A descoberta do bacilo de hansen



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A DESCOBERTA DO BACILO DE HANSEN


Geraldo Barroso de Carvalho

Centro Clínico Dermatológico – Barbacena – MG                       

A história da hanseníase só começou, efetivamente, a partir de fevereiro de 1874, quando um jovem médico norueguês avisou ao mundo que descobrira o agente causador da lepra. Até aquela data, a história da “lepra”, com aspas, imiscuía-se nas entranhas da história da lepra doença, cuja causa era atribuída, pelos estudiosos, a fatores genéticos, e, pelos cidadãos comuns, a um castigo divino. D. C. Danielssen e C. W. Boeck, em 1848, depois de exaustivos estudos clínicos e anatomopatológicos, descreveram a doença que hoje chamamos de hanseníase. Foram os estudos de Danielssen, diretor do Hospital São Jorge, de Bergen, que atraíram o Dr. Gerhard Henrik Armauer HANSEN àquele hospital, destinado a assistir os portadores da doença. Ali, Hansen dedicou-se ao estudo do mal milenar, que mutilava, deformava e marginalizava seus portadores. Acompanhou seu chefe no exame de doentes, nas necrópsias e nos exames microscópicos. Começou a questionar a crença de que a lepra era uma doença hereditária. Publicou um trabalho que lhe valeu uma bolsa e a oportunidade de conhecer os grandes centros de estudo da doença e de percorrer as áreas endêmicas da Noruega. Convencido de que a lepra era produzida por um microorganismo, examinou matérias retiradas de lesões, até ver os bacilos, mesmo sem corantes. Inoculou-os em animais, em si próprio e numa mulher, fato que o levou aos tribunais. Em 1874, tornou pública a descoberta do primeiro bacilo causador de uma doença humana conhecida. Este foi, talvez, o mais importante feito na história da microbiologia humana e um dos maiores na história da medicina. Entretanto, Hansen não recebeu sequer os ecos das loas entoadas ao grande pesquisador Robert Koch, o pai da microbiologia. Pelo contrário, por pouco não lhe roubaram o mérito da descoberta. 

 

ESTERILIZAÇÃO DOS “LEPROSOS”


Geraldo Barroso de Carvalho

Centro Clínico Dermatológico – Barbacena – MG 

Desde os templos bíblicos, a preocupação com a propagação da “lepra”  tem sido uma constante entre as autoridades. Moisés impunha quarentena aos suspeitos e a exclusão dos “leprosos”, segundo as leis hebraicas de então. Medidas segregacionistas de toda ordem foram tomadas para afastar os hansenianos da população “sadia”. Entre essas medidas, o isolamento compulsório foi adotado em todo o mundo, até anos recentes. Entretanto, atitudes drásticas e cruéis foram tomadas por governantes autoritários, denotando o terror que impunha a presença dos “leprosos”, graças ao estigma milenar que acompanha a expressão “lepra”.     Em Bizâncio, o imperador Constâncio II, filho de Constantino Magno, julgando que o afogamento dos “leprosos” seria o método ideal para conter a endemia, ordenou que fossem lançados ao Bósforo. Sua ordem não foi cumprida, graças à intervenção de um santo, que se interpôs, mas pagou com a vida por sua audácia. No século VIII, o rei dos lombardos, através de um edito, decretou que todo o “leproso”, a partir daquele ato, seria considerado morto, como cidadão. Durante séculos, a França adotou essa medida e, antes da exclusão, o “leproso” era “homenageado” com uma missa de corpo presente. Na França, sob Filipe V e sob Carlos VI, os “leprosos” foram queimados vivos na fogueira. Na Inglaterra, Eduardo I ordenou que fossem enterrados vivos, depois de assistirem às próprias exéquias, incluindo uma missa de “requiem”. Entre todas as medidas que visavam a contenção da endemia hansênica, as que visavam evitar a procriação foram as mais debatidas, através dos anos, seja a proibição do casamento dos “leprosos”, seja a adoção de métodos de esterilização, incluindo a castração, o mais humilhante de todos. Nosso trabalho pretende expor e discutir essa questão. 

 

HANSENIANOS FAMOSOS


Geraldo Barroso de Carvalho

Centro Clínico Dermatológico – Barbacena – MG 

Muitos foram os personagens famosos atingidos pela hanseníase. O bacilo, eclético e sem preconceitos, não poupou nem a nobreza nem o alto clero: reis, rainhas, princesas, duques, prelados e artistas tiveram que conviver com a doença, cuja causa, para alguns deles, era uma punição divina por pecados cometidos. A Bíblia Sagrada fala-nos de Míriam, irmã de Moisés, de Naamã, general chefe dos exércitos da Síria, de Jó, homem de fé inabalável que passou por vários suplícios, antes de ser atingido pela “lepra que o cobriu da cabeça aos pés”. O semideus Isdubar é o mais famoso personagem mitológico, atingido pela “lepra”. Foi um castigo, por ter contrariado Istar, a Vênus da Babilônia. Há fortes indícios de que o faraó Tutmés II, da 18ª dinastia, tenha sido portador de hanseníase. Como ele, foram acometidos: Ptolomeu II do Egito, o rei Abgar de Edessa, os reis Ordonho II e Fruela, da Galícia, uma nora do rei Henrique II, da Inglaterra, os condes Raul e Thibaut VI, Valdemar (rei da Dinamarca) e outros. Em Portugal, o mal atingiu o seu primeiro soberano, Afonso Henriques, seu neto Afonso II e sua neta, Teresa de Aragão, infanta de Portugal, rainha de Leon, repudiada pelo, rei devido à sua doença. Robert Bruce, libertador e primeiro rei da Escócia, teve de renunciar ao comando de seu exército, devido ao estado avançado da doença, que o deformou. O imperador Frederico Barba-Roxa da Alemanha era hanseniano. Na Inglaterra, o rei Henrique IV apresentou os primeiros sinais da doença, 7 anos antes de morrer, subitamente, dentro da abadia de Westminster, na capela Jerusalém, cumprindo uma profecia que afirmava que sua morte se daria em Jerusalém. Com tal profecia, ele jamais viajaria até a cidade santa, mas “escorregou”, ao entrar na capela... O rei Filipe V, o longo, que fora curto e grosso, condenando os hansenianos à morte na fogueira, ironicamente, viria a morrer com a doença. Balduíno IV, rei de Jerusalém, morreu com 24 anos, deformado e mutilado pela hanseníase. Constantino, o grande imperador, fundador de Constantinopla, também foi portador da doença. A hanseníase não poupou alguns iluminados, como o frei Damião, a doutora da Igreja, Santa Catarina de Sena, nem nosso mais importante artista, o Aleijadinho que convivera com a porfiria, com a “lepra” e com o preconceito de seus contemporâneos.



* Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa) nasceu em Vila Rica no ano de 1730 (não há registros oficiais sobre esta data). Era filho de uma escrava com um mestre-de-obras português. Iniciou sua vida artística ainda na infância, observando o trabalho de seu pai que também era entalhador. Por volta de 40 anos de idade, começa a desenvolver uma doença degenerativa nas articulações. Não se sabe exatamente qual foi a doença, mas provavelmente pode ter sido hanseníase ou alguma doença reumática. Aos poucos, foi perdendo os movimentos dos pés e mãos.

 


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