A criatividade expressiva na obra de manuel rui



Baixar 109.24 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho109.24 Kb.
Luís Mascarenhas Gaivão

Mestre em Lusofonia e Relações Internacionais.

Natural de Luanda

Ex-Adido Cultural em Luanda (1996-2001). (lgaivao@sapo.pt)

30.04.11

A CRIATIVIDADE EXPRESSIVA NA OBRA DE MANUEL RUI 1


  • INDICE




  • Introdução

  • 03

  • 1.1. Um escritor polígrafo

  • 03

  • 1.2. Amadurecimento do autor

  • 03

  • 2. A criatividade expressiva

  • 04

  • 2.1. A utilização da oratura. Espíritos/cazumbis

  • 04

  • 2.2. Originalidade expressiva

  • 05

  • 2.3. Uma sensibilidade apurada

  • 07

  • 2.4. Um mestre na ironia

  • 08

  • 2.5. A expressividade na temática social – crítica da sociedade angolana

  • 10

  • 2.5.1. Em relação à temática dos colonos/colonização/guerra colonial

  • 10

  • 2.5.2. Em relação à temática da independência

  • 11

  • 2.5.3. Em relação à temática da corrupção, violência e diferenças sociais

  • 12

  • 2.5.4. Em relação à temática política

  • 14

  • 2.5.5. Outras temáticas: Pensamentos, Deus, ternura e outras questões…

  • 15

  • 3. Conclusão

  • 16

  • 4. Referências bibliográficas

  • 16


1. Introdução

Afirma Schwanitz (2005, p. 20) que “a p Gaivão, L. (2010). A criatividade expressiva na obra de Manuel Rui. In XIV Colóquio da Lusofonia 27 Set-2 Out 2010 – Bragança, Portugal. ISBN 978-989-95891-5-5.

rodutividade da linguagem provém da relação erótica entre dois princípios: a sintaxe e a semântica”, um princípio que se aplica, por inteiro, à obra literária de Manuel Rui.
1.1. Um escritor polígrafo.

Este escritor angolano, nascido no Huambo em 1941, cuja extensa obra merecia mais estudos e maior aprofundamento, logo que estudante de Direito, em Coimbra, deu início aos trabalhos literários que nunca mais pararam.

Com a independência de Angola, doou ao País a letra do hino, elaborou letras de canções de compromisso ideológico, escreveu muita poesia revolucionária e ocupou cargos de relevo político na ocasião, ao mesmo tempo que se desmultiplicava em acções de carácter jurídico umas, e outras muitas, de carácter cultural. Foi membro fundador da “União dos Escritores Angolanos - UEA”, da “União dos Artistas e Compositores Angolanos - UNAC” e da “Sociedade de Autores Angolanos - SAA” e exerceu cargos académicos para a consolidação da nova realidade político-cultural-social que o Estado e a nação dos angolanos apontavam como necessário organizar.

Depois, Manuel Rui, continuando, embora, no exercício da advocacia, nunca mais abandonou o texto literário: como crítico, ensaísta, cronista, poeta, romancista, conferencista e, igualmente, escritor para teatro e cinema.


1.2. Amadurecimento do autor.

Desde os primeiros tempos da luta ideológica ardente, 11 Poemas em Novembro (de 1976 a 1988) em que, como bem escreve Laranjeira (1995, p. 164) “entre a ilusão do real concreto e o concreto da ilusão ficcional, a ideologia do enraizamento, enquanto modo de identidade, crava no texto as suas garras…” (…) sendo os elementos fulcrais do enraizamento “os signos da terra, povo, língua, sangue, raça e da tríade nação-pátria-Estado”, Manuel Rui inicia uma evolução no sentido de maior reflexão e ponderação temáticas, através de novos escritos que, já com a utilização de processos estilísticos e ficcionais mais elaborados, passam a incluir a ironia e a crítica, como refere, também Laranjeira (1995, p. 165) “os escritores não criticam os fundamentos da nação, porque os aceitam, mas encenam a crítica do fundamentalismo através do humor pícaro, costumbrista, social ou cultural.”

É o que se pode denotar em Quem me dera ser onda (1982), ou Crónica de um Mujimbo (1991) e assim por diante, em todas ou quase todas as produções subsequentes, onde a crítica social se instala de vez, atenta às novas realidades que vão emergindo do decurso dos tempos e da evolução sócio-política angolana.

E é dessa mesma realidade que Manuel Rui, em cada nova obra que publica, nos comunica, de forma plurifacetada, aqui mais realista, ali mais regionalista, poética ou mágica, os sentimentos, sofrimentos, frustrações e as alegrias que atravessam os diversos povos constituintes de uma nação que é possuidora da enorme riqueza dos seus inúmeros contrastes humanos e naturais e, infelizmente e ao mesmo tempo, tantas diferenciações sociais e económicas, muitas delas não só explicitadas nas falas e pensamentos dos inúmeros personagens, mas igualmente pelas situações expressas na sua muito vasta obra ficcional, onde recorre aos mais variados processos estilísticos.

Neste percurso, o amadurecimento do homem e do escritor são flagrantes, assim nos indicia a análise da sua escrita, onde a seriedade das denúncias sociais, das contradições políticas dos regimes (primeiro, o do partido único e depois o da democracia liberal) e das caricaturas dos seus agentes, se cruzam com a descrição da genuinidade cultural dos populares (agricultores e pescadores preferentemente, mas também cidadãos anónimos urbanos), ou com as questões culturais herdadas do processo histórico, antes e depois da independência, com os preconceitos culturais, tudo isso através de uma literatura onde prevalece uma infindável admiração pela incomensurável variedade e natural beleza do país, onde perpassam rios, bichos, praias, árvores, espíritos, chuvas, céus de paletas admiráveis, cheiros e sabores fortes e sensuais, num nunca mais acabar de sinestesias e, sobretudo, onde se denotam infindáveis expressões curiosíssimas, de criatividade permanente e efeito estético conseguido..
2. A criatividade expressiva.
2.1. A utilização da oratura. Espíritos/cazumbis.

A oratura é um recurso cada vez mais frequentemente utilizado pelo autor. Em Angola, como em toda a África, o pensamento africano encara diversas noções filosóficas de um modo distinto ao do eurocentrismo planetário. Desde logo uma ideia de tempo e espaço mais lata e de dimensões muitas vezes metalógicas, as crenças, os cazumbis/espíritos, a sua presença na realidade quotidiana que comanda as chuvas, os rios, as actividades humanas, e a própria noção ontológica do homem-sujeito com valor de totalidade, intrínseco em si mesmo, longe do homem-objecto a quem a actual civilização global espartilhou no agregado das suas componentes várias (inteligência, afectividade, saúde, educação, profissão, escalão social, etc.).

É, sobretudo, através da oratura que se denotam as marcas mais evidentes deste pensamento africano, mas é também necessário estar atento aos sinais, pois que, no mundo globalizado o pensamento tende a ser universal, ao arrepio das tradições africanas, onde, como tão bem descreve Grosfoguel (2009), o pensamento é anti-hegemónico e anti-fundamentalista, inserido num mundo pluriversal, anti-desígnio universal abstracto.

E Houtondji (2009, p. 123, nota 5) refere que se deve prestar mais atenção aos “modos e dispositivos concretos através dos quais o conhecimento é transmitido sem recurso à escrita tal como ela é usada no Ocidente. Por esta razão, devem ser chamadas, como sugeriu o linguista francês Maurice Houis (1971), civilisations de l’oralité – civilizações da oralidade.”

Ora em Manuel Rui surgem constantemente discursos de oralidade onde aparecem diversos sinais desta realidade diferente africana, sobretudo nas obras mais recentes, como Rio Seco (1997), A Casa do Rio (2007) e Janela de Sónia (2009).

Por outro lado, quanto à escrita deste autor Manuel Rui, encontramo-nos diante dum estilo peculiar, que marca à saciedade as características das falas e da e literatura que a língua portuguesa reveste nos povos do território angolano, bem diferentes do português de Portugal.

Como aponta Mingas (2000, p. 11) “a realização da língua portuguesa, em Angola, dá-se numa situação de plurilinguismo (nível nacional) e de pluri ou bilinguismo (nível individual)”, e ainda, segundo a mesma autora (2000, p. 21) “devido ao fenómeno da adaptação constante e frequente da estrutura da língua primeira (ou materna) à da língua segunda, constatam-se diversas alterações fónicas e morfossintácticas na língua segunda”.

O anteriormente apontado reflecte-se, pois, fortemente, nas falas dos personagens da bibliografia de Manuel Rui que, com imaginação prodigiosa e domínio absoluto da escrita, vai criando interessantíssimas expressões que vão, pouco a pouco, não apenas exprimindo o falar do português angolano, como também acrescentando de enorme espontaneidade e criatividade o léxico português nacional angolano, com mil e uma palavras novas e introduzindo alterações ao léxico, sintaxe, semântica e recorrendo à oratura tradicional e oralidade coloquial.

Em negrito, seguem-se as partes mais significativas de algumas passagens:

Em Rio Seco, p. 269, podemos reparar no elogio da oratura e do pensamento tradicional: “vou-vos ensinar estórias e cantigas bem lindas que aprendi na minha mãe que ela tinha aprendido na minha avó

Idem, em Um Anel na Areia, p. 153: “Isso era da tradição uma pessoa quando chega na família deve contar falar mais que alissopo, uma espécie de relatório e alguém de brincadeira grita alupolo! E responde o coro luye! É como estamos a receber família tem sempre uma estória para se contar ou conta quem chega ou conta quem recebe que alupolo traduzo querem uma estória! E luye é queremos!”

Em Estórias de Conversa, p.14, reparemos, para além da transcrição do pensamento tradicional, as alterações ao léxico e morfo-sintaxe, “mal o galo se caiu morto no lugar dele se desfeitiçou na própria pessoa que andávamos tanto tempo atrás…”

Em A Casa do Rio, p. 167, também podemos observar o pensamento tradicional e alterações lexicais, “a madrasta, que afinal era feiticeira, uma eyambi, aparecia e desaparecia em cima de um pau de uma árvore grande, na maneira de onça, saltava de um lado para o outro do caminho, focinhava os dentes, atiçava as garras de fogo e aparecia no mato.”

Em Janela de Sónia, p. 131, vêem-se utilizações lexicais e alterações semânticas, tal como na p. 264 e, na p. 11, a noção do tempo africano. “E eram estórias de apardalar as vistas, deixar os ouvidos esquecidos na espera do final e por vezes, comungadas com gestos de raiva e lágrimas.” Na p. 264 “A estória de dona Garacinda se mudar de voz e de expressão para feitiçar o vento e arrepiar as pessoas em janela de Sónia…” e p. 11 “ A guerra havia feito um corte no tempo, como se o tempo só tivesse nascido com a guerra e a independência, um tempo que não se sabia bem se era hoje afundado no medo e sem sentido.”

Manuel Rui apresenta, pois, o recurso muito frequente à oratura e, através desse processo, às tradições, costumes e magias, porque conhece bem que também é por essa via que se fará a recuperação das culturas esquecidas pelo mediatismo da globalização, e que, no entanto, permanecem vivas e bem arreigadas na identidade dos povos de Angola.

E, ainda sobre este tema, escreve, também, o autor, ainda em Janela de Sónia, p.334 “A nossa maior riqueza cultural é a tradição pela palavra, a oratura. Há sempre uma pessoa que inventou, criou, isto é arte, deve ser preservado e neste caso, a dona conta muito bem e a estória é muito bonita…”


2.2. Originalidade expressiva.
A originalidade expressiva é uma das mais vivas e peculiares qualidades estilísticas com que Manuel Rui vai apresentando as diversas temáticas que atravessam a sua obra.

Característica comum a muitos dos escritores lusófonos, dos PALOP e Brasil, esta predisposição para introduzir inovações com recursos vários localizados na oratura e nas linguagens coloquiais, na sequência da adaptação da língua materna à língua segunda, e também na adaptação de sentido contrário, provocam a formação de neologismos e alterações a nível sintáctico que vão criando e reforçando as marcas específicas nas variedades do português de cada um dos países da CPLP.

Vem a propósito desta capacidade original característica das literaturas e das culturas lusófonas, afirmar que na sua expansão pelo mundo os portugueses exerceram, dadas as suas características de povo de fronteira marítima no Sul da Europa e visitado por inumeráveis influências do Norte europeu, do Oriente Médio e do Norte de África, uma colonização que teve, para além dos aspectos negativos de opressão social, económica e política, alguns aspectos mais positivos, como os da miscigenação física e cultural.

Esta actividade de verdadeira interculturalidade forjou a mestiçagem brasileira e as outras mestiçagens nos locais onde a presença de portugueses, sempre diminuta e por isso mesmo sempre necessitada de população, os levou, por necessidade e/ou por curiosidade e sensualidade bem desperta, ao cruzamento com outros povos, de África, da América, do Oriente.

Igualmente é importante referir que a colonização portuguesa, mesmo após a obrigatoriedade de ocupação dos territórios coloniais decretada pela Conferência de Berlim de 1885, realizou-se sobretudo nas margens litorais, pouco tendo penetrado nos hinterlands dos países africanos, facto que só nos meados do século XX veio a suceder com efectividade.

Daí que as comunidades lusófonas mais importantes, tirando o Brasil independente desde 1822, se tenham situado em Goa, Cabo Verde, São Tomé, Luanda e Benguela e, em menor escala em Moçambique, locais esses, precisamente, onde a população portuguesa menos se revelava ausente.

Venâncio (1999, p. 86-87) escreve que “A prática de uma política de assimilação cultural precoce surgiu assim aos olhos do poder central em Lisboa e aos olhos dos próprios portugueses, que nos diferentes pontos ultramarinos lutavam pela sua sobrevivência, como uma forma de suprir a falta de braços e dar a volta pelo lado cultural à concorrência económica que as outras potências coloniais faziam a Portugal.” (…) “nos anos 20 e 30 se fazem ouvir vozes nativistas. Uso aqui o conceito de nativismo no sentido que o etno-sociólogo alemão W. E. Mühlmann (1964, p. 323 e sgts.) lhe atribuiu, i. é, como um movimento colectivo em sociedades colonialmente dominadas, visando uma emancipação espiritual, não tanto política, mas sim mais religiosa e reformista. É com o nativismo, ainda segundo Mühlmann, que o colonizado se começa a expressar numa maneira própria, vendo então tal movimento como que uma fase do pré-nacionalismo. O nacionalismo, por sua vez, seria já um movimento da intelligentsia.”

Estes intercâmbios culturais e estas miscigenações, proporcionaram as necessárias aberturas de ideias e de espíritos, e esse processo chamou para as representações culturais as características de cada um dos povos em contacto: a alegria contagiante de uns, o culto dos espíritos, as tradições, as músicas, danças, gastronomias, religiões, línguas, sensualidades, enfim um espírito de convívio especial que deu em lusofonia em que uma das características fundamentais é, precisamente, a forte originalidade das expressões culturais lusófonas, literaturas à cabeça.

Manuel Rui é um dos exemplos paradigmáticos destas características tão evidentes de criatividade e originalidade.

Alguns exemplos, criativos e originais no campo semântico e morfo-sintáctico (apresentados em negrito):

Em Memória de Mar, p. 73 “Sempre me encantaram os sincretismos por serem mais maravilhosos do que os elementos que os integram – disse o sociólogo extasiado.”

Em Rio Seco, p. 10 “… a mulher permanecia sentada sobre a trouxa grande em que se descobriam, debotados, por velhice e uso, os pálidos vermelho, preto e amarelo do pano. Da maneira como ela exagerava a abertura das pernas e obrigação de chumbar bicos dos pés na areia, não enganava nenhum bicho, mesmo sem de alarme vidente, que estava toda entregue à guarda de suas embambas encofradas por dentro do pano”, Na p.11, “A sopra do vento mexido de fugida, passar só sem ficar batendo, foi esquebra de arder melhor o tabaco no sabor e ela tão bom no fumo aberto sem se perder o cheiro de cheirar o mundo mundão, fugido de infelicidade”

Em Quem me dera ser onda, p. 33, “O sol faltava só um bocadinho da roda encarnada dele desaparecer lá no fundo onde mar não tinha fim.”

Em Rio Seco, p. 270, “Não ventava e os coqueiros e casuarinas estavam a aceitar a chuva como que adormecidos por hábito. Sem se sembar na dança dos troncos nem se cudurarem nas ramagens” e p. 331 “Sereia rainha do mar e amantizada com ele no testemunho da estrela, do vento e das calembas que faziam pensar que o mar daquelas águas só tinha fim no seu princípio.

Em Da Palma da Mão, p. 11 “… provocando gula ensalivada na boca dos candengues [crianças] esfarrapados.”

Em Saxofone e Metáfora, p. 25 “Falando na maneira de contar um bocado sem dizer sobre.”

Em O Manequim e o Piano, p. 294 “O cacimbo também se embrulhava no céu fingido de se encolher com medo de dar volta na nuvem e perder o calor das estrelas com a noite penetrada nas narinas de Alfredo e Vander mais o cantar escondido dos grilos.”

Em Estórias de Conversa, p. 48, “Uma cabritona com vinte e cinco anos que nunca pariu. Tu conheces os meus seios que eu até nem uso sutiã e os carros param a ver os meus passos de passar.”

Em A Casa do Rio, p. 9, “Na maneira daquela perguntação, na desfala ziguezagueada das tábuas…”
2.3. Uma sensibilidade apurada.
Manuel Rui possui uma sensibilidade apurada e a capacidade de observação não apenas da mãe- natureza, mas sobretudo na captação das ‘intencionalidades’ no que se refere aos pensamentos de homens, mulheres e crianças.

Naturalista, descreve e pinta as paisagens como impressionista de fina paleta ou, como psicólogo, lê os pensamentos para além das atitudes.

Senhor de técnica literária e estilística, utiliza toda a gama de figuras de estilo, a ironia, o eufemismo, a metáfora, a personificação, o animismo, a comparação, a sinestesia, etc., sendo que uma das maiores qualidades presentes na sua bibliografia é a sensibilidade extrema com que, puxando do seu extraordinário pincel/caneta e com a facilidade mais espontânea deste mundo, traça os mais belos quadros naturais ou constrói as mais ricas e variadas personagens humanas.

Esta sensibilidade, atenta à realidade social envolvente, não poupa críticas merecidas nem se deixa dominar por receios. Manuel Rui é um homem que se coloca do lado do narrador, vê, descreve e comenta, geralmente através dos diálogos dos personagens.

Quanto à natureza, alguns exemplos, igualmente destacados em negrito:

Em Rio Seco, p. 9 “ O mar abria boca-réstia de sono ainda em maré baixa a espreguiçar-se, sono lentamente sob o sol sem nuvem. Esteira de dormir qualquer liturgia mesmo de difícil, um esse porém afofalhado imenso de se apresentar sem vaga, na areia da beira-praia, em desinteresse de pureza pisada de ilusão.” E na p. 29 “o sol declinava já a mangonhar-se rendido aos pés das primeiras passadas da noite e largando uma madeixa vermelha espalhada por sobre o horizonte, de tom amenizando-se na orla de roxo para o azulamento desesperado das estrelas…”

Em O Manequim e o Piano, p. 7, podemos ver-ouvir “os zigue-zagues das faíscas onde o granizo também musicava.”

Em Estórias de Conversa, p. 28, a expressão popular da forma sintética do adjectivo e a riqueza literária “O tempo era muito óptimo de sol e do lado esquerdo via-se o mar dobrado em espuma e a navegar sozinho.”

Na Casa do Rio, p. 99, eis como se descrevem faíscas intermitentes, “ relampejava quase de pirilampo.”

Em Ombela, o texto poético também revela a chuva, p. 46 “O corpo todo do céu já beijei e beijo o corpo todo da cabeça aos pés do céu. O corpo todo da terra já beijei da cabeça aos pés da terra no orgasmo completo e simultâneo do trovão e faísca. Eu sou assim uma mulher que ama o amor da vida em água sem limite e sem morte. Sou mesmo a chuva.”

Em Janela de Sónia, a natureza vem personificada e com extraordinária força metafórica e sinestésica, “Assim que desmadrugou a luz no esfregar dos olhos e um galo começou, baixinho, quase no arroto de abrir canto…

Quanto ao pensamento e aos sentimentos dos humanos, eis mais umas quantas citações reveladoras da grande atenção e sensibilidade de Manuel Rui:

Em Memória de Mar, p. 9, um pensamento filosófico, “ A realidade é sempre mais de sonho que o imaginário.”

Em Rio Seco, p. 31, a vontade de isolamento, para pensar, “Também nunca hei-de estar perto de nada, porque, quando isso me acontece, sinto por dentro, uma vontade de me afastar para longe.” Ou, p. 20, a fidelidade à vocação interior, como valor em si, “Peixe-pescar quando a pessoa se gosta nisso é a vida inteira. Por nada do mundo se troca. Nem mulher, porque o mar também é mulher já te falei. Um dia vais ver. E eu aprendi só de pescador e vou morrer assim.” E ainda, p. 23, um pensamento sobre a psicologia feminina “Uma mulher é sempre uma mulher. Nem paz dos homens, nem silêncio das vozes lhe dá paragem no pensar assuntos.” Ou, na p. 37, a original utilização de sabores, sons, ritmos, sombras e mar “Sentaram-se a intervalar de um para outro, gulosamente, garrafa e cachimbo de sabor bem saboreado no som da boca de cada um. Os olhos no mar. À luz do candeeiro.” Ainda na p. 165, a filosofia duma dimensão alargada de humanidade, africana, ontológica, “Recebi-lhe. Da maneira como aprendemos na nossa terra. Mesmo que seja um inimigo. A pessoa que nos quer matar. Dei-lhe kissangua e comida. Aprendi isto com a minha Mãe.”

Em A Casa do Rio, p. 78, uma tirada crítica relativamente a certas atitudes religiosas e a morfossintaxe utilizada, curta e contundente, “Se não houvesse mentira não havia vida nem religião, a prima desculpe e peço perdão.”

Em Janela de Sónia, p. 11, a surpresa metafórica, “Até já morreu gente que estava a dormir e acordou morta. E na p. 78, o apelo à esperança e ao sonho, “Uma pessoa que já não consegue sonhar morre. Uma pessoa para ainda sonhar hoje e ter esperança tem que esquecer o que passou na guerra.” E, na p. 177, a construção poético metafórica de grande estética, “A vida é muitas janelas que não se consegue contar.” E na p. 272, um pensamento bem angolanizado “A vida é onde estamos e o que fazemos. Nunca o donde viemos e para onde vamos.”

Manuel Rui apresenta-se-nos, pois, como um descritor da natureza angolana, da terra e dos homens, do pensamento e da alma, um representante incontornável da literatura daquele país lusófono.

2.4. Um mestre na ironia.
Manuel Rui utilizou desde sempre a ironia e a satirização daquilo que, no seu pensamento, considera injusto ou vergonhoso. São os personagens que falam.

Logo nas primeiras obras, para citar um exemplo, Quem me dera ser onda, toda a estrutura narrativa se baseia nesse pressuposto irónico e é pelo uso da carnavalização e do grotesco que o escritor critica os gestos contra-revolucionários dos moradores do prédio onde a cena se desenvolve, bem como os comportamentos sociais da pequena burguesia totalmente em contradição com o que apregoavam, como se a revolução fosse possível naquelas cabeças, com um porco “Carnaval da Vitória” a viver num 7º andar e a ser engordado para ser comido, na luta contra o “peixefritismo” do mercado, única modalidade gastronómica possível na altura da revolução.

Eis, então, de entre o seu imenso repertório algumas interessantes passagens com o recurso à ironia (em negrito), não deixando de avisar que nos devemos precaver contra uma leitura linear daquilo que está escrito e que pode não traduzir exactamente o pensamento do autor.

Em Rio Seco, p. 14, brinca com o linguajar popular, sobretudo dos que pretendem falar em inglês, sem o terem estudado “E tu onde aprendeste kimbundo? Isso é uma história para te contar depois. Eu também sei muitas línguas. Até afrikandar e xingrês. Uane, tu, tri, for…é contar em xingrês.”

Em Quem me dera ser onda, p. 22, a sátira ao contra-revolucionário pequeno burguês, lambe-botas do poder “Carnaval da Vitória [o porco] era dos seres vivos que mais benefícios haviam tirado com a revolução. E, na p. 27 “O suíno estava culto, quase protocolar. Maneirava vénias de obséquio com o focinho e aprendera a acenar com a pata direita…”

Em O Manequim e o Piano, p.108), avisa, “…quando alguém dizia estamos juntos alertava juntos mas não misturados.” E na p. 128, com extrema ironia, descreve a evolução pós-guerra, em que o marxismo dá lugar ao liberalismo, na fala de Vander “Alfredo estás a desleninizar-te com passos à retaguarda contra aquilo que aprendeste na revolução.” Na p.18, a crítica jocosa ao facto de, no presépio cristão aparecer um mago preto, um “favor” concedido pela religião dos brancos aos negros “…o presépio com o Menino Jesus e a interpretação do Alfredo há uma coisa que nunca percebi o Menino Jesus branco e nesses barros de estatuetas lembro-me até bem bonitas aparecia no meio dos bois parece que uma das visitas era um bumbo [preto] também estou a exagerar Vander meu camarada nesse favor de aparecer um preto no presépio ainda estou a reclamar…” Na p. 160, uma reflexão de suma ironia…e verdade, “Pessoas que só têm um problema são pobres em problemas mas são ricas porque não têm muitos problemas! Aguenta esta!”

Na Casa do Rio, p. 42, a ironia é utilizada contra os angolanos e tugas que, após fugirem de Angola, querem regressar e aproveitar-se, como aldrabões de rapina, ainda por cima com laivos de neocolonialismo, “…ficara com a sensação de que a conversa do camião e a basculante era só bardanço retornado, de muitos que, ficados na Melói [Portugal] faz mais de vinte anos, reapareciam com rancores e vividos como espertalhões na maneira dos tugas.”

Em Janela de Sónia, ironiza com a morte, p. 14, “Ainda se eu morrer e tu chorares quem fica imortal sou eu.” Ou na p. 24, ironiza contra a infelicidade e destruição que as guerras pós-independência trouxeram aos angolanos, “Porra prà Dipanda [independência] que até podia ter ficado o ovindele [brancos] todos em vez de andarmos aos tiros uns contra os outros que eu já nem sei quem é que disparou primeiro…” E, na p. 189, a ironia utilizada no falar popular, alterações morfo-sintácticas, “Se os colono nos maltratava nós não faz sentido uma guerra uns contra os mesmos ou uns contra uns.”

Em todas as obras de Manuel Rui se denota esta característica para uma utilização do humor e da ironia. Trata-se de uma qualidade tipicamente angolana, que nos indicia o alto grau de inteligência dum povo que, apesar de todos os males que o afectaram na história, encontra no humor e no riso as armas para prosseguir a existência.
2.5. A expressividade na temática social – Crítica da sociedade angolana.
Todas as características que compõem a sociedade angolana são descritas e analisadas psicologicamente por Manuel Rui. Uma sociedade que sofreu a colonização durante séculos, a guerra colonial, a guerra civil subsequente e que atravessou regimes políticos ditatoriais de sinal oposto durante décadas, necessariamente acarreta dificuldades acrescidas na emancipação da componente civil, no equilíbrio da presença das várias culturas, etnias e ideologias que a enformam.

Como bem escreve Quijano (2009, p. 112), no que se refere à colonização portuguesa, aplica-se a ideia de que “nas sociedades onde a colonização não conseguiu a total destruição societal, as heranças intelectual e estética visual não puderam ser destruídas. Mas foi imposta a hegemonia da perspectiva eurocêntrica nas relações intersubjectivas com os dominados.”

Manifestam-se, portanto, sentimentos contraditórios entre aqueles que conseguiram obter os ventos favoráveis das condições político-económicas, no aproveitamento da guerra para enriquecimento pessoal e todos aqueles a quem a história recente atirou para níveis de pobreza física e social desumanos, que são a maioria do povo.

É o que se depreende da história, nas narrativas de Manuel Rui.

De tal modo é complexo o entendimento da situação político-social angolana na actualidade que chegam a perpassar dúvidas, por vezes, nos personagens, sobre a razoabilidade da situação e alguns deles até manifestam se não seria melhor no tempo colonial…

Claro que o autor, quando, por vezes, dá a voz aos pensamentos daqueles que, na sociedade angolana se encontram mais fragilizados e desprezados e, por isso, mais descontentes, não tem outra intenção senão a de criticar a evolução que se produziu no País e que levou uns quantos, por oportunismo, a se locupletam egoisticamente com as riquezas nacionais, em vez de lutarem por dotar o País com as condições necessárias e suficientes para garantirem um nível aceitável e razoável de vida para todos. Isto num dos países com mais recursos naturais de África e do mundo.


2.5.1. Em relação à temática dos colonos/colonização/guerra colonial.

Aparece, pois, como natural a constatação de que, também entre os colonos, havia bons e maus e que a guerra foi um engano terrível, ao mesmo tempo que pela acutilância do olhar do escritor é-nos possível descortinar as realidades. Mas atenção, sempre atenção à ironia. (Em negrito, as posições mais assertivas):

Em Rio Seco, p. 56, uma criança deseja saber a história recente de Angola, ele que apenas conheceu a guerra, e a velha Noíto, tenta, com dificuldade, explicar-lhe o que se passou: “E o miúdo quis saber principalmente da guerra. Ficou boquiaberto quando ela lhe disse que antes daquela guerra já teria havido outra só contra os colonos. E porquê que havia guerra? Quem matava quem? As armas. Quem dava as armas? Ela, deveras embaraçada para as respostas uma por uma, preferiu contar na forma como bem sabia. O bombardeamento aéreo. As casas cobertas de capim a incendiar-se num fósforo repentino. Os meninos que ficavam sem os pais e as pessoas a fugirem atoamente, sem escolherem caminho, e a deambularem pelo mato fora, sempre em desespero pelo imprevisto. A fome. A sede.” Na, p.69, uma descrição viva dos horrores da guerra, uma constante nas obras recentes de Manuel Rui, “Cada um nas fugas fugidas dos espirros de pólvora, rajadas, rebentamentos e o remorso, sempre nas entranhas dos parentes e amigos ficados, meio arder ardido no fogo posto da guerra, cada um por cada um, por instinto e por teimosia de viver.” Mais consequências da guerra na p. 101 “Tanta tristeza que chora na nossa terra…”

Em Na Palma da Mão, p. 24, o linguajar do povo, herança lexical do colonizador “Espera lá que já te fodo! Guida, desculpa estes impropérios herança do colono.”

Em O Manequim e o Piano, p. 47, surge-nos a reflexão relativa aos tugas que partiram ou foram obrigados a partir, aos colonos, dentre os quais havia os que amavam, como filhos que eram, a sua terra, Angola, angolanos, ali nascidos, já nada tendo a ver com Portugal, “Ainda gostava de saber onde andam esses meus colegas que já não eram tugas e agora devem ser por causa disto tudo que andamos com ele mais de vinte anos porra éramos todos miúdos por causa destas makas é a vida…”

Na Casa do Rio, p. 240, avisa, para que se tenha cuidado nesta fase de reconstrução de Angola, aliás, com total razão de ser, pois é necessário que as coisas se façam bem feitas, “Nem tanto ao tuga nem tanto a nós meios atugados.” Na p. 91, de novo refere os colonos bons, com saudade, e aflora a noção diferente do espaço africano e europeu, “Uns deixaram aqui gerações de trabalho e sacrifício e agora não são ninguém lá e aquilo não tem espaço para uma pessoa estender as pernas, e assim andam sempre encolhidos…” Na p. 43, porém, avisa para os que querem regressar agora, para enriquecer à pressa e com processos ilegais, “Porra, que alguns de vocês aprenderam aqui com o tuga só as maldades e agora com as que aprenderam lá vêm aqui de ida e volta para nos enganar…” E regressa o tema persistente, na p.307 “«…Há gente boa em toda a parte do mundo, Juca.» «E também havia muito tuga bom aqui e foi de ponte [ponte aérea dos ‘retornados’], Nando, e que até já nem tinham nada com Portugal, só a descendência, mas eram mais daqui. A história é fodida…»”.

Em Janela de Sónia, p. 198, chega a fazer o elogio do branco bom que ama Angola, país de várias etnias e de interculturalidades, “…o senhor padre Matias, branco, é mais angolano do que eu, aqui é que fala a verdade, na minha fazenda, desculpe a estupidez deste aliás de branco e preto mas também se fôssemos todos da mesma cor éramos pior que as galinhas pedreses…

É, pois, constatado, na obra em análise, o facto de que havia bons colonos e maus colonos e lamenta-se o facto de, no caos da partida, em 1975, não se ter tido a oportunidade de exercitar a destrinça entre os que seria bom terem permanecido em Angola para a contribuição na construção do novo país e os que não o desejavam fazer. Apanhados na onda traumática da retirada, não se exerceu nenhum critério selectivo.


2.5.2. Em relação à temática da independência.
Manuel Rui expressa as perplexidades do povo, no que respeita à evolução social e política pós-independência de Angola. A utilização das falas pelos personagens revela-nos uma realidade dura e cruel que a propaganda oficial tenta escamotear, mas que o autor, com coragem, analisa e denuncia: os comportamentos sociais que se apresentam nos dias de hoje como injustos e desiguais que tanto castigam um povo bom que não é merecedor de tais afrontas. (A negrito, as passagens mais denotativas)

Em Rio Seco, p. 104, descreve incrédulo, como se vive em Luanda, após a independência, “… morte lá na cidade, onde as pessoas viviam fogachando tiros e matando umas às outras só por causa da independência e disparavam os que queriam ser independentes contra os que também queriam ser independentes.” E na p. 460, manifesta as “dúvidas” através duma fala, “Sim senhor. A Independência começa a não deixar saudade.”

Em Saxofone e Metáfora, p. 26, continuam a subsistir muitas “dúvidas” relativamente ao modo como os acontecimentos se deram, mas atenção que jamais se deve voltar atrás, “Com as palavras de ordem que se gritavam e os hinos que se cantaram com o vê da vitória, Bons tempos! Dizem as pessoas que contam isto desabafando que pensavam que era a sério mas que não dá pra voltar pratasmente nem vale a pena, nossa como a gente se enganou.” E na p.33, regressa o pensamento relativamente aos colonos e a crítica aos que deles apenas copiam o mal, “Então fica tudo como no antigamente e os que se garantiram nas casas dos brancos ficam como os brancos colonos maus que havia uns bons não é?” Na p. 66, aborda a questão da justa distribuição das riquezas, que não podem ser só de uns poucos açambarcadores, “…perdemos todos, brancos e negros e só meia dúzia é que estão de barriga cheia e aquilo dava para todos e sobrava, bastava que os que querem mais quando abrissem as torneiras para eles, fechassem para depois outros também tirarem o seu bocado, a questão é que abrem para se encherem e deixam as torneiras abertas sem que os outros lhes possam mexer.

No Manequim e o Piano, p. 134, atira-se em crítica mordaz aos europeus que “ajudaram” Angola, fornecendo as armas da morte, “Afinal violentos são eles [europeus] que nos emprestaram as armas, emprestaram quer dizer, nos venderam como venderam as minas e agora cobram a desminagem das minas que venderam… é uma merda!

Na Casa do Rio, p. 264, conclui “O colonialismo foi uma insónia. A descolonização foi um sonho. E agora a independência parece um pesadelo. De quem não dormiu e de quem sonhou…acordado.” Na p. 148, no entanto, há alguns sinais de esperança, “Onde acho diferença, de verdade, é na cara das pessoas, dá impressão que deixaram de andar com os olhos no chão e toda a gente circula como donos da cidade, o que não era assim antigamente.”

Em Janela de Sónia, p. 286, refere,com rara exactidão, o sentimento geral, “«Independência não se troca, mas a nossa é muito triste.» «Não é a independência que é triste, a minha falecida irmã dizia que os angolanos é que estragaram a independência.» «Essa é pesada, mas é verdade, transformámos uma festa com todos, uma festa de alegria, numa tragédia de sangue e divisão das pessoas.» E na p. 376 recomenda uma “nova independência”, democrática, de igualdade e sem medo, “No quê que temos mais para acreditar? Independência não era festa? E então não é só morrer atoamente? O menino desculpa, mas temos de começar outra independência até acabar a guerra e a fome e as pessoas dizerem bom dia sem medo.

Manuel Rui é o porta-voz que coloca em campo as dúvidas de todos aqueles que, afastados dos meios do poder – o povo – vêm o país que tanto amam caminhar num sentido oposto ao dos sonhos e das lutas.
2.5.3. Em relação às temáticas da corrupção, violência e diferenças sociais.
Outros temas tratados insistentemente nas bocas dos personagens de Manuel Rui. É calamitosa a situação do País pelo que procede, igualmente, à sua denúncia. Fá-lo, sobretudo, nas obras mais recentes, onde este fenómeno atinge proporções desmesuradas.

Em Rio Seco, p. 35, faz a denúncia das investidas da polícia contra as vendedeiras nos mercados de rua, nos quais os agentes batem indiscriminadamente, nas vendedeiras e roubam-nas, “E aquele mercado não era nenhum paraíso porque, quando se augurava, aparecia a polícia e desancava nas mulheres, banheiras a voar aí nas berridas-porrada apreendendo-lhes as coisas de mercar.” E na p. 270, descreve o comportamento insolente do novo-riquismo nacional, dos “novos-senhores” do país “Porque os ricos, meu Deus, são maus e só eles é que falam. Só eles é que sabem. Mas eu, em toda a minha vida falei aquilo que senti.” Já na p. 372, diz o inconfessável, em tom de desabafo triste, “Quem me dera ser corrupto. Às vezes dá-me vontade para poder ser pessoa.

Em O Manequim e o Piano, p. 42, relata o modo de funcionamento do governo da cidade, comparando-o com o do governo da nação “Aqui na cidade o governo deve estar como os outros bué de maçónicos da corrupção.” E na p. 42, relata os males que advém ao país por ser rico em petróleo, mas, com ironia, se refere que “não se deve falar de política”, é perigoso, “ Qual nada Vander petróleo não! Quanto mais petróleo pior vê só! E na nossa conversa não devemos embrulhar a política.”

Já na p. 210 refere-se, novamente, que falar de política é perigoso, “Depois de se chegar ao poder é o poder e o poder e o estado e o direito que estavas a falar é a pior filhaputice inventada mas também não quero entrar nessa caserna pá!” Na p. 215 Manuel Rui indica o fim das ideologias e a chegada do único interesse, o dinheiro “Porque acabaram as ideologias e o pessoal está todo do mesmo lado que é o do combú.”

Em Estórias de Conversa, p. 86, volta a afirmar a incredulidade do que vem acontecendo a Angola, um país com riquezas suficientes para todos, “Afinal Angola é muito grande. Só o mato que temos por aqui, faço ideia a caça e a fruta. Como é possível andarmos a fazer a guerra contra quem?” E na p. 73 lastima a reviravolta operada nas novas gerações, que nada querem saber do passado “…porque esta geração de agora nem quer saber daquilo que as anteriores passaram.

Na p. 145 explica o fenómeno de “mudança ideológica” progressiva dos dirigentes, sinal de que, afinal, era de oportunistas que se tratava, “Houve malta que passou na mocidade, [Mocidade Portuguesa] e logo apanhou a seguir a jota éme-pê-lá, mas quase todos os miúdos que já no fim da funjistroika ah! ah! ah! Essa é boa, Nando! Sim, no fim da funjistroika, passaram de pioneiros para escuteiros, e na hora, os pais, todos marxistas, começaram a casar na católica, ah! Podes crer, Nando, que estás a falar bem e no fundo, na mocidade, nos pioneiros, ou nos escuteiros é mesma coisa.”

E na p. 238, classifica, sem apelo nem agravo, os novos ricaços oportunistas, “Mas os nossos patrícios, quando ficam a cagar dólares, de um dia para o outro toca de irem comprar palácios na África do Sul, casas e montes em Portugal e até fazendas no Brasil. Filhos da puta.” Na p. 92 atira-se às ONG’s, “Não vai faltar comida e é bom para irem as Organizações Não Governamentais embora. Estamos fartos.”Bem como na p. 154, «Tem uma coisa que me preocupa é os mortos e desaparecidos, que nunca mais vamos encontrar. Não sei se alguma organização dessas, com jipões e antenas matulonas, anda a trabalhar nisso.» «Acho que não. Andam mas é a governar-se

O mesmo raciocínio em Janela de Sónia, p. 412 “…se o governo não governa as não governamentais vão governar mais o quê?

Triste, o pensamento de que é difícil alterar as coisas, em Janela de Sónia, p.341 “Os angolanos que souberem correr mais depressa e melhor, vão no futuro constituir uma classe dominante, alguns vão ficar milionários, comprar palácios em várias partes do mundo, com avião pessoal, essa vai ser a triste realidade, mas que saída?

Torna-se, pois, difícil, vislumbrar uma solução para a problemática angolana, como alterar o estado social e político? Só o tempo poderá trazer a luz necessária, esse tempo diferente e paciente, africano.


2.5.4. Em relação à temática política.
A temática política encontra-se, igualmente, muito presente na obra de Manuel Rui. A dramática transformação operada em Angola após a queda do muro de Berlim, em 1989, com as consequências que arrastou, como o fim da guerra fria e o da URSS e o fim da guerra civil angolana, conquistado em 2002, não escapam à observação do autor, que não assiste de modo indiferente, aos desmandos do assalto às riquezas nacionais, por parte de angolanos que se posicionaram no lugar certo da cobiça, geralmente com cambalhotas políticas de sinal oposto. O socialismo transformou-se em capitalismo.

Convém, neste ponto, assinalar o fenómeno da colonialidade, atravessado pela generalidade dos países colonizados. Gaivão (2010, p.72) refere: “Alcançadas as independências por parte das ex-colónias, os novos países sentem-se, enfim, libertos da tutela e poder coloniais e iniciam uma viagem de recuperação de memórias. Os efeitos da colonização e da dominação, no entanto, não desaparecem no momento da conclusão da fase de transição de poder, muito menos quando o tempo do exercício colonial se reveste da grande duração do caso português, mais uma característica da sua especificidade.”

É através desta colonialidade que se explica que, como refere ainda Gaivão (2010, p. 74) “naquilo que diz respeito à formação cultural dos quadros governantes dos PALOP, é público e sabido que, tendo esses dirigentes dos movimentos de libertação, enquanto estudantes, realizado os seus estudos em universidades e meios ocidentais, sobretudo europeus, foi aí que aprenderam a importância dos nacionalismos e os adoptaram como ideias matrizes dos seus pensamentos ideológicos.» Quando passaram à acção contra os colonizadores, “assumiram, então, uma herança colonial que não incluía a nação” (Moreira, 2006, p.350).

Nessa matriz de colonialidade capitalista encontra-se presente a ambição desenfreada pelo lucro e pela aquisição de riqueza, de acordo com Bernstein (1999) e Quijano (2009) e que ainda Gaivão (2010, p. 73) assinala, quando se refere ao novo modo de produzir conhecimento do século XVII em diante, todo ele apontando para o desenvolvimento do capitalismo, “o eurocentrismo não é exclusivamente, portanto, a postura cognitiva dos europeus ou capitalistas, mas também do conjunto dos educados sob a sua tutela.”

Prestemos, então, atenção ao que os personagens de Manuel Rui exprimem:

Em Rio Seco, p. 97, os personagens lamentam a falta de investimento no ensino, “ O problema é que não investimos no ensino. Não fizemos uma única universidade. Tudo foi o tuga que deixou.” Na mesma p. 97, queixam-se dos militantes do MPLA, partido do poder, os quais deveriam trabalhar pela solução dos problemas, “…vocês os militantes são os que mais mal dizem desta merda. É doentio. Parece que vivem da desgraça. E, bem vistas as coisas, isso deveriam abordar lá nas vossas reuniões de células.” E atira-lhes, p. 99, “A independência trouxe-vos preguiça, pá.” Na p. 102, um personagem desabafa, claro, contra os que se aproveitaram da política e da guerra para enriquecimento pessoal,: “Cães! Ganharam a independência e perderam a vergonha.” E na p. 301, refere-se o afastamento dos históricos, dos que desde a primeira hora lutaram por Angola independente e agora são trucidados pela máquina dos oportunistas, “O mundo quando muda as coisas nem pergunta mais nas pessoas que também andaram a ajudar na mudança.”

Em O Manequim e o Piano, p. 96 um personagem exclama “Os camaradas que eram todos comunistas e agora só pensam nos dólares eram virgens que agora são putas.” E na p. 199, um pensamento afim, “Percebe bem como a ciência da guerra e da política estamos a tropicalizá-la caralho! Se a nossa sorte foi tropicalizar o marxismo sem o leninismo agora se a malta não tropicalizar a globalização é o fim da macacada…”

O tema da globalização volta a ser atacado em A Casa do Rio, p. 229 “Falaste bem. Na era da globalização. E globalização não ataca tudo? Se não é que se foda a globalização que fica igual ao racismo.”

Em Janela de Sónia, p. 105 critica a lentidão do governo e o procedimento autoritário que o caracteriza, “O governo chega sempre tarde e cheio de sono para dormir. A chatice é que quando chega, depois logo começa a dar ordens, pontapés com a boca…”

Enfim, Manuel Rui, já em 2001, resumia o que, infelizmente, se veio a confirmar pelo andar dos anos: em Saxofone e Metáfora, p. 42 “No nosso país tudo pode ser verdade, até uma grande mentira.”


2.5.5. Outras temáticas: Pensamentos, Deus, a ternura e outras questões…
Os personagens ficcionais de Manuel Rui não são mais que o retrato dos simples cidadãos angolanos, em todas as suas perplexidades e características. Daí as interrogações sobre a existência, a guerra, Deus, a ética, ao lado da descrição da simplicidade tocante e comovente das gentes solidárias, bondosas, tolerantes e…ternurentas, as gentes e os povos angolanos.

Num escritor popular como ele, as falas reflectem os dramas e as inquietações dos angolanos, e nelas transparecem as dúvidas dum povo que acordou agora, estremunhado, para a paz e que ainda não conhece bem as novas realidades, arrastando na sua memória colectiva as dramáticas circunstâncias suportadas e vividas nos últimos 41 anos de guerras sucessivas.

Em Rio Seco descobrem-se as linhas gerais do pensamento de Manuel Rui, p. 75) “ A terra é tão pequena e tão curta como a vida.” E na p. 26, enaltece a condição humana que defende o trabalho e a procura, “Deus também não pode dar tudo o que a gente quer. Senão não era Deus nem nada.” Ao mesmo tempo que expõe as incertezas quanto à Sua existência, p.29 “Às vezes a minha cabeça não acerta no que Deus quer, se existe.” Apesar de tudo, confia na ideia de Deus, p. 135 “Se Deus, a partir de agora, me der,até ao fim dos meus dias, um pedaço de paz e felicidade, posso rezar para o céu que valeu a pena todo o sofrimento que passei e juro esquecer.” E, às voltas com a racionalidade, Noíto, personagem-mulher notável, exclama, p. 390 “Deus é muito difícil ou tem calundús [espíritos] nas coisas dele. Aka! Desculpa,meu Deus. Ainda bem que isto só ficou um bocado na minha cabeça, já tirei e não falei na boca. Como é que Deus podia ter calundús? Só se fosse a Kianda [sereia que habita as águas de Luanda] que é mulher. Também não.”

Já em O Manequim e o Piano, p.303, ataca, frontalmente, todos as doutrinas, “bíblias”, que impedem o homem de raciocinar e de se sentir em liberdade, através do dogmatismo exacerbado das suas práticas. “…afinal todas as bíblias eram bíblicas a da igreja na sua infância e adolescência a outra [marxismo-leninismo] que se omitia agora num secretismo de desmemória e a que ele ouvia ultimamente na televisão e que também era isso mesmo tinha receitas para recitar certezas certas e incontestáveis globalização desenvolvimento sustentável terrorismo investimento projectos e democracia e o homem sofria-se num drama de disfarce por convencer-se que era tudo bíblico…

Em Janela de Sónia, p. 255 a redenção passa por acreditar em Angola e nas suas gentes “Eu acredito em Deus porque o céu é isto aqui na nossa terra, as estrelas, as fogueiras e os sonhos de tanta criança que está a dormir, eu que ando a beber muito faz dois dias, por isso é que consigo dizer coisas bonitas e se tudo mudasse na maneira que vocês pensam, quem vinha morar aqui era eu, a vida afinal é o quê? E na ternura do povo,p. 298, “A tia Elita está a chorar? Deixe-me só dar-lhe um beijo nas suas lágrimas.” E nos costumes, estórias e terra de gente tão boa, p. 261 “E assim a conversa foi rolando sem dar conta nos olhos da tarde já absorvida pelo novelo da noite, as estrelas a despirem-se e o reacordar do fogo.”
3. Conclusão
Neste trabalho tentaram-se abordar os aspectos singulares da especial expressividade e criatividade do escritor Manuel Rui, através de uma esfuziante originalidade, onde prevalece o humor, a crítica e a afectuosidade, revestidas por uma estética literária plena de angolanizações do português.

O que perpassa pelas suas obras literárias são marcas da angolanidade profunda, do sentimento e pensamento do povo angolano que depois de atravessar 41 anos de várias e sucessivas guerras e destruições, continua de pé, heroicamente, a manifestar o seu apego indesmentível às tradições culturais e ao que é mais profundo no pensamento original angolano.

Na evolução do seu percurso literário podemos distinguir três períodos: o primeiro, da ideologia e entusiasmo pela luta de libertação e pela construção da independência onde a poesia se entrecruza com todo o idealismo.

O segundo que nasce no início dos anos 80, com Quem me dera ser onda e vai até meados de 90, onde, de acordo com o que observa da evolução de Angola, inicia uma crítica aos desvios da pureza ideológica com o recurso à ironia e humor.

E o terceiro, que nos revela um grande escritor, um tradutor do pensamento profundo angolano para as páginas de uma obra notabilíssima, como é Rio Seco (1997) e que vai evoluindo com aperfeiçoamento de recursos de estilo e de temas: histórias breves, histórias para crianças, histórias de amor, histórias de personagens-exemplares angolanos, romances de pós-guerra (notáveis cenários e diálogos que atravessam o fundamental romance O Manequim e o Piano e todas as obras subsequentes), quer sobre a poesia da natureza, a reconstrução de Angola, as relações do presente com o passado e que desembocam em Janela de Sónia (2009), obra exemplar de poesia narrativa.

Sem dúvida que influenciado, lusofonamente, pelas várias presenças culturais no território, pelas diásporas e retornos das gentes angolanas e não apenas estas, mas com as marcas evidentes duma angolanidade pujante.

Um pensamento antropológico angolano que se distancia da globalização e que encontra na solidariedade, hospitalidade e bondade as suas características mais humanas, juntas com a alegria constante que vence a morte e que à oratura vai buscar o sentido das estórias de vida, da mágica força que ainda encontra para esperar o futuro e obter a “nossa maior vitória sobre o tempo, que é a de não sabermos odiar” (Memória de Mar, p.111)
4 Referências bibliográficas

Berstein, S. (1999). Démocraties, regimes autoritaires ettotalitarismes au XXème siècle: pour une histoire comparée du monde développé. Paris: Hachette.

Gaivão, L. M. (2010). CPLP: A Cultura como Principal Factor de Coesão. Lisboa: ULHT – dissertação de mestrado.

Grosfoguel, R (2009). Para descolonizar os estudos de economia política e os estudos pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira ecolonialidade global. In Santos, B. S. & Meneses, M.P. (2009). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina. Pág. 384-414.

Houis, M (1971). Antropologie linguistique de l’Afrique Noire.Paris: PUF

Houtondji, P. J. (2009). Conhecimento de África. Conhecimentos de Africanos: duas perspectivas sobre os Estudos Africanos. In Santos, B. S. & Meneses, M. P. (2009). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina.

Mingas, A. A. (2000). Interferência do kimbundu no português falado em Lwanda. Luanda: Caxinde, Livraria e Editora.

Moreira, A. (2006). Ciência Política. Coimbra: Almedina. 3ª ed.

Quijano, A. (2009). Colonialidade do poder e classificação social. In Santos, B. S. & Meneses, M. P. (2009). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina.

Schwanitz, D. (2005). Cultura- tudo o que é preciso saber. Lisboa: D. Quixote.

Tempels, P. (2009). Bantu philosophy. Paris: Présence Africaine.

Venâncio, J. C. (1999). Literatura versus Sociedade. Lisboa: Veja.



Corpus: Textos analisados:

Manuel Rui (1980). Memória de Mar. Lisboa: Edições 70. Colecção Autores Angolanos.

Manuel Rui (1997). Rio Seco. Lisboa: Edições Cotovia.

Manuel Rui (1998a). Quem me dera ser onda. Lisboa: Cotovia. 4ª ed.

Manuel Rui (1998b). Da palma da mão. Luanda/Lisboa: Cotovia.

Manuel Rui (2001). Saxofone e Metáfora - estórias. Luanda/Lisboa: Cotovia.

Manuel Rui (2002). Um Anel na Areia (Estória de Amor). Luanda: Editorial Nzila.

Manuel Rui (2005). O Manequim e o Piano. Lisboa: Edições Cotovia.

Manuel Rui (2006a). Estórias de Conversa.Lisboa: Editorial Caminho. Colecção Outras Margens, 50.

Manuel Rui (2006b). Ombela. Luanda: Editorial Nzila (Português e Umbundu). Poesia.

Manuel Rui (2007). A Casa do Rio. Lisboa: Editorial Caminho. Colecção Outras Margens, 67.

Manuel Rui (2009). Janela de Sónia. Lisboa: Caminho.




1 Gaivão, L. (2010). A criatividade expressiva na obra de Manuel Rui. In XIV Colóquio da Lusofonia 27 Set-2 Out 2010 – Bragança, Portugal. ISBN 978-989-95891-5-5.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal