A consumação por



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I.5. A “Grande Demora”

“Certamente, venho sem demora!” (Ap 22:20). Com estas palavras de despedida, no final do primeiro século, que ressoaram em tom apocalíptico na ilha de Patmos, Cristo disse um adeus final a sua igreja. Todavia, não tocou nenhuma nota nova. O que João ouviu reflete fielmente o que Jesus havia proclamado durante a sua missão terrena: “... sabeis que o [Filho do Homem] está próximo à porta” (Mt 24:33). Esta perspectiva iminente escatológica também entrou no testemunho, proclamação e ensino dos apóstolos. Ainda que a preocupação de Paulo não era de “fixar o tempo”, há “razão para crêr que [ele] vivia na expectativa e uma parousia de imediata realização”.35

Aparentemente muitos dos primeiros cristãos avaliaram as profecias de Cristo como iminentes. Mas não passou muito tempo e surgiram questões. O quão sem demora é “sem demora”? “O Senhor está próximo” (Fp 4:5) – certamente tem que significar “ao alcance”. “O tempo está próximo” (Ap 1:3). Mas o que devemos pensar quando “próximo” resulta em ser mui longe? Por acaso Jesus não havia declarado enfática e repetidamente que a primeira geração de seus discípulos veriam em vida “ocorrer todas estas coisas”? (Mt 10:23; 24:34; Mc 9:1; 13:20). Alguns membros da congregação de Tessalônica deduziram que se “o fim” estava na curva da esquina, a resposta apropriada seria abandonar as suas respectivas atividades. Paulo reprova esta atitude. Os convoca a voltar a ordem: “não vos canseis de fazer o bem” (2 Ts 3:6-15). Esta tensão escatológica estava nas discussões dos céticos: “onde está a promessa de seu advento?” (2 Pe 3:4). A primeira vinda de Cristo, afirmavam, não havia produzido nenhuma diferença. Em nenhuma parte se percebia o seu retorno. As coisas em nada mudaram.



Assim surgiram as dúvidas. Por acaso estava desfocalizada a fé original dos discípulos? Por acaso Jesus havia calculado errado? Ao longo dos séculos a experiência desta “grande demora” tem lançado sombras perturbantes sobre as esperanças escatológicas de muitos cristãos. Outros acomodaram estes sentimentos de desilusão lendo nos escritos do Novo Testamento um período prolongado de tempo, de modo que a “solução de mudança” para a crise seriam expectativas pospostas. As hermenêuticas dos tempos modernos, com as suas cosmovisões seculares e suas ferramentas de análise crítica, têm transformado este problema da fé numa construção teológica radicalmente alterada, ou seja, num futuro completamente aberto.

Fundamentalmente é a resposta de Pedro (2 Pe 3:1-13) que tem que se manter em vigência. É Deus quem mede os nossos tempos e estações. O seu modo de contar a “proximidade” difere do nosso – “mil anos ... um dia.” Como resultado do imenso impacto do “já” se produziu uma mudança global na relação escatológica promessa/cumprimento e o “ainda não”. Porque “como a salvação veio por meio da morte e ressurreição de Cristo, o problema da data da parousia já não pode ser de importância decisiva”.36 Dentro destes novos horizontes da “proximidade” continua sendo um “componente absolutamente essencial na proclamação escatológica do Novo Testamento”.37 Por isso o tema da “proximidade” na iminente parousia não nos confronta como “uma crescente crise na expectativa da fé, mas como um urgente chamado de alerta”.38 O “problema da demora” somente pode se converter em motivo de distanciamento espiritual quando o “já” não é honrado plenamente.

Inclusive hoje, transcorridos dois mil anos, e enquanto antecipamos as frenéticas especulações que aparentemente sempre acompanham a aproximação do fim de um século, o chamado bíblico volta a ter vigência, uma vez mais: o mais decisivo não é a proximidade ou longevidade da consumação, mas a sua certeza. O evangelho anula todos os intentos de calcular o tempo e lugar (Mt 24:23-28). Por isso é “preferível nem sequer usar o termo ‘demora’ – pois, só o seu uso implicaria um cálculo”.39 Os detalhes do escaton estão exclusivamente nas mãos do Escatos. Como diria Calvino: “tanto o começo como o final da nova vida, estão a disposição [de Deus]”.40 A experiência de “demora” não indica um verdadeiro erro no testemunho bíblico ou um verdadeiro atoleiro escatológico. Porque

na análise final o fator “próximo” não implica uma pergunta quanto a importância do período intermediário, mas da inseparabilidade entre o futuro e o presente.... O significado do tempo interino não pode proceder do “problema da demora da parousia”, mas do motivo global do cumprimento.41
A crono-logia está carregada de oportunidade (kairos). Ela cria o tempo e espaço para a obra capacitadora do Espírito, para a vida no pacto, o desenvolvimento do evangelho, para os projetos do reino. Portanto, temos que ser diligentes e “aproveitar bem o tempo” (Ef 5:15-16). Temos que viver com “um sentimento de urgência, compreendendo que o fim da história, tal como a conhecemos, pode estar muito próximo, mas ao mesmo tempo temos que continuar planejando e trabalhando por um futuro na terra atual que ainda pode durar muito tempo”.42 Somos chamados a “uma atitude que não conta o tempo, mas constantemente conta com a vinda do Senhor. Então, ainda que ‘inesperada’ ela não seria ‘não-esperada’”.43

I.6. Então, Como Devemos Viver?

O Novo Testamento semeia esta pergunta com insistência escatológica. O tempo é breve; portanto, “conduzi-vos sabiamente”, “perseverai em constante oração”, tratem aos outros “justa e corretamente”, “vigiai” e sejam “agradecidos” (Cl 4:1-6). O cenário é semper paratus (compare Mt 25:1-13), que não significa olhar constantemente para perceber o retorno de Cristo. Mas implica uma atitude de disposição para este futuro, fundamentada numa clara recordação do passado. Um sentimento de dever cumprido e expectativa segue de mãos dadas. Porque “a igreja é a igreja do futuro”; mas a sua expectativa está “baseada no fato de haver se cumprido.”44 A medida que o futuro penetra no presente, devemos esquadrinhar o horizonte, por assim dizer, com um olho atento ao prometido retorno do Senhor e o outro atento as tarefas que temos nas mãos.

O apocalipse surpreenderá a maioria das pessoas desprevenidas, surgindo como um ladrão na noite (1 Ts 5:2; Lc 12:35-40). Nunca está ausente o elemento surpresa (Ap 3:3; 16:15). Mas a medida do nosso susto será na mesma proporção inversa a medida da nossa atitude de vigiar, de estarmos despertos, de cumprirmos com os nossos deveres. Todavia, o vigiar não requer nenhuma decisão nova além do constante chamado a uma resposta obediente ao Cristo do evangelho.



Por isso, a escatologia bíblica não é lançada para um retiro, para outro mundo, abandonando os chamados recebidos por Deus. Nem tem um “significado negativo, mas positivo para a vida no presente”.45 A expectativa do futuro fortalece o nosso presente mandato. Porque as normas da Palavra de Deus não mudam. São as mesmas desde a criação até a consumação. Entre o passado e o futuro de Deus a nossa vida tem um caráter provisório. Mas não trás consigo um conjunto de “éticas situacionais” separadas do mandato cultural. Certamente somos chamados a “olhar as coisas de cima” (Cl 3:2). Recordando, todavia, que este mandamento não é estrutural em seu propósito, dizendo-nos “onde” viver as nossas vidas, mas direcional, dizendo-nos “como e em nome de quem” viver. A melhor forma de buscar as coisas de cima é participar na missão de Deus neste mundo. Porque “a união entre a expectativa escatológica e o chamado para a missão é essencial e indissolúvel”.46 O que tem valor é a “santa mundanidade” e não uma preocupação obsessiva pela nossa própria e antecipada ‘bem-aventurança eterna.” Porque “sem uma visão do mundo, a expectativa cristã é cega e manca, e a presença cristã é farisaicamente separatista, ou misticamente imersa em si mesma”.47 “Nada há no evangelho que proíba [aos cristãos] de serem leais a vida, a terra e a cultura.”Ao contrário, o evangelho nos urge a “aceitar a vida durante o tempo que Deus nos dá para desfruta-la,”48ou seja, como pacificadores, guardiões da terra, advogados da justiça e agentes do amor ao próximo.

Capítulo 2

O Milênio

Ser advertidos antecipadamente é ser deste modo armados. Estamos entrando numa “zona de guerra”. Por isso, vem ao caso uma palavra de cautela.



Demasiadas vezes as batalhas da teologia foram levadas não somente em... “condições de escassa visibilidade”, mas também contra oponentes que estão mortos e cuja literatura foi relegada as últimas estantes das bibliotecas o da lixeira. E, isto é especialmente verdade quanto à controvérsia sobre o milênio.49

II.1. Uma Voz, Muitos Ecos

Na tradição do nosso cristianismo ocidental tem se produzido uma avalanche considerável de literatura teológica sobre a idéia do reinado de Cristo durante “mil anos”. Conceitos fascinantes, muitas vezes engenhosos, às vezes idéias fantásticas da história do mundo têm brotado ao redor de uma única passagem bíblica que faz menção ao milênio, ou seja, Apocalipse 20:1-6. Ali encontramos em seis breves versículos cinco referências a (ta) chilia ete “[os] mil anos” de onde derivamos o conceito de “quiliasmo”.

Ao longo dos séculos surgiram inúmeras teorias escatológicas que cobrem a totalidade do destino do cosmos e da raça humana. Em formas secularizadas as idéias quiliastas modelaram tanto os sonhos facistas de uma “solução final”, ao problema humano (“Terceiro Reich” de Hitler), como também as idéias marxistas de uma sociedade utópica. Em muitos círculos cristãos esta ligeira referência na visão de João funciona como a chave da fechadura hermenêutica através da qual se adverte e reconstrói todo o drama bíblico desde o Gênesis, passando por Ezequiel e Daniel até o Apocalipse. Quatro escolas principais de pensamento surgiram, que vão desde o amilenismo, pósmilenismo e prémilenismo histórico ao prémilenismo dispensacionalista tendo todas as suas raízes em diferentes interpretações do significado bíblico de “milênio”, vocábulo proveniente do latim Mille, que significa “mil”, e annus, que significa “ano”.

Repetidas vezes as comunidades cristãs suportaram dolorosos cismas devido a estas diferentes interpretações. Não somente está em jogo a natureza do milênio, mas também a seqüência histórica dos eventos relacionados a ele. Em que lugar do tempo e do espaço devemos localizar este “século de ouro?” Como estão relacionados o “arrebatamento”, a “dupla ressurreição” e a “grande tribulação”? Estas considerações motivaram Berkouwer a dizer que: “o que realmente está em jogo na interpretação de Apocalipse 20 é a cronologia”.50 Os desacordos exegéticos referidos a parousia, é se esta ocorrerá antes, durante ou depois da “grande tribulação”, têm desencadeado a aparição de posicionamentos antagônicos “pré-tribulacionismo,” “mid-tribulacionismo” e “pós-tribulacionismo”. A igreja evidentemente carece de uma voz unificada. A sua trombeta está dando um som incerto.

Todavia, estas lamentáveis divisões são parte de um quadro maior. Porque a hermenêutica bíblica de uma comunidade anda de mãos dadas com a sua cosmovisão. Por isso, “os aspectos exegéticos da discussão com freqüência tomam um lugar posterior quanto aos argumentos mais gerais referidos na estrutura do mundo”.51 Por isso, mesmo uma ligeira exposição da passagem sobre o milênio demonstra, segundo o comentário de D.H. Kromminga que “não se esgotam os diferentes conceitos escatológicos.” Este estado de coisas é tanto de maior gravidade porque “a perspectiva escatológica de uma pessoa determina a estimação de seu próprio tempo.” Isto é igualmente certo para os amilenistas e premilenistas como para os posmilenistas”.52

II.2. Em Retrospectiva

As expectativas milenistas já eram amplamente difundidas na igreja primitiva. A maioria dos primeiros pais imaginava alguma forma de restauração cósmica. Recorda-se da idéia altamente especulativa de Orígenes, de que esta criação não é senão uma numa “série de mundos”. Todavia, o uso que os pais faziam da Escritura para apoiar os seus conceitos, era com freqüência pouco convincente, expondo a influência dos métodos alegóricos na interpretação. Os conceitos de Irineu são muito representativos. Citando Gênesis 27:27-29, Irineu explica que a benção dada por Isaque a Jacó “se refere indiscutivelmente ao tempo do reino, quando os justos ressuscitarão e reinarão; quando a criação, renovada e livre, produzirá alimento de toda espécie e em abundância...”. Apelando para a tradição apostólica Irineu continua:



Virão dias quando crescerão vinhas, cada uma com dez mil brotos, e cada um dos brotos com dez mil ramas, e cada rama com dez mil cachos, e cada cacho com dez mil uvas; e cada uva, ao ser exprimida dará vinte e cinco medidas de vinho. E quando qualquer dos santos pegar um dos cachos, o outro cacho exclamará dizendo “sou melhor cacho; me escolha”. Da mesma maneira um grão de trigo produzirá a mil espigas, cada espiga a dez mil grãos, cada grão dez libras de pura farinha branca. E as frutas, sementes e ervas produzirão na mesma proporção. E todos os animais, desfrutando destes frutos da terra, viverão em paz e harmonia, obedientes ao homem em plena submissão.53
Tertuliano alimenta esperanças similares:

Porque nós também sustentamos que um reino nos foi prometido na terra, mas antes (que alcancemos) o céu: num estado diferente deste, como posterior a (primeira) ressurreição. Este durará mil anos, numa cidade construída por Deus, Jerusalém. Porque, certamente é correto e digno de Deus que os seus servos também se regozijem no lugar onde sofreram aflições em seu nome. Esse é o propósito de tal reino, que durará mil anos; período durante o qual os santos ressuscitarão antes e depois, como o grau de seus méritos; e então quando a ressurreição dos santos estiver completa, se realizará a destruição do mundo e a guerra do juízo; nós seremos “transformados num instante” em substância angelical ao “vestirmos a incorruptibilidade” e seremos transferidos para o reino celestial.54
Estas perspectivas quiliastas mantiveram-se amplamente entre os primeiros cristãos, aparentemente até a aparição da “má interpretação agostiniana”. Em sua tese: a Cidade de Deus/Cidade do Mundo, o bispo de Hipona se inclinou por um conceito que vê o milênio como uma realidade do reino presente. “Depois de Agostinho” diz Kromminga, “o quiliasmo parece ter desaparecido da igreja.” A sua exegese de Apocalipse 20 “tendia a afastar as pessoas comuns do quiliasmo”. Desde então a igreja padeceu uma “carência de grandes expoentes do quiliasmo”.55 Durante a Idade Média prevaleceu uma forma altamente eclesiástica de milenarismo agostiniano. Durante o período da Reforma, Lutero, Calvino e outros reformadores recuperaram os conceitos amilenistas mais originais de Agostinho. Retrocedendo aos quiliastas que “limitaram o reino de Cristo a mil anos”, Calvino afirma que “o Apocalipse de onde indubitavelmente tiraram o pretexto para o seu erro, não os aprova. Porque o número ‘mil’ (Ap 20:4) não se aplica a eterna bem-aventurança da igreja, mas unicamente as diversas perturbações que [do ponto de vista de João] esperava a igreja enquanto esta seguiria lutando na terra”.56

As circunstâncias radicalmente mudadas que seguiram na estrela do Renascimento e da Reforma, ou seja, o surgimento dos ideais democráticos, o pluralismo religioso, e a secularização das principais igrejas durante o período moderno, criaram o clima que conduziu ao nascimento e difusão de uma multidão de teologias milenaristas atualizadas. Estes desenvolvimentos continuaram, sem trégua, chegando a esta última década do século vinte.57 Com poucas exceções todos estes conceitos quiliastas da história se ajustam a um ou outro dos tipos básicos, agudamente contrastantes, antes mencionados, ou seja, o posmilenismo, o premilenismo era em sua forma histórica ou dispensacionalista, ou o amilenismo.

II.3. Tipos Básicos de Escatologia

Cada uma destas principais teologias milenistas requer ao menos uma breve discussão.



II.3.1. Pósmilenismo

Este conceito chamado, às vezes, “quiliasmo da era presente da igreja” olha para um “futuro de máximo desenvolvimento do poder de Cristo e do Espírito no transcurso desta dispensação”.58 O “evangelho social” do liberalismo moderno representa uma revisão radical da idéia bíblica do milênio. Os seus expositores introduziram uma “mudança de catástrofe para desenvolvimento.” Sustentavam que “a evolução [introduzirá] gradualmente o milênio”.59 Entregues a noções de otimismo cultural, ligados aos conceitos darwinistas de história, os liberais projetaram o ideal de um contínuo progresso evolucionário como resultado de conquistas humanas, alheios a toda noção de um desastre da intervenção divina. Em suas formas mais históricas, ortodoxas, o posmilenismo antecipa o começo da “era de ouro” que introduz o retorno de Cristo “sem nenhuma classe de eventos catastróficos”, mas apenas pela “mera operação do evangelho e do Espírito”.60 Conseqüentemente, como o expressa Lorraine Boettner, um advogado do posmilenismo:

O posmilenismo espera uma idade de ouro, porque não será essencialmente diferente da nossa própria no que se refere aos fatos básicos da vida. Esta era desemboca gradualmente na era do milênio à medida que uma proporção crescente dos habitantes do mundo se converterão ao cristianismo.... Desaparecerão as heresias atuais, como ocorreu no passado.... [Assim] a vinda do milênio será como a chegada do verão, ainda que em forma muito mais lenta e numa escala muito maior.61
No caminho para a parousia o mal será reduzido “a proporções insignificantes, os princípios cristãos serão a regra, não a exceção à medida que o evangelho vai penetrando persistentemente no mundo, e “Cristo retorne para um mundo verdadeiramente cristianizado”.62 Anthony Hoekema, um amilenista, considera este conceito como “uma simplificação romântica da história que certamente, não conta com o apoio da informação bíblica”. Em seguida acrescenta que “Cristo ganhou a vitória decisiva sobre o pecado e Satanás, de modo que o resultado final da batalha nunca está em dúvida. Todavia, a antítese entre Cristo e seus inimigos continuará até o final”.63

À medida que as acumuladas esperanças de paz são repetidamente anuladas em nossos tempos, e por “não oferecer nenhuma voz viva em defesa própria” Lewis Sperry Chafer, um ardente proponente do premilenismo dispensacionalista, declara que: “o posmilenismo está morto”.64

II.3.2. Prémilenismo

Como o nome indica, os premilenistas crêem que Cristo voltará antes do milênio para inaugurar “um reino de mil anos de paz sobre a terra”. Berkouwer se refere a esta antecipada idade de ouro como a um “escaton temporário”, um “intermeio na história”.65 Ridderbos considera este conceito de um “interlúdio milenar” como um tropeço maior no caminho de uma escatologia bíblica. Porque o conceito neotestamentário da história da redenção não oferece “base para a idéia de que com a parousia se alcança somente um objetivo provisório.”66 Segundo as premissas premilenistas o conceito resultante da era atual está carregado de “uma visão muito sombria dos desenvolvimentos históricos”. Com agudo contraste com o posmilenismo “não acumula nenhuma expectativa de um governo de paz que se apresente segundo as linhas evolutivas; espera sim, uma evolução demoníaca que será interrompida de maneira transcendente por Cristo que vem em seu reino de glória”.67 Conseqüentemente, os premilenistas históricos “esperam um reino de Cristo na terra por um período de mil anos depois de seu retorno, e antes de ser introduzida a etapa final”.68

Entretanto, ao aproximar-se a parousia, primeiro tem que ocorrer numerosos eventos: “a evangelização das nações, a grande tribulação, a grande apostasia ou rebelião, e a aparição de um anticristo pessoal”. Logo em seguida, o governo visível de Cristo sobre todo o mundo – “um reino que durará aproximadamente mil anos, [reinando] com ele o seu povo redimido... as nações incrédulas que, todavia, estarão sobre a terra serão controladas e governadas por Cristo com vara de ferro”.69

Todavia, esta expectativa milenarista é algo como que “uma anomalia teológica.” “Nem é completamente semelhante a era atual, nem é completamente como a era vindoura”.70 Visto no contexto do testemunho global do Novo Testamento, a escatologia premilenista lhe incorporou uma enorme ambigüidade, ou seja, “por um lado está o triunfo [de Cristo], o amarrar do valente; por outro lado, continua a atividade do mal, a presença do diabo”.71 Uma ambigüidade relacionada está implícita no conceito premilenista do “arrebatamento” iminente. O seu conceito dos “mil anos” tem uma forma muito terrena. Ao contrário, o arrebatamento com freqüência é delineado em termos de uma fuga para outro mundo, tal como se exibe abertamente nos adesivos de carros: “em caso de arrebatamento, este veículo não terá condutor”. Com freqüência se deixa a impressão de que Cristo arrebata os seus seguidores ao céu. Todavia, quando a Escritura fala da nossa “reunião com ele [Cristo]” (2 Ts 2:1), e da nossa “[aparição] com ele em glória” (Cl 3:4), e de Deus “trazendo consigo aos que dormiram nele” (1 Ts 4:14), a ênfase destas passagens é terrena. Porque a “parousia de Cristo é dirigida [precisamente] para a terra.” Conseqüentemente, “este ir dos crentes ao encontro do Senhor tem o significado de ser localizados com Cristo em sua vinda, a demonstração aberta de pertencer a ele, e de ser o seu povo, ... de ser incluídos em sua companhia, de moverem-se em sua comitiva, de vir com Cristo em sua glória”.72

Uma vez aceita a interpretação premilenista de Apocalipse 20 como chave hermenêutica para o significado pleno da Escritura, é praticamente impossível resistir a tentação de se ler os escritos paulinos nesta luz. Como disse Ridderbos referindo-se a 1 Coríntios 15, ainda que não existe aqui a idéia de “um reino intermediário, esta é claramente introduzida na leitura”.73 De igual modo, disse Berkouwer que ler esta passagem como uma “referência paulina ao milênio, sente-se o sabor de uma excessiva influência procedente de Apocalipse 20”.74

Em sua mais desenvolvida forma dispensacional o premilenismo, levado com freqüência a um frenesi popular, estimulado pelo surgimento da Bíblia Scofield no princípio do presente século.75 Com ela houve uma reconstrução completa da história da redenção. O princípio básico do dispensacionalismo é a sua aguda distinção entre Israel e a igreja. Deus tem dois propósitos na história, encarnados nestes dois povos, propósitos que mantêm se diferentes ao longo de toda a história e pela eternidade. A sua hermenêutica envolve “o sentido e significado de toda a Bíblia, define o significado e curso da presente era, determina os propósitos atuais de Deus, e dá a teologia o seu material e método.”76 Conseqüentemente, “o seu conceito da era presente faz com que o período entre os adventos se tornem singulares e imprevisíveis no Antigo Testamento.” Durante esta dispensação “o mundo se torna ... paulatinamente mais mal a medida que o século transcorre.”77

Segundo este conceito, a história bíblica geralmente é dividida em sete dispensações que vão desde a criação do primeiro Adão, até a parousia do último Adão. Porque “Deus opera no mundo da humanidade no transcurso da história sobre a base de diversos pactos.” Cada uma destas dispensações representa uma “prova diferente do homem natural; e sendo que o homem não satisfaz as sucessivas provas, cada dispensação termina em juízo.” Dessa forma os dispensacionalistas chegam a uma “nova filosofia da história da redenção, em que Israel tem um papel preponderante e a [era da] igreja não é senão um interlúdio”.78 Os dispensacionalistas introduzem uma cunha entre o Antigo e Novo Testamento. O primeiro é considerado como o livro das manifestações passadas do reino, o Novo como o livro da vida atual da igreja. O reino em sua glória restaurada espera o milênio futuro. Porque “milênio e reino indicam exatamente as mesmas coisas”.79 Inclusive o crítico bem intencionado não pode deixar de perguntar: o por quê, então, da singularidade do caminho salvação?


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