A crise na rede de escolas de confissão luterana no brasil nas décadas de 80 e 90: um olhar desde as concepçÕes de ética e cidadania



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A CRISE NA REDE DE ESCOLAS DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL NAS DÉCADAS DE 80 E 90:UM OLHAR DESDE AS CONCEPÇÕES DE ÉTICA E CIDADANIA

Alvori Ahlert1



Resumo: Este artigo apresenta os resultados de uma investigação sobre a crise nas escolas de Rede Sinodal de Educação, filiadas à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, nas décadas de 80 e 90. A partir das concepções de ética e cidadania, realizamos uma leitura interpretativa sobre a crise referenciada nos principais documentos normativos e orientadores da direção da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e sua rede de escolas associadas (Rede Sinodal de Educação). Foram analisadas as atas do Conselho de Educação da IECLB e da Associação Evangélica de Educação, alguns dos principais documentos que registram estudos e palestras patrocinados pelo Conselho de Educação, manifestos públicos e relatórios do Pastor Presidente da IECLB aos Concílios Gerais da IECLB. Tais interpretações nos permitem afirmar que as escolas evangélicas de confissão luterana viveram uma crise de identidade, de política, de rumo e significado nas décadas de 80 e 90, levando para um entre as escolas e comunidades mantenedoras e, em muitos casos, para práticas individualistas e centralizadoras do poder.
Palavras-chave: Crise, escolas de confissão luterana no Brasil, educação, ética, cidadania.
Introdução

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB teve um compromisso histórico com a educação desde suas origens, conjugando sua missão com a educação dos filhos dos imigrantes no início e, depois, com os filhos dos membros das comunidades para lhes oferecer uma boa formação escolar junto aos ambientes de celebração e ofícios religiosos. Na década de 1970 a IECLB congregava cerca de 100 escolas de ensino primário ou fundamental e 30 escolas de ensino médio, entre elas algumas escolas com cursos técnicos. Neste período, o conjunto de educandários ligados a IECLB contava com cerca de 20 mil alunos matriculados. O trabalho era coordenado pelo Departamento de Educação e de Catequese da IECLB. (KELLER, 1970, p.56)

No início da década de 80, foram instituídos o Conselho de Educação da IECLB e a Associação Evangélica de Educação afetos ao Departamento de Educação da IECLB com o objetivo de coordenar as ações da IECLB no campo da educação formal,ou seja, gerir sua política educacional. À Associação Evangélica de Educação e ao Conselho de Educação coube a análise da realidade escolar; o lançamento das bases do Departamento de Educação; o apoio à rede de escolas no seu posicionamento e inserção na realidade educacional do país; o acompanhamento das ações da Secretaria Executiva, entre outros.

As transformações ocorridas dentro da IECLB ao longo das décadas de 80 e 90 também provocaram uma reestruturação e adequações nas escolas evangélicas, originando a Rede Sinodal de Educação, que atualmente se constitui de 59 escolas com cerca de 36.000 matrículas na Educação Infantil, Educação Básica e Ensino Superior.

É corrente nas comunidades e instituições da IECLB o entendimento de que a ética seja um referencial importante da cultura luterana nos mais diferentes segmentos da sociedade. Este entendimento fundamenta-se na identidade construída ao longo da história. Exemplo disso é o posicionamento do Conselho de Educação ao responder à questão sobre o porquê das escolas se entenderem inseridas na IECLB: “Ser luterano é saber assumir posições corajosas pautadas num rigor ético.” (IECLB. Conselho de Educação. Ata N. 63, 17 e 18 de setembro de 1999, linhas 134 e 135.)

Entretanto, nossa hipótese é de que esta importante rede de escolas comunitárias viveu uma crise de rumos e identidade nas décadas de 80 e 90, com relação a suas concepções de ética e cidadania.


Metodologia

A presente pesquisa inscreve-se no quadro referencial de pesquisa bibliográfica e análise documental. Ela tem como objetivo investigar, através de uma pesquisa exploratória e documental. Segundo Gil (1999, p.66),


“O desenvolvimento da pesquisa documental segue os mesmos passos da pesquisa bibliográfica. Apenas há que se considerar o primeiro passo consiste na exploração das fontes documentais, que são em grande número. Existem, de um lado, os documentos de primeira mão, que não receberam qualquer tratamento analítico, tais como: documentos oficiais, reportagens de jornal, cartas, contratos, diários, filmes, fotografias, gravações etc. De outro lado, existem os documentos de segunda mão, que de qualquer forma já foram analisados, tais como: relatórios de pesquisa, relatórios de empresas, tabelas estatísticas etc.”

Assim, nossa pesquisa se constitui numa leitura interpretativa sobre situações de crise nas escolas da Rede Sinodal de Educação referenciadas nos principais documentos normativos e orientadores da direção da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e sua rede de escolas associadas (Rede Sinodal de Educação). Trata-se da análise das atas do Conselho de Educação da IECLB e da Associação Evangélica de Educação, alguns dos principais documentos que registram estudos e palestras patrocinados pelo Conselho de Educação, manifestos públicos e relatórios do Pastor Presidente da IECLB aos Concílios Gerais da IECLB. Desde um olhar sobre as concepções de ética e cidadania buscamos elucidar os principais elementos da crise que acompanharam esta rede ao longo das décadas de 80 e 90.



Concepções de ética e cidadania na Rede Sinodal de Educação

A identidade ético-luterana conectada com a preocupação pela cidadania e pelo comunitário tem em Martin Lutero sua expressão fundadora para o pensamento contemporâneo na IECLB, em suas comunidades e escolas. Marie Veit, em sua visão crítica sobre a ética luterana, assim caracteriza este impulso ético-cidadão gestado no movimento da Reforma:


Contemplamos mais uma vez aquela visão alimentada por Lutero, principalmente nos primeiros anos da Reforma, nos anos do chamado “movimento evangélico”: comunidades constituídas de cristãos palpitantes, que conhecem e lêem a Bíblia, que também têm uma boa formação para lidarem com “negócios, assuntos do mundo”, que são capazes de julgar doutrinas e instruções que vêm “de cima”, capazes e com o direito de destituir maus mestres – comunidades, das quais pode partir uma reconvalescença paulatina da igreja e da sociedade toda. Pois Lutero nunca perdeu de vista o todo da cristandade. Ele não tinha em mente grupinhos separados de piedosos, que cultivassem uma vida própria e desconhecessem uma responsabilidade global, abrangente. O que ele tinha em mente eram “ecclesiolae in ecclesia”, pequenas igrejinhas na igreja, que deveriam começar a transformar o todo, como o fermento na massa de pão. (VEIT, 1979, p. 136)
Este pensamento veio ao Brasil através dos imigrantes alemães de confessionalidade luterana que aqui desenvolveram estruturas eclesiásticas a partir do apoio de pastores alemães, que ingressaram no país entre 1868 e 1886. Segundo o historiador Martin Norberto Dreher, “Estas estruturas foram importantes veículos da reivindicação de direitos de cidadania para os luteranos.” (DREHER, 1986, p.67) Na segunda etapa da organização dos imigrantes luteranos, ocorrida por volta de 1919, com a era Dohms, já descrita anteriormente, deu-se um passo significativo na luta pelo direito à cidadania dos luteranos. “Busca-se a cidadania plena dos luteranos, respeitadas suas heranças culturais, sua germanidade, entendidas, teologicamente, como dádiva do Criador.” (DREHER, 1986, p.68) Esta luta prosseguiu constante entre os luteranos em perídos extremamente difíceis, como o foi na era totalitária de Vargas, na qual as comunidades teuto–brasileiras foram obrigadas a mais e mais desenvolverem uma identidade compatível com a cultura brasileira em formação.

Portanto, as questões da ética e da cidadania são realmente valores que acompanham o pensamento luterano constituinte das comunidades e escolas evangélicas. Por isso, vamos buscar estes referenciais nos mesmos documentos que nos serviram de investigação sobre a concepção de educação desenvolvida ao longo das últimas duas décadas do século XX.

No presente estudo buscamos identificar as principais referências relativas a estes conceitos nos documentos em análise. Assim, partimos do posicionamento do corpo docente da Faculdade de Teologia da IECLB sob o título “O Evangelho e Nós”. Este texto chama os cidadãos luteranos para uma responsabilidade ético-social:
[...] - cooperar na estruturação da sociedade, insistindo em decisões que possibilitem a vida, e denunciando abusos de poder ou outras condições, que, dentro e fora da igreja, impedem a realização da vida;


  • defender os marginalizados e oprimidos, auxiliando-os a manifestarem seus anseios e empenhando-se por mitigar o sofrimento existente nas situações injustas atuais.(O EVANGELHO e nós, 1978, p. 62)

Da mesma forma, O Manifesto de Curitiba é um testemunho sobre a responsabilidade social dos cristãos, no qual se afirma que a orientação do evangelho não se dirige a um ser humano fragmentado, mas ao ser humano como um todo. “A mensagem da Igreja sempre é dirigida ao homem como um todo, não só à sua “alma”. Por isso ela terá conseqüências e implicações em toda a esfera de sua vivência – inclusive física, cultural, social, econômica e política. Não tenderá apenas a regular as relações entre os cristãos, mas visará questões relacionadas com o bem comum.” (O MANIFESTO de Curitiba,2001, p. 1)

No nosso entender, tal posicionamento é uma clara afirmação em defesa da cidadania e da ética por parte dos evangélicos de confissão luterana. Defende-se a responsabilidade dos cristãos concernente ao físico, ao cultural, ao social, ao político e ao econômico, o que demanda uma consciência participativa nos rumos do país.

Já o Conselho de Educação, em sua segunda reunião em 1981, ao propor um programa de intercâmbio para os professores e alunos da rede de escolas, fundamenta seus objetivos com base na ética e na cidadania ao propor o “[...] cultivo de valores como a solidariedade, o respeito e a colaboração.” (IECLB. Conselho de Educação. Livro de Atas (1981-1985), folha 5 verso) O mesmo Conselho assumiu um parecer do Pastor Martin Reusch sobre aspectos da formação religiosa dos jovens, no qual se defende a instrumentalização dos jovens para enfrentarem a realidade de forma consciente e para agirem sobre esta realidade (Cf. IECLB. Conselho de Educação. Livro de Atas (1981-1985), folha 20 verso), o que significa o preparo do jovem para o exercício da cidadania.

Na reunião ordinária de 22 e 23 de abril de 1983, O Conselho de Educação definiu justificativas para uma Pastoral de Educação, entre as quais destacamos: “Compromisso com o marginalizado (periferia); - compromisso com a educação (significado) – é compromisso com a causa libertadora do Evangelho de Cristo, que remete à ação ao mundo; é ativação de um processo de transformação da sociedade.” (Conselho de Educação. Livro de Atas (1981-1985), folha 30).

A referida citação demonstra que, no início da década de 80, o Conselho de Educação ensaiava um projeto de Pastoral da Educação que deveria atingir as escolas da rede com o compromisso de formar para uma cidadania, que fosse pautada pela visão libertadora da mensagem cristã, para que este cidadão pudesse tornar-se ator da transformação da sociedade. E, para isso, na reunião seguinte, o Conselho definiu que era da escola a tarefa de “[...] dar ferramental para que como cidadãos saibam enxergar o governo, a liderança dentro de uma certa realidade; uma educação melhor, que tenha condições melhores para criticar o que existe.” (IECLB. Conselho de Educação. Livro de Atas (1981-1985), folha 39).

São efetivamente escassos os espaços em que os principais documentos em questão fazem referências explícitas à ética e à cidadania no seu intercruzamento com a educação. Mas um documento que expressa os sentidos da ética e da cidadania, conforme os referenciais construídos anteriormente, é o das Diretrizes de uma Política Educacional da IECLB. Numa leitura interpretativa sobre a luta pela ética e pela cidadania depreende-se que as diretrizes se assentam sobre este fundamento ao colocarem que as perspectivas norteadoras da política de educação deveriam levar em conta que,

A educação não se restringe às escolas, sejam comunitárias confessionais ou públicas. O processo educacional abrange a vida como um todo e as pessoas em todas as suas dimensões. Assim, limitar a proposta educacional da IECLB ou qualquer proposta educacional ao setor formal das escolas, significaria legitimar e reforçar a tendência da sociedade tecnológica de instrumentalizar o ser humano. Por isso, uma proposta educacional responsável abrangerá necessariamente uma série de espaços: o lar (Lutero, por exemplo, redigiu seu Catecismo Menor para uso familiar), a própria comunidade eclesial (culto infantil, juventude evangélica, círculos de estudos bíblicos, grupos de mulheres e de homens, etc.), os meios de comunicação e assim chamada educação popular. (IECLB. Diretrizes para uma política educacional da IECLB, p. 2).


Este entendimento mostra que a educação não se reduz à educação formal escolar, mas extrapola os limites escolares perpassando todas as instâncias organizadoras da vida humana como a família, a comunidade eclesial até os meios de comunicação. Para isso o documento propõe a educação popular como forma de capacitar o ser humano para o exercício de seus direitos e deveres e para a organização de participação consciente nos organismos onde se luta pela cidadania.
A educação popular merece uma atenção toda especial, pois há inúmeros indícios de que no momento histórico em que vivemos seja precisamente ela que possibilita, como nenhuma outra, a integração das variadas dimensões da vida num processo comunitário e aberto, no qual as populações marginalizadas e oprimidas recuperam, via formação prática e teórica contextualizada, sua capacidade de organização e de luta em favor da sobrevivência e de condição mais humanas de vida. Por isso, mesmo as atividades educacionais desenvolvidas a nível eclesial, devem também ter o componente de animação a uma participação conscientemente assumida nas variadas formas de movimento popular. (IECLB. Diretrizes para uma política educacional da IECLB, p. 2).

Esta preocupação com a ética e cidadania pode ser entendida como uma construção histórica que sempre esteve presente entre evangélicos luteranos. O envolvimento da IECLB com o debate sobre a Nova Constituição do Brasil confirma isto. O Relatório do Pastor Presidente ao XV Concílio Geral Ordinário informa que


Houve manifestações diversas, no Jornal Evangélico, no periódico “INFORMAÇÃO IECLB” e outros órgãos. A “Constituinte” foi matéria de debates em Concílios Distritais, Conferências Pastorais e seminários, entre os quais merece menção especial aquele promovido pelo CONIC, no Rio de Janeiro, em setembro deste ano. A fim de agilizar os estudos e incentivar a participação do povo evangélico–luterano em evento de tamanha relevância decidiu-se criar comissões ou grupos regionais “que acompanhem o processo da Constituinte e sejam centros catalizadores dos estudos realizados por grupos locais e os canalizem para endereços confiáveis da Constituinte a ser eleita em 15 de novembro” (INFORMAÇÃO IECLB, 75, abril 1986, p. 8). Permito-me solicitar fazer uso destes canais e assim marcar presença no processo. É um dever democrático e um serviço a Deus. (IECLB. Relatório do Pastor Presidente ao XV Concílio Geral, Rio de Janeiro, 15 a 19/10/1986, p. 13).
E, de uma forma muito clara e incisiva, este relatório pontua as justificativas e a necessidade de a Igreja envolver-se na construção da cidadania em seu país. É oportuno reproduzir aqui estas justificativas:
É claro que a elaboração de uma nova Constituição é antes de mais nada um assunto político. Diz respeito à sociedade e aos princípios que ela aceita como normativos. Uma Constituição determina os valores com que uma sociedade se compromete, define os direitos e os deveres dos cidadãos, estabelece a forma de seu governo. Isto é relevante para todo cidadão brasileiro, também para a Igreja. A Constituinte decidirá em boa medida sobre o futuro da nação. Por isto a Igreja não pode se desinteressar. Tem o dever de testemunhar ao mundo a vontade de Deus. Conseqüentemente fará questão de, através da Constituição, ver assegurada uma ordem civil e social que esteja em conformidade com os propósitos do Deus Criador. Tal ordem deve garantir a vida e o bem-estar de todos e deve ser promotora da paz e da justiça. Uma Constituinte sempre é um momento decisivo na vida de um povo, e a Igreja aí não pode negar seu serviço. (IECLB. Relatório do Pastor Presidente ao XV Concílio Geral, Rio de Janeiro, 15 a 19/10/1986, p. 13)

Com a aprovação da Nova Constituição do Brasil, em 1988, um dos órgãos informativos da IECLB acolheu a nova Constituição com o posicionamento do Pastor Presidente, Gottfried Brakemeier, o qual argumenta, “[...] que esta Constituição precisa ser acolhida dentro de uma ética orientada no espírito da lei e não só na sua letra. Esse espírito deverá traduzir-se agora nas respectivas leis complementares e numa disposição para cumprir os seus propósitos.” (IECLB. Informação IECLB, p. 1)

O mesmo informativo reconhece que a nova Carta Magna significa a organização da cidadania em defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana. (Cf. IECLB. Informação IECLB, p. 4) Isso evidencia uma preocupação significativa com a ética e a cidadania por parte da direção da Igreja enquanto especificidades a serem assumidas e vivenciadas pelos evangélicos luteranos.

No contexto da direção da rede de escolas, o Relatório –1992, da Direção–Executiva, afirma “o comprometimento ético” (DIREÇÃO-EXECUTIVA. Relatório-1992,p. 150) como um dos pontos fundamentais para a trajetória da escola evangélica para a década de 90. Neste relatório, também foram explicitados os papéis para os níveis que compreendem a educação básica. Essa distinção foi considerada como condição de sobrevivência para as escolas.


Houve época em que o ensino primário formava o cidadão. Hoje, o ensino de 1º grau tem a mera função de integrar o homem ao seu meio. Não temos mais condições de dizer que o ensino de 1º grau esgota aquilo que denominamos a formação do cidadão; daí a necessidade de universalizar, ou, ao menos, ampliar significativamente, a oferta do ensino de 2º grau no Brasil. (DIREÇÃO-EXECUTIVA. Relatório-1992,p. 151)
Para isso, o 2o grau deveria dar especial atenção para a formação ética desse cidadão.

O ensino de 2º grau precisa ser capaz de romper a planura do comum e do medíocre. O aluno que sai do 2º grau precisa estar em condições de compreender as dinâmicas sociais, ter o domínio sobre a tecnologia e não somente da tecnologia, precisa ter desenvolvido o gosto estético, ser capaz de um manejo adequado dos recursos de comunicação, especialmente a língua portuguesa e, sobretudo, precisa ter construído o seu senso ético. (DIREÇÃO-EXECUTIVA. Relatório-1992,p. 151)


Este compromisso ético é entendido como condição para o fazer da escola evangélica, para que sua ação não se transforme em mero ativismo. Neste sentido, o relatório ainda afirma a existência de uma ética evangélica luterana que deve ser visível na escola evangélica (Cf. DIREÇÃO-EXECUTIVA. Relatório-1992,p. 152) sem, no entanto, explicitar o conteúdo dessa ética.

O Documento N.2 elaborado pelo Conselho de Educação e que trata das atribuições e compromissos do Conselho Escolar na administração da escola evangélica, também dedica um capítulo sobre o Conselho Escolar e a Ética. (Cf. IECLB. Conselho de Educação. Conselho Escolar, p. 47-51) O texto inicia com a etimologia do termo para, em seguida, afirmar que a ética não significa uma lista de normas e condutas, mas “[...] muito mais uma atitude frente à vida, uma forma de explicitar – no concreto – os valores que movem as pessoas.” (IECLB. Conselho de Educação. Conselho Escolar, p. 48) Por isso o cumprimento de um código como os Dez Mandamentos já não poderia mais ser entendido como uma ação ética, afirma o documento. Também, insiste em que a ética não deveria ser aplicada a terceiros e cita como exemplo a cassação do mandato do presidente Fernando Collor de Mello em 1992. Por isso, propõe-se a construção de um conceito de ética a partir de uma abordagem psicanalítica fundamentada em Erich From; a partir de uma abordagem naturalista fundamentada em Albert Schweitzer, como um desejo de viver; a partir de uma aproximação teológica fundamentada no apóstolo Paulo, que coloca o critério do amor ao próximo (ágape) como o único critério para a vivência da ética. Em resumo,


Uma ética (psicanalítica) que, em primeiro lugar, nos sensibilize em relação aos conflitos que, verdadeiramente, existem dentro de cada pessoa. Tais conflitos não se resolvem com leis e mandamentos de conduta. Com isso só se consegue aproximar-se dos “fariseus” ou tornar-se “maniqueista”.

Uma ética (naturalista) que, em segundo lugar, seja capaz de afirmar a liberdade e, em conseqüência, a responsabilidade. O que se faz ou se deixa de fazer tem reflexos sobre a realidade que nos envolve.

Uma ética (teológica) que, em terceiro lugar, reconheça que a liberdade somente se plenifica em Cristo que veio avisar que não estamos sujeitos a nada.

Uma ética (social) que, em quarto lugar, resulte numa atitude de serviço ao outro. (IECLB. Conselho de Educação. Conselho Escolar, p. 48)


Embora estas concepções resgatem alguns elementos bíblicos, elas não alcançam o conceito de ética que a própria Direção–Executiva da Rede Sinodal de Educação havia proposto em seu Relatório 1992, ou seja, a afirmação de uma ética luterana. No nosso entender, com a concepção de ética acima referida, não se mantém a perspectiva do referencial da ética luterana que perdurou longos séculos e que na década de 80 ainda buscava seu espaço nas consciências dos evangélico–luteranos. Incorreu-se, assim, numa ética pessoal e individualista, própria do liberalismo político levado ao extremo pelo movimento neoliberal, que na passagem da década de 80 para a de 90, infiltrou-se em todos os poros da sociedade brasileira, especialmente na política e na educação.

Esta nossa convicção ainda se sustenta no documento Escola & Qualidade, editado pelo Conselho de Educação que, ao tratar dos fundamentos conceituais, e, dentre eles, os valores, afirma que,

Sendo a escola um lugar cultural – portanto basicamente um “lugar para pessoas” – deve ser dada especial atenção aos valores individuais, porque os valores da escola serão a resultante dos valores de cada uma das pessoas desse lugar. Além disso, as escolas são poderosas fabricantes de valores e conjuntos de valores para os alunos. (IECLB. Conselho de Educação. Conselho Escolar, p. 48)
Assim, acreditamos que existe um enfraquecimento do referencial da identidade luterana na Rede Sinodal de Educação. A dilatação dos conceitos de ética e cidadania luteranas, já não tão claramente fundadas nas concepções em Lutero (Cf. AHLERT, 2006, p. 101-114), permitiu que as escolas evangélicas viessem a correr o risco de adotar uma ética individualista, o que pode descaracterizar o pensamento comunitário da escola evangélica comunitária, pública não-estatal.

O mesmo se dá com a concepção e prática da cidadania. Os documentos analisados denotam que o conceito de cidadania foi gradativamente desaparecendo da preocupação das principais instâncias que representam o setor educacional da IECLB já nos primeiros anos da década de 90. Esta avaliação é atestada por uma pesquisa sobre o perfil do docente das escolas evangélicas, publicada pelo Conselho de Educação em 1996. Esta pesquisa constatou que o perfil do, “[...] professor da escola evangélica é um típico cidadão de classe média, cujos valores giram em torno da estabilidade da família, do cuidado da prole, da constituição de garantias para uma vida tranqüila e segura, como a aquisição de casa própria, a dotação do lar de equipamentos capazes de facilitar o dia-a-dia, etc.” (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 13)

Este professor acredita que uma das suas mais importantes tarefas seja a de “[...] preparar o futuro cidadão (46%).”(IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 21) Afirma que ética e cidadania (31%), e ecologia (26%) sejam os temas que mais professores estariam dispostos a trabalhar(IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 21); que a fé cristã é um guia ético fundamental para 47%(IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 22); que a questão social é a segunda maior preocupação (30%), por causa da, “[...] (pobreza absoluta de grande parte da população, a instabilidade política e econômica do país, a agressão ao meio ambiente, a violência instalada nas cidades, a má qualidade, em geral, da escola brasileira e o descaso com que os pais tratam a educação dos filhos)”. (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 23)

Mas, apesar dessa consciência, um percentual muito pequeno afirmou participar de atividades sindicais ou afins e de se envolver em atividades que caracterizam uma cidadania participativa. Segundo a pesquisa, “[...] a taxa de 43,4% de professores que não participa de nenhuma atividade de caráter social ou de ação coletiva é bastante elevada, e de certa forma incongruente com o elevado auto-conceito que o professor demonstra.” (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 25)

A referida pesquisa concluiu que o professor da escola evangélica é um indivíduo com tendência ao isolamento (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 25), que se entende economicamente incluído na sociedade de consumo, “[...] usufrui intensamente as comodidades do mundo moderno” (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 27), além de culturalmente se entender bem informado com um significativo volume de leitura e profissionalmente experiente e satisfeito com sua razoável estabilidade de emprego.

No nosso entender, ainda que os dados não possuam comparações com épocas anteriores, a pesquisa em análise demnostra que, no geral, o professor da escola evangélica é um sujeito individualizado e individualista, afinado com uma cultura neoliberal, uma das características do contexto temporal em que a pesquisa foi realizada. A própria pesquisa atesta isso ao afirmar que o professor,


Socialmente, é um cidadão retraído, mais dirigido para o interior do próprio lar. Tanto a intensidade de sua participação em atividades sociais, como as ênfases que dá no que considera sejam suas principais preocupações apontam para isso. (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 27)
Além dessa limitada atividade social, a pesquisa ainda mostra um precário envolvimento com as comunidades religiosas. Em se tratando de uma escola confessional comunitária, que atrás de si tem uma comunidade mantenedora, ao contrário do que as conclusões da pesquisa querem fazer entender, consideramos que 7,7% (IECLB. Conselho de Educação. Professor: um perfil..., p. 24) de envolvidos em atividades de liderança nestas comunidades denuncia uma relação bastante tímida destes professores com a prática comunitária, a qual poderia ser intensa, considerando-se sua condição de líder comunitário como professor.

Assim, parafraseando a crítica de Emmanuel Mounier ao romantismo do século XIX, que, segundo ele, desenvolveu as paixões individuais e arrastou para a solidão e o isolamento a pessoa humana e “[...] instaura o reino do individualismo cauteloso”MOUNIER, 1964, p. 32), parece-nos que o professor da rede de escolas evangélicas se enclausurou em uma torre de marfim, construída pelas comunidades luteranas, e também se instalou no reino do individualismo cauteloso para gozar das benesses que o modelo neoliberal dispõe para um terço da população.

Em vista do acima exposto, concluímos que a IECLB e sua rede de escolas possuía uma consciência histórica sobre a importância da ética e da cidadania para a sociedade e, dentro dessa, especialmente para o contexto educacional. Mas esta consciência e as ações dela decorrentes foram perdendo sua intensidade, enfraquecendo a identidade ético-cidadã luterana, perdendo, assim, seu vínculo e a possibilidade de ressignificação da riqueza da cultura luterana que perpassou longos séculos desde seu nascimento.

É sintomático que isto aconteça exatamente num momento em que a aprovação de uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, embora tenha sido manipulada no seu processo de votação, garantiu significativa importância para a formação educacional de um sujeito ético e cidadão, conforme estudo desenvolvido no primeiro capítulo de nossa investigação. Sobretudo, na pesquisa realizada com o corpo docente das escolas evangélicas fica evidenciado que a Rede Sinodal de Educação não conseguiu incorporar, de forma mais significativa, os anseios populares captados e tornados desafios e metas legais no texto que normatiza e orienta as políticas educacionais do país.

Estes sintomas apontam para a existência de uma crise no seio da educação luterana no limiar do distanciamento entre as escolas evangélicas de confissão luterana que tomou forma no início da década de 90, período nuclear do ingresso das idéias neoliberais no país. Por isso, as páginas que seguem objetivam uma análise e interpretação da crise da escola comunitária evangélica de confissão luterana, refletida nos documentos em análise.


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