A cura do sofrimento



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A CURA DO SOFRIMENTO

Punta de Vacas, Mendoza, Argentina

4 de maio de 1969

Se vieste escutar um homem que se supõe transmitir a sabedoria, erraste o caminho, porque a real sabedoria não se transmite por meio de livros nem de discursos; a real sabedoria está no fundo de tua consciência, assim como o amor verdadeiro está no fundo de teu coração.

Se vieste empurrado pelos caluniadores e hipócritas para escutar este homem, procurando algo que te sirva depois como argumento contra ele, erraste o caminho, porque este homem não está aqui para te pedir nada, nem para te usar, porque não precisa de ti.

Escutas um homem desconhecedor das leis que regem o universo, desconhecedor das leis da história, ignorante das relações que regem os povos. Este homem se dirige à tua consciência a muita distância das cidades e de suas ambições enfermas. Lá nas cidades, onde cada dia é um afã truncado pela morte, onde ao amor sucede o ódio, onde ao perdão sucede a vingança, lá nas cidades dos homens ricos e pobres, lá nos imensos campos dos homens pousou um manto de sofrimento e de tristeza.

Sofres quando a dor morde teu corpo. Sofres quando a fome se apodera de teu corpo. Mas não sofres apenas pela dor imediata de teu corpo, pela fome de teu corpo. Sofres também pelas consequências das enfermidades de teu corpo.

Deves distinguir dois tipos de sofrimento. Há um sofrimento que se produz em ti devido à doença (e esse sofrimento pode retroceder graças ao avanço da ciência, assim como a fome pode retroceder, mas graças ao império da justiça). Há outro tipo de sofrimento que não depende da doença de teu corpo, mas que deriva dela: se estás impedido, se não podes ver ou se não ouves, sofres; mas ainda que este sofrimento derive do corpo ou das doenças de teu corpo, tal sofrimento é de tua mente.

Há um tipo de sofrimento que não pode retroceder frente ao avanço da ciência nem frente ao avanço da justiça. Esse tipo de sofrimento, que é estritamente de tua mente, retrocede frente à fé, frente à alegria de viver, frente ao amor. Deves saber que esse sofrimento está sempre baseado na violência que há em tua própria consciência. Sofres porque temes perder o que tens ou pelo que já perdeste ou pelo que desesperas alcançar. Sofres porque não tens ou porque sentes temor em geral... Eis os grandes inimigos do homem: o temor à doença, o temor à pobreza, o temor à morte, o temor à solidão. Todos estes são sofrimentos próprios de tua mente; todos eles denunciam a violência interna, a violência que há em tua mente. Observa que essa violência deriva sempre do desejo. Quanto mais violento é um homem, mais grosseiros são os seus desejos.

Gostaria de te propor uma história que aconteceu há muito tempo.

Existiu um viajante que teve que fazer uma longa travessia. Então, atou seu animal a uma carroça e empreendeu uma longa marcha rumo a um longínquo destino e com um limite fixo de tempo. O animal chamou de Necessidade, a carroça de Desejo, uma roda chamou de Prazer e a outra, Dor. Assim, então, o viajante levava sua carroça para a direita e para a esquerda, mas sempre rumo a seu destino. Quanto mais velozmente andava a carroça, mais rapidamente se moviam as rodas do Prazer e da Dor, ligadas como estavam pelo mesmo eixo e transportando como estavam a carroça do Desejo. Como a viagem era muito longa, nosso viajante se aborrecia. Decidiu então decorá-la, ornamentá-la com muitas belezas e assim foi fazendo. Porém, quanto mais embelezou a carroça do Desejo mais pesada esta se tornou para a Necessidade. De tal maneira que, nas curvas e nas encostas empinadas, o pobre animal desfalecia, não podendo arrastar a carroça do Desejo. Nos caminhos arenosos, as rodas do Prazer e do Sofrimento afundavam no solo. Assim, desesperou-se um dia o viajante porque era muito longo o caminho e estava muito longe de seu destino. Decidiu meditar sobre o problema nessa noite e, ao fazê-lo, escutou o relincho de seu velho amigo. Compreendendo a mensagem, na manhã seguinte desmantelou a ornamentação da carroça, aliviou-a de seus pesos e muito cedo levou seu animal a trote, avançando rumo a seu destino. No entanto, tinha perdido um tempo que já era irrecuperável. Na noite seguinte, voltou a meditar e compreendeu, por um novo aviso de seu amigo, que tinha agora de empreender uma tarefa duplamente difícil, porque significava seu desprendimento. Na alta madrugada, sacrificou a carroça do Desejo. É certo que ao fazê-lo perdeu a roda do Prazer, mas com ela também a roda do Sofrimento. Montou o animal da Necessidade e, em cima de seu lombo, meteu-se a galope pelas verdes pradarias até chegar a seu destino.

Observa como o desejo pode te encurralar. Há desejos de diversas qualidades. Há desejos mais grosseiros e há desejos mais elevados. Eleva o desejo, supera o desejo, purifica o desejo, que haverás certamente de sacrificar com isso a roda do prazer, mas também a roda do sofrimento.

A violência no homem, movida pelos desejos, não fica só como doença em sua consciência, senão que atua no mundo dos outros homens, exercitando-se com o resto das pessoas. Não creias que falo de violência referindo-me apenas ao fato armado da guerra, em que uns homens destroçam outros homens. Essa é uma forma de violência física. Há uma violência econômica – a violência econômica é aquela que te faz explorar outro; a violência econômica se dá quando roubas o outro, quando já não és irmão do outro, mas sim ave de rapina para teu irmão. Há, além disso, uma violência racial – achas que não exercitas a violência quando persegues o outro que é de uma raça diferente da tua, achas que não exerces violência quando o difamas por ser de uma raça diferente da tua? Há uma violência religiosa – achas que não exercitas a violência quando não dás trabalho ou fechas as portas ou despedes alguém por não ser da tua religião? Achas que não é violência cercar aquele que não comunga teus princípios por meio da difamação, cercá-lo em sua família, cercá-lo entre sua gente querida, porque não comunga tua religião? Há outras formas de violência que são as impostas pela moral filisteia. Tu queres impor tua forma de vida ao outro, tu deves impor tua vocação ao outro... Mas quem te disse que és um exemplo que se deve seguir? Quem te disse que podes impor uma forma de vida porque te apraz? Onde está o molde e onde está o tipo para que tu o imponhas? Eis outra forma de violência. Só podes acabar com a violência em ti e nos outros e no mundo que te rodeia pela fé interna e pela meditação interna. Não há falsas portas para acabar com a violência. Este mundo está prestes a explodir e não há forma de acabar com a violência! Não procures falsas portas! Não há política que possa solucionar este afã de violência enlouquecido. Não há partido nem movimento no planeta que possa acabar com a violência no mundo... Dizem-me que os jovens em diferentes latitudes estão procurando falsas portas para sair da violência e do sofrimento interno. Procuram a droga como solução. Não procures falsas portas para acabar com a violência.

Irmão meu, cumpre com mandamentos simples, como são simples estas pedras, esta neve e este sol que nos bendiz. Leva a paz em ti e leva-a aos outros. Irmão meu, lá na História está o ser humano mostrando o rosto do sofrimento, olha esse rosto do sofrimento... Mas recorda que é necessário seguir adiante e que é necessário aprender a rir e que é necessário aprender a amar.

A ti, irmão meu, lanço essa esperança, essa esperança de alegria, essa esperança de amor, para que eleves teu coração e eleves teu espírito, e para que não te esqueças de elevar teu corpo.

Silo






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