A contribuiçÃo cultural de raymond williams para uma análise literária



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A CONTRIBUIÇÃO CULTURAL DE RAYMOND WILLIAMS PARA UMA ANÁLISE LITERÁRIA
Resumo

Raymond Williams realiza uma reflexão sobre a idéia de campo e de cidade que a maioria de nós fazemos. Este autor que contribuiu de forma significativa para os estudos culturais, nos permite expandir nosso olhar para muitas questões que estão há muito tempo arraigadas no imaginário ordinário. Este trabalho coloca em diálogo algumas obras de Raymond Williams, com o meu objeto de pesquisa que consiste na obra de Cornélio Penna intitulada “A Menina Morta”.


Palavras-chave: Raymond Williams, Cornélio Penna, campo e cidade

CULTURAL CONTRIBUTION OF RAYMOND WILLIAMS FOR LITERARY REVIEW


Abstract

Raymond Williams performs a reflection on the idea of ​​countryside and city that most of us do. This author has contributed significantly to the cultural studies allow us to expand our look at many issues that have long been rooted in the imagination ordinary. This work puts in some dialogue works of Raymond Williams, with the object of my research is the work of Cornelio Penna entitled “A Menina Morta”


Keywords: Raymond Williams, Cornelio Penna, countryside and city.
LA CONTRIBUCIÓN DE RAYMOND WILLIAMS PARA UNA ANÁLISIS LITERARIA
Resúmen
Raymond Williams realiza uma reflexión sobre el pensamiento de campo e la ciudad que la mayoría de nós haciemos. Este autor que contribuyó de forma mucho importante para los estudos culturales, nos permite expandir nuestra visión para muchas cuestiones que están hay mucho tiempo arraigadas no imaginário ordinário. Este trabajo coloca em diálogo algunas obras de Raymond William con el mio objeto de investigación que es la obra de Cornélio Penna “A Menina Morta”.
Palabras clave: Raymond Williams, Cornélio Penna, ciudad y campo.

Em “O campo e a cidade na história da literatura, Raymond Williams trabalha com a idéia de campo e cidade que nós possuímos. Cada um de nós temos uma visão do que seria o campo e na maioria das vezes, vemos nele um lugar de tranqüilidade, paz, harmonia com a natureza e encantamento, isto porque a maioria de nós, nunca habitamos este lugar, reproduzimos em nosso discurso aquilo que lemos em poemas bucólicos ou ouvimos em canções saudosistas. Esta visão seria a do cientista ou do turista e não do próprio camponês que trabalha no campo.

Quando indagamos alguém que já habitou, ou habita ambientes agrários, a resposta é bem diferente. Para estes o campo é o lugar onde o trabalho se inicia com o nascer do sol e se finda com o seu poente. Por isto a visão de tranqüilidade, não aparece nos discursos destas pessoas.

Quando passamos a pensar no campo em relação à cidade, possuímos a visão de que cidade é o lugar do progresso, de civilização, ao mesmo tempo em que o campo é sinal de atraso. Frequentemente não paramos para pensar que muitos progressos que obtivemos em nossa trajetória humana foram provenientes do campo, como por exemplo, o maquinário agrícola, o fim do trabalho escravo, a chegada de imigrantes em nossas terras, enfim, todos os lugares que servem de vivência para o ser humano é passível de progressos, de mudanças.

O campo passou a ser associado a uma forma natural de vida – de paz, inocência e virtudes simples. À cidade associou-se a idéia de centro de realizações – de saber, comunicações, luz. Também constelaram-se poderosas associações negativas: a cidade como lugar de barulho, mundanidade e ambição: o campo como lugar de atraso, ignorância e limitação (WILLIAMS, 1988, p. 11).
Por tratar do campo e da cidade esta obra de Raymond Williams é a que eu melhor poderia associar ao meu trabalho, pois este consiste em analisar a obra de Cornélio Penna intitulada “A Menina Morta”, publicada em 1954. Trata-se de um romance que possui como cenário uma fazenda de café do Vale do Paraíba, onde podemos observar o cotidiano de uma família que vivia sob a proteção do grande proprietário de terras, conhecido como Comendador. Este o grande patriarca, obtinha o poder sobre as terras, sobre a sua família, os seus trabalhadores entre eles o escravo africano, enfim, todos os que habitavam as suas terras.

No romance, ao contrário da visão de campo como lugar de tranqüilidade e atraso, vemos como lugar de trabalho, onde o escravo trabalhava de sol a sol para garantir a riqueza do proprietário de terras. Aqui o campo é lugar de sacrifícios, onde o trabalhador é obrigado a deixar a sua terra natal para habitar um lugar distante, onde não conhece a língua, mas sabe que deve trabalhar, pois se não o fizer é castigado.

O feitor com uma praga gritou-lhes qualquer coisa que não entenderam. Entretanto já conheciam o que era, puseram-se todas no meio da grande quadra, elas mesmas desprenderam as pesadas camisas que lhe cobriam os bustos de formas opulentas e exageradas, e ficaram nuas até a cintura. Sabiam que não podiam receber palmatoadas como as outras porque então não poderiam lavar a roupa naquele dia porque ficariam com as mãos inchadas e sangrentas...e também não queriam rasgar os vestidos que tinham de chegar até o dia de festa próxima, quando seriam feitas novas distribuições! (PENNA, 1970, p. 65).

No romance escrito por Cornélio Penna, o campo é retratado como lugar de dominação, onde os que possuíam riquezas mandavam e os que possuíam apenas a força de seus braços obedeciam. Lugar, por excelência de trabalho, pois é através dele que os senhores multiplicavam o seu patrimônio. Lugar também de crueldade, onde os castigos serviam para coagir o escravo fazendo com que este se tornasse refém do proprietário de terras. Assim, no lugar de bucólico, Penna retrata o campo como um lugar melancólico.

O tom de melancolismo na obra de Penna se dá através da maneira como o autor apresenta os seus personagens, estes sempre com ar de tristeza, assombrados pelo passado, repletos de sentimentos negativos em relação à vida, pois não são capazes de superar as suas perdas, infelizes pelo casamento mal arranjado, pela doença que os assola, pelo falecimento de um ente querido, pela perda de grandes fortunas, pela colheita perdida, pelas horas passadas no tronco recebendo chibatadas, enfim, cada um no seu universo, sempre mergulhados no mundo de tristeza e amarguras.

Ao contrário do campo como um lugar pleno de alegria e satisfação, na obra de Penna, o campo é o lugar de tristeza, massacre, exploração, violência e repressão. Nesta perspectiva, podemos nos indagar, por que ao contrário de muitos autores bucólicos, Cornélio Penna teria optado por retratar o campo a partir de características tão negativas?

Podemos encontrar a resposta se pensarmos que o autor preferiu tratar de uma realidade do Brasil do século XIX. Ou melhor, do país desde a sua fundação, onde o campo sempre serviu como o lugar do trabalho e da obtenção de lucros. Primeiro nos engenhos de açúcar, a primeira apropriação do campo como produtor de riquezas no modelo latifúndio, monocultor, com utilização de mão-de-obra escrava africana, em outros tempos, o café, em algumas regiões o gado, em outras o cacau. No Brasil, o campo sempre serviu de lucros aos poderosos, o lugar de exploração e apropriação, que levou inúmeros autores, entre eles Cornélio Penna, a pensá-lo como lugar de intensa atividade e apropriação e não como lugar de harmonia e tranqüilidade.

Este ponto de contraste entre o pensamento comum sobre o campo, e a realidade que observamos em diversos momentos da história, podemos encontrar em Raymond Williams da seguinte forma:

Examinemos em primeiro lugar a idealização de uma economia “natural” ou “ética”, já utilizada por muitos para contrastar com a investida impiedosa do capitalismo. Nela havia muito pouco de ético ou natural. [...] a ordem social em que se praticava esta agricultura era tão dura e brutal quanto qualquer outra que a tenha sucedido. [...] Essa economia, mesmo em tempo de paz, era uma ordem de exploração absoluta: não só a terra mas também as pessoas eram consideradas propriedade; a maioria dos homens via-se reduzida à condição de bestas de carga, presos pelos tributos, pelo trabalho forçado, ou então “comprados e vendidos como animais” (WILLIAMS, 1988, p. 59).
Na obra de Cornélio Penna a cidade aparece como o lugar de contato. É na cidade que os moradores do campo entram em contato com as últimas tendências de moda provenientes da Europa, onde também se comunicam com demais proprietários de terras, realizam trocas comerciais, adquirem alimentos que não são produzidos em sua fazenda, se comunicam com pessoas de demais nacionalidades e localidades, e também onde entram em contato com os estudos.

Neste caso, a cidade se configurava como o local de sabedoria e inteligência, muitos fazendeiros enviavam seus filhos para estudar na capital, a fim de que se tornassem mais sábios, ou mais “cultos”. Neste sentido vemos uma semelhança com a obra de Raymond Williams, ao nos chamar a atenção para o fato de que muitos possuem a visão de que no campo as pessoas seriam ignorantes. No caso da fazenda, aquele que habitava o campo não seria tão esperto quanto aquele que em certa altura da vida passou a viver na cidade para estudar. O próprio autor passou por experiência semelhante: “eu vim de uma aldeia para uma cidade; para ser ensinado, aprender; entregar fatos pessoais, incidentes de uma família, a um registro geral; aprender dados, conexões, perspectivas diferentes.” (WILLIAMS, 1988, p. 17).

O ponto de semelhança que podemos encontrar entre campo e cidade é que ambos são locais de movimentação, de diálogos, de relações sociais, principalmente no seio familiar. “A vida do campo e da cidade é móvel e presente: move-se ao longo do tempo, através da história de uma família e um povo; move-se em sentimentos e idéias, através de uma rede de relacionamentos e decisões.” (WILLIAMS, 1988, p. 19).

Na obra de Williams a visão que as pessoas possuem de cidade é de lugar de imprudências.

Essa vida fervilhante, de lisonja e suborno, de sedução organizada, de barulho e tráfego, com ruas perigosas por causa dos ladrões, com casas frágeis e amontoadas, sempre ameaçadas de incêndio, é a cidade como algo autônomo, seguindo seu próprio caminho (WILLIAMS, 1988, p. 70).
Raymond Williams nos convida a pensar sobre como devemos nos indagar sobre as diferenças entre campo e cidade. Para ele não devemos “perguntar apenas o que está acontecendo, num dado período, com as idéias do campo e da cidade, mas também a que outras idéias, dentro de uma estrutura mais geral, elas estão associadas.” (WILLIAMS, 1988, p. 388). Devemos observar que a idéia que se tem tanto de cidade quanto de campo, estão associadas com o tempo e o contexto em que são produzidas. Em determinados séculos vemos a cidade associada à riqueza enquanto que em outros ela é associada à marginalidade, banditismo, mundanidade e ainda em outros tempos à idéia de evolução, desenvolvimento tecnológico e progresso.

É necessário vermos o processo como um todo. Confrontar as realidades históricas de cada pensamento, analisando o tempo em que foram produzidos em associação com o ser humano que as produziu, a partir de suas vivências e costumes.

Assim, concordo em ver a cidade como representação do capitalismo, tal como muitos estão fazendo agora, desde que possa afirmar também que este modo de produção teve origem especificamente na economia rural da Inglaterra e lá produziu muitos dos efeitos característicos que foram posteriormente encontrados, em diversas formas, em cidades e colônias e em todo um sistema internacional (WILLIAMS, 1988, p. 391).
Ainda em relação à idéia que se tem sobre o atraso no campo, Williams chama a atenção para o fato de que é no campo que as principais revoluções da história da humanidade ganharam força e se tornaram irreversíveis:

A Revolução Chinesa, derrotada nas cidades, foi para o campo e lá ganhou força que a levou à vitória. A Revolução Cubana foi da cidade para o campo, onde sua força se formou. Numa era de lutas de libertação nacional e social, as populações exploradas rurais e coloniais tornaram-se as principais fontes de revolta constante. Na famosa frase chinesa a respeito da revolução mundial, o “campo” cercava as “cidades”. Assim, os “idiotas rurais” e os “bárbaros e semibárbaros” vêm sendo, há quarenta anos, a principal força revolucionária do mundo (WILLIAMS, 1988, p. 406).


A escolha de Cornélio Penna em retratar o campo como lugar onde as relações sociais se configuram através da brutalidade, e do trabalho árduo está relacionada com um desejo do autor de retratar uma realidade de fato brasileira. O autor se preocupava em retratar a história do Brasil, onde o campo era a força motriz de todo o sistema político, econômico e social.

Nos romances de Cornélio Penna é evidente uma tentativa de desmitificação de uma identidade nacional coesa e harmônica. O Brasil está estilhaçado por uma história violenta, produtora de um mosaico que, mal unido, não forma mais que uma imagem geográfica. Um mapa com fronteiras externas e sobretudo internas que dividem grupos étnicos e sociais representando papéis rígidos, com pouca ou nenhuma mobilidade (SANTOS, 2005, p. 87).


Outro ponto importante em “A Menina Morta” é a visão que o autor expressa do campo como o local de mudanças. Podemos observar esta visão no fato de que a ordem social vigente na época, do homem dominando todos foi invertida por uma mulher. No caso a filha do Comendador, proprietário da fazenda, quando volta de seus estudos na Corte, se nega ao casamento arranjado por seu pai. Este é acometido por uma enfermidade fatal e o destino da fazenda acaba nas mãos de sua filha Carlota, ou seja, nas mãos de uma mulher! Esta, por se colocar contra os maus tratos aos escravos, os alforria antes mesmo da abolição.

Antes da chegada de sua filha, a própria esposa do Comendador, Mariana, não suporta a morte de sua filha caçula e a ordem patriarcal a que estava submetida e foge da fazenda. Ambas as idéias de ruptura se configuram como impensáveis se pensarmos no campo como idéia de harmonia. No romance vemos o campo como lugar não só de mudanças, mas também de revolução. Onde ocorrem mudanças drásticas nas vivências de seus habitantes e na ordem a que há anos estavam submetidos.

Neste sentido vemos, mais uma vez a cidade através de uma idéia de progresso e libertação. Carlota teve a oportunidade de sair do campo para ir à cidade estudar. Este fato teria contribuído para as mudanças que houveram principalmente em seu pensamento. Na cidade Carlota teve contato com as idéias abolicionistas, com um mundo diferente do que estava acostumada. É no meio urbano que nasceu em Carlota o sentimento de força que teria para se opor ao masculino e tomar para si as rédeas da fazenda.

Compreender as mudanças propostas por Cornélio Penna não exige somente um estudo do objeto em questão, no caso a sua obra “A Menina Morta”, mas sim o contexto em que a obra foi escrita e também a vivência do próprio autor quando a produziu. Nas palavras de Maria Elisa Cevasco em sua análise sobre a contribuição de Raymond Williams para os estudos culturais: “vista como atividade social e material, a arte não tem sentido se dissociada da sociedade onde atua de forma específica.” (CEVASCO, 2001, p.51).

Por isto para compreender melhor a obra, objeto de minha pesquisa, entremos melhor no mundo de Cornélio Penna: Escritor relativamente pouco conhecido, Cornélio Penna publicou apenas quatro romances, Fronteira (1935), Dois Romances de Nico Horta (1939), Repouso (1949) e A Menina Morta (1954). Nasceu no Rio de Janeiro em 1896 e passou a maior parte de sua infância em Minas Gerias. A vida adulta ele passou em Campinas. Em São Paulo cursou a faculdade de Direito, iniciando suas atividades literárias nos jornais e revistas acadêmicos. Faleceu no Rio de Janeiro em 1958.

Suas obras não tiveram muita repercussão, não se trata de um escritor nacionalmente conhecido por diversas gerações, como Machado de Assis ou Graciliano Ramos. Seus escritos atualmente despertam maior interesse no público acadêmico por se tratar de um autor que possuía uma maneira própria de narrar e que utilizava elementos bastante distintos para descrever seus personagens e desenvolver o seu enredo.

A mais importante característica do estilo literário de Cornélio Penna é a narrativa introspectiva, ou mais conhecida como “romance psicológico”. A literatura dos anos 1930 foi marcada por duas principais vertentes opostas, o romance social e o romance psicológico. Penna se enquadra no romance psicológico, sendo ele um dos poucos escritores que lançaram este novo estilo literário. Os escritores que se engajavam nesta vertente preferiam uma visão mais crítica das relações sociais em contraposição aos escritores do romance social, que possuíam uma visão mais voltada para a sociedade de maneira geral, sendo uma literatura com o objetivo de denúncia.

Nesta espécie de narrativa, os seres que compunham o enredo eram descritos não por seu fenótipo, mas sim por suas características psicológicas, destacando seus pensamentos em relação à sociedade em que vivia. Enquanto a literatura brasileira estava marcada por romances de cunho social, em que se destacavam os problemas de fome e miséria que assolavam a parcela mais pobre da população brasileira, Cornélio Penna lançava sua linha intimista em que o ser humano ocupava a cena com seus problemas emocionais.

Este estilo de literatura intimista não informava apenas a realidade em que se encontrava o Brasil. Embora o leitor se preocupasse em ler o que era considerado denúncia de uma sociedade que sofria pela exploração dos mais abastados, se esquecia de que a leitura de introspecção denunciava os problemas do ser humano vítima desta sociedade.

Cornélio Penna escrevia sobre o homem e não sobre a sociedade em que este estava inserido. O ser humano era colocado como o centro da narrativa. A partir dele e de sua relação com os demais é que Penna vai traçando o perfil da sociedade que ele está tratando no romance. Este é repleto de sentimentos como, ira, temor, fé, ou a falta dela, paixão, melancolia, inveja, cobiça. A partir dos sentimentos que cultivava em seu ser e da forma com que pensava sobre sua vida, é que o homem era descrito.

O romance “A Menina Morta” foi concluído pelo autor no ano de 1953, sendo publicado um ano depois de sua finalização. Se analisarmos a temporalidade em que foi escrito o romance podemos perceber qual o motivo que teria levado Penna a escrever sobre um século anterior se apropriando de elementos de sua própria temporalidade, como por exemplo, no caso da mulher subvertendo a ordem patriarcalista.

No século XIX a sociedade sofreu grandes transformações comportamentais inclusive no setor feminino. O nascimento da burguesia e o desenvolvimento de uma vida urbana com novas formas de convivência social propiciaram o desenvolvimento de uma nova visão sobre a sociedade em questão. Presenciamos nesta etapa o surgimento de uma nova mulher, agora marcada pela valorização da intimidade.

A idéia de intimidade se ampliava e a família, em especial a mulher, submetia-se à avaliação e opinião dos ‘outros’. A mulher de elite passou a marcar presença em cafés, bailes, teatros e certos acontecimentos da vida social. Se agora era mais livre – ‘a convivência social dá maior liberdade às emoções’ -, não só o marido ou o pai vigiavam seus passos, sua conduta era também submetida aos olhares atentos da sociedade. Essas mulheres tiveram de aprender a comportar-se em público, a conviver de maneira educada. (D’INÁCIO, 1997, p. 228).
Se antes a mulher estava presa à casa-grande e às amarras da fazenda, agora ela passa a conviver em grupo. Para isto ela renova seu comportamento sempre destinado ao olhar do outro. Desta forma a mulher passa a desenvolver certa autonomia, pois antes ela agia de acordo com as regras impostas por seu marido e estava sempre sob seu olhar vigilante. Agora, no convívio social, ela passa a ser responsável por seus próprios atos e palavras, afinal passa a ter uma vida longe do olhar repressivo do homem.

O convívio com outras senhoras em meios públicos trouxe outras possibilidades de entretenimento e, entre bordados e receitas, as novelas românticas passaram a ser consumidas, trazendo um novo ideal sobre o amor. “As histórias de heroínas românticas, langorosas e sofredoras acabaram por incentivar a idealização das relações amorosas e das perspectivas de casamento.” (D’INÁCIO, 1997, p. 229).

Nesta nova visão de mundo, as mulheres casadas contribuíam para a ascensão da família. “Mulheres casadas ganhavam uma nova função: contribuir para o projeto familiar de mobilidade social através de sua postura nos salões como anfitriãs e na vida cotidiana, em geral, como esposas modelares e boas mães.” (D’INÁCIO, 1997, p. 229). Boa mãe significava participar desde cedo da criação dos filhos e ser a grande responsável pelo ser humano que eles seriam no futuro.

Os cuidados e a supervisão da mãe passam a ser muito valorizados nessa época, ganha força a idéia de que é muito importante que as próprias mães cuidem da primeira educação dos filhos e não os deixem simplesmente soltos sob influência das amas, negras ou ‘estranhos’, ‘moleques’ da rua (D’INÁCIO, 1997, p. 229).


Estas novas mudanças comportamentais pelas quais as mulheres passaram se iniciaram no século XIX e se acentuaram no século XX, de onde o escritor produzia sua obra. Neste sentido, foi de fundamental importância um entendimento da temporalidade vivida pelo autor e o contexto em que o romance foi escrito, pois através desta perspectiva podemos observar que Penna se apropria de características de seu próprio tempo para produzir uma narrativa carregada de tensões e inovações no comportamento social, principalmente em relação à figura feminina

Em “O Teatro Como um Fórum Político” Raymond Williams, realiza este trabalho de análise do contexto em que a obra foi produzida para melhor compreensão do objeto que se pretende analisar. No caso Williams analisa o teatro como expressão política da sociedade da qual se trata. O autor aponta as influências que o drama recebeu no decorrer do tempo, tanto de vertentes artísticas como o naturalismo, como do próprio comportamento cotidiano.

Assim, locais sociais reais e muitas vezes novos foram colocados no palco e, dentro do mesmo propósito, houve cada vez mais atenção à reprodução, dentro deles, da fala e do comportamento cotidianos. Essas novas convenções passaram, de maneira cada vez mais ampla para o drama como um todo (WILLIAMS, 2011, p. 79).
No entendimento de Raymond Williams, cultura pode ser definida como uma incorporação de valores, práticas e significados que estabelecem uma interligação entre si. O que vemos é uma incorporação por parte de Cornélio Penna de uma cultura como prática vivente de seu tempo, onde ele se utiliza desta incorporação para reproduzir uma história passada, assimilando características de sua vivência aos personagens de uma época anterior.

Neste sentido o que Penna realiza é o que Raymond Williams denomina de tradição seletiva, sendo que tradição seria “uma versão intencionalmente seletiva de um passado modelador e de um presente pré-modelado, que se torna poderosamente operativa no processo de definição e identificação social e cultural.” (WILLIAMS, 1988, p. 118).

Houve, neste sentido uma seleção por parte de Penna de uma parte da história do Brasil em que ele retrata os maus tratos sofridos pelos escravos e a subordinação em que a mulher vivia antes de reverter a ordem vigente. Estas características em evolução se transformariam no próprio presente vivido pelo autor. A própria família retratada no romance é uma instituição dentro desta tradição seletiva. A família transmite os ensinamentos de maneira seletiva, os filhos aprendem apenas o que os pais querem ensinar.

Há na obra de Penna, uma espécie do que Williams denomina de passado residual, ou seja, um passado que persiste no presente que foi resgatado pelo autor, porém imbuído de características do próprio presente, no caso a desagregação e ruptura, o comportamento feminino e as mudanças que este comportamento acarretaram. As novas práticas e os novos significados provenientes deste passado residual, que surgiram no novo contexto são o que Williams denomina de emergente.

A contribuição de Raymond Williams é de fundamental importância para qualquer trabalho que diz respeito às práticas sociais seja no campo ou na cidade. As relações entre os seres humanos, entre si e com o ambiente em que habitam são formas culturais de se relacionar. A cultura é todo modo de vida, por isto ela é para todos. Denominar de cultura somente as produções dos grandes artistas exclui todas as formas de expressão de significados e valores de uma sociedade.

Neste sentido, tudo o que o homem produz em sua vivência e em seu tempo é cultura. Ela não é o resultado de uma vivência, mas sim agência no sentido de que está sempre em movimento, o ser humano a produz a partir de elementos tanto do passado como do presente, em uma inter-relação constante. O homem não só recebe uma cultura herdada, mas principalmente se apropria dela imbuindo-a de novos significados e valores. Portanto ela não é reflexo, mas sim constitutiva de uma sociedade.

Portanto a obra de Williams nos permite ver além de estruturas rígidas comportamentais. Através de sua contribuição vemos o homem como agente de seu tempo, como aquele que se apropria de suas tradições herdadas por instituições (família, escola, igreja...) e “ressignificadas” em seu próprio tempo a partir de sua própria vivência. Por isto precisamos compreender o ser humano a partir de sua relação com o todo, em constante modificação e movimentação e é isto que Williams nos convida a fazer.

BIBLIOGRAFIA

CEVASCO, Maria Elisa. Uma apresentação e Um plano de trabalho: “Culture is Ordinary”. In: Para Ler Raymond Williams. São Paulo: Paz e Terra, 2001. p 15-75.

D’ INÁCIO, Maria Ângela. Mulher e Família Burguesa. In: PRIORE, Mary Del. (org.) História das Mulheres no Brasil. 2.ed. São Paulo: Contexto, 1997. p. 223-240.

PENNA, Cornélio. A menina morta. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1970.

SANTOS, Josalba Fabiana. Metáforas da Nação: Cornélio Penna e Gilberto Freyre. Revista Letras, nº 66. Curitiba: UFPR, maio/ago 2005. p. 77-89. Disponível em: www.ser.ufpr.br Acesso em março/2010.

WILLIAMS, Raymond. Cultura, Língua e Literatura. In: Marxismo y Literatura. Barcelona, Península, 1988, p. 21-70, 137-158.

WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade na História da Literatura. São Paulo: Cia. Das Letras, 1988, p. 11-79, 387-401.



WILLIAMS, Raymond. O Teatro Como um Fórum Político. In: Política do Modernismo: contra os novos conformistas. São Paulo: Editora UNESP, 2011. p. 73-92.


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