplo claro dessa intenção, onde dois grandes painéis foram fixados nas paredes do hall de entrada, obra do artista supracitado (Fotos 03).






Foto 03: Painel 2 - História do Tocantins, Período Republicano (2002).

Autoria: Patrícia Orfila (2009).

Os painéis de DJ Oliveira e auto-relevos que coroam o palácio são exemplos de como um monumento arquitetônico pode ser utilizado como “instrumento de divulgação” da História ou até mesmo como uma tentativa política de construção de uma “identidade tocantinense”. Esta intenção fica bastante clara em ambos os textos retirados de material propagandístico do Estado, no ano de 2002, cujo conteúdo é bastante simbólico.

Com estilo moderno que vai do expressionismo ao cubismo, Dj Oliveira deixa gravado nas paredes do Palácio Araguaia, em extenso documentos artístico, que descreve com surpreendente riqueza de detalhes a saga dos desbravadores pela Criação do Tocantins. São dois Paineis de 65 metros quadrados. Ao todo são 1.600 placas em cerâmica nas cores ocre, vermelha, azul e verde, revivem da ocupação até a instalação e consolidação da Capital do novo Estado da Federação, 1990 a 2000. (ALMANAQUE CULTURAL DO TOCANTINS,1999 a 2002)

Através da arte pretendeu-se tornar imortais os muitos homens e mulheres que fizeram do “sonho separatista uma realidade que hoje se traduz num Estado rico em valores éticos, norteado por um espírito de justiça e igualdade para todos. As lutas de ontem e as conquistas de hoje esboçam novas vitórias, novas oportunidades, um novo futuro!” (ALMANAQUE CULTURAL DO TOCANTINS,1999 a 2002). Mais uma vez Carvalho (1990, p. 10) esclarece:

A elaboração de um imaginário é parte integrante da legitimação de qualquer regime político. É por meio do imaginário que se podem atingir não só a cabeça mas, de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro.

Siqueira Campos lançou mão deste recurso utilizando os artistas pra tais fins. DJ Oliveira e Maurício Bentes produziram símbolos para o novo lugar. Basta analisar as imagens que seguem (Fotos 04 e 05).





Foto 04: Deputado Siqueira Campos em emblemática greve de fome para aprovar o projeto de criação do Tocantins (Painel de Maurício Bentes, 2002).

Autoria: Patrícia Orfila (2008).

Foto 05: Deputado Siqueira Campos greve de fome para aprovar o projeto de criação do Tocantins (Painel de Dj Oliveira, 2002).

Autoria: Patrícia Orfila (2008).

As imagens acima retratam um aspecto da vida de Siqueira, sobretudo a famosa greve de fome que ele fez em prol da criação do Estado e o trecho abaixo narra o fato.

Em protesto contra o segundo veto do presidente o deputado Siqueira Campos iniciou greve de fome, chamando a atenção da mídia de todo o país e sensibilizando a opinião publica em favor da criação do estado do Tocantins. Certamente, nesse momento histórico, estiveram ao seu lado, em espírito, todos os homens que faleceram sonhando com o Tocantins, dando-lhe forças para seguir avante. Com a promessa de que a matéria voltaria a ser discutida na Assembléia Nacional Constituinte, Siqueira abandonou a greve de fome e saiu em campo novamente para mobilizar as lideranças e a população nortense. Instalada a Assembléia Nacional Constituinte em 1.987, o Deputado Siqueira Campos, ainda mais fortalecido em sua luta, amparado pela crescente vontade popular e conseguindo, através de suas estratégias políticas, negociar e aglutinar lideranças partidárias, entregou ao Deputado Ulisses Guimarães, Presidente da Assembléia Nacional Constituinte, um Projeto de Emenda Constitucional para a criação do Estado do Tocantins, que desta vez foi aprovada. (VILLAS BOAS, 2002)

Na obra de Peter Burke, A Fabricação do Rei: A Construção da Imagem pública de Luís XIV, o autor analisa a imagem publica de Luis XIV, o lugar que o rei ocupa na “imaginação coletiva”. É possível, ainda, fazer um paralelo entre arte e política na fabricação de um grande homem, imagem esta que estava sob constante revisão e serviu de modelo para outros monarcas. Segundo Burke, ninguém melhor do Luiz sabia “como vender suas palavras, seu sorriso, até seus olhares.”

Podemos aqui rememorar os termos destacados por Burke, para entender como funciona a construção da imagem de Siqueira Campos, exemplo: “estado de teatro”, “fabricação”, “mitificação”, “propaganda”, “imagem”, “a feitura de um grande homem”, “construção simbólica da autoridade”, “estudo do mito”, “representação”. O teórico social Motesquieu, que cresceu no reinado de Luis XIV, fez um comentário que vale destacar: “o fausto e o esplendor que cercam os reis são uma parte do seu poder.”

O mito de “Pai Fundador” a Siqueira Campos é assegurado nos aspectos culturais, sociais e políticos da construção da identidade oficial do Tocantins; em atividades musicais, pela historiografia oficial, passando pela elaboração do material didático ensinado nas escolas, com a distribuição de cartilhas cujo personagem principal é Siqueira Campos, são confeccionados materiais de divulgação dos monumentos da cidade patrocinados pelo Estado, em cuja figura de Siqueira ganha destaque.

A dissertação de mestrado realizada por Eugenio Pacelli de Morais Firmino, intitulada Ensino de História, Identidade e Ideologia: a experiência do Tocantins é bastante esclarecedora nestes aspectos. A opinião de Firmino a respeito do período que vai de 1989 a 2002 é que:

No âmbito da memória histórica oficial, durante esses dez anos, a lógica do esforço das ações do governo Siqueira Campos foi a mesma da que ele buscou antes da criação do estado: a lógica da persistência. Ou seja, parece que a lógica do seu projeto pessoal foi, entre outras coisas, destinar todo o empreendimento possível para eternizar-se como verdadeiro herói do Tocantins. Já no seu primeiro governo (1989-1990), produziu-se e divulgou-se o diagnóstico oficial “Tocantins”. Nesse texto, uma espécie de balanço elaborado em forma de encarte informativo, consta, na primeira página, sua foto, estando acima dela a frase “Tocantins, uma epopéia de persistência e fé.” (FIRMINO, 2003, p. 55)

Os mitos são mecanismos que naturalizam e ocultam a realidade, desta maneira Siqueira Campos participa do imaginário coletivo como o grande criador do Tocantins. Nas movimentações em prol da separação do norte goiano estiveram presentes diversos grupos da elite política do norte de Goiás, bem como a Casa do Estudante do Norte Goiano (CENOG), a Comissão de Estado dos Problemas do Norte Goiano (CONORTE), o Comitê–Pró-Criação do Estado do Tocantins, o Brigadeiro Lysias Rodrigues (que lutou pela criação do Território Federal do Tocantins na década de 1940), Juiz de direito Feliciano Machado Braga (que se uniu ao movimento separatista na década de 1950) e Siqueira Campos, então, passou a reivindicar na Câmara Federal e Congresso Nacional, a partir da década de 1960, a criação do Tocantins.




  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ACAMPORA, Alexandre. Escritos de Jornal. Palmas: Pró Design Comunicação, Palmas, 2004.

ALMANAQUE CULTURAL DO TOCANTINS, ANO 04, DEZEMBRO – 2002, EDIÇÃO ESPECIAL. Retrospectiva da Cultura. 7 anos com você! De outubro de 1999 a dezembro de 2002, trinta e sete edições.

ARNHEIM, Rudolf. O poder do centro. Lisboa: Edições 70, 1990.

BURKE, Peter. A Fabricação do Rei: A Construção da Imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

CARVALHO, José Murilo. Formação das almas. O imaginário da república no Brasil. Companhia das Letras. 1990.

CASSIRER, Ernest. Linguagem e Mito. Tradução de J. Guinsburg; Miriam Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2006.

CERQUEIRA, Humberto. O plano e a prática na construção de Palmas. Dissertação (Mestrado) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1998.

CHAUI, Marilena. Brasil: Mito Fundador e sociedade autoritária , 2001.

FIRMINO Eugenio Pacelli de Morais. Ensino de História, Identidade e Ideologia: a experiência do Tocantins. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Goiás. Goiânia: 2003.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1997.

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1 Joaquim Theotônio Segurado (1775-1831) chegou ao Brasil em 1800 e, em 1803, foi nomeado ouvidor-geral da Capitania de Goiás pelo príncipe regente Dom João VI. Foi promovido ao cargo de desembargador da relação do Rio de Janeiro em 1805, e desembargador da relação da Bahia em 1808. Em 1809 foi nomeado desembargador da recém-criada comarca de São João das Duas Barras. A criação da comarca tinha como objetivo facilitar a administração do imenso território. Em 1815 foi fundada a vila de São João da Palma, tendo Joaquim Theotônio Segurado se tornado o seu primeiro ouvidor. No ano de 1821 proclamou a emancipação do norte de Goiás.

2 O projeto urbanístico e a arquitetura dos principais prédios públicos de Palmas ficaram sob a responsabilidade da empresa GrupoQuatro Arquitetura Sociedade Simples Ltda., que foi criada em 1974 para prestar serviços de consultoria na área de arquitetura, engenharia e urbanismo. O plano da nova capital foi idealizado pelos arquitetos Luiz Fernando Cruvinel Teixeira (autor) e Walfredo Antunes de Oliveira Filho (co-autor), pertencentes ao GrupoQuatro.

3 NORA, Pierre. Entre memória e história – a problemática dos lugares. Proj, História. Tradução: Yara Aun Khoury. São Paulo: 1993; p. 8.




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