A consumação por


II.3.3. Comentários Provisórios



Baixar 246.13 Kb.
Página3/5
Encontro29.07.2016
Tamanho246.13 Kb.
1   2   3   4   5

II.3.3. Comentários Provisórios

O posmilenismo é freqüentemente considerado como uma escatologia da “igreja histórica” e o premilenismo como uma escatologia da “história do fim.” Geralmente estes dois conceitos da história da redenção são tomados de forma diametralmente oposta entre si, inclusive mutuamente excludentes. Não obstante, compartilham uma preocupação comum na cronologia. Ambos olham para o milênio como um lapso de tempo de “mil anos” especificamente definível como um “período de ouro”, ainda que orientados por calendários muito diferentes. Mas ambos são inclinados a dedicar muita atenção a “teologia da informação”. O erro dos quiliastas em geral é que consideram o Apocalipse como “história escrita antecipadamente” baseando-se numa falsa presunção de que “ao decodificar corretamente o Apocalipse podemos escrever antecipadamente a história”.80

O elemento de verdade do quiliasmo em sua forma posmilenista é seu vigoroso compromisso com a criação presente e a sua fervorosa esperança da renovação do mundo de Deus. Esta “expectativa ardente, apaixonada por esta terra, e a existência terrena” é alimentada por um “motivo anti-espiritualista” freqüentemente unido a um “aspecto utópico”.81 Por outro lado, o premilenismo oferece escassa esperança para a presente era, unicamente a perspectiva de continuas provações e tentações, e eventualmente um tempo de tribulação severamente intensificada operada pelos poderes satânicos. Por isso, estas duas escatologias se diferenciam principalmente por aspectos de calendário, ou seja, se o anunciado reino de paz será estabelecido durante esta dispensação ou na que segue.

Então, ficamos sem uma alternativa biblicamente segura? Não há outra opção que possamos escolher que não seja entre o otimismo cultural de um e o pessimismo cultural do outro? Felizmente existe um autêntico “terceiro caminho”. Não estamos obrigados a unir-nos à visão de uma realização intra-histórica do reino, nem à de uma esperança diferida de uma expectativa exclusivamente pós-histórica. Como disse Berkouwer “rejeitar a certeza de um milênio transcendente é como rejeitar a certeza de uma penetração evolutiva no milênio”, não significa ver o futuro com menos segurança e esperança.” Assim sendo “essa menor certeza” não implica numa “expectativa escatológica mais débil”. Tampouco “limita a esta expectativa, mas a estimula.” Porque a fé sempre descansa na “certeza de que os caminhos de Deus são e continuarão sendo inescrutáveis”.82

II.4. Decisões Hermenêuticas

Analisar as opções milenaristas que nos são acessíveis, e assumir uma posição implicam tomar algumas decisões hermenêuticas. Não é surpreendente que o princípio de interpretação que modela a totalidade deste estudo dogmático se incline decisivamente por uma escatologia amilenista. A “analogia da Escritura” que fundamenta este enfoque da história bíblica também tem que ser honrado quando se tenciona esclarecer o significado de Apocalipse 20. Conseqüentemente, o milênio é o aspecto integral do desenvolvimento do tema central, ou seja, criação, queda, redenção e consumação no drama bíblico. Assim como a criação possui um começo bem definido, também se move para um escaton decisivo, não a um interlúdio provisório de “mil anos” entre o atual “tempo final” e o último “dia do Senhor”. O contexto total da história do pacto/reino é o contexto permanente para se ler Apocalipse, e para assim entender o seu lugar e significado no contínuo fluxo da história da redenção. A cosmovisão bíblica tem que formar a nossa interpretação de Apocalipse 20.



Esta clássica passagem sobre o milênio também requer decisões quanto ao seu gênero literário. João escreve estando “no Espírito no dia do Senhor” (Ap 1:10). Sob essa inspiração começam a desenvolver as suas visões. Como bispo exilado de um grupo de jovens igrejas, se encontra na “ilha de Patmos” (Ap 1:9). Esta é a sua base de operações. Mas as revelações que recebe vem em forma de imagens apocalípticas. Por isso, o que nos deixa é “um livro altamente simbólico”.83 Isto é demonstrado pelo repetido uso de valores numéricos, tais como “sete”, todos eles com uma carga de significado simbólico, por exemplo, sete candeeiros, sete estrelas, e sete igrejas; um livro selado com sete selos, sete anjos tocando a sete trombetas, sete tronos, sete copos de ira, sete reis. Um tema apocalíptico similar baseado em números mostra que os ais e os três espíritos imundos, o vinte e quatro anciãos sentados nos tronos, os 144 mil escolhidos, a cidade com as doze portas, a árvore da vida com doze frutos, e o número da besta 666. Igualmente o conceito “tempo e tempo e metade de um tempo”, ou seja, três e meio, ou 42 meses, referidos simbolicamente a um período de tempo estabelecido. A idéia de “mil anos” pertence à mesma classe de tipologia.

João escreve para a igreja durante a sua segunda grande perseguição, ou seja, sob o imperador Domiciano, aproximadamente do ano 95 d.C. Dadas às circunstâncias difíceis que motivaram o exílio de João, a mensagem de Apocalipse adquire um profundo significado de extrema urgência quando lido como uma mensagem codificada aos crentes daqueles dias. A linguagem é obscura, até mesma secreta, com suas metáforas misteriosas e suas imagens para os de casa, para que não viesse a cair em mãos erradas. Os estranhos ficariam confusos com ele. Porém, os cristãos familiarizados com as profecias apocalípticas de Ezequiel, Daniel e o discurso apocalíptico de Jesus (Mt 24), dispunham das senhas necessárias para decifrar esta mensagem em código.



Por isso, para a jovem comunidade cristã o Apocalipse servia como um livro de consolo e segurança frente à oposição e ao martírio. Este livro lhes assegurava que Deus não havia desistido do seu trono. O Cordeiro de Deus, agora é o Leão da tribo de Judá. “Somente por ser o Cordeiro de Deus, também é o Rei dos reis”.84 Esta é a mensagem de João às “sete igrejas” que simbolizam a igreja universal. Através destas revelações dirigidas a seus leitores originais, João continua falando nos dias de hoje.

A aceitação desta perspectiva estabelece a decisão básica que enfrentamos atualmente, tal como demonstram as quatro formas principais de interpretar a Apocalipse 20. Existe, em primeiro lugar, a escola de “escatologia cumprida” afirmando que estes eventos se cumpriram no passado. Também existe o conceito “futurista” das teologias premilenistas. Novamente, muitas teologias contemporâneas intentam destilar dos eventos aqui descritos “mitos” universais, sem verdadeiros pontos de referência histórica. Em contraste, a hermenêutica implícita neste estudo de dogmática considera os “mil anos” como um comentário visionário sobre a era atual, desde a primeira vinda de Cristo (Apocalipse 12) até o seu retorno (Ap 22:16-20). Esta é a chamada posição amilenista. Este modo de ler o Apocalipse concede uma elevada relevância prática para a nossa vida hoje no mundo de Deus. Desta maneira já não temos que esquiva-lo como um livro premonitório, ou como um quebra-cabeça angustiante que deve ser montado. Pelo contrário, nos oferece um conceito bíblico da história da redenção, atualmente em processo.



II.5. Promilenismo

É tempo de introduzir um conceito novo, uma transição de amilenismo (“a” significa “não existente”, ou pior, “oposto a”) para promilenismo (“pro” significa “por” no sentido de “a favor de”). Muitos comentaristas concordam que “o termo amilenismo não é muito feliz” sendo que não é uma “descrição adequada do respectivo conceito”.85 Reflete uma posição pura e abertamente negativa. O termo sugere que os amilenistas fazem pouco mais do que se opor aos conceitos milenaristas. Transmite a imagem de permitir que os pré e posmilenistas exponham as suas reivindicações, enquanto que eles se conformam em atuar no sentido meramente negativo. Todavia, este conceito duvidoso continua retendo um lugar respeitado nos vocabulários dos teólogos reformados. “O conceito amilenista é, como o nome indica, puramente negativo”, disse Louis Berkhof justificando o seu uso, sendo que sustenta que “não há base nas Escrituras para a expectativa de um milênio”.86 De igual modo, segundo Hoeksema “os amilenistas... crêem que a Escritura não ensina um milênio em nenhuma forma”.87 Rejeitando ao conceito alternativo “milenismo cumprido” como “mais distorcido” Hoekema opta por usar o “termo mais breve e mais comum, ou seja, amilenismo”.88

Mas, sem dúvida, não é mal perguntar se temos que continuar vivendo sob a nuvem de reputação meramente negativa e defensiva. Acaso é o amilenismo a última palavra sobre o tema? Jay Adams o chama de “um nome equivocado para o sistema bíblico de escatologia”.89 Reconhece que é “suficientemente fácil criticar o termo, e não tão fácil oferecer um substituto satisfatório”.90 Todavia, reconhecer esta dificuldade é aceita-la como um desafio firme. Porque não basta dizer simplesmente “não” a idéia de “mil anos” em Apocalipse 20. Cabe a nós tocar uma nota mais positiva. Porque “quando os livros amilenistas fazem pouco mais que refutar o premilenismo, lhe dão base para a acusação contrária de repudiar um claro ensino bíblico.” A tarefa do amilenismo não consiste “em usar argumentos para eliminar o milênio, mas sim em explica-lo”.91 Por isso, o termo promilenismo tem a intenção de eliminar o negativo e acentuar o positivo.

Com freqüência afirma-se que o amilenismo, rebatizado de promilenismo, representa uma teologia relativamente nova e não comprovada. Ao contrário, Louis Berkhof disse que é “tão velha como o cristianismo.” É o “conceito mais amplamente aceito... o único conceito que é expresso, ou bem implicado, nas grandes confissões históricas da igreja.”92 Por isso, a teologia reformada está em condições de fazer uma contribuição ao entendimento dos “finais dos tempos” tanto presente como futuro. Tendo a história bíblica como o crivo revelacional, ofereceremos um lugar amplo para compreender, ao menos vagamente, o curso dos eventos em sua misteriosa continuação que moldam nossas vidas. Toda história humana é cósmica escatológica. Tanto o Antigo como o Novo Testamento oferecem constantemente a esperança de coisas maiores e melhores que estão por vir. Nunca falta ao desenvolvimento do drama bíblico uma perspectiva dirigida para frente. A totalidade de nossa vida juntos no mundo de Deus é dirigida teleologicamente para um “dia do Senhor”. Ao longo de uma sucessão de provisórios “tempos finais” temos entrado nos “tempos finais” presentes e decisivos que apontam ao “tempo final”.

Dentro destas perspectivas a escatologia se relaciona inseparavelmente com protologia. Quanto à maneira em que Deus trata com o mundo, a possibilidade de um cumprimento total de todas as coisas na consumação existe desde o principio como um potencial na criação. Na queda Deus anunciou um triunfo redentor em meio à inimizade (Gn 3:15). O coração do legado de Israel é a sua esperança messiânica. O evangelho ao relatar o que ocorreu na “plenitude dos tempos”, o seja, a vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, abre a porte para a vida no reino como uma realidade atual, agora, nestes “últimos dias” e de forma consumada, na parousia de Cristo. O derramamento do Espírito no Pentecostes representa um divisor dentro da continuidade descontínua da história da salvação. É o “começo do futuro.” Porque



a atividade do Espírito de Deus é uma manifestação atual do governo escatológico de Deus. O Espírito é a dinâmica do reino, e como tal é poder escatológico.... A essência capacitadora do Espírito é presença escatológica.... [A presença do Espírito] é a antecipação do escaton, que em si mesmo, é um cumprimento antecipado do escaton. O Espírito é a primeira manifestação de existência escatológica.... Então, numa palavra, a vida no Espírito é vida escatlógica.93
Este é o contexto revelacional para um conceito promilenista dos “mil anos”. O mesmo cobre um lapso de tempo real e terreno. Estende-se desde a primeira vinda de Cristo até a sua última vinda. Como os outros valores numéricos do Apocalipse, este tem pleno peso, mas é expresso em símbolos apocalípticos. O seu propósito é “criar um quadro mais que dar um resumo exato. O ‘milênio’ já tem durado quase dois mil anos.”94 A atual idade milenar indica a conquista de Cristo dos “principados e potestades”, o fato de “amarrar o valente” (Mt 12:29; compare com Lc 10:18), a quem João identifica como o “dragão, aquela antiga serpente [de Gn 3], que é o diabo e Satanás.” É ele a quem o anjo do céu “amarrou por mil anos” (Ap 20:3).

O ponto decisivo ficou atrás de nós. O poder da cruz e o poder da ressurreição, agora também o poder escatológico, ou seja, o começo do fim. Os poderes das trevas foram derrotados, ainda que não eliminadas. Nas palavras da analogia de Cullmann, durante este tempo de “amostra” na história redentora entre o “dia D” (dia decisivo de Deus”) e o “dia V” (seu dia da vitória) a vida está cheia de bençãos mescladas, ou seja, os triunfos da graça de Deus estão misturados com os seus juízos que também continuam permanecendo na terra. Em todo o nosso derredor “há enigmas; há mistério.... Provavelmente o mistério mais profundo a escatologia seja que o gozo desta perspectiva escatológica vá de mãos dadas nesta tensão.95 Este é o quadro que emerge das visões joaninas dos “sete selos” (5:1-8:8), que revelam o significado da história, do chamado do evangelho proclamado pelas “sete trombetas” (8:6-11:19), e dos “sete vasos” derramando o juízo final sobre a terra (15:1-16:21). Estes sinais sêxtuplos dos tempos, continuam num curso paralelo, mas de interação, ao longo da história. “Cada um abrange a totalidade da nova dispensação, desde a primeira até a segunda vinda de Cristo.” Juntos revelam “um progresso na profundidade ou intensidade do conflito”.96 Por isso, lido contextualmente, Apocalipse 20 não é “um relato narrativo de algum futuro reino terreno de paz, mas a exibição apocalíptica da realidade de sofrimento e martírio que ainda continua enquanto o domínio de Cristo se mantêm oculto”. Esta hermenêutica promilenista “não só responde a natureza do livro de Apocalipse, mas também é consistente com a clareza de contraste entre a cruz e a glória.”97

Por isso, não há lugar para um fácil triunfalismo na vida no reino. Porque “até que Cristo venha, a escatologia da ressurreição é a escatologia da cruz.... O sinal da escatologia inaugurada é a cruz. Os crentes não sofrem apesar de compartilhar a ressurreição de Cristo, ou junto desse fato, mas precisamente porque foram ressuscitados e estão assentados com ele no céu”.98 Como com o conflito entre as hostes do dragão e dos anjos de Miguel (Ap 12), assim também ocorre com os “mil anos” (Ap 20), ambos cobrem a totalidade da dispensação atual. Porque o livro de Apocalipse como um todo é uma “iluminação da história a partir do ponto de vista do triunfo do Senhor, ainda que oculto, está vindo.”99

II.6. Uma Mensagem Não Selada

“Não seles as palavras da profecia deste livro” é a ordem que o anjo dá a João, “porque o tempo está próximo” (Ap 22:10). Estas visões apocalípticas nos chegam como uma mensagem urgente, sempre relevante para a vida milenar. Conseqüentemente, a instrução angelical conduz imediatamente a severas exortações e ao consolo reafirmado. Apocalipse é um livro existencial. Portanto, e pode ser lido, ensinado, pregado e vivido completamente nestes “últimos dias”. Porque “não é um discurso acerca do futuro, previsto para satisfazer a nossa curiosidade, mas uma mensagem que proclama e nos dirige para a salvação indiscutivelmente de Deus.”100 A decisão essencial que nos afronta não é “entre interpretar o milênio como uma faceta da história da igreja, ou como algo que se deve esperar ao final da história. Mas, é muito mais uma decisão entre consolo apocalíptico e uma narração estritamente cronológica. Baseado no conceito promilenista o Apocalipse nos oferece “uma concepção da realidade vista na perspectiva escatológica destes últimos dias”.101

Capítulo 3

Contagem Escatológica Regressiva

III.1. Sinais dos Tempos

Todos os caminhos que transitamos convergem na parousia, que se mantêm como o cume ao longo do horizonte deste “tempo final” da história. Somente uma visão defeituosa pode ver este drama escatológico como “desenvolvimento histórico a partir de uma etapa inferior para uma superior.” Nenhuma cosmovisão evolutiva pode explicar “o fim” ou o caminho que conduz a ele. Ambos resultam da “poderosa obra do Filho do Homem”.102 Porque o futuro do mundo não carece da relação com o estado das coisas tanto passadas como presentes. Tem os seus precursores que indicam a direção e proclamam a vinda do Rei.

As Escrituras nos abrem os olhos para vários desses antecedentes. Uma vez apenas são chamados “os sinais dos tempos” (Mt 16:3). Todavia, em passagens esparsas no Novo Testamento, encontramos alusões a estes sinais apocalípticos, alusões que as identificam com maior clareza. Elas aparecem de diversas formas: pessoas, poderes, eventos e movimentos. Em seu sermão sobre “as últimas coisas” Jesus menciona “guerras e rumores de guerras”, “fome e terremotos”, “tribulação”, “falsos profetas”, e a proclamação mundial do “evangelho do reino” (Mt 24:3-14), todos são sinais típicos de nossos tempos! Paulo fala de forma mais concreta. Adverte aos crentes acerca de “rebeliões”, a aparição do “homem do pecado”, o “filho da perdição” – as forças hostis mantidas por um tempo sob controle, por uma presença que as “detém” (2 Ts 2:1-12). Nas epístolas de João os poderes das trevas se encarnam no “anticristo” e “anticristos” (1 Jo 2:18,22). E pessoas que negam a Jesus Cristo e que tem o alento do “espírito do anticristo” (1 Jo 4:3).



O que vamos fazer com estes sinais de nosso “tempo do fim”? Tanto Ridderbos103 como Berkouwer104 nos aconselham com bons motivos a evitar a “escatologia de informação”. Mas, como disse Weber “a esperança do mundo” não descansa na “compreensão cristã da realidade, mas na ‘parousia’ (retorno) do Ressuscitado”.105 Estes sinais são para todos os tempos. É um chamado urgente para se andar preparado, um chamado para os crentes daquela época, e naquele lugar, mas também para os daqui e agora. Isto é tão certo que “Jesus poderia vir em qualquer momento durante os dezenove séculos passados, sem que nenhum dos sinais fosse cumprido.” Por isso, em cada século “qualquer conceito dos ensinos que torne impossível a pregação da proximidade do retorno de Cristo é uma distorção.”106

A análise de Hoekema é muito útil para captar bem o ensino bíblico no que se refere a estes sinais. Resumindo a sua discussão, tanto os seus pontos negativos como positivos, somos introduzidos, em primeiro lugar, aos seguintes “conceitos equivocados”.



  1. Pensar que “os sinais dos tempos estão exclusivamente ao... tempo imediatamente anterior a parousia”, sem “nada a ver com séculos anteriores...”.

  2. Pensar nos sinais “unicamente em termos de acontecimentos anormais, espetaculares, catastróficos.”

  3. Pensar neles “como uma forma de determinar o tempo exato do retorno de Cristo.”

  4. Pensar neles como um caminho “para construir um calendário exato de acontecimentos futuros”.

Logo, Hoekema discute em cinco pontos a “função própria” destes sinais.



  1. Eles “assinalam, em primeiro lugar”, não para “o futuro”, mas para “o que Deus fez no passado”.

  2. “Os sinais dos tempos também assinalam a frente do tempo final da história, particularmente para o retorno de Cristo.”

  3. Eles revelam “a contínua antítese na história entre o reino de Deus e os poderes do mal.”

  4. “Os sinais dos tempos são um chamado de decisão”.

  5. Eles “chamam para estar constantemente em alerta”.107


O roteiro para a vinda do reino está alinhado com estes sinais escatológicos. Estão em aberta exibição. Todavia, somente as pessoas com olhos iluminados pelo Espírito têm a capacidade de vê-los como eles são, e de lê-los corretamente, ainda que com os olhos da fé, somente obscuramente e à distância. De todos os modos, eles estão como poderosos lembretes de que os justos juízos de Deus estão no mundo como terríveis realidades, como “fogo sobre a terra” (Lc 12:49). Mas, a sua clemência e paciente misericórdia não são menos reais, chamando a todos os homens ao arrependimento, sendo que Deus designou um dia para o juízo (Hb 9:27). Sabendo isto, a igreja, “desgarrada por cismas, e perturbada por heresias”, pode manter as suas janelas abertas para o futuro, confiada de que a história de nossos tempos, todavia, segue o seu curso e que o caminho para “o fim” está desocupado e aberto. Como os sinais de advertência aos transientes indicando que há “homens trabalhando”, assim os sinais dos tempos confirmam “o fato inconfundível de que Deus está trabalhando” no mundo.108

Talvez o aspecto mais saliente de todos os sinais seja este, de que estão para ser vistos por todos, mas nós não tomamos nota deles. Somos como vendedores viajantes indo para a casa já próximo da meia noite, ao final de um longo dia, as luzes de néon iluminam a rua, mas seguimos alheios a elas, porque nossas mentes estão à milhas de distâncias, planejando as vendas do dia seguinte. Temos ouvido que estes são “tempos de mudanças”. Mas quando se trata da resposta humana é muito pouco o que realmente tem mudado. “Como foi nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem.” As pessoas estarão “comendo e bebendo, casando e se dando em casamento”, realizando todas as coisas boas e comuns da vida. Mas quem é sensível aos sinais escatológicos (Mt 24:37-39)? Esta é a trágica sorte de nossas sociedades pós-cristãs, em rápido processo de secularização, que “apesar de todos os sinais do iminente fim, as pessoas continuarão vivendo numa falsa paz mental (1 Ts 5:3), indispostas a converter-se”.109

III.2. O(s) Anticristo(s)

Encontramos nas Escrituras a tenebrosa figura do anticristo/anticristos tanto como inimigo final como imediato do reino de Cristo. Ambos os quadros emergem, o primeiro especialmente em Paulo, o segundo em João. Escrevendo aos jovens cristãos, Paulo lhes adverte contra rumores perturbadores de que “o dia do Senhor [já] veio.” Porque “esse dia não virá”, diz Paulo, até que o anticristo – o “homem do pecado”, “o filho da perdição” – manifeste a sua aparição como beligerante cobiçoso do trono da glória divina. A sua vinda para usurpar o domínio de Cristo, motivada pela “ação de Satanás” será acompanhada de “todo poder” e “sinais e prodígios mentirosos” (2 Ts 2:1-11). Como um Cristo substituto, o anticristo representa uma falsa encarnação. Ele é a imagem absolutamente negativa do Cristo de Deus. O anticristo é o supremo parasita, o próprio ego demoníaco contrário a Cristo. Por isso, somente pode erguer-se em sua estatura plena num mundo onde “o evangelho do rei/reino” tenha lançado raízes.

Em Paulo esta antítese decisiva é mais enfaticamente reservada para a zona crepuscular que anuncia o amanhecer do grande “dia do Senhor”. O anticristo romperá na cena como um pseudo-apocalipse final, como o apocalipse designado por Deus, mas ao reverso. Sabendo que o seu tempo está se esgotando, se lançará como um enlouquecido na sua ofensiva final, desesperada, diabolicamente inspirada. As linhas de batalha serão traçadas sobre a arena terrena. Mas a luta em todas as frentes paulatinamente se converterá numa batalha escatológica global, em constante expansão. Esta luta decisiva será livre dos limites exteriores de nosso mundo de experiências e o superará (Ap 12:7-9).

O cartão identificador que o anticristo leva o número “666” (Ap 13:18). O seu poder é grande, mas sempre inferior ao “sete”. Portanto, está destinado à derrota. Todavia, enquanto o conflito se estende, é no anticristo que “a humanidade hostil a Deus tem a sua definitiva expressão escatológica.” Porque “a figura ‘do homem do pecado’ está claramente posta para ser o oponente escatológico do homem Jesus Cristo.”



A sua vinda, tal como a de Cristo, é chamada uma parousia que está marcada por toda classe de poderes, sinais, e prodígios, semelhantes aos de Cristo no passado.... O homem de pecado é a última e suprema revelação do homem (humanidade) hostil a Deus.110
Portanto, o anticristo é mais do que um rival individual. Representa a humanidade em sua rebeldia contra Deus. Mas também encarna poderes super-humanos. É o mal encarnado, reunindo e mobilizando em sua causa as hostes extraídas das trevas. Todavia, é mais do que “algo”, mais do que uma estratégia sedutora, ou uma força impessoal. Por muito que a nossa mente moderna resista à idéia, Paulo indica que eventualmente todo o anticristão terá sua cabeça num anticristo pessoal. Porque assim como

a unidade orgânica e corporativa da vida humana encontra sua cabeça e representante... em Adão e Cristo, assim também o anticristo, será uma pessoa específica. O anticristo não seria tal, se não fosse um ponto pessoal de concentração do pecado, se não fosse o homem do pecado.111
Paulo menciona que esta confrontação escatológica não está reservada exclusivamente aos “últimos dias”. Porque “já está em ação o mistério da iniqüidade” (2 Ts 2:7). Esta referência fugaz em Paulo se converte num tema mais claro em João. Em suas cartas a cena passa de um futuro mais distante para o presente. “Filhinhos”, escreve João, “já é o último tempo”. João recorda a ênfase de Paulo “de que o anticristo vem”. Logo se apressa em acrescentar que “[já] surgiu muitos anticristos”. O inimigo não somente é singular, senão plural. É legião, e seus cúmplices estão demasiadamente próximos para que fiquemos tranqüilos. Com efeito, nos dias de João estes falsos cristos surgiam dentro das próprias fileiras dos fiéis. “Saíram de nosso meio”, mas “não eram dos nossos”. Semelhante ao seu pai, o mentiroso, eles também viviam a mentira, negando que “Jesus é o Cristo”. No cenário de João o espírito do anticristo aparece vestido de heresia. Porque “este é o anticristo, o que nega ao Pai e ao Filho” (1 Jo 2:18-25). Estes “falsos profetas” aparentemente eram vítimas das rejeições dos gnósticos da realidade da encarnação. Negar que Jesus Cristo é “de Deus” e que “veio em carne” é quebrar a comunhão com ambos, tanto com o Pai, como com o Filho (1 Jo 4:3). Quem encarna o espírito do anticristo rejeita o grande mandamento do amor que é o coração da mensagem de João. Muitos desertores anticristãos têm “saído pelo mundo” – penetrando também o nosso – “não confessam que Jesus Cristo veio em carne.” Todo aquele que abraça esta heresia é “o enganador e anticristo” (2 Jo 6-7).

O anticristo usa muitas máscaras. Ele é um e muitos. Em todas as idades levanta a sua horrenda cabeça. Porque



o sinal do anticristo, semelhante a outros sinais dos tempos, está presente ao longo da história da igreja... . Cada era proverá a sua própria e particular forma de atividade anticristã. Mas nós também esperamos uma intensificação deste sinal na aparição do anticristo antes do retorno de Cristo.112


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal