A construção midiática da política e a crise da representação Ingrid Sarti



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A construção midiática da política e a crise da representação

Ingrid Sarti


Nos estudos de comunicação e política, desde os anos setenta, já se considerava a transferência das tecnologias culturais eqüivalente a uma transferência de modelos globalizantes de organização do poder. A importância das novas tecnologias de comunicação na produção da cultura de massas, permitindo a interconexão entre o privado e o público, foi fenômeno descrito por Mattelart e Schmucler (1983) e por uma importante tradição de estudos latino-americanos. Estes empenharam-se em superar a visão maniqueísta até então predominante na literatura sobre os meios de comunicação a fim de poder perceber corretamente os efeitos das transformações ocorridas. (MacAnany, Janus and Schnitman, 1980; Mattelart, 1977; Richeri, 1985; Sarti, 1979, 1980).

Longe de ser homogêneo quanto às avaliações e prescrições, o resultado das pesquisas desde então desenvolvidas converge, porém, para um aspecto: a centralidade da mídia, televisão em particular, na construção dos cenários políticos que caracterizam as novas democracias latino-americanas da década de oitenta.

A possibilidade de uma contribuição democrática da televisão, assim como de políticas democratizantes dos meios de comunicação em geral, tem sido avaliada na razão inversa do grau de concentração oligopolista dos meios e na razão direta da importância dos partidos em cada contexto. Assim, é tida como viável no Chile, de forte presença estatal no controle dos meios e institucionalidade partidária expressiva. A partir da experiência chilena de democratização da tv estatal, Portales (1988; 1994; 1995), por exemplo, desenvolve uma proposta teórica e metodológica de pesquisa na qual a televisão é definida como um meio democratizante, embora ainda constitua um risco, um desafio. Ao contrário, a virtualidade democrática da televisão é suspeita no México e no Brasil, com seus conglomerados multimídia — Televisa e Globo — e frágil institucionalidade partidária, onde a mídia tende a expressar os grandes interesses privados. (Sarti, 1989; Trejo, 1995).

No caso brasileiro, a concentração oligopolista da Globo tem sido enfatizada com especial destaque para sua influência na política na transição democrática, firmando uma tradição de estudos de mídia e política que confere centralidade à presença da televisão no cenário político da representação contemporânea. Especificamente para análise do caso brasileiro, Lima (1994, 1995) adaptou o conceito de cenários de representação da política – CR-P, a partir da categoria gramsciana de hegemonia e do reconhecimento da televisão como instituição política no mundo contemporâneo, dando início a uma linha de pesquisa que se expande(Porto, 1995; Porto e Guazina, 1998).

A adaptação da tv brasileira aos importantes momentos históricos de ruptura também foi enfatizada pela literatura. Mattos (1993) e Tosi (1995) analisam a presença da mídia no movimento das diretas já como marco um novo cenário político. Guimarães e Amaral descrevem o processo de súbita conversão da Rede Globo ao movimento, quando este tomava as praças do Brasil, e sua cobertura da transição que culminou com a morte do Presidente Tancredo Neves em 1985:

De fevereiro de 84, quando se deflagrou a campanhas das ‘Diretas já’, a abril de 85, morte de Tancredo, são 14 meses de imensa efervescência política, durante os quais os meios de comunicação — em especial a TV Globo, protagonista principal — desempenharam papel inédito em sua história e se destacaram por sua capacidade de intervir no quotidiano extraordinariamente rico de uma crise de transição. aparato criado pelo regime autoritário, e com ele complemente identificado, a TV Globo exerce o inesperado papel de protagonista das oposições, com isso ampliando um arco de alianças inesperadas. Na medida em que legitimava o regime emergente, legitimava-se também junto à opinião pública. Uma nova TV Globo surgia com uma Nova República. (Guimarães e Amaral, 1986: 28)

É sobretudo na década de noventa que se consolida a presença avassaladora da mídia e emergem, também na literatura brasileira, diferentes versões sobre seus efeitos no cenário político cultural. Constituem contribuições valiosas que buscam analisar o impacto de uma cultura da imagem sobre a representação moderna, que se sabe ancorada tanto na força da palavra própria de uma cultura argumentativa,como na importância dos partidos políticos como sujeitos políticos da mediação (Sarti, 1998).

Estudos específicos sobre mídia e eleições nos anos noventa revelam as transformações nas práticas discursivas adotadas nas campanhas eleitorais, situando os media como atores políticos fundamentais no processo eleitoral brasileiro (Aldé e Dias, 1998; Albuquerque, 1995; Jorge, 1997; Miguel, 1997 e 1998; Porto, 1995 e Soares, 1996).

Observa-se que, no afã de serem absorvidos pela nova cultura que se impõe, políticos de todas as matizes têm revelado uma tendência a descaracterizar seu próprio discurso e incorporar o estilo midiático. A pasteurização que nivela a política pela descaracterização do discurso, tem sido apontada como um dos resultados reveladores da submersão das identidades partidárias no universo unificador da mídia, no qual é próprio que políticos não se destaquem por sua experiência, pelo programa de seu partido nem mesmo por sua capacidade de liderança no processo político, mas, como assinalou Trejo, pela simpatia que seus marketeiros conseguem suscitar nos grandes auditórios (1995: 117).

No caso brasileiro, em especial, esta tendência está nas observações sobre a campanha eleitoral de 1994 (Guimarães, C, 1994; Rubim, 1997; Sarti 1994 a e b). Aparece também nas análises sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso, que enfatizam a ruptura com a tradição política cultural para ingressar em uma nova era na qual a maneira de se fazer política é acentuadamente midiática (Bandeira, 1997 e 1998; Schmucler y Mata, 1992; Vasconcellos, 1997).

Os processos de criação de Collor como político das elites modernas e o de seu impeachment foram privilegiados como reveladores da capacidade de exercício de poder da Rede Globo e de sua efetiva adequação à política midiática (Fausto Neto, 1993 e 1994; Guimarães, I, 1995; Lattman-Weltman, 1994; Lima, 1991; Noblat, 1990, Oliveira, 1992; Sodré, 1990 e 1992; e Waisbord, 1996). A teatralização do poder em suas dimensões extremas na atuação de Collor é analisada como emblemática da sociedade de espetáculo por Ribeiro (1995). Collor, como herói virtual da política midiática, surge ainda na escrita de Vasconcellos (1997) e Bandeira da Silveira, para quem a fração cultural burguesa, que controla o sistema de comunicação tecnovirtual, construiu virtualmente no espírito das massas a imagem da candidatura ideal: homem branco, desportista, jovem guerreiro da classe superior em luta contra os poderosos... Collor acabou por encarnar com preciosismo a mensagem da Rede Globo de Televisão. Ele era o herói da massa virtual e o campeão da burguesia contra a esquerda liderada por Lula. (1998: 32).



  • Para onde aponta a literatura

Ao afirmar a centralidade da mídia, particularmente da televisão brasileira na construção dos cenários políticos da democratização, tanto aqui como em outras democracias latino-americanas da década de oitenta, os estudos corroboram o fenômeno cunhado por Sartori (1989) de videopolítica, definido pela introdução da cultura audiovisual nas relações sociais e, particularmente, nas de poder. Do ponto de vista institucional, a importância da videopolítica dependeria diretamente de seu contrapeso, os partidos políticos: quanto menor o grau de institucionalização partidária, maior o espaço aberto para a expansão e penetração da videopolítica. É possível concluir que mesmo nas sociedades fortemente institucionalizadas, a videopolítica, em grau mais ou menos acentuado, é presença certa sem limite de fronteiras no cenário espetacularizado da contemporaneidade ocidental (Debord, 1997). Landi (1990; 1992) aprofunda discussão sobre a vídeopolítica na América Latina introduzindo o debate sobre a presença de diversos tipos e graus de intervenção sobre a cultura política, que vão além de uma campanha eleitoral e incluem jornais, entrevistas, debate, publicidade, horário eleitoral gratuito, comentários.

Embora o registro desse fenômeno se dê de forma quase-consensual, em poucas áreas temáticas da pesquisa social contemporânea os estudos existentes apresentam conclusões tão díspares e diagnósticos tão divergentes quanto no caso da análise das mudanças nas formas públicas de comunicação — como bem observou Costa (1997) em sua proposta de sistematização dos argumentos recorrentes neste debate.

Manin, por exemplo, estudioso da história conceitual dos partidos políticos, confere a esta nova etapa da representação a caracterização de governo do público, em oposição às duas anteriores, o governo de parlamento e o governo de partidos. Nesta etapa, devido à forte presença da mídia informativa e de opinião nos debates políticos, diz ele, os representantes tenderiam a expor suas idéias diretamente ao público no novo fórum constituído pelos meios de comunicação de massa. Observe-se no entanto, que para Manin, este dado indica uma alteração na prática política, que não significa porém, uma crise da representação, vez que esta nunca teria sido regida pelo princípio da democracia: quando se reconhece a existência de uma diferença fundamental entre governo representativo e autogoverno do povo, o fenômeno atual deixa de ser visto como sinalizador de uma crise de representação e passa a ser interpretado como um deslocamento e um rearranjo da mesma combinação de elementos que sempre esteve presente desde o final do século XVIII. (1995: 33)

De modo geral, persiste a preocupação de que, no espaço público configurado pela mídia, a política tenda a perder seu conteúdo próprio e os partidos políticos sua identidade com mediadores de interesses entre a sociedade e o Estado. Como destaca Garcia Canclíni (1990 e 1995), ao ocupar o lugar das mediações que seria próprio da política, os media estabeleceriam uma nova diagramação dos espaços e intercâmbios urbanos. No entanto, embora a noção de que a representação está em crise prevaleça na literatura, estes fatores não conduzem a um grau razoável de similitude na avaliação de seus efeitos na cena política democrática. Em especial, o que recebe tratamento diferenciado é a forma como a videopolítica ocupa o espaço público da representação partidária e interpela os movimentos sociais. Desta avaliação emergem prognósticos distintos sobre o papel dos partidos políticos na democracia contemporânea. A despeito de sua fragmentação, a literatura permite indicar tendências analíticas.

Em suma, sem a pretensão de sistematizar os resultados, destacaremos apenas dois aspectos que se sobressaem nesta literatura em si mesma assistemática. O primeiro é o grau radical de diversidade quanto à avaliação da relação entre mídia e democracia, particularmente no se que se refere à interpelação da sociedade; e o segundo diz respeito ao grau acentuado de concordância em relação à crise de representação que significa, praticamente, o fim dos partidos políticos. Convém notar, porém, que mesmo este grau elevado de concordância é obtido a partir de abordagens profundamente diferentes da videopolítica na América Latina.

Portanto, seria mais adequado afirmar que, a partir do consenso da centralidade da mídia — em especial da televisão — na construção da democracia contemporânea na América Latina, é possível distinguir os seguintes tipos de interpretação:



  • a abordagem radical da sociedade de espetáculo, que percebe a presença da mídia como ameaçadora à democracia, em especial à representação partidária.

Esta perspectiva denuncia a ideologia no discurso que, ao promover o mercado e eleger a mídia como representante, o faz como se esta escolha fosse o produto inevitável e irreversível do desenvolvimento tecnológico. Postula que, face à presença real da mídia na sociedade contemporânea e às transformações formidáveis que a informática introduziu no tempo e no espaço cotidiano — do trabalho ao lazer — não seria fácil confrontar este discurso, mais difícil ainda fazer ruir a construção virtual de um destino global e único para a humanidade.

Sem estabelecer uma interlocução direta com os partidos políticos, a literatura da sociedade de espetáculo, tende a apontar a subsunção da representação partidária à forma midiática e ao mercado global, ou seja, anuncia sua inoperância no novo cenário que já não comportaria a mediação dos interesses.



  • a perspectiva social dos meios, que, justamente por considerar os partidos políticos inoperantes, se volta para a sociedade civil e percebe um terreno fértil para o desenvolvimento das mediações sociais através de uma nova forma de democracia comunicativa.

A noção de uma democracia comunicativa ganha força em autores do porte de Martín Barbero, que vislumbra uma nova relação entre democracia e comunicações a partir da atual crise da representatividade na América Latina. A visibilidade e a nova percepção do mundo que a espetacularização engendra: essa sensação de plenitude no vazio... essa sensação de participar que a satisfação de ver provoca (Martín Barbero, 1987) conduziriam irreversivelmente ao esvaziamento das possibilidades discursivas na configuração de uma esfera pública produzida menos por estratégias políticas argumentativas do que através de estratégias políticas de imagens. Esta vertente propõe, portanto, como alternativa ao cenário de esvaziamento da política, outro em que as possibilidades discursivas se realizem como produto de novas formas de criatividade e ação de grupos e movimentos sociais (Garcia Canclíni, 1995; Martín Barbero, 1997)

Aqui se consideram os partidos políticos e culturalmente despreparados para absorver as mudanças trazidas com a fragmentação social e a introdução da mídia, particularmente da televisão na política. Um analista das relações entre os novos espaços culturais e a democracia, Roncagliolo (1998) considera que las crisis de representatividad y de los partidos, un tema tan en boga, no se reduce a las llamadas crisis de los paradigmas, sino que se enmarcan en la modificación sustantiva de los espacios culturales. La política de antes estaba tejida en mercados físicos de bienes culturales (local partidario, cédula, plaza pública). Hoy se ha ‘mediatizado’, y el ciudadano no necesita trasladarse al acto político para semblantear al candidato. Quizás, la crisis de la politica y de los políticos tenga que ver con sus limitaciones para actuar (y pensar) en estos nuevos escenarios o espacios culturales de la política.



A dissolução do político é o resultado, e a condição para superá-la é a invenção de novas formas de mediações que impulsionem a sociedade civil, e permitam a penetração dos valores democráticos no espaço cotidiano onde reina a mídia, de modo a renovar e aprofundar a democracia. Minha observação é inversa à de Costa (1997), que não reconhece a existência desta vertente social na literatura que aponta a centralidade da mídia. Percebo que, ao contrário da perspectiva da sociedade como espetáculo, esta vertente social atribui nitidamente um potencial democrático ao espaço público configurado pela relação entre a mídia e os movimentos sociais. Observo ainda que, alinhada à vertente institucional, Mata (1992) também aponta uma ampliação da ocupação do espaço público pelas demandas sociais específicas que tiveram acesso à televisão, afirmando o caráter coletivo — operário, feminino e popular — de suas reivindicações e impulsionando a comunicação solidária entre os participantes.

  • a abordagem rigorosamente utópica e negadora da política que aposta em uma virtual democracia eletrônica.

Sobre esta última, vale a pena nela determo-nos brevemente, para que não paire dúvidas sobre sua especificidade. A concepção de uma democracia eletrônica é parte de uma postura cética em relação às qualidades da representação, que, desde os anos oitenta, acompanha o descrédito em relação aos partidos políticos e aos projetos políticos coletivos. Corre paralela ao avanço tecnológico das comunicações e ao elogio do imediatismo na participação política. Segundo ela, o presente não comportaria utopias nem mesmo projetos, definir-se-ia, ao contrário, como um tempo de atopia, uma cidade sem lugar, que se modifica constantemente: um lugar que pode ser também psíquico, também Internet (Canevacci, 1995). Parte-se da idéia central de que a pós-modernidade é individualista e fragmentada e o mundo contemporâneo dispensaria intermediários, já que a participação é virtual e a comunicação direta, global e cibernética. Não é difícil concluir-se então que o partido se tornou obsoleto, que a representação é incapaz de reconstruir o presente, e que as instituições políticas cerceiam a criatividade e as iniciativas individuais. Em suma, o partido tradicional é visto como entrave à liberdade, num mundo em que a comunicação globalizada seria capaz de propiciar um tipo de cultura mais avançada. Nesta teriam lugar o contato e o diálogo entre as diferenças, portanto, um mundo efetivamente democrático. Afirma-se então a necessidade de liberar a política da forma partido para que ela possa exercer a tarefa que, supostamente, lhe é designada pela modernidade contemporânea — ou pós-modernidade: redescobrir os momentos mais espontâneos e criativos, onde não há linha política, liderança, hierarquia, mas a possibilidade de num contexto bem geral, cada pessoa ter a sua visão de mundo, sua prática, e não ter de coordenar-se com alguém. (Canevacci, 1995). Em suma, a concepção de sociabilidade supostamente predominante nos novos tempos de atopia não apenas questiona a legitimidade dos partidos, mas decreta seu fim, anula a concepção de representação e transfere para a mídia a função de mediação entre os interesses fragmentados (Sarti, 1998).

  • a avaliação institucional da videopolítica, que aponta a presença inexorável da televisão como ingrediente importante do processo político, não sem antes advertir que a instalação da mídia na política não obedece a supostas virtudes mágicas da publicidade política sobre o eleitor, concebido como um ser infinitamente maleável pelos meios, apesar de sua relação, em geral de sofrimento, com os poderes.

Registra, por um lado, a dificuldade que demonstram os partidos políticos para comunicar-se com a sociedade através dos recursos que a mídia oferece sem perder a referência político-ideológica que os identifica; e, por outro lado, a quase impossibilidade de reconstituir outros espaços de comunicação que passem ao largo da dominação midiática.

Crítica de velhas e esquemáticas teorias da manipulação informativa, para as quais todo o poder e o sentido da mensagem estão contidos no projeto do emissor, esta perspectiva adota, em suma, o caminho inverso das análises maniqueístas, advertindo que a tendência colonizadora da tv na política encontra tensões e contrapesos que compõem um quadro mais complexo do que aquele das profecias apocalíticas (Landi, 1990: 46). Contra os males da satanização da mídia, afirma que a presença da televisão mantém-se nas transformações profundas da cultura e em certas características do sistema político (Landi, 1990: 38) e chama a atenção para a necessidade do estabelecimento de novas políticas voltadas para a inovação na utilização da técnica como desafio aos comunicadores: está también en nuestras propias manos subvertir y domesticar aparatos creados para la opresión, a fin de convertirlos en herramientas de liberación... Aunque ya sea un lugar común, conviene recordar que estamos en un cambio de época y no sólo en una época de cambios (Roncagliolo, 1998).

Apesar do registro da fragilização dos partidos políticos, excepcionalmente, nesta abordagem vislumbra-se uma perspectiva favorável a seu desempenho, sob condição de que estes consigam adaptar-se aos novos tempos e que, simultaneamente, seja possível intervir politicamente para democratizar a televisão. A singularidade desta perspectiva é, portanto, a ênfase na necessidade de aperfeiçoamento dos mecanismos políticos de mediação e agregação de interesses nas sociedades complexas em que vivemos, em que pese a centralidade da mídia e a fragilidade institucional dos partidos políticos na América Latina. Nem cética nem otimista, esta tendência deixa espaço aberto para novas formulações e em seu caráter inconclusivo, acredito, reside seu mérito maior. Constitui, portanto, um excelente ponto de partida.

Em suma, observa-se o deslocamento dos partidos políticos como sujeitos da democracia. Com exceção da vertente que chamamos institucional, enfática a respeito do imprescindível aperfeiçoamento da mediação partidária, as outras perspectivas que analisam a presença midiática face à representação confinam os partidos políticos a algum espaço nebuloso do cenário contemporâneo. Esse procedimento ocorre tanto na vertente que adverte sobre o perigo de seu fim sob o efeito da sociedade espetacularizada como pelas duas últimas que não lamentam o fim da representação, já que ela estaria sendo compensada por novas formas de mediação: social ou eletrônica.

Como indiquei em outra ocasião (Sarti, 1998), vale observar o problema que a literatura política revela: a anulação da virtualidade democrática da representação partidária, sem que seja necessariamente substituída por outra forma. Ou seja, o argumento da necessidade de um espaço público representativo dos anseios da diversidade social não reconhece os partidos políticos como mediadores fundamentais, tal como inscrito na sua identidade representativa, mas tampouco atribui a outros atores as funções que são constitutivas dos partidos. Não paira dúvidas sobre o fato de que a sociedade de espetáculo, o governo de opinião e os mecanismos de democracia semidireta estão longe de se contraporem à representação. Propõem apenas outros discursos sobre ela, como bem constatam Rials (1990) e Novaro (1995). Como as novas formas de mediação não são previstas para agregar e processar a diversidade de interesses no espaço público, conclui-se que, questionada, a legitimidade da representação permanece em um vazio.

A perspectiva pode ser desalentadora. Se os efeitos da presença da mídia foram tão avassaladores a ponto de a forma partido tornar-se obsoleta e inútil a representação, cabe perguntar se também banal se tornou a própria democracia?

Antes de conclusões precipitadas, é preciso melhor entender como se dá o encontro entre o mundo da política — dos partidos e outras instituições — com o cenário dos meios de comunicação — uma complexa indústria cultural transnacional — nesta etapa do capitalismo videofinanceiro e no contexto específico da sociedade brasileira — onde, por exemplo, formas coloniais e patrimoniais de poder se ajustam a processos computadorizados de comunicação social. Para avanço do conhecimento, porém, pesquisas fazem-se necessárias.

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gt08 -> Petrópolis, 23 a 27 de outubro de 2000


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