A educaçÃo física em tempos de mudançA Na educaçÃo em sergipe(1931-1947) Ana Carrilho Romero Grunennvaldt Universidade Federal do Mato Grosso



Baixar 52.35 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho52.35 Kb.


A EDUCAÇÃO FÍSICA EM TEMPOS DE MUDANÇA

NA EDUCAÇÃO EM SERGIPE(1931-1947)
Ana Carrilho Romero Grunennvaldt

Universidade Federal do Mato Grosso
Compreender como se configurou o processo de institucionalização da disciplina Educação Física na rede escolar sergipana no período de 1931 a 1947, foi o objetivo do projeto1 que derivou este trabalho em particular, onde foi realizado o levantamento de fontes acerca da História da Educação Física e Esportes em Sergipe, tendo como foco as instituições escolares, como também foi composto um quadro interpretativo para as fontes já coletadas e catalogadas acerca da temática, estabelecendo relações entre o projeto educacional da época com a concepção de Educação Física que estava se instituindo e investigando as motivações que levaram a sociedade sergipana a investir na implantação e implementação da Educação Física em Sergipe.

O levantamento das fontes nas instituições escolares e nos arquivos públicos enfatizou algumas referências legislativas: 1. Regulamento do Ensino Primário de Sergipe de 1931 por ser o documento que orientou e determinou as práticas pedagógicas da época estudada e por ser este o período que o ensino da disciplina Educação Física evidenciou sua ascendência nas práticas desenvolvidas nas escolas sergipanas; 2. Lei nº 21 de dezembro de 1935 que regulamentou o curso de aperfeiçoamento para professores primários, este curso foi um dos elementos difusores da orientação pedagógica para Educação Física que teve com sustentação o Método Francês2; 3. Portaria de nº 77 de 20 de julho de 1936 que indicava o objetivo do Estado no processo renovação dos processos de ensino e a contratação de professores para a formação de professores para duas especialidades: Educação Física e Canto Orfeônico; 4. Art.166 da Constituição Estadual de 1947 documento que trata a Educação Física como matéria constitucional pela primeira vez no estado de Sergipe. Na documentação oficial foi destacado: 1. Relatório apresentado ao Exmo.Sr.Secretário Geral do Estado de Sergipe pelo Diretor da Instrução relativo ao período de 01 de junho de 1935 a 30 de julho de 1936 por expressar uma proposta pedagógica implementada no período; publicações periódicas; revistas; jornais; monografias;dissertações; teses e livros que discutiram a temática.

Na revisão de literatura com fontes secundárias foram utilizados textos que tratavam sobre a orientação metodológica do Método Francês, as necessidades da educação física: espaço apropriado e formação de professores e textos sobre a História de Sergipe destacando os autores: José Ibare Costa Dantas e Terezinha Oliva Souza.

Da perspectiva adotada pela história das disciplinas escolares, que enfocou o período de 1931-1947 e que teve como lócus a educação sergipana e a disciplina – Educação Física, a observação e análise das fontes perpassaram a apropriação de um aparato legal que fundamentou e orientou uma indicação para as práticas pedagógicas nas escolas, bem como a constituição de planejamento escolar que definiu um espaço físico, ou seja, um lugar para acontecer às aulas de Educação Física no ambiente escolar e a adoção de uma perspectiva metodológica que sustentou a formação dos professores e a conformação de um campo profissional – a atuação pedagógica em Educação Física, em que o Estado foi à instância fomentadora e agregadora dos fundamentos e valores desta constituição.

O período enfocado evidencia o estabelecimento de uma mentalidade na sociedade sergipana que procura instituir a idéia do moderno, do novo, na década de 30 vão ser desprendidos esforços para obter resultados em torno de ideais que já circulavam nos meios educacionais desde os anos 20. O Regulamento do Ensino Primário de Sergipe de 1931 foi uma iniciativa do Interventor Federal em Sergipe, Augusto Maynard Góes, e nele se estabeleciam mudanças na educação sergipana, segundo orientações já adotadas no restante do Brasil, e que traziam transformações significativas ao seu ensino. A organização da educação sergipana, desde o inicio do século XX, já procurava consonância com os novos ideais da Pedagogia Moderna, e cujas discussões em torno de tal renovação tinham como perspectiva pedagógica à escola nova.

Desse modo, o regulamento procurava atender reivindicações de uma proposta de educação integral, aplicando esta orientação metodológica com ênfase na educação física, higiênica, utilitária, moral e cívica que alargam os valores educativos. No seu capítulo II, que trata da organização escolar, o regulamento em seu artigo 3º dispõe:

Art.3º. a escola primária compete, pela sua organização, professor e ambiente, obra intensa da educação:


  1. pela instrução exigida nos programas, aquisição de hábitos úteis e distintos e desenvolvimento da razão pela observação dos fatos da vida comum, individual e coletiva;

  2. pela educação moral , no sentido de criar e fortalecer na criança a consciência do dever;

  3. pela educação cívica, por meio de práticas e exemplos de amor á pátria e á família;

  4. pela educação física e higiênica, em seus elementos indispensáveis á saúde;

  5. pela descoberta das vocações para a conquista de uma profissão útil.

O estabelecimento desses preceitos legais visava melhorar as condições do ensino no curso primário e, como nos coloca Vidal (2003), as modificações eram afirmadas pela centralidade da criança nas relações de aprendizagem, o respeito às normas higiênicas na disciplinarização do corpo do aluno e de seus gestos, a cientificidade da escolarização de saberes e fazeres sociais e exaltação do ato de observar, de intuir, na construção do conhecimento do aluno.

Os elementos educativos próprios ao desenvolvimento de atividades que despertariam o interesse e a motivação das crianças foram valorizados e, neste sentido, o regulamento em seu capitulo VI, dispõe em seu art. 45, ao tratar do programa, aulas e férias, o exposto abaixo:
Art.45. O programa de ensino primário constará de:


  1. Linguagem oral e escrita;

  2. Aritmética, até sistema métrico, inclusive calculo;

  3. Geografia e História Pátria;

  4. Desenho geométrico, de copia e invenção;

  5. Ciências físicas e naturais (noções concretas), higiene, educação moral aplicadas á formação de bons hábitos;

  6. Música (cantos escolares e patrióticos);

  7. Educação Física (jogos, ginástica).

Os conteúdos como os cantos, os jogos, a ginástica entre outros, indicaram possibilidades didáticas diversas que distinguiam das práticas associadas à escola tradicional, mas, em contrapartida, exigiam outra organização da escola, definição de seu espaço físico e adoção de métodos apropriados. Esses aprendizados aconteciam, geralmente, em áreas mais amplas que as salas de aulas, no mínimo, ou exigiam lugar com adequação determinada, como era o caso das atividades físicas e o trabalho com música, utilização de material didático específico para o seu incremento e o preparo pedagógico dos professores no desempenho destas atividades. Nas escolas públicas sergipanas, essa proposta enfrentaria dificuldades pela estrutura deficitária nas suas feições humanas e materiais.

No que foi anunciado pelo Regulamento e as modificações geradas pela suas indicações na prática pedagógica desenvolvida nas escolas sergipanas na época, foi uma intervenção que foi questionada, em que pesavam as condições objetivas do estabelecimento real da intenção do Regulamento. A dimensão da lei tem que ser analisada também por seu aspecto discursivo, como nos coloca Faria Filho(1998), a lei é a linguagem da tradição e dos costumes, do ordenamento jurídico e da prática social. A linguagem escrita da lei formaliza a sua determinação, onde se corrobora a passagem uma cultura oral para a cultura escrita, processo de fundamental importância não apenas para o entendimento do problema da escolarização nas sociedades modernas, mas também na constituição do Estado moderno e suas estratégias de ordenação do social.

O destaque dado a alguns elementos educativos como as educações: musical, física, moral e cívica; são expressões de manifestos antigos do meio educacional. A tendência renovadora do ensino encontrou guarida na proposta política implantada por Maynard que investiu no intercâmbio com educadores da região Sudeste na qual mestres sergipanos foram estudar os novos métodos pedagógicos e visitar instituições culturais e no seu regresso tentaram difundir as inovações nas escolas, reformulando a estrutura do ensino e sua pedagogia.

Dantas(2004) afirma que o Estado no período assumiu maiores responsabilidades sobre a organização e gestão do sistema educacional brasileiro, mas apesar desses esforços a universalização da educação não progrediu como seria de se esperar. Os dados do Censo de 1940 mostram que o índice de analfabetos ainda era de 72,6%, expondo que as ações do Estado na área careciam de maior eficiência.

O processo de renovação do ensino sergipano vinha arquitetando seu espaço de resistência em outras reformulações e alguns aspectos educativos como já mencionado, eram as manifestações desta ação da escola na vida dos cidadãos e entravam em conflito com algumas feições trazidas por exemplo, do ambiente familiar, esta ocorrência é ilustrada no Relatório Geral apresentado ao Exmo.Sr.Diretor da Instrução Pública pelo Inspetor Geral do 4º Distrito Escolar de Sergipe em 1913:

Era coisa comum na minha excursão, país de família protestarem contra esse modo de ensinar que obriga o aluno a dançar e a cantar na escola!

Referem-se eles aos hinos, marchas e ginásticas. Outros não querem, por forma alguma, a abolição do castigo físico, escrevendo aos professores, pedindo-lhes que não poupem seus filhos.

De todos esses casos, porém, o que mais atesta a ignorância de uma localidade, é haver em Cumbe, um pai ter retirado os filhos da escola, porque a professora alugara uma casa, cujo proprietário era seu inimigo: Filhos seus não entrariam em tal prédio!

Outros ainda, como em Porto das Redes, iam tomar satisfação com a preceptora, dizendo que a mestra estava: botando o seu filho a perder, ensinando as marchas, a ser soldado!


O ponto de mediação entre os diversos ambientes percorridos no ato de educar era buscado, o educador sergipano renovador Helvécio de Andrade, que foi Diretor Geral da Instrução Pública de Sergipe em 1931, revela na sua fala a conciliação esperada:

Senhores! Em todos os tempos, nos impérios e nas repúblicas, a família, a igreja e o Estado, foram forças que, isoladas ou combinadas, guiaram os homens em seus destinos, e aos meios empregados por esse fim chamaram – educação. A família só, é impotente, porque o homem de hoje não pode viver exclusivamente para o lar; a igreja só, e também impotente, porque os elevados ideais de formação para o serviço divino já não correspondem ás exigências do tempo. O Estado julga-se suficiente para dirigir e orientar a escola, mas sua função não há de exceder a si mesma, criar e manter as escolas, regular programas e horários, fiscalizar a execução.

Neste sentido, a inspeção escolar foi um item do Regulamento de 1931, sendo uma maneira de exercer o controle sobre o trabalho desenvolvido nas escolas. O regulamento previa que todas as escolas fossem inspecionadas, pelo menos uma vez ao ano, além da orientação técnica na execução do programa, da critica pedagógica dos métodos e dos processos empregados pelos professores. Os inspetores deveriam observar todas as medidas para o bom andamento do ensino, levando em conta a higiene dos prédios, o bem-estar e a saúde dos alunos, e, através de relatos, manter a Diretoria a par do movimento escolar e das falhas notadas, indicando as causas e medidas a serem tomadas.

Neste panorama revelam-se algumas características atinentes à condução de atividades associadas a elementos imprescindíveis a determinadas estratégias empregadas e inspecionadas, que deveriam constituir um universo que possibilitava à criança, o exercício de cada um de seus sentidos, buscando-se elementos que lhe despertem a atenção, o prazer, o interesse e a simpatia pelos estudos. A acentuação da importância da criança, de seus interesses, experiências e atividades podem ter um valor sugestivo, na medida em que ela pode ser a perspectiva do novo, de um projeto em construção. A Educação Física neste conjunto vai atuar na formação de hábitos e condutas, suscitando o trabalho de grupo, valorizando a participação dos alunos nas suas diversas atividades, criando o que se denominou um “ambiente propício à realização da obra educativa nova”, propagava uma escola de atividade sadia, alegre, de trabalho inteligente e patriótico.


Formação de professores, uniformidade do método e os termos da lei:

a implementação da moderna educação física nas escolas sergipanas
Na escolha das fontes a serem analisadas, sobressaindo destas o Relatório do Diretor Geral da Instrução Pública, ao Secretário Geral do Estado de Sergipe, relativo ao período de 01 de junho de 1935 a 30 de julho de 1936, o qual expressa o esforço e a perspectiva do Governo de Sergipe do período acerca da Educação Física, bem como os desdobramentos das determinações do Regulamento do Ensino Primário do Estado de Sergipe de 1931 e a forma que vai assumindo a intervenção estatal para a Educação Física.

O Relatório é apresentado como um estudo da situação do ensino normal e primário do Estado de Sergipe, apresentando ao Governo sugestões de caráter técnico e as providências que pareceram necessárias para um funcionamento de acordo com as aspirações da nova política educacional que o governo estava disposto em empreender em Sergipe. A conformação do Relatório do Diretor da Instrução Pública era constituída por vinte e três tópicos dos quais serão enfatizados os que abordam as questões afetas à institucionalização da Educação Física em Sergipe.

Uma providência da Diretoria Geral da Instrução Pública foi à organização do Curso de Aperfeiçoamento de Professores Primários em 1935 e trouxe implicações diretas nos encaminhamentos da Educação Física em Sergipe na época. O Relatório expõe as circunstâncias nas quais foi criado o curso:
As condições financeiras do Estado e suas necessidades presentes não permitiram criar um curso de longa duração para completar a formação profissional do professorado, criando um corpo de seleção capaz de despertar benéficos estímulos ao lado dos requisitos essenciais de merecimento para promoção.

É criação sergipana, para atender as possibilidades do Estado, sem destoar das novas correntes do pensamento educacional.

Não se inspirou em nenhum modelo. Emergiu das nossas necessidades, da observação do nosso meio, com os recursos de que dispomos.

Por isso é intensivo e exigente para professores e alunos mestres.


O documento também destacava que a intenção era que: “os benefícios fossem(sejam) reais e de grandes influências educativas. Advertia que a proposta do curso foi recebida com a desconfiança, expectativa natural acerca “das instituições novas, cujos fins, a mentalidade geral não apreende facilmente e, por isso, nelas não crê. Mas destacava a confiança depositada nesta iniciativa, sendo que o mesmo já estava “funcionando admiravelmente graças à vigilância dos corpos docentes e discentes”. Não obstante, este poderia ser: “o foco de maiores benefícios e o germe de uma grande obra cultural em nossa terra”. A finalidade do curso era intervir nas mais variadas especialidades educacionais, onde a Educação Física ascendera como uma das privilegiadas. Percebe-se que para as especialidades se configurarem no quadro geral das formações, demandava certamente um processo lento e como era anunciado, o modelo sergipano surgiu das necessidades locais, a partir da observação do meio e com recurso disponíveis na ocasião.

Para levar adiante o empreendimento do curso foram contratados técnicos especializados para atuarem nas especialidades de Canto Orfeônico e Educação Física, sendo contratados, respectivamente, Profº. José Vieira Brandão e Profº.Tito Pádua, que vieram do Rio de Janeiro e tinham como incumbência uniformizar os novos processos de ensino adotados por estas disciplinas. O Canto Orfeônico e a Educação Física podem representar no contexto do Brasil e de Sergipe, em especial, um dispositivo capaz de inventar tradições, a partir do lastro de cultura e da tradição forjavam-se novos hábitos, novas condutas e comportamentos, em certa medida era um esforço que pretendia mudanças de condutas cada vez mais homogeneizadas e integradas.

Alinhado a este intento de aperfeiçoar a ação dos professores segundo uma diretriz pedagógica estavam também os esforços pela Diretoria Geral da Instrução Pública no sentido de promover o culto ao civismo nas expansões patrióticas em datas nacionais, a exemplo de 15 de novembro, bem como outras datas.
Atendendo a que é mais alta conveniência para a educação nacional despertar-se muito cedo nas gerações jovens o sentimento patriótico de amor pelo Brasil e seus grandes homens, e cujos esforços devemos um país livre e prospero, onde todos podemos trabalhar e viver felizes, fiz baixar a portaria de nº 60 de 31 de agosto mesmo ano instituindo nas escolas do Estado a Semana da Pátria, de 1 a 7 de setembro, durante a qual os professores explicaram a seus alunos, em linguagem adequada, os fatos históricos e as personalidades que levaram a tão gloriosos destinos, culminando no 7 de setembro, data magna da Nação brasileira, que foi comemorado no ano passado com festividades cívicas em todo território nacional pela mocidade escolar.
Era redimensionado o valor que as tradições tinham assumido na consolidação da identidade nacional, tanto que o trabalho desenvolvido pelos especialistas contratados era evidenciado pelas apresentações de Canto Orfeônico e Educação Física realizados pelos alunos nas escolas sergipanas em espaços de grande concentração de público, momentos de celebração que foram adquiriram maior significância e expressaram o entendimento de como a educação deveria intervir na formação do cidadão, ocasiões que são documentadas pelo Relatório:

Essa demonstração deu a medida de influência educativa do canto orfeônico, iniciativa artística de mais alto cunho educativo, que a Direção Geral da Instrução Pública se esforçou por difundir, bem como a moderna Educação Física pelas escolas do Estado, hoje orientada pelo Prof. Tito Pádua, profissional contratado.


A Administração Eronides Carvalho em 1935 será identificada como uma incentivadora do ensino da Educação Física e do Canto Orfeônico no estado, a vinda de dois professores do Distrito Federal para organizar e incrementar as práticas das referidas disciplinas é descrita por Calasans(1949), como um intento de referência para o ensino da época.

A definição de um programa para disciplina e seu conseqüente ajustamento às indicações legais da adoção do Método Francês foi o foco desta intervenção do Estado para a prática pedagógica desenvolvida pela Educação Física nas escolas sergipanas, onde a visita do Prof. Tito Pádua buscou o treinamento e a formação dos professores da área e estabelecendo diretrizes para o ensino da mesma.

A tentativa de uniformização da Educação Física em torno do Método Francês atingiu grande abrangência na época, quase homogeneizando as práticas da Educação Física nas escolas brasileiras, como nos afirma Goellner(1993), quadro ilustrado pelo índice de 56% das escolas adotarem no ano de 1938 o referido método. Um arcabouço teórico, uma concepção de movimento humano e de Educação Física foi enraizada na área pela definição desta adoção metodológica e, vai ser identificada pelo caráter disciplinador das atitudes, aperfeiçoamento físico, consentimento dos valores nacionais, valorização dos talentos individuais mediante a performance dos aprendizes. A autora ainda destaca que esta projeção que vai se fazer sentir presente por um longo período de tempo no âmbito da Educação Física.

Em Sergipe o período vai ser visto com perspectivas positivas, principalmente no tocante aos programas desenvolvidos pelas escolas da capital, sinalizando que as práticas ali desenvolvidas eram sintonizadas segundo a matriz hegemônica no restante do país. No entanto, devemos considerar que esta adoção foi tencionada por adaptações locais, justificadas por necessidades que não era prevista pelo Regulamento do método, os argumentos do Profº. Osvaldo Dantas expostos na impressa local em 1940 sobre adoção do método em Sergipe delineava aspectos desta situação:

Diante do que temos visto e observado podemos afirmar, sem receio de contestação, as inúmeras vantagens apresentadas pelo Método Francês, sobre as demais, daí, certamente, o motivo que levou as nossas autoridades ‘a escolhê-lo para atender as necessidades do revigoramento físico de nossa gente’. Entretanto, comum dizer-se, ele apresenta imperfeições, as quais irão sendo sanadas, pouco a pouco, pelos nossos mestres, e por todos aqueles que vêm trabalhando em beneficio da coletividade. ‘Assim, a melhor maneira de contribuir para o seu aperfeiçoamento, consistirá no empenho de prosseguir na sua aplicação legal e desinteressada, procurando tirar de sua prática o máximo de ensinamentos, firmados em sua crítica construtora’.

O professor ainda enfatizava que as algumas modificações se encontravam numa fase experimental, outras eram apenas cogitações, mas muitas já eram vistas como possibilidades efetivas destas adaptações do método nos diversos meios de sua implantação. Em outro texto do autor de 1941 são apontadas também necessidades de acomodações culturais das regras adotadas pelo método e neste sentido, assevera: “adaptar-se ao temperamento do povo ao qual se destina, e ainda necessitam ainda de alegria e do prazer, condições que nunca devem ser desprezadas”. Indicando que as determinações legais e metodológicas foram absorvidas segundo os imperativos de cada contexto.

Outro aspecto ser ressaltado é a constituição de um determinado fazer pedagógico, referente à docência em Educação Física, tendo como característica o fazer corporal, onde o demonstrar e executar as atividades propostas aos alunos deveriam ser um padrão a ser seguido, a referência era a conduta do professor, ou seja, o professor é maior exemplo. Neste sentido, podemos notar que no Brasil os primeiros profissionais a ministrar as aulas de Educação Física são os militares, pela representação social e pelo fato da prática da atividade física regular ser uma exigência do seu exercício profissional. Os outros possíveis professores serão atletas ou praticantes de uma determinada modalidade esportiva em que se utilizavam seus conhecimentos de sua experiência prática ministrar suas aulas.

Os aspectos objetivos - domínio técnico do exercício corporal e subjetivos - agentes que gozam de prestígio social vão determinar a atuação profissional neste âmbito, a contratação de um professor considerado especialista no tema pela intervenção estatal queria contemplar os dois aspectos. O Profº. Tito Pádua se torna uma personalidade pública que conhece uma matriz teórica de como interferir numa determinada questão e seu agir também representava a maneira de realizar as diversas atividades envolvendo a Educação Física. Havia intermediação de uma tradição trazidas da atividade que veio dos praticantes, dos leigos para a mão dos especialistas que teriam o respaldo necessário de profissionais competentes, era necessário manter a tradição sem perder o movimento de avanço, garantir respeito e prestigio adquiridos pela representação social destas atividades.

Os primeiros aspectos legais que definem a docência em Educação Física em Sergipe começam a se configurar na Lei n.60 de 16/12/1936 do Estado de Sergipe que regulamenta o ensino da disciplina como também orienta o procedimento de contratação dos professores e indica no art.14 o seguinte:

Os professores encarregados dos serviços de orientação dessas disciplinas nas escolas terão uma gratificação até o total dos vencimentos respectivos, sendo nomeados em comissão por proposta do diretor geral do Departamento de Educação.

§ 1°. Na falta de diplomados poderão ser admitidos por períodos determinados, pessoas que houverem demonstrado habilitação especial ou hajam freqüentado cursos especiais de duração mínima de um período letivo, a juízo do Diretor Geral do Departamento por portaria de contrato.

§ 2°. Os orientadores gerais desses serviços serão técnicos especializados conhecedores dos princípios fundamentais da educação para garantir a uniformidade e eficiência dessas especialidades educativas, admitidos por contrato, ouvido o Diretor Geral do Departamento da Educação.


Outra dimensão a ser observada na demanda desta lei é a determinação que regulamentou o ensino primário e normal prevendo no art.13: “Fica instituída em todas as escolas do Estado, a prática obrigatória da educação física, do canto orfeônico e trabalhos manuais, com programas especiais”. Havia o estabelecimento de uma diretriz para o ensino destas disciplinas, um programa a ser seguido e uma prática a ser inspecionada nas escolas.

A política educacional no período tendo em vista a perspectiva dos anseios liberais democráticos, vai possibilitar a expansão de rede escolar, visando a elevação da formação intelectual, moral e técnica da população sergipana, mesmo que ainda se observe raízes e vícios das antigas oligarquias que interferem nas expectativas dos avanços. A inclusão da Educação Física como matéria constitucional estadual, em 1947, como nos aponta Dantas Jr(2003), corrobora nos termos da lei sua consolidação, como parte que integra o projeto educacional sergipano.

A presença expressiva do Estado sobre a sociedade, como nos coloca Dantas(2004) gerou uma situação que afetou de diversas formas as manifestações culturais, mas apesar da predominância do autoritarismo, ficaram os feitos de modernização e as experiências a serem lembradas do novo tempo de aprendizagem e de reconstrução da democracia. Uma das principais características do período foi a grande interferência do Estado assumindo responsabilidades mais decisivas no setor educacional, revelando preocupações sociais ao tempo que inibia a ação do mercado.

Bibliografia

CALASANS, José. O Ensino Público em Aracaju:1830-1871.Aracaju. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. n. 20, vol XV, 1949/1951.

DANTAS, José Ibare Costa. Revolução de 1930 em Sergipe: Dos tenentes aos coronéis. São Paulo, Cortez, 1983.

________História de Sergipe – República(1889-2000). Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2004.

DANTAS JUNIOR, Hamilcar S. Estado, Educação e Hegemonia: reflexos da pedagogia experimental na Educação Física em Sergipe(1947-1951). 2003.147f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Núcleo de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de Sergipe, São Cristovão.

DANTAS, Osvaldo. Eclosão do Método Francês. O Método Francês. Crítica ao Método Francês. Modificações ao Método Francês no nosso meio. Necessidade de um método brasileiro. Aracaju: Sergipe Jornal, nº 9669, sexta-feira, 11/10/1940.

________Educação Física. Necessidade de um método de educação física. Características de método padrão. Fim da Educação Física. Regras de aplicação. Processo de trabalho. Meios de verificação. Orientação seguida em paises mais adiantados. Aracaju: Sergipe Jornal, nº9.853, quarta-feira, 11/06/1940.

FARIA FILHO, Luciano Mendes de. A legislação escolar como fonte para a História da Educação: uma tentativa de interpretação. In: FARIA FILHO, L.M.(Org). Educação modernidade e civilização: fontes e perspectivas de análises para a História da educação oitocentista. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

GOELLNER, Silvana Vilodre. O Método Francês e a Educação Física no Brasil: da caserna à escola. Campinas: Coletânea/FEF/Unicamp – Encontro de História da Educação Física e Esporte, p.167-172, 1993.

RELATÓRIO do Diretor Geral da Instrução Pública de Sergipe ao Exmo.Sr. Secretário Geral do Estado de Sergipe. Aracaju, relativo ao período de 01 de junho de 1935 a 30 de julho de 1936.

SERGIPE(Estado). Diretoria Geral da Instrução Pública de Sergipe. Lei nº 21 de 10/09/1935. Aracaju: 1935.

________ Sergipe Jornal. Portaria nº 77 de 20/07/1936. Aracaju: 23 de julho de 1936.

________Diretoria Geral da Instrução Pública de Sergipe. Lei nº 60 de 16/12/1936. Aracaju: 1936.

________Decretos-leis do Estado de Sergipe de 1931. Regulamento do Ensino Primário. Aracaju, Imprensa Official, 1937.

SOUZA, Terezinha Oliva. Estrutura de poder. In: DINIZ, Diana M. (coord). Textos para a História de Sergipe. Aracaju, UFS, 1991.

VIDAL, Diana. Escola Nova e Processo Educativo. In: Lopes, E.M.T.; FARIA FILHO, L.M.; VEIGA, C.G. 500 anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.




1 O projeto maior foi designado como: “A educação física na rede escolar sergipana: uma disciplina que se institui (1931-1947)”, e foi decorrência do trabalho de pesquisa que desenvolvo no Núcleo de Pesquisa Sociedade e Educação na linha: História das Instituições Escolares no Brasil. Contou com o apoio do Programa de Auxílio à Integração de Docentes e Técnicos Administrativos Recém-Doutores às Atividades de Pesquisa (PAIRD) da Universidade Federal de Sergipe e foi realizado no período de novembro de 2007 a outubro de 2008.

2 O Método Francês foi instituído legalmente como o método oficial do ensino da Educação Física no Brasil pelo anteprojeto de 1929 que estabelecia que a Educação Física fosse “praticada por todos os residentes no Brasil e com a obrigatoriedade de ensino” e prescrevia, em seu artigo 41, o método a ser adotado: “Enquanto não for criado o ‘Método Nacional de Educação Física’, fica adotado em todo território brasileiro o denominado Método Francês, sob o título de ‘Regulamento Geral da Educação Física’” (PENNA MARINHO, s/d).


Catálogo: acer histedbr -> seminario -> seminario8 -> files
files -> Cartas sobre a educação infantil
files -> Os professores e seu papel na sociedade imperial
files -> Os projetos educacionais do empresariado industrial mineiro associado a fiemg a partir das diretrizes educacionais da cni (1980-2000) Jane Maria dos Santos
files -> Processos históricos e educacionais da escola alemã da colônia riograndese – sp (1924-1938)
files -> Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade Ingredientes para uma ação educativa eficaz
files -> A pedagogia Libertária e a Educação Integral Angela Maria Souza Martins Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – unirio neb/Grupo do histedbr – unirio introdução
files -> O projeto tavares lyra e sua proposta de reforma para o ensino secundário no brasil. A instruçÃo pública no início do século XX
files -> ContribuiçÕes de tomás de aquino para a história da educaçÃO: interrelaçÕes entre ética e educaçÃO
files -> Os jesuítas e o ensino de filosofia no brasil
files -> Ginásio de conquista


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal