A crítica pós-keynesiana ao mainstream: os fundamentos e refinamentos teóricos acerca de velhas questões



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A crítica pós-keynesiana ao mainstream: os fundamentos e refinamentos teóricos acerca de velhas questões
Fernando Ferrari Filho1

“[t]he difficulty lies not in the new ideas, but in scaping from the old ones, which ramify, for those brought up as most of us have been, into every corner of our minds”

(Keynes, 1964:p.viii, itálicos adicionados)
Introdução
Em 1980, Robert Lucas Jr., em The death of Keynesian economics, por entender que as predições dos modelos keynesianos são “wildly incorrects”, anunciou o “obituário” de Keynes. Por sua vez, em 1992, N.G.Mankiw, em The reincarnation of Keynesian economics, “reincarnou” Keynes, investigando os microfundamentos da economia keynesiana. A partir de então, os desdobramentos dos “falecimento” e “ressurreição” da teoria keynesiana têm centrado a discussão da macroeconomia contemporânea.

Inconformados, contudo, com os rumos do debate macroeconômico, os pós-keynesianos, ao resgatarem o espírito revolucionário da teoria de Keynes, qual seja, entender a dinâmica de uma economia monetária da produção, acreditam que a discussão em macroeconomia deve estar localizada tanto na compreensão dos problemas econômicos do real world quanto na solução dos mesmos (Davidson, 1994:2).

Pois bem, a idéia principal do presente artigo é apresentar, de forma sucinta, as principais questões teóricas e implicações dos modelos novos-clássicos e novos-keynesianos e da teoria pós-keynesiana, objetivando, com isso, mostrar que os referidos modelos, apesar do grau de refinamento de suas estruturas teórico-analíticas, são inconsistentes com as características das modernas economias empresariais e do real world, propostas por Keynes e pelos pós-keynesianos. Em outras palavras, entende-se que os modelos novos-clássicos e novos-keynesianos ajudam muito pouco para que se possa compreender a realidade econômica. Para tanto, o artigo está articulado da seguinte maneira: a primeira seção apresenta, sinteticamente, os principais pressupostos e a estrutura teórica dos modelos novos-clássicos e novos-keynesianos; a segunda seção, à luz da teoria pós-keynesiana, critica o “realismo” e a consistência dos pressupostos das teorias novo-clássica e novo-keynesiana, principalmente quando essas procuram explicar e, por conseguinte, solucionar as crises cíclicas de produção e emprego das economias empresariais; por fim, são apresentados alguns breves comentários conclusivos.
1. A macroeconomia do mainstream
1.1. A teoria novo-clássica
Na década de 70, R.Lucas Jr. (1972 e 1973), T.Sargent (1973 e 1975) e N.Wallace (1975), entre outros, adaptaram a teoria macroeconômica aos microfundamentos da ortodoxia clássica de market-clearing2. Surgia, dessa maneira, a teoria novo-clássica, cuja idéia central é formalizar um modelo teórico alternativo à teoria keynesiana neoclássica3, uma vez que essa não apresenta uma explicação lógica para o processo de estagflação observado na economia mundial no início dos anos 70. Lucas Jr. e Sargent (1981:303), por exemplo, ao criticarem os modelos keynesianos, argumentam que

“... recommendations based on Keynesians models ... produced the highest unemployment rates since the 1930s. This was econometric failure on grand scale ... [In this context, the] central fact is that Keynesian policy recommendations have no sounder basis, in a scientific sense ...”

Por quê os modelos keynesianos apresentam econometric failures? A resposta, segundo os novos-clássicos, encontra-se na ausência dos microfundamentos da teoria keynesiana, o que faz com que essa releve o comportamento da oferta agregada no sistema econômico. Nesse sentido, a teoria novo-clássica procura investigar a teoria macroeconômica a partir de seus microfundamentos, de maneira que as condições de equilíbrio geral walrasiano de estado permanente de pleno emprego sejam observadas no sistema econômico.

Segundo os novos-clássicos, os microfundamentos da teoria macroeconômica, imprescindíveis para que o vetor de preços e salários da economia seja determinado em condições de market-clearing, estão relacionados a duas hipóteses básicas, quais sejam: (i) hipótese das expectativas racionais4; e (ii) hipótese de oferta agregada.

Em relação à primeira hipótese, a idéia central é que, em um contexto no qual as expectativas subjetivas dos indivíduos coincidem com a esperança matemática das expectativas condicionadas às suas observações passadas, as expectativas dos agentes econômicos em relação às variáveis econômicas na média são corretas.

Por sua vez, a hipótese de oferta agregada está alicerçada no argumento de que as tomadas de decisões por parte das unidades produtoras, trabalhadores e empresários, refletem comportamentos de otimização das mesmas.

A partir dessas hipóteses e tendo-se como ponto central o fato de que o sistema econômico sempre tende para uma situação de market-clearing, os novos-clássicos entendem que as políticas de administração de demanda agregada não têm impacto na determinação dos níveis de produto e emprego.

Uma vez que políticas de demanda, subentende-se monetária e fiscal, não provocam flutuações no nível de atividade econômica, como os modelos novos-clássicos explicam variações nos níveis de produto e emprego? Segundo os novo-clássicos, flutuações cíclicas de produto e emprego estão relacionadas a choques de produtividade e/ou tecnológicos5. Em outras palavras, é o lado real dos fatores de oferta que explica variações de produto e emprego no sistema econômico.

Dessa maneira, ao centrar as atenções na oferta agregada e ao admitir que choques de demanda, especificamente, monetários, não afetam o nível de atividade econômica, os modelos novos-clássicos resgatam os mesmos fundamentos da teoria clássica, quais sejam: lei de Say ou lei de Walras e teoria quantitativa da moeda (neutralidade monetária).
1.2. A teoria novo-keynesiana
A teoria novo-keynesiana, desenvolvida nos anos 80 como resposta à teoria novo-clássica, objetiva apresentar uma estrutura teórica, baseada nos microfundamentos da teoria keynesiana, crítica aos modelos novos-clássicos6. Essa “nova” estrutura teórica keynesiana7 investiga o que os novos-keynesianos acreditam ser o aspecto essencial da teoria de Keynes: rigidez de preços e salários. Conforme Mankiw e Romer (1991:1, itálico adicionado),

“[b]ecause wage and price rigidities are often viewed as central to Keynesian economics, much effort was aimed at showing how these rigidities arise from the microeconomics of wage and price setting”

Nesse sentido, a agenda de pesquisa novo-keynesiana está centrada na construção de uma teoria de oferta agregada em que preços e salários são rígidos. Uma vez que as rigidezes de preços e salários são incorporadas no processo de otimização dos agentes, diga-se de passagem, esses, assim como nos modelos novos-clássicos, têm expectativas racionais, o equilíbrio do sistema econômico passa a ser caracterizado como de non-market-clearing, pelo menos no curto prazo.

Por que preços e salários são rígidos? Quais são implicações econômicas quando há rigidez de preços e salários? A teoria novo-keynesiana tenta responder essas questões. Para tanto, a argumentação novo-keynesiana é que os mercados apresentam falhas de coordenação, via de regra provenientes tanto de competição imperfeita quanto da assimetria de informações, que determinam, no curto prazo, flutuações de produto e emprego.

Gordon (1990) e Greenwald e Stiglitz (1993) identificam alguns insights da teoria novo-keynesiana. A rigidez salarial é explicada pelos modelos relacionados aos desequilíbrios do mercado de trabalho. Entre esses, destacam-se os modelos de salário-eficiência, contratos implícitos e insiders-outsiders. Por outro lado, a rigidez de preço é explicada por modelos relacionados à concorrência imperfeita no mercado de produto, que ocasiona elevados custos marginais de ajustamento de preço.

No que diz respeito aos modelos de salário-eficiência, a suposição inicial é que a produtividade de trabalho é afetada pelo salário pago pela firma. Se a produtividade do trabalhador está relacionada ao salário que ele recebe, então qualquer redução de salário proposta pela firma causará uma queda na produtividade do trabalho. Como resultado, os lucros, também, caem. Nessa situação, as firmas não reduzirão salários quando houver queda de demanda. Assim sendo, o desemprego surge.

Os modelos de contrato implícito argumentam que, em um contexto no qual os trabalhadores são risk averse e têm acesso limitado ao mercado financeiro, as firmas oferecem um seguro contra possíveis flutuações de renda dos trabalhadores para estabilizar os salários dos mesmos. Se os contratos de trabalho são negociados conforme essa “cláusula”, então, flutuações no nível de produto não causam modificações nos salários reais. Em outras palavras, de acordo com os modelos de contrato implícito, o salário real não representa somente pagamentos para os serviços provenientes do trabalho, porém, também, representa um seguro contra o risco de flutuações nos níveis de renda e produto devido a choques exógenos.

Os modelos insiders-outsiders investigam as implicações do que acontece quando os trabalhadores têm poder de barganha na negociação de seus salários. Conforme esses modelos, o mercado de trabalho é constituído por trabalhadores empregados (insiders) e desempregados (outsiders). Supondo que os trabalhadores insiders tenham poder de barganha, há um acordo tácito entre as firmas e os trabalhadores empregados, que relutam contra quaisquer reduções de salário face a uma queda na demanda agregada. Nessa circunstância, as firmas aceitam a manutenção do salário do trabalhador insider, porque a substituição de um trabalhador insider por um trabalhador outsider envolve elevados custos de contratação e treinamento por parte das firmas. Tais custos, por sua vez, fazem com que o trabalhador insider tenha um poder de barganha adicional para evitar redução de salário e/ou desemprego.

Os modelos de custos de ajustamento de preços, denominados menu costs, consideram que, conforme Mankiw (1985:530), a firma “... sets its price in advance, and changes that price ex post only by incurring a small menu cost”. Nesse sentido, mesmo que haja flutuações de demanda, os preços não são ajustados no curto prazo porque existem alguns custos que, também, envolvem modificações em suas estruturas. Em outras palavras, o conceito de menu costs supõe que as firmas sejam price-setters e, portanto, têm poder de monopólio.

Em termos gerais, os modelos novos-keynesianos mostram que flutuações cíclicas nos níveis de produto e emprego estão relacionados ao fato de que preços e salários se ajustam lentamente para equilibrar oferta e demanda.




  1. A teoria pós-keynesiana e as principais críticas ao mainstream

Do final da II Guerra Mundial ao início dos anos 70 os macroeconomistas aceitaram a idéia central de Keynes de que o laissez-faire conduzia a economia para uma condição de equilíbrio com desemprego involuntário. Em outras palavras, havia um consenso na teoria macroeconômica em torno da teoria keynesiana. Nesse particular, uma ação institucional reguladora era necessária para dinamizar os níveis de demanda agregada e emprego. Nas palavras de Keynes (1964:378), essa ação institucional reguladora está relacionada a uma “ comprehensive socialisation of investment …[that is] the only means of securing an approximation to full employment”.

Como se sabe, a teoria pós-keynesiana procura resgatar e reinterpretar a teoria econômica desenvolvida por Keynes, que, em última instância, consiste, por um lado, em negar o sistema econômico de mercados auto-reguladores e auto-equilibrantes preconizado pela teoria economia clássica e, por outro, em apresentar mecanismos econômicos institucionais que evitem as flutuações cíclicas de produto e emprego.

Keynes (1973a:486-9) expressa essa idéia ao apresentar suas críticas à auto-regulação do sistema econômico:

“On the one side are those who that believe that the existing economic system is, in the long run, a self-adjusting system ... On the other side ... are those who reject the idea that the existing economic system is, in any significant sense, self-adjusting ...The strenght of the self-adjusting school depends on its having behind it almost the whole body of organised economic thinking and doctrine of the last hundred years ... Thus, if the heretics on the other side ... are to demolish the forces of ninetteenth-century orthodoxy ... they must attack them ... Now I range myself with the heretics”.

Na The general theory of employment, interest and money, de agora em diante denominada GT, Keynes desenvolve uma análise de equilíbrio em que os níveis de produto e emprego são determinados pela demanda efetiva e não pela dinâmica do mercado de trabalho, conforme supunha os clássicos. A teoria da demanda efetiva, por sua vez, é elaborada a partir de três proposições: (i) a teoria da determinação da renda (propensão a consumir e multiplicador); (ii) a teoria do investimento (eficiência marginal do capital); e (iii) a teoria da taxa de juros (preferência pela liquidez).

Com base nessas proposições teóricas, Keynes elabora uma teoria monetária da produção que mostra que as crises de demanda efetiva e, por conseguinte, desemprego, ocorrem porque os indivíduos, face à incerteza em relação ao futuro, retêm moeda em seus encaixes reais, postergando, assim, quaiquer decisões de consumo e investimento. Em outras palavras, flutuações cíclicas no nível de atividade econômica surgem porque moeda importa. Nas palavras de Keynes (op.cit.:411, itálicos adicionados), “... booms and depressions are phenomena peculiar to an economy in which ... money is not neutral”.

Pois bem, a teoria pós-keynesiana procura exatamente recuperar essa idéia central de Keynes, qual seja: crises de desemprego estão relacionadas às decisões dos agentes econômicos em manter riqueza em sua forma líquida (moeda).

Essa questão, por sua vez, conforme Davidson (1994:17-8), é desenvolvida em um contexto no qual o real world tem as seguintes características: (i) moeda importa tanto no curto quanto no longo prazo; (ii) o futuro é incerto; (iii) os contratos são denominados em termos monetários; (iv) moeda tem duas propriedades essenciais que a diferenciam dos demais ativos; e (v) desemprego é uma conseqüência natural em economias monetárias.

No Capítulo 17 da GT Keynes discute e relaciona essas características, sejam explícitas, sejam implicitamente.

Em primeiro lugar, é importante especificar as propriedades essenciais da moeda. Para Keynes moeda tem duas propriedades essenciais: por um lado, a elasticidade produção da moeda é zero, ou seja, moeda não é produzida pela quantidade de trabalho que o setor privado incorpora no processo produtivo. Por outro, a elasticidade substituição da moeda é zero; isto é, nenhum outro ativo produzido por trabalho substitui moeda como reserva de valor. Diante dessas propriedades, Keynes (1964:235) diz que “[u]nemployment develops ... because people want the moon; - men cannot be employed when the object of desire (i.e. money) is something which cannot be produced and the demand for which cannot be readily choked off”.

Por que moeda é “objeto de desejo” dos indivíduos, conforme se observa na citação acima? Em outras palavras, por que moeda importa (não é neutra)? Nesse ponto, a conceituação de Keynes sobre expectativas é de fundamental importância para entender a não-neutralidade monetária. Keynes foi um dos primeiros economistas a enfatizar o significado de incerteza acerca do futuro para a formação de expectativas por parte dos agentes. Para ele, as expectativas são formadas em um contexto de uncertain knowledge8. Nas palavras de Keynes (op.cit.:162-3), em um mundo incerto,

“... human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectation, since the basis for making such calculations does not exist”.

Uma vez que os agentes econômicos têm desconhecimento de quais serão os resultados dos planos de investimento9, consumo e transações em um futuro próximo, moeda deixa de ser neutra - seja por representar um elo com as relações reais, seja porque se constitui na defesa contra a incerteza acerca do futuro - e, por conseqüência, sua demanda condiciona a dinâmica do processo produtivo. Como resultado, as crises de demanda efetiva se manifestam e, com elas, o desemprego.

Nesse contexto, em economias empresariais somente moeda é utilizada para especificar as relações contratuais dos agentes econômicos ao longo do tempo. Em outras palavras, moeda, além de importar, se constitui em uma convenção institucional que legitima e operacionaliza as relações contratuais intertemporais dos diversos partícipes do processo produtivo.

Tendo como referência a concepção de teoria monetária da produção de Keynes, as críticas pós-keynesianas aos modelos novos-clássicos e novos-keynesianos estão centradas, basicamente, em quatro pontos: (i) neutralidade monetária; (ii) natureza das expectativas; (iii) noção de equilíbrio; e (iii) rigidez de preços e salários.

Pelo exposto nas seções 1 e presente, a teoria monetária do mainstream é essencialmente diferente da teoria monetária keynesiana no sentido de que, na primeira, moeda, pelo menos no longo prazo, é neutra, ao passo que para Keynes moeda é sempre neutra. Nesse particular, Davidson (1994:301), por exemplo, argumenta que a diferença entre os novos-clássicos e novos-keynesianos está no fato de que os últimos acreditam que moeda é “… neutral in the long run but not in the short run ... By contrast, new classical economists claim that money is neutral even in the short run”.

Em contrapartida, para Keynes, em um mundo no qual os agentes econômicos não conseguem prever o futuro, o desemprego ocorre porque esses decidem demandar bens líquidos, especialmente moeda - um bem líquido par excellence -, postergando, assim, as decisões de gastos correntes em bens de consumo e investimento. Em outras palavras, na teoria keynesiana moeda afeta o nível de atividade econômica.

No que diz respeito às expectativas, será que, no real world, essas são formadas a partir de um processo estocático ergódico10? Davidson (1982-83), por exemplo, apresenta argumentos consistentes que vão de encontro aos modelos de expectativas racionais. Nesses, as expectativas reduzem-se simplesmente a uma situação de risco, contrariando, assim, a idéia de expectativas formadas em um contexto de uncertain knowledge keynesiana, conforme foi mencionado anteriormente.

Em relação ão conceito de equilíbrio nos modelos novos-clássicos e novos-keynesianos e na teoria keynesiana, dois pontos chamam atenção. Por um lado, nos modelos novos-clássicos e novos-keynesianos o equilíbrio tem como restrição as condições deoferta, ao passo que na teoria keynesiana o conceito de equilíbrio está baseado no princípio da demanda efetiva. Por outro, a partir dos resultados da (não) formalização das expectativas - subentede-se, mantê-las exógenas ou endogenizá-las -, configuram-se duas possibilidades de equilíbrio: equilíbrio lógico vis-à-vis equilíbrio histórico. No modelos de expecativas racionais, a estabilidade do equilíbrio é sempre suposta, uma vez que as tomadas de decisões dos indivíduos são realizadas em um contexto de completa ausência de ignorância e incerteza acerca do futuro. Contrariamente, na teoria (pós)keynesiana a noção de equilíbrio está relacionada ao que Keynes (1973b:115) descreve como “… tries to deal with the present by abstracting from the fact that we know very little about the future”.

Quanto à rigidez de preços e salários, Keynes (1964:27) assume que, no curto prazo, preços e salários são constantes somente para facilitar a exposição do princípio da demanda efetiva, bem como enfatiza que os resultados de sua teoria são os mesmos, caso hajam flutuações de preços e salários. As passagens que seguem ilustram que o desemprego keynesiano ocorre mesmo quando preços e salários são flexíveis:

“… the Classical theory has been accustomed to rest the supposedly self-adjusting of the economic system on an assumed fluidity of money-wages; and, when there is rigidity, to lay on this rigidity the blame of maladjustment … A reduction in money-wage is quite capable in certain circumstances of affording a stimulus to output, as the classical theory supposes. My difference from this theory is primarily a difference of analysis” (op.cit.:257, itálico adicionado).

“There is … no ground for the belief that a flexible wage policy is capable of maintaining a state of continuous full employment … The economic system cannot be made self-adjusting along … [this line]” (op.cit.:267, itálicos adicionados).

A partir das citações acima, é difícil aceitar a idéia de que, na GT, rigidez de preços e salários é a causa do desemprego keynesiano, conforme argumentam os novos-keynesianos. Pelo contrário, a análise de Keynes deixa claro que, sejam quais forem as condições de oferta, o equilíbrio com desemprego pode sempre ocorrer. Assim sendo, ao se auto-intitularem novos-keynesianos, parece haver, por parte desses, um grande equívoco de leitura da GT, pois o desemprego involuntário keynesiano é interpretado, não devido à situação de insuficiência de demanda efetiva, mas, sim, como sendo decorrente da hipótese de inflexibilidade de preços e salários.




  1. À guisa de conclusão

Keynes, décadas atrás, mostrou seu ceticismo em relação à teoria econômica hegemônica como explicativa dos níveis de determinação da renda e do emprego. Nas palavras de Keynes, “… the weight of my criticism is directed against the inadequacy of the theoretical foundations of the laissez-faire doctrine upon which I was brought up and which for many years I taught …” (op.cit.:339).

Contextualizando a idéia acima na discussão macroeconômica contemporânea, caracterizada, por um lado, pelas “diferenças” entre novos-clássicos e novos-keynesianos e, por outro, pela teoria pós-keynesiana, percebe-se que o debate atual continua sendo um debate entre Keynes e seus predecessores clássicos.

Assim como os “clássicos” de Keynes, os novos-clássicos e novos-keynesianos entendem que, cedo ou tarde, a “mão invisível” e o livre-mercado são capazes de conduzir o sistema econômico para sua posição de equilíbrio de pleno emprego. Mankiw (apud Davidson, 1994:1), por exemplo, afirma que, no longo prazo, o livre-mercado é a solução para todos os problemas: “Classical theory is right in the long run ... [and] the long run is not so far away”.

Os pós-keynesianos, por sua vez, ao resgatarem a análise revolucionária de Keynes, não deixam de salientar a importância das instituições e convenções no processo econômico para, a partir do arrefecimento da incerteza que orienta as expectativas dos agentes econômicos quando de suas tomadas de decisão, assegurar o que Keynes chamou de “aproximação da economia ao pleno emprego”.

Será que, conforme preconizavam os “clássicos” e advogam os teóricos do mainstream, o mercado, pelo menos no longo prazo, se equilibra a pleno emprego? Ou será que as idéias revolucionárias (pós)keynesianas continuam sendo imprescindíveis para entender e solucionar as crises de demanda efetiva das economias modernas?

Quando se observa o comportamento de alguns agregados macroeconômicos, tais como taxas de crescimento do produto e do nível de emprego e estabilidade da taxa de inflação, conclui-se que em nenhum outro período da história econômica os resultados desses agregados foram tão promissores quanto os do período de pós-Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 70, que, como se sabe, foi caracterizado por políticas macroeconômicas keynesianas. Em contrapartida, no atual mundo globalizado, cujo capitalismo (neo)liberal restringe, cada vez mais, o raio de manobra das políticas macroeconômicas, limitando, assim, a ação do Estado Nacional, a lógica do capital rentista-especulativo, sobrepondo-se ao capital produtivo, tem gerado crises monetário-financeiras e com elas desemprego.

Apesar da confrontação da performance dos referidos agregados macroeconômicos, a aceitação dos princípios da teoria econômica tradicional continua conduzindo as ações dos policy makers em busca de uma “austeridade econômica”. Resta, contudo, a certeza de que, por mais que no “longo prazo todos estejam mortos”, a teoria (pós)keynesiana, enquanto perdurarem as características de entrepreneur economies, continuará sobrevivendo às velhas teorias econômicas que tentam se metamorfosear através do adjetivo “novo”.



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1 Professor titular do Departamento de Economia da UFRGS e Diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da referida Instituição.

2 Por market-clearing entende-se a situação na qual os mercados ajustam-se continuamente na direção da tradição walrasiana de equilíbrio.

3 Por teoria keynesiana neoclássica entende-se os modelos macroeconômicos desenvolvidos nos livros-texto de macroeconomia que seguem a tradição dos diagramas IS-LM, formalizados por Hicks (1937).

4 Expectativas racionais supõem que os agentes econômicos conhecem o processo estocástico que determina o comportamento das variáveis da economia em cada período de tempo. Veja, para tanto, Muth (1961).

5 Nesse particular, a teoria do real business cycles é uma extensão da teoria novo-clássica.

6 Conforme os novo-keynesianos, a teoria novo-clássica não possui uma explicação consistente do por que as funções oferta de trabalho e produto não variam quando há choques de demanda.

7 Apesar do adjetivo “novo”, a estrutura teórica novo-keynesiana está relacionada ao approach desequilibrista desenvolvido nos anos 70. Veja, para tanto, Ferrari Fº (1996).

8 Conforme Keynes (1973b:113-4), “… ‘uncertain’ knowledge … [is not] merely to distinguish what is known for certain from what is only probable... The sense in which I am using … [this] term is that … there is no scientific basis on which to form any calculable probability [about any phenomenon] …”.

9 Nesse particular, cabe ressaltar o papel fundamental que as expectativas desempenham na tomada de decisões dos investimentos, qual seja: o animal spirits condicionando a eficiência marginal do capital.

10 De acordo com um processo estocástico ergódico, o valor esperado de uma distribuição de probabilidade sempre pode ser estimado a partir de suas observações passadas.



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