A cultura Chinesa na visão do Ocidente



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Dinastia Qin


A impressionante conquista da velha China dos reinos separados foi realizada pelo Estado de Qin com rapidez e completada em 221 a.C. O Estado de Qin (pronunciado "tchin", que nos deu o presente nome da China) teve uma dupla vantagem: na teoria - a filosofia pragmática e cruel do Legismo - e, na prática - uma organização militar eficiente, sob o comando de líderes fortes, que possuíam cavalaria e armas de ferro, mais aperfeiçoadas, ambas criações comparativamente novas para a época. Embora as fases finais desse domínio tivessem sido rápidas, a preparação exigia um tempo muito longo.

O poder dos Qin inicia-se com lorde Shang no período compreendido entre os anos de 361 e 338 a.C., data de sua morte. No nível superior da sociedade, suas reformas visaram a estabelecer uma nova aristocracia de homens premiados por seus feitos bélicos, ocupando o lugar das antigas famílias cujo domínio era hereditário; nos níveis inferiores, um sistema de recompensas e punições severas, a formação de grupos responsáveis uns pelos outros e a rigorosa delação de atos delituosos às autoridades haviam fortalecido o controle estatal sobre toda a população. Um século mais tarde, quando o futuro imperador de toda a China, Qin Shi Huangdi, subiu ao trono de Qin em 246, pôde contar com a competência de um ex-mercador, Lu Buwei, na qualidade de administrador-chefe; este último foi, por sua vez, substituído por um legista proeminente, Li Si, que aplicou o modelo Qin de controle em toda a China. Os métodos de reorganização e fortalecimento da autoridade central sobre os reinos independentes foram assim levados a cabo e aplicados numa esfera limitada, por um pequeno número de dirigentes, antes da conquista militar dos Qin.

Quando a vitória se tornou completa, todas as armas dos que não pertenciam ao exército Qin foram confiscadas e seu metal, fundido. A quantidade foi suficiente para construir 12 estátuas gigantescas na nova capital, Xianyang. Para mostrar sua intenção de iniciar uma administração inteiramente nova, o soberano adotou o título ambicioso de Shi Huangdi, o "Primeiro Imperador". O país foi dividido, primeiro, em 36 e, depois, em 48 comandos, ou distritos militares, cada qual com três funcionários que tinham a função de fiscalizar uns aos outros: um governador civil, um governador militar e um representante direto do governo central. Todos os funcionários eram metodicamente divididos em 18 ordens hierárquicas. Criaram-se impostos e leis uniformes para toda a China, sem levar em conta as antigas fronteiras.

A diferença capital na organização das massas sob os Qin foi que o povo se viu libertado da sua antiga fidelidade a senhores feudais individuais e colocado sob o controle direto do novo governo central. Isso fez com que o governo pudesse lançar mão de um potencial humano até então desconhecido, não só no que dizia respeito ao exército, como também a um contingente de trabalhadores forçados. Essa abundância de mão-de-obra possibilitou a construção de uma rede de estradas que se irradiavam da capital. Tal como no Império Romano, essas estradas, abertas a princípio com fins estratégicos, eram igualmente úteis para o comércio. Rasgaram-se canais para irrigação e transporte, e tomaram-se medidas para aumentar a produção agrícola. Para enfrentar a ameaça das tribos nômades do Norte, pesadelo constante ao longo de toda a história chinesa, trechos de uma muralha defensiva já construídos por três dos antigos reinos foram fortalecidos, ligados e estendidos, para formar a célebre Grande Muralha da China, um dos mais ambiciosos projetos de construção já realizados por qualquer civilização. Depois de erguida, ela estendia-se do Sudoeste do Gansu à Manchúria meridional, numa distância de 2.240 km; uma série de melhoramentos foram efetuados pelas dinastias subseqüentes.

Desembaraçado de qualquer respeito pelo passado e ansioso por impor uniformidade lógica ao país como um todo, o que já foi assinalado a respeito das medidas tomadas nos campos da lei e da tributação, o imperador Qin procedeu à padronização de pesos e medidas e adotou um sistema monetário único - a moeda redonda de cobre, com um orifício quadrado no centro, que continuou sendo a moeda-padrão até os tempos modernos. Foram assim eliminadas numerosas formas de moeda de manuseio mais incômodo, que tinham circulado em diferentes regiões na época dos Zhou. A forma de escrita foi igualmente uniformizada, assim como a distância entre eixos das carroças. Esta última medida, ao invés do que possa parecer, revestiu-se de grande importância no solo argiloso e solto do Norte da China, onde os sulcos abertos pelas rodas dos carros ganham tal profundidade que toda a superfície não-pavimentada da estrada pode desaparecer abaixo do nível das terras circundantes. Assim, as diferentes distâncias entre eixos exigiam, até então, a transferência de mercadorias de uns veículos para outros nas fronteiras dos antigos Estados.

Mas foi na área do pensamento que a nova política de uniformização provocou a maior oposição, que na época se manteve latente, mas que veio à tona com os eruditos nas dinastias subseqüentes e se refletiu no azedume duradouro contra o regime dos Qin. Objetivando fazer uma limpeza total que varresse o passado e desfizesse antigas lealdades aos Estados anteriores, o ministro-chefe, Li Si, conseguiu que, em 213, Qin Shi Huangdi, baixasse um decreto que ordenava a queima de todos os livros, exceto os dedicados a assuntos práticos, como agricultura, adivinhação e medicina. Os eruditos que desobedecessem à ordem seriam executados. Parece que de fato alguns deles fora enterrados vivos.

Com o poderoso exército que organizara, Qin Shi Huangdi não apenas assegurou suas fronteiras no Norte, como ainda as estendeu até o extremo sul. Antes da conquistada China, os Qin já haviam atacado e conquistado territórios em Sichuan no Sudoeste. Os exércitos movimentaram-se, então, para o sul, até Hanói. Apoderaram-se do litoral em torno da moderna Cantão (Guangzhou) e conquistaram as regiões perto de Fuzhou e Guilin.

Ao consolidar assim o seu domínio e ao estender as fronteiras da China até quase a sua atual posição, o primeiro imperador Qin demonstrara uma energia demoníaca e alcançara um êxito fenomenal. Mas, quanto mais centralizado se tornava o império, mais vulnerável era à fraqueza no centro do poder. Essa fraqueza veio à tona com a morte do primeiro imperador, em 210 a.C. Ele estava, ironicamente, em viagem às regiões orientais em busca de mágicos daoístas para que estes lhe fornecessem o elixir da imortalidade. Li Si e o eunuco-chefe, Zhao Gao, mantiveram sua morte em segredo até retornarem à capital, a fim de colocarem no trono, como segundo imperador, um herdeiro mais moço, o qual, julgavam eles, seria mais flexível às suas ambições. Mas houve um desentendimento entre eles e Li Si foi eliminado; quando o terceiro imperador subiu ao trono, mandou assassinar Zhao Gao. A dinastia dos Qin, apesar de sua força, não pôde sobreviver à dizimação de seus líderes. Quando, em 206, teve que enfrentar a rebelião popular, desmoronou. O primeiro imperador jactara-se de que sua dinastia duraria 10 mil gerações; na verdade tudo terminou em 15 anos.

Qin Shi Huangdi, o primeiro imperador, não gozou de bom conceito junto aos historiadores confucianos e, na verdade, foi em muitos aspectos um tirano cruel. Vários milhares de homens, por exemplo, morreram durante a construção da Grande Muralha. Mas ele estabeleceu as principais bases para o futuro desenvolvimento do Império. Em especial, criou um reino unificado e centralizado que nunca mais deixou de ser o ideal chinês para o império. Ao proteger o Legismo, influenciou toda a futura concepção chinesa a respeito da lei. A lei, sob esse ponto de vista, não deveria ser, de modo algum, uma consagração do costume - ele destruiu os direitos hereditários e os costumes - nem, simplesmente, um meio de dirimir disputas, nem uma expressão da vontade comum, pois o desejo dos governados contava pouco. "Afastada qualquer interpretação divergente, [a lei era] um meio de dividir hierarquicamente os indivíduos, possuindo uma função de balança geral de dignidade e indignidade, de mérito ou descrédito. [Era] ao mesmo tempo o instrumento todo-poderoso que permitia orientar as atividades de todos na direção mais favorável ao poder do Estado e à tranqüilidade pública" [J. Gernet - Le Monde Chinois. p. 79.]. Qin Shi Huangdi sintetizou sua idéia a respeito da sua própria realização, quando mandou gravar numa estela as seguintes palavras: "Trouxe ordem às massas e submeti atos e realidades a esse teste: tudo tem o nome que lhe é apropriado." [ibid.] A promulgação de regras uniformes e de critérios objetivos deveria pôr um ponto final à dúvida, à divisão e ao conflito. Mas, num aspecto, que Mêncio havia, muito tempo antes, declarado essencial, a dinastia Qin fracassara: ela já não contava com o apoio e a confiança do povo, dando, assim, provas de que perdera o Mandato Celeste.

Dinastia Han


A oposição popular ao governo dos Qin surgiu sob a forma de revoltas na China central em 209 a.C. Ao mesmo tempo, a oposição aristocrática, que nunca tinha sido, realmente, eliminada, voltou a manifestar-se no reino reconstituído de Chu, sob a liderança de Xiang Yu. Seu lugar-tenente, Liu Bang, conseguiu derrotar o terceiro e último imperador Qin no vale do Wei em 206; a seguir, virou-se contra seu senhor, Xiang Yu, e derrotou-o. Liu Bang logo conquistou território e poder suficientes para declarar-se imperador, sob o nome de Gao Zu ("Alto Progenitor”), de uma nova dinastia, a dos Han, que iria governar a China durante os quatro séculos seguintes.

O Período dos Han Anteriores (206 a.C. - 8 d.C.).

Gao Zu (206-195 a.C.) era de origem popular e conservou o seu estilo rude de camponês até o fim, inesmo vivendo no meio da corte. Ele tinha o agudo sentido do camponês a respeito do possível e do prático e agia com base no dito do filósofo Xunzi: "O príncipe é o barco; o povo é a água. A água tanto pode manter o barco quanto virá-lo”.Ele não tinha intenção de submergir e, por isso, agiu com ponderação, escolhendo com cuidado os seus auxiliares e recompensando-os generosamente. Fez questão de abolir as severas leis dos Qin e de conter o exército, impedindo-o de saquear. Firme e geralmente justo, podia igualmente ser generoso, compreendendo as necessidades do homem comum. Absolutamente, não se mostrava hostil aos prazeres do vinho e das mulheres. Orgulhava-se de ser sincero, até rude, e descobriu que essa maneira de ser até conferia algum encanto à sua liderança.

Entretanto, ao abandonar o absolutismo e o legismo Qin, Gao Zu não pensava em voltar ao sistema Zhou de governantes regionais semi-independentes. Passou seu período de governo a consolidar o poder centralizado não só pela diplomacia, mas também pela força.

A princípio teve de fazer algumas concessões, e aqueles que o haviam ajudado em sua vitória foram recompensados com reinos que se localizavam para além da área central de suas próprias 15 comandâncias. Gradualmente, porém, conseguiu que o direito a esses reinos fosse reservado apenas aos membros de sua própria família imperial. Os mapas e os registros de impostos, compilados pelos funcionários Qin da dinastia precedente, foram úteis para a organização do novo governo. Apesar de impaciente com as sutilezas do comportamento oficial, Gao Zu reconhecia a necessidade de ordem e dignidade; para tanto, mandou não só organizar um formulário especial de comportamento palaciano, baseado em preceitos confucianos, mas também que se compusesse uma lista de ancestrais para si próprio, de modo a ajustar-se à sua nova e excelsa posição. O saber confuciano recebeu novo alento e as teorias de Confúcio no tocante aos requisitos de justiça e respeito do povo por parte do soberano parecem ter sido acatadas pelo novo imperador. Seu irmão mais moço, Liu Jiao, foi inclusive um reputado erudito confuciano.

A transição da caserna à corte não pode ter sido fácil para Gao Zu, pois ele tinha sido um chefe de bandidos e, depois, um general bem-sucedido. Um de seus emissários, ao voltar de uma missão no extremo sul da China, citou passagens do Livro das Odes e do da História a Gao Zu, durante uma audiência. Gao Zu disse: "Obtive o império em cima de um cavalo; por que me importaria com as Odes ou a História?" O emissário retrucou: "Vós o obtivestes num cavalo, mas podereis governá-lo num cavalo?"

A combinação de determinação com flexibilidade encontrada em Gao Zu e seus sucessores imediatos serviu para consolidar o império e estabelecê-lo nas linhas gerais que iria seguir nos séculos seguintes. O poder da velha aristocracia Zhou estava findo para sempre. As teorias doutrinárias do governo totalitário e a crueldade em suas execuções, que haviam prevalecido sob os Qin, foram, em sua maioria, abandonadas. Mas os benefícios resultantes da uniformização e do governo centralizado dos Qin foram mantidos. Iniciou-se assim uma era de confiança, estabilidade e prosperidade, que levou os chineses, desde então, a se autodenominarem, com orgulho, os "Filhos de Han".

Entretanto, a nova paz e a nova segurança não foram fácil e prontamente conseguidas. O equilíbrio entre, por um lado, o controle regional necessário para estabelecer a lei e a ordem de maneira ampla e, por outro, o desejo premente de centralismo, foi sempre algo de delicado na história chinesa. Vimos que o governo dos Han anteriores havia outorgado alguma independência a áreas periféricas, sem jamais pretender que permanecessem independentes. Uns poucos reinos e alguns marquesados continuaram a existir nominalmente até o fim da dinastia, mas nenhum deles teve mais do que um poder aparente depois de 154 a.C. Uma ameaça mais séria ao governo central residia no poder e na ambição da viúva de Gao Zu, a imperatriz Lu, que governava efetivamente através de seus parentes masculinos, enquanto, no trono, estava um imperador-infante. Mas com sua morte, em 180 a.C., funcionários que haviam permanecido fiéis à memória e à política de Gao Zu Praticamente baniram a família Lu da capital. A ameaça de rompimento e facciosismo representada pelas famílias das imperatrizes foi muito séria mais tarde, durante o declínio da dinastia dos Han, e voltou à tona, periodicamente, em dinastias seguintes.

Eram esses os perigos internos ao estabelecimento do poder dos Han, mas as ameaças externas não eram menos graves. Vinham, como de hábito, do Norte, pois grande parte da história chinesa é ocupada pela incursão de nômades das estepes e pela defesa e contra-ataque dos chineses. A riqueza acumulada nas terras agrícolas, ocupadas sedentariamente, do Norte da China provou ser, de tempos em tempos uma poderosa tentação para esses pastores relativamente pobres e inquietos. Mobilidade que lhes davam seus vigorosos pequenos cavalos mongólicos permitia lhes desfechar ataques rápidos e predatórios e tomava-os também difíceis de capturar, pois dissolviam-se antes de qualquer movimento retaliativo chinês. Por outro lado, eles dividiam-se com freqüência em feudos tribais e podiam unicamente causar pouco dano em pequenos bandos.

Nessa época, a nação nômade dos Xiong-nu (um povo de origem turca, conhecido no Ocidente como hunos) uniu-se sob o comando de líderes vigorosos e deu início no Shanxi, em 201 a.C., a uma série de ataques, que forçaram os chineses a transladar-se, durante certo tempo, para o Sul da Grande Muralha e levaram os Xiong-nu, em 166, para muito perto da própria capital, Changan. Como Gao lu, nas primeiras fases, estivesse preocupado em consolidar a dinastia, recorreu a um estratagema freqüentemente repetido depois, o da tentativa de subornar os invasores. No caso de Gao lu, o incentivo oferecido- e aceito - foi o casamento de uma princesa chinesa com o filho do "imperador" Xiong-nu, acompanhado de presentes de seda, álcool, arroz e dinheiro de cobre.

Os reinados dos sucessores de Gao lu foram comparativamente curtos, mas, com a ascensão do sexto imperador Han, Wudi, o "Imperador Marcial", que governou durante 54 anos (141-87 a.C.), a China entrou num período de segura expansão militar que estendeu suas fronteiras quase até a sua moderna posição, com a exceção da grande área de território costeiro em frente a Formosa. Han Wudi foi indubitavelmente um dos mais dinâmicos da longa lista de imperadores chineses. Muito ambicioso e capaz, introduziu um novo estilo de controle pessoal do processo governamental. Substituiu os funcionários regulares, na prática, por um corpo de Escritores Palacianos, por quem fazia proclamar uma série de editos e ordens que cobriam cada departamento de assuntos civis e militares. Os Escritores, por sua vez, decidiam, dentre os inúmeros documentos (o governo da China tinha mais burocracia do que outro qualquer do mundo) os que deveriam chegar à mesa do imperador. O poder dos Escritores Palacianos pode ser avaliado pelo fato de que o seu Intendente era, ao mesmo tempo, comandante-em-chefe do exército. Entretanto, permaneciam servos de Wudi, pois este fiscalizava pessoalmente cada departamento. Os perigos óbvios desse sistema altamente centralizado eram, de algum modo, atenuados pelo fato de que Wudi era, em muitos aspectos, um soberano esclarecido. Ele estimulou o renascimento dos estudos confucianos e foi enérgico em recrutar os eruditos mais talentosos para a sua administração. A esse respeito, proclamou um famoso texto:

QUEREMOS HERÓIS! UMA PROCLAMAÇÃO

Trabalhos excepcionais exigem homens excepcionais. Um cavalo indócil ou escoiceador pode vir a tornar-se um animal muito valioso. Um homem que é objeto de ódio de todos pode mais tarde realizar grandes obras. O que acontece com o cavalo intratável passa-se também com o homem arrogante: é apenas uma questão de treinamento. NÓS, desse modo, ordenamos aos vários funcionários distritais que procurem homens de talento brilhante e excepcional, para se transformarem em NOSSOS generais, NOSSOS ministros e NOSSOS emissários aos Estados distantes.

[Giles, p.76]

 

Mas a recomendação de candidatos qualificados para os cargos, feita pelos funcionários existentes, não foi suficiente. A forma de recrutamento adotada pelos Han representa uma transição entre a primitiva nomeação de funcionários escolhidos nas famílias aristocráticas e um sistema posterior, plenamente desenvolvido, de seleção por exame competitivo, que só foi plenamente implantado na dinastia dos Tang (618-907 d.C.). Na dinastia dos Han, enviava-se de quando em quando um pedido de recomendação às províncias, e os candidatos selecionados eram submetidos a exames escritos na corte. O Grão- Mestre-de-Cerimônias corrigia as provas e submetia os resultados ao imperador, que fazia sua própria seleção. Os estudantes da Universidade Imperial tinham de prestar exames anuais, e as nomeações para os cargos oficiais eram feitas pelo imperador a partir das duas categorias de aspirantes.



A julgar pelas tentativas de Han Wudi no sentido de encontrar homens capazes de preencher os cargos da administração imperial, ele deve ter sido um chefe bem rigoroso. Dos sete Chanceleres que ocuparam o poder entre 121 e 88 a.C., todos, à exceção de um, morreram ou caíram em desgraça durante o seu mandato. Ele era igualmente duro com os generais, que desempenhavam tarefas árduas e freqüentemente ingratas em campanhas nos desertos do Extremo Noroeste. Entretanto, Wudi recebeu respeito e lealdade, pois durante seu longo reinado foram manifestos os altos níveis de moral, patriotismo e autoconfiança. Ele possuía certa erudição e escreveu poesia que reflete ainda um tom universal de sentimento pessoal.

 

Sobre a morte de Li Furen


Já não se ouve o rumor de sua saia de seda.

No chão de mármore acumula-se a poeira.

Seu quarto vazio está frio e quieto.

Folhas caídas empilham-se nas portas.(...)

De que modo poderei descansar meu coração sofredor?

 

Apesar do crescente nível cultural do período Han, os líderes políticos estavam dominados pela superstição e pela ilusão da magia, características da época. Um escravo esperto da corte de Wudi anunciou que podia obrigar os Imortais daoístas a aparecerem. Passou a desfrutar uma posição de honra e riqueza, e até a filha do imperador lhe foi dada em casamento. Como suas promessas não se concretizassem, ele partiu “para buscar os mestres“. Entretanto, quando os agentes do imperador descobriram que ele não havia visitado qualquer mestre, caiu em desgraça e foi executado. Um famoso erudito da corte, Dong Fangsuo, teve melhor sorte. Descobriu-se que bebera uma poção do elixir da imortalidade preparado para o imperador. Wudi ficou furioso e condenou-o à morte, mas Dong Fangsuo, com admirável presença de espírito, logrou salvar-se, arquitetando a seguinte resposta:”Se o elixir era verdadeiro, vossa Majestade não pode fazer-me mal; se não era, que mal fiz eu?"



A mais importante realização do reinado de Wudi foi sem dúvida a expansão do poder chinês e dos limites territoriais da China, fatos que merecem um exame mais detido. A expansão deu-se em três direções: para o noroeste, para o nordeste e para o sul. O primeiro imperador Han, Gao Zu, como vimos, teve de enfrentar o problema - que, mesmo naquela época, não era novo - dos nômades das estepes. Os Xiong-nu haviam conseguido uma forte liderança antichinesa ao fonnarem uma confederação regional de tribos. Havia na corte chinesa uma corrente contrária à solução conciliatória e ao acordo, com base no fato de que as doações feitas aos líderes Xiong-nu aumentavam não só sua riqueza, mas também seu poder de oposição. Por outro lado, a política exterior chinesa de caráter pacífico havia conseguido tirar proveito dos acordos de paz com os nômades, da seguinte maneira: os reféns das tribos que eram enviados à corte chinesa como garantia de bom comportamento não só eram tratados magnificamente, mas também recebiam educação chinesa e até postos nas funções palacianas. Assim, quando voltavam a seus lares, incentivavam amizade com a China e davam oportunidade de os chineses intervirem na política focal, quando fosse o caso.

Seguindo a agressiva política externa de Han Wudi, um de seus mais capazes generais, Zhang Qian, ofereceu-se como voluntário para intervir em assuntos tribais no Noroeste, a fim de tentar assegurar uma aliança com os Yuezhi contra seus tradicionais inimigos, os Xiong-nu. Zhang Qian partiu em 139 a.C., acompanhado apenas de uma guarda de 100 homens, e foi prontamente capturado pelos Xiong-nu. Ficou prisioneiro durante dez anos mas, quando a vigilância de seus captores abrandou, evadiu-se com alguns de seus homens e da mulher Xiong-nu com quem casara enquanto esteve preso. Com extraordinária coragem e fidelidade às ordens, para não mencionar a suprema autoconfiança de que os Han davam sobejas provas, Zhang Qian não rumou para leste, em direção à China, mas para oeste, o objetivo de sua missão original. Após meses de viagem, descobriu que os Yuezhi, um povo de língua indo-européia, abandonaram o vale de Ili para ir fixar-se em Fergana. Conseguiu finalmente alcançá-los na região setentrional do Afeganistão, conhecida como Bactriana. Eles estavam relutantes em voltar para o Leste, onde os aguardavam de novo as provações da guerra das estepes, embora Zhang Qian houvesse passado um ano com eles, num infrutífero esforço para persuadi-los. A seguir, atacaram o Norte da Índia, fundando o Império Kush. Mas a importância, para a China, da audaciosa aventura de Zhang Qian foi que os chineses, pela primeira vez, tomaram conhecimento do mundo ocidental além de suas fronteiras. Ainda que, nesse tempo, fosse mínimo, na região, o poder dos reinos macedônios que sucederam a Alexandre, o Grande (morto em 323 a.C.), o contato com os mundos parto, grego e romano tinha sido mantido. Zhang Qian retomou, pois, à China em 126 a.C. - com sua esposa Xiong-nu e um sobrevivente de seu corpo de guarda - trazendo informações inteiramente novas à corte chinesa. Em 115 a.C. foi outra vez mandado para o Ocidente, visitando Fergana e a Sogdiana. Colheu mais informes sobre essas regiões e descobriu grandes possibilidades de comércio para a China, particularmente em razão da demanda de seda.

Durante esse tempo os generais de Han Wudi e seus sucessores imediatos vinham desenvolvendo uma intensa atividade militar. Havia uma constante movimentação de grandes exércitos. Em 133 a.C. um exército de cerca de 300 mil homens, com cavalaria e carros de combate, atacou os Xiong-nu. Ao todo, nos 80 anos entre 136 e 56 a.C., houve 25 grandes expedições; 14 para o Noroeste e o Oeste, três para o Nordeste (Manchúria e Coréia) e oito para o Sul. As expedições para o Sul eram relativamente mais fáceis, lhas as que visavam ao Noroeste árido, com rotas de suprimento longas e precárias, e contra inimigos determinados e experientes, ocasionaram enormes perdas de vida. Vinte comandos foram estabelecidos entre 130 e 95 a. C. em áreas fronteiriças. Guarnições eram instaladas para defender as rotas militares, e só na época de Wudi foram enviados 2 milhões de chineses com o objetivo de colonizar o Noroeste. Mesmo os vastos recursos da China, era claro, estavam exaurindo-se. Mas, em 119 a.C., o poder Xiong-nu já não era tão grande e, em 52 a.C., o ramo meridional dessa nação submetia-se completamente à China, enquanto o ramo setentrional deixava de ser uma ameaça tão grande.

Duas das numerosas expedições ao Noroeste merecem menção especial. Em 102 a.C., um general, Li Guangii, conseguiu trazer de Fergana alguns exemplares de uma raça de cavalos altos, muito apreciada nessa região, juntamente com 3 mil outros de raça inferior. Os cavalos de Fergana tomaram-se imediatamente um símbolo de status e continuaram a sê-Io nas dinastias subseqüentes. E três anos mais tarde, um outro general, Li Ling, com uma infantaria de 5 mil chineses, derrotou uma cavalaria de 30 mil homens, com uma nova tática. Em sua linha de frente colocou a infantaria, armada de escudos e piques; dispôs, na retaguarda, arqueiros com poderosas bestas, algumas de arremesso múltiplo, que lançavam várias flechas de uma só vez. Contra essa formação, eram inúteis os ataques da cavalaria. Foi o contrário do que ocorreu durante a vitória dos partos sobre os romanos em Carras em 54 a.C., quando arqueiros montados derrotaram os romanos, a melhor infantaria da época. Mas Li Ling não recebeu reforços e teve de render-se, quando seu suprimento de dardos e flechas se esgotou. Ele caiu em desgraça diante do tirânico Wudi e, quando Sima Qian, o famoso historiador, ousou intervir em favor do general, Wudi condenou o erudito ao bárbaro castigo da castração.



No Nordeste, o objetivo militar dos Han foi o flanco exterior dos Xiong-nu, cuja liderança havia sido reconhecida pelos povos da Mongólia oriental e da Manchúria. Um comando chinês foi estabelecido na Manchúria em 128 a.C. O Norte e o Centro da Coréia foram conquistados em 106 e criaram-se vários comandos; desses, Lak Lang foi o mais importante. Os vestígios arqueológicos desse período do domínio chinês na Coréia atestam um notável grau de refinamento e luxo. Zhang Qian havia descoberto, na Bactriana, que os indianos possuíam um tipo de seda chinesa, proveniente do Sichuan, no Sudoeste da China. Isso levou Wudi a pensar na existência de um caminho ligando Sichuan à Índia, aberto por motivos comerciais. Na verdade, o terreno da rota direta era impraticável, e a seda provavelmente chegava à Índia através do Noroeste da China e da Rota da Seda. Mas a idéia de uma ligação direta com a Índia foi, em parte, a origem dos esforços de Wudi para explorar a China meridional e submetê-Ia ao seu domínio. A geografia do Sui era pouco conhecida nos primeiros tempos da dinastia dos Han. Quando se serviu a Um zeloso funcionário da capital em visita a Cantão, amoras como sobremesa, ele percebeu que aquela fruta não era um produto da região. Ele associou-a a um tipo de amora cultivada no Sichuan, e graças a esse fato o governo Han descobriu uma rota já em operação, que ia de oeste para leste e era utilizada pelos povos tribais que se serviam do sistema do rio do Ocidente. Se se descobrisse uma rota do Sichuan à lndia, o comércio poderia fluir diretamente do oceano, em Cantão, até as regiões ocidentais. De qualquer modo, uma campanha de vulto foi organizada em 111 a.C. e a região sul da China, chamada Nan Yue, foi conquistada por seis exércitos; alguns contingentes vieram pelo mar, outros, diretamente do sul, e outros mais, pela nova rota Sichuan-rio Ocidental. Cantão foi tomada, bem como as províncias de Guang-dong, Guangxi e o Tonquim, na lndochina, que passaram a fazer parte do império.

Durante a dinastia dos Han, o exército tornou-se organizado e desenvolveu-se a um grau até então desconhecido. Havia uma guarnição postada na capital, Changan. Forças expedicionárias eram enviadas em campanhas particulares, de acordo com as necessidades. E mantinha-se uma permanente defesa na Grande Muralha e em outros postos fronteiriços. A eficiência niilitar chegou a um alto nível na Grande Muralha. No período dos Han, essa famosa construção consistia numa série de torres ou postos de comando, em tijolo e a intervalos regulares, usualmente não muito distanciados uns dos outros para poderem ser mutuamente observados, e ligados por entrincheiramentos com algumas portas onde sentinelas fiscalizavam meticulosamente passaportes e todo o trânsito que entrava ou saía, para impedir o contrabando. (A muralha posterior, da dinastia Ming, com revestimento de pedra e reparos coroados de ameias, era muito mais complexa.) Os postos de observação trocavam entre si sinais com fogo e fumaça, e bandeiras vermelhas e azuis, a intervalos fixados com precisão ou em casos de emergência. Havia um serviço regular de correio, e a contabilidade era mantida em dia, inclusive para os materiais armazenados. Empregavam-se cães policiais adestrados. Os soldados fabricavam flechas e encarregavam-se da conservação da muralha. No período Han, a muralha estendia-se até à fronteira em Dunhuang, onde a Estrada da Seda bifurcava para cruzar o deserto de Gobi de oásis em oásis, juntando-se de novo em Kagshar para cobrir a enorme distância na direção oeste. O problema do abastecimento ao longo das rotas militares foi parcialmente resolvido por fazendas mantidas pelo governo, nas quais se estabeleceram colônias de veteranos, um método muito semelhante ao usado pelos romanos. Recrutas e ex-detentos eram usados para o impopular serviço de guarnecer a muralha. Mas, no final do período dos Han, a guarnição era formada principalmente por veteranos e mercenários. As forças mercenárias eram, em sua maioria, pagas com fundos conseguidos através de um imposto que substituía o serviço militar compulsório. A política expansionista da dinastia dos Han anteriores e as grandes obras públicas por eles empreendidas tornaram-se muito onerosas para os cofres do governo. Han Wudi procurou resolver esse problema com uma série de medidas fiscais. Restabeleceu os monopólios estatais do ferro, do sal e da cunhagem de cobre, e introduziu um novo monopólio, o das bebidas alcoólicas. Colocou em operação um sistema de "nivelamento", no qual o governo comprava grãos nos períodos de abundância, e estocava-os para revendê-los em épocas ou localidades de escassez. O principal objetivo era obter um lucro para o Estado, embora a medida também se destinasse a assistir as classes populares, pois ajudava a estabilizar os preços. Wudi passou a cobrar taxas especiais de navios e carroças, vendeu cargos do governo aos ricos e exigiu "doações" de pessoas proeminentes. Emitiu "certificados em pele de gamo" que certos nobres eram compelidos a adquirir ao preço de 400 mil moedas de cobre. Também procedeu a uma desvalorização da moeda, assim criando, até certo ponto, um precedente perigoso para os seus sucessores no trono.

Esses estratagemas fiscais obtiveram moderado êxito por algum tempo mas o mais pertinaz de todos os problemas provou ser a propriedade da terra e concomitantes impostos. A população crescia, o que significava menos terra para cada camponês. Ao mesmo tempo, as grandes famílias terratenentes estavam aumentando a extensão de suas propriedades e estas, com freqüência, estavam isentas de impostos. Assim, a base tributária diminuía, como no Japão do período Heian, em data posterior, e os camponeses remanescentes estavam suportando um ônus desproporcional. Foram realizados constantes esforços legislativos para corrigir essa situação, limitando a área das propriedades dos grandes senhores e restabelecendo assim a proteção do governo e, por conseguinte, o controle do campesinato, que tinha sido a grande força da dinastia dos Han em seus primórdios. Mas esses esforços foram, em grande parte, infrutíferos, e as propriedades privadas continuaram crescendo. Apesar do poder centralizado da dinastia, os governantes não pareciam ser mais capazes de sustar essa tendência do que os irmãos Gracos e seus sucessores em Roma, quando quiseram impedir a usurpação das terras do Estado por senadores e ricos cavaleiros. As circunstâncias eram diferentes mas as razões as mesmas; em ambos os casos, um número comparativamente pequeno de lati- fundiários solidamente instalados, os funcionários da corte na China e os senadores em Roma, controlavam o funcionamento cotidiano do governo.

A interação política entre o imperador e os funcionários do período dos Han constitui um paradigma para grande parte da história subseqüente da China, quando o padrão se repetiu em várias formas, pois um sistema autocrático não elimina a atividade humana da política, mas altera tão-somente sua manifestação. A maneira autocrática como Wudi conduzia os negócios do Estado era quando muito, benéfica enquanto um imperador fosse tão forte e capaz quanto ele. Mas, depois de sua morte em 87 a.C., um general, He Guang, estabeleceu praticamente uma ditadura sob o sucessor de Wudi e obteve para seus próprios familiares a maioria dos principais cargos. As facções que se formaram em torno dos favoritos do palácio, eunucos poderosos e, especialmente, dos parentes masculinos das imperatrizes, foram fatais para um governo bem organizado. Wudi tinha chegado a uma solução simples quanto ao problema dos parentes, pois quando escolheu o seu herdeiro legítimo ordenou a execução da imperatriz-mãe; mas os seus sucessores não puseram em prática essa cruel salvaguarda. Graças à combinação dos fatores mencionados acima, o poderio da Casa dos Han declinou rapidamente e, no ano 9 d.C., um membro da poderosa família Wang, Wang Mang,já no exercício de um alto cargo e sobrinho de uma imperatriz, usurpou o trono e tentou fundar uma nova dinastia.

Wang Mang (9-23 d.C.), um fervoroso confucionista, restabeleceu o que considerava serem os títulos e as instituições da dinastia dos Zhou, mas suas reformas econômicas foram radicais. Reinstituiu o sistema de "equalização", introduziu créditos agrícolas e manipulou o valor da moeda. Propôs uma solução extrema para o problema da terra, "nacionalizando-a" e redistribuindo-a aos camponeses. Os escravos particulares, menos de 1% da população, seriam da mesma forma propriedade do governo. Mas essa tentativa sofreu a inevitável' oposição dos proprietários de terra. Não se encontrou, por outro lado, nenhum meio eficaz de redistribuir a terra confiscada. Irrompeu uma revolta camponesa em 17 d.C., no Shandong, sob a liderança de uma mulher vigorosa conhecida como Mãe Lu. Quando a falta de cuidado com os diques e pesadas chuvas geraram uma importante mudança no curso inferior do rio Amarelo, provocando enchentes desastrosas, a revolta espalhou-se às planícies centrais. Os rebeldes, com os rostos pintados para parecerem demônios e adotando símbolos religiosos, tomaram-se conhecidos como "Sobrancelhas Vermelhas" e abriram um precedente, muitas vezes imitado em dinastias posteriores, de um movimento genuinamente popular surgido em tempos de crise, sob a égide de uma religião. A combinação das classes mais altas e das mais baixas na oposição ao novo regime mostrou ser demasiado forte para Wang Mang, que acabou sendo derrotado e morto em 23 d.C. Sua reputação foi prejudicada pelo simples fato de não ter conseguido fundar uma nova dinastia, o que levou historiadores ortodoxos a tachá-Io de usurpador.


Dinastia Han Posterior

O novo governante que devolveu o poder aos Han era, ele próprio, um membro da família imperial original, a casa de Liu, e recebeu o epíteto de Guang Wudi, o "Brilhante Imperador Marcial" (25-57 d.C.). Líder vigoroso, sufocou a revolta dos "Sobrancelhas Vermelhas" e libertou muitos que haviam sido reduzidos à escravidão durante o período de agitação. As guerras tinham eliminado numerosos aristocratas e latifundiários, o que teve o efeito de melhorar a arrecadação direta de impostos pelo Estado. O novo imperador, partindo da estaca zero, não tinha na corte tantos funcionários e dependentes a quem manter. O tesouro recuperou-se e, sob seu pulso firme, o governo alcançou um certo grau de estabilidade. O sistema de irrigação do rio Wei fora destruído e a velha capital, Changan, tinha sido severamente castigada. Por outro lado, os imperadores do período dos Han posteriores, apesar do que se afirmou, foram forçados a depender, em larga medida, da classe dos proprietários de terra, cujo centro de gravidade se situava mais para o leste. Por todas essas razões, Guang Wudi mudou sua sede de Changan mais para o leste, para Luoyang, fundando o período que se conhece como da dinastia dos Han posteriores ou Oriental.

O segundo imperador, agora assente em bases mais firmes, voltou suas atenções para a recuperação do domínio sobre a Ásia central. Para dar execução a seus planos, contou com um dos maiores generais chineses, Ban Chao. O apogeu do anterior poderio chinês na Ásia central e no Noroeste verificara-se em 59 a.C., com a nomeação de um Protetor-Geral das Regiões Ocidentais. Mas o cargo - e com ele o controle chinês - decaíra aos poucos em importância, sobretudo durante o tumultuado período associado ao fim dos Han anteriores. Ban Chao, a partir de 73 d.C., usou de todos os meios diplomáticos e militares ao seu alcance para reafirmar e consolidar o domínio chinês; quando, em 91, foi nomeado Protetor-Geral das Regiões Ocidentais, ele já estava em condições de controlar toda a bacia do Tarim desde o seu quartel-general situado no limite norte da região, em Kucha. Em 76, Ban foi afastado durante breve período, por motivos políticos, mas logrou persuadir o imperador de que precisaria apenas de um reduzido quadro de oficiais e homens experientes chineses para organizar forças locais fiéis contra os Estados ainda não submetidos. Essa política, pacientemente executada ao longo de 17anos, foi extremamente bem-sucedida e o próprio Ban Chao granjeou o respeito de numerosas tribos, graças às suas qualidades de estadista.

Em sua maior expedição, Ban Chao conduziu um exército de 70 mil homens através das montanhas Tian Shan até o mar Cáspio, ou seja, até quase as fronteiras da Europa, sem encontrar nenhuma resistência séria. Depois de cobrir essa prodigiosa distância, mais de 6 mil quilômetros desde Luoyang, enviou um representante à Pártia, à Mesopotâmia e ao Império Romano, então (em 97 d.C.) governado pelo imperador Nerva. O enviado informou que a Pártia era um país que produzia excelentes soldados. Dirigiu-se em seguida, pela rota das caravanas, para as margens do golfo Pérsico. Amendrontado por uma lenda de marinheiros que afirmava que os que se aventuravam pelo golfo Pérsico e pelo oceano Índico poderiam precisar de três meses a dois anos para a viagem e que muitos, em virtude de alguma propriedade do mar, morriam de saudades da pátria, o emissário desistiu da tentativa de chegar ao mundo romano. É provável que os partos fizessem todo o possível para evitar uma estreita ligação entre os poderosos chineses e seus inimigos tradicionais, os romanos. Além disso, o comércio da seda era rendoso para todos os que pudessem permanecer como intermediários, e especialmente para os partos. Mas, através de informações trazidas por Ban Chao, que retomou à China em 102, e pelos gregos que visitaram a China em 166 e 226, é evidente que os chineses sabiam mais sobre Roma do que os romanos sabiam sobre a China. As histórias dinásticas dos Han posteriores e de dinastias menores subseqüentes aludem sumariamente a esses fatos:

O povo de Daqin (Roma) tem historiadores e intérpretes de línguas estrangeiras, tal como os Han. As muralhas de suas cidades são de pedra. Eles usam cabelo curto, vestem roupas bordadas e deslocam-se em carros muito pequenos. Os governantes desempenham suas funções durante um curto espaço de tempo e são escolhidos entre os homens mais valorosos. Quando as coisas não vão bem, são substituídos. [Há aí um anacronismo, pois trata-se de uma referência aos cônsules da época da República.] O povo de Daqin possui elevada estatura.(...) Vestem-se diferentemente dos chineses. Sua terra produz ouro e prata, todas as espécies de bens preciosos, âmbar, vidro e ovos gigantes (ovos de avestruz). Da China, através de Anxi (Pártia), eles obtêm a seda que transformam em fina gaze. Os mágicos de Daqin (sírios?) são os melhores do mundo. Sabem engolir fogo e fazer malabarismos com várias bolas. Os Daqin são honestos. Os preços são tabelados e os cereais custam sempre barato. Os silos e o tesouro público estão sempre repletos. O povo de Anxi impede-os de comunicar-se conosco por terra; além disso, as estradas são infestadas de leões, o que torna necessário viajar em caravana e com escolta militar. Os daqin primeiramente enviaram emissários à nossa terra (em 166 d.C.). Desde então, seus mercadores têm feito freqüentes viagens a Rinan (Tonquim).

[Citado em C.P. Fitzgerald - China: A Short Cultural History, p. 195.]

 

O relato pode ser sumário, mas está basicamente correto. A ignorância romana sobre a China, por outro lado, era profunda. Os romanos associavam a China a pouco mais do que à seda, a tal ponto que o adjetivo sericus, "chinês", derivado do substantivo Seres, veio a significar, por transferência, "sedoso" (sericos pullvilos: pequenas almofadas de seda: Horácio, Epodos, 8: 15). Horácio menciona os chineses em vários contextos geográficos amplamente separados, associados com a Pártia, a Bactriana e o rio Don, na Rússia atual. Na verdade, ele estava escrevendo poesia e não geografia exata. Além disso, apreciava a inteligência dos contrastes inesperados. Mas permanece a impressão de que Horácio e seus leitores se mostravam extremamente vagos, para não dizer confusos, a respeito da localização da China, e ignorantes sobre seus costumes. O mais gritante erro a respeito dos chineses vem do escritor Lucano, que foi executado por Nero em 66 d.C. Lucano coloca os chineses nas nascentes do Nilo e os faz vizinhos dos etíopes.



Os dois grandes impérios da China e de Roma mantinham, pois, contatos através do comércio da seda, mas jamais se encontraram realmente. Os indícios de contato são tênues e mostram apenas um intercâmbio mínimo. Duas moedas antoninas foram encontradas em Phnam, um porto no delta do Mekong, que era um entreposto florescente para o comércio ultramarino na dinastia dos Han, mas isso não prova a presença de romanos ali. Em 42 a.C. soldados chineses no antigo reino helenístico da Sogdiana derrotaram um grupo do Xiong-nu e de tropas estrangeiras que, possivelmente, eram soldados romanos capturados. Pinturas da batalha foram anexadas a um relatório enviado ao imperador chinês; essa era uma prática que os romanos observavam em suas vitórias, mas nunca foi costume chinês. Uma cidade existiu na própria China depois de 79 a.C., chamada Li Jian. Este é o nome que os chineses davam a Alexandria, e os métodos da nomenclatura chinesa indicariam que a cidade era habitada por pessoas vindas de Alexandria, no mundo romano. A não ser por esses pequenos fatos, o mundo greco-romano e a China e seus satélites existiram como entidades separadas, cada uma considerando a si própria o centro do mundo civilizado. O intercâmbio entre a Europa e a Ásia oriental iria começar, de maneira muito reduzida, no período medieval, mas só se tornaria culturalmente significativo a partir do século XIX.

Voltando ao desenrolar dos acontecimentos no período dos Han posteriores, os reinados dos três primeiros imperadores, até 88 d.C., foram marcados por solidariedade interna e expansão externa ou, melhor dizendo, recomeço dessa expansão. Depois disso, porém, os problemas aumentaram e iniciou-se a decadência. A situação na fronteira norte mostrou diferenças interessantes, se comparada à existente no período dos Han anteriores. As tribos semi-sedentárias, influenciadas pela civilização chinesa, formaram uma região-tampão que protegia a China propriamente dita. Não houve incursões maiores de povos bélicos independentes no Extremo Norte ou no Oeste. As dificuldades surgiram, na verdade, nas tribos incorporadas sob os Han anteriores na própria China. Algumas eram formadas por antigos nômades, enquanto outras eram constituídas de montanheses de origem tibetana. Ambos os grupos sentiram-se explorados pela burocracia chinesa. A China, em sua capacidade "civilizadora", estava sempre tentando transformar os reinos dependentes nos chamados "territórios militares" e, em seguida, em "regiões administrativas" comuns, como as do resto de seu território. Se fosse possível converter os recém-chegados em agricultores, poderiam ser tributados, recrutados para o exército e obrigados a contribuir com um mês por ano de trabalho compulsório (corvéia). 'Aqueles que se recordavam da liberdade de uma antiga vida nômade (e esqueciam suas provações) revoltavam-se contra todo esse processo, ainda mais quando viam seus agressivos primos, além-fronteiras do império, receberem presentes valiosos com que os faziam ficar quietos. (De fato, para manter a paz com esses vizinhos, gastavam-se vultosas somas: 8 mil rolos de seda em 51 a.C., elevados para 30 mil rolos em I d.C.; dos 10 bilhões de caixas [ou moedas de cobre] de receita governamental, cerca de um terço era gasto com essa diplomacia de "ajuda externa".) Não surpreende, portanto, que os ex-nômades explorados dentro das fronteiras do império estivessem freqüentemente em pé de guerra.

Essa intranqüilidade e o recuo de antigas colônias fronteiriças deu origem à migração de muitos camponeses, que buscavam refúgio e emprego junto aos grandes proprietários. Estes tornavam-se mais ricos e poderosos do que nunca dentro do Estado. O próprio Guang Wudi, antes de tornar-se imperador, possuía um vasto território circundado de uma muralha com portas. Tinha seu próprio mercado e um exército privado para defendê-lo. A irrigação, a criação de gado e os viveiros de peixes em tais propriedades propiciavam-lhes completa independência econômica em tempos difíceis.

Se os únicos fatores importantes na estrutura social dos Han posteriores tivessem sido os funcionários terratenentes e a enorme massa de camponeses, a situação poderia ter permanecido estável, como o foi durante os três primeiros reinados. Mas os eunucos da corte ascenderam ao poder como cruéis rivais dos funcionários e, em 135 d.C., foi-lhes dado o direito de adotar filhos. A medida deu a esses infelizes oriundos de uma classe mais baixa da sociedade um incentivo para formar famílias e legar riqueza e poder. Seria um estudo interessante para a nova disciplina da psico-história examinar como a carência sexual dos eunucos palacianos, freqüentemente voluntária por razões de carreira, acendia sua ambição e aumentava o furor com que combatiam os funcionários privilegiados, em luta por riqueza, posição e um lugar ao sol.

Um grupo de funcionários e donos de terras tramou uma conjura contra os eunucos em 167 mas foi desmascarada e os conspiradores afastados de seus cargos e mandados para o exílio. As famílias latifundiárias tinham em suas propriedades rurais as bases do seu poder local, nas quais se sentiam normalmente seguras. Mas importantes revoltas agrárias, em 184, ameaçaram-nas no campo, e os camponeses, sem qualquer status político oficial, mostraram ser capazes de ameaçar todo o sistema estatal pelo peso numérico, puro e simples, somado à sua força militar. Nessa situação, os eunucos retomaram temporariamente ao poder mas foram derrotados, de modo decisivo, em 189, numa vigorosa ação armada sob o comando de um general da Guarda Imperial que mandou massacrar mais de 2 mil eunucos.

A crise agrária de 184 foi semelhante mas muito mais grave do que a da revolta dos "Sobrancelhas Vermelhas", a qual apressou o fim do pequeno interregno de poder de Wang Mang. Aumentaram imensamente os bandos de camponeses errantes, em conseqüência das enchentes na bacia inferior do rio Amarelo. Esses homens desesperados encontraram um foco e um propósito no movimento daoísta conhecido como os Turbantes Amarelos. Dado que não havia lugar num Estado autocrátIco para que movimentos dissidentes se expressassem de forma política, nessa e em muitas outras crises subseqüentes, o descontentamento geral e a oposição combinavam-se sob uma égide religiosa. A rebelião dos Turbantes Amarelos foi comandada pelo patriarca de uma seita daoísta conhecida como os Taiping, um certo Zhang Jiao, ajudado por seus dois irmãos. Esse líder era evidentemente uma figura carismática, a quem se atribuíam poderes de cura, bem como o talento e a energia para o comando militar. Como grassavam epidemias em conseqüência das enchentes, seu poder de cura atraiu muitos adeptos. O título da seita, Taiping, "grande paz", sugeria uma idade de ouro onde os homens seriam todos iguais, viveriam em paz e compartilhariam os bens materiais. Por isso as comunidades dos Turbantes Amarelos passavam muito tempo em observâncias religiosas, jejuns de purificação e confissão pública de pecados. Esses encontros religiosos incluíam , transes coletivos, acompanhados de música e de prostrações incessantes. A histeria coletiva assim induzida terminava muitas vezes em orgias em que homens e mulheres "misturavam seus bafos" (he qi).

Quando os Turbantes Amarelos passaram à revolta aberta em 184, não tardou a haver 360 mil homens em armas e, em 188, a rebelião tinha-se estendido desde o Shandong na China oriental até o Shanxi, na parte oriental do país. Ao mesmo tempo, outra rebelião de características semelhantes irrompeu em 190, estabelecendo, durante certo tempo, um Estado independente na parte sul do Shaanxi e no Sichuan. Essa revolta ficou conhecida como a dos "Cinco Celamins de Arroz", cujo nome deriva da quantidade de arroz com que os membros precisavam contribuir para os cofres comuns. Aboliram a propriedade privada, instituíram a distribuição gratuita de cereais aos viajantes e construíram "albergues da igualdade", onde estes últimos podiam comer sem pagar nada. Encorajaram os membros a se purificarem dos pecados através de trabalho na manutenção das estradas. Essa! medida é uma variante interessante da corvéia usual imposta pelo governo, agora., cumprida pelos camponeses com um certo grau de livre-arbítrio, mas sob sanção religiosa. A expiação parece ter sido um forte incentivo, uma vez que essas seitas acreditavam que as doenças resultavam do pecado. Embora o centro dos "Cinco Celamins de Arroz"[Celamin, antiga medida de capacidade para cereais, equivalente à 16.8 parte de um alqueire, ou cerca de 2 litros] se localizasse no Oeste da China, talvez valha a pena observar que o Shandong e a área costeira do Nordeste, que por tanto tempo se destacaram com seu entusiasmo pela mágica daoísta e com a revolta dos Turbantes Amarelos, foi também a região, antes do regime comunista, em que seitas milenares e fundamentalistas cristãs assumiram as formas mais extremas.

Essas rebeliões enfraqueceram seriamente a dinastia dos Han posteriores, já debilitada por facções na corte, pois três grandes famílias aliadas a imperatrizes tinham dominado a situação de 88 d.C. a 144 d.C. O fim chegou em razão da rivalidade de generais a quem se conferiram grandes poderes para enfrentar as revoltas camponesas. Dong Zhuo saqueou e queimou a capital em 190, o que acarretou a perda da Biblioteca Imperial e dos arquivos dos Han. Sua crueldade excessiva causou seu assassinato, e o poder supremo no Norte passou às mãos do famoso general Cao Cao, filho adotivo de um eunuco. O império então dividiu-se em três regiões geográficas naturais, Cao Cao governando o reino de Wei no Norte; Liu Bei, o reino de Shu-Han no Sichuan, no Oeste, e Sun Chuan, o Sul e o vale do baixo Yangzi, num reino chamado Wu. Iniciou-se, assim, a era dos Três Reinos (220-280 d.C.) e um longo período em que o império unificado não era mais do que um sonho.



Sima Qian, o Primeiro grande Historiador Chinês
R. Joppert

O maior historiador chinês antigo foi, sem dúvida, Sima Qian. Ele compôs uma obra imortal, o Shiji (Registros Históricos), que se tornou o modelo das Histórias Oficiais, escritas sempre na dinastia seguinte, a respeito da dinastia antecedente. A primeira "História Oficial" foi a dos Han Anteriores (Qian Han Shu), trabalho realizado por Ban Gu no período dos Han Posteriores e que versa sobre a História do período imediatamente precedente ao seu.

Sima Qian teria nascido em -145 ou -135 e morrido em -85. Descendia de uma família aristocrática (Sima: "Comandante das Cavalariças" - Ministro da Guerra - nome de uma função tornada sobrenome familiar, de acordo com o uso) do Estado de Qin (Shenxi), país natal de Shi Huangdi e berço do legismo. O pai de Sima Qian, Sima Tan, ocupara a função, na corte Han, de Tangongshi ("Duque-Grande Astrólogo" ou Analista), ligada à observação da correspondência entre os fenômenos celestes e o calendário oficial. Apesar do título pomposo, o cargo não era de muita importância na época Han, embora o direito ao acesso livre à biblioteca e aos arquivos imperiais fosse de muita utilidade para quem pretendesse escrever uma obra histórica. Esse foi o caso de Sima Tan, que idealizou e começou o "Shiji", morrendo, entretanto, no início do trabalho e legando a Sima Qian tanto a função de Taigongshi quanto o encargo de terminar o "Shiji". A obra ocupou vinte anos da vida de Sima Qian e divide-se em cinco grandes seções: "Benji" ("Anais de Base"), consistente em doze capítulos sobre as casas reais anteriores à dos Han e sobre as vidas dos próprios imperadores Han; "Nian Biao" ("Tabelas Cronológicas"), dez capítulos que enumeram, por ordem de datas, acontecimentos importantes do passado; "Zhi" ("Tratados"), oito capítulos a respeito de assuntos vários, tais como os ritos, a música, a astronomia, a religião e a economia; "Shi Jia" ("Famílias Hereditárias"), trinta capítulos sobre os anais históricos dos Estados feudais anteriores aos Qin, e "Liezhuan" ("Biografias"), setenta capítulos concernentes à vida de personagens historicamente célebres ou a povos estrangeiros com os quais a China tivera contactos. O "Shiji", escrito com o objetivo de transmitir e não inovar (no espírito de Confúcio), é uma compilação de todo o material histórico da China existente na época de Sima Qian. Sua única preocupação foi apresentar um quadro de toda a História da China, desde as origens até o reinado de Han Wudi, baseando-se em tradições orais, textos, arquivos e testemunhos contemporâneos. Sima Qian não cita suas fontes no trabalho, mas simplesmente copia o material histórico com inteira fidelidade. Unicamente na seção das "Biografias" (Liezhuan) é que constatamos alguma originalidade, pois tratava-se das vidas de personagens contemporâneos seus; nas outras seções, Sima Qian é apenas um frio compilador de documentos. Em conseqüência, temos hoje um trabalho de imenso valor, que nos fornece a coleção completa das fontes históricas consideradas como autênticas pelos chineses nos últimos séculos antes de nossa era. O "Shiji" foi magnificamente traduzido para o francês por Edouard Chavannes (de 1895 a 1905), com o titulo de "Les Mémoires Historiques de Se-Ma Ts'ien". Sima Qian foi, além disso, um grande explorador, pois quando jovem percorreu todas as províncias da China de então. Vivendo sob o governo de Han Wudi, que tinha uma legislação penal extremamente severa, Sima Qian viu-se envolvido num crime de lesa-majestade, por haver defendido um general (Li Ling), que caíra em desgraça perante o Imperador. Seu castigo foi a castração, à qual os homens de honra de seu tempo fugiam cometendo suicídio. Sima Qian não se matou, porque desejava terminar o "Shiji", mas essa mutilação psicologicamente o amargurou pelo restante de seus dias. Sima Qian estabeleceu as bases da historiografia na China e seus métodos foram imitados nas dinastias seguintes. Sua obra é ainda indispensável nas pesquisas da moderna Sinologia.

Métodos Antigos de Datação

R. Joppert

Individualmente, Dong Zhongshu e Sima Qian dominaram o panorama da literatura Han. Deles já tratamos na parte referente ao reinado de Han Wudi. A dinastia Han, por outro lado, marcou a época das recensões definitivas dos Clássicos confucianos. São essas as edições que nos chegaram, mas é necessário agir com prudência na análise das obras, uma vez que o trabalho dos Han foi de reconstrução de textos perdidos e ocorreram interpolações e deformações, voluntárias ou não. A dinastia Han usou o confucionismo para estabelecer sua legitimidade e, para esse objetivo, a "queima dos livros" em -213 foi mesmo útil aos Imperadores Han, pois facilitou-lhes alterações oportunas. A crença popular dava aos Clássicos uma autoridade quase sagrada e, se a dinastia Han, que, pelas origens plebéias de seu fundador, nada tinha de divino, pudesse encontrar um modo de basear seu direito de governar em idéias da alta antiguidade, ninguém contestaria sua autoridade. Assim explica-se, por exemplo, a tentativa dos "Wei Shu" de tornar Confúcio uma figura santa, que teria profetizado a ascensão dos Han. Por outro lado, já se disse que havia duas tendências na interpretação dos Clássicos: uma seguia a linha dita do "Jinwen" ("Escrita Moderna"), segundo a qual os Clássicos teriam sido transmitidos por tradição oral, isto é, letrados haviam-nos memorizado durante a interdição dos livros, registrando mais tarde seus textos em caracteres da época Han; outra advogava que livros isolados haviam sido escondidos durante a perseguição aos confucionistas por Qin Shi Huangdi e reencontrados durante os Han: tais textos apresentavam-se escritos em caracteres antigos (Guwen) e representariam os Clássicos em seu estado primitivo. Ora, os textos em "Guwen" poderiam apresentar alterações, pois nos diversos comentários aos Clássicos os autores colocavam suas opiniões pessoais em caracteres menores do que os do texto original, mas, nas cópias, muitas vezes havia confusão entre o trabalho primitivo e o dos comentadores e todos os caracteres apareciam de um só tamanho. Assim, a exegese dos Clássicos deve basear-se em critérios seguros e um deles é o gramatical. Sabendo-se que a gramática de uma determinada época seguia tais regras, podem naturalmente ser rejeitados os textos que as não respeitam. Por outro lado, a observação dos fenômenos naturais interessou desde muito cedo aos chineses. O registro de manchas solares, eclipses e terremotos consta de documentos históricos da China antiga, tais como os ossos divinatórios, e ajuda no estabelecimento da autenticidade dos textos filosóficos que, por ventura, mencionem os mesmos fenômenos.

O sistema chinês de datação nos textos anteriores aos Han era uma cronologia computada por ciclos de sessenta anos, em cuja notação se combinavam dez signos, chamados Tiangan ("Troncos Cel'estes"), correspondentes a planetas, com doze outros signos, chamados Dizhi ("Galhos Terrestres"), correspondentes a animais. Os dez Tiangan chamam-se: Jia e Yi (correspondentes a Júpiter), Bing e Ding (Marte), Wu e Ji (Saturno), Geng e Xin (Vênus), Ren e Gui (Mercúrio). Os doze Dizhi são: Zi (correspondente ao rato), Chou (ao touro), Yin (ao tigre), Mao (à lebre), Chen (ao dragão), Si (à serpente), Wu (ao cavalo), Wei (ao carneiro), Shen (ao macaco), You (ao galo), Xu (ao cão), Hai (ao javali). Os doze Dizhi são também usados para designar as horas chinesas (cada uma delas, equivalente a duas horas ocidentais). As combinações dos dez Tiangan com os doze Dizhi designam não só os anos, mas também os meses, os dias e as próprias horas. Os doze animais indicam, por sua vez, os anos. Assim, unindo-se o signo Jia (o primeiro Tiangan) com o signo Zi (o primeiro Dizhi), temos o ano de 1804, por exemplo. Sessenta anos depois, em 1864, a combinação será a mesma (Jiazi). Portanto, quando um texto chinês fala no ano Jiazi, tanto poderá tratar-se de 1804, quanto de 1864 ou de muitos outros, anteriores ou posteriores: 1744, 1924..., sempre separados por um intervalo de sessenta anos. Encontra-se ai um dos problemas desse tipo de datação, que se presta naturalmente a confusões. Os dicionários antigos (Mathew's Chinese-English Dictionary; Dictionaire Classique de Ia Langue Chinoise, de Couvreur) trazem sempre uma lista dos ciclos chineses e sua correspondência cronológica ocidental.

Para um exemplo prático com base nos Clássicos, vejamos o seguinte: o capitulo IV do Shujing, "O ensinamento de Yi" (Yixun), abre-se com a seguinte datação: "Wei Yuan Si, Shi You Er Yue, Yichou"... (= "No primeiro ano do reinado (de Taijia, o sucessor de Tang, o Vitorioso), na décima -segunda lua, no dia Yichou"...). Como o Shujing usou o reinado de Taijia como base para a notação do ano e a lua, para a do mês, naturalmente a combinação Tiangan - Dizhi foi usada para o dia. Jiazi, vimos, é o primeiro dia (ou mês ou ano) de um ciclo de sessenta; Yichou, união dos segundos elementos de cada coluna de signos, é pois o segundo dia (no texto, em virtude do que explicamos) de um ciclo de sessenta. O ano civil começava, durante a dinastia Shang, no segundo mês lunar após a data do solstício de inverno. Assim, tratava-se do segundo dia do décimo-segundo mês lunar do ano de -1542 (Taijia teria ascendido ao trono em -1544, segundo a cronologia dos "Anais sobre Bambu"). Na verdade, tal exatidão é utópica para qualquer data anterior a -841, a primeira realmente precisa da História da China, consignada em documentos. Toda a cronologia anterior a -841 é baseada em cálculos hipotéticos.

Com Han Wudi, criou-se um novo sistema de datação, o do "Nian Hao", que se traduz por "era de um reinado". O tempo de governo de um só Imperador poderia ter várias "eras", cada uma delas iniciada por um acontecimento extraordinário. Han Wudi teve, por exemplo, onze "Nian Hao" durante as cinco décadas em que reinou. Um eclipse poderia marcar o começo de um "Nian Hao" e assim aconteceu em -134, que assinalou a "era iniciada com a luz" (Yuanguang), prolongada até -128, quando um novo acontecimento excepcional trouxe uma mudança de denominação. Em -116, encontrou-se uma trípode de bronze julgada sagrada por ter sido fabricada na alta antiguidade: a era chamou-se "Yuanding" ("iniciada pela trípode Ding") e terminou em -110. Han Wudi fez estender o sistema à época de seus próprios antepassados.

Um outro método de datar empregava o título póstumo (Miao Hao) dos Imperadores, que se inscrevia numa placa guardada no Tempo Ancestral da dinastia. O nome pessoal do Imperador (Yuming) era tabu, pois os chineses acreditavam que pronunciá-lo era apoderar-se da alma do monarca. Assim, os historiadores usavam o título póstumo (Miao Hao), ao referir-se ao reinado deste ou daquele soberano. Por exemplo, o nome pessoal do fundador dos Han, Liu Bang, foi substituído, em toda a historiografia oficial, por seu titulo póstumo, Gaozu ("O Supremo Ancestral"). Desse modo, Sima Qian refere-se a Liu Bang por seu "Miao Hao", "Gaozu", embora em certos trechos, referentes a períodos da vida de Liu ainda sob os Qin (antes da fundação da dinastia Han), o método resulte num anacronismo do ponto de vista da narrativa.


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