A cultura é de Todos



Baixar 68.65 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho68.65 Kb.




A Cultura é de Todos
1958
Raymond Williams
O ponto do ônibus era em frente à catedral. Eu tinha ido ver o Mapa Mundi, com seus rios saindo do paraíso, e a biblioteca acorrentada. Um grupo de religiosos conseguiu entrar sem problemas, mas eu tive que esperar uma hora e bajular o sacristão antes de conseguir entrar e dar uma espiada nas correntes. Agora, do outro lado da rua, um cartaz no cinema anunciava o Six-Five Special e um desenho animado das Viagens de Gulliver. O ônibus chegou, o motorista e a cobradora totalmente absortos um no outro. Saímos da cidade, passando pela ponte velha, e seguimos em frente, passando pelos pomares e pastos e pelos campos com a terra vermelha sob o arado. Adiante estavam as Montanhas Negras e começamos a subir, observando os campos escarpados chegando até os muros cinza, e mais além, as partes onde a urze, o torgo e os fetos ainda não tinham sido arrancados. A leste, ao longo do cume, estava a linha cinzenta dos castelos normandos; a oeste, a fortaleza formada pela encosta das montanhas. Então, enquanto continuávamos a subir, o tipo da rocha foi mudando a nossos pés. Aqui, agora, havia calcário, e a marca das antigas fundições junto à escarpa. Os vales cultivados com suas casas brancas esparsas foram ficando para trás. Mais adiante, estavam os vales estreitos: o laminador de aço, o gasômetro, os socalcos acinzentados, as bocas das minas. O ônibus parou e o motorista e a cobradora desceram, ainda absortos. Eles já tinham feito esse caminho tantas vezes, e percorrido todas suas etapas. Trata-se, de fato de uma viagem que, de um modo ou de outro, todos nós já fizemos.

Nasci e fui criado no meio desse trajeto do ônibus. O lugar em que morei ainda

é um vale de fazendas, embora a estrada que o corta esteja sendo alargada e retificada, para agüentar os caminhões pesados que vão rumo ao norte. Não muito longe, meu avô, assim como seus antecessores há várias gerações, trabalhava no campo, até que foi expulso da casa em que morava e, com mais de cinqüenta anos, virou um trabalhador das estradas de rodagem. Seus filhos, aos treze ou catorze anos, iam ser roceiros nas fazendas e suas filhas, empregadas domésticas. Meu pai, seu terceiro filho, deixou a fazenda com quinze anos e foi trabalhar como carregador na estação ferroviária, e, depois, como sinaleiro. Trabalhou em uma sinaleira neste vale até sua morte. Eu estudei na escola da vila, logo adiante da minha casa. Na escola, uma cortina dividia as duas classes - a Segunda, até os oito ou nove anos, a Primeira até os catorze. Com onze anos fui para a escola secundária local e, mais tarde, para a universidade de Cambridge.

A cultura é de todos: devemos começar por aí. Crescer naquele lugar era observar a configuração de uma cultura e seus modos de transformação. Eu podia ir para o alto das montanhas e olhar para o norte, e ver as fazendas e a catedral, ou para o sul, e ver a fumaça e o clarão da combustão na fornalha, fazendo um segundo pôr- do sol. Crescer naquela família, era constatar a formação de modos de pensar: o aprendizado de novas habilidades, as mudanças de relacionamentos, o surgimento de linguagens e idéias diferentes. Meu avô, um trabalhador rijo e forte, chorou ao falar, com precisão e emoção, em uma reunião de paroquianos, sobre como tinha sido expulso da casa onde vivia e da fazenda onde trabalhava. Meu pai, um pouco antes de morrer, falava com calma e contentamento do tempo em que tinha fundado uma secção do sindicato e um diretório do Partido Trabalhista na cidadezinha em que morava, e, sem amargor, dos homens de “rabo preso”da nova política. Eu uso uma linguagem diferente, mas penso nessas mesmas coisas.

A cultura é de todos: este o fato primordial. Toda sociedade humana tem sua própria forma, seus próprios propósitos, seus próprios significados. Toda sociedade humana expressa tudo isso nas instituições, nas artes e no conhecimento. A formação de uma sociedade é a descoberta de significados e direções comuns, e seu desenvolvimento se dá no debate ativo e no seu aperfeiçoamento, sob a pressão da experiência, do contato e das invenções, inscrevendo-se na própria terra. A sociedade em desenvolvimento é um dado, e, no entanto, ela se constrói e reconstrói em cada modo de pensar individual. A formação desse modo individual é, a princípio, o lento aprendizado das formas, propósitos e significados de modo a possibilitar o trabalho, a observação e a comunicação. Depois, em segundo lugar mas de igual importância, está a comprovação destes na experiência, a construção de novas observações, comparações e significados. Uma cultura tem dois aspectos: os significados e direções conhecidos, em que seus membros são treinados; e as novas observações e significados, que são apresentados e testados. Estes são os processos ordinários das sociedades humanas e das mentes humanas, e observamos através deles a natureza de uma cultura: que é sempre tanto tradicional quanto criativa; que é tanto os mais ordinários significados comuns quanto os mais refinados significados individuais.Usamos a palavra cultura nesses dois sentidos: para designar todo um modo de vida – os significados comuns; e para designar as artes e o aprendizado – os processos especiais de descoberta e esforço criativo. Alguns escritores usam essa palavra para um ou para o outro sentido, mas insisto nos dois, e na importância de sua conjunção. As perguntas que faço sobre nossa cultura são perguntas referentes aos nosso propósitos gerais e comuns e, mesmo assim, são perguntas sobre sentidos pessoais profundos. A cultura é de todos, em todas as sociedades e em todos os modos de pensar.

Há, no entanto, outros dois sentidos da palavra cultura, duas acepções relacionadas a esta palavra, que conheço mas que simplesmente me recuso a aprender. A primeira eu descobri em Cambridge, em uma casa de chá. Eu não me senti, vale lembrar, oprimido por Cambridge. Não me senti diminuído pelas construções históricas, porque venho de um país com vinte séculos de história visivelmente inscritos na própria terra. Eu apreciava andar em um pátio da era Tudor, mas o ambiente não me fazia sentir um tosco. Não fiquei embasbacado com a existência de um lugar dedicado ao aprendizado; eu conhecia a catedral desde pequeno, e as estantes que uso para trabalhar em Oxford são do mesmo tipo das que estão na biblioteca acorrentada. E aprendizado não era, na minha família, algo novo, estranho ou excêntrico; eu, estudante bolsista em Cambridge, não era uma nova espécie de animal, que havia calgado uma posição única. Aprender era uma experiência ordinária, aprendíamos onde podíamos. Sempre havia feito sentido sair daquelas casas brancas esparsas e torna-se um erudito, um poeta ou um professor. Mas poucos podiam ser dispensados do trabalho mais imediato; tinham fixado um preço alto para esse tipo de aprendizado, um preço muito mais alto do que podíamos pagar individualmente. Agora, quando podíamos pagar em comum, tratava-se de uma vida boa e ordinária.

Não me senti oprimido pela universidade, mas a casa de chá, agindo como se fosse um de seus departamentos mais antigos e respeitáveis era um caso diferente. Aqui estava a cultura, em nenhuma das acepções que eu conhecia, mas em uma acepção especial:como um sinal externo e enfaticamente visível de um tipo especial de pessoa, as pessoas cultivadas. Não eram , em sua grande maioria, particularmente eruditos, praticavam poucas artes, mas tinham essa coisa, e mostravam a você que a tinham. Acho que ainda estão lá, ainda se exibindo, mas até eles devem estar ouvindo os rudes clamores que vêm de fora, de alguns eruditos e escritores a quem chamam – que conveniente pode ser um rótulo – de jovens irados.1 Na verdade, não é preciso ser grosseiro. Trata-se simplesmente de que se cultura é isso, não a queremos; vimos outras pessoas efetivamente vivendo a vida.

Mas claro que essa coisa não é a cultura, e estão enganados meus colegas que, por que odeiam a casa de chá, transformam a cultura, por causa dela, em um palavrão Se as pessoas da casa de chá continuam insistindo que cultura consiste em diferenças triviais de comportamento, em sua variedade trivial de modos de falar, não podemos fazer nada para impedi-las, mas podemos ignorá-las. Elas não têm tanta importância assim, para tirar a cultura do lugar a que pertence.

No entanto, provavelmente porque eu também não gosto da casa de chá, há escritores que li na época e que acabei pondo na mesma categoria mental. Quando hoje leio um livro como o Civilization de Clive Bell2, sinto, mais do que desacordo, estupefação. Pergunto-me que espécie de vida pode produzir essa minudência, essa decisão extraordinária de definir certas coisas como “cultura” e então isolá-las, como se construindo um muro em volta de um jardim, das pessoas comuns e do trabalho comum? Na minha casa, nós nos reuníamos para tocar e escutar música, para recitar e ouvir poemas, apreciávamos a beleza da linguagem. Conheci músicas e poemas melhores desde então; há todo um mundo a ser explorado. Mas sei, pela mais ordinária das experiências, que o interesse e a capacidade estão lá. Claro que, mais além do trajeto daquele ônibus, a antiga organização social em que essas coisas aconteciam foi desfeita. As pessoas foram forçadas a partir, a se concentrar em novos tipos de trabalho, novos tipos de relações sociais; foi este trabalho, diga-se de passagem, que construiu os muros em volta dos jardins e das casas, o mesmo trabalho que agora está finalmente trazendo, para horror da casa de chá, condições de uma vida limpa, decente e confortável para essas pessoas do povo. A cultura é de todos: em meio a todas as mudanças, vamos sempre nos ater a isso.

O outro sentido, ou acepção, que me recuso a aprender, é bem diferente. Na língua inglesa há apenas duas palavras que rimam com “culture”, e são “sepulture”(sepultura) e “vulture”(abutre). Ainda não começamos a chamar os museus, as galerias ou até as universidades de “sepulturas da cultura”, mas venho ouvindo muitos se referirem aos “abutres da cultura”, e escutado, no mesmo linguajar característico do Atlântico Norte, invectivas contra o “beneméritos da cultura”, os “pseudo-intelectuais”, os pedantes com complexo de superioridade. Bom, não gosto da casa de chá, mas também não gosto desse boteco.Sei que tem muita gente que não liga para as artes e para o conhecimento, e também sei que existe uma diferença entre ser bom e ser carola. Mas rejeito totalmente as inferências e alusões dessa linguagem cada vez mais comum – o jargão de um patife de última geração. Pois, honestamente, como se pode usar um palavra como “benemérito” nesse novo tom complacente? Como alguém pode se diminuir o bastante para designar, com estes novos termos insolentes, a apreciação da arte e do conhecimento? Está claro que o que pode ter começado como uma reação à hipocrisia, ou à pretensão (esta uma palavra com pelo menos duas acepções) está se transformando em uma reação automática e de consciência pesada, à menção de qualquer tipo de padrão sério. E a palavra “cultura” ficou muito comprometida por esse condicionamento: Goering sacava seu revólver, muitos sacam seu talão de cheques, e, agora, um número crescente de pessoas sacam esse novo tipo de linguajar.



O sentido de fazer o “bem”se perdeu, nesses círculos, devido à exclusão de seu conteúdo ético e à ênfase em um padrão exclusivamente técnico: fazer um bom trabalho é melhor do que ser bom.Mas será preciso lembrar que qualquer vigarista é capaz, em seus próprios termos, de fazer um “bom trabalho”? A garantia de eficiência técnica não substitui a referência humana positiva. No entanto, pessoas que antes estabeleciam esta referência, que queriam ser eruditos ou escritores, são hoje, e aparentemente com grande satisfação, homens da propaganda, geniozinhos da publicidade, autores de tiras em jornais. E esses homens aprenderam habilidades, desenvolveram qualidades e agora as colocam a serviço da mais descarada e gananciosa exploração da falta de experiência das pessoas comuns. E são estes homens – essa nova classe perigosa – que inventaram e disseminam o tal linguajar, em uma tentativa de influenciar as pessoas comuns – as quais, por que trabalham de verdade, tem padrões de verdade nos seus próprios campos – contra os padrões reais no campo que estes homens conheceram e agora abandonaram. O velho mascate ainda está lá no mercado, contando os tostões que ganhou dos moleques da zona rural, com seus anéis e relógios de ouro falsificados. Ele pensa que suas vítimas são lerdas e ignorantes, mas elas estão vivas, e cultivam a terra enquanto ele tosse atrás de sua barraquinha.O novo mascate está em escritórios bem decorados, usando resíduos da lingüística, da psicologia e da sociologia para influenciar os modos de pensar dos que ele chama de a “massa”. Ele também, no entanto, vai ter que desmontar sua barraquinha e ir embora, e enquanto isso não acontece, não devemos nos influenciar por seu linguajar: podemos simplesmente nos recusar a aprendê-lo. A cultura é de todos. O interesse em aprender ou nas artes é algo simples, agradável e natural. O desejo de conhecer o melhor, fazer o que é bom, é parte principal da natureza positiva do ser humano. Não devemos nos afastar dessas coisas, assustados pelo barulho dessa gente. Há muitas versões do que vai mal com nossa cultura. Até agora, estou apenas tentando nos livrar dos detritos que nos impedem de pensar seriamente sobre tudo isso. Quando fui para Cambridge, encontrei duas influências sérias que causaram uma impressão funda na minha maneira de pensar. A primeira foi o marxismo, e a segunda os ensinamentos de Leavis3. Mesmo ao longo de minhas discordâncias posteriores, sempre mantive o respeito por ambas as posições.

Os marxistas diziam muitos coisas, mas as que importavam eram três. Primeiro, diziam que a cultura tem que ser, no fim das contas, interpretada em relação ao sistema de produção subjacente. Já desenvolvi a discussão teórica dessa proposição em outro trabalho – é uma idéia mais difícil do que parece – mas ainda estou de acordo com esta ênfase. Tudo que eu tinha visto, crescendo naquela região de fronteira, tinha me levado à mesma ênfase: a cultura é todo um modo de vida, e as artes são partes de uma organização social que é claramente afetada de forma radical por mudanças econômicas. Não precisava que me ensinassem a insatisfação com o sistema econômico vigente, mas as questões subseqüentes sobre nossa cultura ficavam, nesses termos, desfocadas. Dizia-se que se tratava de uma cultura de dominação de classe, restringindo, desse modo, deliberadamente, uma herança comum a uma classe pequena, e, ao mesmo tempo, deixando para as massas a pecha de ignorantes. Eu aceitava o fato da restrição: ainda é óbvio que apenas os “pobres dignos”conseguem ter algum acesso à educação, e, enquanto andava por Cambridge, não me sentia nenhum um pouco contente por ter sido considerado “digno”, não sou nem pior nem melhor que as pessoas de meu lugar de origem. Por outro lado, justamente por causa disso, ficava indignado quando meus amigos falavam das “massas ignorantes”: um certo tipo de comunista sempre vinha com esta conversa, e receberam o troco em Poznam e em Budapeste, assim como os imperialistas, partindo da mesma premissa, receberam o seu na Índia, na Indochina e na África. Há uma cultura inglesa burguesa, com suas poderosas instituições educacionais, literárias e sociais, em conexão estreita com os centros reais de poder. Dizer que a maioria dos trabalhadores são excluídos de tudo isso é dizer o óbvio, apesar de que, sob pressão contínua, essas portas estão lentamente se abrindo. Mas daí dizer que os trabalhadores estão excluídos da cultura inglesa é bobagem; eles tem suas próprias instituições em expansão e, em todo caso, muito da cultura estritamente burguesa eles não iriam mesmo querer. Uma grande parte do modo de vida inglês, de suas artes e aprendizado não são burgueses em nenhum sentido dado. Há instituições, e significados comuns, que não são, de modo algum, produtos exclusivos da classe média comercial: e há obras de arte e conhecimento, partes de uma herança inglesa comum, que foram produzidos por muitos tipos diferentes de pessoas, incluindo muitas que detestavam a mesma classe e sistema que hoje se orgulham em consumir sua produção. A burguesia nos legou muito, inclusive um sistema moral restrito, porém real; isso é pelo menos algo mais do que nos deram seus predecessores cortesãos. O tempo livre conquistado pela burguesia nos legou muitas coisas de valor cultural. Mas isso não equivale a dizer que cultura contemporânea é cultura burguesa, um erro que todos, de conservadores a marxistas, costumam cometer. Há um modo distinto de vida da classe trabalhadora a que, eu, pelo menos, dou muito valor – não porque fui criado nesse modo, uma vez que, de certa forma, agora vivo de um jeito diferente. Penso que este modo de vida, com sua ênfase na vizinhança, obrigações mútuas e progresso comum, como expresso nas grandes instituições políticas e industriais da classe trabalhadora, é de fato a melhor base para uma sociedade inglesa futura.Quanto às artes e ao aprendizado, são, em um sentido real, uma herança nacional que está, ou deveria estar, disponível para todos. Então, quando os marxistas dizem que estamos vivendo em uma cultura moribunda, e que as massas são ignorantes, eu tenho que perguntar, como já o fiz, de que lugar do mundo eles vêm.Uma cultura moribunda4, massas ignorantes, não foi isso que aprendi, nem o que vejo.

Então, o que até agora me veio dos marxistas, foi a relação entre cultura e produção, e a constatação de que a educação é restrita. As outras coisas rejeitei, do mesmo modo que rejeito sua terceira proposição, ou seja, a de que como a cultura e a produção estão relacionadas, a defesa de um modo diferente de produção é, de algum modo, uma diretiva cultural, indicando não apenas um modo de vida, mas novas artes e aprendizado. Uma das minhas tarefas, quando fui, por dezoito meses, membro do Partido Comunista, era escrever, e descobri, de forma trivial, o que outros escritores, aqui e na Europa, descobriram de formas mais graves: as conseqüências práticas desse tipo de erro teórico. Nesse aspecto, vi o futuro e não funcionou. A interpretação marxista da cultura nunca poderá ser aceita enquanto mantiver, e não é necessário que mantenha, esse elemento diretivo, essa insistência de que se você honestamente quer o socialismo, você tem que escrever, pensar e aprender seguindo os modos prescritos. Uma cultura são significados comuns, o produto de todo um povo, e os significados individuais disponibilizados, o produto de uma experiência pessoal e social empenhada de um indivíduo. É estúpido e arrogante presumir que qualquer um desses significados podem chegar a ser prescritos: eles se constituem na vida, são feitos e refeitos, de modos que não podemos conhecer de antemão. Tentar pular o futuro, imaginar que de algum modo, você é o futuro, é, estritamente falando, uma insanidade. Fazer previsões é uma outra questão, trata-se de disponibilizar um sentido, mas a única coisa que podemos dizer sobre a cultura em uma Inglaterra que socializasse seus meios de produção é que todos os canais de expressão e comunicação deveriam ser abertos e acessíveis, de forma que toda a vida real, a qual não podemos conhecer de antemão, e que conhecemos apenas em parte enquanto está sendo vivida, possa estar disponível para a consciência e para a significação.

Leavis nunca gostou dos marxistas, o que de certo modo é uma pena, pois estes sabem muito mais do que ele sobre a sociedade inglesa e sobre sua história recente. Por outro lado, ele sabe muito mais do que qualquer marxista que conheço sobre as relações efetivas entre a arte e a experiência. Todos aprendemos isso com ele, e também aprendemos sua versão do que há de errado com a cultura inglesa.O diagnóstico é radical, e está se tornando, muito rapidamente, ortodoxo. Havia uma velha Inglaterra, predominantemente agrária, com uma cultura tradicional de alto valor. Ela foi substituída pelo estado industrial moderno, cujas instituições características deliberadamente barateiam nossas reações humanas naturais, transformando a arte e a literatura em sobreviventes e testemunhas terminais, enquanto uma nova vulgaridade mecanizada toma de assalto os centros de poder. A única forma de defesa está na educação, que pelo menos mantém vivas algumas coisas e que também, pelo menos em uma minoria, desenvolve modos de pensar e sentimentos capazes de entender o que está acontecendo, e de manter os mais requintados valores individuais. Nem preciso acrescentar o quanto este diagnóstico está se disseminando, ainda que pouco se reconheça o valor do próprio Leavis. De minha parte, fiquei muito impressionado com isso, tanto que minha rejeição definitiva dessa visão se transformou em uma crise pessoal que durou muitos anos.

Isso porque esse diagnóstico parecia explicar muito de minha experiência. Não me dizia que meu pai e meu avô eram escravos ignorantes de seus baixos salários; tampouco me dizia que eu precisava me manter atualizado com a cultura comercial, agitada e esperta (com que tinha travado os primeiros contatos como alguém totalmente alheio, tanto assim que durante muitos anos, tinha dores de cabeça violentas toda vez que passava por Londres e via anúncios no metrô e jornais vespertinos). Eu até banquei o bobo, ou assim me fizeram pensar, quando, depois de um conferência na qual vieram com a conversa de sempre de que “vizinho”hoje não queria dizer o mesmo do que no tempo de Shakespeare, eu disse – imaginem só – que para mim significava exatamente o mesmo.(Quando meu pai estava à morte este ano, um homem veio e cuidou do seu jardim, um outro entregou na nossa casa um carregamento de dormentes de madeira para serem usados como lenha, veio um outro e rachou os dormentes em pedaços menores; ainda outro – não sei quem foi, nunca disseram nada – deixou um saco de batatas na porta dos fundos, veio uma mulher e levou um cesto de roupas para lavar). Mas até isso era facilmente explicável: eu viria de um setor da velha sociedade, mas meu futuro era Surbiton (demorei anos para achar Surbiton, e para conhecê-la de perto, mas é usada a torto e a direito como um símbolo – sem ter morado lá, não sei se o uso é adequado). Então lá estava eu, e tudo parecia se encaixar.

Bem, nem tudo. Quando saí de Cambridge e pensei sobre o assunto, vi que nem tudo se encaixava. Para começar eu sabia o seguinte: em casa, estávamos todos muito satisfeitos com a Revolução Industrial, e com as mudanças sociais e políticas que ela trouxera. É verdade que vivíamos em um lindo vale agrícola e víamos que os vales que ficavam para além das reservas de calcário eram feios. Mas havia uma conquista que se sobrepujava a tudo, uma conquista por que pagaríamos qualquer preço, ou seja, a conquista da força motriz, que significa muito para homens que trabalham com as mãos. Demorou para que todas suas possibilidades chegassem até nós, mas a máquina a vapor, o motor a óleo, a eletricidade, estes e mais um sem número de produtos, de mercadorias e de serviços associados, nós os aceitávamos assim que nos eram oferecidos, e estávamos bem satisfeitos. Vi todas essas coisas sendo usadas e vi o que eles substituíam. Não tenho paciência para ouvir a cantilena de sempre contra tudo isso, a saber, o desprezo com que muitos se referem ao encanamento, aos mini-carros, aspirina, contraceptivos, comida enlatada. Mas respondo a estes fariseus: água suja, latrina, andar quatro milhas todos os dias para chegar ao trabalho, dores de cabeça, mulheres desgastadas, fome e uma dieta monótona. Os trabalhadores, tanto do campo como da cidade, não vão dar ouvidos (e têm todo meu apoio), a qualquer versão de nossa sociedade que parta do pressuposto de que essas coisas não representam um progresso, e não apenas um progresso mecânico, extrínseco, mas um avanço real da própria vida. Além disso, nessa nova situação, havia uma liberdade maior de dispor de nossas vidas, uma compreensão maior dos pontos mais relevantes, uma maior possibilidade de opinar. Qualquer versão da nossa cultura que de forma implícita ou explícita negue o valor de uma sociedade industrial é totalmente irrelevante: nem em um milhão de anos conseguiriam nos fazer desistir dessa força.

Vê-se assim que a base social dessa versão era inaceitável, mas será que era possível, para alguém que queria ser um escritor, um professor, ou um erudito, ignorar a condenação da nova vulgaridade cultural? Em troca do encanamento, dos tratores e dos remédios, será que era possível ignorar as tiras nos jornais, a multiplicação dos mascates, a trivialidade estridente? Em termos de prioridades, sim , se fosse necessário, mas será que o barateamento da sensibilidade é mesmo uma conseqüência do barateamento da energia? Parece que sim, eu sei, mas será que isso é tudo que se pode concluir? Acredito que o problema central de nossa sociedade, nos próximos cinqüenta anos, é o uso de nosso novos recursos para construir uma cultura em comum; os meios para se atingir uma economia abundante nós já conhecemos. Penso que uma boa cultura em comum pode ser construída, mas antes que seja possível discutir isso com seriedade, é preciso que nos livremos de um legado de nossos críticos mais interessantes: um legado que consiste em duas falsas equações, uma falsa analogia, e uma falsa proposição.

É fácil descartar a falsa proposição. É fato que os novos usos de energia facilitaram o aparecimento de muitas coisas feias: o carvão trouxe sujeira, as fábricas trouxeram amontoamento de pessoas, as comunicações, um emaranhado de fios. Mas a proposição de que a feiúra é o preço que pagamos, ou que nos recusamos a pagar, pela pujança econômica não precisa mais ser verdadeira. Novas fontes de energia, novos métodos de produção, melhores sistemas de transporte e de comunicação, podem, e trata-se de uma possibilidade prática, fazer com que a Inglaterra volte a ser limpa e agradável, e com muito mais energia, não com menos. Qualquer adição à feiúra é resultante da indiferença, da estupidez ou da simples falta de coordenação, e vai ser mais fácil lidar com esse tipo de coisas do que era quando a energia tinha que ser barulhenta, suja e desfiguradora.

As falsas equações são mais difíceis. Uma é a equação entre a educação popular e a nova cultura comercial: esta última sendo conseqüência inevitável da primeira. Facilitem o acesso das massas e é isso o que se ganha. É óbvio que se trata de uma questão difícil, mas não posso aceitar essa equação por duas razões. Antes, por uma questão de fé: não acredito que as pessoas comuns se pareçam de fato com a descrição corriqueira das massas, com hábitos e gostos vulgares e triviais. Dizendo de outro modo: as massas não existem de fato, o que existem são modos de ver pessoas como massas. Com o advento da industrialização, grande parte da antiga organização social desapareceu, e o fato de ver o tempo todo gente que não conhecemos se tornou uma experiência pessoal complicada, daí é um passo para classificar essas pessoas em massa como “os outros”. Além disso, as pessoas foram fisicamente massificadas nas cidades industrializadas e uma nova estrutura de classes (a denominação de nossas classes sociais, e mesmo a palavra “classe” nesse sentido específico, remontam somente à época da Revolução Industrial) foi imposta na prática. O progresso nas comunicações, em especial o desenvolvimento de novas formas de transmissão múltipla de notícias e de diversão, criou divisões incomensuráveis entre o transmissor e a audiência, o que por sua vez levou à interpretação da audiência como as massas desconhecidas. Massa tornou-se a nova palavra para substituir turba: os outros, o desconhecido, os sujos, a multidão que não me inclui. Como uma maneira de chegar a compreender outras pessoas, essa fórmula é obviamente ridícula, mas, nas novas condições, se apresentava como uma fórmula efetiva, a única possível. Certamente foi essa a fórmula utilizada por aqueles cujo poder econômico possibilitou o acesso às novas técnicas de comunicação; a vulgaridade do gosto e dos hábitos, algo que seres humanos imputam com facilidade a outros seres humanos, foram tomados como pressupostos, como uma forma de estabelecer contato. A nova cultura foi construída a partir dessa fórmula, e se rejeito essa fórmula, se insisto em dizer que esta vulgaridade não é inerente às pessoas comuns, você pode desconsiderar minha insistência, mas vou continuar a me pautar por ela. Uma fórmula diferente, sei por experiência própria, obtém uma resposta radicalmente diferente.



Minha segunda razão é histórica: discordo, e posso provar minha discordância, que educação popular e cultura comercial são causa e efeito. Demonstrei em outro trabalho que o mito de 1870 – o ano do Ato da Educação que dizem ter produzido, na medida em que as suas novas gerações cresciam, uma nova imprensa vulgar e embrutecida – é efetivamente um mito. Havia, muito antes de 1870, um grande contingente de alfabetizados, mais do que suficiente para sustentar uma imprensa vulgar, e de fato havia jornais baratos e realmente muito ruins circulando em grandes quantidades bem antes de que se tenha ouvido falar do Ato de 1870. A cultura comercial de má qualidade vem do caos social da industrialização e do sucesso, nesse caos, da fórmula das ‘massas’e não da educação popular. Northcliffe 5 fez poucas coisa piores do que dar início a este mito, pois ao passo que a conexão entre a cultura de má qualidade e o caos social da industrialização é significativa, a conexão entre essa cultura e a educação popular é perversa. A “Revolução de Northcliffe”, diga-se de passagem, foi uma mudança radical na estrutura financeira da imprensa, que passou a ser sustentada por um novo tipo de receita – os novos anúncios de massa dos anos 1890s – e não a fundação de uma imprensa marrom e de baixo custo: nisso ele tinha tido muitos e bem-sucedidos antecessores. E no entanto será que ninguém, nem mesmo um Comitê Real, se dá ao trabalho de ler uma história da imprensa que é de tão fácil acesso? Quando as pessoas começarem a ler essa história, a falsa equação entre educação popular e cultura comercial irá desaparecer para sempre. A educação popular veio do outro time, e teve efeitos completamente diferentes.

A segunda equação é a seguinte: a evidente má qualidade da cultura popular tão amplamente difundida seria um guia seguro das idéias e dos sentimentos, enfim, das características essenciais da vida de seus consumidores. Um número expressivo de homens de bem já chegou a esta conclusão e por isso não devo tratá-la com frivolidade. Mesmo assim, baseando-me nas evidências, não posso aceitá-la. É fácil encontrar, na imprensa, na televisão e no cinema, uma quantidade assustadora de baixos sentimentos e de argumentos estúpidos. É fácil partir daí e chegar a esta versão degradante da vida real de nossos contemporâneos. Mas será que isso se confirma quando nos encontramos com pessoas reais? É aí que voltam, é claro, a aparecer as massas: as pessoas que nós conhecemos não são vulgares, mas pense em Bootle, Surbiton e Aston! Eu nunca morei nesse lugares, e você? Mas há pouco tempo eu estava em uma casa com um representante comercial, um motorista de caminhão, um pedreiro, uma comerciária, um montador, um sinaleiro, um operário da indústria do nylon, uma doméstica (talvez, queridinha, ela seja a sua própria preciosidade, aquela que tanto te ajuda no lar). Detesto descrever pessoas desse jeito, pois trata-se na verdade de minha família e de nossos amigos. Ora, eles lêem, eles assistem a essa produção cultural a que estamos nos referindo; alguns o fazem criticamente, outros, com muito prazer. Muito bem. Leio coisas diferentes, assisto outros tipos de programas, e tenho certeza absoluta de porque são melhores. Mas será que eu seria capaz de me sentar naquela casa e produzir a tal equação costumeira? Não se trata, entenda bem, de ter vergonha de fazê-lo, já sei, muito obrigado, como me comportar. Mas conversando com minha família, com meus amigos, conversando, como estávamos, sobre nossas vidas, sobre pessoas, sentimentos, será que eu efetivamente encontrava essa baixa qualidade que estamos discutindo? Vou ser honesto: procurei, meu treinamento profissional faz isso por mim. Posso apenas dizer que encontrei tanta delicadeza de sentimentos, tanta rapidez de discriminação, tanto entendimento claro de idéias quanto em qualquer outro lugar. Não consigo entender bem tudo isso, mas também não me surpreendo.Certamente há algo na psicologia das imagens e da imprensa que nenhum de nós até hoje conseguiu entender bem. Pois a equação parece fazer sentido, e, no entanto, quando é testada na prática, e não há nenhum outro lugar onde possa ser testada, ela não funciona. Entendo facilmente a necessidade de se promover a leitura inteligente e crítica: meu pai, um leitor satisfeito do Daily Herald, percebeu, simplesmente através da leitura dos nomes nos balancetes, o rápido desenvolvimento da propriedade combinada e entrosada na indústria britânica, o mesmo fenômeno que me foi esclarecido através da leitura de um par de ensaios acadêmicos. Além disso,ele também tinha confrontado esta informação com as opiniões expressas em uma série de artigos de jornal sobre a propriedade industrial. Isso eu entendo: trata-se simplesmente de inteligência, mesmo que apenas parcialmente treinada. Mas existe ainda este outro fato surpreendente: pessoas com alta qualidade de vida pessoal que, ainda assim, estão aparentemente satisfeitas com a baixa qualidade de sentimento e de opiniões da imprensa. Muitas dessa pessoas ainda vivem, é verdade, em um mundo particular surpreendentemente restrito, muito mais fechado do que o meu, e algumas das suas observações pessoais são mais acuradas justamente por isso.Talvez esta seja uma explicação suficiente, mas , mesmo assim, proponho que precisamos de uma nova equação que seja adequada aos fatos que observamos.

Agora, precisamos rejeitar a falsa analogia. Ela é conhecida, em discussões sobre a cultura como uma espécie de lei de Gresham. Do mesmo modo em que o dinheiro podre afasta o dinheiro bom, a má cultura afasta a boa, e isso, dizem, é exatamente o que vem acontecendo.Se você não percebe de imediato o problema com essa analogia, a resposta efetiva terá que ser histórica.Pois, de fato, não é isso que vem acontecendo.Há, em nossos dias mais, muito mais, cultura de baixa qualidade, hoje é mais fácil transmiti-la e há mais tempo livre para recebê-la. Mas teste essa proposição em qualquer campo que você queira, e verifique se essa expansão vem sendo acompanhada pelo diminuição do consumo das coisas que todos concordamos que são boas. As tiragens de literatura de qualidade são muito maiores do que antes, os que podem ouvir boa música são muito mais numerosos do que eram, o número de pessoas que vai a exposições de arte de qualidade nunca foi maior.Se os jornais ruins afastam os bons, devido a uma espécie de lei de Gresham, por que o jornal The Times, levando em conta o crescimento da população, vende quase o triplo do número de cópias que vendia nos tempos de monopólio virtual da imprensa, em 1850? Estou questionando a lei, não a gravidade dos fatos. Em vez de uma espécie de lei de Gresham, deixando tudo mundo preocupado, tendo pesadelos com a nova ortodoxia de um futuro distópico , vamos colocar a questão em outros termos, para nos ajustar aos fatos reais: vivemos em uma cultural em expansão, e todos os elementos constituintes dessa cultura também estão em expansão. Se começarmos por aí, podemos então levantar as questões reais, sobre taxas relativas de expansão, sobre os problemas sociais e econômicos decorrentes, sobre respostas econômicas e sociais. Estou trabalhando agora em um livro para dar seqüência a meu Cultura e Sociedade6, e tentando interpretar, histórica e teoricamente, a natureza e as condições de uma cultura em expansão como a nossa. Não poderia ter começado este trabalho se não tivesse aprendido com os marxistas e com Leavis; não posso completá-lo se não fizer correções drásticas em algumas das idéias que eles, e outros, nos legaram.


Concedo-me três desejos, um para cada um dos cisnes que acabei de ver nadando no lago. Peço coisas que são parte do ethos de nosso movimento da classe trabalhadora. Peço que sejamos fortes e humanos o suficiente para realizá-los. E peço, como é natural, nos meus próprios campos de interesse.

Desejo, em primeiro lugar, que todos reconheçamos que a educação é para todos: que se trata, antes de mais nada, do processo de dotar todos os membros da sociedade com a totalidade de seus significados comuns e com as habilidades que lhes possibilitarão retificar esses significados, à luz de suas próprias experiências pessoais e comuns. Se começarmos por aí, podemos nos livrar das restrições remanescentes e fazer as mudanças necessárias. Não me refiro apenas às restrições monetárias, ainda que estas sejam ridículas e devam desaparecer. Penso também nas restrições mentais: a insistência, por exemplo, de que há um número máximo inegociável – uma fração da população como um todo – capaz de se fazer bom proveito da educação universitária, ou da educação preparatória para a universidade, ou de um curso de humanidades. Dizem-nos que não se trata de uma questão de preferência pessoal, mas simplesmente de um fato objetivo da inteligência humana, comprovado pela biologia e pela psicologia. Mas vamos falar francamente: será que a psicologia e a biologia são diferentes nos Estados Unidos e na União Soviética ( ambos empenhados na expansão e não em qualquer restrição de classe), onde um número muito maior de estudantes, de frações de classe muito mais amplas, passam por estágios equivalentes de educação? Ou será que os ingleses chegaram tarde na fila da inteligência? De minha parte, acredito que nosso sistema educacional, com suas frações de ouro, é demasiado parecido com nosso sistema social – uma camada superior de líderes, um média de supervisores e uma grande camada de baixo, dos operadores – para ser um coincidência. Não aceito que a educação seja um treinamento para um emprego, para se formar cidadãos úteis ( ou seja, que se adaptem a este sistema). A educação é a confirmação dos significados comuns de uma sociedade e das habilidades necessárias para corrigi-los. Os empregos são conseqüência dessa confirmação: a finalidade e depois a habilidade dos ofícios. Estamos nos encaminhando para uma economia em que precisaremos de muito mais especialistas altamente treinados. É exatamente por isso que estou pedindo uma educação comum, que dará coesão à nossa sociedade, e impedirá que ela se desintegre em uma série de departamentos especializados, a nação transformada em uma firma.

Mas não estou pensando apenas na re-organização do acesso a tipos específicos de educação, ainda que estes sejam bem-vindos e que eu esteja acompanhando com atenção as novas experiências do gênero. Acho que mais do que isso, é preciso repensar os conteúdos, isso é ainda mais importante. Tenho a honra de trabalhar para uma organização7 através da qual, de forma bem prática, os trabalhadores reformularam o currículo das universidades inglesas. Trata-se hoje da mesma questão de antes: o defeito não é o que está sendo dado, mas o que é deixado de fora. Vai ser um teste da nossa seriedade em assuntos de cultura ver se conseguimos, na próxima geração, re-planejar o currículo escolar de forma a levá-lo a um ponto máximo de controle e relevância humanas . Gostaria de ver um grupo de trabalho dedicando-se a essa tarefa e apresentado suas conclusões. Pois não é preciso temer mudanças: o estabelecido pode ou não ser relevante. Venho de um lugar muito antigo: se alguém me diz que sua família veio para cá com os normandos, respondo: “Claro, que interessante, vocês estão se adaptando bem?”Antiguidade é algo relativo, muitas tradições inglesas “imemoriais”foram inventadas sem muita dificuldade no século dezenove. O que este século vital fez para suas próprias necessidades, podemos fazer para as nossas: podemos estabelecer, na nossa vez, um currículo escolar do século vinte. E não penso apenas em mais tecnologia, a idéia é dar uma educação humanística para todos em nossa sociedade, e depois um treinamento especializado completo para podermos ganhar dinheiro nos termos do que quisermos fazer de nossas vidas. Nossas especialidades serão muito melhores se vierem de uma cultura comum, ao invés de serem distintas dessa cultura comum. E precisamos, a qualquer preço, evitar a cada vez mais evidente polarização de nossa cultura. A instrução de alto nível está se expandindo cada vez mais, na razão direta de oportunidades educacionais excepcionais, e a distância entre esta e a instrução comum pode aumentar, para prejuízo de ambas, e com uma potencialização conseqüente de tensões. Temos que enfatizar não a escada, mas o caminho comum, pois a ignorância de qualquer ser humano me diminui, e a habilitação de todo ser humano é um ganho comum de horizontes.

Meu segundo desejo é complementar: mais e mais subsídio público eficiente para as arte e para a educação de adultos. Atualmente gastamos vinte milhões de libras por ano em nossas bibliotecas, museus, galerias, orquestras, nos Arts Council e em todas as modalidade de educação para adultos. Ao mesmo tempo, gastamos trezentos e sessenta e cinco milhões de libras em propaganda. Quando revertermos esses números, podemos começar a dizer que temos algum senso de valores ou de proporção. E até que sejam revertidos, que não venham sermões do establishment sobre materialismo: este é o modo de vida deles, e eles que cuidem disso.(Mas eles não criam vergonha: durante anos, com seus próprios filhos em colégios internos, eles davam lições de moral às mães da classe trabalhadora sobre as virtudes da vida familiar, trata-se de um caso parecido).

Peço pelo aumento do subsídio sob três condições. Não deve ser uma forma disfarçada de manter o consumo, mas de algo feito em benefício próprio. Um ministro do último governo trabalhista disse que não queríamos gênios na nossa indústria cinematográfica, ele queria, é provável, apenas manter os cinemas cheios. Uma resposta curta para isso é dizer que não queremos pensadores de Wardour Street 8na liderança do Partido Trabalhista.Queremos líderes de uma sociedade e não consertadores deste tipo de economia cultural. A segunda condição é que mesmo que seja necessário, é óbvio, preservar e estender as grandes instituições nacionais, é preciso fazer alguma coisa para mudar a concentração desse aspecto de nossa cultura. Devemos aplaudir, encorajar e estimular a tendência a se construírem centros de recreação regionais, pois a cultura é ordinária, não deveríamos ter que ir a Londres para isso.

A terceira condição é controversa. Não deveríamos buscar propagar uma cultura pronta para a massa ignara. Devemos aceitar, com franqueza, que se propagarmos nossa cultura, nós a estaremos modificando: parte do que oferecermos será rejeitado, outras serão objeto de crítica radical. E é assim que tem que ser, pois nossas artes, agora, não estão em condições de continuar incontestadas até a eternidade. Há muito trabalho de boa qualidade, há muito trabalho de má qualidade e trabalhos baseados em valores que não serão aceitos se postos à luz de toda a Inglaterra. Levar nossas artes a novos públicos é estar certo de que essas artes serão modificadas. A mim, por exemplo, isto não assusta. Eu não espero que os trabalhadores ingleses vão dar seu apoio a obras que, depois de uma preparação paciente e adequada, eles não consigam aceitar. O verdadeiro crescimento será lento e desigual, mas a provisão estatal, francamente, deveria crescer nessa direção, ao invés de ser um meio de desviar dinheiro público para a preservação de uma cultural fixa, fechada e parcial. Ao mesmo tempo, se entendemos o processo de desenvolvimento cultural, sabemos que este é feito de ofertas contínuas para uma aceitação comum; e que portanto, não devemos tentar determinar de antemão o que deve ser oferecido, mas desobstruir os canais e permitir todos os tipos de oferta, tendo o cuidado de abrir bem o espaço para o que for difícil, dar tempo suficiente para o que for original, de modo que o que se tenha seja desenvolvimento real, e não apenas a confirmação ampliada de antigas regras.

Nesse altura vão surgir as vozes de sempre, dizendo que não se deve apoiar o que não gera lucro. De novo, isso aqui é uma nação e não uma firma. O parlamento não dá lucro, e o mantemos porque ele é necessário, e se funcionasse melhor com perdas financeiras ainda maiores, eu, e muitos outros, arcaríamos com o prejuízo. Mas por que, diz o Sir George Mamon, eu deveria sustentar um bando de artistas de valor duvidoso? Por que, reitera Mrs. Mink, eu deveria pagar para educar, às minhas custas, tantos estudiosos irresponsáveis e ingratos? A resposta, meu caro senhor, minha cara senhora, é que vocês não sustentam tudo isso. Sozinhos, aprendam o que valem, vocês não poderiam fazer quase nada. Estamos nos referindo a um método de pagamento comum: nós também vamos pagar.

Meu terceiro desejo é em um campo relacionado: o campo agora dominado pelas instituições da “cultura de massa”. Normalmente, são as pessoas que dirigem essas instituição que reclamam da falta de lucros.Mas os grandes jornais populares, enquanto jornais, não geram lucro. As companhias de televisão independente são planejadas para funcionar com perdas. Não me refiro a subsídios temporários, mas à base geral de financiamento de tais instituições. Os jornais funcionam com perdas pesadas, que são compensadas, com o dinheiro dos anúncios, ou seja, trata-se do uso privado de parte do produto de nossa indústria comum. Funcionar com perda e depois cobrir o prejuízo com esse tipo de aporte, é elemento essencial desse tipo de instituição cultural, e é uma característica típica de uma sociedade capitalista como a nossa. Todo o impressionante conjunto de instituições culturais de massa repousa em uma pedra fundamental: o dinheiro dos anúncios. É bom que parem de ser complacentes ao falar dessas outras instituições culturais que funcionam com perdas, e comecem a fechar seus balanços com outros elementos do produto comum.

Mas o que exatamente é meu desejo? Retirar essa pedra fundamental? Não. Não, nada tão simples assim. Apenas estou mostrando que a organização de nossa cultura de massas atual está firmemente entrelaçada com a organização da sociedade capitalista e que o futuro de uma não pode ser discutido a não ser nos termos do futuro da outra. Penso que muito dos anúncios de hoje são necessários apenas em termos do tipo de economia que temos agora: um estímulo do consumo em direção de determinados produtos e firmas, na maior parte das vezes através de artifícios irrelevantes ao invés de através de anúncios reais, que são uma forma nada extraordinária de anunciar, de tornar algo público. Em uma economia socialista, que eu, e outros, desejamos, toda essa forma de pseudo-anúncios seria irrelevante. Mas então, o que? Meu desejo é que possamos resolver os problemas que surgiriam aí, quando coisas necessárias como jornais funcionariam com seus prejuízos reais, sem nem aumentar seus preço para além das possibilidades comuns, nem expô-los aos perigos do controle e da padronização ( pois desejamos uma impressa mais e não menos livre e variada). Vai ser bem difícil, mas não acredito que somos tão pouco inventivos que tenhamos apenas duas alternativas ruins: ou a continuação dessa mamata de mascates, nas quais as notícias e as opiniões estão inextricavelmente ligadas às barganhas do mercado, que trazem consigo a nova escravidão e prostituição da venda de personalidades; ou então um sistema mesquinho, monolítico e controlado no qual as notícias e opiniões são um presente do partido no poder. Deveríamos estar pensando agora em maneiras de arcar com nosso serviços em comum que garantissem uma liberdade adequada àqueles que efetivamente são os provedores desses serviços, e ao mesmo tempo os protegesse, e a nós também, da dominação de uma minoria, seja financeira seja política. Penso que essas maneiras existem, se nós realmente acreditamos em democracia.

Mas esta é a questão central: quantos de nós realmente acreditamos nela? Os capitalistas não acreditam, estão consolidando um poder que possa sobreviver a mudanças parlamentares. Muitos líderes do Partido Trabalhista também não acreditam nela: eles interpretam democracia como uma sociedade governada por especialistas, em nome de uma abstração chamada interesse público. As pessoas da casa de chá também não acreditam, têm certeza de que não será aprazível. E os outros, os novos dissidentes? Nada contribuiu mais para azedar a idéia da democracia, entre os que naturalmente a apoiariam, e para isola-los em um auto-exílio rancoroso, do que as questões simples e espantosas da cultura: a aparente divisão da nossa cultura entre, de um lado, uma sofisticação remota e complacente e, de outro, uma massa entorpecida. Quem então acreditaria na democracia? A resposta é bem simples: as milhões de pessoas na Inglaterra que ainda não tem acesso à democracia, onde trabalham e vivem.




1 Alusão a um grupo de artistas atuantes nos anos 50 - nos quais se incluem os romancistas Kinsgley Amis e Allan Sillitoe e o dramaturgo John Osborne. Suas obras criticavam as distinções sociais.

2 Clive Bell (1881-1964), crítico de arte. Foi membro atuante do grupo de Bloomsbury. No livro Civilization (1928) defendia a idéia de que a civilização depende da existência de uma elite ociosa.

3 F.R. Leavis(1895-1978), o mais influente crítico literário inglês do século vinte. Foi editor da revista Scrutiny (1932-56) e inspirador do projeto educacional do Cambridge English, a forma de ler e ensinar literatura predominante até a década de 6o na Inglaterra

4 Alusão a dois livros do crítico marxista ortodoxo ingles Christopher Cauldwel l (1907-1937) , Studies in a Dying Culture( 1938) e Further Studies in a Dying Culture (1949).

5 Alfred C.W. Harmsworth, Lord Northcliffe (1865-1922) , fundador do Daily Mail e da imprensa popular na Inglaterra.

6 O livro que escrito depois de Cultura e Sociedade (1958) - Trad. Brasileira da Nacional, 1969 é The Long Revolution (1961).

7 Williams era instrutor no programa de educação para adultos da Workers’s Education Association.

8 Rua de Londres onde estão concentradas a companhias de cinema.



Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal