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A Consumação
por

Gordon J. Spykman

Comentários de Transição1

O contexto central da história bíblica continua se desenvolvendo. O capítulo final está sendo escrito nos registros da história da redenção. Tradicionalmente leva o título de “Escatologia”. Várias vezes, como Barth comenta ironicamente, lhe é atribuído o título de “um capítulo breve e completamente inofensivo,”2reservado para a última semana de um semestre de estudos, deixando pouco tempo para trata-lo seriamente. Mas tal prática reduz o ensino bíblico. Porque a doutrina das “últimas coisas” é “a interpretação [destes ‘tempos finais’] a partir de uma perspectiva do ponto central da Escritura”.3O drama escatológico está sendo executado. Não introduz temas e aspectos totalmente novos, nunca ouvidos. Não apresenta um rompimento do passado com o presente. Todavia, há progresso. Porque esta história do “tempo final” leva adiante a história da criação, queda e redenção, reunindo a totalidade dos seus diversos elementos numa série de fantásticos atos que atingirão o seu ápice final. Por isso, na doutrina da consumação de todas as coisas estamos tratando com surpreendentes descontinuidades dentro da continuidade do atuar de Deus no mundo. Nas palavras de Bavink “a primeira e segunda vinda de Cristo estão numa mútua relação, tão estreita quanto possível. É uma única obra, confiada pelo Pai a Cristo, e essa obra se estende a todas as épocas, e inclui toda história da humanidade”.4

Então, há uma marca vermelha a mais no calendário divino – o nosso encontro com o destino final dos homens e as nações. Como vamos receber este grande “dia do Senhor?” Não há necessidade de uma nervosa e temerosa ansiedade, em que se rói as unhas. Podemos focaliza-lo na confiança da fé, sabendo que – como disse um conhecido refrão – “se a vida é curta, e passa muito rápida, não obstante, toda a obra realizada por Cristo perdurará”.



Capítulo 1

Regresso ao Lar
I.1. Um Fascinante Universo de Expressão

As assombrosas imagens, às vezes fantásticas, que a Escritura usa para ilustrar esta época do “tempo final” delineiam grandes exigências para a nossa santificada imaginação. Os seus símbolos visionários e os seus quadros orais exprimem nossos vocabulários teológicos ao máximo. O conceito de “Escatologia” utilizado por muito tempo para cobrir os episódios finais na história bíblica, às vezes, nos prende em nossos caminhos. Provêm de uma combinação de eschaton e logos, referindo-se ao estudo das “últimas coisas”. Em seu centro está Cristo, eschaton (o “Fim” de todas as coisas), o omega (a última letra do alfabeto grego), e o telos (a “Meta” de toda a criação). Os acontecimentos relacionados com o seu regresso são conhecidos como a epifhanya (sua “aparição”), o apocalypse (sua revelação), e a parousia (seu “retorno”, ou sua “volta outra vez”, não considera somente como uma “segunda vinda” abrindo a possibilidade de ainda outra terceira “vinda”, mas a sua “última” vinda assim como o próprio Cristo é o “último Adão”). Todos os dias da vida do homem convergem finalmente na aurora deste grande “dia do Senhor” que virá quando o “tempo” (chronos) designado tenha cumprido o seu ciclo completo, e “a hora esteja próxima” (kairos).



Estas perspectivas bíblicas confrontam-nos com uma “multiplicidade de aspectos”.5 Emerge um quadro semelhante a um calidoscópio6, que desafia ainda os intentos mais obstinados de reconstruir os seus elementos, ricamente diversificados, num sistema fechado de doutrina – e nem é possível de se falar em datas calculadas e sinais precisos. Nas palavras de Ridderbos esta mescla colorida não oferecerá “uma doutrina que colocada em ordem fixa e peça por peça indique as partes que compõe o quadro”. Porque falta “toda a descrição programática de uma seqüência de eventos e de como eles ocorrerão”.7 Esta visão panorâmica dos eventos que virão reflete, uma vez mais, o tipo de livro que é a Bíblia. Seu centro de gravidade está no aqui e agora. Mesmo quando a sua luz penetra o futuro, ela nos fala consistentemente com a urgência do presente; sendo que a “promessa de entrar no repouso [de Deus] permanece”, ele “estabelece certo dia, ‘hoje’ dizendo, ... se ouvires a sua voz...” (Hb 4:1-10). Nas palavras de Berkouwer “a proclamação do futuro sempre é existencial; ela chama o interior da estrutura do reino que vem”.8

Por enquanto temos que nos contentarmos com uma “modesta visão antecipada” do eschaton. Espere e veja, diz a Escritura. É melhor do que você pensa! Como está escrito



Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram,

nem jamais penetrou em coração humano,

o que Deus tem preparado

para aqueles que o amam (1 Co 2:9).
Por isso, não consuma os seus preciosos recursos olhando para as estrelas ou fazendo especulações apocalípticas. Os detalhes da vinda do “dia do Senhor” pertencem aos mistérios que Deus mantêm reservado em seu conselho. O quadro completo está “do outro lado” da permanente Palavra de Deus. Por isso, podemos encarar o futuro com “santa ignorância” com essa singular combinação na fé que é conhecer o “já” e o “ainda não”. Porque “agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser; mas, sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque lhe veremos tal como ele é” (1 Jo 3:2). Ao aceitarmos a promessa de Cristo quanto à “proximidade” de sua vinda, somos chamados a sustentarmos uns aos outros, com a “urgente insistência do evangelho na certeza das coisas vindouras”.9 Porque “não é tanto a proximidade como a certeza da parousia o que domina os pronunciamentos escatológicos de Jesus”.10 A Escritura impõe “uma proibição a toda forma de cálculo” declara Adrio König, porque “toda forma de cálculo faz uma leitura equivocada de sua mensagem”.11

As perspectivas que se referem à consumação estão enquadradas regularmente numa linguagem apocalíptica. Elas recorrem a cenários aparentemente irreais e estranhos a este mundo para revelar os verdadeiros movimentos da história do mundo. Muitas das metáforas apocalípticas, fortemente concentradas, do Novo Testamento (Mt 24-25; 1 Ts 4-5; 2 Ts 2; Apocalipse) são versões redentoramente atualizadas de temas emprestados da profecia do Antigo Testamento (Ezequiel e Daniel). Estas figuras “limítrofes” de linguagem indicam os eventos reais, passados, presentes e futuros. Mas envoltos em mistérios. Todavia, estas imagens bíblicas estão a mundos de distância das mitologias gregas com as suas exposições de engano, e intriga na arena dos deuses. Os símbolos apocalípticos da Escritura são revelações ocultas de verdadeiras crises terrenas no drama escatológico. Tocam temas históricos, reais, de vida ou de morte, usando uma linguagem que abrange os extremos exteriores da realidade. Iluminam o presente a partir de uma perspectiva “do tempo final”. Conseqüentemente, é importante que as interpretemos como faríamos com a “Vigília Noturna” de Rembrandt, não analisando a trama da tela, ou examinando cada pincelada, mas retrocedendo para obter uma visão do quadro como um todo. Sendo que “semelhante linguagem é o que mais se aproxima ao que é a eternidade, juntamente com a linguagem da música” (como em Handel e Bach), fazemos bem em perguntar com Hendrikus Berkhof “não deveria render-se aqui o dogmático ao poeta?”12

I.2. Uma Doutrina em Movimento

No mundo antigo a tradição hebraico-cristã era a única em seu conceito de história por ser dirigida por Deus. Os apóstolos e profetas mediam os grandes eventos na história do pacto, passado, presente e futuro, como movimentos dentro de um movimento linear interconectado dirigido teleologicamente para um “fim” divinamente estabelecido. Entre os povos circunvizinhos prevalecia um conceito cíclico de tempo. Por isso, as comunidades judaicas e cristãs eram privilegiadas com a oportunidade de oferecer respostas suficientes aos permanentes questionamentos da existência humana: de onde viemos? Como viemos a ser o que somos? Por quê estamos aqui? O que acontecerá conosco? Respondendo a estes temas o testemunho do Antigo e do Novo Testamento estabelece fundamentos firmes para uma escatologia cristã. Porque na cruz e na ressurreição “o mistério do reino é velado de forma mais impenetrável, e ao mesmo tempo revelado de forma mais gloriosa.” Agora, finalmente, o que foi apenas sussurrado no ouvido, pode ser pregado sobre os terraços. Com efeito, “a parousia do Filho do Homem se cumpre provisoriamente em sua ressurreição”.13

Na presente dogmática reformada o ponto de partida histórico é a teologia dos reformadores do século dezesseis. Todavia, é necessário considerar um comentário crítico de Hoeksema sobre a doutrina das “últimas coisas”. “No tempo da Reforma”, diz este autor, “a escatologia não recebeu o merecido lugar e atenção na dogmática”.14 Por isso, ao fazer a reflexão sobre este tema, os escritos dos reformadores somente oferecem uma fonte escassa de recursos. Nos círculos anabatistas eram explorados intensamente as visões bíblicas do reino vindouro. Lutero pelo contrário, somente tratou fragmentariamente a doutrina das “últimas coisas”. Calvino também, somente deu atenção passageira. Entre os seus volumosos escritos há uma notória ausência de um comentário sobre o livro de Apocalipse. Esta omissão com freqüência serve para conclusões de amplo alcance, inclusive existe a acusação de um suposto empobrecimento escatológico na tradição calvinista.

Entretanto, esta carência no legado teológico dos reformadores se entende melhor quando se observa em contraste com o contexto de desenvolvimento deste dogma durante os séculos anteriores. Um rápido resumo é suficiente para esclarecer este fato. Muitos dos antigos pais da igreja se dispuseram a sondar os mistérios dos “tempos finais” revelados na Escritura. Recorde os conceitos milenaristas de Irineu e Tertuliano, e as absurdas especulações de Orígenes. Durante várias gerações a reflexão escatológica se manteve num estado de grande fluência. Até que se desenvolveu um consenso acerca do retrato oferecido por Agostinho sobre o triunfo final da “Cidade de Deus” sobre a “cidade do mundo”. Todavia, em termos gerais, os antigos cristãos eram sustentados em sua fé por uma piedade prática que visava Jesus Cristo como a sua esperança de glória em meio das pressões de um mundo pagão.

Durante a Idade Média, a atenção escatológica se centralizou fortemente em objetivos alheios ao mundo. Despertou o santo ideal de uma “visão beatífica”. Ao mesmo tempo se atormentava as consciências dos crentes comuns com o espectro do purgatório de fogo.

Respondendo a estes desenvolvimentos, os reformadores introduziram uma mudança radical de ênfase. Nas muitas lutas espirituais desse importante século o tema mais urgente, que pressionava de forma urgente era transitar o caminho da salvação no aqui e agora da certeza da fé. A busca da segurança da salvação ocupou tão completamente o cenário central que deixou os temas escatológicos esperando nos corredores laterais. Assim, não podemos nos esquecer que aquilo era o século dezesseis. Somente no século dezoito que no Ocidente surgiu um sentido profundamente arraigado do desenvolvimento histórico. O pensar em temas escatológicos depende intensamente do pensar na história. Isto começou com o ímpeto no curso do Iluminismo. A negligência dos reformadores quanto ao “tema do mundo do futuro” pode ser atribuído ao seu fracasso em “perceber o tempo como um processo”.15 Por isso, durante o primeiro milênio e meio da era cristã, quando com freqüência a visão escatológica da igreja era confusa, ela nunca ficou eclipsada. A esperança dos crentes numa realidade que transcende a vida presente os fortalecia ao longo de sua peregrinação.

Com o começo dos tempos modernos foram produzidas mudanças revolucionárias. Nasceram novas escatologias, baseadas na idéia do “desenvolvimento de forças imanentes”.16 Surgiu o historicismo com ênfase no ideal de progresso secularizado. A vida foi reduzida a processos históricos, que reinterpretavam as escatologias bíblicas com utopias humanistas. O evangelho social do liberalismo moderno proclamou a possibilidade de um “céu na terra” se as pessoas inteligentes e de boa vontade se dedicassem a esta causa. O evolucionismo incluindo o darwinismo, cavalgaram sobre os cavalos de batalha. O existencialismo absorveu os horizontes futuros numa sucessão de momentos sempre presentes. Apareceu uma hoste de futurologias em recíproco conflito, algumas de perspectiva otimista, outras pessimistas. Enquanto a ciência e a tecnologia ofereciam a promessa de transformações instantâneas.

Em reação a estas tendências, a neo-ortodoxia ajudou a recuperar uma consciência profundamente escatológica do atuar de Deus no mundo. Todavia, tendia a subtrair a realidade presente da escatologia bíblica, a expensas de sua extensão histórica produzindo um colapso de sua dimensão horizontal em momentos de crises de encontro vertical. Uma reação ainda maior contra o futurismo do século dezenove apareceu com o fundamentalismo moderno, especialmente em seus ramos dispensacionalistas. Impulsionados pelo surgimento da Bíblia de Estudos de Scofield, em 1909, multidões de cristãos evangélicos saíram para recuperar terrenos perdidos. Agora, nos confrontam todos os dias com as profecias de um arrebatamento iminente, acompanhado de grandes tribulações, inaugurando o milênio e restabelecendo a Israel como teocracia.

Estas rápidas pinceladas descrevem esquematicamente a situação em que nos encontramos hoje. Há futurologias de esquerda, de direita e de meio. No meio destes ventos contrários de doutrinas, a escatologia bíblica ocupa um lugar estratégico em nossas agendas teológicas. É uma aventura altamente problemática, crítica, talvez, mais do que nunca; e talvez, por isso de crescente prioridade. Uma dogmática reformada não pode se fazer de surda às urgentes interrogações de nossa geração, como por exemplo, qual é o destino do homem e do mundo? Há esperança de um “final feliz”? Ou temos que preparar-nos para um iminente “dia de condenação”? Acaso é possível que o “apocalipse agora” já esteja sobre nós? Estes são os temas que devemos manter em primeira linha em nossos pensamentos ao explorar os contornos de uma escatologia bíblica. Reconhecendo que a dogmática como tudo o mais na vida, é em si um empreendimento escatológico. Também ela está “no caminho” do “ainda não” e também com aspectos de “já”. Portanto, temos que mantermos conscientes do nosso compromisso com uma “dogmática escatológica”.

I.3. Últimas Coisas/Primeiras Coisas

Como Palavra mediadora de Deus, Cristo é repetidamente identificado na visão de João tanto como sendo o Alfa absoluto (o “começo”), e o Omega (o “fim”) (Ap 1:8,11; 21:13). Não somente o mediador da criação e redenção, mas também da consumação. Porque nele Deus nos deu “a conhecer o mistério da sua vontade” como um plano para “reunir todas as coisas em Cristo, na dispensação do cumprimento dos tempos, assim as que estão nos céus, como as que estão na terra (Ef 1:9-10). Ele é “o homem para todos os tempos”. Tanto a protologia (doutrina das “primeiras coisas”) como a escatologia (doutrina das “últimas coisas”) estão centradas em seu alcance cósmico, em Cristo – e também tudo o que há entre ambas. Ao longo de todas as voltas e curvas da história do pacto, abrangendo a totalidade do alcance da vinda do reino, Cristo continua sendo a primeira Palavra de Deus e a sua última Palavra para o mundo. Porque



a união mais profunda entre a criação e consumação está em Cristo, o começo e o fim, o primeiro e o último, o Criador e Consumador. Ele une em sua própria pessoa, a criação e a consumação. Nele estes não são dois eventos infinitamente separados um do outro, mas uma só realidade unida nele, o Senhor vivo, por cujo poder a criação prossegue até a consumação e a consumação procede da criação. Tudo é criado por meio dele, e por intermédio dele tudo é renovado.17
Por isso, o escaton (a consumação) e o Escatos (o autor da Consumação) estão inseparavelmente ligados. Como no começo, assim também no fim, evento e Pessoa, história e kerygma, vão de mãos dadas. Porque “todas as coisas” sem exceção estão “em Cristo”. Em sua pessoa e obra tudo o que é criado está impregnado de sentido dado por Deus. A vida não somente tem sentido, como um dos seus atributos entre muitos. A vida é sentido. Deste modo, toda a vida, a vida em sua totalidade, é religião, por isso está cheia de sentido, plenamente cheia de significado. Assim foi no começo: a criação foi cosmos, não caos. O sentido pleno da vida foi definitivamente restaurado na cruz e a ressurreição, onde Cristo venceu o absurdo do pecado e do mal. Nesta “nova era” Cristo continua renovando o sentido da vida: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21:5). Deste ponto de vista a “escatologia é cristologia teleológica, ou seja, uma cristologia dirigida a um fim.” Não que a “escatologia seja co-extensiva com a cristologia.” De toda forma “para entender a escatologia... temos que centralizarmos em [Cristo] e determinar quem é ele”.18

A consumação indica a restauração final da nossa vida no mundo de tudo o que foi e que ainda há de ser. Inclusive toda a história do mundo se desenvolve escatologicamente para o seu escathon cristocêntrico. Este é o testemunho global da Escritura. O nosso conhecimento dos “tempos finais” de Deus, assim como o nosso conhecimento de seu “tempo criador” depende totalmente da revelação bíblica. Então, sendo que em ambos os extremos do drama escatológico “vemos confusamente através de um vidro” tanto nossa escatologia como a nossa protologia tem que ter a graça de uma saudável dose de “santa ignorância”. É responsabilidade nossa esquadrinhar as Escrituras, humildes e submissos, mantendo abertas as nossas vidas ao grande “dia do Senhor”. Ao avançar para ele, levamos esta convicção, de que Cristo não somente é o arché (o “ponto de partida”) de toda a criação, mas também o seu telos (sua “meta”). A sua parousia introduz “o fim, quando [o Filho] entregar o reino ao Deus e Pai...”. Porque “quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas [a Cristo], então também o Filho se sujeitará ao que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1 Co 15:24-28). Então “finalmente todo olho verá que o nosso mundo pertence a Deus” (Um Testemunho Contemporâneo, estrofe 58).



I.4. Dois Pontos de Vista

A escatologia não é um pensamento divino do fim, como um tema entre as últimas páginas de um diário perdido entre os obituários e os avisos. O seu tema: “o Rei vem” é a notícia dos títulos de primeira página, que se desenvolve seção por seção, desde a primeira página até a última. Não é um apêndice, mas um aspecto “integral da revelação bíblica”.19 Desde o começo até o fim a história da redenção é escatológica, ou seja, movendo-se até o seu “fim” estabelecido. Está teleologicamente dirigida para a sua meta. A partir da “promessa mãe” e abrangendo o chamado de Abraão, a criação de um “povo escolhido” para herdar a “terra prometida”, envolvendo os reis, o cativeiro, o retorno do exílio, e finalmente, através da preservação de um remanescente fiel, o atuar de Deus com Israel manteve o seu curso. Esta parte mais antiga do pacto alcançou o seu escaton na aparição do Messias como “a consolação de Israel” (Lc 2:25).

A encarnação não marca o fim da história, mas um novo começo na história bíblica, mas é um começo decisivamente novo. O atuar de Deus com o mundo excede as expectativas de Israel. Em sua vida, morte e ressurreição Cristo inaugura a fase final na história do reino. Os apóstolos enviados por ele foram os pioneiros dos “tempos finais”. Juntamente a eles temos entrado, agora, nos “últimos dias”. Estes são os contornos do drama bíblico, que nos fazem ler escatologicamente a história da redenção, como um drama de duas partes. Analisemos as diferenças destes dois pontos de vista, focalizando primeiro nos profetas e depois nos apóstolos.



I.4.1. Visão do Túnel

Até o amanhecer do grande “dia do Senhor” nem Israel, nem a igreja podem dizer “temos chegado”! Estamos juntos “no caminho”. O fator “ainda não” está sempre conosco. Ainda nestes últimos dias somos chamados a viver pela fé, não pelo que vemos. Mas em meio a nossa forma provisória de vida somos sustentados pelo “já” em Jesus Cristo. Todavia, para Israel as coisas foram muito diferentes. A sua visão escatológica foi ainda mais provisória, e sua fé ainda mais tentada. Tinham menos no que se segurar, e certamente, menos para ver. Viviam nas sombras de uma etapa exclusivamente “ainda não” na história da redenção, sem um “já”, sem uma realidade messiânica para a qual pudessem recorrer. Em Israel a fé estava orientada para uma promessa distante.



Por isso os profetas olhavam a frente de sua “era presente” para a “era vindoura” a sua perspectiva do futuro era compreensivelmente estreita. A partir de nossa vantajosa posição é possível diferenciar as duas vindas do Messias. Ao contrário dos profetas que padeciam de uma visão do túnel. Dentro de seu limitado campo visual estes dois horizontes escatológicos se uniram numa só crise de cataclisma (Lc 3:9,17). Esta expectativa de juízo e libertação representava o alcance completo de sua esperança messiânica, intensamente concentrada num “dia do Senhor” que estava se aproximando. A vinda do Messias e o fim do século eram considerados como sendo dois eventos que coincidiriam (Is 65:17-25). Mas mesmo dentro desta visão limitada há evidências de “um crescente enriquecimento da expectativa escatológica”.20

Esta idéia da convergência escatológica reflete tardiamente na pergunta dos discípulos se referindo ao “sinal da sua vinda” e ao “final do século” (Mt 24:3). As suas mentes ainda estavam moldadas pela expectativa profética em que as duas aparições de Cristo são tão próximas que os eventos relacionados à vinda final são comprimidas até entrar em “um quadro da primeira vinda”.21 Estas perspectivas sobrepostas, em que a consumação final se confunde com o seu cumprimento interino, levava os crentes do Antigo Testamento a metade do caminho. O Novo Testamento nos oferece um ponto de vista com maior claridade. Ainda que sejam diferentes a antiga e a nova perspectiva, os crentes daqueles dias, e nós em nossos, transitamos o mesmo caminho da salvação e aguardamos o mesmo escaton, quando o “século presente” dos profetas agora é “passado” para nós, e o “século vindouro” deles tenha se transformado em “últimos dias” (Hb 1:1-2). A era profética e a apostólica podem ser diferenciadas como a “introdução” e a “conclusão” desta fase final no drama escatológico que se desenvolve.

I.4.2. “Entre os Tempos”

O crente do Novo Testamento é consciente, por um lado, de que o grande evento escatológico predito no Antigo Testamento já ocorreu, enquanto que por outro, reconhece que outra série de eventos escatológicos ainda está por acontecer.22
Estes parâmetros definem os “tempos intermediários” na vida da comunidade cristã. A primeira “plenitude dos tempos” criou as condições para o nosso testemunho atual no mundo. Destaca a continuidade da obra da redenção de Deus. Porque precisamente em sua descontinuidade – como ocorre em todos os outros poderosos feitos de Deus, passados, presentes e futuros – a primeira vinda de Cristo assegura a continuidade escatológica do caminho da salvação, utiliza e localiza decisivamente como sendo o seu centro histórico.

Com a exaltação de Cristo os movimentos teleológicos que agora modulam a história do reino, avançam em passo acelerado. Os três dias que sacudiram a terra desde a sexta-feira santa até o domingo de Páscoa, estabeleceram o cenário para as expectativas messiânicas dos profetas que alcançaram o seu estreito clímax nesse “final” provisório. A partir daquele momento, a ressurreição (o “já”) e o seu retorno (o “ainda não”) sobressaem com o caráter definidor como acontecimentos dominantes que, juntos, definem os atos de abertura e conclusão no contínuo drama escatológico. Se bem que os profetas viam o cumprimento e a consumação como um único evento, altamente cumprido, os eventos cruciais servem como um conjunto de “páginas finais” que reúnem a mensagem do evangelho. Em nossa posição, o motivo do cumprimento indica retrospectivamente a inauguração destes “últimos dias”. O motivo da consumação aponta adiante, para a sua consumação no grande “dia do Senhor”. A presença de Cristo unifica inclusive neste período de ausência, o resultado dos dois eventos. Ainda que separados por séculos no correr do tempo, a primeira e a segunda vinda de Cristo representam as “primícias” e a “colheita final” da história do pacto. No ínterim “Cristo dá para a criatura reconciliada o tempo e espaço para que possa participar na colheita23, não como mero espectador, mas como colaborador”.

O “ainda não” escatológico não é norma para a vida cristã, como se apelássemos a ele numa desculpa para as nossas faltas. Nossa norma é a obediência ao “já” da ordem da criação, redentoramente atualizado na cruz e a ressurreição. Porque como disse Paulo, assim como “Cristo ressuscitou dos mortos” nós somos chamados “a viver em novidade de vida” (Rm 6:1-4). A parousia que se aproxima é como uma lembrança constante de que juntamente com toda a criação nós “ainda não” somos as criaturas plenamente restauradas que ainda seremos. “O caminho do ‘ainda não’ somente pode ser um caminho para a glória” se “for construído com a permanente perspectiva suprida pelo ‘já’”.24 Porque as janelas do futuro se mantêm agitadas pelas brisas que sopram através da porta aberta do passado. Esta “relação entre o ‘já´’ e o ‘ainda não’ constitui a característica da comunidade de crentes”.25

A cruz e a ressurreição marcam o permanente ponto definidor na história. Por isso “o centro do tempo já não está no futuro... como ocorre no judaísmo, mas no passado, ou seja, na vinda e obra de Cristo”.26 Esse passado decisivo está relacionado com o futuro prometido como “o caminho para o final”.27 Ao transitar este caminho “há uma relação tão estreita entre o presente e o futuro,”28junto com o passado que os escritores do Novo Testamento com freqüência nos impulsionam, por assim dizer, a dirigir os nossos olhos simultaneamente para frente e para trás com o propósito de ver com maior clareza o “terreno intermediário” que agora ocupamos, ou seja, ao fazer uma única olhada para ambos os “extremos”. Por isso, nos “tempos intermediários” não são um vazio cristológico, um solitário interlúdio entre a realidade passada de Cristo vista como interlúdio, e sua realidade futura vista como um poslúdio. Porque “sempre e em todos os eventos da história... Jesus está vindo, e já veio.”29 O Catecismo de Heidelberg testifica desta “ausência sempre presente” de nosso Senhor: porque “em sua natureza humana Cristo não está [conosco] na terra; mas em sua divindade, graça e Espírito não está por um só momento ausente de nós.”30

Esta perspectiva também nos abre uma visão cósmica. Agora que estamos participando do “estado final cumprido provisoriamente, ... a totalidade do mundo assumiu um aspecto e um caráter novo”.31 Por isso, a cada momento está escatologicamente engravidado; toda a criação, e nós com ela, estamos gestantes “com dores” de parto, esperando ansiosamente a sua redenção final (Rm 8:18-25). Por isso, podemos afirmar confiantemente: em toda a vida não há nada que seja religiosamente neutro. O mito da neutralidade caiu exposto para sempre como a mentira que é.

Por isso, “os últimos dias” já estão conosco. Obviamente não são “últimos” no sentido de introduzir coisas novas que vão ocorrer somente quando todo o passado ficar esquecido. Nem devemos considera-los como “finais” depois dos quais já não ocorrerá mais nada. O seu caráter de “últimos”, a sua natureza final, indica o seu desenvolvimento medindo a história escatológica, que com crescente força entra, como que aumentando, na consumação de todas as coisas. Viver corretamente neste “últimos dias” significa estender-se com a expectativa da aproximação daquele grande “dia do Senhor” em meio a todos os nossos dias ordinários. Porque o kairos final (o tempo do retorno de Cristo) não reduz a importância do nosso cronos diário (o tempo contado no presente), mas lhe outorga significado penúltimo. Todo tempo é tempo de Deus. O seu kairos molda o nosso cronos. Devemos abrir-nos para o kairos escatológico que vem em meio à experiência do nosso rotineiro cronos. Esse definitivo “tempo do fim” lhe outorga urgência tanto cronológica como escatológica para a nossa tarefa diária.

Ao avançar, geração após geração, “entre os tempos”, a Escritura nos assegura que a nossa salvação “está mais próxima de nós... que cremos” (Rm 13:11) – uma passagem que levou Barth a introduzir em seu antigo conceito de escatologia, radicalmente vertical, uma maior medida de movimentos horizontais. A nossa direção para o futuro está determinada por um sentido linear de tempo dividido. Por esta “proximidade” implica mais do que temporalidade cronológica. Também nos confronta com todo o peso de um caráter decisivo carregado de kairos. O nosso é tempo de crise medido pelas normas do reino que vem. Por isso, o “fim” sempre está próximo. Porque pela sua Palavra e Espírito o Rei sempre está próximo.

Pelo fato de que “o Senhor está próximo” podemos viver tranqüilos, despreocupados (Fp 4:5-6; Mt 6:25-34). Porque o resultado está garantido. Ao mesmo tempo, o aspecto do “ainda não” destes tempos intermediários nos impulsiona a estar na ativa expectativa. O aspecto do “já” não alivia, senão que intensifica a terrível realidade de reinos em conflito em cada esfera da vida, a política, leis internacionais, relações sociais, educação, sindicalismo, e todas as demais coisas. Porque “com o crescimento e desenvolvimento do reino de Deus na história do mundo desde a vinda de Cristo, também temos o crescimento e desenvolvimento do ‘reino do mal’ (Mt 13:24-30, 36-43).” Então, como disse Hoekema



aqui voltamos a ver a ambigüidade da história. A história não revela um triunfo simples do bem sobre o mal.... O mal e o bem seguem existindo um lado do outro. O conflito entre ambos continua durante esta era, mas Cristo ganhou a vitória, o resultado final do conflito nunca é questionado. O inimigo está pelejando uma batalha em derrota.32
Tomando emprestado a tão conhecida analogia de Oscar Cullmann, vivemos entre o dia D e o dia V. O grande “Dia da Decisão” de Deus teve lugar na cruz e na ressurreição. É um evento ocorrido de uma vez por todas, que não pode ser repetido. O “dia da Vitória” final aparece no horizonte. Com impaciente afirmação e na certeza da fé transitamos até o apocalipse que vem. Porque a “esperança da vitória final é melhor vivida devido a inamovível convicção de que a batalha que decide a vitória já foi vencida”.33 O retorno de Cristo esclarecerá plenamente o mistério e o caráter oculto que ainda está em nosso entendimento da sua primeira vinda. Porque a consumação significa completar o cumprimento. Entretanto, a comunidade cristã vive “sobre a base da parousia e para a parousia”.34
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