A consumação por


III.3. O Que o Detém e suas Detenções



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III.3. O Que o Detém e suas Detenções

Com este mascarado “homem do pecado” que anda solto, este infernal “filho da perdição”, o anticristo e seus cúmplices; com o poder acumulado destes anticristos e seus cúmplices anticristos instalando as suas emboscadas ao longo do caminho do reino que vem – como é possível, todavia, que em vista de tudo isto, para muitas pessoas ainda seja sensível, inclusive desfrutável e produtiva? Respondendo a esta urgente pergunta escatológica Paulo indica a presença de uma força restritiva na história do mundo. Porque, por agora o “mistério da iniqüidade” é mantido sob controle por um poder contrário. Todavia, algum dia terminará estas limitações. Ser advertido é estar preparado antecipadamente (2 Ts 2:6-8)! Como disse Berkouwer “é difícil captar aqui o significado de Paulo, porque estava se referindo aos crentes de Tessalônica quanto a um tema familiar para eles”113- mas não para nós. Abundam as perguntas e há poucas respostas satisfatórias. Somente o tempo dirá o que ela significa.

Mas, podemos dizer que: Paulo se refere a esta influência restritiva como sendo um poder e também como sendo uma pessoa. Vocês sabem, recorda aos seus leitores “quem detém” a manifestação plena da diabólica fúria do anticristo. É como se houvesse uma represa que retém a torrente das impetuosas águas que o anticristo está por soltar sobre este mundo. Esta última manifestação se mantém suspensa “para que [o anticristo] possa ser revelado em seu tempo.” Quando se cumprir o ciclo desta ação restritiva terá lugar à batalha final de vida ou de morte. Então a confrontação decidirá decisivamente esta antítese entre o reino e a luz, e o reino das trevas que retrocede todo o caminho até Gênesis 3.



De forma praticamente simultânea, Paulo prossegue identificando este poder restritivo como sendo uma pessoa. “O mistério da iniqüidade já opera” no mundo. Mas “o que o detém” também está ativo. Todavia, há uma medida de justiça e paz entre os homens e as nações, em alguns lugares mais do que em outros. O trabalho construtivo, todavia, é possível. Isto durará, diz Paulo, até o que o detém “seja retirado”. Porque eventualmente retirará e levantará a sua mão. Quando isto ocorrer o poder destrutivo do mal desimpedido avassalará o mundo. Então serão revelados os poderes “do iníquo” em sua fúria irrestrita.

Os contornos gerais do quadro são bastante claros, ainda que seja difícil acrescentar detalhes. “Indubitavelmente se pode estabelecer um caso, conforme Berkouwer que “afirmando que a demora da vinda do homem do pecado se deve a atividade de alguma força temporária na história, ainda quando não conheçamos a natureza desta força.”114 Segundo percebe Ridderbos esta perspectiva escatológica não seja tanto a um “específico fenômeno histórico, mas que fala na linguagem apocalíptico de fatores sobrenaturais que determinam a detenção das últimas coisas”.115 Uma idéia se promove: acaso é possível ver no retirar de quem detém e em seus meios de detenção um sinal escatológico anunciado o retirar das influências da “graça comum” de Deus, graça que preserva e conserva? Ele colocaria a antítese entre o bem e mal num contraste sem atenuantes, a antítese entre aqueles que são “por mim” e os que são “contra mim”, entre os que guardam o pacto e os que quebram o pacto, entre o reino de luz e o reino das trevas.

III.4. O “Estado Intermediário”

Em outras partes do mundo inumeráveis lápides levam gravadas as palavras “durma com Jesus” e “em paz descansa”. Um mistério quase impenetrável rodeia essas pedras memorais. Principalmente é um testemunho da vida vivida, mas também a esperança que se estende além de umas décadas”. Há uma inscrição lapidária que dá testemunho reflexivo da fé viva de um homem com esta confissão eloqüentemente simples, mas profunda: “perdoado”. Uma coisa está clara, onde a árvore cai, ali permanece. Mas o que há além da morte nos confronta como uma realidade paradóxica. Nesta transação que envolve a todos, fazemos a última entrega do “salário do pecado” (Rm 6:23). O severo ceifeiro é nosso “último inimigo” (1 Co 15:26). Mas esta história também tem um rosto luminoso. “Para nós que estamos em Cristo a morte não é uma satisfação pelo pecado; o foi para Cristo, mas não para nós... . Porque a morte de Cristo foi parte da maldição; para nós a morte é uma fonte de benção”.116 Por isso, olhamos para a morte como uma transição de um destino aparentemente irrevogável para a vitória na companhia dos “espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12:23). Esta perspectiva faz com que Paulo declare que “viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1:21).

Mas, após o funeral e concluídos os discursos de despedida, quando as flores murcharam e secadas as lágrimas, o que virá depois? Acaso poderemos dizer alguma coisa significativa a respeito do que vem logo em seguida? A Escritura somente fala com “sussurros” (Berkouwer) desse estado de existência. Em Calvino encontramos uma limitação hermenêutica similar, “conformemo-nos com os limites divinamente estabelecidos para todos” disse Calvino, e não os “ultrapassemos”; abstendo-nos de “investigações supérfluas”, pelo contrário “estejamos satisfeitos com o ‘espelho’ e sua imagem ‘obscura’ até que possamos ver a [Deus] face a face (1 Co 13:12).”117 Por isso, muitas perguntas poderão ficar sem resposta. Mas não estamos totalmente às escuras. Porque na morte como na vida estamos “em Cristo” – “isto é tudo o que Paulo sabe acerca do estado intermediário”.118 Esta certeza é o que mais importa, ou seja, “a promessa de uma comunhão contínua com Cristo”.119 Como disse Calvino: “a Escritura não vai além de dizer que Cristo está com eles, e os recebe no paraíso.”120

Ainda que a Escritura não ofereça “explicações teóricas do estado intermediário”121 nem nenhuma análise detalhada, a sua realidade é uma pressuposição básica da Bíblia. Com a categoria de clareza acumulativa que tipifica o seu desenvolvimento da história, a Escritura estabelece como premissa fundamental a continuidade de nossa existência como criaturas humanas. Nem se preocupa em “prova-la”, nem tampouco oferece argumentos racionais para a existência de Deus Criador. Uma vida como realidade posterior a esta vida é um axioma inquestionável do drama teleologicamente dirigido da história escatológica. O aqui e agora não é um beco sem saída. Num distante extremo há um portal que se abre para uma misteriosa continuidade, mas também para uma descontinuidade que é, simultaneamente, com a nossa vida atual. Como expressa Calvino, a luta contra o pecado e o mal terá terminado. Mas a coroa eterna espera. Todavia, no estado intermediário há uma antecipação de coisas maiores porvir. Tem um caráter precursor, marcado por uma glória provisória, esperando a parousia.122 Para Calvino “a totalidade do estado intermediário está focalizado na expectativa do porvir – da vinda de Cristo.” Por isso, sendo que a esperança cristã “se estende além do túmulo e por último até a parousia, ... a tensão entre o ‘já’ e o ‘ainda não’ ainda tem que permanecer para aqueles que, na morte, esperam a vinda do Senhor”.123 De modo que, esta forma de estar com Cristo não diminui, mas intensifica a esperança escatológica daqueles que exclamam: “até quando!” Quanto tempo falta para a ressurreição final? Por isso, de onde estamos agora não devemos olhar para o estado intermediário e para a parousia como se fossem esperanças separadas, mas como duas fases de um só movimento escatológico. “A morte não é escatón num sentido absoluto, mas é um escatón.”124

A morte não é a entrada numa sala de espera geriátrica, onde se interrompe a vida e tudo se estagna. A nossa “transferência” não nos obriga a um estado de adormecimento, a um sono da alma, ou a uma existência inconsciência, e por certo nem a extinção ou aniquilação. Porque para Paulo “partir e estar com o Senhor” dificilmente poderia ser uma perspectiva pessoal “muito melhor” sob circunstâncias tão pouco auspiciosas (Fp 1:23-24).



Ainda que “não haja dúvidas quanto à realidade dos crentes na presença de Cristo imediatamente após a morte”, todavia, “o significado desta realidade e o lugar que ocupa na totalidade da salvação” é muito menos claro.125 Mas este é “o nosso consolo na vida e na morte” que, ainda as interrupções da morte não podem cortar os laços que unem Cristo com o seu corpo. Porque “se vivermos, para o Senhor vivemos; se morrermos, para o Senhor morremos. Assim, se vivermos ou morrermos, somos do Senhor. Porque Cristo para isto morreu e ressuscitou, e reviveu para ser Senhor, tanto de mortos como dos que vivem” (Rm 14:8-9). A vida de Cristo é a garantia que assegura a nossa. Assim como nossa vida antes da morte está centrada em Cristo, assim também está centrada após a morte. Não há nada em toda a criação que possa romper esta união (Rm 8:39). Por isso, a vida no estado intermediário não tem uma “existência independente”. Nem oferece uma “base separada de consolo.” É “totalmente absorvida pela esperança da ressurreição e sem ela não existirá.”126

Entretanto, o significado de estar espiritualmente vivos, separados de nossa atual existência histórica, é algo que nos deixa assustados. Viver além da vida corporal, mas, ainda não no estado de glória é “um modo inconcebível de existência”.127 Em todo intento por descreve-lo estrutural e funcionalmente, as palavras não falham. Não contamos com explicações antropológicas. Todavia, a direção não está oculta. A vida depois da morte não é um voltar atrás. Ao mesmo tempo “ainda não” é tudo o que estamos designados a ser e chegaremos a ser. É um estado “provisório e incompleto.”128 Mas é o próximo passo em nossa peregrinação escatológica. Em meio das muitas ambigüidades que cruzam o aqui e o além, sempre estamos em “boas mãos”. E por hora, isso basta.

III.5. A Vida de Ressurreição

Domingo após domingo, inumeráveis adoradores, tanto catedrais como em igrejas subterrâneas, recitam o artigo de fé: cremos na “ressurreição do corpo”. Esta é uma confissão singularmente cristã. Os filósofos gregos (At 17:30-32) e pensadores do Iluminismo advogam por teorias da “imortalidade da alma”. Basearam esta doutrina numa qualidade de durabilidade que supostamente é inerentemente invencível no espírito humano. Infelizmente esta duvidosa noção também abriu caminho para entrar no cristianismo histórico. Todavia, na melhor das hipóteses, é um “artigo de fé mesclado”.129 Porque como disse Hoekema “o conceito de imortalidade da alma não é uma doutrina distintamente cristã. Pelo contrário, o que é essencial ao cristianismo bíblico é a doutrina da ressurreição do corpo.”130

Por isso, em agudo contraste com as tradições helenistas, gnósticas e algumas humanistas, a Escritura acentua a integridade da vida física. A sua importância como criação e sua relevância redentora é manifesta, sobretudo, na encarnação, “o Verbo fez-se carne e habitou entre nós,... semelhante a nós em todas as coisas.” Este ensino bíblico nos compromete desde já a promover o bem-estar corporal completo de toda vida humana e de outras realidades criadas. Assim, além da nossa história atual, nos oferece a firme promessa escatológica de uma completa restauração da novidade de vida, isto é, da nossa ressurreição e da restauração de toda a criação. Porque a escatologia pessoal segue de mãos dadas com a escatologia cósmica (Rm 8:18-25). Na Escritura “uma expectativa não se opõe a outra”.131

A morte continua sendo um intruso estranho, antinormativo na vida da criação. A restauração indica a restauração final de todas as coisas para um estado de normalidade. Ela focaliza nossa percepção para além de nossa perspectiva nebulosa de um estado intermediário de um futuro mais reconhecível. O mundo da ressurreição sonha com algo mais familiar e terreno. Porque “em minha carne verei a Deus” (Jó 19:26), em uma “nova terra onde reside a justiça” (2 Pe 3:13). Certamente, o escatón resultará em transformações dramáticas. Um “corpo glorificado” se levantará do sepulcro (Fp 3:21). Aparecerá um mundo renovado, purificado pelo fogo (2 Pe 3:10-13). Todavia, estas descontinuidades escatológicas pressupõem uma continuidade igualmente real com a nossa atual vida terrena. Como disse Hoekema, agora vivemos “num estado de unidade psicossomática. Assim, fomos criados, deste modo somos agora, e assim seremos depois da ressurreição do corpo”.132 Talvez, este ponto nos ajude na linguagem da fé da igreja. Nossos antepassados freqüentemente olharam para a ressurreição como nossa “transferência” para a glória. Imagine-o como um livro, fielmente traduzido, por exemplo, do alemão para o inglês; ao lê-lo encontramos continuidade no tema ao mesmo tempo em que seguimos o fluxo da descontinuidade idiomática.

A Escritura regularmente descreve a vida ressuscitada em termos negativos: corpos sem dor, olhos sem lágrimas de sofrimento, vida sem influências de corrupção. Mas como poderemos dar expressão positiva a estas esperanças tão atraentes? Podemos faze-lo, mas com uma percepção limitação. É uma hermenêutica limitada da fé que aguça a nossa visão do futuro. Antecipamos a “perfeição que vem” depois que o imperfeito tenha passado” (1 Co 13:10), pela fé, não pelo que vemos. Não temos conhecimento correto “do que seremos”; mas, sabemos que “quando se manifestar [Cristo] seremos como ele é, porque lhe veremos como ele é” (1 Jo 3:2). Por isso, a santa ignorância é própria para as expectativas da comunidade cristã. Isto fica claro na analogia usada por Paulo da semente e a planta (1 Co 15:35-50). Porque “assim como há continuidade entre a semente e a planta, assim haverá continuidade entre o corpo atual e o corpo da ressurreição”. Mas, “assim como do aspecto da semente não se pode predizer o aspecto futuro da planta, do mesmo modo não poderemos dizer, observando o corpo atual, como será exatamente o corpo da ressurreição.”133

A realidade da nossa esperança de ressurreição como qualquer outra esperança está centralizada em Cristo. Aparte dele, como afirma Calvino “é demasiadamente difícil para a mente humana compreender.” Reconhecendo que “é difícil crer que os corpos, uma vez consumidos pela putrefação, finalmente a seu tempo, serão levantados”; Calvino sustenta que “uma das ajudas com que a fé pode superar este grande obstáculo” é o “paralelo da ressurreição de Cristo”.134 A realidade de nossa vida “ainda não” ressuscitada está firmemente ancorada na realidade capacitada pela ressurreição de Cristo “já” ocorrida (Rm 8:11; 1 Co 6:14; 2 Co 4:14). Nossa ressurreição está incorporada à sua, e a sua ressurreição ratifica a nossa. A obra renovadora do Espírito em nossas vidas já é um começo escatológico de nossa futura vida ressuscitada (2 Co 3:18; 4:10-11; Fp 3:10-11). Sendo que como “pessoas genuinamente novas” algum dia seremos “totalmente novos” podemos abraçar as bençãos soteriológicas que recebemos nesta vida como “uma antecipação de bençãos maiores, benção que esperamos numa era porvir”.135

Esta antecipação da renovação definitiva que “vem do Senhor que é Espírito” é a promessa e garantia de sua consumação final. Por isso o aqui, e o além de nossa história corporal “não estão mutuamente opostos como o inferior e o superior no sentido de uma antropologia dualista, mas como dois modos de existência corporal, da qual a ressurreição de Cristo constitui ao ponto decisivo”.136

Enquanto esperamos o som da trombeta podemos antecipar uma identidade antropológica real. A abertura dos sepulcros indicará uma restauração dos diversos aspectos de nossa maneira de ser humanos. “Conheceremos plenamente” assim como somos “plenamente conhecidos”. Ao movermos do “já” para o “ainda não” Paulo disse “permanecem a fé, a esperança e o amor” (1 Co 13:12-13). Isto pressupõe que continuaremos a ter fé, esperança e amor. Jesus Cristo é o arquétipo. O que ressuscitou foi o que morreu, e que foi sepultado. “Vejam minhas mãos e meus pés”; com estas desafiantes palavras de convite reanima aos seus desencorajados discípulos. “Vejam minhas mãos e meu pés, que sou eu mesmo; palpem e vejam; porque um espírito não tem carne nem ossos, como podem ver que eu tenho” (Lc 24:39). Em outra aparição lemos que “nenhum de seus discípulos se atrevia a perguntar-lhe: quem é o Senhor? Sabendo quem ele era” (Jo 21:12). Mas, o seu corpo glorificado, mesmo com as portas fechadas e trancadas era incapaz de ser impedido de entrar. Talvez nos ajude uma analogia das ciências físicas a imaginar esta espetacular transformação: um objeto determinado, operando sob uma freqüência incomum, exibe padrões extraordinários de comportamento. De todos os modos, seguimos vendo através de um vidro, obscuramente.



Todavia, podemos afirmar que: o artigo de fé concernente “a ressurreição do corpo” se refere ao “homem como foi criado por Deus, para glória de Deus, e para o seu serviço, e igualmente a sua ressurreição dos mortos e a sua salvação por Deus.”137 Por isso, podemos afirmar de todo o coração que somos, e continuamos sendo, nós os que ressuscitamos... . Não é outro ser humano que começa a existir; é este corpo humano que será transformado.”138

III.6. O Juízo Final

Desde a criação original até a criação renovada a Palavra de Deus para o mundo é sempre a mesma: “antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Am 5:24). No começo a ordem criada estava marcada por este shalom – “era muito bom”! Mas, depois houve derramamento de “sangue justo” (Hb 11:4). Por isso, ao longo da história da redenção os profetas declararam incessantemente: “pratiquem a justiça” (Mq 6:8). Na plenitude dos tempos Cristo abençoa quem tem “fome e sede de justiça” (Mt 5:6). No final Deus julgará ao mundo com justiça. Então, a justiça será plenamente vindicada. Mas, a Palavra de Deus também tem um lado caracterizado pelo “do contrário”, o justo Juiz que dá “retribuição aos que não ... obedecem o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:5-8). O mandamento permanente de que a humanidade se apresente ante o tribunal do juízo divino no retorno de Cristo, representa a exigência final e pública da inalterável Palavra de Deus. Ao final



... tem que haver uma prestação de contas políticas, e o poder que foi mau usado na história da política tem que ser devolvido a sua fonte original. E em algum sentido isto tem que ser um evento “público”. Os governantes corruptos da história têm que comparecer no juízo; os reis injustos de Israel e Judá, os faraós egípcios, os governantes da Assíria e Síria, os imperadores romanos, Hitler, Stalin, Idi Amin, os políticos corruptos do assim chamado “mundo livre”. O abuso de poder não pode passar impune na prestação final de contas.139
Por certo os juízos de Deus já estão operando no mundo (Rm 1:18-32). Mas além do presente toda a humanidade espera um dia de juízo final. “Porque é necessário que todos compareçamos ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tenha feito enquanto estava no corpo, seja de bom ou de mal” (2 Co 5:10). Nesse último tribunal de justiça se pronunciará o veredicto definitivo de vida e morte, anulando todo outro tribunal superior de apelações. As normas de juízo serão as mesmas que agora, ou seja, se nossa vida está “escondida com Cristo em Deus” ou se “ainda estamos em nossos pecados”. Não haverá normas inesperadamente novas. Mas, haverá expressões de surpresa (Mt 25:31-46).

Este quadro escatológico do juízo final é a contrapartida do clássico argumento moral para a existência de Deus. A existência de um “mundo de ordem moral” não requer prova racional. Na Escritura a sua existência é auto-evidente. Especialmente nos escritos paulinos é um axioma que “um dia, Deus julgará ao mundo”.140 Enquanto durar os atuais “tempos finais” Deus continua preparando a sua justa indignação mediante a sua paciente misericórdia, chamando insistentemente ao arrependimento. Mas quando finalmente o dia da graça tiver completado o seu curso, quando a taça da iniqüidade do mundo transbordar, então aparecerá Cristo para fazer justiça, de uma vez para sempre.

Todavia, nesta vida, os nossos “pecados nos encontrarão” ainda que ambiguamente (Agostinho). Por enquanto o bem e o mal são a sua própria recompensa. Mas no final, com o propósito de descobrir tudo, o Juiz tomará o seu assento para pronunciar-se definitivamente sobre estes muitos casos abertos e fechados. E julgará com justiça, conforme o grau de luz da revelação que as pessoas receberam e conforme a sua resposta (Mt 11:20-24). Este ensino do evangelho tem implicações de longo alcance para o mandato missionário da igreja. Mas, para nós, entre quem a Luz resplandece tão brilhantemente “como vamos descuidar uma tão grande salvação” (Hb 2:3). Então, finalmente, todos receberão o que mais anelam da vida ao responder ao evangelho. Portanto, proclamar o juízo, tanto presente como futuro, é proclamar a Palavra encarnada, crucificada, ressuscitada e agora exaltada. O seu retorno culminará na “grande reversão” inaugurada com a sua primeira vinda. Ele retirará a máscara de todo engano e hipocrisia (Lc 11:37-52). Estabelecerá uma correção definitiva as disputas entre os homens e nações, expondo os nossos impulsos mais íntimos, aclarando as ambigüidades da história, e exibindo abertamente os arquivos secretos da intriga internacional. Todavia, temos que ser cautelosos, disse Paulo, para honrar a paciência de Deus durante estes “últimos dias” e “não pronunciar juízos antes do tempo, antes que o Senhor venha.” A sua vinda “aclarará também o oculto das trevas, e manifestará as intenções dos corações; e as intenções de cada um receberá o louvor de Deus” (1 Co 4:5). Como disse Berkouwer



ao mal já não se chamará bem, nem ao bem de mal; não se mudará em trevas a luz, nem a luz em trevas; o amargo não se tornará doce, nem o doce em amargo (Is 5:20). Este é o fim inevitável e radical de todo engano humano. O conflito entre o bem e o mal chegará a seu fim, como também todos os argumentos que se referem a motivos, intenções e a natureza do bem... . O erro será exposto, o verdadeiro erro de desprezar o Senhor. Esta exposição à luz será mais clara, mais justa, mais veraz e mais completa que qualquer [anátema, condenação, ou rejeição de erros que se tenha pronunciado] nos registros da igreja... . Todos os falsos motivos serão anulados e todo sofisma se fará inalterado. Revelará quem creu realmente que o dar era mais bem-aventurado que receber (At 20:25), e quem fechou o seu coração as necessidades de seu irmão (1 Jo 3:17).141
Por fim, o torto será endireitado, serão satisfeitos os danos não pagos – os crimes não esclarecidos contra a humanidade, a difamação do nome de Deus, a matança desenfreada dos não nascidos, a indiferença com as necessidades angustiantes dos pobres e oprimidos. Porque “demasiada injustiça passa impune, demasiada bondade não recompensada, para que as nossas consciências repousem conformes as condições, tal como são na presente dispensação”.142 No final, “todos compareceremos ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: ‘como eu vivo, diz o Senhor, que diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua confessará a Deus.’ De maneira que cada um de nós dará conta de si para Deus” (Rm 14:10-12).

Este tribunal escatológico de justiça somente tem duas saídas – o “caminho largo que conduz para a morte, e o “caminho estreito” que conduz para a vida. Ambos os destinos, céu e inferno, são tão reais como a criação caída e redimida. O inferno: somente podemos falar com profunda relutância desta terrível perspectiva, com temor e tremor, mas temos que faze-lo para não suprimir o terrível testemunho da Escritura nos convertendo em cúmplices da condenação de outros à miséria eterna (Ez 3:16-21). Quando as pessoas exclamam desesperadas: “a guerra é um inferno!”; ou quando por outro lado, tratam com atenção a um hóspede com uma “ceia celestial”, há algo em nós que responde a tais hipérboles. Não obstante, essas declarações enfatizadas não pretendem captar o significado com intensa urgência do que a Escritura atribui ao céu e ao inferno. A plena realidade deles não pode ser reduzida a nossa vida de experiências contemporâneas como se fossem dois horizontes históricos em conflito. Por certo, experimentamos, nesta era, uma antecipação tanto da vida como da morte eterna. Mas somente Cristo, o nosso Substituto suportou o peso completo “da angústia e o tormento do inferno” aqui na terra.143 Somente ele experimenta agora a glória plena do estado celestial. Para o resto da humanidade a realidade plena do inferno e do céu espera até o dia do juízo. Então a imprecisa antítese do momento será plenamente revelada como uma contradição fixa.

A comunidade cristã também tem que comparecer ante o tribunal divino. Porque “a igreja, a ecclesia militans, com todas as suas divisões, sua disciplina e sua insubordinação, sua pregação, seu amor, tem que recordar que o juízo começa pela casa de Deus”.144 E “se começa por nós, qual será o fim daqueles que não obedeceram ao evangelho de Deus?” (1 Pe 4:17). A igreja não está isenta desta adjudicação final (1 Co 3:10-15). Porque “todo aquele a quem muito foi dado, muito será cobrado” (Lc 12:48). Ademais, como ocasionalmente expressa Kuyper “muitas vezes o mundo é melhor do que podemos esperar, e a igreja pior.” Não obstante, o crente pode confessar: “volto os meus olhos para o céu e espero confiante naquele que como juiz suportou em meu lugar diante de Deus.”145 Ainda que os fracassos dos cristãos “serão considerados no dia do Juízo, ... o ponto essencial” é este: “os pecados e fracassos dos crentes serão revelados no juízo como pecados perdoados”.146 O que tem vigência agora, também o terá “no fim”, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. Porque o nosso Juiz é o nosso Salvador e Senhor. “E da maneira que está ordenado aos homens morrer uma só vez, e depois disto, o juízo”, assim para a comunidade cristã, Cristo “aparecerá pela segunda vez, sem relação com o pecado, para salvar aos que nele esperam” (Hb 9:27-28).


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